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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sábado, 18 de outubro de 2014

Dai a César o que é de César

29º DOMINGO TEMPO COMUM

Evangelho - Mt 22,15-21
19 de Outubro de 2014
Ano A
CÉSAR OU JESUS

Comentários-Prof.Fernando


DAI A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR-José Salviano

 


       Os fariseus prepararam um plano fatal, um golpe mortal,  segundo eles, infalível para pegar Jesus de surpresa. Primeiro eles colocaram Jesus lá em cima, ou seja, com muita falsidade, fizeram uma porção de elogios ao Mestre. Em seguida, deram o golpe letal: É lícito ou não pagar imposto a César?  Continua



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"DAI A DEUS O QUE É DE DEUS!" - Olívia Coutinho

29º DOMINGO COMUM

Dia 19 de Outubro de 2014

Evangelho- Mt 22,15-21

Neste dia mundial das missões, somos despertados sobre a importância   de fortalecermos o nosso ideal de discípulo Missionário, de anunciadores   da constatação de que a promessa de Deus se realizou!
Como anunciadores da Boa nova do Reino  que  caminha dentro do espírito da fé e  do nosso  compromisso como  igreja missionária, somos convocados a dar continuidade  a missão de Jesus, reafirmando a nossa confiança na sua ação libertadora! É o amor à Deus que motiva os milhões de missionários e missionárias que fazem às vezes de Jesus no coração do mundo, levando a sua proposta de vida nova, possibilitando  à tantas pessoas a conhecer  a verdade que liberta!
O mundo está cheio de conflitos, necessitando urgentemente  de mais diálogo, de pessoas corajosas que assim como Jesus, não desiste do humano, pessoas que não se curvam  diante dos desafios, porque acreditam que  a mensagem de Jesus pode reverter este quadro!
É a presença do Espírito Santo que encoraja o  missionário, que o impulsiona  a  fazer a difícil viagem de sair de si mesmo para ir ao encontro do outro, do diferente, do marginalizado, daqueles que  ainda não tiveram  a alegria de  experimentar o aconchego do coração do Pai,  que ainda não  sabem que são eles, (os marginalizados) os preferidos no Reino!
No evangelho de hoje, podemos perceber que os piores inimigos do ser humano é a  ganância e a ambição do poder!  Foram estes inimigos, que se  apossaram das  lideranças políticas e religiosas do tempo de Jesus!
Mesmo diante de tantas evidencias, essas autoridades não quiseram reconhecer a  divindade de Jesus,  por conveniência, por não estarem dispostos a mudar de vida, a abrir mãos dos seus privilégios, já que,  aderir à  Jesus, significa mudança radical de Vida, o que eles não queriam.
A adesão  do povo à proposta inovadora de Jesus, crescia dia pós dia, o que aumentava  a ira  destes líderes políticos e religiosos que vieram de Jerusalém com o único objetivo: confrontar Jesus! Com o povo aderindo à Jesus, Ele  passou a ser  uma grande ameaça para eles!  Porém Jesus, nada temia, Ele não se intimidava diante dos seus opositores,  falava abertamente de suas propostas para o povo, que depositava Nele a sua única esperança de libertação.
Fariseus e herodianos, eram grupos rivais, eram as lideranças locais nos povoados da Galileia. Esses dois grupos, ao se sentirem ameaçados  pela presença de Jesus,  abriram mão de suas diferenças, para se unirem no mesmo propósito: eliminar Jesus, àquele que significava uma grande ameaça para eles.
Para evitar um confronto direto com o povo que aderira à Jesus, eles  preferiram incitar o próprio povo  contra Jesus  armando uma cilada para Ele!
 “As autoridades mandaram alguns fariseus e alguns partidários de Herodes, para apanharem Jesus em alguma palavra. Quando chegaram, disseram a Jesus: Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e que, de fato ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências. Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar o imposto a César?”
Esta pergunta maliciosa, sob a aparência de fidelidade a Deus, era na verdade uma intenção de acusar Jesus. Se Ele dissesse: “deve pagar”,  Ele poderia ser acusado junto ao povo  como amigo dos romanos. Se Jesus dissesse: “Não deve pagar”, poderia ser acusado junto às autoridades romanas como subversivo. Portanto, o plano  deles parecia perfeito,  para eles,  Jesus não tinha  saída.
Porém Jesus, na sua sabedoria Divina, não perde tempo com discussões, limitando-se apenas a  dizer: “Trazei-me uma moeda para que eu a veja. “Eles levaram a moeda, e Jesus perguntou: “De quem é a figura e a inscrição que está nessa moeda? “Eles responderam: “ De César’. “ Jesus então disse”: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”
Jesus disse isto, porque  sabia que  eles  já reconheciam a autoridade de César, ou seja, já estavam dando a Cesar o que era de Cesar.  O que  faltava-lhes, era que eles devolvessem   a Deus o que era de Deus, isto é: o povo, que era oprimido por eles.  Com isto, o plano arquitetado pelos opositores de Jesus,  mais uma vez cai por terra, reafirmando,  que as forças do mal nunca sobrepõem o bem.
  Muitos de nós condenamos as atitudes dessas pessoas que tramaram contra Jesus, mas será que nós também não estamos tramando contra Ele, quando planejamos algo contra o nosso irmão?
Será que estamos acolhendo bem, um novo integrante de nosso grupo, ou da comunidade que chega com idéias novas ? Ou será que  ficamos com medo de que ele tome o nosso lugar?
O que estamos dando a Deus? Estamos devolvendo a Ele os frutos produzidos através dos dons que Ele nos deu?
 A nossa vida pertence a  Deus,  não conduzi-la para o bem é não dar a Deus o que é de Deus!
Partilhar a vida, praticar a justiça, o perdão  é viver a lei do amor, é dar a Deus o que é de Deus!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia
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“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Eis, caríssimos irmãos no Senhor, a frase que resume perfeitamente a Liturgia da Palavra deste Domingo. Frase tão conhecida, tão repetida e tão poucamente compreendida! E, no entanto, uma das frases mais radicais e revolucionárias do Evangelho; frase que bem serve de bandeira para os crentes do mundo descrente de hoje.
Recordemos o contexto. Os inimigos de Jesus prepararam-lhe uma inteligente armadilha. Primeiro o elogiaram com um elogio hipócrita, mas, fiel à realidade, que nos mostra bem a grandeza de caráter do Senhor nosso: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências”. Que belo elogio! Que belo exemplo a ser seguido! Mas, eis que vem a armadilha: “É lícito ou não pagar o imposto a César?” Se Jesus respondesse “sim”, seria acusado de peleguismo, de colaboracionismo com os opressores pagãos romanos, impuros e odiados pelo povo; se respondesse “não”, seria acusado de revoltoso anti-romano diante de Pôncio Pilatos pelos seus próprios inimigos; se respondesse “não sei”, seria desmoralizado como um rabi incompetente e estulto. Eis, pois: a armadilha era perfeita! Mas, a resposta de Jesus foi mais perfeita ainda, verdadeiramente admirável! Pediu uma moeda, perguntou de quem era a inscrição... “Então, se usais a moeda de César, é porque César é quem manda de fato! Dai, pois, a César o que é de César!” E, então vem o complemento. Impressionante: “Mas, dai a Deus o que é de Deus!”
Que significa tal resposta? À primeira vista, Jesus estaria dividindo o mundo, as realidades, em duas áreas: uma para Deus e outra para César. Deus e César, lado a lado... Nada disso! Ao ensinar a dar a César o que é de César, o Senhor nos convida a respeitar as estruturas da sociedade em que vivemos, a levá-las a sério, a bem viver nelas. César, aqui, significa o mundo em que vivemos, com toda sua riqueza e complexidade. César é a política, César é a Pátria, a família; César é o trabalho, o emprego, o esporte que praticamos; César são os amigos e os sonhos nossos... Tudo quanto é humano e legítimo pode e deve ser apreciado e respeitado pelos cristãos. Podemos dar a César o que é de César, sem medo nem temor! Mas, ao ensinar e exortar a dar a Deus o que é de Deus, o Senhor nos recorda com toda seriedade que somente Deus é Deus. E o que se deve dar a Deus? Tudo; absolutamente, tudo! De Deus é a nossa vida, de Deus é a nossa morte, de Deus é tudo quanto temos, vivemos e somos: Dai a César o que é de César, mas recordai que também César pertence a Deus! César não é Deus! E aqui está o genial e admirável da resposta de Nosso Senhor. César se julgava Deus, era chamado “Divino César”, considerava-se senhor da vida e da morte! Ora, Jesus nega a César tal pretensão! César é somente César e, como César, morrerá! Somente o Senhor é Deus! A ciência não é Deus, a tecnologia não é Deus, os grandes do mundo não são Deus! Só o Senhor é Deus! São Paulo faz eco a essas palavras de Jesus ao nos afirmar: “Tudo pertence a vós: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes e as futuras.Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3,21-23).
A grande tentação nossa é colocar no lugar de Deus os tantos césares da vida. Não se endeusa a ciência? Não se absolutiza a tecnologia, não se adora o sexo? Os grandes do mundo – grandes pelo poder, ou pela riqueza, ou pelo sucesso – não se acham divinos, sem reconhecer, como Ciro, na primeira leitura de hoje, que tudo vem de Deus, que estamos nas suas mãos, que tudo é, misteriosamente, fruto da sua providência?
Cristão, tu deves participar da vida da humanidade, deves ser homem entre os homens, deves participar da construção da sociedade... Tu deves saber apreciar o que de bom e de belo existe no mundo... Mas, não te esqueças: nada disso é Deus, nada disso merece tua adoração, nada disso deve prender teu coração: nem família, nem pátria, nem amigos, nem posse, idéias ou poder! Só o Senhor é Deus! A César, o que é de César; a Deus tudo, pois tudo é de Deus! Viver assim é crer de verdade, é levar Deus a sério de verdade! Grande ilusão nossa é pensar que podemos colocar Deus no meio de tantos e tantos amores, de tantas e tantas paixões, fazendo dele apenas mais uma, entre tantas realidades da vida. Não! Ele é tudo, ele é o Tudo, como dizia São Francisco de Assis: “Tu és o Bem, todo o Bem, o Bem universal!”
Caríssimos, que na oração, na experiência da vida sacramental e na escuta da Palavra do Senhor nós aprendamos e reconhecer Deus como Deus na nossa vida, para que, como aconteceu com os cristãos de Tessalônica, na segunda leitura de hoje, estejam diante de Deus sem cessar “a atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo”. Amém.
dom Henrique Soares da Costa

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Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor!" (Dt. 6,4)
No tempo de Jesus, Roma havia consolidado sua dominação política sobre a Judéia. O tributum capitis, imposto que todo judeu adulto devia pagar ao império, era sinal dessa dominação. lista dominação política implicava também num problema religioso, visto que o imperador romano era um rei pagão que avocava para si uma forma de reconhecimento e de culto que, à luz da fé de Israel, era idolatria abominável. Diante desta questão político-religiosa, tomavam-se distintas posições. Os zelotas, uma espécie de movimento guerrilheiro, propunham a luta armada contra os romanos; os fariseus sentiam a dificuldade de aceitar a dominação estrangeira, mas não aderiam ao recurso extremo dos zelotas; os herodianos, assim denominados porque apoiavam as autoridades locais da linha dinástica de Herodes, eram praticamente colaboracionistas; o que lhes importava realmente era a manutenção de seus interesses. A pergunta feita a Jesus revela escrúpulos religiosos dos fariseus, mas ao mesmo tempo, a intenção deles e dos herodianos de enredá-lo numa questão caudente, de ter que se declarar a favor ou contra o poder romano de ocupação. Jesus escapa da armadilha transferindo a questão do plano ideológico ao espiritual prático, onde engata a decisão religiosa que respeita o relacionamento com Deus. À pergunta se deve ou não pagar o imposto a César, Jesus responde com uma outra pergunta sobre um fato que parece banal, mas que na sua sólida evidência não permite sofismas ideológicos: "De quem é esta imagem e esta inscrição?" E eles responderam: "De César". Então Jesus lhes disse: "O que é de César, dai-o a César e o que é de Deus, a Deus!"
Neste pronunciamento, que constitui o eixo de todo o texto, o acento cai certamente sobre a segunda parte. A Jesus interessa ressaltar a relação do homem com Deus, fundada sobre a exigência imprescindível de dar-lhe o que é devido. O Deuteronômio (6,4-5) fala de amor total de exclusivo e de coração indiviso para o Senhor, reconhecido como o Deus único de Israel: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor!" (Dt. 6,4). "É ao Senhor teu Deus que temerás e só a ele servirás" (Dr. 6,13). Esta colocação do problema de Deus, que aparentemente nada tem a ver com a liceidade do pagamento do tributo ao imperador, na verdade resolve a questão pela raiz. Pois a partir da questão de Deus toda a autoridade terrena é redimensionada e recebe uma configuração precisa que exclui qualquer pretensão de absolutismo e divinização de seu poder. Dobrar os joelhos diante de Deus significa, logicamente, recusar-se a dobrá-los diante dos homens. Reconhecê-lo como Senhor comporta a negação de qualquer pretenso senhorio humano sobre as pessoas. Os poderosos deste mundo foram derrubados de seus tronos e os humildes foram elevados (Le. 1,52) à condição de homens livres chamados a decidir pessoalmente suas vidas, Jesus quer dizer: pague-se, pois, o imposto ao imperador Esta é uma sujeição relativa. Não importa muito. Mas a Deus seja tributada a adesão total e exclusiva das nossas pessoas porque nós não temos um outro Senhor. Venha o Reino de Deus! É isso que pedimos neste dia Mundial das Missões. Não falta, de nossa parte, apoio espiritual e material para que a construção do Reino de fé e amor se torne efetiva, em todas as partes do mundo.
frei Aloísio Antônio de Oliveira OFV Conv


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Estamos diante de um texto que se encontra no Segundo Isaias, ou no "Livro da Consolação" do povo de Israel. Este dado, aparentemente simples, permite entrar no texto a partir de uma chave de interpretação especial. Isaias, o profeta do juízo e do castigo, sempre tem no final uma palavra de ânimo, de esperança, de consolo, sobretudo nestes tempos em que o sistema globalizante procura eliminar as propostas alternativas da sociedade.
Javé fala a Ciro, pessoa que não conhece a Deus, e lhe encomenda uma missão. Isto é: o fato de não conhecer a Deus não é uma limitação para ser chamado a anunciar sua palavra de consolo. O monopólio da eleição de Deus por parte de um só povo, entre todos os povos da humanidade, se desfaz diante do relato do profeta. Constatamos que um "não judeu" pode servir também de mediação adequada para a atuação de Deus.
Em Paulo, a realidade que Isaías apresenta como aliança é eleição em comunidade (temos presente a obra de sua fé, os trabalhos e sobretudo a tenacidade de sua esperança). São as palavras de Paulo e a comunidade que se reúne em Tessalonica, que viveu sob a ação do Espírito Santo.
O evangelho de Mateus, o mais comentado na historia da igreja e também o evangelho do qual se tem as interpretações mais dogmáticas e espiritualizantes. É o marco de um texto polêmico em um contexto social no qual se divinizava o Imperador. O evangelho de Mateus é a primeira síntese da tradição judaica e cristã depois da destruição do templo de Jerusalém na guerra de 66-74 d.C. O texto lido faz parte de uma serie de controvérsias entre Jesus e os fariseus (e outros grupos) sobre temas como o tributo, a ressurreição dos mortos, o mandamento maior, o filho de Davi... Todas essas controvérsias têm, como pano de fundo, o confronto de Jesus com a lei romana.
Sob o tema do tributo, encontramos uma realidade sofrida das comunidades cristãs (nas quais o evangelho foi escrito), sob o domínio do império romano. O povo de Israel, que séculos antes havia sonhado uma sociedade como confederação de tribos, na qual o único Senhor fosse Deus, o Deus da libertação, vive agora as conseqüências de uma monarquia que explora o pobre para sustentar sua estrutura. Os mais pobres são os mais afetados pela política fiscal, pois a taxação recaia diretamente sobre os trabalhadores do campo, lavradores ou arrendatários. Porém, indo um pouco mais além do tributo, fixemo-nos na figura do Imperador.
Roma carregava sobre si a influencia do mundo religioso do Egito e da Grécia. A relação dos romanos com estes deuses faz parte da estrutura ordinária e cotidiana da vida social: entendia-se o Imperador como um deus, Roma era uma teocracia. As comunidades cristãs, que haviam optado por outra forma de entender a relação com Deus, com o Deus de Jesus, com o Abba, não podiam entender como o imperador podia se apresentar como um deus, e se enfrentam com a religião oficial optando pelo caminho alternativo, que neste caso é a proposta de vida em pequenas comunidades de irmãos e irmãs.
Diante dessa realidade, a comunidade cristã busca, na experiência vivida com o mestre, e diante desse cenário, a frase: "Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Portanto, já nos albores da reflexão da comunidade, está a consciência de que o imperador não é Deus e nunca o será, porque Deus é amor, justiça, igualdade… valores ausentes em qualquer império, de qualquer época. Com o correr do tempo, o que é alternativo se transforma em oficial e se faz necessário compreender o caminho da criatividade, da renovação, do alternativo. Na atualidade não há imperadores que se apresentem como deuses, porém nos encontramos com certas estruturas religiosas monárquicas e imperiais que, longe de refletir a vivencia da comunhão entre irmãos e irmãs, pretendem impor a exploração dos pobres no melhor estilo do Império. Por isso, ao ler este texto a partir da mentalidade de hoje, temos que dizer com voz profética: "À estrutura oficial religiosa o que é dela" e "a Deus o que é de Deus", ou seja, "a Deus Pai e ao seu Reino toda a nossa entrega e fidelidade".
O evangelho de Mateus, com sua força eclesiológica renovadora, nos impulsiona a trabalhar incansavelmente por uma igreja mais próxima da proposta de Jesus, mais centrada nas pessoas, nas relações entre irmãos e menos pendente da norma e da estrutura, cuja atenção não pode ser colocada acima da justiça e da defesa dos pequenos, os prediletos de Deus.

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 “Devolva a César o que é de César” e “devolva a Deus o que é de Deus”
1ª leitura: Is. 45,1.4-6
Estamos diante de um oráculo de investidura real referente a Ciro, rei da Pérsia entre 557 e 529. Foi através de um edito de Ciro, em 538, que os judeus puderam voltar do exílio para Jerusalém. Isto é visto pelo “segundo Isaías” como uma ação direta da vontade de Deus. Assim o profeta aplica a Ciro o que se dizia apenas dos reis de Israel: Chama-o de Ungido de Javé, pois Deus se serviu dele para libertar o povo e fazer justiça às nações. Para isto “tomou-o pela mão e abriu-lhe portas e portões. Chamou-o pelo nome e lhe deu um título honroso e o poder real”. Mas Deus fez tudo isto a um pagão em atenção a Jacó, seu servo e a Israel, seu eleito. Deus é o Senhor da história e o soberano das nações, por isto ele pode fazer uso dos reis pagãos para mostrar sua justiça e sua bondade a seu povo, libertando-o da opressão do exílio. O texto insiste no fato de ser Deus o Senhor da história, apesar de Ciro o ignorar. Deus está concedendo a Ciro o poder real exatamente para que do Oriente ao Ocidente todos possam saber que não há Deus fora de Javé.
2ª leitura: 1Ts. 1,1-5b
A 1Ts é o primeiro livro do Novo Testamento. Foi escrito de Corinto no ano 51 por Paulo com a colaboração de Silvano (= Silas) e Timóteo. Os cristãos de Tessalônica eram empobrecidos e explorados, mas eram chamados de “Igreja” por ser já uma comunidade bem organizada com objetivos bem definidos em torno da salvação trazida por Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo. “A graça e a paz” que Paulo deseja à Igreja de Deus é exatamente a plenitude desta presença de Deus, que dá vida nova a esse povo, que estava à margem do império de César. César não é Deus, César não é o Senhor. Deus é o Pai, é o Senhor, é Jesus, e eles estão vivos na comunidade.
Agradecimento e convicção de Paulo
Depois da saudação inicial, Paulo, como vai ser seu costume, agradece a Deus pela comunidade e reza por ela. Aqui ele agradece por 3 coisas: pela fé que é adesão à pessoa de Jesus morto e ressuscitado, pelo amor - caridade que é a fé na prática, ou seja, um modo novo na convivência fraterna e pela esperança que é a nova mística, que abre os horizontes da comunidade, e a impulsiona para a realização plena do projeto de Deus. Por fim, Paulo mostra a sua certeza de que os tessalonicenses “são do número dos escolhidos”, pois acreditaram na Palavra que foi pregada “com a força do Espírito Santo e com toda a convicção”. Realmente o Espírito é a mola mestra da Evangelização.
Evangelho: Mt. 22,15-21
O centro do Evangelho de hoje está na pergunta: É lícito ou não pagar o imposto a César? Quem faz esta pergunta são os discípulos dos fariseus e alguns do partido de Herodes. A pergunta é maldosa. Os fariseus são os mandatários. É uma cilada que eles armam para apanhar Jesus. Jesus vem desmascarando a justiça deles e eles querem eliminar Jesus de todo o jeito. Os do partido de Herodes apóiam o domínio de César. Os fariseus ficam em cima do muro tirando vantagem da situação; acham que basta cumprir a lei para serem fiéis a Deus e fecham os olhos diante de sua cumplicidade na exploração do povo.
Eles se aproximam bajulando Jesus, elogiando-lhe sua retidão e seu julgamento. Depois lançam-lhe a pergunta maldosa: É lícito ou não pagar o imposto ao imperador? Se Jesus respondesse “sim”, Jesus estaria contra o povo que está sendo explorado pela dominação romana e pede libertação. Se respondesse “não” estaria se revoltando contra o Imperador e seria réu de condenação. Qualquer uma das respostas, portanto, agradava aos fariseus e herodianos e seria pretexto para prender Jesus.
Jesus percebe logo sua maldade e hipocrisia, a trama que armam contra ele. A primeira resposta de Jesus desmascara seus interlocutores: “Hipócritas! por que me preparam uma armadilha?” (no original = por que me tentam?) Eles estão fazendo o mesmo papel do diabo nas tentações de Jesus. Seduzidos pelo poder, querem eliminar o Mestre da Justiça (cf. 4,1ss). De quem sustenta uma comunidade injusta não se pode esperar outra coisa.
Depois, Jesus lhes pede para mostrarem uma moeda do imposto e eles caem na armadilha, que eles mesmos montaram, pois reconhecem que aquela moeda pertence ao Imperador, pois traz a sua imagem e ainda com títulos divinos, o que é contrário ao primeiro mandamento (cf. Ex. 20,4; Dt. 6,4). Se eles possuíam uma moeda é porque estavam comprometidos com o sistema e dele se beneficiavam. À pergunta deles se é lícito pagar o imposto a César, Jesus responde mandando devolver a moeda, que traz a imagem de César, pois pertence a César. Jesus diz duas coisas: “Devolva a César o que é de César” e “devolva a Deus o que é de Deus”. O povo não pertence a César, por isto deve devolver-lhe a moeda, libertando-se de sua dependência econômica. O povo pertence a Deus, pois o ser humano é imagem de Deus (Gn. 1,22). Fariseus e herodianos legitimavam a dominação romana, pois disto tiravam vantagem. Jesus desautoriza esta dominação. Fariseus e herodianos devem devolver a César o que traz a sua imagem e lhe pertence. O povo deve, portanto, reconquistar a sua liberdade de filhos de Deus.
dom Emanuel Messias de Oliveira

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Ciro foi rei da Pérsia e conquistou a Babilônia, onde o povo de Deus estava exilado. O profeta Isaías diz que Ciro foi um instrumento nas mãos de Deus para o bem e a libertação dos judeus. Este rei permitiu que os exilados voltassem para a sua terra. Assim, os que voltaram para a Judéia podiam também reconstruir o Templo de Deus, que tinha sido destruído pelo rei da Babilônia. Aos olhos do mundo, Ciro é um rei poderoso, que domina e faz o que quer. Aos olhos da fé, ele está a serviço de Deus. Embora ele não conheça o Deus de Israel, é sob a inspiração do único Deus que o rei Ciro se move. Há um só Senhor de todo o universo e todos os reis da terra estão debaixo de seu poder. Parecem ser independentes, mas, por trás deles, está a mão de Deus.
Mt. 22,15-21 - Quando Jesus disse "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" , Ele se referia à moeda com que se pagava o imposto ao imperador romano. Jesus, porém, podia estar falando de um outro esquema de vida, diferente do que se vivia então sob os domínios romanos. De fato, Ele não queria se envolver nas questões do imposto porque tudo era resultado de um sistema injusto. Afastar-se do esquema do imperador e pensar um mundo diferente, com os valores de Deus, isto sim era necessário.
Por outro lado, César, o imperador, também pertence a Deus porque Deus é o Senhor dos senhores deste mundo. Eles deverão prestar contas a Deus do que fazem por aqui. Se dou a César o que é dele, César também deve dar a Deus o que Deus espera dele. Assim o rei Ciro, da Pérsia, conquistador poderoso, se movia debaixo das mãos de Deus sem o saber. Os governantes que estão a serviço do povo devem obediência a Deus. Suas leis devem favorecer a vida e o bem-estar da população e só serão verdadeiramente justas se estiverem de acordo com a Lei de Deus. Uma lei não é justa pelo fato de ser lei. Os cristãos, que à semelhança dos irmãos de Tessalônica vivem uma fé atuante, uma caridade esforçada e uma esperança firme, agem junto aos legisladores para que suas decisões sejam verdadeiramente benéficas ao povo e não resultado de interesses ou de modismos de ocasião. A verdadeira "saúde pública" defende a vida em todas as suas dimensões sem sacrificar a vida dos outros.
"Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", foi a resposta de Jesus quando lhe perguntaram se os judeus deviam pagar imposto ao imperador romano. Os romanos tinham invadido a Terra de Israel, dominavam tudo e faziam o povo pagar pesados impostos. A pergunta era uma cilada. Se Jesus dissesse "sim", estaria se colocando contra os seus compatriotas judeus. Se dissesse "não", estaria fazendo subversão contra as autoridades romanas.
Sl. 95 (96) - O Salmista chama todas as nações a adorar o único Senhor do mundo, dar-lhe glória e oferecer-lhe sacrifícios porque este Senhor reina e julga os povos com justiça.
1Ts. 1,1-5b - Assim como Deus chamou o rei Ciro e lhe deu uma missão neste mundo, assim também escolheu os cristãos de Tessalônica, na Grécia, que deram testemunho da grandeza de Deus numa fé atuante, numa caridade esforçada e numa firme esperança.
cônego Celso Pedro da Silva


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Devolver a Deus o que é de Deus é libertar seu povo
Por cerca de três anos Jesus exerceu seu ministério na Galiléia e nas regiões gentílicas vizinhas. No momento oportuno, Jesus decide ir a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa dos judeus, onde se dá o confronto com sistema do Templo, que o levará à morte. Após expulsar aqueles que comerciavam no Templo, denunciando que este Templo se tornara um covil de ladrões, dirige aos chefes dos sacerdotes e aos proprietários de terras as duras parábolas dos vinhateiros homicidas e a do banquete nupcial. Estas parábolas retratam o distanciamento destes chefes de Israel em relação a Deus. O clima é de um conflito com chefes dos sacerdotes, fariseus, e anciãos, que se amplia cada vez mais. Jesus é assediado pelos chefes religiosos, que vêem nele um líder que ameaça o seu prestígio e poder. Não tendo o direito, sob a dominação romana, de condenar ninguém, eles procuram motivo para que Jesus seja condenado pelo próprio império romano. Estamos diante de uma trama para apanhar Jesus em alguma palavra. Aos chefes religiosos juntam-se os herodianos. Estes eram adeptos da realeza, os aliados mais próximos e servis de Herodes, preposto de César. Dirigem-se a Jesus com um acúmulo de elogios que já deixam transparecer a falsidade. São palavras cheias de malícia. Pretendem remover qualquer inibição ou bloqueio de Jesus afim de que ele fale realmente o que pensa! Perguntam se devem pagar o imposto a César. Esperavam uma resposta negativa, um ato de insubordinação, o que lhe mereceria a condenação por parte dos prepostos do império romano. A imposição de pesados impostos à Judéia já fora causa de uma revolta liderada por Judas, o Galileu, cerca de vinte e cinco anos antes. Jesus, realmente, diz o que pensa: chama-os de hipócritas e denuncia sua maldade em procurar armar-lhe ciladas. Mais adiante (Mt. 23,01-32) ele voltará a denunciar detalhadamente a hipocrisia destes chefes religiosos da Judéia. Jesus pede que lhe mostrem a moeda do imposto. Este devia ser pago em moeda romana, o denário. As moedas, correntes no comércio, eram os "out-doors" de propaganda do império, cunhadas com imagens e inscrições que exaltavam o imperador. De maneira pedagógica Jesus pergunta aos seus questionadores de quem é a figura e a inscrição na moeda. Diante da moeda cunhada com a cabeça de César e com a inscrição: "Filho Augusto e Divino", Jesus devolve a pergunta: "De quem é esta figura e a inscrição?". Com a confirmação de que é de César Jesus conclui: "Devolvei, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus". À questão sobre o "pagar" Jesus responde com o "devolver". A sutil resposta de Jesus, em primeiro lugar, separando Cesar de Deus, remove o caráter divino do imperador. César é diferente de Deus. César é a ambição do dinheiro e do poder. Deus é misericórdia, amor e vida. Libertar-se do dinheiro e comprometer-se com Deus, é o projeto de Jesus. Por outro lado Jesus, com sua resposta, devolve a questão aos seus provocadores. Cabe a eles julgarem o que é de César e o que é de Deus. Sem dúvida poderão perceber que devolver a César o que é de César é erradicar de suas mentes toda ambição de riqueza e a idolatria do dinheiro. Devolver a Deus o que é de Deus é libertar seu povo e promover-lhe a vida, o que é a verdadeira expressão do amor de Deus.
José Raimundo Oliva


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A primeira leitura nos fala que Deus é livre para escolher quem Ele quer para agir em seu nome.
Ciro era rei dos persas. Derrubou o império babilônico e permitiu que o povo de Deus voltasse à sua terra e reconstruísse o templo e a cidade de Jerusalém. Esse rei pagão, vencendo a Babilônia e dando liberdade ao povo exilado, está sendo escolhido por Deus para estabelecer a justiça na história. Ao dar uma espécie de anistia pelo decreto conhecido como edito de Ciro, ele é saudado como o enviado e ungido do Senhor para libertar seu povo. Está sendo escolhido por Deus para estabelecer a justiça na história. Está devolvendo a Deus o que lhe pertence - o povo sofrido, centro das atenções de Deus. Paulo anuncia o Evangelho e forma, em Tessalônica, um pequeno grupo. Ele ficou aí poucas semanas, pois teve que fugir, perseguido que estava. A palavra despertou a fé; a
força de Deus esteve presente e aí se formou um povo eleito. A comunidade de Tessalônica torna-se exemplo de caminho a ser seguido pela “atuação da fé, esforço da caridade e firmeza da esperança”.
O Evangelho nos fala dos fariseus e herodianos que se dirigem a Jesus e, após palavras de elogio, chamando-o de verdadeiro e dizendo que Ele ensinava o caminho de Deus, interrogam-no se é lícito pagar o imposto a César. Jesus é muito hábil em sua resposta, que denuncia a hipocrisia, desfaz a armadilha que lhe prepararam e oferece um ensinamento acima do nível proposto pelos inimigos.
Jesus afirma que acima de qualquer poder humano está Deus e seu povo, criado à sua imagem e semelhança. Não se trata de devolver uma vil moeda, mas sim de devolver a Deus seu povo, o qual não deve se submeter a nenhum poder humano que se faça passar por divino. Em meio a tanta corrupção que vemos hoje, podemos reconhecer vários poderosos que se colocam como deuses. O poder político coloca-se como valor absoluto. Pessoas, regimes ou estruturas impedem a humanidade de ser “imagem de Deus” na liberdade e na justiça. Roubam de Deus o que pertence unicamente a Ele: o povo. A Deus não temos como pagar, pois tudo a Ele pertence. O tributo que podemos pagar a Deus é a entrega de nossa vida, compromisso com o projeto que Jesus nos ensinou, no amor fraterno e na justiça. Ligamos fé e economia, conseguindo romper com a dominação do dinheiro, do consumismo, da adoração à moeda estrangeira, do poder e do sucesso?
Na Igreja, na comunidade, como nos organizamos para ficar livres da ganância do poder e do dinheiro?


A liturgia do 29º domingo do tempo comum convida-nos a refletir acerca da forma como devemos equacionar a relação entre as realidades de Deus e as realidades do mundo. Diz-nos que Deus é a nossa prioridade e que é a Ele que devemos subordinar toda a nossa existência; mas avisa-nos também que Deus nos convoca a um compromisso efetivo com a construção do mundo.
O Evangelho ensina que o homem, sem deixar de cumprir as suas obrigações com a comunidade em que está inserido, pertence a Deus e deve entregar toda a sua existência nas mãos de Deus. Tudo o resto deve ser relativizado, inclusive a submissão ao poder político.
A primeira leitura sugere que Deus é o verdadeiro Senhor da história e que é Ele quem conduz a caminhada do seu Povo rumo à felicidade e à realização plena. Os homens que atuam e intervêm na história são apenas os instrumentos de que Deus se serve para concretizar os seus projetos de salvação.
A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de uma comunidade cristã que colocou Deus no centro do seu caminho e que, apesar das dificuldades, se comprometeu de forma corajosa com os valores e os esquemas de Deus. Eleita por Deus para ser sua testemunha no meio do mundo, vive ancorada numa fé ativa, numa caridade esforçada e numa esperança inabalável.
Leitura I – Is 45,1.4-6
AMBIENTE
O texto que hoje nos é proposto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is. 40-55). “Deutero-Isaías” é um nome convencional com que os biblistas designam um profeta anônimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética na Babilônia, entre os exilados judeus. Estamos na fase final do Exílio, entre 550 e 539 a.C.
Durante o reinado de Nabónides, rei da Babilônia, desponta na Pérsia uma nova estrela da política internacional… Em 553 a.C., Ciro, rei dos Persas, conquista a capital da Média (Ecbátana) e junta no mesmo império os Medos e os Persas. Depois (547 a.C.), marcha contra a Lídia, conquista Sardes e apodera-se da maior parte da Ásia Menor. Nos anos seguintes, uma série de vitórias fulgurantes dão-lhe o domínio do Irão oriental, do Afeganistão e do Turquestão, até à Índia. Fortalecido em ouro e em homens dirige, em seguida, os seus exércitos contra a Babilônia e, em 539 a.C., entra vitorioso na capital babilônica onde, sem qualquer oposição, é recebido como libertador.
A atividade profética do Deutero-Isaías desenvolve-se nos anos que precederam a entrada vitoriosa de Ciro na Babilônia… As notícias que chegam sobre as vitórias de Ciro fazem os exilados sonhar com a proximidade da libertação do cativeiro. À alegria pela libertação iminente junta-se, no entanto, alguma confusão e perplexidade… Então o libertador não vai sair do meio do Povo de Deus, mas é um rei estrangeiro? E quando a libertação acontecer, a quem deve ser atribuída: a Jahwéh, o Deus dos exilados judeus, ou a Marduk, o deus de Ciro? Jahwéh ter-se-á desinteressado do seu Povo? Ou terá perdido o seu poder?
Trata-se de um problema teológico sério que, em última análise, pode determinar a manutenção ou não da fé do Povo em Jahwéh. O Deutero-Isaías vai procurar esclarecer esta questão e explicar o papel de Jahwéh nos acontecimentos.
MENSAGEM
O Deutero-Isaías não tem dúvidas: Jahwéh é o verdadeiro condutor de todo o processo que vai culminar na libertação do Povo de Deus. Ciro, o grande rei que se apresta para derrubar o orgulhoso poderio babilônico, é “o ungido” (no original hebraico: “o messias”; em grego: “o cristo”) de Jahwéh. Dizer que Ciro é “o ungido” significa dizer que ele recebeu a “unção” com óleo; e que, através dessa “unção”, Ciro recebeu o Espírito de Deus e foi investido para uma missão. No Antigo Testamento, a unção com óleo capacita o “ungido” seja para a missão real (cf. 2Sam. 5,3), seja para a missão sacerdotal (cf. Ex. 29,7), seja para a missão profética (cf. 1Re. 19,16; Is 61,1). Aqui trata-se, evidentemente, da missão real… Portanto, Deus escolheu Ciro, derramou sobre ele o seu Espírito e concedeu-lhe a insígnia do poder (“cingi-te” - v. 5) para que ele, desempenhando a sua missão real, se tornasse o instrumento de Deus no mundo.
O que é que, em concreto, Jahwéh pede a Ciro? Qual a missão que Ele lhe confia?
Ciro foi designado por Deus para “subjugar as nações”, “fazer cair as armas das cinturas dos reis”, “abrir as portas à sua frente sem que nenhuma lhe seja fechada”. As expressões utilizadas pelo Deutero-Isaías situam a missão confiada por Deus a Ciro no âmbito político-militar… No entanto, o que é aqui preponderante é que essa missão deve concretizar-se em benefício do Povo de Deus: se Deus chamou Ciro “pelo nome”, lhe deu “um título glorioso” e lhe confiou o poder sobre as nações foi, nas palavras de Jahwéh, “por causa de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito…”. Ciro aparece, claramente, como o instrumento através do qual Deus atua no mundo e na história e realiza os seus projetos de salvação e de libertação do seu Povo. É através dos homens que Deus intervém no mundo.
De resto, o Deutero-Isaías deixa claro que só Jahwéh é o Senhor da história e que, fora d’Ele, não há Deus. É verdade que Ciro ainda não conhece Jahwéh; mas, sem o saber, ele está a realizar o projeto do Senhor.
Portanto, é a Jahwéh e não a Marduk que os exilados devem agradecer a sua libertação. Embora servindo-se de um rei estrangeiro, Jahwéh vai mostrar a Judá que é, definitivamente, esse Deus salvador e libertador, em quem o Povo pode sempre confiar.
ATUALIZAÇÃO
Também nós – como os exilados de Judá – ficamos, tantas vezes, perplexos e inquietos diante dos acontecimentos do nosso tempo. Não percebemos o significado nem o alcance de certos eventos e não conseguimos saber para onde é que a história nos conduz. Sentimo-nos perdidos, assustados, à deriva, como barco sem leme… E, para além disso, Deus parece manter-se em silêncio, assistindo calmamente e sem mexer um dedo, aos dramas que marcam o ritmo da nossa caminhada. Perguntamo-nos: onde está Deus, quando a história humana parece percorrer caminhos tão ínvios? Ele preocupa-Se, realmente, com os homens? Qual o seu papel na condução dos destinos do mundo? Porque é que Ele deixa que os homens destruam o planeta, inventem esquemas sofisticados de destruição e de morte, cultivem a exploração e a injustiça, mantenham tantos homens, mulheres e crianças amarrados à miséria e à escravidão? A primeira leitura deste domingo garante-nos: Deus nunca abandona os homens. Ele encontra sempre formas de intervir na história e de concretizar os seus projetos de vida, de salvação, de libertação… Talvez as intervenções de Deus nem sempre sejam ortodoxas à luz da lógica dos homens; talvez nem sempre consigamos perceber o verdadeiro alcance dos projetos de Deus; mas Deus lá está, como Senhor da história, conduzindo o mundo de acordo com o projeto de vida que Ele tem para os homens e para o mundo. Resta-nos, mesmo quando não percebemos os seus critérios, confiarmos e entregarmo-nos nas suas mãos.
• Normalmente, Deus não intervém na história através de manifestações impressionantes, espetaculares, caídas do céu, que se impõem como verdades infalíveis e que deixam os homens espantados… Deus actua no mundo com simplicidade e discrição, através de pessoas – muitas vezes pessoas limitadas, pecadoras, “normais” – a quem Ele chama e a quem Ele confia uma missão. O que é fundamental é que cada homem ou cada mulher que Deus chama esteja disponível para acolher esse chamamento e para aceitar ser instrumento de Deus na construção de um mundo novo.
• Aqueles que detêm responsabilidades na condução das comunidades (civis ou religiosas) devem procurar, através de um diálogo contínuo e próximo com Deus, perceber os seus projetos e planos para o mundo e para os homens. Só assim poderão ser instrumento de Deus na construção de um mundo melhor.
• Ciro, frustrando todas as expectativas do Povo de Deus, é um pagão que “não conhecia” Jahwéh… Apesar disso (de acordo com a catequese do Deutero-Isaías), foi ele quem Deus escolheu como seu instrumento a fim de concretizar os seus projetos em favor do seu Povo. Deus pode servir-Se daquele que é pecador e marginal aos olhos do mundo para oferecer aos homens a vida e a salvação. O que interessa não são as “qualidades” do intermediário, mas a força de Deus. É necessário ter isto presente… Se conseguimos fazer algo para tornar o mundo um pouco melhor, isso não se deve às nossas brilhantes qualidades, mas a esse Deus que age por nosso intermédio.
• A escolha de Ciro significa também a denúncia de uma perspectiva fechada, nacionalista, racista, de Deus e dos seus projetos. Ninguém tem o monopólio de Deus ou da missão… Deus é totalmente livre de chamar quem quiser, quando quiser e como quiser – seja de que raça for, de que estrato social for, ou sejam quais forem os seus antecedentes religiosos. Certos cristãos que se sentem os únicos detentores da autoridade e da missão e que se ficam quase ofendidos quando aparece alguém a fazer algo de diferente na paróquia, deviam ter isto em conta.
2ª leitura: 1Tes. 1,1-5b - AMBIENTE
Tessalônica era, no século I da nossa era, a cidade mais importante da Macedônia. Importante porto marítimo e cidade de intenso comércio, era uma encruzilhada religiosa, na qual os cultos locais coexistiam lado a lado com todo o tipo de propostas religiosas vindas de todo o Mediterrâneo.
Tessalônica foi evangelizada por Paulo durante a sua segunda viagem missionária, muito provavelmente no Inverno dos anos 49-50. Paulo chegou a Tessalônica acompanhado de Silvano e Timóteo, depois de ter sido forçado a deixar a cidade de Filipos. O tempo de evangelização foi curto – talvez uns três meses; mas foi o suficiente para fazer nascer uma comunidade cristã numerosa e entusiasta, constituída majoritariamente por pagãos convertidos. No entanto, a obra de Paulo foi brutalmente interrompida pela reação da colônia judaica… Os judeus acusaram Paulo de agir contra os decretos do imperador e levaram alguns cristãos diante dos magistrados da cidade (cf. At. 17,5-9). Paulo teve de deixar a cidade à pressa, de noite, indo para Bereia e, depois, para Atenas (cf. At. 17,10-15).
Entretanto, Paulo tinha a consciência de que a formação doutrinal da comunidade cristã de Tessalônica ainda deixava muito a desejar. A jovem comunidade, fundada há pouco tempo e ainda insuficientemente catequizada, estava quase desarmada nesse contexto adverso de perseguição e de provação (cf. 1Tes. 3,1-10). Preocupado, Paulo enviou Timóteo a Tessalônica, a fim de saber notícias e encorajar os tessalonicenses na fé (cf. 1Tes. 3,2-5). Quando Timóteo voltou e apresentou o seu relatório, Paulo estava em Corinto. Confortado pelas informações dadas por Timóteo, o apóstolo decidiu escrever aos cristãos de Tessalônica, felicitando-os pela sua fidelidade ao Evangelho. Aproveitou também para esclarecer algumas dúvidas doutrinais que inquietavam os tessalonicenses e para corrigir alguns aspectos menos exemplares da vida da comunidade.
A Primeira Carta aos Tessalonicenses é, com toda a probabilidade, o primeiro escrito do Novo Testamento. Apareceu na Primavera-Verão do ano 50 ou 51.
O texto que nos é proposto apresenta-nos o endereço da carta (“Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja dos Tessalonicenses que está em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo” – 1Tes. 1,1) e um estrato de uma longa oração colocada no início da carta, na qual Paulo dá graças a Deus pelo comportamento exemplar dos tessalonicenses: apesar das provas que tiveram de suportar, permanecem fiéis ao Evangelho e ao ensino de Paulo (cf. 1Tes. 1,2-3,13).
MENSAGEM
O verbo principal do nosso texto é o verbo grego “eukharistéô”(“dar graças”); todos os outros verbos que aparecem são secundários. Assim, fica logo claro quais os sentimentos e qual a atitude fundamental de Paulo, Silvano e Timóteo, os remetentes da carta: eles estão profundamente agradecidos e reconhecidos a Deus. Porquê?
Porque a ação de Deus se nota claramente na vida diária da comunidade cristã de Tessalônica. Diante da proposta do Evangelho, os tessalonicenses responderam generosamente, com uma fé ativa, uma caridade esforçada e uma esperança firme (v. 3). A “fé ativa” traduz a realidade de uma adesão ao Evangelho que não se manifesta só em palavras, mas também em atitudes concretas de conversão e de transformação; a “caridade esforçada” dá conta de um amor que não é teórico mas é efetivo, e que se traduz em gestos de entrega, de partilha, de doação; e a “esperança firme” define essa confiança inabalável dos tessalonicenses em Deus e na vida nova que Ele reserva àqueles que O amam – confiança que, nem a hostilidade do mundo, nem as dificuldades da vida conseguem deitar por terra.
Na verdade, tudo isto resulta do fato de os tessalonicenses terem sido “escolhidos” por Deus (v. 4). No Antigo Testamento, a “eleição” é um privilégio de Israel, escolhido por Deus de entre os outros povos, não em virtude dos seus méritos particulares, mas como resultado da graça e do amor de Deus; agora, são as comunidades cristãs de origem pagã que são objeto do mesmo privilégio, que tem a sua fonte no amor gratuito do Deus salvador.
O Evangelho que Paulo, Silvano e Timóteo anunciaram aos tessalonicenses não foi um discurso feito de belas palavras, mas inconseqüente; foi uma Boa Nova de Deus, poderosa e transformadora, que encontrou eco no coração dos tessalonicenses que, pela ação do Espírito Santo, deu frutos de fé, de amor e de esperança (v. 5a.b).
É por tudo isto que Paulo, Silvano e Timóteo louvam o Senhor.
ATUALIZAÇÃO
Hoje, uma comunidade cristã que viva, com fidelidade e entusiasmo, a fé, a esperança e a caridade, não será notícia; em contrapartida, os meios de comunicação social explorarão, com gosto, a vida de uma comunidade cristã marcada pelos escândalos, pelos dramas, pelas infidelidades… Tornamo-nos progressivamente insensíveis às coisas bonitas e boas e só nos deixamos impressionar pelo espampanante, pelo escandaloso, por aquilo que chama a atenção por razões negativas. O nosso texto convida-nos, antes de mais, a repararmos nos testemunhos de fé, de amor e de esperança que encontramos à nossa volta e a vermos aí a presença e a ação de Deus no mundo.
O nosso texto convida-nos, depois, a renovar e potenciar a nossa capacidade de louvar e de agradecer a Deus. Ao contemplarmos tantos gestos de bondade, de amor, de doação, de solidariedade que, em geral, acontecem no mundo e que, em particular, enchem as vidas das nossas comunidades cristãs, não podemos deixar de ver aí a presença amorosa de Deus… Teremos sempre a capacidade de agradecer a Deus a sua presença e a sua ação no mundo, na vida das nossas comunidades cristãs ou religiosas, na vida das nossas famílias e de cada um de nós?
O exemplo da comunidade cristã de Tessalônica interpela-nos e questiona-nos… É uma comunidade que, apesar de uma catequese incipiente e de um ambiente hostil, abraçou com entusiasmo o Evangelho e concretizou a proposta de Jesus na vida do dia a dia, através de uma fé ativa, de um amor esforçado e de uma esperança firme. Nós, seguidores de Jesus, depois de muitos anos de catequese e de compromisso com Jesus, como vivemos o nosso compromisso cristão: com um entusiasmo sempre renovado e sempre coerente, ou com o desleixo e a indiferença de quem não se quer comprometer? A nossa fé não é apenas uma questão de palavras, mas leva-nos a um efetivo compromisso com a transformação da nossa vida, da nossa família, da nossa comunidade ou do mundo que nos rodeia? O nosso amor traduz-se em atitudes concretas de partilha, de doação, de solidariedade, de luta contra tudo o que oprime os pequenos, os débeis, os marginalizados? A nossa esperança mantém-nos serenos e confiantes, de olhos postos nesse futuro novo que Deus nos reserva, apesar das vicissitudes, das dificuldades, das incompreensões que dia a dia temos de enfrentar?
Evangelho: Mt. 22,15-21 - AMBIENTE
O nosso texto situa-nos em Jerusalém, o local onde vai desenrolar-se o confronto final entre Jesus e o judaísmo. De um lado estão os dirigentes judeus: instalados nas suas certezas e preconceitos, recusam-se terminantemente a acolher a proposta do Reino. Do outro lado está Jesus: Ele procura que os dirigentes do seu Povo tomem consciência de que, ao recusar o Reino, estão a recusar a oferta de salvação que Deus lhes faz.
Para ilustrar a situação, Jesus conta-lhes três parábolas (que lemos e meditamos nos últimos três domingos). Na primeira, identifica-os com o filho que disse “sim” ao seu pai, mas que não foi trabalhar no campo (cf. Mt. 21,28-32); na segunda, equipara-os aos vinhateiros maus que tiveram a ousadia de matar o filho (cf. Mt. 21,33-46); na terceira, compara-os com os convidados para o banquete que rejeitaram o convite (cf. Mt. 22,1-14). Irritados com a ousadia de Jesus e questionados pelas suas comparações, os líderes judaicos procuram ansiosamente um pretexto para o acusar.
É neste contexto que Mateus nos vai apresentar três controvérsias entre Jesus e os fariseus (cf. Mt. 22,15-22.23-33.34-40). Em qualquer caso, o objetivo é surpreender afirmações controversas e encontrar argumentos para apresentar em tribunal contra Jesus.
A primeira questão que os fariseus, aliados com os partidários de Herodes Antipas, põem a Jesus é muito delicada. Diz respeito à obrigação de pagar os tributos ao imperador de Roma…
Além dos impostos indiretos (postagens, direitos alfandegários, taxas várias), as províncias romanas pagavam ao Império o tributo, que era uma quantia estipulada por Roma e que todos os habitantes do Império (com exceção das crianças e dos velhos) deviam pagar. Era considerado um sinal infamante da sujeição a Roma. A questão que põem a Jesus é, portanto, esta: é lícito pactuar com esse sistema gerador de escravidão e de injustiça?
Os partidários de Herodes e os saduceus (a alta aristocracia sacerdotal) estavam perfeitamente de acordo com o tributo, pois aceitavam naturalmente a sujeição a Roma. Os movimentos revolucionários, no entanto, estavam frontalmente contra, pois consideravam o imperador um usurpador do poder que só pertencia a Jahwéh e interditavam aos seus partidários o pagamento do dito tributo. Os fariseus, embora não aceitando o tributo, tinham uma posição intermédia e não propunham uma solução violenta para a questão…
De qualquer forma, era uma questão “armadilhada”. Se Jesus se pronunciasse a favor do pagamento do tributo, seria acusado de colaboracionismo e de defender a usurpação pelos romanos do poder que pertencia a Jahwéh; mas se Jesus se pronunciasse contra o pagamento do imposto, seria acusado de revolucionário, inimigo da ordem romana…
Como é que Jesus vai resolver a questão?
MENSAGEM
Confrontado com a questão, Jesus convidou os seus interlocutores a mostrar a moeda do imposto e a reconhecerem a imagem gravada na moeda (a imagem de César). Depois, Jesus concluiu: “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (v. 21). O que é que esta afirmação significa? Significa uma espécie de repartição eqüitativa das obrigações do homem entre o poder político e o poder religioso?
Provavelmente, Jesus quis sugerir que o homem não pode nem deve alhear-se das suas obrigações para com a comunidade em que está integrado. Em qualquer circunstância, ele deve ser um cidadão exemplar e contribuir para o bem comum. A isso, chama-se “dar a César o que é de César”.
No entanto, o que é mais importante é que o homem reconheça a Deus como o seu único senhor. As moedas romanas têm a imagem de César: que sejam dadas a César. O homem, no entanto, não tem inscrita em si próprio a imagem de César, mas sim a imagem de Deus (cf. Gn. 1,26-27: “Deus disse: ‘façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança’… Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus”): portanto, o homem pertence somente a Deus, deve entregar-se a Deus e reconhece-l’O como o seu único senhor.
Jesus vai muito além da questão que Lhe puseram… Recusa-Se a entrar num debate de caractere político e coloca a questão a um nível mais profundo e mais exigente. Na abordagem de Jesus, a questão deixa de ser uma simples discussão acerca do pagamento ou do não pagamento de um imposto, para se tornar um apelo a que o homem reconheça Deus como o seu senhor e realize a sua vocação essencial de entrega a Deus (ele foi criado por Deus, pertence a Deus e transporta consigo a imagem do seu senhor e seu criador). Jesus não está preocupado, sequer, em afirmar que o homem deve repartir equitativamente as suas obrigações entre o poder político e o poder religioso; mas está, sobretudo, preocupado em deixar claro que o homem só pertence a Deus e deve entregar toda a sua existência nas mãos de Deus. Tudo o resto deve ser relativizado, inclusive a submissão ao poder político.
ATUALIZAÇÃO
A questão essencial que o nosso texto aborda é esta: o homem pertence a Deus e deve considerar Deus o seu único senhor e a sua referência fundamental. No entanto, embriagados pelo turbilhão das liberdades e das novas descobertas, os homens do nosso tempo consideraram que eram capazes de descobrir, por si próprios, os caminhos da vida e da felicidade e que podiam prescindir de Deus… Instalaram-se no orgulho e na auto-suficiência e deixaram Deus de fora das suas vidas. É preciso voltarmos a Deus e redescobrirmos a sua centralidade na nossa existência. Deus não atenta contra a nossa identidade e a nossa liberdade. Fomos criados para a comunhão com Deus e só nos sentiremos felizes e realizados quando nos entregarmos confiadamente nas suas mãos e fizermos d’Ele o centro da nossa caminhada.
Em muitos casos, Deus foi apenas substituído por outros “deuses”: o dinheiro, o poder, o êxito, a realização profissional, a ascensão social, o clube de futebol… tomaram o lugar de Deus e passaram a dirigir e a condicionar a vida de tantos dos nossos contemporâneos. Quase sempre, no entanto, essa troca trouxe, apenas, escravidão, alienação, frustração e sentimentos de solidão e de orfandade… Como me sinto face a isto? Há outros deuses a tomarem posse da minha vida, a condicionarem as minhas opções, a dirigirem os meus interesses, a dominarem os meus projetos? Quais são esses deuses? Eles asseguraram-me a felicidade e a plena realização, ou tornam-me cada vez mais escravo e dependente?
O homem e a mulher foram criados à imagem de Deus. Eles não são, portanto, objetos que podem ser usados, explorados e alienados, mas seres revestidos de uma suprema dignidade, de uma dignidade divina. Apesar da Declaração Universal dos Direitos do Homem e de uma infinidade de organizações e de associações destinadas a proteger e a assegurar os direitos, liberdades e garantias, há milhões de homens, mulheres e crianças que continuam, todos os dias, a ser maltratados, humilhados, explorados, desprezados, diminuídos na sua dignidade. Destruir a imagem de Deus que existe em cada criança, mulher ou homem, é um grave crime contra Deus. Nós, os cristãos, não podemos permitir que tal aconteça. Devemos sentir-nos responsáveis sempre que algum irmão ou irmã, em qualquer canto do mundo, é privado dos seus direitos e da sua dignidade; e temos o dever grave de lutar, de forma objetiva, contra todos os sistemas que, na Igreja ou na sociedade, atentem contra a vida e a dignidade de qualquer pessoa.
Para o cristão, Deus é a referência fundamental e está sempre em primeiro lugar; mas isso não significa que o cristão viva à margem do mundo e se demita das suas responsabilidades na construção do mundo. O cristão deve ser um cidadão exemplar, que cumpre as suas responsabilidades e que colabora ativamente na construção da sociedade humana. Ele respeita as leis e cumpre pontualmente as suas obrigações tributárias, com coerência e lealdade. Não foge aos impostos, não aceita esquemas de corrupção, não infringe as regras legalmente definidas. Vive de olhos postos em Deus; mas não se escusa a lutar por um mundo melhor e por uma sociedade mais justa e mais fraterna.
Como é que eu me situo face ao poder político e às instituições civis: com total indiferença, com sujeição cega, ou com lealdade crítica? Como é que eu contribuo para a construção da sociedade? À luz de que critérios e de que valores julgo os fatos, as decisões, as leis políticas e sociais que regem a comunidade humana em que estou inserido? As minhas opções políticas são coerentes com os critérios do Evangelho e com os valores de Jesus?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho


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