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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Comentários-Prof.Fernando

Comentários-Prof.Fernando* Finados – domingo 2 de nov. de 2014

DIAS DAS BRUXAS, DOS MORTOS OU DOS VIVOS?

Um pouco de história: tradições e divisões na Igreja
As comunidades do cristianismo primitivo sempre veneraram os túmulos e nomes de seus mártires (termo grego para “testemunhas”), que deram a vida pela fé. Só no século 5º (uma tradição que perdurou no catolicismo romano), criaram-se os processos da chamada “canonização”, um reconhecimento “oficial” de pessoas “exemplares”, chamadas de “santas” por causa de seu modo de viver na fé o amor de Deus e amor ao próximo. No século 10º um mosteiro beneditino na França marcou o dia anual para lembrança dos falecidos. No século 11 deu-se a primeira divisão na história da única igreja de Cristo quando, no ano 1054, Oriente e Ocidente passam a ter novos nomes: ortodoxos e católicos. No século 16, a antiga veneração aos “santos” também contribuiu para a outra separação (novos nomes de tradições cristãs: Catolicismo, ligado à sede romana, e Reforma). Os reformadores, principalmente Lutero, criticaram as “indulgências” promulgadas pelos papas. Conforme a crença muito comum e popular na Idade Média os mortos purificam-se num “Purgatório”, sendo as indulgências uma espécie de “títulos” adquiridos para “abreviar” o tempo de pagar as penas no Purgatório, como uma espécie de estágio prévio à ida para o Céu. Além das indulgências também a veneração aos Santos e a memória dos falecidos ajudavam na proliferação e exagero nas devoções e práticas, como a de peregrinações a lugares onde se exibiam as “relíquias”, que eram pedaços de ossos, de roupas ou de objetos que teriam pertencido aos homenageados. Estes objetos podiam lembrar a fé ou a caridade, mas podiam também despertar superstições.

Intercessores e a Mediação única do Salvador
Os reformadores também interpretaram “pedir a intercessão” dos santos como prática contrária à fé no único Mediador e sua graça redentora. A tal discussão teológica somaram-se interesses políticos, precipitando o apoio de Príncipes e cidades contra o poder de Roma. Assim ampliou-se a Reforma, que criticava os escândalos de “venda” de indulgências, a multiplicidade de devoções e crenças populares, seu sincretismo e comércio de relíquias. De controvérsias teológicas, disciplinares e políticas, originaram-se os movimentos, conhecidos depois – ou reunidos – sob o nome de Protestantismo.

Calendários marcam festas, crenças e tradições
De certa forma um dia destinado à memória dos Finados serviu para substituir lendas sobre mortos e “almas” vagantes. No século 8º a fixação de uma festa para todos os santos na data de 1 de novembro parece destinada a fazer esquecer a crença muito espalhada pela Europa, mas também em outras culturas, segundo a qual as “almas” dos mortos vêm visitar os familiares vivos. No México, até hoje é a festa mais popular do país. Na cultura celta, mesmo depois que o cristianismo chegou às ilhas inglesas, havia um festival de final do verão no dia 31 de outubro de onde se originou provavelmente o “Halloween”, hoje muito popular nos Estados Unidos (e suas abóboras e bruxas já chegaram ao Brasil...).
Também a festa de Todos os santos serviu para “substituir” de certa forma a multiplicidade de deuses pagãos. Nas mitologias há sempre deuses do amor, da guerra, do comércio, da saúde, e os patronos das profissões e atividades. No Brasil chegou-se a criar um sincretismo original entre Santos católicos e os Orixás das religiões afro-brasileiras.

Santos e mortos, céus e purgatórios
Finados e Todos os Santos, mesmo que celebrados com ritos e interpretações diferentes, estão no calendário das igrejas cristãs: católicos e protestantes, nos dias 1 e 2 de novembro; os ortodoxos seguem tradição antiga criada em Antioquia, celebrando todos os santos no 1º domingo após Pentecostes. Não cabe aprofundar aqui as questões teológicas sobre Purgatório e o conceito de intercessão dos santos ou pelos falecidos. Excelente revisão destes conceitos encontra-se na parte final do texto do teólogo Ratzinger (já como Bento XVI): Encíclica Spe Salvi, de 2007, nº 41-48.
É lamentável que revistas e páginas da internet, escritas por católicos e por outros, ainda mantêm acusação a tradições diferentes, consideradas ou heréticas ou contrárias à Palavra de Deus. Sem melhor reflexão, acabam na vala comum de “doutrinas” repetidas, considerando sempre as próprias como a verdade, falsas as demais. Melhor ler a reflexão de Ratzinger e conhecer o famoso texto de um teólogo protestante sobre a oração de intercessão (Dietrich Bonhoerffer foi mártir de nosso tempo. Sob o “imperador” Hitler.

Todos Os Santos – todos são santos
Independentemente da diversidade das tradições cristãs, suas histórias e interpretações, leiamos a Palavra, que é comum a todas. O Apocalipse (cf.7,9-10) fala da “multidão imensa de gente de todas as n ações, tribos, povos e línguas e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro, trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão. Todos proclamavam com voz forte: A salvação pertence ao nosso Deus que está sentado no trono e ao Cordeiro” . É leitura do dia de Todos os Santos. Isto nos faz lembrar que somos todos “santos”, como Paulo gostava de referir-se aos cristãos de todas as comunidades. Santos, não porque sejamos melhores do que outros seres humanos, mas porque fomos “lavados no sangue do Cordeiro” (cf. Apocalipse7,14). Em Cristo temos a “comunhão dos santos”, conforme professamos no Credo dos Apóstolos, cuja transmissão da fé chegou até nós.

Finados é o dia da Esperança
A morte continua a ser um mistério tão grande quanto o mistério da vida, da qual, aliás, faz parte. Os mortos não podem ser representados como zumbis de cinema. Cemitério não é um lugar de bruxas e “almas penadas”. O medo, “exteriorizado” na tela ou nos livros, pode até ajudar a superar os próprios medos interiores. Também não se vai ao cemitério para “oferecer” flores aos mortos, que delas não precisam, mas para enfeitar o lugar que é símbolo de seu repouso e sua paz. Somos nós que temos saudades e  recordamos com carinho nossos mortos; e a falta que nos fazem. Finados serve, enfim, para reavivar em nós a única esperança que temos, como nas palavras do livro de Jó, nas cartas de Paulo e do próprio Mestre: “Eu sei que o meu redentor está vivo, e que se levantará sobre o pó; e mesmo destruída esta minha pele, é na minha carne que verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros" (livro de Jó 19, 23-27). “Se morremos com Cristo cremos que também viveremos com ele. Sabemos que Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais;:a morte não tem mais poder” (Romanos6,8). “Esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia” (João6,37-40).
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( * ) Prof.(1975-2012: filos/educ/teol/ética) fesomor2@gmail.com

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