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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Jesus curou a sogra de Simão


5º DOMINGO TEMPO COMUM

8 de Fevereiro de 2015
Ano  B

Evangelho - Mc 1,29-39

JESUS CUROU A SOGRA DE SIMÃO-José Salviano



VOCÊ JÁ REZOU HOJE?

         Prezados irmãos e irmãs em Cristo Jesus. A liturgia desse domingo nos revela que através do sofrimento nós nos aproximamos de Deus. Por outro lado, esse mesmo Deus está sempre empenhado em nos libertar do desconforto, causado pela doença assim como pelo pecado. Continua



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“VAMOS  A OUTROS LUGARES” – Olívia Coutinho

5º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 08 de Fevereiro de 2015

Evangelho de Mc1,29-39

O Evangelho que a  liturgia deste domingo nos apresenta, vem nos mostrar a proximidade de Jesus com os sofredores!
Jesus não se apresentou ao povo em cima de palanques, e sim  em meio aos sofredores, foi curando os doentes, libertando os acorrentados pela força do mau, que Ele foi revelando o rosto humano do Pai!
A narrativa apresenta-nos  três momentos de atividades de Jesus que marcaram o início de um tempo novo, de uma historia de amor que teve início mas que  nunca terá fim!
No primeiro momento; a narrativa nos diz que Jesus saiu da sinagoga, onde  libertou  um homem de um espírito mau, (o que vimos no evangelho do domingo anterior) e dirigiu-se com Tiago e João para a casa de Simão (Pedro). Ao saber que a sogra de Simão, estava  acamada, Jesus vai ao seu encontro e  segurando-a  pela  mão, ajuda-a  a se levantar. Neste episódio, o que deve chamar mais a nossa atenção, não é o milagre em si, e sim, a postura da sogra de Simão, que ao sentir-se curada, não se acomodou, pôs-se logo a servir!
No segundo momento; vemos Jesus curando e libertando muitas pessoas de diversas doenças! A multidão que procurava Jesus em busca de milagres crescia dia pós dia, e se por um lado, Jesus se compadecia diante o sofrimento do povo, Ele sabia que não poderia prender-se ali, e nem deixar que povo acomodasse, e ficasse o tempo todo a espera de milagres. Jesus não queria ser visto como um fazedor de milagres, afinal, Ele, não havia sido enviado para fazer milagres, os milagres que Jesus realizava, Ele os realizava por compaixão e para servir de sinais! O compromisso que Jesus assumira com o Pai, ia muito mais além do que realizar milagres, Jesus viera ao mundo com a missão de  ensinar o povo  a viver no amor, a caminhar com suas próprias pernas, a retomar o caminho da vida, que é o caminho da salvação, caminho este, que perpassa pela prática da justiça!   
Esta passagem do evangelho nos alerta sobre  o perigo de ficarmos procurando Jesus somente em busca de milagres e com isso deixarmos de assumir o nosso compromisso de construtores do Reino! A nossa procura por Jesus, deve ser sempre na condição de discípulo que quer aprender com Ele, que quer buscar Nele,  força e coragem para enfrentar e superar os desafios da vida!
E no terceiro momento; vemos  Jesus  em oração, certamente buscando no Pai orientações para exercer o seu  ministério. Enquanto ele rezava,  Simão e seus companheiros  reivindicaram a sua presença  junto ao  povo que o procurava sem cessar.  E Jesus, deixa o coração, pra viver a razão, respondendo  decididamente: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali pois foi para isso que eu vim.”
Neste terceiro momento vemos a importância da oração! Jesus rezava todas as vezes que Ele precisava tomar uma decisão, como Ele precisava tomar naquele momento.  Imitemos Jesus, buscando discernimento no Pai, através da oração.
Jesus, quer nos ver sempre em movimento, nunca  parados, todas as vezes que Ele curava alguém, Ele dizia: “levanta-te,  vai”...
Quem vive a fé, não fica  buscando milagres, afinal, estar vivo, para quem tem  fé, já é   um grande  milagre!
 Viver a fé é  sentir-se amado por Deus é transformar o sofrimento, em trampolim para a sua ascensão.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho            
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Iniciemos nossa meditação da Palavra de Deus pela primeira leitura. O livro de Jó, de modo dramático, mostra a vida humana: “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? Seus dias não são como dias de um mercenário? Tive por ganho meses de decepção, e couberam-me noites de sofrimentos. Se me deito, penso: quando poderei levantar-me? E, ao amanhecer, espero novamente a tarde... Meus dias correm mais rápido do que a lançadeira do tear e se consomem sem esperança. Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade”. Eis, caríssimos, não são palavras negativas, desesperadas, essas de Jó. São, antes uma reflexão realista sobre o mistério da vida humana, uma reflexão cheia de esperança, porque feita à luz de Deus. Uma coisa é pensar nas realidades negativas de nossa existência simplesmente contando com nossas forças. Que desespero, que desilusão, que vazio de sentido! Outra, bem diferente, é encarar a vida também com seus trevas, à luz de Deus, o amor eterno e onipotente! Que esperança que não decepciona, que paz que invade o coração, mesmo na dor!
Notem: num mundo como o nosso, que cultua o corpo, o físico sarado, a saúde e o vigor físicos e presta tão pouca atenção ao sofrimento, à dor, ao fracasso... Num mundo que tem medo de pensar na morte e de assumir que todos morreremos, num mundo que não sabe o que fazer com o sofrimento, com a doença, com a decadência física, com a deformidade do corpo, estas palavras de Jó, convidam-nos a colocar os pés no chão. Repito: não são palavras pessimistas porque aquele que chora e busca o sentido da existência, fá-lo diante de Deus. Recordem como terminam as palavras da leitura – são comoventes: “Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade”. São uma oração! O triste na vida não é sofrer, não é chorar, não é morrer... Triste e miserável é sofrer e chorar e morrer sem Deus, sem este Parceiro cheio de doce ternura que dá sentido à nossa existência!
Por isso mesmo veio Jesus, nosso senhor! É isto que o Evangelho nos mostra hoje. Cristo nosso Deus, tomando pela mão a sogra de Pedro e erguendo-a do seu leito, revela que vem nos tomar pela mão – a nós, feridos e doentes de tantas doenças, fraquezas e medos! Este é o Evangelho, a Boa notícia: em Jesus, Deus revela o sentido de nossa existência porque se revela como Deus próximo, Deus de compaixão, Deus capaz de dar um sentido às nossas dores e até à nossa morte. Cristo nos toma pela mão, Cristo toma sobre si as nossas dores. Não precisamos fingir que não envelhecemos, que não adoeceremos, que não morreremos... Sabemos que nem a vida nem a morte nos podem afastar do amor de Cristo; sabemos que nele, tudo se enche de novo sentido... Por isso todos o procuram, porque procuram um sentido para a existência! 
O grande dom que Cristo nos faz não é milagres nem curas nem solução de problemas. Deixemos essa visão miserável, mesquinha e pagã para os pagãos e os que enganam e ganham dinheiro e poder em nome de Cristo. Nosso modo de ver é outro, é aquele mesmo que o Cristo nos ensinou e do qual ele mesmo nos deu o exemplo pela sua vida e pela sua morte! O santo Padre Bento XVI assim escreveu: “Uma visão do mundo que não pode dar um sentido também à dor e não consegue torná-la preciosa, não serve para nada. Tal visão fracassa exatamente ali, onde deveria aparecer a questão mais decisiva da existência. Aqueles que sobre a dor não têm nada mais a dizer a não ser que se deve combatê-la, enganam-se. Certamente, é necessário fazer tudo para aliviar a dor de tantos inocentes e limitar o sofrimento. Mas, uma vida humana sem dor não existe e quem não é capaz de aceitar a dor, foge daquelas purificações que são as únicas a nos tornar maduros. Na comunhão com Cristo, a dor torna-se plena de significado, não somente para mim mesmo, como processo de purificação, no qual Deus tira de mim as escórias que obscurecem a sua imagem, mas também, para além de mim mesmo, é útil para o todo, de modo que, todos nós podemos dizer como São Paulo: "Agora eu me alegro nos sofrimentos que suporto por vós, e completo na minha carne o que falta dos padecimentos do Cristo pelo seu corpo que é a Igreja" (Cl. 1,24) A vida vai além da nossa existência biológica. Onde não há mais motivo pelo qual vale a pena morrer, também não há motivo que faça valer a pena viver.
Para isso Jesus veio – “foi para isso que eu vim!”, diz o Senhor hoje. Veio para anunciar o Reino e expulsar tudo aquilo que demoniza a nossa existência. E nada nos inferniza mais que viver sem sentido!
Não vivamos como os pagãos, que vão sendo levados pela existência, fugindo da realidade e refugiando-se nas ilusões. Quanto excesso de divertimento, de eventos esportivos, de programas turísticos, de sonhos de consumo, de lazer e diversão... Se tudo isso numa justa medida é saudável, com o excesso que hoje se vê, é prejudicial, é sinal de uma humanidade doente, que tem medo de enfrentar as verdadeiras e profundas questões da existência! É que sem uma relação vive e íntima com o Senhor, é impossível enfrentar a nossa dura realidade! É neste sentido que o cristianismo nos apresenta um Evangelho, uma Boa Notícia: porque nos dá o Sentido, que aparece em Cristo Jesus!
Abramo-nos para o Senhor; nele apostemos nossa existência e tornemo-nos para os outros sinais de esperança e de vida, como são Paulo que se sentia devedor do Evangelho a todos. Que seja o Senhor Jesus consolo de nosso pranto, força no nosso caminho, alívio de nossas dores e prêmio de vida eterna.
dom Henrique Soares da Costa

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A autoridade de Jesus  e os enfermos
A liturgia deste domingo nos ajuda a refletir sobre um assunto bem atual: a “teologia da prosperidade!” O livro de Jó nos confronta com algo incompreensível para quem acredita que Deus recompensa os bons e castiga os maus nesta vida: Jó é um homem justo e, apesar disso, perdeu tudo. Durante 40 capítulos, Jó protesta contra a injustiça de seu sofrimento sem explicação, mas no fim Deus mostra a sua presença, e Jó se consola e se cala.
Também Jesus, no Novo Testamento, nunca apresenta uma explicação do sofrimento, porque não há explicação. Mas ele traz uma solução: assume o sofrimento. Inicialmente, curando-o. No fim, sofrendo-o, em compaixão universal. Se Jó nos mostra que Deus está presente onde o ser humano sofre, Jesus nos mostra que Deus conhece o sofrimento do ser humano por dentro. E ele o assume até o fim.
A 2ª leitura continua com os assuntos dos coríntios, que pretendem ter a liberdade de fazer tudo o que têm direito de fazer. Paulo não concorda: nem sempre devo fazer uso de meu direito. A caridade, a paciência para com o menos forte, com o inseguro na fé, valem mais que meu direito pessoal.
1ª leitura (Jó 7,1-4.6-7)
Jó foi fortemente provado por Deus. Perdeu tudo, até a saúde. Seus amigos não o conseguem consolar (Jó 2,11). Jó contempla sua vida com amargura e só consegue pedir que a aflição não seja demais e que Deus lhe dê um pouco de sossego. A vida é um “serviço de mercenário”, diz. Como os boias-frias, ele sempre leva a pior. Desperta cansado e, deitado, não consegue descansar, por causa das feridas. Que Deus lhe dê um pouco de sossego...
Procurando uma resposta para o mistério do sofrimento, os amigos de Jó dizem que os justos são recompensados e os ímpios, castigados. Mas Jó protesta: ele não é um ímpio. A teoria da prosperidade dos justos, a “teologia da retribuição”, não se verifica na realidade (21,5-6). Menos ainda o convence o pedante discurso de Eliú, tratando de mostrar o caráter pedagógico do sofrimento (cap. 32-37). Os amigos de Jó não resolvem nada. Vendem conselhos, mas não se compadecem. Suas palavras são pimenta na ferida.
Por outro lado, mesmo amaldiçoando o próprio nascimento, Jó não amaldiçoa Deus; ao contrário, reconhece e louva sua sabedoria e suas obras na criação: o abismo de seu sofrimento pessoal não lhe fecha os olhos para a grandeza de Deus! E é exatamente por este lado que entrará sossego na sua existência. Pois Deus se revelará a ele, tornar-se-á presente em seu sofrimento – ao contrário de seus amigos sabichões –, e essa experiência do mistério de Deus fará Jó entrar em si, no silêncio (42,1-6).
Evangelho (Mc. 1,29-39)
Como para preencher o que ficou aberto na 1ª leitura, o evangelho nos mostra o Filho de Deus assumindo nossas dores. A narrativa conta o fim do “dia em Cafarnaum”, iniciado em Mc. 1,21 (cf. domingo passado). Jesus continua com seus gestos e ações que falam de Deus. 
No início de seu ministério, Jesus assume o sofrimento, curando-o. Mostra os sinais da aproximação de Deus ao sofredor. Sinais feitos com a “autoridade” que já comentamos no domingo passado. Ao sair do ofício sinagogal, naquele dia de sábado, Jesus se dirige à casa de Pedro. Lá, ergue da febre a sogra de Pedro. E ela se põe a servir, demonstrando assim sua transformação. Depois, ao anoitecer, quando termina o repouso sabático, as pessoas trazem a Jesus os seus enfermos. Jesus acolhe a multidão em busca de cura: novo sinal de sua misteriosa “autoridade”. Os endemoninhados, os maus espíritos reconhecem seu adversário, mas ele lhes proíbe propalar o que sabem (cf. domingo passado). E quando, depois, Jesus se retira para se encontrar com o Pai, e os discípulos vêm buscá-lo para reassumir sua atividade em Cafarnaum, ele revela que a vontade de seu Pai o empurra para outros lugares. Ele está inteiramente a serviço do anúncio do reino, com a “autoridade” que o Pai lhe outorgou.
No fim de seu ministério, Jesus assumirá o sofrimento, sofrendo-o. Aí, sua compaixão se torna realmente universal. Supera de longe aquilo que aparece no livro de Jó. Se este nos mostra que Deus está presente onde o ser humano sofre (e isso já é grande consolação), Jesus nos mostra que Deus conhece o sofrimento do ser humano por experiência.
Assim como o livro de Jó, Jesus não apresenta uma explicação teórica do sofrimento. Neste sentido, concorda com os filósofos existencialistas: sofrer faz parte da “condição humana”. Não há explicação, mas, sim, solução: Jesus assume o sofrimento. No livro de Jó, Deus se digna olhar para o ser humano que sofre. Em Jesus Cristo, ele participa de seu sofrimento.
2ª leitura (1Cor. 9,16-19.22-23)
A 2ª leitura continua com a 1ª carta aos Coríntios, abordando assunto muito especial. 1Cor 8-10 é uma unidade que trata da questão sobre se o cristão pode sempre fazer as coisas que, em si, não são um mal. Trata-se das carnes que sobravam dos banquetes oferecidos pela cidade em honra das divindades locais. Essas carnes eram, depois da festa, vendidas no mercado por “preço de banana”. O cristão, dizem os “esclarecidos”, pode comprá-las e comê-las sem problema, já que não acredita nos ídolos. Paulo, porém, pensa diferente: a norma não é a liberdade, mas a caridade (cf. Gálatas 5,13: usemos da “liberdade para nos tornar escravos de nossos irmãos”). Se o uso de nossa liberdade causa a queda do “fraco na fé”, que tem ainda resquícios de sua tradição pagã, devemos considerar a sensibilidade de nosso irmão.
Paulo não concorda com a pretensa liberdade dos coríntios para fazerem tudo a que têm direito. Existe o aspecto objetivo (carne é carne e ídolos não existem) e o aspecto subjetivo (alguém menos instruído na fé talvez coma as carnes idolátricas num espírito de superstição; 8,7). Portanto, diz Paulo, nem sempre devo fazer uso de meu direito. E alega seu próprio exemplo: ele teria o direito de receber gratificação por seu apostolado, mas, como tal gratificação poderia ser mal interpretada, prefere ganhar seu pão trabalhando. A gratificação de seu apostolado consiste no prazer de pregar o evangelho de graça. Paulo teria os mesmos direitos dos outros apóstolos: levar consigo uma mulher cristã (9,5), ser dispensado de trabalho manual (9,6), receber salário pelo trabalho evangélico (9,14; cf. a “palavra do Senhor” a este respeito, Mt. 10,10). Entretanto, prefere anunciar o evangelho de graça, para que ninguém suspeite de motivos ambíguos. Ora, essa atitude não é inspirada apenas por prudência, mas por paixão pelo evangelho: “Ai de mim se eu não pregar o evangelho... Qual é meu salário? Pregar o evangelho gratuitamente, sem usar dos direitos que o evangelho me confere!” (9,17-18). Se tivermos verdadeiro afeto por nosso irmão fraco na fé, desistiremos com prazer de algumas coisas aparentemente cabíveis; e a própria gratuidade será a nossa recompensa, pois “tudo é graça”.
Dicas para reflexão
As leituras de hoje estão interligadas por um fio quase imperceptível: enquanto Jó se enche de sofrimento até o anoitecer (1ª leitura), Jesus cura o sofrimento até o anoitecer (evangelho). O conjunto do evangelho mostra Jesus empenhando-se, sem se poupar, para curar os enfermos de Cafarnaum. E, no dia seguinte, o poder de Deus que ele sente em si o impele para outros lugares, sem se deixar “privatizar” pelo povo de Cafarnaum. A paixão de Jesus é deixar efluir de si o poder benfazejo de Deus. Ele assume, sem limites, o sofrimento do povo. Ele sabe que essa é sua missão: “Foi para isso que eu vim”. Não pode recusar a Deus esse serviço.
Nosso povo, muitas vezes, vê nas doenças e no sofrimento um castigo de Deus. Mas quando o próprio Enviado de Deus se esgota para aliviar as dores do povo, como essas doenças poderiam ser um castigo de Deus? Não serão sinal de outra coisa? Há muito sofrimento que não é castigo, mas, simplesmente, condição humana, condição da criatura, além de ocasião para Deus manifestar seu amor. O evangelista João dirá que a doença do cego não vem de pecado algum, mas é oportunidade para Deus manifestar sua glória (Jo 9,3; cf. 11,4).
Por mais que o ser humano consiga dominar os problemas de saúde, não consegue excluir o sofrimento, pois este tem outra fonte. Mas é verdade que o egoísmo aumenta o sofrimento. O fato de Jesus apaixonadamente se entregar à cura de todos os males, também em outras cidades, é uma manifestação do Espírito de Deus que está sobre Jesus e que renova o mundo (cf. Sl. 104/103,30). O evangelista Mateus compreendeu isso muito bem, quando acrescentou ao texto de Mc. 1,34 a citação de Is 53,4 acerca do Servo sofredor: “Ele assumiu nossas dores e carregou nossas enfermidades” (Mt. 8,17). E se pelo pecado do mundo as dores se transformam num mal que oprime a alma, logo mais Jesus se revelará como aquele que perdoa o pecado (cf. 7º domingo do tempo comum).
Também se hoje acontecem curas e outros sinais do amor apaixonado de Deus que se manifesta em Jesus Cristo, é preciso que reconheçamos nisso os sinais do reino que Jesus vem trazer. Não enganemos as pessoas com falsas promessas de prosperidade, que até causam nos sofredores um complexo de culpa (“Que fiz de errado? Por que mereci isso?”). Mas, em meio ao mistério da dor, dediquemo-nos a dar sinais do amor de Jesus e de seu Pai.

Paulus
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Jesus e as nossas enfermidades
O evangelho de hoje é a continuação e conclusão de um “dia típico” da atividade libertadora de Jesus (Mc. 1,21-34). O que encontramos lá e aqui é uma amostra daquilo que o Mestre faz constantemente. Com isso, Marcos vai mostrando quem é Jesus, pois essa é a preocupação fundamental do seu evangelho. Além disso, é preciso ter presente que esse “dia típico” é um sábado, dia sagrado que se tornou estéril, porque incapaz de libertar e comunicar vida aos que sofrem.
a. Da sinagoga à casa (vv. 29-31): libertação e serviço.
Jesus se desloca da sinagoga à casa de Simão e André (v. 29) com os quatro discípulos que escolhera (vv. 16-20). É a primeira vez, no Evangelho de Marcos, que aparece a menção à casa. Aqui ela se opõe à sinagoga. Ao longo do evangelho, Jesus vai se sentir muito bem em casa, ao passo que a sinagoga vai suscitar conflitos, culminando na decretação da morte de Jesus por parte dos fariseus e alguns do partido de Herodes (3,6).
A sogra de Simão está de cama, com febre (v. 30a). O povo da Bíblia acreditava que a febre tinha origem demoníaca, algo que imobilizava as pessoas, deixando-as inativas. Marcos mostra Jesus pegando a mão da mulher e ajudando-a a se levantar (v. 31a). Com isso o evangelista nos estimula a progredir na compreensão de quem é Jesus: é aquele que ajuda as pessoas a caminhar com as próprias pernas e ser sujeitos do próprio agir. De fato, logo em seguida, “a febre desapareceu, e ela começou a servi-los” (v. 31b). Jesus liberta, e as pessoas, como resposta, põem-se a serviço do libertador. O modo pelo qual Jesus age é simples e, ao mesmo tempo, profundo: ele liberta tocando, pegando pela mão, ajudando a pessoa a se libertar. Notemos mais um detalhe: se a primeira pessoa a ser beneficiada pela ação libertadora de Jesus é um homem, a segunda é uma mulher, sinal de que Jesus não discrimina.
Jesus ajudou a sogra de Simão a se levantar. No texto grego, esse verbo recorda o rito do batismo. Quem lê o evangelho com os olhos da fé descobre imediatamente o sentido do batismo em si e sua função na sociedade: é um levantar-se para pôr-se a serviço do projeto de Deus.
b. Em frente da casa (vv. 32-34): uma multidão de necessitados
Os vv. 32-34 são um sumário. Eles concluem o “dia típico” da atividade libertadora de Jesus. Toda a cidade está reunida em frente da casa de Simão. No meio dessa multidão estão todos os doentes (dos quais a sogra de Simão é símbolo) e todos os possuídos pelo demônio (dos quais o possesso da sinagoga é símbolo). Ao dizer que “Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios” (v. 34a), Marcos está retomando um tema que apareceu no Batismo de Jesus, o do servo sofredor que carrega as enfermidades da humanidade (cf. Is. 53,4: “…eram as nossas doenças que ele carregava, eram as nossas dores que ele levava em suas costas”).
Reaparece também o tema do silêncio imposto aos demônios (cf. Mc. 1,25). A descoberta de quem é Jesus é resultado de longo aprendizado na fé e na adesão à boa notícia por ele trazida, e isso só se concretiza depois que o discípulo acompanhou o Mestre até a cruz (cf. 15,39).
c. Da casa ao deserto e à Galileia inteira (vv. 35-39): Jesus vence a tentação
Na manhã seguinte, Jesus se afasta da cidade para um lugar deserto a fim de rezar (v. 35). A oração é importante porque é a comunhão com o projeto do Pai. Marcos nada diz a respeito do conteúdo da oração de Jesus, mas o contexto desses versículos nos dá algumas indicações. A primeira é esta: a oração de Jesus situa-se no início de novo dia de sua atividade libertadora. Além disso, marca nova etapa: saindo de Cafarnaum, o Mestre se dirige “a outros lugares, às aldeias das redondezas” (v. 38), ou seja, “por toda a Galileia” (v. 39).
A segunda indicação diz respeito à tentação de Jesus. Simão e seus companheiros foram atrás dele e, quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando” (vv. 36-37). São as primeiras palavras dos discípulos neste evangelho, e elas vêm carregadas da “ignorância” que caracteriza os seguidores de Jesus em Marcos. Os discípulos sugerem que ele fique em Cafarnaum, usufruindo os dividendos que a fama de seus atos lhe proporcionaria. Aqui entendemos por que Marcos, ao falar que satanás tentou Jesus (cf. 1,13), omitiu o conteúdo da tentação e o modo pelo qual satanás se apresenta. Jesus vence a tentação da popularidade fácil porque o caminho da libertação passa pela entrega total da vida na cruz.
2ª leitura (1Cor. 9,16-19.22-23)
Gratuidade e evangelho
O capítulo 9 da primeira carta aos Coríntios ajuda-nos a entender a questão da liberdade. Na comunidade de Corinto havia “fortes” e “fracos” na fé. Os “fortes” afirmavam que podiam comer as carnes sacrificadas aos ídolos sem incorrer na idolatria. Paulo concorda com eles, mas sua preocupação é com os “fracos” que, diante disso, poderiam perder a fé. Os “fortes” não perdem sua liberdade se, em proveito dos “fracos”, se abstêm de fazer o que prezam (cap. 8).
Os versículos de hoje auxiliam-nos no esclarecimento dessa questão. Paulo, como apóstolo de Cristo e fundador da comunidade, podia fazer valer seus direitos e privilégios, mas não o fez, mostrando assim à comunidade haver outra forma de entender e viver a liberdade dos filhos de Deus. Para ele, pregar o evangelho não é título de glória, mas obrigação decorrente de seu compromisso com Cristo Jesus, que, livre e gratuitamente, se pôs à disposição do projeto do Pai (vv. 16-18). Apesar disso, sente-se inteiramente livre: “Embora eu seja livre em relação a todos, tornei-me o servo de todos, para ganhar o maior número deles” (v. 19).
A seguir, Paulo mostra sua trajetória de evangelizador. Sua vida se inspira em Jesus, que assumiu plenamente a realidade humana (cf. Fl. 2,6-11): “Tornei-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a todo o custo” (v. 22). Para Paulo, evangelho é a encarnação do Filho de Deus, que se esvaziou de prerrogativas e privilégios, assumindo nossa realidade e história. Os que desejam seguir Jesus, anunciá-lo e tornar-se participantes do evangelho não têm outro caminho a não ser o caminho de Jesus.


Paulus
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Aí de mim se não pregar o evangelho!
Vamos nos deter em alguns versículos da primeira epístola de Paulo aos Coríntios proposta como segunda leitura deste domingo. Paulo fala de sua incumbência de ser pregador do evangelho. Estamos diante de um homem vestido da convicção de que sua vida será proclamar pela palavra e pela vida a Boa Nova que tem um nome  bem  preciso:  Jesus Cristo, o Senhor, o Ressuscitado que invadira a vida de Paulo no caminho de Damasco.
“Pregar o evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade para mim, uma imposição. Ai de mim se não pregar o evangelho!”
Quantas vezes já ouvimos essa palavra, esse termo que vem  do grego, evangelho, que significa boa nova. Deveríamos aqui escrever  com  maiúscula:  Evangelho.  Força, dinamismo, energia… tudo isso por detrás de um homem que, depois de passar pelos tormentos da condenação e do abandono na cruz, ressuscitou para inaugurar um mundo novo. Esse Jesus que hoje está no  Pai e  ao mesmo tempo percorre os caminhos da humanidade como já fazia no primeiro dia da semana indo de Jerusalém para Emaús… Ele é o Evangelho. Ele continua convocando, chamando, olhando nos olhos das pessoas para que deixem  os telônios, desçam das árvores,  abandonem os seus pequenos e mesquinhos interesses e o sigam pelas trilhas da libertação do próprio ego, pelos caminhos de uma vida transparente, generosa, devotada ao outro, uma vida de amor, uma vida viçosa que nasce da morte do grão de trigo.  Crianças, jovens, casados, idosos, pessoas com saúde e outras doentes precisam ouvir  a Boa Nova. Por isso, os pregadores são importantes.  Pregadores do Senhor e não de si mesmos. Servos do Evangelho e não pessoas que falam por falar.  Ai de mim, dirá Paulo, se não evangelizar.  O apóstolo se deu conta que sua existência  seria toda em função desse empenho de atingir o mais íntimo de cada pessoa e fazer com que elas compreendam o que significa  ter uma paixão por Cristo. Imagino a imensa paz e felicidade de um sacerdote segundo o coração de Deus,  de um pai e de uma mãe de família vestidos do Evangelho e evangelizando. Felizes aqueles que  fazem de sua vida devotamento pelo Evangelho, por Cristo que quer, através de seus ministério atingir vidas e transformar existências.
São João Crisóstomo, um dos maiores padres da Igreja, assim escreve a respeito de Paulo: “Realmente no meio das insídias dos inimigos, conquistava contínuas vitórias, triunfando de todos os seus assaltos. E, em toda parte, flagelado, coberto de injúrias e maldições, como se desfilasse num cortejo triunfal, erguendo numerosos troféus, gloriava-se e dava graças a Deus (…). Corria ao encontro das humilhações e das ofensas que suportava por causa da pregação, com mais entusiasmo do que nós quando nos apressamos  para alcançar o prazer das honrarias;  aspirava mais pela morte  do que nós pela vida; ansiava mais pela pobreza do que nós pelas riquezas; e desejava muito mais o trabalho sem descanso do que nós o descanso depois do trabalho. Uma só coisa o amedrontava e fazia temer: ofender a Deus. E uma única coisa desejava:  agradar a Deus” (Liturgia das horas  III, p. 1209). Não é por ai que começa a nova evangelização?
frei Almir Ribeiro Guimarães


O poder sobre a doença
A vida é um “serviço de mercenário”, diz Jó (7,1; 1ª  leitura). Como os bóias-frias, sempre leva a pior. Desperta cansado, e deitado não consegue descansar por causa das feridas. Que Deus dê um pouco de sossego… O A.T. não tem resposta para o sofrimento. Os amigos de Jó dizem que os justos são recompensados e os ímpios, castigados. Mas Jó protesta: ele não é um ímpio. A teoria da prosperidade dos justos não se verifica na realidade (21,5-6). Menos ainda convence-o o pedante discurso de Eliú, tratando de mostrar o caráter pedagógico do sofrimento (cap. 32-37). Os amigos de Jó não resolvem nada. Vendem conselhos, mas não se compadecem. Só colocam pimenta nas feridas.
Por outro lado, mesmo amaldiçoando seu próprio nascimento, Jó não amaldiçoa Deus, pelo contrário, reconhece e louva sua sabedoria e suas obras na criação: o abismo de seu sofrimento pessoal não lhe fecha os olhos para a grandeza de Deus! E é exatamente por este lado que entrará sossego na sua existência. Pois Deus se revelará a ele, tornar-se-á presente em seu sofrimento – ao contrário de seus amigos sabichões -, e esta experiência do mistério de Deus fará Jó entrar em si, no silêncio (42,1-6).
Também Jesus, no N.T., nunca apresenta uma explicação teórica do sofrimento. Neste sentido, concorda com os existencialistas: sofrer pertence mesmo à “condição humana”. Não há explicação. Mas ele traz uma solução: assume o sofrimento. No livro de Jó, o mistério de Deus se aproxima do homem. Em Jesus Cristo, como Marcos o apresenta, o mistério se revela, gradativamente, sob o véu do “segredo” do Filho. No início, Jesus assume o sofrimento, curando-o (evangelho). Isto, porém, é apenas um sinal, pois são poucos os que Jesus curou. No fim, ele assumirá o sofrimento, sofrendo-o. Aí, sua compaixão se torna realmente universal. Supera de longe o que aparece no livro de Jó. Se este nos mostra que Deus está presente onde o homem sofre (e isto já é uma grande consolação para Jó), Jesus nos mostra que Deus conhece o sofrimento do homem por dentro.
Mas, por enquanto, ele mostra apenas sinais da aproximação de Deus ao homem sofredor. Sinais, feitos com a “autoridade” que já comentamos no domingo passado. Jesus pegando na mão da sogra de Pedro, para fazê-la levantar de sua febre. Ao fim do dia, depois do repouso sabático, recebe uma multidão de gente para curá-los: novo sinal de “autoridade”. Inclusive, exorciza os endemoninhados, e os maus espíritos reconhecem seu adversário. Mas ele lhes proíbe desvendar seu mistério (cf. domingo passado). Depois, retira-se, para se encontrar mais intensamente como Pai; e quando os discípulos o vêm buscar para reassumir sua atividade em Cafarnaum, ele revela que a vontade de seu Pai é que vá às outras cidades também. Ele está inteiramente a serviço dos plenos poderes que o Pai lhe outorgou.
Essa plena disponibilidade aparece também na 2ª  leitura, embora num contexto bem diferente. Trata-se da pretensa liberdade dos coríntios para fazerem tudo o que têm direito (p.ex., participar dos banquetes onde se serve carne sacrificada aos ídolos). Paulo não concorda: existe o aspecto objetivo (carne é carne e ídolos não existem) e o aspecto subjetivo (alguém, menos firme ou instruído na fé, pode comer as carnes idolátricas num espírito de superstição; 8,7). Portanto, diz Paulo, nem sempre devo fazer uso de meu direito. E coloca-se a si mesmo como exemplo: em vez de usar de seus direitos sociais, como sejam: levar consigo uma mulher cristã (9,5), ser dispensado de trabalho manual (9,6), receber salário pelo trabalho evangélico (9,14; cf. a “palavra do Senhor” a este respeito, Mt 10,10 e par.), Paulo anuncia o evangelho de graça, para que ninguém o suspeite de motivos ambíguos.
Ora, essa atitude não é inspirada apenas por prudência, mas por paixão pelo evangelho: “Ai de mim, se eu não pregar o evangelho… Qual é meu salário? Pregar o evangelho gratuitamente, sem usar dos direitos que o evangelho me confere!” (9,17-18). Se tivermos em nós verdadeiro afeto pelo nosso irmão fraco na fé, desistiremos com prazer de algumas coisas que, em si, poderíamos fazer; e a própria gratuidade será a nossa recompensa, pois “tudo é graça”.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Ser livre para servir
* 29-34: Para os antigos, a febre era de origem demoníaca. Libertos do demônio, os homens podem levantar-se e pôr-se a serviço. Os demônios reconhecem quem é Jesus, porque sentem que a palavra e ação dele ameaça o domínio que eles têm sobre o homem.
* 35-39: O deserto é o ponto de partida para a missão. Aí Jesus encontra o Pai, que o envia para salvar os homens. Mas encontra também a tentação: Pedro sugere que Jesus aproveite a popularidade conseguida num dia. É o primeiro diálogo com os discípulos, e já se nota tensão.
Bíblia Sagrada – Edição Pastoral








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