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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

MAGOS

OS REIS MAGOS

Epifania do Senhor

Evangelho - Mt 2,1-12


-MAGOS-José Salviano


4 de Janeiro de 2015 - Ano B

          A liturgia deste  domingo  celebra a Epifania, palavra que vem do Grego e significa o que aparece, significa manifestação. Portanto, a festa da Epifania é a festa da  manifestação de Deus ao mundo. Continua

 

 

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Celebramos hoje a solene manifestação, a sagrada Epifania do Senhor. Como dizia santo Agostinho, “celebramos, recentemente, o dia em que o Senhor nasceu entre os judeus; celebramos hoje o dia em que foi adorado pelos pagãos. Naquele dia, os pastores o adoraram; hoje, é a vez dos magos”. A festa deste dia é nossa, daqueles que não são da raça de Israel segundo a carne, daqueles que, antes, estavam sem Deus e sem esperança no mundo! Hoje, Cristo nosso Deus, apareceu não somente como glória de Israel, mas também como “luz para iluminar as nações” (Lc. 2,32). Hoje, começou a cumprir-se a promessa feita a nosso pai Abraão: “Por ti serão benditos todos os clãs da terra” (Gn. 12,3).
Na segunda leitura desta Missa, São Paulo nos falou de um Mistério escondido e que agora foi revelado: “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho”. Eis: com a visita dos magos, pagãos vindos de longe, é prefigurado o anúncio do Evangelho aos não-judeus, aos pagãos, aos que desconheciam o Deus de Israel. Ainda Santo Agostinho, explicando o mistério da festa hodierna, explicava muito bem: “Ele é a nossa paz, ele, que de dois povos fez um só (cf. Ef 2,14). Já se revela qual pedra angular, este Recém-nascido que é anunciado e como tal aparece nos primórdios do nascimento. Começa a unir em si dois muros de pontos diversos, ao conduzir os pastores da Judéia e os Magos do Oriente, a fim de formar em si mesmo, dos dois, um só homem novo, estabelecendo a paz. Paz para os que estão longe e paz para os que estão perto”. É este o sentido da solenidade da santa Epifania do Senhor!
Hoje, cumpre-se o que o profeta Isaías falara na primeira leitura: “Levanta-te, Jerusalém, acende as luzes, porque chegou tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor! Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti! Levanta os olhos ao redor e vê: será uma inundação de camelos de Madiã e Efa; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando a glória do Senhor!” Mas, estejamos atentos, porque a festa de hoje esconde um drama: a Jerusalém segundo a carne não reconheceu o Salvador: “O rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém”. Ela conhecia a profecia, mas de nada lhe adiantou, pela dureza de coração. É na nova Jerusalém, na Igreja, que somos nós, na nossa Mãe católica, que esta profecia de Isaías se cumpre. É a Igreja que acolherá todos os povos, unidos não pelos laços da carne, mas pela mesma fé em Cristo e o mesmo batismo no seu Espírito.
Que contraste, no Evangelho de hoje! Jerusalém, que conhecia a Palavra, não crê e, descrendo, não vê a Estrela, não vê a luz do Menino. Os magos, pagãos, porque têm boa vontade e são humildes, vêem a Estrela do Rei, deixam tudo, partem sem saber para onde iam, deixando-se guiar pela luz do Menino... e, assim, atingem o Inatingível e, vendo o Menino, reconhecem nele o Deus perfeito: “ajoelharam-se diante dele e o adoraram”. Com humildade, oferecem-lhe o que têm: “Abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra”: ouro para o Rei, incenso para o Deus, mirra para o que, feito homem, morrerá e será sepultado! Os magos crêem e encontram o Menino e “sentiram uma alegria muito grande”. Herodes, o tolo, ao invés, pensa somente em si, no seu título, no seu reino, no seu poder... e tem medo do Menino! Escravo de si e prisioneiro de suas paixões, quer matar o Recém-nascido! A Igreja, na sua liturgia, zomba de Herodes e dos herodes, e canta assim: “Por que, Herodes, temes chegar o Rei que é Deus? Não rouba aos reis da terra, quem reinos dá nos céus!”. Que bela lição, que mensagem impressionante para nós: quem se deixa guiar pela luz do Menino, o encontra e é inundado de grande alegria, e volta por outro caminho. Mas, quem se fecha para esta luz, fica no escuro de suas paixões, na incerteza confusa de suas próprias certezas, tão ilusórias e precárias... e termina matando e se matando!
Que nós tenhamos discernimento: não procuremos esta Estrela do Menino nos astros, nos céus! Não perguntemos sobre ela aos astrônomos, aos cientistas, aos historiadores. Sobre essa luz, sobre essa Estrela bendita, eles nada sabem, nada têm a dizer! Procuremo-la dentro de nós: o Menino é a Luz que ilumina todo ser humano que vem a este mundo! No século I, santo Inácio de Antioquia já ensinava: “Uma estrela brilhou no céu mais do que qualquer outra estrela, e todas as outras estrelas, junto com o sol e a luz, formaram um coro, ao redor da estrela de Cristo, que superava a todas em esplendor”. É esta luz que devemos buscar, esta luz que devemos seguir, por esta luz devemos nos deixar iluminar! São Leão Magno, no século V, já pedia aos cristãos: “Deixa que a luz do astro celeste aja sobre os sentidos do teu corpo, mas com todo o amor do coração recebe dentro de ti a luz que ilumina todo homem vindo a este mundo!”. E, também no mesmo século V, São Pedro Crisólogo, bispo de Ravena, falava sobre o mistério deste dia: “Hoje, os magos que procuravam o Rei resplandecente nas estrelas, o encontram num berço. Hoje os magos vêem claramente, envolvido em panos, aquele que há muito tempo procuravam de modo obscuro nos astros. Hoje, contemplam, maravilhados, no presépio, o céu na terra, a terra no céu, o homem em Deus, Deus no homem e, incluído no corpo pequenino de uma criança, aquele que o universo não pode conter. Vendo-o, proclamam sua fé e não discutem, oferecendo-lhe místicos presentes. Assim, o povo pagão, que era o último, tornou-se o primeiro, porque a fé dos magos deu início à fé de todos os pagãos!”
Quanta luz, na festa de hoje! E, no entanto, é preciso que compreendamos sem pessimismo, mas também sem ilusões diabólicas, que este mundo vive em trevas: “Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos...” Que tristeza tão grande, constatar que as palavras do Profeta ainda hoje são tão verdadeiras... “Mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti”. Não são trevas as tantas trevas da realidade que nos cerca? Não são trevas a violência, a devassidão, a permissividade, as drogas, a exacerbação da sensualidade? Não são trevas a injustiça, a corrupção e a impiedade? Não é treva densa o comércio de religiões, o coquetel de seitas, a perseguição à Igreja, o uso leviano e interesseiro do Evangelho e do nome santo de Jesus? Não é treva medonha a dissolução da família, a relativização e esquecimento dos valores mais sagrados e da verdade da fé?
Deixemo-nos guiar pela Estrela do Menino, deixemo-nos iluminar pela sua luz! Com os magos, ajoelhemo-nos diante daquele que nasceu para nós e está nos braços da sempre Virgem Maria Mãe de Deus: ofereçamos-lhe nossos dons: não mais mirra, incenso e ouro, mas a nossa liberdade, a nossa consciência e a nossa decisão de segui-lo até o fim. Assim, alegrar-nos-emos com grande alegria e voltaremos ao mundo por outro caminho, “não em orgias e bebedeiras, nem em devassidão e libertinagem, nem em rixas e ciúmes. Mas vesti-vos do Senhor Jesus e não procureis satisfazer os desejos da carne. Deixemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm. 13,13.12).
Terminemos com o pedido que a Igreja fará na oração após a comunhão: “Ó Deus, guiai-nos sempre e por toda parte com a vossa luz celeste, para que possamos acolher com fé e viver com amor o mistério de que nos destes participar!” Amém.


SEGUNDA HOMILIA

Este hoje é dia solene, de festa grande! No santo tempo do Natal a comemoração que agora celebramos somente perde em importância para aquela da Natividade, no 25 de dezembro. É que hoje, exultantes e gratos a Deus, celebramos a sagrada Epifania do Senhor! Epifania, Manifestação do Cristo Jesus! Nas palavras de Santo Agostinho: “Este dia salienta a sua grandeza e sua humilhação: Aquele que na imensidade do céu se revelava pelo sinal de um astro era encontrado quando o procuravam na estreiteza da gruta. Frágil em seus membros de criança, envolto em faixas, é adorado pelos Magos e temido pelos maus!”
Eis: no dia do Natal, ele atraiu a si, pela palavra dos anjos, aqueles que estavam perto: os pastores de Belém, membros do povo judeu, já tão conhecedor dos caminhos de Deus. Mas, agora, pela luz da estrela, ele se digna, com infinita misericórdia, a nos atrair a nós: os que não somos judeus, os pagãos, que estávamos longe, entregues ao culto dos ídolos – como aquele padre de Salvador, que a televisão mostrou adorando os orixás numa missa profana! Pagãos nós éramos; pagão é aquele padre! Idólatras eram nossos antepassados; idólatras continuam os que manipulam as coisas santas indevidamente! Hoje, o Senhor atrai os pagãos do mundo todo à sua salvação, hoje realiza-se o que o nosso Deus predissera por Isaías profeta: “Fui perguntado por quem não se interessava por mim, fui achado por quem não me procurava. E eu disse: ‘Eis-me aqui, eis-me aqui’ a pessoas que não invocavam o meu nome” (Is. 65,1).
Obrigado, Senhor Jesus, porque vieste também para nós! Obrigado porque nos arrancaste do poder das trevas, porque nos fizeste passar dos falsos deuses, dos ídolos falsos e mortos ao Deus vivo e verdadeiro! Hoje, portanto, meus caros em Cristo, a festa é nossa! Somos nós que vemos a luz, somos nós, convidados a seguir a estrela do Menino; nós, convidados a adorá-lo, presenteando-o com nossos melhores dons: o ouro das nossas boas obras, a mirra do nosso coração, o incenso do nosso amor!
Somos hoje convidados a admirar o exemplo desses sábios do Oriente, que vendo no céu o sinal do Rei nascido, não temeram deixar tudo e, humildemente, seguir a luz! Como foram sábios verdadeiramente, esses que, humildes, não temeram em se deixar guiar pela luz de Deus! Como Abraão, o pai de todos os judeus, deixara sua terra e partira à ordem de Deus, sem saber aonde ia, assim também, esses que hoje são as nossas primícias para Cristo, partem, obedecendo ao apelo do Senhor, sem saber para onde vão! Caríssimos, partamos também nós! Partamos de nossa vida cômoda, partamos de nossa fé tíbia, partamos de nosso cristianismo burguês, que deseja ser compreendido, aceito, e aplaudido pelo mundo! , ou não veremos a luz do Menino! “Deus é luz e nele não há trevas. Se andarmos na luz, como ele está na luz, então estamos em comunhão uns com os outros e o sangue de seu Filho Jesus nos purifica de todo o pecado” (1Jo 1,5b-7). Partamos, pois, caríssimos, e encontraremos aquele que é a Luz do mundo!
Porque os Magos tiveram a coragem de partir, conseguiram atingir o Deus inatingível e o adoraram! Diz o Evangelho que eles, “ao verem de novo a estrela, sentiram uma alegria muito grande!” Nós também, se encontrarmos de verdade o Senhor! Mas, atentos! O que eles encontram? Pasmem! Encontram um menininho pobre, com uma pobre jovem do povo, Maria, sua Mãe... Não o encontram num palácio, não o encontram numa corte! E, no entanto, com os olhos da fé, reconheceram o Rei verdadeiro, prostraram-se e o adoraram! Vede, caríssimos meus, somente quando nos deixamos guiar, podemos encontrar o Senhor; somente quando saímos dos nossos esquemas, dos nossos modos de pensar, de achar e de sentir, podemos de verdade ver naquilo que é pobre e pequeno, ver naquilo que não estava nos nossos planos e expectativas, a presença de Deus. Depois, diz o Evangelho que eles voltaram por outro caminho... Sim, porque quem encontrou esse Menino, quem se alegrou com ele, quem viu a sua luz, muda de caminho, caminha na Vida!
Mas, nesta festa de tanto alegria, doçura e luz, há uma nota de treva: “Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda Jerusalém...” Jerusalém, que representa o povo judeu... Jerusalém, que deveria alegrar-se, perturba-se, hesita, não é capaz de reconhecer o tempo da visita de Deus! E nós, caríssimos? Nós, membros do Povo de Deus, não corremos o risco de nos acostumar de tal modo com o Senhor, a ponto de não mais reconhecer suas visitas, sua presença luminosa e humilde, sua graça em nossa vida? Não corremos o risco gravíssimo de não mais nos deixarmos interpelar pela sua palavra? A festa de hoje, certamente mostra-nos a benignidade de Deus que a todos quer iluminar e salvar, mas também revela a concreta e tremenda possibilidade do homem de ser generoso e responder “sim” ou ser fechado e responder “não”! Os judeus, o povo amado, começa a se fechar para o seu Senhor. É o início de um drama que culminará na cruz... De modo grave, Santo Agostinho afirma: “Ao nascer fez aparecer uma nova estrela, Aquele mesmo que, ao morrer, obscureceu o sol antigo! A luz da estrela começou a fé dos pagãos; pelas trevas da cruz foi acusada a perfídia dos judeus!” É impossível, meus caros, ficar-se indiferente ante este Menino, este pequeno Rei: ou nos abrimos para ele e nele encontramos a luz e a vida, ou para ele nos fechamos e não veremos a luz! Acorda, cristão! Sai do marasmo, sai da tibieza, sai da preguiça, sai do pensamento vão, sai do vício, sai dos acordos mornos com o mundo! Acorda! Sai de ti e deixa-te iluminar pelo Salvador por ti nascido!
Finalmente, um último mistério. Se Jerusalém fechou-se para o Rei nascido, como pôde o profeta cantar a luz da Cidade santa na primeira leitura desta Missa? “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor! Eis que está a terra envolvida em trevas, mas sobre ti apareceu o Senhor!” Esta Jerusalém santa, envolvida pela glória do Senhor, esta Cidade fiel à qual se dirigem os povos, é a Igreja, o Novo Israel, a Esposa de Cristo. É ela a Casa na qual, segundo o Evangelho de hoje, os Magos entraram e encontraram o Menino com sua Mãe. É na Igreja, na Mãe católica, una, única e santa, que os homens de todos os povos e de todas as raças podem encontrar o Salvador! Esta é a grande missão da Igreja: dar Jesus ao mundo, iluminar o mundo com a luz do Senhor, ser casa espaçosa e aconchegante na qual toda a humanidade possa ver a salvação do nosso Deus!
Alegremo-nos! Daqui a pouco, o Menino por nós nascido, por nós oferecido na cruz em sacrifício e em nosso favor, ressuscitado dos mortos, mais uma vez nos será dado em comunhão. Como os Magos, nos levantaremos, como os Magos, acorreremos a ele, como os Magos, reverentes adorá-lo-emos! Que também, como os Magos, voltemos para nossas casas alegres de grande alegria, tomando outro caminho na vida! Que no-lo conceda o Deus nascido da Virgem que hoje se manifestou ao mundo.
dom Henrique Soares da Costa

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Viemos do oriente adorar o Rei
A época em que foi escrito o livro do profeta Isaias (Terceiro Isaias), corresponde à reestruturação, isto é, ao regresso a Jerusalém dos exilados da Babilônia, regresso à grande cidade de Deus. Quando o grupo de exilados chegou a Israel encontrou as cidades destruídas, os campos abandonados e em posse de outras famílias, as muralhas destruídas e o templo, o lugar onde Javé habitava, incendiado.
Esta dramática realidade desanimou completamente o povo, centrando suas esperanças e suas motivações unicamente na reconstrução de suas moradias e seus campos, deixando de lado a restauração do templo e, com isso, a confiança na vinda gloriosa de Javé, que traria para Israel a salvação plena na própria historia.
Isaias anima a fé do seu povo, convida-o a colocar novamente sua fé e seu coração na força salvadora de Javé, que traria a PA e a justiça a seu povo, por isso Jerusalém será uma cidade radiante, cheia de luz, de onde a presença de Deus, como Rei, fará dela uma nação grande, diante de cuja presença se prostrarão todos os povos da terra. O profeta manifesta com esta grande revelação que Deus é quem dará inicia a uma nova época para Israel, uma época na qual reinará a luz de Deus e serão destruídas todas as forças do mal, pois Deus se faz presente em Israel e ninguém mais poderá causar-lhe mal.
Esta visão profética possui uma compreensão muito reduzida da ação salvífica de Deus, pois é assumida como uma promessa que vai se cumprir em beneficio única e exclusivamente do povo de Israel e não de toda a terra.
Paulo, através da carta aos Efésios, ampliará esta compreensão, afirmando que a salvação vinda de Deus, através de Jesus, é para “todos”, judeus e pagãos. O plano de Deus, segundo Paulo, consiste em formar um só povo, uma só comunidade de fé, um só corpo, uma só Igreja, um organismo vivo capaz de comunicar a toda a criação a vida e a salvação outorgada por Deus.
A carta aos Efésios expressa que o mistério recebido por Paulo consiste em que a Boa Nova de Cristo se faz efetiva também para os pagãos, eles são co-herdeiros e membros desse mesmo Corpo; isto significa que Deus quis se revelar a toda a humanidade, age em todos, salva a todos, reconcilia a todos, sem exceção.
O Evangelho confirma o caráter universal da salvação de Deus. Mateus expressa, por meio de um relato simbólico, a origem divina de Jesus e sua tarefa salvífica como Messias, como rei de Israel, herdeiro do trono de Davi; para isso, o evangelista insiste em nomear, com exatidão, o lugar onde nasceu Jesus e em confirmar, através do Antigo Testamento, que com sua presença na historia se cumpriram as palavras dos profetas. Por outro lado, a rejeição deste nascimento por parte das autoridades políticas (Herodes) e religiosas (sumos sacerdotes e escribas) do povo judeu e a alegria infinita dos magos, vindos do Oriente, anunciam desde já esse caráter universal da missão de Jesus, a abertura do evangelho aos pagãos e sua vinculação à comunidade cristã. A epifania do Senhor é a celebração precisa para confessar nossa fé em um Deus que se manifesta a toda a humanidade, que se faz presente em todas as culturas,que age em todos, e que convida a comunidade de fé a abrir suas portas às necessidades e pluralidades do mundo atual.
Em um tempo como o que vivemos, marcado radicalmente pelo pluralismo religioso e marcado também, crescentemente, pela teologia do pluralismo religioso, o sentido do “missionário” e da “universalidade cristã” mudaram profundamente. Até agora, em muitos casos, o missionário era sinônimo de proselitismo, de “converter para o cristianismo” os “gentios” e a “universalidade cristã” era entendida a partir da centralidade do cristianismo: éramos a religião central, a (única) querida por Deus e, portanto, a religião-destino de toda a humanidade. Todos os povos (universalidade)  estavam destinados a abandonar sua religião ancestral e a se tornarem   cristãos... Cedo ou tarde o mundo chegaria ao seu destino: ser  “um só rebanho e um só pastor”...
Hoje tudo mudou, ainda que muitos cristãos (incluindo muitos de seus pastores) continuem com sua visão tradicional. Hoje é um bom dia para apresentar os desafios e desenvolver uma reflexão sobre eles. Não desperdicemos esta oportunidade para atualizar também pessoalmente nossa visão nesses temas.
No NT, além de João 7,42, encontramos referencias a Belém nas narrativas de Mateus 2 e Lucas 2, acerca do nascimento do Salvador na cidade de Davi. A tradição de que o Messias devia nascer em Belém tem sua base no texto de Miquéias 5,2, onde se assinala que Belém de Efrata devia sair aquele que iria governar Israel e seria pastor do povo. Hoje já sabemos que Jesus nasceu provavelmente em Nazaré e que a afirmação de que nasceu em Belém é uma afirmação com intenção teológica.
O termo “magos” procedo do grego “magoi”, que significa matemático, astrônomo e astrólogo. Estas duas últimas disciplinas coincidiam na antiguidade. Com ambas se estudava o destino e o desígnio das pessoas. Isto é, os “reis magos” não foram nem reis nem magos no sentido atual; teriam sido astrólogos ou estudiosos do céu. Foi o teólogo e advogado Tertuliano (160-220) que assegurou que os magos seriam reis e que prodeceriam do Oriente. Na visita dos magos a Jesus, os Padres da Igreja viram simbolizadas a realeza (ouro), a divindade (incenso) e a paixão (mirra) de Cristo.

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Epifania do Senhor
Estamos ainda em clima de festa, respirando confraternização, esperando as mudanças e que os tradicionais votos de paz se tornem realidade. Todos nós almejamos mudanças, porém, as propostas não podem ficar somente no desejo, é preciso fazer acontecer.
Para o mundo mudar, precisamos mudar com ele. Paz é sinônimo de amor e se traduz em partilha e solidariedade. Ainda bem que essas coisas não dependem de dinheiro, dependem somente do desejo de amar que trazemos no coração.
Foi para isso que Jesus veio. Com o coração ardente de amor, veio para promover a união, e quis nascer pobre para mostrar que felicidade não é privilégio dos abastados. Uma Grande Estrela mostrou ao mundo a felicidade daquela família. Era transparente a alegria ao lado da manjedoura naquele humilde curral.
Epifania quer dizer manifestação do Senhor. Com o nascimento de Jesus, Deus manifesta o seu desejo a todos os homens. Desejo de ter novamente todos seus filhos ao seu lado, vontade de por em prática o seu Plano de Amor e de Salvação.
Vemos que os Magos vêm de longe, guiados por um sinal luminoso. Antigamente eram chamados magos os sábios, os conhecedores de medicina, astrologia e outras ciências. Os magos representam os povos de todas as nações, raças e línguas, que se deixam guiar pela mensagem de paz e amor de Jesus.
Não eram reis, mas provavelmente eram chefes de tribos. Devido seus conhecimentos científicos, os magos, tornavam-se conselheiros de reis e exerciam muita influência em seus países. O evangelho não menciona quantos eram nem seus nomes, mas a tradição popular supõe que os magos eram três e lhes atribuiu os nomes de Gaspar, Melquior e Baltazar.
Os nomes atribuídos aos magos são bastante significativos: Gaspar quer dizer aquele que vai inspecionar ou seja, aquele que vai verificar e confirmar a vinda do Messias. Melquior quer dizer Meu Rei é Luz, é a grande confirmação da Realeza de Jesus, a Luz do Mundo. E, Baltazar quer dizer; Deus manifesta o Rei.
Os magos ofereceram a Jesus presentes típicos de suas regiões; ouro, incenso e mirra. Também os presentes têm um importante significado. Com o ouro reconheciam a realeza do Menino, o ouro quer dizer que Jesus é Rei.
O incenso é algo que se oferece a Deus nos altares. Com o incenso a humanidade reconhece a divindade de Jesus, significa que Jesus não é somente Rei, mas também Divino.
Conforme costume oriental, misturada com outros perfumes, a mirra era usada para perfumar corpos, vestes e casas. A mirra representa o lado humano e o sofrimento do Messias. Significa que o Menino Deus e Homem será levado ao martírio e à morte.
O evangelho diz que os magos mudaram o rumo e voltaram para suas terras por outro caminho. Mudar o caminho significa converter-se. Conversão é o apelo forte da celebração da Epifania.
Esta é a Boa Nova de hoje: a Paz é possível e está ao nosso alcance. No entanto, é preciso procurá-la. Vai encontrá-la quem mudar seus caminhos e seguir a Verdadeira Luz.
Jorge Lorente
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Epifania do Senhor
A celebração de hoje, Epifania do Senhor – palavra grega que significa revelação, manifestação, apresentação –, conhecida também como festa dos Reis, encerra o ciclo do Santo Natal. Na Igreja Oriental hoje é celebrado o Natal do Senhor, e nós, ocidentais, em comunhão com os nossos irmãos do oriente, celebramos a Epifania do Senhor – manifestação do Menino Deus ao mundo. “… e adorá-lo-ão todos os reis, todas as nações o servirão” (Sl. 71,11). Pois a estrela que brilhou no céu de Belém guiou os reis até o Menino Deus, que se encontrava deitado na Manjedoura. “Porque nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos adorá-lo” (Mt. 2,2b). Estas são as palavras dos reis a Herodes, que perguntou pelo Menino, com a intenção de matá-Lo, como fez com os Santos inocentes. Mas eis que, sabiamente, depois de Adorarem o Menino, eles voltaram para sua terra, por outro caminho. Amados, a luz de Deus já brilha em nossos corações! “E eles, tendo ouvido as palavras do rei, partiram; e eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que, chegando sobre (o lugar) onde estava o Menino, parou. E, entrando na casa, encontraram o Menino com Maria, sua mãe, e, prostraram-se, o adoraram; e, abrando seus tesouros, lhe ofereceram presentes (de) ouro, incenso e mirra” (Mt. 2,9.11).
Sim, filhos! A luz de Deus também nos convida a nos levantarmos, a estarmos de pé, de prontidão, com nos diz o profeta Isaias: “Levanta-te, recebe a luz, Jerusalém, porque chegou a tua luz, e a glória do Senhor nasceu sobre ti. Levanta em roda os olhos, e vê; todos esses se congregaram, vieram a ti…” (Is 60, 1. 4a). O profeta, ao usar o verbo “levantar”, nos convida – assim como convidou o povo de Israel – a despertarmos do nosso sono espiritual, da “letargia”, da “tibieza”, da preguiça espiritual que adormece nossas almas e nossos corações. Este “sono espiritual” tira o vigor, e o desejo ardente de vivermos, fielmente, a vontade de Deus em nós! Sim, o Senhor nos convida a estarmos preparados, de pé, sempre firmes e na graça de Deus. Pois a sua luz veio habitar no meio de nos, veio iluminar as trevas do pecado que nos circunda, e nos chamar a conversão dos nossos corações, para Deus! Quotidianamente o Senhor se manifesta a nós, com sua divina misericórdia, nos convidando, por meio da sua santa Palavra, e dos seus mistérios a nos abeirarmos do seu coração, e experimentarmos a força do seu Amor! “Levanta-te, Jerusalém…”, eis o convite do Senhor! Nós, amados, somos a nova Jerusalém, a Igreja redimida pelo sangue do crucificado, uma vez a nós ofertado, no Altar da Cruz, e permanecendo conosco no altar do sacrifício quotidiano. É de Lá que mais fortemente brilha a Luz de Deus, que inunda o nosso ser, as nossas almas, e nos enche da Sua Divina Graça. “E as nações caminharão à tua luz, e os reis ao resplendor da tua aurora” (Is. 60,3). Caminhamos iluminados pela Estrela de Belém, a exemplo dos reis que vão até a Manjedoura para Adorar o Rei dos reis e oferecer-Lhe seus presentes. Caminhemos alegres, como povo de Israel, repatriados, que voltaram do exílio, com cantos de alegria, pois a graça do Senhor é quem domina as Nações, e mais ainda os nossos corações!
Meus amados! Dobraram os joelhos, na presença do Senhor, os “reis magos”, que na verdade não eram “magos”, “bruxos”, e nem “feiticeiros”, mas sim, astrólogos, que estudavam os astros, as estrelas, os poderes cósmicos. E, mesmo sendo conhecedores dos astros, eles seguiram as Estrela de Belém, não pelo conhecimento de uma descoberta científica, mas pela graça de Deus, que os chamou ao Seu encontro. No entanto, os magos e são os que praticam a magia, a feitiçaria, a macumba, os despachos, a invocação dos mortos e tantas outras formas de ocultismo, onde, infelizmente, muitos católicos costumam a eles se dirigir… As Sagradas Escrituras condenam essas práticas e, como sabemos, elas são abomináveis aos olhos do Senhor! Porque só ao Senhor devemos prestar culto e Adorar! Os povos de toda a terra – também os pagãos – virão ao Seu encontro e Lhe prestarão culto. Nós, hoje, somos convidados a seguir a Luz, que brilha em nossos corações, e, a exemplo dos reis do Oriente, dobrar nossos joelhos na presença do nosso único Deus e Senhor. Ele nos convida abandonar os ídolos do “poder”, do “ter”, do “prazer”, do hedonismo, das paixões da carne e do mundo, que nos seduzem os nos escravizam. De modo particular, vocês, jovens, estejam vigilantes, pois a todo o tempo vocês são tentados e atraídos pelas paixões da natureza, estimulados a viverem uma sexualidade desenfreada e desumana! Também são seduzidos pelo álcool e pelas drogas, que deseja vos afastar de Deus, destruir vossas vidas, e faz sofrer vossas famílias. Precisamos estar atentos, amados, lutar, e, com a graça de Deus, dar testemunho da nossa fé, mergulhando nossos corações na Luz que nos envolve. Esta Luz é a presença de Deus, vivo e verdadeiro, Ressuscitado para nos curar e nos salvar.
padre Tarciso Alves Maia Júnior

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A salvação é para todos.
Com uma trama de complot e usurpação do poder, (Herodes) o episódio escolhido para esta festa da Epifania coloca em cena personagens exóticos, magos, guiados por uma estrela para reconhecer em Jesus o Rei, o Sacerdote e o Ressuscitado dentre os mortos. Desde os primeiros séculos, os cristãos tiveram dificuldade para entender que a salvação em Jesus Cristo foi endereçada a toda a humanidade sem distinção de raça ou nação.
Basta lembrar, como exemplo, os primeiros embates entre Pedro e Paulo, narrados nos Atos dos Apóstolos. Paulo reafirmava categoricamente que "os pagãos (gentios) são associados à mesma herança"   dos judeus (Ef. 3,6) levantando a chave do mistério.
Que este recém nascido seja o Filho de Deus vindo trazer a salvação para todos os homens e todas as mulheres deste mundo, não é mais fácil de crer hoje em dia do que antigamente...Uma vez que se percebe que a salvação continua sendo preocupação daqueles que se esforçam, daqueles que sabem, daqueles que rezam ou daqueles que praticam o bem...Mas, e dos outros?
Entretanto, é nisto que reside toda a atualidade desta festa; a salvação se dirige a todos nós, quer sejamos velhos ou jovens, com ou sem títulos, negros ou brancos, vestidos de vestes bordadas com pedrarias ou de farrapos e de peles de animais, chegando de uma longa viagem ou já no local e instalados em hábitos. Jesus Cristo nos salva a todos: ele nos liberta das ataduras do pecado e nos restitui a verdadeira liberdade.
Por que os Magos voltaram por outro caminho? E se fosse porque se tornaram livres?
A tradição quer que, em nossos presépios, os magos e seus camelos cheguem hoje junto de Maria, José e o Menino Jesus. Não nos esqueçamos de fazê-los voltar, a partir de amanhã, por um outro caminho.
tradução "Prions en Église”
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Um outro caminho
A liturgia da Palavra abre, sem dificuldades, muitas perspectivas. A visão do Profeta é ampla porque o desígnio de Deus é amplo como seu amor. Jerusalém é aqui o sinal deste amor iluminando todos os povos. Um amor manifestado no "mistério de Cristo" como lembra São Paulo em poucas linhas de impressionante densidade. Quanto aos magos "vindos do oriente" e guiados pela estrela, estes magos, com sua pergunta inocente e a oferta de seus presentes ao Menino, tornam-se sinal da manifestação de Cristo a todos os homens e sua aventura permanece exemplar. Assim, hoje ainda, quando individualmente, ou como família ou como Igreja, devemos lidar com ameaças que partem de fora ou de dentro, e uma luta frontal não nos é conveniente ou possível, podemos sair vitoriosos se nos deixamos guiar "por outro caminho"... o caminho do Evangelho.
tradução "Prions en Église”

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Maria e os Magos do oriente: Baltazar, Gaspar e Belchior
Suponhamos que a gente entra num quarto escuro. Ali dentro podem estar as coisas mais bonitas do mundo: cortinas todas bordadas, cadeiras e mesas envernizadas, relógios e quadros de pintura nas paredes, tudo bonito mesmo. Mas a gente não vê nada. Pode até machucar-se, esbarrando naqueles móveis.
Se a gente acende um fósforo ou uma vela, já vê os objetos. Já não tropeça nos móveis. Mas não vê ainda toda beleza deles. Só depois que a gente liga o interruptor da luz elétrica é que tudo fica claro. Aí a gente pode admirar tudo de bonito que existe dentro daquele quarto. Toda luz precisa de um combustível ou de um gerador.
O pau de fósforo, a cera da vela ou querosene da lamparina, são combustíveis que mantêm a luz acesa, à medida que vão se queimando. O gerador em movimento produz a eletricidade, que vai fazer a lâmpada clarear. No tempo da seca, a água diminui e fica fraca para tocar o gerador. Então a luz enfraquece. Fica parecendo um tição. Com luz ruim não dá para ler. Se a gente forçar dói e estraga a vista. Bem, chega de comparação. Guardem esses exemplos para gente meditar na explicação de hoje.
1ª leitura: "A glória do Senhor raia sobre ti" (Is. 60,1b)
A primeira parte desta leitura se situa no contexto do retorno, a Jerusalém, dos judeus que tinham sido exilados na Babilônia. Esse regresso jubiloso é comparado ao Sol nascente que surge radiante. Assim a escuridão que pairava sobre a cidade santa foi dissipada, graças à intervenção salvadora do Senhor, que fez brilhar a sua glória (cf. Is. 60,1 2). A segunda parte prenuncia o futuro da Nova Jerusalém. Como os exilados, na Babilônia, acorrem a Jerusalém como quem sai das trevas para a luz, assim, no futuro, todos os povos haverão de acorrer à Nova Jerusalém como lugar onde brilha a glória do Senhor para iluminar todas as gentes (cf. Is. 60,3 6). Esta leitura aplica se, perfeitamente, à epifania, se cristãmente interpretada, visto que a encarnação substitui, com excelência, o retorno da Babilônia como grande obra salvífica de Deus. Com a revelação de Deus em Jesus Cristo, a luz brilhou, de fato , na escuridão e a glória do Senhor resplandeceu no mundo. Assim, a peregrinação dos magos em busca de Jesus recém nascido realiza, simbolicamente, a profecia da afluência dos povos a Jerusalém (cf. Is 60,3-6).
2ª leitura: "Os gentios são coparticipantes da promessa em Cristo Jesus" (Ef 3,6b) Pauto dedicou todo seu ministério à unidade entre judeus e gentios. Quando a Carta aos Efésios foi escrita, tal unidade já era realidade consumada, como afirma o apóstolo: "Às gerações e aos homens do passado não foi dado a conhecer, como foi agora revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito: os gentios são co herdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Jesus Cristo pelo Evangelho" (Ef. 3,5b 6). Graças ao sucesso da pregação de Paulo, Mateus, que narra o evangelho para uma comunidade judaico cristã, pode apresentar o episódio dos reis magos para simbolizar a universalidade da mensagem do Evangelho.
Evangelho: Mt. 2,1 12 - "Onde está o rei dos judeus recém nascido?"
Os magos são movidos por um desejo: querem encontrar Jesus para adora-lo. Eles eram astrônomos. Especialmente no ambiente mesopotâmico, a astronomia e a astrologia tinham uma antiga tradição e gozavam de grande prestígio. Os acontecimentos do firmamento e os do mundo dos homens eram vistos em estreita relação recíproca. Tinha se a convicção de que, quem fosse entendido dos fenômenos do firmamento, podia compreender, também, a história humana e dar conselhos e orientações sobre ela.
Desde o tempo do exílio babilônico, havia muitos judeus no território mesopotâmico, por meio dos quais a religião e as esperanças judaicas se tornaram conhecidas. No âmbito de sua ciência, os magos recebem uma indicação sobre o nascimento do Messias e um impulso a pôr se a caminho. Eles sentem só o estímulo, mas não têm um itinerário definido; sabem inclusive a direção, mas ignoram o que lhes espera. Põem se, portanto, a caminho assumindo incertezas e riscos. Chegando a Jerusalém, pensavam ter chegado à meta, mas ali só encontram, por meio dos escribas, a revelação das Sagradas Escrituras que os remete a outro lugar: Belém da Judéia. Com efeito, toda busca humana permanece insuficiente e para no meio do caminho sem o concurso da Força do Alto, concretizada para os magos na revelação das Sagradas Escrituras. Recebida essa revelação, a estrela que os havia guiado a Jerusalém e ali desaparecera, de novo, reaparece, conduzindo os a Belém, até parar sobre o lugar em que estava o menino (cf. Mt. 2,9). A "atuação" divina, de fato, não suplanta e não substitui a busca humana, mas a potencializa, fecundando a da imensidão própria do ser humano cuja origem é um sopro divino (cf. Gn. 2,7)
Tendo encontrado o menino, os magos prostram se diante dele e, abrindo seus tesouros, oferecem lhe ouro, incenso e mirra. Assim, no menino pobre e indefeso, despojado de qualquer sinal de realeza, reconhecem o Senhor, Pastor e Rei de todos os povos.
Certamente, o tesouro aberto pelos magos foi seu coração, dando àquele "recém nascido" toda sua afeição, mais preciosa que o ouro refinado e mais perfumada que incenso e mirra. Por isso, voltaram às suas terras por outro caminho (cf. Mt. 2,12).
Pois quem encontra a iluminação cristã e lhe dedica toda afeição já não é o mesmo. Certas coisas que faz podem até ser as mesmas, mas as atitudes são diferentes. Seus caminhos podem ser os mesmos, mas não o modo de percorre-los. Já não se contenta com a antiga maneira de viver. A mudança se impõe por si mesma, qual lâmpada que incandesce desde dentro. Em contraste com a figura dos magos, surge a de Herodes, um rei tão obcecado que não hesitou em eliminar os três filhos por interesses de poder. Esse monarca cruel esconde sua rejeição brutal pelo menino Jesus, demonstrando um falso interesse de encontrá-lo com a ajuda dos magos. Tal rejeição é desmascarada pelo infanticídio, que depois desencadeou (cf. Mt. 2,16). Certamente, na teologia do Evangelho de Mateus, o contraste entre a atitude dos magos e a de Herodes antecipa, como que em amostragem, o destino de Jesus: será aceito e amado por alguns e rejeitado e odiado por outros. Em obras artísticas, ao longo da História, os magos foram, em geral, representados como um jovem, um adulto e um idoso; sendo um asiático, um europeu e um africano. Obviamente, isto não corresponde, literalmente, ao texto, mas ao espírito do Evangelho. Essa intuição comum revela que o Evangelho é destinado às pessoas de todas as idades e de todos os continentes. Assim, todos nós, quando, abrindo nosso coração, oferecemos a Jesus Cristo o tesouro de nossa afeição pondo nos, concretamente, em seu seguimento, torna-mo-nos autênticos destinatários de sua Boa Nova; quando isso acontece, realmente, não há dúvida de que voltamos para nossa vida por outro caminho (cf. Mt. 2,12).
Festa da Epifania
Estamos celebrando a segunda Epifania do Senhor, ou seja, o dia dos Santos Reis. Antes do Concílio Vaticano II esta festa era fixa no dia 06 de janeiro. Hoje em dia, é sempre no segundo domingo depois do Natal. E dia 06 não é mais dia santo de guarda.  A narrativa da visita dos magos a Belém é uma das passagens mais brilhantes de todo o Evangelho.
Tudo aí tem vida: A estrela, a caravana dos sábios do oriente, a consulta na corte de Herodes para saber onde tinha nascido o menino, os pormenores da chegada e da oferta dos presentes - ouro, incenso e mirra - o regresso por outros caminho, para se desviarem de Herodes e de suas intenções criminosas a respeito do menino.
A palavra epifania quer dizer “manifestação”. É o dia da manifestação de Jesus ao mundo. Hoje ele foi manifestado, ele foi mostrado ao mundo inteiro,
como o Senhor e Salvador nosso. Mas Jesus Cristo ainda precisa ser
mostrado ao mundo de hoje. É a nossa tarefa de cristãos. O cristão precisa ser esta luz que mostra Cristo para o mundo.
Quem eram os Reis Magos?
Eles não eram reis, mas, por influência das palavras da profecia de Isaías, acabaram sendo classificados como os três Reis Magos.
Vamos deter-nos em três singelas considerações que se nos oferecem a luz da estrela de Belém, neste dia da manifestação de Cristo ao mundo. A primeira é o fato de que ao entrarem os magos em Jerusalém e se dirigirem ao palácio de Herodes, desapareceu do céu a estrela. Como que para dizer que as pompas do mundo e as grandezas da terra obscurecem a luz da fé.
Essa luz não brilha para os que procuram o brilho das falsas grandezas.
Deus ilumina a alma de quem souber fazer-se pequeno e humilde. Quanta gente se esqueceu de Deus, por ter-se deixado ofuscar-se pelo brilho do ouro e do poder! E completando esta mesma consideração está um exemplo da cidade de Belém, tão grande na sua pequenez. Quando o sacerdote e escriba de Jerusalém foram pesquisar nas escrituras para saber em que lugar nasceria o Messias, encontraram a palavra do profeta Miquéias: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá pois de ti sairá alguém que será o guia que apascentará Israel, meu povo (Mq. 5,1; Mt. 2,6).
Jesus não nasceu em Jerusalém. Nem em Roma. Nem em Atenas. Nem em Alexandria. Nasceu numa pequenina cidade que os magos nem encontraram no mapa. Para nós, que estamos acostumados a dar valor só ao que é grande, aí está a lição de Deus. Já começa a se realizar a parábola da sementinha de mostarda. O filho de Deus, assumindo a condição humana, nasceu num lugar bem minúsculo. Mas seu Reino conquistou o mundo inteiro. Estendeu-se por todos os continentes da geografia e por todos os séculos da história. E hoje o mundo inteiro celebra seu nascimento. O nascimento do Salvador! Ninguém é tão grande como ele. Sobretudo dentro do coração do homem.
E, finalmente, uma terceira consideração neste dia da manifestação de Cristo é este: O mundo ainda não viu a beleza de Jesus cristo. Infelizmente a pessoa divina de nosso Senhor Jesus Cristo, as palavras maravilhosas que Ele falou, a doutrina e os exemplos de Cristo, tudo isto parece que está fechado dentro de um quarto escuro.
O mundo ainda não descobriu a beleza de seguir o nosso mestre. Dois mil anos depois que Jesus nasceu em Belém, ele ainda é desconhecido da maior parte dos homens. Dois terços da humanidade quer dizer,muito mais da metade do mundo, não conhece Cristo e daquela parte que é batizada, são poucos ainda que começaram a descobrir a beleza que existe dentro do cristianismo. Cristo ainda é um desconhecido no nosso mundo. Está no meio de nós e nós não o enxergamos. Falta luz ou estamos cegos?
Nós precisamos ser uma luz que mostra Cristo ao mundo. Igual àquela estrela que levou os magos até o encontro de Cristo, assim é, ou deve ser cada um de nós que formamos a Igreja comunidade. Existe um ditado muito certo, que fala assim: “O que os olhos não vêem o coração não deseja”.
Se o pessoal não enxerga as maravilhas que existem em Jesus, no Evangelho e na vida cristã, ninguém vai desejar ser cristão. Então o que está faltando é luz. Estamos sendo lâmpadas apagadas ou muito fracas.
Nossa comunidade não está clareando nada ou quase nada. Parece um tição. O dia em que a nossa comunidade clarear bem, então, todo mundo vai ver tudo de bom que está escondido no cristianismo e todo mundo vai descobrir o Cristo e viver como cristãos.
Os magos são exemplos para nós nesse sentido. Precisamos ser iluminados para iluminar. Sabemos que o exemplo é uma luz muito mais forte do que as palavras. Diz o ditado: “As palavras comovem, mas os exemplos arrastam”.
Os escribas tinham a luz da Palavra de Deus. Sabiam de cor e salteado a Bíblia. Sabiam até onde Jesus ia nascer. Mas não quiseram ir a Belém.
Nem falemos de Herodes que queria ir, mas era para matar o Menino Jesus.
Os magos tiveram a luz da palavra. Vendo a estrela, descobriram o sinal de Deus. E foram logo fazer o que Deus queria deles. Assim precisa ser cada um de nós dentro da comunidade. Iluminados pela Palavra de Deus. Refletindo nas coisas que aqui acontecem, descobrimos o que Deus quer de nós. E com sua graça, vamos realizar.
Dentro dos cofres, os magos tinham ouro, incenso e mirra. Representam o combustível que faz a nossa comunidade ser luz boa. O ouro é o amor e a caridade. O incenso é a oração e a alegria. E a mirra são os trabalhos
e sofrimentos da vida. Se falta isto é como faltar combustível ou água no gerador. Não iluminamos ninguém. Somos luz morteira. Ou nem somos luz coisa nenhuma. Nossa missão de comunidade cristã é ser luz viva, para todo mundo ver as maravilhas escondidas em Cristo Jesus.

SEGUNDA HOMILIA

Festa da Epifania do Senhor
Mt. 2, 1-12: “Ajoelharam-se diante dele e lhe prestaram homenagem”
Hoje celebramos uma das grandes festas do Ciclo de Natal - a Manifestação do Senhor (“Epifania” em grego), onde comemoramos o fato de que Jesus foi manifestado não somente ao seu próprio povo, mas a todos os povos, representados pelos Magos do Oriente. Além da sua grande popularidade folclórica, a festa celebra uma grande verdade da fé - que a salvação em Jesus é destinada a todos os povos, sem distinção de raça, cor ou religião. Retomando a grande intuição do profeta Isaías, celebramos hoje a salvação universal em Jesus.
O texto de hoje é altamente simbólico - usa uma técnica da literatura judaica chamada “midrash”, ou seja, uma releitura de passagens bíblicas, com o intuito de atualizá-las. Assim, Mateus quer ensinar algo sobre Jesus, usando figuras e símbolos tirados de diversos textos do Antigo Testamento. Por exemplo: Vêm os magos (nem três, nem reis, segundo o texto!) buscando o Rei dos Judeus. Esses magos nos lembram dos magos que enfrentavam e foram derrotados por Moisés (Ex. 7,11.22; 8,3.14-15; 9,11) e acabaram reconhecendo o poder de Deus nas maravilhas feitas por Ele.
A estrela é sinal da vinda do Messias, prevista na profecia de Balaão (Nm. 24,17).
O menino nasce em Belém, segundo a profecia de Miquéias (Mq. 5,1).
Os presentes lembram as profecias de Isaías sobre os estrangeiros que viriam a Jerusalém trazendo presentes para Deus (Is. 49,23; 60,5; também Sl. 72,10-11).
Herodes é o novo Faraó, que também massacra os filhos do povo de Deus (Êx 1,8.16).
O texto chama a atenção pelas reações diferentes diante do acontecido. Os que deveriam reconhecer o Messias - pois são versados nas escrituras - ficam alarmados, pois para eles, opressores do povo através do abuso da religião e da política, Jesus e a sua mensagem constituem uma ameaça. Outros, pagãos do oriente, buscando sem ter certeza, arriscam muito para descobrir o verdadeiro Deus, e entregam-lhe presentes, sinais da partilha que será característica do Reino que Jesus veio pregar.
Hoje em dia, verificam-se as mesmas reações diante de Jesus e do seu Evangelho. Muitos querem reduzir os eventos religiosos a algo folclórico com shows e cantos, mas que de forma alguma deve questionar a nossa sociedade e os seus valores. Para outros, o menino na estrebaria é um sinal do novo projeto de Deus, o mundo fraterno, onde todos as pessoas de boa vontade têm que se unir, seja qual for a sua raça, nação, gênero ou religião, para construir a fraternidade que Deus quer.
Jesus não precisa de presentes, mas sim do nosso esforço na vivência do seu Reino. Não paremos numa explicação sentimental dos eventos das narrativas da Infância de Jesus, mas procuremos penetrar no seu sentido mais profundo. Pois, na prática, temos que optar, ou pela a vivência religiosa vazia, como a de Herodes e dos Sumos Sacerdotes, ou pela mensagem libertadora do Menino de Belém, que convoca a todos, representados pelos magos, para a construção do mundo de paz, fraternidade e justiça, pois Jesus veio para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente.” (Jo. 10,10).
A festa de hoje é altamente missionária, pois é a manifestação de Jesus às nações. É uma boa oportunidade para retomarmos os apelos do Documento de Aparecida, que conclama à uma missão renovada, onde todos os cristãos saem dos limites das suas comunidades de fé, para levar o Evangelho especialmente aos mais afastados. Temos muito a caminhar ainda, mas o início foi feito, para que cheguemos a um Brasil não somente de batizados, mas de discípulos-missionários.
padre Lucas de Paula Almeida, CM

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