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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A cura do leproso

6º DOMINGO TEMPO COMUM

15 de Fevereiro de 2015 - Ano B

Comentários Prof.Fernando


Evangelho - Mc 1,40-45

-A CURA DO LEPROSO-José Salviano


  Naquele tempo, curar um leproso era como ressuscitar um morto . Porque na mentalidade de todos, um leproso já era uma pessoa condenada a morte, já estava portanto morto, ser leproso era o mesmo que já está morto. Continua


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“EU QUERO: FICA CURADO!” – Olívia Coutinho

6º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 15 de Fevereiro de 2015

Evangelho de Mc1,40-45
     
O ponto determinante de todos os ensinamentos de Jesus é o amor! Jesus era movido pelo o amor, por onde Ele passava, a sua presença exalava amor, todas as suas ações se convergiam para o bem das pessoas, principalmente para o bem daqueles que o mundo desprezava!
Como continuadores de Jesus aqui na terra, não podemos ficar indiferentes ao sofrimento dos nossos irmãos e nem deixar que elesdesconheçam a verdade que liberta!
Podemos ter fé, mas se não aplicarmos na nossa vida, os ditos e feitos de Jesus, não daremos testemunho do seu amor no mundo, portanto, o reino de Deus não acontecerá através de nós! O Reino de Deus só acontece através de nós, quando nos tornamos fonte de libertação para o outro, quando reabilitamos os marginalizados eliminando as trevas de sua vida!
O evangelho que a liturgia deste domingo nos apresenta, continua narrando as ações vivificantes de Jesus, a sua compaixão para os que sofrem! Desta vez, quem se beneficia desta ação libertadora de Jesus é um homem acometido por uma doença que não só lhe causava feridas no corpo como também feridas profundas na alma: a lepra.
A lepra, (hoje hanseníase) era uma doença incurável, quem contraia esta doença, era considerado impuro, condenado ao isolamento, a viver fora do convívio social, religioso e familiar e quando alguém se livrava deste mal, a sua cura era considerada como obra exclusiva de Deus.
Em Jesus, aquele leproso enxergou a sua única possibilidade de cura, por isto ele não hesitou em infringir as leis para chegar até a Ele. Prostrado a seus pés ele diz: “Se queres, tens o poder de curar-me.” E Contrariando as leis que proibia qualquer contato com os leprosos, Jesus, não somente permite que o leproso aproxime Dele, como também toca nele dizendo: “Eu quero: fica curado!”
Ao ser curado, aquele homem, antes excluído, sente abraçado por Deus, experimentando no corpo e na alma a ação vivificante de Jesus, recobrando para além da sua vida física, a sua vida social e religiosa. Superada a marginalização, e completamente revestido da graça de Deus, ele vê abrir diante de si, novas perspectivas! E mesmo sendo recomendado para não espalhar o acontecido, o “leproso” não conseguiu guardar para si, tamanha alegria! Ao sair dali, ele proclama o nome de Jesus com o seu testemunho, mostrando-nos que pela ela fé, é possível vencer todos os obstáculos que nos impede de aproximarmos de Jesus, de sermos tocado por Ele. A fé abre caminhos, nos coloca diante de Jesus, como colocou aquele leproso.
Para absorvermos melhor a mensagem que o evangelista quer nos passar, é importante nos colocarmos dentro do contexto, sentir a mesma alegria de quem é libertado por Jesus, é esta alegria que vai nos motivar a sermos continuadores e multiplicadores das ações vivificantes de Jesus.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho            
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Para nos guiar na meditação da Palavra de Deus deste hoje, tomemos o Evangelho que acabamos de ouvir. “Um leproso chegou perto de Jesus”. No tempo de Cristo, toda doença na pele que oferecesse perigo de contágio era considerada um tipo de lepra; tornava a pessoa impura. Ouvimos na primeira leitura: “O homem atingido por esse mal andará com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! Impuro!’ Durante todo o tempo em que estiver leproso será impuro; e, sendo impuro, deve ficar isolado e morar fora do acampamento”. Eis! É alguém assim que se aproxima de Jesus: ferido, excluído do convívio da Assembléia de Israel, colocado fora da Cidade, um morto-vivo... Um leproso não podia tocar as pessoas: elas se tornariam impuras como ele; um leproso não convivia com sua família, não podia entrar na Casa do Senhor para rezar com seus irmãos: era um ninguém: “Impuro! Impuro!” – ele gritava, com a barba coberta em sinal de luto e profunda tristeza...
É um homem assim que se aproxima de Jesus; tem a ousadia de chegar junto dele, sem medo de ser repelido, repreendido, desprezado. E, do fundo de sua miséria, ele suplica: “Se queres, tens o poder de curar-me”. Quanta confiança, quanta esperança! Que oração brotada do mais profundo da dor! O que fará Jesus? Sua reação é absolutamente inesperada: ele faz algo que a Lei proibia: “Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: ‘Eu quero: fica curado!” Notai, irmãos! O Senhor estendeu a mão, o Senhor tocou o leproso! Não precisava fazê-lo, não deveria fazê-lo! Segundo a Lei, Jesus deveria ficar impuro também, ao menos até o entardecer... Por que tocou o leproso? Não poderia tê-lo curado sem tocá-lo? O próprio Evangelho explica: ele teve compaixão! Quis estar próximo daquele miserável, quis que ele se sentisse amado, acolhido! Jesus não nos ama de longe, não vê de modo indiferente a nossa miséria: ele se faz próximo, ele nos toca, ele compartilha nossa dor! Assim Deus faz conosco! E, para nossa surpresa, ao invés da impureza contagiar Jesus, é Jesus que contagia o leproso com a sua pureza! Eis! O Reino chegou: em Jesus, Deus vai libertando a humanidade de toda sua lepra, da lepra do seu pecado! Na ação de Jesus, compreendemos que o amor é mais forte que o egoísmo, que a luz é mais forte que a treva, que o bem é mais forte que o mal, que a graça é mais poderosa que o pecado, que a vida é capaz de vencer a morte! “No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado”. Eis o bem, eis a graça, eis a salvação que o Senhor nos veio trazer! O profeta Isaías, havia anunciado: “Ele tomou sobre si as nossas dores, ele carregou-se com os nossos pecados! Era nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nossas dores que ele carregava (Is. 53,4-5). Jesus curou o leproso e o Evangelho diz que ele “não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos.” Vede bem que, com essa linguagem, o Evangelho deseja afirmar que Cristo, curando o leproso, assumiu o seu lugar: agora, o homem que antes vivia nos lugares desertos, entra na cidade, volta a ser alguém; quanto a Jesus, fica fora, assume o lugar do homem: tomou sobre si as nossas dores!
Um grande mal da nossa época, uma grande ilusão, é achar que não temos pecado, pensar que somos maduros e integrados. Não somos capazes de reconhecer nossas lepras, somos incapazes de suplicar, de joelhos: “Senhor, se queres, podes curar-me!” E por que isso? Porque somos auto-suficientes: olhamo-nos, examinamo-nos não à luz do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, mas à luz de nós mesmos. Pensamos que somos senhores do bem e do mal, do certo e do errado! É tão comum vivermos de modo contrário à vontade do Senhor e ainda, cheios de orgulho e soberba, dizermos que estamos certos... É tão comum querermos moldar Jesus e a sua Palavra à nossa vontade... É tão freqüente a ilusão que podemos jogar na lata do lixo o ensinamento da Igreja, sobretudo no campo moral... E assim, vamos construindo nossa vidinha do nosso modo, modo de pecado, modo de lepra, modo de doença: doença da ida, da descrença, da indiferença, da falta de fé!
Reconheçamo-nos pecadores, meus caros! Mostremos ao Senhor a nossa lepra? Como fazê-lo? Primeiramente, deixando que sua Palavra nos fale e nos mostre nossos erros, nossas manhas, nossos males. Depois, à luz da Palavra do Senhor, façamos, com freqüência, o sincero exame de consciência e tenhamos a coragem de olhar de frente o que pensamos, falamos e fazemos contrário ao Senhor. Finalmente, sinceramente arrependidos, procuremos o Senhor no sacramento da Confissão e, confessando nossos pecados, busquemos o perdão, a cura do Cristo, nosso Deus. Quantas vezes evitamos a Confissão! Quantas vezes fugimos na tal da Confissão comunitária, desobedecendo às normas da Igreja, que só a permitem em casos raros e graves. A confissão, então é inválida e acrescentamos aos pecados cometidos, mais estes: a desobediência à norma de Igreja e a soberba de nos julgar auto-suficientes. Deveríamos aprender do Salmista, na missa de hoje: “Eu confessei, afinal, meu pecado, e minha falta vos fiz conhecer. Disse: ‘Eu irei confessar meu pecado!’ E perdoastes, Senhor, minha falta!” Mas, não! Teimamos em não levar a sério nosso próprio pecado! Julgamo-nos juízes de Deus e da Igreja! Terminamos, então por comungar indignamente, esquecendo que a Eucaristia, se traz vida para quem a recebe bem, traz também morte para quem não a recebe com as devidas disposições...
Chega de um cristianismo morno, chega da falta de coragem de nos olharmos de frente! Senhor, cura-nos! Senhor, somos leprosos, somos pecadores, nossos pecados mancham não a nossa pele, mas o nosso coração, o mais profundo da nossa alma! Senhor, de joelhos, como o leproso do Evangelho, te suplicamos: cura-nos e seremos curados! Dá-nos a graça de reconhecer nossos pecados; reconhecendo-os, dá-nos a coragem e sinceridade de confessá-los; confessando-os, dá-nos a graça de experimentar teu perdão, de cumprir generosamente a penitência e de procurar com responsabilidade emendar a nossa vida! Tem piedade de nós, ó Autor da graça e Doador do perdão! A ti a glória para sempre!
dom Henrique Soares da Costa

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A liturgia do 6º domingo do tempo comum apresenta-nos um Deus cheio de amor, de bondade e de ternura, que convida todos os homens e todas as mulheres a integrar a comunidade dos filhos amados de Deus. Ele não exclui ninguém nem aceita que, em seu nome, se inventem sistemas de discriminação ou de marginalização dos irmãos.
A primeira leitura apresenta-nos a legislação que definia a forma de tratar com os leprosos. Impressiona como, a partir de uma imagem deturpada de Deus, os homens são capazes de inventar mecanismos de discriminação e de rejeição em nome de Deus.
O Evangelho diz-nos que, em Jesus, Deus desce ao encontro dos seus filhos vítimas da rejeição e da exclusão, compadece-Se da sua miséria, estende-lhes a mão com amor, liberta-os dos seus sofrimentos, convida-os a integrar a comunidade do “Reino”. Deus não pactua com a discriminação e denuncia como contrários aos seus projetos todos os mecanismos de opressão dos irmãos.
A segunda leitura convida os cristãos a terem como prioridade a glória de Deus e o serviço dos irmãos. O exemplo supremo deve ser o de Cristo, que viveu na obediência incondicional aos projetos do Pai e fez da sua vida um dom de amor, ao serviço da libertação dos homens.
1ª leitura – Lev. 13,1-2.44-46 – AMBIENTE
O Livro do Levítico trata, sobretudo, de questões relacionadas com o culto (que era incumbência dos sacerdotes, considerados membros da tribo de Levi). Literariamente, o livro apresenta-se como um conjunto de discursos que Jahwéh teria feito a Moisés no Sinai e nos quais teria explicado ao Povo o que este deveria fazer para viver sempre em comunhão com Deus, no âmbito da Aliança.
Na realidade, o livro apresenta um conjunto de leis, de preceitos, de ritos de épocas e proveniências diversas, reunidos ao longo de vários séculos e reelaborados pelos teólogos da “escola sacerdotal”. A grande maioria dessas leis, ritos e preceitos dizem respeito à vida cultual e pretendem ensinar os israelitas a viver como Povo de Deus e a responder, de forma adequada, ao amor e à solicitude do Deus da Aliança. Fundamentalmente, o Levítico preocupa-se em instilar na consciência dos fiéis que a comunhão com o Deus vivo é a verdadeira vocação do homem.
O texto que nos é proposto pertence à terceira parte do Livro do Levítico (cf. Lv. 11-16), conhecida como “lei da pureza”. Aí, apresentam-se os vários gêneros de “impureza” que impedem o homem de se aproximar do santuário, bem como os ritos destinados a “purificar” o homem.
A noção de pureza ou de impureza que aparece no Livro do Levítico está muito próxima da noção de “tabu” que os especialistas da história das religiões conhecem bem. Supõe-se que o homem deseja a sua vida balizada por regras bem definidas, que o protejam da angústia e do risco do desconhecido. Tudo o que é excepcional, anormal, insólito, misterioso, destrói a harmonia e o equilíbrio e pode libertar forças incontroláveis que o homem não domina.
Desde tempos imemoriais, certos “tabus” interditavam aos israelitas o contacto com determinadas realidades (o sangue, um cadáver, certos tipos de alimentos, etc.). Se o homem entrava em contacto com essas realidades, ficava “impuro”. O contacto com a “impureza” não era pecado; mas o homem devia “limpar” a “impureza” contraída, logo que possível. Só depois de purificado (isto é, de eliminado o estado de indignidade em que se encontrava), podia voltar a aproximar-se do Deus santo e a estabelecer comunhão com Ele.
O caso mais grave de “impureza” era causado por uma doença – a lepra. É a essa realidade que o nosso texto se refere.
MENSAGEM
O nosso texto estabelece o procedimento a adotar, no caso de alguém contrair a “lepra”… A palavra “lepra” designa, aqui, um conjunto variado de afecções da pele, e não somente a doença que nós conhecemos, atualmente, com esse nome. No geral, utiliza-se a palavra “lepra” para designar vários tipos de enfermidade da pele, que deformam a aparência do homem.
Esse leque de afecções aqui catalogado sob o nome geral de “lepra” é visto como um estado insólito e anormal, uma manifestação de forças misteriosas, inquietantes e ameaçadoras que ameaçam a harmonia e o equilíbrio da existência do homem.
O “leproso” era, em consequência, segregado e afastado da convivência diária com as outras pessoas. Tal medida tinha, naturalmente, uma intenção higiênica e pretendia evitar o contágio. Significava, também, a dificuldade da comunidade em lidar com o insólito, o estranho, as forças misteriosas e inquietantes da doença (e, aqui, de uma doença particularmente repugnante). Mas, sobretudo, a exclusão dos “leprosos” da comunidade tinha razões religiosas… Para a mentalidade tradicional do povo bíblico, Deus distribuía as suas recompensas e os seus castigos de acordo com o comportamento do homem. A doença era sempre um castigo de Deus para os pecados e infidelidades do homem. Ora, uma doença tão assustadora e repugnante como a “lepra” era tida como um castigo terrível para um pecado especialmente grave. O “leproso” era considerado, portanto, um pecador, especialmente amaldiçoado por Deus, indigno de pertencer à comunidade do Povo de Deus e que em nenhum caso podia ser admitido às assembléias onde Israel celebrava o culto na presença do Deus santo.
Porque é que o “leproso” devia apresentar-se ao sacerdote? Quando alguém exteriorizava sinais de pecado e de indignidade, devia ser banido pelas autoridades competentes (os sacerdotes) da comunidade santa. O sacerdote não aplica remédios nem tem funções terapêuticas (embora a sua função devesse ajudar a controlar o mal e a impedir o contágio). A sua ação destina-se, sobretudo, a decidir da capacidade ou da incapacidade de alguém para integrar a comunidade do Povo de Deus e para ser admitido à presença do Deus santo.
O que é aqui especialmente grave e assustador é como, em nome de Deus e da santidade do Povo de Deus, se criam mecanismos de rejeição, de exclusão, de marginalização.
ATUALIZAÇÃO
• A primeira leitura do 6º Domingo do Tempo Comum não contém propriamente um ensinamento claro e direto acerca de Deus ou acerca do comportamento do homem face a Deus. No entanto, ela tem o seu valor e a sua importância: prepara-nos para entender a novidade de Jesus, essa novidade que o Evangelho de hoje nos apresenta. Jesus virá demonstrar que Deus não marginaliza nem exclui ninguém e que todos os homens são chamados a integrar a família dos filhos de Deus.
• Indiretamente, o nosso texto denuncia a atitude daqueles que, instalados nas suas certezas e seguranças, constroem um Deus à medida do homem e que atua segundo uma lógica humana, injusta, prepotente, criadora de exclusão e de marginalização. Não temos que criar um Deus que atue de acordo com os nossos esquemas mentais, com as nossas lógicas e preconceitos; o que temos é de tentar perceber e acolher a lógica de Deus.
• Indiretamente, o nosso texto convida-nos a repensar as nossas atitudes e comportamentos face aos nossos irmãos. Não será possível que os nossos preconceitos, a nossa preocupação com o legalismo, a nossa obsessão pelo politicamente correto estejam a criar marginalização e exclusão para os nossos irmãos? Não pode acontecer que, em nome de Deus, dos “sãos princípios”, da “verdadeira doutrina”, das exigências de radicalidade, estejamos a afastar as pessoas, a condená-las, a catalogá-las, a impedi-las de fazer uma verdadeira experiência de Deus e de comunidade?
2ª leitura – 1Cor. 10,31-11,1 - AMBIENTE
O texto que hoje nos é proposto é a conclusão do ensinamento sobre a atitude a tomar face ao problema de comer ou não comer a carne dos animais imolados aos ídolos (cf. 1Cor. 8-10). Já vimos, a propósito da segunda leitura do passado domingo, os dados da questão… Uma parte da carne dos animais imolados nos templos pagãos era comercializada. Os cristãos, naturalmente, compravam essa carne e usavam-na na alimentação do dia a dia. No entanto, tal situação não deixava de suscitar algumas questões: comprar essas carnes e comê-las – como toda a gente fazia – era, de alguma forma, comprometer-se com os cultos idolátricos. Isso era lícito?
Vimos também a resposta de Paulo: dado que os ídolos não são nada, comer dessa carne é indiferente; contudo, deve-se evitar escandalizar os mais débeis na fé: se houver esse perigo, evite-se comer da carne sacrificada nos santuários pagãos, a fim de não faltar à caridade.
Na conclusão da sua reflexão sobre o tema, Paulo retoma e enuncia os dados fundamentais que apresentou anteriormente.
MENSAGEM
Na questão do comer as carnes dos animais imolados nos templos pagãos, como em todas as outras questões, há um duplo critério que os cristãos devem ter sempre presente: em qualquer atividade, mesmo nas mais neutras, os crentes devem ter em conta a “glória de Deus”; e devem ter em conta, também, o bem dos irmãos. O cristão é livre em tudo aquilo que não atenta contra a sua fé e contra os valores do Evangelho; mas pode, por vezes, ser convidado a prescindir dos seus direitos e da sua liberdade em função de um bem maior e que é o amor dos irmãos. A lei do amor deve sobrepor-se a tudo o resto, inclusive aos “direitos” de cada um; e o amor pode exigir que não sejamos, em nenhum caso, um obstáculo nem para a glória de Deus, nem para a salvação dos irmãos.
De resto, os cristãos de Corinto têm o exemplo do próprio Paulo. Ele não procura o seu próprio interesse, a realização dos seus projetos pessoais ou a salvaguarda dos seus direitos, mas o bem de todos os irmãos. Nisto, Paulo imita Cristo, que não procurou cumprir a sua vontade, mas a vontade do Pai e que morreu na cruz por amor aos homens, a fim de lhes apontar um caminho de salvação. Cristo renunciou aos seus direitos e prerrogativas divinas por amor e para que se concretizasse o projeto de salvação que Deus tinha para os homens. Para Paulo, o exemplo de Cristo é a fonte inspiradora que tem condicionado as suas atitudes e comportamentos para com os irmãos… E os crentes de Corinto (e das comunidades cristãs de todas as épocas e lugares) são convidados a viver do mesmo jeito.
ATUALIZAÇÃO
• A liberdade é um valor absoluto? Devemos defender e afirmar intransigentemente os nossos direitos em todas as circunstâncias? A realização dos nossos projetos pessoais deve ser a nossa principal prioridade? Paulo deixa claro que, para o cristão, o valor absoluto e ao qual tudo o resto se deve subordinar é o amor. O cristão sabe que, em certas circunstâncias, pode ser convidado a renunciar aos próprios direitos, à própria liberdade, aos próprios projetos porque a caridade ou o bem dos irmãos assim o exigem. Mesmo que um determinado comportamento seja legítimo, o cristão deve evitá-lo se esse comportamento faz mal a alguém.
• A propósito, Paulo refere o exemplo de Cristo, a quem todo o cristão – a começar pelo próprio Paulo – deve imitar. Na verdade, Cristo colocou sempre como prioridade absoluta os planos de Deus (“Abbá, Pai, tudo Te é possível; afasta de Mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres” – Mc 14,36); e, apesar de ser “mestre” e “Senhor”, multiplicou os gestos de serviço e fez da sua vida uma entrega total aos homens, até à morte. É este mesmo caminho que nos é proposto… Cada cristão deve ser capaz de prescindir dos seus interesses e esquemas pessoais, a fim de dar prioridade aos projetos de Deus; cada cristão deve ser capaz de ultrapassar o egoísmo e o comodismo, a fim de fazer da sua própria vida um serviço e um dom de amor aos irmãos.
Evangelho – Mc. 1,40-45 - AMBIENTE
No episódio que o Evangelho de hoje nos propõe, Jesus continua a cumprir a missão que o Pai lhe confiou e a anunciar o “Reino”. A proposta do “Reino” torna-se uma realidade no mundo e na vida dos homens, não só nas palavras, mas também nos gestos de Jesus.
A cena coloca Jesus frente a um leproso, num sítio e num lugar não nomeado. A primeira leitura deste domingo deu-nos conta da situação social e religiosa do leproso… Para a ideologia oficial, o leproso era um pecador e um maldito, vítima de um particularmente doloroso castigo de Deus. A sua condição excluía-o da comunidade e impedia-o de frequentar a assembleia do Povo de Deus. Tinha que viver isolado, apresentar-se andrajoso e avisar, aos gritos, o seu estado de impureza, a fim de que ninguém se aproximasse dele. Não tinha acesso ao Templo, nem sequer à cidade santa de Jerusalém, a fim de não conspurcar, com a sua impureza, o lugar sagrado. O leproso era o protótipo do marginalizado, do excluído, do segregado. A sua condição afastava-o, não só da comunidade dos homens, mas também do próprio Deus.
MENSAGEM
Um leproso – isto é, um homem doente, marginalizado da comunidade santa do Povo de Deus, considerado pecador e maldito – vem “ter com Jesus”. Provavelmente tinham chegado até ele ecos do anúncio do “Reino” e a pregação de Jesus tinha-lhe aberto um horizonte de esperança. O desejo de sair da situação de miséria e de marginalidade em que estava mergulhado vence o medo de infringir a Lei e ele aproxima-se de Jesus, sem respeitar as distâncias que um leproso devia manter das pessoas sãs. O pormenor dá conta do seu desespero e mostra a sua decisão em mudar a sua triste situação. Uma vez diante de Jesus, o leproso é humilde, mas insistente (“prostrou-se de joelhos e suplicou-lhe” – v. 40), pois o encontro com Jesus é uma oportunidade de libertação que ele não pode desperdiçar. O que ele pretende de Jesus não é apenas ser curado, mas ser “purificado” dessa enfermidade que o torna impuro e indigno de pertencer à comunidade de Deus e à comunidade dos homens («se quiseres podes “purificar-me”» – v. 40; o verbo grego “katharidzô” aqui utilizado não deve traduzir-se como “curar”, mas sim como “purificar” ou “limpar”). Ele confia no poder de Jesus, sabe que só Jesus pode ajudá-lo a superar a sua triste situação de miséria, de isolamento e de indignidade.
A reação de Jesus é estranha, pelo menos de acordo com os padrões judaicos. Em lugar de se afastar do leproso e de o acusar de infringir a Lei, Jesus olha-o “compadecido”, estende a mão e toca-lhe (v. 41).
O verbo “compadecer-se” é aplicado, na literatura neo-testamentária, só a Deus e a Jesus. Habitualmente, é usado em contextos onde se refere a ternura de Deus pelos homens… Jesus é apresentado, assim, como o Deus com um coração cheio de amor pelos seus filhos, que Se “compadece” face à miséria e sofrimento dos homens.
Depois, o amor de Deus tornado presente em Jesus vai manifestar-se num gesto concreto para com o leproso… Jesus estende a mão e toca-o. É, evidentemente, um gesto “humano”, que manifesta a bondade e a solidariedade de Jesus para com o homem; mas o gesto de estender a mão tem um profundo significado teológico, pois é o gesto que acompanha, na história do Êxodo, as ações libertadoras de Deus em favor do seu Povo (cf. Ex. 3,20;6,8;8,1;9,22;10,12;14,16.21.26-27; etc.). O amor de Deus manifesta-se como gesto libertador, que salva o homem leproso da escravidão em que a doença o havia lançado.
Por outro lado, ao tocar o leproso, Jesus está a infringir a Lei. Dessa forma, Ele denuncia uma Lei que criava marginalização e exclusão. Jesus, com a autoridade que Lhe vem de Deus, mostra que a marginalização imposta pela Lei não expressa a vontade de Deus. O gesto de tocar o leproso mostra que a distinção entre puro e impuro consagrada pela Lei não vem de Deus e não transmite a lógica de Deus; mostra que Deus não discrimina ninguém, que Ele quer amar e oferecer a liberdade a todos os seus filhos e que a todos Ele convida a integrar a família do “Reino”, a nova humanidade.
A resposta verbal de Jesus (“quero: fica limpo” – v. 41) não acrescenta mais nada; apenas confirma o seu gesto. Mostra, por palavras, que, do ponto de vista de Deus, o leproso não é um marginal, um pecador condenado, um homem indigno, mas um filho amado a quem Deus quer oferecer a salvação e a vida plena.
A purificação do leproso significa, em primeiro lugar, que o “Reino de Deus” chegou ao meio dos homens e anuncia a irrupção desse mundo novo do qual Deus quer banir o sofrimento, a marginalização, a exclusão.
A purificação do leproso significa, também, a desmontagem da teologia oficial que considerava o leproso um maldito. Não é verdade – parece dizer o gesto de Jesus – que o leproso seja um impuro, um abandonado pela misericórdia de Deus, um prisioneiro do pecado, abandonado por Deus nas mãos das forças demoníacas. A misericórdia, a bondade, a ternura de Deus derramam-se sobre o leproso no gesto salvador de Jesus e dizem-lhe: “Deus ama-te e quer salvar-te”.
A purificação do leproso significa, finalmente, que o Reino de Deus não pactua com racismos de qualquer espécie: não há bons e maus, doentes e sãos, filhos e enjeitados, incluídos e excluídos; há apenas pessoas com dignidade e que não devem, em caso algum, ser privados dos seus direitos mais elementares, muito menos em nome de Deus.
Consumada a purificação do leproso, Jesus recomenda-lhe veementemente que não diga nada a ninguém (v. 44). Esta recomendação de Jesus aparece várias vezes no Evangelho segundo Marcos (cf. Mc. 1,34;5,43;7,36;7,36; etc.). Provavelmente, é um dado histórico, que resulta do fato de Jesus não querer gerar equívocos ou ser aceite pelas razões erradas. De acordo com Mt 11,5, a cura dos leprosos era uma obra do Messias; assim, o gesto de Jesus define-O como o Messias esperado. No entanto, numa Palestina em plena febre messiânica, Jesus pretende evitar um título que tem algo de ambíguo, por estar ligado a perspectivas nacionalistas e a sonhos de luta política contra o ocupante romano. Jesus não quer deitar mais lenha para a fogueira da esperança messiânica, pois tem consciência de que o seu messianismo não passa por um trono político (como sonhavam as multidões), mas pela cruz. Jesus é o Messias, mas o Messias-servo, que veio ao encontro dos homens para lhes transmitir o projeto salvador do Pai e para os libertar das cadeias da opressão. O seu caminho passa pelo sofrimento e pela morte. O seu trono é a cruz, expressão máxima de uma vida feita amor e entrega.
Ao leproso purificado, Jesus diz para ir mostrar-se aos sacerdotes (v. 44). Segundo a Lei, o leproso só podia ser reintegrado na comunidade religiosa depois de a sua cura ter sido homologada pelo sacerdote em funções no Templo. No entanto, Jesus acrescenta: “para lhes servir de testemunho”. Dado que a cura de um leproso só podia ser operada por Deus e era, por isso, um sinal messiânico, o fato devia servir aos líderes do Povo para concluírem que o Messias tinha chegado e que o “Reino de Deus” estava já presente no meio do mundo. O leproso purificado devia, portanto, ser um “testemunho” da presença de Deus no meio do seu Povo e um sinal de que os novos tempos tinham chegado. Apesar das evidências, os líderes judaicos estavam demasiado entrincheirados nas suas certezas, preconceitos e privilégios e recusaram-se sempre a acolher a novidade de Deus, a novidade do Reino.
O texto termina com a indicação de que o leproso purificado “começou a apregoar e a divulgar o que acontecera”, apesar do silêncio que Jesus lhe impusera. Marcos quer, provavelmente, sugerir que quem experimenta o poder integrador e salvador de Jesus converte-se necessariamente em profeta e em testemunha do amor e da bondade de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• O nosso texto fala-nos de um Deus cheio de amor, de bondade e de ternura, que Se faz pessoa e que desce ao encontro dos seus filhos, que lhes apresenta propostas de vida nova e que os convida a viver em comunhão com Ele e a integrar a sua família. É um Deus que não exclui ninguém e que não aceita que, em seu nome, se inventem sistemas de discriminação ou de marginalização dos irmãos. Às vezes há pessoas (quase sempre bem intencionadas) que inventam mecanismos de exclusão, de segregação, de sofrimento, em nome de um Deus severo, intolerante, distante, incapaz de compreender os limites e as fragilidades do homem. Trata-se de um atentado contra Deus. O Deus que somos convidados a descobrir, a amar, a testemunhar no mundo, é o Deus de Jesus Cristo – isto é, esse Deus que vem ao encontro de cada homem, que Se compadece do seu sofrimento, que lhe estende a mão com ternura, que o purifica, que lhe oferece uma nova vida e que o integra na comunidade do “Reino” (nessa família onde todos têm lugar e onde todos são filhos amados de Deus).
• A atitude de Jesus em relação ao leproso (bem como aos outros excluídos da sociedade do seu tempo) é uma atitude de proximidade, de solidariedade, de aceitação. Jesus não está preocupado com o que é política ou religiosamente correto, ou com a indignidade da pessoa, ou com o perigo que ela representa para uma certa ordem social… Ele apenas vê em cada pessoa um irmão que Deus ama e a quem é preciso estender a mão e amar, também. Como é que lidamos com os excluídos da sociedade ou da Igreja? Procuramos integrar e acolher (os estrangeiros, os marginais, os pecadores, os “diferentes”) ou ajudamos a perpetuar os mecanismos de exclusão e de discriminação?
• O gesto de Jesus de estender a mão e tocar o leproso é um gesto provocador, que denuncia uma Lei iníqua, geradora de discriminação, de exclusão e de sofrimento. Com a autoridade de Deus, Ele retira qualquer valor a essa Lei e sugere que, do ponto de vista de Deus, essa Lei não tem qualquer significado. Hoje temos leis (umas escritas nos nossos códigos legais civis ou religiosos, outras que não estão escritas mas que são consagradas pela moda e pelo politicamente correto) que são geradoras de marginalização e de sofrimento. Como Jesus, não podemos conformarmo-nos com essas leis e muito menos pautar por elas os nossos comportamentos para com os nossos irmãos.
• Mais uma vez, o Evangelho deste domingo propõe à nossa consideração a atitude dos líderes judaicos. Comodamente instalados no alto das suas certezas e preconceitos, eles perpetuam, em nome de Deus, um sistema religioso que gera sofrimento e miséria e não se deixam questionar nem desafiar pela novidade de Deus. Estão tão seguros e convictos das suas verdades particulares que fecham totalmente o coração a Jesus e não se revêem nas suas propostas. O sem sentido desta atitude deve alertar-nos para a necessidade de nos desinstalarmos e de abrirmos o coração aos desafios de Deus.
• O leproso, apesar da proibição de Jesus, “começou a apregoar e a divulgar o que acontecera”. Marcos sugere, desta forma, que o encontro com Jesus transforma de tal forma a vida do homem que ele não pode calar a alegria pela novidade que Cristo introduziu na sua vida e tem de dar testemunho. Somos capazes de testemunhar, no meio dos nossos irmãos, a libertação que Cristo nos trouxe?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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A lepra do pecado
– O Senhor vem curar os nossos males mais profundos. Cura de um leproso.
– A lepra, imagem do pecado. Os sacerdotes perdoam os pecados in persona Christi.
– Apostolado da Confissão.
I. A CURA DE UM LEPROSO narrada pelo Evangelho da Missa1 deve ter comovido muito as multidões. É o que transparece do fato de ter sido relatada com tanto pormenor por três Evangelistas. Um deles, São Lucas, precisa que o milagre se realizou numa cidade e que a doença se encontrava já muito avançada: estava todo coberto de lepra2, diz.
A lepra era considerada então como uma doença incurável e era muito temida pelas deformações, acompanhadas de grandes sofrimentos, que produzia em todo o corpo. Como, além disso, era contagiosa, os leprosos eram segregados das cidades e dos caminhos e declarados legalmente impuros, como se lê na primeira Leitura da Missa3. Obrigados a levar a cabeça descoberta e as vestes esfarrapadas, deviam dar-se a conhecer de longe quando passavam pelas proximidades de um lugar habitado. As pessoas fugiam deles, como também os próprios familiares; e em muitos casos interpretava-se a sua doença como um castigo de Deus pelos seus pecados.
Por esse conjunto de circunstâncias, estranha ver este leproso numa cidade. Talvez tivesse ouvido falar de Jesus e estivesse há muito tempo em busca de uma oportunidade para se aproximar dEle. Agora, finalmente, encontra-o e é tal o desejo de falar-lhe que passa por cima das rigorosas prescrições da antiga lei mosaica. Cristo é a sua esperança, a sua única esperança.
A cena deve ter sido extraordinária. O leproso prostrou-se diante de Jesus e disse-lhe: Senhor, se quiseres, podes limpar-me. Se quiseres... Talvez tivesse preparado um discurso mais longo, com mais explicações..., mas por fim tudo ficou reduzido a essa jaculatória cheia de simplicidade, de confiança, de delicadeza: Si vis, potes me mundare, se quiseres, podes... Nessas poucas palavras condensava-se uma oração poderosa.
Jesus compadeceu-se; e os três Evangelistas que contam o episódio transmitem-nos o gesto surpreendente do Senhor: Estendeu a mão e o tocou. Até àquele momento, todos os homens haviam fugido dele com medo e repugnância. Cristo, porém, que podia tê-lo curado à distância – como já o fizera em outras ocasiões –, não só não se afasta dele, como chega a tocar a sua lepra. Não é difícil imaginar a ternura de Cristo e a gratidão do doente quando viu o gesto do Senhor e ouviu as suas palavras: Quero, sê limpo.
O Senhor sempre deseja curar-nos das nossas fraquezas e dos nossos pecados. E não temos necessidade de esperar meses nem mesmo dias para que passe perto da nossa cidade... No Sacrário mais próximo, na intimidade da alma em graça, no sacramento da Penitência, encontramos o mesmo Jesus de Nazaré que curou o leproso. Ele “é Médico, e cura o nosso egoísmo se deixarmos que a sua graça nos penetre até o fundo da alma. Jesus advertiu-nos que a pior doença é a hipocrisia, o orgulho que leva a dissimular os pecados próprios. Com o Médico, é imprescindível que tenhamos uma sinceridade absoluta, que lhe expliquemos toda a verdade e digamos: Domine, si vis, potes me mundare (Mt. 8, 2), Senhor, se quiseres – e Tu queres sempre –, podes curar-me. Tu conheces a minha debilidade; sinto estes sintomas e experimento estas outras fraquezas. E descobrimos com simplicidade as chagas; e o pus, se houver pus”4; todas as misérias da nossa vida.
II. PELA SUA FEALDADE e repugnância, pelo isolamento a que obrigava, os Santos Padres viram na lepra a imagem do pecado5. Contudo, o pecado, mesmo o venial, é incomparavelmente pior do que a lepra, pois são infinitamente maiores a sua fealdade, a sua repugnância e os efeitos trágicos que produz nesta vida e na outra. “Se tivéssemos fé e víssemos uma alma em estado de pecado mortal, morreríamos de terror”6, diz o Cura d’Ars. Todos somos pecadores, ainda que pela misericórdia divina estejamos longe do pecado mortal. É uma realidade que não devemos esquecer, e Jesus é o único que nos pode curar. Só Ele.
O Senhor vem buscar os enfermos e somente Ele pode avaliar e medir em toda a sua tremenda realidade a ofensa do pecado. Por isso comove-nos vê-lo aproximar-se do pecador, tocá-lo. Ele, que é a própria Santidade, não se apresenta cheio de ira, mas com grande delicadeza e respeito. “Esse é o estilo de Jesus”7.
O que Ele nos diz é que veio perdoar, redimir, veio livrar-nos dessa lepra da alma que é o pecado. E proclama o seu perdão como um sinal de onipotência, como sinal de um poder que só o próprio Deus pode exercer8. Cada uma das nossas confissões é expressão do poder e da misericórdia de Deus. Os sacerdotes não exercem esse poder por virtude própria, mas em nome de Cristo – in persona Christi –, como instrumentos nas mãos do Senhor. “Jesus identifica-nos de tal modo consigo próprio no exercício dos poderes que nos conferiu – dizia João Paulo II aos sacerdotes no Rio de Janeiro –, que a nossa personalidade como que desaparece diante da sua, já que é Ele quem age por meio de nós [...]. É o próprio Jesus quem, no Sacramento da Penitência, pronuncia a palavra autorizada e paterna: Os teus pecados te são perdoados”9.
Quando nos confessamos, aproximamo-nos com veneração e agradecimento do próprio Cristo; na voz do sacerdote, ouvimos Jesus, o único que pode curar as nossas doenças. “«Domine!» – Senhor! – «si vis, potes me mundare» – se quiseres, podes curar-me. – Que bela oração para que a digas muitas vezes, com a fé do pobre leproso, quando te acontecer o que Deus e tu e eu sabemos! – Não tardarás a sentir a resposta do Mestre: «Volo, mundare!» – Quero, sê limpo!”10
III. TEMOS QUE APRENDER do leproso: com toda a sua sinceridade, coloca-se diante do Senhor e, de joelhos11, reconhece a sua doença e pede para ser curado.
Disse-lhe o Senhor: Quero, sê limpo. E imediatamente desapareceu dele a lepra e ficou limpo. Não podemos imaginar a imensa alegria que se apossou daquele que era leproso até aquele momento. Foi tal a sua alegria que, apesar da advertência do Senhor, começou a proclamar e a divulgar por toda a parte a notícia do bem imenso que recebera. Não pôde reter tanta felicidade só para si, e sentiu a necessidade de fazer participar a todos da sua boa sorte.
Esta deve ser a nossa atitude no que diz respeito ao sacramento da Confissão. Pois nela também nós ficamos livres das nossas enfermidades, por maiores que possam ser. E não só ficamos limpos do pecado, como adquirimos uma nova juventude, uma renovação da vida de Cristo em nós. Ficamos unidos ao Senhor de uma maneira diferente e particular.
E desse novo ser e dessa nova alegria que encontramos em cada confissão devemos fazer participar aqueles que mais estimamos e todos aqueles que passam pela nossa vida. Não nos deve bastar termos encontrado o Médico; devemos fazer chegar a notícia a muitos que não sabem que estão doentes ou pensam que os seus males não têm cura. Levar muitos a abeirar-se do sacramento da Confissão é uma das tarefas que Cristo nos confia nestes tempos em que verdadeiras multidões se afastaram daquilo que mais precisam: o perdão dos seus pecados.
Em certos casos, teremos que começar por uma catequese elementar, talvez aconselhando aos nossos amigos um livro de leitura acessível e explicando-lhes com uma linguagem compreensível os pontos fundamentais da fé e da moral. Ajudá-los-emos a ver que a sua tristeza e o seu vazio interior provêm da ausência de Deus em suas vidas. E, no momento adequado, animá-los-emos a procurar o sacerdote – talvez o mesmo com quem nós nos confessamos habitualmente – e a abrir-lhe a alma de um modo simples e humilde, contando tudo o que os afasta do Senhor, desse Deus que os está esperando. A nossa oração, o oferecimento das horas de trabalho e de algum pequeno sacrifício por eles, bem como a nossa própria confissão periódica, atrairão de Deus novas graças eficazes para esses nossos amigos.
Aquele dia foi inesquecível para o leproso. Cada um dos nossos encontros com Cristo é também inesquecível, e os amigos que ajudamos a caminhar para Deus nunca se esquecerão também da paz e do júbilo do seu encontro com o Mestre. E converter-se-ão por sua vez em apóstolos que propagam a Boa Nova, a alegria de uma confissão bem feita. A nossa Mãe Santa Maria haverá de conceder-nos, se recorrermos a Ela, a alegria e a urgência de comunicar a muitos os grandes bens que o Senhor – Pai das misericórdias – nos deixou neste sacramento.
Francisco Fernández-Carvajal
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Na condição de cristãos, nossas ações devem estar em perfeita
sintonia com a ação libertadora de jesus.
A ação de Jesus supera os limites que a Lei determina, no sentido de que a Lei se preocupa em defender os que se mantêm num estado de pureza considerado pelas autoridades como sendo ideal para se manterem inseridos na sociedade, ao passo que Jesus se dirige aos que pela Lei foram excluídos do convívio social (cf. primeira leitura). A idéia é extremamente revolucionária e se contrapõe diretamente ao estado político e religioso de sua época, isto é, é uma afronta às autoridades instituídas, que de fato não possuem autoridade consistente nem tampouco compaixão pelos que sofrem; características estas, de uma autêntica liderança, ou seja, do Messias esperado.
Jesus tomando para si a condição de Messias, sem o reivindicar para si, vai de encontro aos leprosos, para com eles se relacionar e conviver. Eis uma primeira exigência que se faz aos discípulos missionários, sobretudo aos que hoje decidem seguir Jesus: ir ao encontro dos necessitados para com eles e como eles conviver, e não apenas falar deles, como se deles se utilizassem com a finalidade de se promover; somente assim se possibilitará que Jesus, mesmo nos nossos dias, realize as curas de que tanto o povo precisa.
Atender as necessidades imediatas dos necessitados e excluídos é necessário, mas não é o verdadeiro caminho da libertação e da cura, uma vez que a nossa cultura está embasada não na vida fraterna voltada para o coletivo, mas no individualismo, e no salve-se quem puder, onde aí impera a lei de que se deve levar vantagem em tudo e sobre todos. Nesta dinâmica social, obter privilégios que respondam a uma necessidade pessoal de endinheiramento com o mínimo esforço possível será sempre, por nós, considerado normal. Não é pra menos que tantas e tantas pessoas preferem continuar vivendo à margem, a fim de obter constantemente auxílio humanitário, sem de fato querer restaurada sua dignidade, pois isso seria assumir responsabilidades sociais de colaboração do desenvolvimento coletivo. Percebeu-se na Europa, que os governos, por décadas, davam auxílios desemprego a pessoas que não tinham mais interesse de trabalhar, evidentemente, salvo as situações de verdadeira necessidade, por isso após a última crise financeira, os governos têm revisto as formas de auxílio aos pobres. No Brasil não é raro encontrar pessoas saldáveis, algumas bem sucedidas financeiramente, sendo beneficiadas pelos diversos programas sociais do governo; as universidades públicas gratuitas que o digam, apesar do esforço em se garantir vagas a quem de fato necessita, a história nos testemunha que são os mais ricos que se utilizam destas universidades; os mais pobres pagam universidades particulares.
E vai tirar o privilégio de quem os tem! Para aqueles que deviam promover a justiça na sociedade, ou seja, para as lideranças políticas, é impossível fiscalizar a canalização de recursos num país tão grande como o nosso, mas podemos considerar também que o Estado com todo o seu recurso não é e nunca será capaz de atender a necessidade de todos, uma vez que é inoperante e corrupto, sem contar que tais lideranças de fato não conhecem a realidade do povo, uma vez que não saem de si para conviver com o povo sofrido, e nessa perspectiva legalista e humana, as doenças, que hoje, sem dúvida não são mais as feridas da carne, mas sim da alma, continuam sem serem curadas, uma vez que nos distanciamos da prática libertadora de Jesus, de conviver e estar presente no dia a dia daquele que sofre. Por outro lado precisamos querem ser curados de nossas misérias, não fosse a atitude de aproximação do leproso a Jesus, provocando-o a curá-lo, possivelmente nada teria acontecido. Para Deus é assim, o milagre só acontece quando de fato queremos.
Jesuel Arruda
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1. Pouco a pouco o Evangelho de Marcos vai mostrando quem é Jesus. O episódio de hoje (cura do leproso) é o terceiro milagre recordado em vista desse objetivo. A 1ª leitura revela bem a situação de marginalidade de um leproso. E no tempo de Jesus essa situação era ainda mais grave, pois tudo girava em torno do puro/impuro. Quem controlava esse rígido código de pureza eram os sacerdotes. A eles cabia declarar quem e o que podia ou não ter acesso a Deus. Deus estaria sob o controle dos sacerdotes do templo e do código de pureza.
2. O leproso certamente sabia disso. Sabia também que sua vida – e sua libertação da marginalidade – não dependiam do templo e dos sacerdotes, pois estes só constatavam a cura ou a permanência da doença em seu corpo. Os sacerdotes eram impotentes: não podiam restabelecer a vida.
3. Diante disso, o leproso toma uma atitude radical: não vai ao sacerdote, e sim a Jesus. Ajoelha-se diante dele e pede: “se quiseres, podes curar-me” (v. 40). Reconhece que o poder da cura (que o tira da marginalidade) não vem da religião dos sacerdotes, e sim de Jesus. Notemos outro aspecto importante: ao invés de ficar à distância e gritar sua marginalização (cf. 1ª leitura), aproxima-se e manifesta sua adesão a Jesus enquanto fonte de libertação e vida: “se quiseres, podes curar-me! Viola a lei para ser curado.
4. Jesus quer curar o leproso de sua marginalização, devolvendo-lhe a vida (naquele tempo, curar um leproso era sinônimo de ressuscitar um morto). Mas a ação de Jesus é precedida por uma reação. Ele fica irado ou fica movido de compaixão? De acordo com a maioria das traduções da Bíblia, a reação de Jesus se traduz em compaixão (v. 41a). Algumas traduções, porém, traduzem Jesus ficou irado e não movido de compaixão (por ex.: Bíblia de Jerusalém, Bíblia Sagrada – edição pastoral). Certamente fica irado não com o leproso, mas contra o código de pureza que, em nome de Deus, marginaliza as pessoas, considerando-as como mortas. É contra esse sistema religioso que Jesus se revolta. E o transgride também.
5. De fato, acreditava-se que a lepra fosse contagiosa. Jesus quebra o código de pureza, tocando o leproso (v.41b; cf. Lv. 5,3). Com isso, de acordo com o sistema religioso vigente, torna-se impuro: torna-se leproso e fonte de contaminação. (Note-se que de acordo com Lv. 5,5-6, além de ficar impuro, Jesus deveria oferecer um sacrifício!). Torna-se marginalizado e não poderá mais entrar publicamente numa cidade: deverá ficar fora, em lugares desertos (cf. v. 45a), como os marginalizados. O Filho de Deus foi morar com os marginalizados. Aqui o evangelho de Marcos mostra quem é Jesus: é aquele que rompe os esquemas fechados de uma religião elitista e segregadora, indo habitar entre os banidos do convívio social.
6. Curado o leproso, Jesus o expulsa. É esse o sentido da expressão “o mandou logo embora”. A expressão é forte e, ao mesmo tempo, estranha. Mas não é estranha se a lermos na ótica da ira de Jesus contra o código de pureza que marginaliza as pessoas: ele não quer que elas continuem vítimas de um sistema social e religioso que rouba a vida.
7. Jesus dá uma ordem ao curado “não conte isso a ninguém! Vá, mostre-se ao sacerdote e ofereça o sacrifício que Moisés mandou, como prova para eles!” (v. 44). Tudo leva a crer que a tarefa da pessoa curada consiste não em divulgar o milagre, mas em colaborar para que o código de pureza seja abolido.
8. De fato, ele deverá se mostrar ao sacerdote para que este constate a sua cura. Sinal de que a cura não depende do código de pureza, nem da religião do templo. A expressão “como prova para eles” tem este sentido: o sacrifício serve como testemunho contra o sistema que o declarava um punido por Deus e um banido do convívio social. O sacrifício tem, pois, caráter de denúncia e de abolição do código de pureza.
9. Não sabemos se a pessoa curada teve a coragem de testemunhar contra o sistema religioso que o mantinha na marginalidade. Marcos diz que o curado “foi e começou a contar e a divulgar muito o fato” (v. 45a). A reação a esse anúncio é evidente: Jesus não pode mais entrar numa cidade, pois, segundo o código de pureza, está contaminado e é fonte de contaminação. Todavia, de toda a parte o povo vai procurá-lo (v. 45b), sinal de que está aberto um novo acesso a Deus. Deus, em seu Filho, pode ser encontrado fora, na clandestinidade, entre os que o sistema religioso e social discriminou.
1ª leitura: Lv. 13,1 – 2,44–46
10. O capítulo 13 do Levítico trata de doenças da pele (por ex. lepra) a serem diagnosticadas pelos sacerdotes. Mas não há nenhuma preocupação com a cura dessas doenças. Simplesmente traçam-se normas higiênicas. A preocupação fundamental se volta toda para a preservação da pureza da comunidade.
11. Algum tempo depois, os rabinos de Israel passaram a considerar o leproso como um vivo-morto, pois a lepra constituía a mais grave forma de impureza ritual. Por serem os sacerdotes os responsáveis pelo diagnóstico sobre pureza ou impureza de uma pessoa, deduz-se facilmente que a lepra estava intimamente ligada com a impureza ritual. O aspecto religioso era mais importante que o aspecto médico-sanitário.
12. Assim, o leproso era uma espécie de excomungado, banido da sociedade e da religião. Essa pessoa não tinha acesso a Deus. Quem fechava ou abria a porta do acesso a Deus eram os sacerdotes, mediante o diagnóstico puro/impuro. Que poder, hein! Impedir alguém de ir até Deus!
13. Excluído de Deus e excluído da sociedade. O complicado e misterioso sacrifício previsto para as pessoas que eventualmente sarassem da lepra (cf. Lv. 14,2-32) demonstra que ela era vista como sinal do pecado contra Deus. É a partir disso que o leproso se torna símbolo da maior marginalização possível: castigado por Deus por causa do pecado (marginalização religiosa), era declarado impuro e banido da comunidade (marginalização social). Lv. 13,45-46: “O homem atingido por esse mal andará com as vestes rasgadas, os cabelos soltos e a barba coberta, gritando: Impuro! Impuro! …deve ficar isolado e morar fora do acampamento”.
14. O modo como o leproso deve se portar demonstra que ele se tornou perigosa fonte de contaminação: roupas rasgadas, cabelo solto, lenço sobre a barba (acreditava-se que a saliva pudesse transmitir a doença). Um verdadeiro espantalho vivo, devia ser reconhecido de longe. Pior ainda: devia viver gritando a todos sua marginalidade e periculosidade.
15. Podemos nos escandalizar com isso tudo. Mas seria pura hipocrisia. Em nossa sociedade há igual discriminação e marginalização, não só em relação aos portadores de hanseníase , mas sobretudo em relação aos aidéticos, e doentes de modo geral. Escandalizar seria simplesmente acobertar nossa hipocrisia.
2ª leitura: 1Cor. 10,31 – 11,1
16. Os versículos de hoje são a conclusão da longa discussão sobre as carnes oferecidas aos ídolos (caps. 8-10). Em Corinto, quase toda a carne vendida nos açougues havia sido oferecida nos templos dos deuses pagãos. Os “fortes” da comunidade afirmavam que os ídolos não existem. Portanto, não havia problema em consumir tais carnes. Paulo está de acordo. Nisso a comunidade se afastava da mentalidade estreita do judaísmo.
17. Todavia, se as pessoas fossem convidadas a participar de uma refeição na casa de um pagão, e este lhes dissesse: “esta carne foi oferecida aos ídolos”, o que fazer? Paulo está preocupado com os “fracos”, aquelas pessoas que não tem fé esclarecida. Elas poderiam ser induzidas à idolatria. Nesse ponto, Paulo se afasta da opinião dos “fortes”: é melhor evitar para não perder o irmão fraco na fé. Isso não é perder a liberdade e sim entender e viver a liberdade com responsabilidade.
18. E Paulo sintetiza: “quer comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, tudo façam para a glória de Deus!” (v. 31). Em outras palavras Deus transparece, se manifesta e se torna presente em todos os gestos e ações da comunidade. Portanto, a ação da cada pessoa deve ser uma ação responsável. Embora jamais Deus se confunda com os ídolos, todavia, nossas ações podem ser ocasião de fonte de idolatria.
19. A ação da comunidade tem a ver com todos: os judeus – que em tudo fazem distinção entre puro e impuro – estão de olho no modo como os cristãos agem; e os pagãos também. A própria comunidade – Igreja de Deus – (dividida entre fortes e fracos) corre o risco de perder sua identidade de fermento na grande cidade. O que fazer?
20. O que fazer? Paulo recomenda: “não sejam motivo de escândalo, nem para os judeus, nem para os pagãos, nem para a Igreja de Deus!” (v. 32). Estaria Paulo aprovando o código de pureza dos judeus? Não. Prova disso é o fato de considerar todos – judeus e pagãos – como chamados a uma vocação única, a da comunhão com o Deus vivo e verdadeiro.
21. E isso é possível mediante a ação da comunidade. “Façam como eu, que em tudo procuro agradar a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de todos, para que sejam salvos!” (v. 33). O “interesse de todos” não é o capricho de cada um em particular (assim perderia o cristão sua identidade). O interesse de todos é o encontro de toda a humanidade com Deus, em Jesus Cristo. Essa é a glória de Deus! Isso é o que Paulo busca sem descanso. É a isso que a comunidade é chamada: ” sejam meus imitadores, como eu também o sou de Cristo!” (11,1).
R e f l e t i n d o
1. A lepra era um sofrimento duplamente cruel, em Israel, por causa da doença em si e por causa da exclusão prevista na Lei. Na opinião do povo, a lepra devia ser obra de algum espírito muito ruim. Os leprosos eram intocáveis, tabu! Jesus quebra esse tabu. O leproso reconhece em Jesus sua misteriosa “autoridade”, seu poder sobre os espíritos maus. “Se quiseres, tens o poder de me purificar”. Jesus não pensa nas severas restrições da Lei, mas em compaixão, aquela qualidade divina que ele encarna. Toca no leproso, (apesar da proibição), e diz: “Eu quero, sê purificado”. E acontece a cura!
2. Como aos exorcizados, Jesus proíbe ao ex-leproso de publicar o que o “poder” nele operou. Mas quem poderia esconder tanta felicidade? O homem, até então marginalizado, encontrou a reintegração e aproveitou-a para contar o que lhe acontecera. Mais: Jesus foi ocupar o lugar do leproso, excluído para os “lugares desertos”.
3. Como as narrações anteriores, esta também é concebida como uma revelação velada da personalidade de Jesus. Autoridade e compaixão : duas qualidades de Deus, dificilmente compatíveis no homem; são as feições divinas que se deixam entrever no agir de Jesus. E revela-se também sua superioridade em relação à Lei. Ele não depende da Lei para realizar o bem às pessoas., para reintegrar o ser humano. Pois, a Lei é (e deveria sempre ser…) para o bem das pessoas; se se pode curar alguém pela “autoridade”, não é preciso primeiro consultar os guardiães da Lei. Basta que, – depois do benefício de Deus, – o leproso ofereça o sacrifício de agradecimento a Deus, conforme o rito costumeiro.
4. Chegamos ao ponto central da atuação de Jesus, – e que provocará a crescente e mortal oposição das autoridades religiosas -: Jesus sabe melhor que a Lei (na interpretação dos escribas) o que é o bem do homem. Reintegra, por “autoridade” própria, o homem que a letra da Lei marginalizava. Restaura a comunhão com o excomungado, passando para trás os que tinham o monopólio da reintegração. Aceitar este Jesus significa aceitar alguém que supera as mais altas autoridades religiosas. Neste sentido, a cura da lepra funciona como um sinal: significa que, de fato, Jesus está acima das prescrições legais e pode prescindir delas. Este é o ponto central da revelação velada que se expressa nesse milagre.
5. Este tema provoca uma catequese sobre a reintegração dos que são marginalilizados. Uma pista: a reintegração baseia-se na “autoridade” que Jesus demonstra; autoridade que neutraliza, por assim dizer, as prescrições da Lei. Em Jesus temos uma autoridade superior. E nós, … seguidores de Jesus? Para que nós, – operando como membros de Cristo, – possamos realmente vencer a marginalização, será preciso desenvolver um poder que esteja acima das convenções constrangedoras do sistema em que vivemos. Precisamos demonstrar tal poder, exatamente como Jesus. Precisamos encarnar, de modo operante, essa compaixão reintegradora; precisamos neutralizar os mecanismos de marginalização e exclusão com a força de Deus. Uma força de origem divina: a força da verdadeira solidariedade, baseada no Amor.
6. A exclusão está na moda, virou princípio da organização sócio-econômica: a lei do mercado, da competitividade. Quem não consegue competir, desapareça. Quem não consegue consumir, deve sumir. Escondemos as favelas por trás de paredões ou placares de publicidade. Que os feios, os aleijados, os idosos, os aidéticos não poluam os nossos cartões postais!
7. Em tempos idos, a exclusão muitas vezes provinha da impotência diante da enfermidade ou, também, da superstição. Assim a exclusão dos cegos e coxos do templo de Jerusalém. Ou a marginalização dos leprosos, (ilustrada abundantemente em Lv. 13-14). Enquanto não se tivesse constatada a cura por um complicado ritual, o leproso era considerado impuro, intocável. Jesus, porém, toca o leproso – e o cura! É um sinal do Reino de Deus. Jesus torna o mundo mais conforme ao sonho de Deus. Pois Deus não deseja sofrimento nem discriminação. O Antigo Testamento pode não ter encontrado outra solução para esses doentes contagiosos que a marginalização; mas Jesus mostra que um novo tempo começou!
8. Começou mas não terminou! Reintegrar os marginalizados não foi uma fase passageira no projeto de Deus, como os benefícios que os políticos realizam nas vésperas das eleições. O plano messiânico continua através do povo messiânico (a Igreja). Devemos continuar inventando, o quanto pudermos, novas soluções contra toda e qualquer marginalização – pois, somos todos irmãos!
9. Seremos impotentes para erradicar a exclusão, como os antigos israelitas em relação à lepra? Que fazer com os criminosos perigosos, viciados no crime? Será nosso mundo tão bom que possa reintegrar tais pessoas, sem que se enrosquem de novo? O fato de ter de marginalizar alguém é um reconhecimento da inadequação da nossa sociedade. Toda forma de marginalização é uma denúncia contra nossa sociedade, e ao mesmo tempo um desafio. Muito mais ainda em se tratando de pessoas inocentes. A marginalização é sinal de que não está acontecendo o que Deus deseja.
10. Onde existe marginalização, o Reino de Deus ainda não chegou, pelo menos não completamente. E onde chega o Reino de Deus, a marginalização já não deve mais existir. Por isso, Jesus reintegra aos marginalizados, como é o caso do leproso, dos pecadores, publicanos, prostitutas … Essa reintegração está baseada no “poder-autoridade” que Jesus detém como enviado de Deus: “Se quiseres, tens o poder de me purificar!”. Jesus passa por cima das prescrições levíticas, toca no leproso e purifica-o por sua palavra em virtude da autoridade que lhe é conferida como “Filho de Deus” (= executivo de Deus, cf. Mc. 2,10.28).
11. Lei de mercado! Há quem pense que os mecanismos auto-reguladores do mercado são o fim da história e a realização completa da racionalidade humana. E os que são (e sempre serão…) excluídos por esse processo, onde ficam? Não será esse raciocínio o de um varejista que se imagina o criador do universo? A liturgia de hoje nos mostra um outro caminho, o de Jesus : solidarizar-se com os marginalizados, os excluídos, tocar naqueles que a “lei” proíbe tocar, para reintegrá-los, obrigando a sociedade a se abrir e a criar estruturas mais acolhedoras … mais messiânicas … mais do “jeito” de Deus!
12. Jesus quebrou o rígido código do puro/impuro e foi morar entre os marginalizados. Esse mesmo Jesus é o eixo em torno do qual os que crêem nele se reúnem para celebrar sua fé. Todos são chamados, ninguém é excluído, ninguém é discriminado. Nas nossas celebrações devem estar presentes todos os marginalizados e banidos da sociedade. Só assim nossas celebrações serão verdadeira comunhão com a Palavra e com o Corpo de Jesus.
13. O que celebramos na Eucaristia pode não ser considerado um acontecimento “sagrado”, pois não aconteceu no Templo de Jerusalém. Aconteceu fora, porque a cidade não poderia se tornar “impura”. A morte de cruz (Dt. 21,22-23) era considerada uma maldição de Deus. Só podia acontecer fora da cidade. Inacreditável! O que era considerado “maldição” tornou-se “bênção”; o que era “impuro” é agora “o que tira o pecado do mundo”. O que devia ser retirado para fora da cidade veio a ser o centro da história da humanidade.
14. A missa deve ser a Boa-Nova especialmente para os excluídos. Comunhão e igualdade perfeita, direito de participação para todos, sem exclusão. Jesus não se deixa partir só para os “puros”, ele dá o sangue pelos pecadores.
15. A 2ª leitura tira das “questões particulares” dos coríntios uma regra de vida que vale para todas as circunstâncias. Da situação de comer as carnes sacrificadas, Paulo passa a uma regra adaptável à toda vida: fazer tudo, comer, beber e tudo o mais, de modo que se possa dar graças e louvor a Deus. Paulo se coloca a si mesmo como exemplo: o pregador deve ser a ilustração daquilo que ele prega. Paulo quer agradar a todos (não por sucesso pessoal, mas) para o bem da maioria, a fim de que todos se deixem atrair por Cristo. Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo!
prof. Ângelo Vitório Zambon

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Nesta semana foi manchete nos grandes meios de comunicação do Brasil um noticia pelo menos inusitada: “Morador de rua é condenado à prisão domiciliar”. No caso específico um paradoxo inexplicável e que leva em conta simplesmente a pena, a punição, a lei, a regra, a norma, a autoridade. Este fato serve para iluminar a reflexão que se pode fazer a partir da leitura da Palavra de Deus sugerida para o sexto domingo do tempo comum.
O texto do Levítico escrito no contexto da lei mosaica, e num tempo em que as doenças não tinham possibilidade de ser diagnosticada, impõe a imediata exclusão do portador de qualquer doença considerada mais sob o ponto de vista religioso do que fisiológico.
Na mesma condição vivia a sociedade judaica conterrânea de Jesus, embora vivendo cerca de mil anos depois da prescrição de Moisés a lei ainda era aplicada com o mesmo rigor e condição para todos. Nos dois casos é possível estabelecer um paralelo com o episódio do “morador de rua condenado à prisão domiciliar”.
Os judeus não se haviam dado conta que Jesus “é um grande profeta” e que neste outro contexto o encontro com Ele favorece novas formas de relacionamento e compreensão das pessoas e do mundo.
Mediante o pedido de socorro, a resposta de Jesus não poderia ser outra: “Um leproso chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: 'Se queres tens o poder de curar-me'. Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: 'Eu quero: fica curado!”.
As comunidades de hoje são convidadas a reconhecer os erros e limites pessoais, das instituições, e da sociedade em geral, mas ao mesmo tempo repetir como se faz no salmo de resposta:  “Eu confessei, afinal, meu pecado, e minha falta vos fiz conhecer. Disse: 'Eu irei confessar meu pecado!' E perdoastes, Senhor, minha falta”.
Para os cristãos do nosso tempo se aplica o convite que São Paulo faz aos Coríntios: “Fazei como eu, que procuro agradar a todos, em tudo, não buscando o que é vantajoso para mim mesmo, mas o que é vantajoso para todos, a fim de que sejam salvos. Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo”.
A lepra, na atualidade é muito maior do que as doenças físicas e falta de acesso aos serviços públicos e gratuitos de saúde. As doenças de hoje são também morais, sociais, econômicas, etc.
A Igreja que reza, que ouve a Palavra e que participa da Eucaristia precisa estar mais bem preparada e mais aberta para acolher a todos conforme se reza na última oração da missa: “daí-nos desejar sempre o alimento que nos traz a verdadeira vida”.
padre Elcio Alberton










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