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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Comentários-Prof.Fernando

Comentários-Prof.Fernando* 25ºdom.T.Comum(15ºp.Pent)
21 set. 2014
meus pensamentos não são os vossos e
vossos caminhos não são os meus
(Isaías55,8)
O mundo em que vivemos
·                    Nosso mundo é organizado sobre a economia (investimento, produção, consumo, acumulação, poupança, riqueza, bem estar, prazer e felicidade). Como o dinheiro está na base de tudo, também somos marcados pela ideias de remuneração, aumento salarial, trabalho e merecimento de desempenho, bônus, justiça social. Tudo isso faz parte de nossa cultura e não é necessariamente ruim. Apenas corremos o risco de esquecer as pessoas, no meio de tantas coisas. Por ex.: quando os pais decidem ter um filho estão fazendo um “investimento”?
·                    Se alguém nasceu com deficiências genéticas ou se tornou limitado por algum acidente, é mal visto por não ser “produtivo” no mundo de trabalho e dinheiro? É menos importante?
·                    Os povos pobres da África golpeados pelo Ebola merecem a pesquisa dos laboratórios e os altos custos de pesquisa para descobrir a vacina? Ou remédios para a cura?
·                    Sírios, palestinos, somalis, líbios, iraquianos, turcos, curdos e milhões de outros refugiados, migrantes, minorias perseguidas (seja por terroristas do Estado Islâmico, seja pelo preconceito em países mais ricos), são uma população que deveria ser eliminada? (As ditaduras do passado também pensaram em genocídio e eliminação de minorias). Será que esta multidão de desgraçados fazem parte da raça humana?
·                    E os desempregados da Europa? ou os pobres (na Ásia, América latina e Caribe ou os de dentro das nações mais ricas)? servem para alguma coisa? (além, é claro, de servir para ganhar eleições...)
·                    A parábola de hoje deveria sacudir nosso torpor, pois estamos ficando acostumados à gradual eliminação dos mais frágeis, famintos, doentes, deficientes, analfabetos, bombardeados, infiéis, pobres, os que não têm “nossa” cultura (religião, valores, etc.).

Uma parábola que prega a injustiça?
·              Das leituras previstas para hoje: Isaías 55,6-9 (no Lecionário LCR=Jonas3,10-4,11 – cf. próprio20), Filipenses 1,20-27 e Mateus 20,1-16, destaca-se a parábola contada por Jesus. (O comentáro a seguir é baseado em M. Domergue, in: “croire.com”).
·                    Invertendo a lógica da meritocracia. Há uma longa lista de textos bíblicos que aponta para um Deus que parece não ter muita “lógica”. Começando por Gênesis 4 em que a preferência de Deus é por Abel, mais novo e, ainda por cima, pastor, isto é, consumidor de carne (ao passo que, cf.Gênesis 1,29, todos eram vegetarianos, até que a carne animal foi autorizada depois de Noé, cf.8,21;9,1-4). Há uma longa lista das preferências de Deus... Mas citemos Jacó, escolhido em vez do mais velho Esaú; Davi, o caçula dos sete filhos de Jessé; Salomão, o filho da mulher tirada de Urias pelo crime de Davi. Sempre escolhidos exatamente os que “não tinham direito” de ser os primeiros, o que nos lembra Paulo aos Coríntios (1ª.Cor 1,26): irmãos, considerai a que fostes chamados. Não há entre vós muitos sábios, nem poderosos, nem bem nascidos. Mas, o que é loucura para o mundo, Deus escolheu para confundir os sábios. E Paulo acrescenta: os frágeis, escolhidos para confundir a força; os desprezados, em vez dos famosos... Tudo isso quer dizer que ninguém pode apresentar seus títulos para justificar o dom de Deus. Deus não nos ama porque somos bons mas nos seremos bons, nos tornamos bons porque Deus nos ama.
·                    Injustiça de Deus ou loucura divina?. É preciso corrigir qualquer toda teologia do mérito que nos leva a crer que o dom de Deus se mede por nosso valor, mesmo se alguns trechos bíblicos, isolados do contexto, nos levem a pensar assim. O dom de Deus se mede pelo amor que vem dele (que podemos deixar passar por nós até chegar a outros (cf. Lc 6,38). Da parte de Deus, o dom é total. Ele nos dá tudo o que nós somos, ou tudo o que aceitamos ser, e tudo o que ele é. Só nele o dom é sem medida. Pedro diz que ele nos faz participar de sua própria natureza (2Pedro1,4). Ele – que não nos deve nada – nos dá tudo. Portanto: começamos a existir por um amor sem razão, isto é esse dom não parece razoável e nunca acabamos por entendê-lo. Por isso J.Cristo diz que não veio para os justos, mas para os pecadores, para que se convertam, quer dizer, para que cheguem a crer no dom. Se houver conversão “moral”, ela vem depois, como consequência de nossa confiança no amor. Na raiz de cada um de nós há algo (melhor, alguém) inexplicável. Sou incapaz de dizer porque eu sou eu. Às vezes sei “como” cheguei ao que sou, mas não há resposta para o “por quê?”. Simplesmente somos. Gratuitamente. Não podemos “justificar” nosso existir.
·                    Os trabalhadores da última hora. A parábola fala de como age aquele a quem chamamos “Deus”. Ela também fala do “Reino”: da “lógica” de nosso relacionamento com ele, onde, novamente nos deparamos com o “injustificável”. A justiça de Deus não é a nossa justiça, sua lógica não é a nossa lógica, mesmo se em nossa justiça (nem sempre praticada...) achamos que cada qual deve receber o que lhe é devido. Seus caminhos não são nossos caminhos. Sua justiça não é “justiceira” mas “justificadora”. É uma justiça diferente que, no sentido bíblico, torna justo quem não era justo. Começa com o Justo por excelência que não joga sobre o culpado a pedra nem a primeira nem a última, nem a sentença nem o castigo. Na parábola, o “dono” desse “Reino” chega a pagar pelo trabalho que nem foi realizado completamente. E os da “última hora” são os primeiros a receber (um salário que nem deviam ganhar). Onde sobra falta de merecimento, é superabundante o amor, totalmente gratuito. Paulo diz (cf.Romanos 5,20) que Deus é injusto por excesso de amor. Não é que a justiça tenha sido abandonada, mas sua justiça ultrapassa o que era devido. Os “primeiros” (e, em geral nós nos julgamos os “certinhos” que trabalham há muito tempo na “vinha do Senhor”) devem se alegrar ao ver os “últimos”, passando à frente. Ao aceitar essa “injustiça” adotam o comportamento do amor com que Deus os ama também, pois aos “primeiros” também foi dado este amor sem “justificação”. O próprio Cristo (O Primeiro, a imagem perfeita do Deus invisível) veio para ficar no último lugar e se fez um servidor.
·                    E, por que os da “primeira hora” não recebem mais que os outros? Porque o que Deus dá, é ele mesmo, mais que qualquer pagamento, salário ou retribuição. Ao nos dar conta disso, talvez possamos ajudar um pouquinho na modificação do mundo em que vivemos. As religiões não podem consertar este mundo, mas a fé pode nos tornar mais próximos dos gestos divinos.

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( * ) Prof.(1975 a 2012:filos/ educ/ teol/ ética) fesomor2@gmail.com

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