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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Jesus no deserto

1º DOMINGO QUARESMA

Comentários Prof.Fernand


Evangelho - Mc 1,12-15



22 de Fevereiro de 201
Ano A


O Espírito de Deus levou Jesus ao deserto e ali Ele foi tentado por Satanás. Também nós temos de conviver, e de nos defender de tantas tentações que se nos apresentam no nosso dia a dia.  Continua


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FIEIS A CRISTO VENCEREMOS TODAS AS TENTAÇÕES! - Olívia Coutinho

1º DOMINGO DA QUARESMA

Dia 22 de Fevereiro de 2015

Evangelho – Mc 1,12-15
      
       Inicia-se um tempo de graça na vida da Igreja e  de todos que se dispõe a caminhar com o Cristo vencedor!
A liturgia deste tempo Quaresmal, tem como propósito, despertar em nós, o desejo de mudança, de reaver os valores do Reino que às vezes deixamos de lado, por estarmos buscando  os "valores" do mundo.
Somos chamados a viver esse tempo com mais  intensidade e espírito de fé, a transformar o nosso coração de pedra num coração de carne, num templo sagrado onde Deus possa habitar!
      Nas palavras de  Jesus, endereçada a  nós, neste tempo de graça,  há sempre um apelo de conversão! E  todos nós sabemos, que não é fácil percorrer o caminho da conversão, afinal, mudanças, é sempre um grande desafio,  requer coragem, determinação, renuncias e acima de tudo, o constante exercício do perdão. Mas mesmo  sendo um  caminho  difícil, vale apena segui-lo, afinal, não tem alegria maior do que retornar ao coração do Pai!
      O pecado interrompe o nosso relacionamento com Deus, mas a porta do seu coração misericordioso, nunca fecha,  ela está  sempre aberta para nos receber de volta, basta querermos voltar!
      No evangelho de hoje, vemos que Jesus foi tentado a desistir da sua missão, a trocar o projeto de Deus por bens materiais, mas a sua  resposta  foi imediata: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”.
    Jesus foi tentado a aceitar e a confiar no poder do demônio, mas Ele respondeu com firmeza: ”Não tentarás o Senhor teu Deus”
      O Filho de Deus, que se fez humano, enfrentou e venceu o inimigo por estar fortalecido no Espírito do Pai, Ele se manteve firme no propósito de levar em frente a sua missão: libertar a humanidade da escravidão do pecado!
      Assim como aconteceu com Jesus, pode acontecer também conosco, a tentação do TER, do PODER, do PRAZER, está sempre nos rondando, é preciso estarmos sempre  vigilantes para não sermos pegos de surpresa, pois a tentação é oportunista, ela surge inesperadamente, principalmente quando nos propomos a mudar de vida, quando estamos enfraquecidos na fé, ou vivendo alguma dificuldade.
     Para nos seduzir, o mal chega até a nós disfarçado do bem, por isto precisamos estar sempre atentos para não tornarmos presas fácies, deixando-nos enganar pelas aparências!
       Ninguém está livre das tentações, elas estão presentes em toda parte, principalmente onde existe o bem. Para vencê-la, é importante estarmos sempre em sintonia com Deus, perseverantes na fé, munidos da arma mais poderosa que temos ao nosso alcance: a oração!
     Na oração do Pai Nosso, Jesus nos ensinou a pedir ao Pai: “E não nos deixeis cair em tentação”...
Todos nós, já passamos pela experiência de ser tentado! É a nossa resistência ao pecado, que não vai nos deixar cair nas ciladas preparadas pelo o inimigo, indicando a nossa maturidade na fé!
  Que o Espírito Santo, que fortaleceu Jesus nas tentações, nos fortaleça também e  que nenhuma proposta do mundo, nos convença a trocar o SER pelo TER.

FIQUE NA PAZ DE JESUS!
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Chegaram, para nós, os sagrados dias da Quaresma: dias de oração, penitência, esmola, combate aos vícios e leitura espiritual. Esses dias tão intensos nos preparam para as alegrias da Páscoa do Senhor. Estejamos atentos, pois não celebrará bem a Páscoa da Ressurreição quem não combater bem nos dias roxos da Quaresma.
A Palavra que o Senhor nos dirige já neste primeiro domingo é uma séria advertência neste sentido. A leitura do Gênesis nos mostrou como Deus é cheio de boas intenções e bons sentimentos em relação a nós: depois de haver lavado todo pecado da terra pelo dilúvio, misericordiosamente, o Senhor nosso Deus fez aliança com toda a humanidade e com todas as criaturas: “Eis que vou estabelecer minha aliança convosco e com todos os seres vivos! Nunca mais criatura alguma será exterminada pelas águas do dilúvio.” E, de modo poético, comovente, o Senhor colocou no céu o seu arco, o arco-íris, como sinal de paz, de ponte que liga a criatura ao Criador: “Ponho meu arco nas nuvens, como sinal de aliança entre mim e a terra!” Com esta imagem tão sugestiva, a Escritura Sagrada nos diz que os pensamentos do Senhor em relação a nós são de paz e salvação. Podemos rezar como o Salmista: “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos; sois o Deus da minha salvação! Recordai, Senhor, meu Deus, vossa ternura e a vossa salvação, que são eternas! O Senhor é piedade e retidão, e reconduz ao bom caminho os pecadores!”
Ora, se já a aliança após o dilúvio revelava a benignidade do coração de Deus, é em Cristo que tal bondade, tal misericórdia, tal compaixão se nos revelam totalmente: “Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus!” Não é este Mistério tão grande que vamos celebrar na Santa Páscoa? Nosso Senhor, morto na sua natureza humana, isto é, morto na carne, foi justificado, ressuscitado pelo Pai no Espírito Santo para nos dar a salvação definitiva, selando conosco a aliança eterna, da qual aquela de Noé era apenas uma prefiguração. Deus nos salvou em Cristo, dando-nos o seu Espírito Santo, recebido por nós nas águas do Batismo, que purificam mais que aquelas outras, do dilúvio! Nunca esqueçamos: fomos lavados, purificados, gerados de novo, no santo Batismo. Somos membros do povo da aliança nova e eterna, somos uma humanidade nova, nascida “não da vontade do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1,12). Somos o povo santo de Deus, povo resgatado pelo sangue de Cristo, povo que vive no Espírito Santo que o Ressuscitado derramou sobre nós. Uma grande miséria dos cristãos destes tempos nossos é terem perdido a consciência que somos um povo sagrado, vivendo entre os outros povos do mundo. Brasileiros, argentinos, mexicanos, estadunidenses, europeus, asiáticos, africanos... não importa: aqueles que crêem em Cristo e nele foram batizados, são a sua Igreja, são o povo santo de Deus, congregado no Corpo do Senhor Jesus, para formar um só templo santo no Espírito de Cristo! Somos um povo que vive entre os pagãos, um povo que vive espalhado por toda a terra, Igreja dispersa pelo mundo inteiro, que deve viver no mundo sem ser do mundo! A miséria nossa é querermos ser como todo mundo, viver como todo mundo, pensar e agir como todo mundo. Isso é trair a nossa vocação de povo sagrado, povo sacerdotal, povo que deve, com a vida e a boca cantar as maravilhas daquele que nos chamou das trevas para a sua luz admirável! (cf. 2Pd. 2,9) Convertamo-nos! Sejamos dignos da nossa vocação! 
Eis o tempo da Quaresma! Somos convidados nestes dias a retomar a consciência de ser este povo santo. E como fazê-lo? Como Jesus, o Santo de Deus, que passou quarenta dias no deserto em combate espiritual, sendo tentado por Satanás. A Quaresma é um tempo de deserto, de provação, de combate espiritual contra Satanás, o Pai da mentira, o enganador da humanidade. Sem combate não há vitória e não há vida cristã de verdade! A Igreja, dá-nos as armas para o combate: a oração, a penitência e a esmola. A Igreja nos pede neste tempo, que combatamos nossos vícios com mais atenção e empenho; a Igreja nos recomenda a leitura da Sagrada Escritura e de livros edificantes, que unjam o nosso coração. Deixemos a preguiça, cuidemos do combate espiritual! Que cada um programe o que fazer a mais de oração. Há tantas possibilidades: rezar um salmo todos os dias, rezar todo o saltério ao longo da Quaresma, rezar a via-sacra às quartas e sextas-feiras. Quanto à penitência, não enganemos o Senhor! Que cada um tire generosamente algo da comida durante todos os dias da Quaresma (exceto aos domingos); que se abstenha da carne às sextas-feiras, como sempre pediu a tradição ascética da Igreja, que tire também algo das conversas inúteis, dos pensamentos levianos, dos programas de TV tão nocivos à saúde da alma! E a esmola, isto é, a caridade fraterna? Há tanto que se pode fazer: acolher melhor quem bate à nossa porta, aproximar-nos de quem necessita de nossa ajuda, reconciliarmo-nos com aqueles de quem nos afastamos, visitar os doentes e presos... No Brasil, a Igreja procura também dá um tema e uma direção comunitária à caridade fraterna, com a Campanha da Fraternidade. Assim, os Bispos pedem que, neste ano, nossa caridade comunitária esteja atenta ao problema da segurança pública e sua causas. Que nós estejamos mais atentos aos problemas ligados à segurança, recordando sempre que a paz verdadeira e duradoura é fruto da justiça: justiça como obediência ao Senhor Deus e justiça como reto comportamento em relação ao próximo, que significa respeito pela dignidade do outro, espírito de partilha e de solidariedade que socorre nas necessidades. Quanto ao combate dos vícios, que cada um veja um vício dominante e cuida de combatê-lo com afinco nesses dias! Escolha também uma leitura espiritual para o tempo quaresmal, leitura que alimente a mente e o coração. Esta leitura, mais que um estudo, deve ser uma oração, um refrigério para o coração, uma leitura edificante, que nos faça tomar mais gosto pelas coisas de Deus... Vamos! Deixemos a preguiça, combatamos o combate da nossa salvação! Finalmente, que ninguém esqueça a confissão sacramental, para celebrar dignamente a Páscoa sagrada. Se alguém não puder se confessar por se encontrar em situação irregular perante Cristo e a Igreja, que não se sinta excluído! Procure o sacerdote para uma direção espiritual, uma revisão de vida e peça uma bênção, que, certamente, não lhe será negada. Não é a confissão, não permite o acesso à comunhão sacramental, mas é também um modo medicinal de aliviar o coração e ajudar no caminho do Senhor!
O importante, em Cristo, é que ninguém fique indiferente a mais essa oportunidade que a misericórdia do Senhor nos concede! Notem que somente depois do combate no deserto é que Jesus nosso Senhor saiu para anunciar a Boa Nova do Reino. Também cada um de nós e a Igreja como um todo, somente poderá testemunhar o Reino que Cristo nos trouxe se tiver a coragem de enfrentar o deserto interior e combater o combate da fé! Não recebamos em vão a graça de Deus! Que ele, na sua imensa misericórdia, nos conceda uma santa Quaresma!
dom Henrique Soares da Costa
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No primeiro domingo do tempo da quaresma, a liturgia garante-nos que Deus está interessado em destruir o velho mundo do egoísmo e do pecado e em oferecer aos homens um mundo novo de vida plena e de felicidade sem fim.
A primeira leitura é um extrato da história do dilúvio. Diz-nos que Jahwéh, depois de eliminar o pecado que escraviza o homem e que corrompe o mundo, depõe o seu “arco de guerra”, vem ao encontro do homem, faz com ele uma Aliança incondicional de paz. A ação de Deus destina-se a fazer nascer uma nova humanidade, que percorra os caminhos do amor, da justiça, da vida verdadeira.
No Evangelho, Jesus mostra-nos como a renúncia a caminhos de egoísmo e de pecado e a aceitação dos projetos de Deus está na origem do nascimento desse mundo novo que Deus quer oferecer a todos os homens (o “Reino de Deus”). Aos seus discípulos Jesus pede – para que possam fazer parte da comunidade do “Reino” – a conversão e a adesão à Boa Nova que Ele próprio veio propor.
Na segunda leitura, o autor da primeira Carta de Pedro recorda que, pelo Batismo, os cristãos aderiram a Cristo e à salvação que Ele veio oferecer. Comprometeram-se, portanto, a seguir Jesus no caminho do amor, do serviço, do dom da vida; e, envolvidos nesse dinamismo de vida e de salvação que brota de Jesus, tornaram-se o princípio de uma nova humanidade.
1ª leitura – Gn. 9,8-15 – AMBIENTE
Os primeiros onze capítulos do livro do Gênesis apresentam um conjunto de tradições sobre as origens do mundo e dos homens. Construídos com dados heterogêneos, estes capítulos descrevem uma “pré-história” que decorre num mundo ideal antes que as etnias, as nações, a política ou as classes sociais separassem os homens. Os episódios que compõem este bloco não são informações de fatos históricos concretos, acontecidos na aurora da humanidade. São lendas e mitos, muitas vezes com extraordinárias semelhanças literárias com as lendas e mitos de outros povos do Crescente Fértil (nomeadamente da Mesopotâmia). Naturalmente, os catequistas de Israel tomaram esses mitos, adaptaram-nos, modificaram-nos e puseram-nos ao serviço da transmissão da sua própria fé. Através desses mitos e lendas, os teólogos de Israel expuseram as suas convicções e as suas descobertas sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo.
O texto que hoje nos é proposto faz parte de uma secção que abrange Gn. 6,1-9,17. É a história de um cataclismo de águas, que teria eliminado toda a humanidade, exceto Noé e a sua família. A história do dilúvio, apresentada nesta secção, deverá ser considerada uma reportagem de acontecimentos concretos?
Para alguns, o dilúvio bíblico poderia estar relacionado com o fim da era glacial, quando a fusão dos gelos provocou notáveis avalanchas de água que invadiram as terras habitadas e deixaram profundos sinais na memória coletiva dos povos. Mas o mais provável é que o dilúvio descrito nos textos do Gênesis (e que é quase copiado de certos textos mesopotâmicos que apresentam o mesmo tema) se refira a uma das inúmeras inundações do Tigre e do Eufrates… A arqueologia dá, aliás, conta de várias inundações especialmente catastróficas nessa parte do mundo entre 4000 e 2800 a.C.. É provável que o texto bíblico evoque essa realidade. Não se tratou, em qualquer caso, de um dilúvio universal; mas, com o tempo, a fantasia popular teria feito dessas inundações um “castigo universal” que atingiu o conjunto da humanidade. O autor bíblico, conhecedor dessas lendas antigas, vai usá-las como pano de fundo para fazer catequese e transmitir uma mensagem religiosa.
Os catequistas jahwistas e sacerdotais quiseram dizer ao seu Povo que Jahwéh não fica de braços cruzados quando os homens se lançam por caminhos de corrupção e de pecado… Com esse propósito, lançaram mão da velha lenda mesopotâmica do dilúvio, que falava de uma catástrofe universal enviada pelos deuses para punir os pecados dos homens… Mas, porque Deus não castiga às cegas bons e maus, justos e injustos, os autores vão propor a história do justo Noé e da sua família, salvos por Deus da catástrofe.
O nosso texto situa-nos na fase imediatamente posterior ao dilúvio, quando já tinha deixado de chover e quando Noé e a sua família já tinham desembarcado em terra seca. Os sobreviventes construíram um altar e ofereceram holocaustos sobre o altar; por sua vez, o Senhor Deus comprometeu-Se a não mais “castigar os seres vivos” de forma tão radical (cf. Gn. 8,13-22), abençoou Noé e a sua família (cf. Gn. 9,1-7) e fez uma Aliança com eles.
MENSAGEM
O nosso texto propõe-nos os termos de uma Aliança, oferecida por Jahwéh à nova humanidade (representada por Noé e sua família, presente e futura) e a todos os seres criados (representados pelos animais que saíram da Arca). Nela, Deus compromete-Se a depor o seu “arco de guerra” e a garantir a perenidade da ordem cósmica.
A Aliança com Noé apresenta-se, no entanto, como uma Aliança completamente diferente da Aliança feita com Abraão, ou da Aliança feita com Israel no Sinai, ou de qualquer outra Aliança que Jahwéh fez com os homens. Nas outras Alianças, um indivíduo ou um Povo eram chamados a uma relação de comunhão com Deus e aceitavam ou não esse desafio; se o indivíduo ou o Povo em causa não aceitassem, não haveria relação e, portanto, não haveria Aliança… Ao contrário, a Aliança de Jahwéh com Noé não implica nenhuma adesão ou reconhecimento da parte do homem, nem implica qualquer promessa, por parte do homem, no sentido de não voltar a percorrer caminhos de corrupção e de pecado. A Aliança que Jahwéh faz com Noé aparece, assim, como um puro dom de Deus, um fruto do seu amor e da sua misericórdia. É uma Aliança incondicional e sem contrapartidas, que resulta exclusivamente da bondade e da generosidade de Deus.
O sinal desta Aliança será o arco-íris. Em hebraico, a mesma palavra (“qeshet”) designa o “arco-íris” e o “arco de guerra”… Jogando com esta duplicidade, o teólogo sacerdotal, autor deste texto, sugere que Jahwéh pendurou na parede do horizonte o seu “arco de guerra”, a fim de demonstrar ao homem as suas intenções pacíficas. O “arco-íris”, sinal belo e misterioso que toca o céu e a terra, é o “arco” de Jahwéh, através do qual a bondade de Deus abraça o mundo e os homens. O “arco-íris é assim, para o teólogo sacerdotal, um sinal que sugere a vontade que Deus tem de oferecer a paz a toda a criação.
ATUALIZAÇÃO
• Evidentemente, não foi Deus que enviou o dilúvio para castigar os homens. Os catequistas de Israel apenas pegaram na velha lenda mesopotâmica para ensinar que o pecado é algo incompatível com Deus e com os projetos de Deus para o homem e para o mundo; por isso, quando o ódio, a violência, o egoísmo, o orgulho, a prepotência enchem o mundo e trazem infelicidade aos homens, Deus tem de intervir para corrigir o rumo da humanidade. Esta catequese recorda-nos, no início da nossa caminhada quaresmal, que o pecado não é uma realidade que possa coexistir com essa vida nova que Deus nos quer oferecer e que é a nossa vocação fundamental. O pecado destrói a vida e assassina a felicidade do homem; por isso, tem de ser eliminado da nossa existência.
• O sentido geral do texto que nos é proposto aponta, contudo, no sentido da esperança. A Aliança que Deus faz com Noé e com toda a humanidade é uma Aliança totalmente gratuita e incondicional, que não depende do arrependimento do homem ou das contrapartidas que o homem possa oferecer a Deus… Nos termos desta Aliança revela-se um Deus que Se recusa a fazer guerra ao homem, que abençoa e abraça o homem, que ama o homem mesmo quando ele continua a trilhar caminhos de pecado e de infidelidade. Nesta Quaresma, somos convidados a fazer esta experiência de um Deus que nos ama apesar das nossas infidelidades; e somos convidados, também, a deixar que o amor de Deus nos transforme e nos faça renascer para a vida nova.
• A lógica do amor de Deus – amor incondicional, total, universal, que se derrama até sobre os que o não merecem – convida-nos a repensar a nossa forma de abordar a vida e de tratar os nossos irmãos. Podemos sentir-nos filhos deste Deus quando utilizamos uma lógica de vingança, de intolerância, de incompreensão perante as fragilidades e limitações dos irmãos? Podemos sentir-nos filhos deste Deus quando respondemos com uma violência maior àqueles que consideramos maus e violentos? Talvez este tempo de Quaresma que nestes dias iniciamos seja um tempo propício para repensarmos as nossas atitudes e para nos convertermos à lógica do amor incondicional, à lógica de Deus.
2ª leitura – 1Pe. 3,18-22 - AMBIENTE
A primeira carta de Pedro é uma carta dirigida aos cristãos de cinco províncias romanas da Ásia Menor (a carta cita explicitamente a Bitínia, o Ponto, a Galácia, a Ásia e a Capadócia – cf. 1Pe. 1,1). O seu autor apresenta-se com o nome do apóstolo Pedro; no entanto, a análise literária e teológica não confirma que Pedro seja o autor deste texto: em termos literários, a qualidade literária da carta não corresponde à maneira de escrever de um pescador do lago de Tiberíades, pouco instruído; a teologia apresentada demonstra uma reflexão e uma catequese bem posteriores à época de Pedro; e o “ambiente” descrito na carta corresponde, claramente, à situação da comunidade cristã no final do séc. I. Se Pedro morreu em Roma durante a perseguição de Nero (por volta do ano 67), não pode ser o autor deste escrito. O autor da carta será, portanto, um cristão anônimo – provavelmente um responsável de alguma comunidade cristã – culto e que conhece profundamente a situação das comunidades cristãs da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80), provavelmente a partir de uma comunidade cristã não identificada da Ásia Menor.
Em concreto, os destinatários desta carta são as comunidades cristãs que vivem em zonas rurais da Ásia Menor. A maioria destes cristãos são pastores ou camponeses que cultivam as propriedades das classes dominantes. Também há, nestas comunidades, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. De qualquer forma, trata-se de gente que vive no meio rural, economicamente débil, vulnerável a um ambiente que começa a manifestar alguma hostilidade para com o cristianismo.
O autor da carta conhece as provações que estes cristãos sofrem todos os dias. Exorta-os, no entanto, a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.
O texto que nos é proposto é a parte final de uma perícope (cf. 1Pe. 3,13-4,11) na qual o autor da carta explica qual deve ser a atitude dos crentes, confrontados com as provocações, as injustiças e a hostilidade do mundo. Depois de pedir aos crentes que mesmo no meio do sofrimento não se cansem de fazer o bem (cf. 1Pe. 3,13-17), o autor da carta apresenta a razão fundamental pela qual os crentes devem agir desta forma tão “ilógica”: esse foi o exemplo que Cristo deixou.
MENSAGEM
Na verdade, Cristo veio a este mundo, partilhou as nossas dores e limitações, a fim de realizar o projeto de salvação que o Pai tinha para os homens. Ele que era justo e bom aceitou morrer para conduzir todos os homens – mesmo os maus e os injustos – ao encontro da vida verdadeira, da felicidade plena. A sua morte não foi um fracasso, pois a sua existência não terminou no sepulcro; vivificado pelo Espírito, Ele alcançou de novo a vida e a glória (v. 18) e “foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte e tinham sido outrora rebeldes” (vs. 19-20. A afirmação não é totalmente clara. Provavelmente, refere-se à velha verdade proclamada no credo cristão de que Jesus ressuscitado teria descido “à mansão dos mortos” para libertar todos aqueles que eram prisioneiros da morte). A morte e a ressurreição de Cristo tiveram uma dimensão salvadora que atingiu toda a humanidade, mesmo essa humanidade pecadora que conheceu o dilúvio, no tempo de Noé.
No dilúvio, o pecado foi afogado e da água ressurgiu uma nova humanidade. A água do dilúvio pode, assim, ser para os crentes uma figura do batismo. Pelo batismo, os crentes aderiram a Cristo e à salvação que Ele veio oferecer, comprometeram-se a segui-l’O nessa vida de amor, de dom, de entrega, foram envolvidos neste dinamismo de vida e de salvação que brota de Jesus, tornaram-se o princípio de uma nova humanidade. Na água do batismo, os crentes nasceram para a vida do bem, da justiça e da verdade (v. 21).
A conclusão que o autor da carta sugere aos crentes parece ser a seguinte: se Cristo propiciou, mesmo aos injustos, a salvação, também os cristãos devem dar a vida e fazer o bem, mesmo quando são perseguidos e sofrem. Comprometidos com Cristo pelo batismo, eles nasceram para uma vida nova; e devem testemunhar essa vida nova diante de todos os homens, mesmo diante dos maus e dos perseguidores.
ATUALIZAÇÃO
• Mais uma vez, põe-se-nos o problema do sentido de uma vida feita dom e entrega aos outros, até à morte (sobretudo se esses “outros” são os nossos perseguidores e detratores). É possível “dar o braço a torcer” e triunfar? O amor e o dom da vida não serão esquemas de fragilidade, que não conduzem senão ao fracasso? Esta história de o amor ser o caminho para a felicidade e para a vida plena não será uma desculpa dos fracos? Não – responde a Palavra de Deus que nos é proposta. Reparemos no exemplo de Cristo: Ele deu a vida pelos pecadores e pelos injustos e encontrou, no final do caminho, a ressurreição, a vida plena.
• Diante das dificuldades, das propostas contrárias aos valores cristãos, é em Cristo – o Senhor da vida, do mundo e da história – que colocamos a nossa confiança e a nossa esperança? Ou é noutros esquemas mais materiais, mais imediatos, mais lógicos, do ponto de vista humano?
• Diante dos ataques – às vezes incoerentes e irracionais – daqueles que não concordam com os valores de Jesus, como nos comportamos? Com a mesma agressividade com que nos tratam? Com a mesma intolerância dos nossos adversários? Tratando-os com a lógica do “olho por olho, dente por dente”? Como é que Jesus tratou aqueles que O condenaram e mataram?
Evangelho – Mc. 1,12-15 - AMBIENTE
O Evangelho de Marcos começa com uma introdução (cf. Mc. 1,2-13) destinada a apresentar Jesus. Em três quadros iniciais, Marcos diz-nos que Jesus é Aquele que vem “batizar no Espírito” (cf. Mc. 1,2-8), o Filho amado, sobre quem o Pai derrama o Espírito e a quem envia em missão para o meio dos homens (cf. Mc. 1,9-11), o Messias que enfrenta e vence o mal que oprime os homens, a fim de fazer nascer um mundo novo e uma nova humanidade (cf. Mc. 1,12-13). A primeira parte do texto que nos é proposto apresenta-nos o terceiro destes quadros. Situa-nos num “deserto” não identificado, não longe do lugar onde Jesus foi batizado por João Baptista.
Depois deste trítico introdutório, entramos na primeira parte do Evangelho (cf. Mc. 1,14-8,30). Aí, Marcos vai descrever a ação de Jesus, o Messias que o Pai enviou ao mundo para anunciar aos homens uma realidade nova chamada “Reino de Deus”. Na segunda parte do texto que nos é hoje proposto, temos um “sumário-anúncio” da pregação inaugural de Jesus sobre o “Reino” (cf. Mc. 1,14-15). O texto situa-nos na Galileia, região setentrional da Palestina, zona em permanente contacto com o mundo pagão e, portanto, considerada à margem da história da salvação.
MENSAGEM
Temos então, como primeira cena, o episódio da tentação de Jesus no deserto (vs. 12-13). Mais do que uma descrição fotográfica de acontecimentos concretos, trata-se de uma catequese. Está carregado de símbolos, que é preciso descodificar para entender a mensagem proposta.
O deserto é, na teologia de Israel, o lugar privilegiado do encontro com Deus; foi no deserto que o Povo experimentou o amor e a solicitude de Jahwéh e foi no deserto que Jahwéh propôs a Israel uma Aliança. Contudo, o deserto é também o lugar da “prova”, da “tentação”; foi no deserto que Israel foi confrontado com opções e foi no deserto, também, que Israel sentiu, várias vezes, a tentação de escolher caminhos contrários aos propostos por Deus… O “deserto” para onde Jesus “vai” é, portanto, o “lugar” do encontro com Deus e do discernimento dos seus projetos; e é o “lugar” da prova, onde se é confrontado com a tentação de abandonar Deus e de seguir outros caminhos.
Nesse “deserto”, Jesus ficou “quarenta dias” (v. 13a). O número “quarenta” é bastante frequente no Antigo Testamento. Muitas vezes refere-se ao tempo da caminhada do Povo de Israel pelo deserto, desde que deixou a terra da escravidão, até entrar na terra da liberdade; mas também é usado para significar “toda a vida” (a esperança média de vida, na época, rondava os quarenta anos). Deve ser entendido com o sentido de “toda a vida” ou, então, “todo o tempo que durou a caminhada”.
Durante esse tempo, Jesus foi “tentado por Satanás” (v. 13b). A palavra “satanás” designava, originalmente, o adversário que, no contexto do julgamento, apresentava a acusação (cf. Sal. 109,6). Mais tarde, a palavra vai passar a designar uma personagem que integrava a corte celeste e que acusava o homem diante de Deus (cf. Job. 1,6-12). Na época de Jesus, “satanás” já não era considerado uma personagem da corte celeste, mas um espírito mau, inimigo do homem, que procurava destruir o homem e frustrar os planos de Deus. É neste sentido que ele vai aparecer aqui… “Satanás” representa um personagem que vai tentar levar Jesus a esquecer os planos de Deus e a fazer escolhas pessoais, que estejam em contradição com os projetos do Pai.
Ao referir as tentações de “satanás”, é provável que Marcos estivesse a pensar, em concreto, em tentações de poder e de messianismo político. O deserto era, tradicionalmente, o lugar de refúgio dos agitadores e dos rebeldes com pretensões messiânicas. A tentação pretende, portanto, induzir Jesus a enveredar por um caminho de poder, de autoridade, de violência, de messianismo político, frustrando os projetos de Deus que passavam por um messianismo marcado pelo amor incondicional, pelo serviço simples e humilde, pelo dom da vida.
A referência às “feras” que rodeavam Jesus e aos “anjos” que O serviam (v. 13c) deve aludir a certas interpretações de Gn. 2-3, muito em voga nos ambientes rabínicos, no século I. Alguns “mestres” de Israel ensinavam que Adão, o primeiro homem, vivia no paraíso em paz completa com todos os animais e que os anjos estavam à sua volta para o servir; mas, quando Adão escolheu o caminho da auto-suficiência e se revoltou contra Deus, rompeu-se a harmonia original, os animais tornaram-se inimigos do homem e até os anjos deixaram de o servir. A catequese dos “rabis” adiantava ainda que, quando o Messias chegasse, nasceria um mundo harmonioso, sem violência e sem conflito, onde até os animais ferozes viveriam em paz com o homem. Seria o regresso à harmonia original, ao plano original de Deus para os homens e para o mundo. É isso que Marcos está aqui a sugerir: com Jesus, chegou esse tempo messiânico de paz sem fim, chegou o tempo de o mundo regressar a essa harmonia que era o plano inicial de Deus. Haverá, também, uma intenção de estabelecer um paralelo entre Adão e Jesus: Adão cedeu à tentação de escolher caminhos contrários aos de Deus e criou inimizade, violência, conflito, escravidão, sofrimento; Jesus escolheu viver na mais completa fidelidade aos projetos de Deus e fez nascer um mundo novo, de harmonia, de paz, de amor, de felicidade sem fim.
Em síntese: temos aqui uma catequese sobre as opções de Jesus. Marcos sugere que, ao longe de toda a sua existência (“quarenta dias”), Jesus confrontou-Se com dois caminhos, com duas propostas de vida: ou viver na fidelidade aos projetos do Pai, fazendo da sua vida uma entrega de amor, ou frustrar os planos de Deus, enveredando por um caminho messiânico de poder, de violência, de autoridade, de despotismo, ao jeito dos grandes deste mundo. Jesus escolheu viver na obediência às propostas do Pai; da sua opção, vai surgir um mundo de paz e de harmonia, um mundo novo que reproduz o plano original de Deus.
Na segunda parte do Evangelho deste domingo (vs. 14-15), temos uma outra cena. Marcos transporta-nos para a Galileia, onde Jesus aparece a concretizar esse plano salvador do Pai que, na cena anterior, Ele escolheu cumprir.
Jesus começa, precisamente, por anunciar que “chegou o tempo”. Que “tempo” é esse? É o “tempo” do “Reino de Deus”. A expressão – tão frequente no Evangelho segundo Marcos – leva-nos a um dos grandes sonhos do Povo de Deus…
A catequese de Israel (como aliás acontecia com a reflexão teológica de outros povos do Crescente Fértil) referia-se, com frequência, a Jahwéh como a um rei que, sentado no seu trono, governa o seu Povo. Mesmo quando Israel passou a ter reis terrenos, esses eram considerados, apenas, como homens escolhidos e ungidos por Jahwéh para governar o Povo, em lugar do verdadeiro rei que era Deus. O exemplo mais típico de um rei/servo de Jahwéh, que governa Israel em nome de Jahwéh, submetendo-se em tudo à vontade de Deus, foi David. A saudade deste rei ideal e do tempo ideal de paz e de felicidade em que Jahwéh reinava (através de David) sobre o seu povo vai marcar toda a história futura de Israel. Nas épocas de crise e de frustração nacional, quando reis medíocres conduziam a nação por caminhos de morte e de desgraça, o Povo sonhava com o regresso aos tempos gloriosos de David. Os profetas, por sua vez, vão alimentar a esperança do Povo anunciando a chegada de um tempo, no futuro, em que Jahwéh vai voltar a reinar sobre Israel e vai restabelecer a situação ideal da época de David. Essa missão, na perspectiva profética, será confiada a um “ungido” que Deus vai enviar ao seu Povo. Esse “ungido” (em hebraico “messias”, em grego “cristo”) estabelecerá, então, um tempo de paz, de justiça, de abundância, de felicidade sem fim – isto é, o tempo do “reinado de Deus”.
O “Reino de Deus” é, portanto, uma noção que resume a esperança de Israel num mundo novo, de paz e de abundância, preparado por Deus para o seu Povo. Esta esperança está bem viva no coração de Israel na época em que Jesus aparece a dizer: “cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus”. Certas afirmações de Jesus, transmitidas pelos Evangelhos sinópticos, mostram que Ele tinha consciência de estar pessoalmente ligado ao Reino e de que a chegada do Reino dependia da sua ação.
Jesus começa, precisamente, a construção desse “Reino” pedindo aos seus conterrâneos a conversão (“metanoia”) e o acolhimento da Boa Nova (“evangelho”).
“Converter-se” significa transformar a mentalidade e os comportamentos, assumir uma nova atitude de base, reformular os valores que orientam a própria vida. É reequacionar a vida, de modo a que Deus passe a estar no centro da existência do homem e ocupe sempre o primeiro lugar. Na perspectiva de Jesus, não é possível que esse mundo novo de amor e de paz se torne uma realidade, sem que o homem renuncie ao egoísmo, ao orgulho, à auto-suficiência e passe a escutar, de novo, Deus e as suas propostas.
“Acreditar” não é, apenas, aceitar um conjunto de verdades intelectuais; mas é, sobretudo, aderir à pessoa de Jesus, escutar a sua proposta, acolhê-la no coração, fazer dela o guia da própria vida. “Acreditar” é escutar essa “Boa Notícia” de salvação e de libertação (“evangelho”) que Jesus propõe e fazer dela o centro à volta do qual se constrói toda a existência.
“Conversão” e “adesão ao projeto de Jesus” são duas faces de uma mesma moeda: a construção de um homem novo, com uma nova mentalidade, com novos valores, com uma postura vital inteiramente nova. Então, sim teremos um mundo novo – o “Reino de Deus”.
ATUALIZAÇÃO
• O quadro da “tentação no deserto” diz-nos que Jesus, ao longo do caminho que percorreu no meio dos homens, foi confrontado com opções. Ele teve de escolher entre viver na fidelidade aos projetos do Pai e fazer da sua vida um dom de amor, ou frustrar os planos de Deus e enveredar por um caminho de egoísmo, de poder, de auto-suficiência. Jesus escolheu viver – de forma total, absoluta, até ao dom da vida – na obediência às propostas do Pai. Os discípulos de Jesus são confrontados a todos os instantes com as mesmas opções. Seguir Jesus é perceber os projetos de Deus e cumpri-los fielmente, fazendo da própria vida uma entrega de amor e um serviço aos irmãos. Estou disposto a percorrer este caminho?
• Ao dispor-se a cumprir integralmente o projeto de salvação que o Pai tinha para os homens, Jesus começou a construir um mundo novo, de harmonia, de justiça, de reconciliação, de amor e de paz. A esse mundo novo, Jesus chamava “Reino de Deus”. Nós aderimos a esse projeto e comprometemo-nos com ele, no dia em que escolhemos ser seguidores de Jesus. O nosso empenho na construção do “Reino de Deus” tem sido coerente e consequente? Mesmo contra a corrente, temos procurado ser profetas do amor, testemunhas da justiça, servidores da reconciliação, construtores da paz?
• Para que o “Reino de Deus” se torne uma realidade, o que é necessário fazer? Na perspectiva de Jesus, o “Reino de Deus” exige, antes de mais, a “conversão”. “Converter-se” é, antes de mais, renunciar a caminhos de egoísmo e de auto-suficiência e recentrar a própria vida em Deus, de forma a que Deus e os seus projetos sejam sempre a nossa prioridade máxima. Implica, naturalmente, modificar a nossa mentalidade, os nossos valores, as nossas atitudes, a nossa forma de encarar Deus, o mundo e os outros. Exige que sejamos capazes de renunciar ao egoísmo, ao orgulho, à auto-suficiência, ao comodismo e que voltemos a escutar Deus e as suas propostas. O que é que temos de “converter” – quer em termos pessoais, quer em termos institucionais – para que se manifeste, realmente, esse Reino de Deus tão esperado?
• De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, o “Reino de Deus” exige, também, o “acreditar” no Evangelho. “Acreditar” não é, na linguagem neo-testamentária, a aceitação de certas afirmações teóricas ou a concordância com um conjunto de definições a propósito de Deus, de Jesus ou da Igreja; mas é, sobretudo, uma adesão total à pessoa de Jesus e ao seu projeto de vida. Com a sua pessoa, com as suas palavras, com os seus gestos e atitudes, Jesus propôs aos homens – a todos os homens – uma vida de amor total, de doação incondicional, de serviço simples e humilde, de perdão sem limites. O “discípulo” é alguém que está disposto a escutar o chamamento de Jesus, a acolher esse chamamento no coração e a seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. Estou disposto acolher o chamamento de Jesus e a percorrer o caminho do “discípulo”?
• O chamamento a integrar a comunidade do “Reino” não é algo reservado a um grupo especial de pessoas, com uma missão especial no mundo e na Igreja; mas é algo que Deus dirige a cada homem e a cada mulher, sem exceção. Todos os batizados são chamados a ser discípulos de Jesus, a “converter-se”, a “acreditar no Evangelho”, a seguir Jesus nesse caminho de amor e de dom da vida. Esse chamamento é radical e incondicional: exige que o “Reino” se torne o valor fundamental, a prioridade, o principal objetivo do discípulo.
• O “Reino” é uma realidade que Jesus começou e que já está, decisivamente, implantada na nossa história. Não tem fronteiras materiais e definidas; mas está a acontecer e a concretizar-se através dos gestos de bondade, de serviço, de doação, de amor gratuito que acontecem à nossa volta (muitas vezes, até fora das fronteiras institucionais da “Igreja”) e que são um sinal visível do amor de Deus nas nossas vidas. Não é uma realidade que construímos de uma vez, mas é uma realidade sempre em construção, sempre a fazer-se, até à sua realização final, no fim dos tempos, quando o egoísmo e o pecado desaparecerem para sempre. Em cada dia que passa, temos de renovar o compromisso com o “Reino” e empenharmo-nos na sua edificação.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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As tentações de Jesus
I. “A QUARESMA COMEMORA os quarenta dias que Jesus passou no deserto, como preparação para esses anos de pregação que culminam na Cruz e na glória da Páscoa. Quarenta dias de oração e de penitência que, ao findarem, desembocam na cena que a liturgia de hoje oferece à nossa consideração no Evangelho da Missa: as tentações de Cristo (cf. Mt. 4,1-11). É uma cena cheia de mistério, que o homem em vão pretende entender – Deus que se submete à tentação, que deixa agir o Maligno –, mas que pode ser meditada se pedirmos ao Senhor que nos faça compreender a lição que encerra” (1).
É a primeira vez que o demônio intervém na vida de Jesus, e fá-lo abertamente. Põe à prova Nosso Senhor; talvez queira averiguar se chegou a hora do Messias. Jesus deixa-o agir para nos dar exemplo de humildade e para nos ensinar a vencer as tentações que sofreremos ao longo da nossa vida: “Como o Senhor fazia todas as coisas para nos ensinar – diz são João Crisóstomo –, quis também ser conduzido ao deserto e ali travar combate com o demônio a fim de que os batizados, se depois do batismo sofrem maiores tentações, não se assustem com isso, como se fosse algo de inesperado”2. Se não contássemos com as tentações que temos de sofrer, abriríamos a porta a um grande inimigo: o desalento e a tristeza.
Jesus quis ensinar-nos com o seu exemplo que ninguém deve considerar-se dispensado de passar por provas. “As tentações de Nosso Senhor – diz Knox – são também as tentações dos seus servidores individualmente. Mas, como é natural, o grau é diferente: o demônio não nos oferecerá a vós e a mim todos os reinos do mundo. Conhece o mercado e, como bom vendedor, oferece exatamente o que calcula que o comprador quererá. Suponho que pensará, com bastante razão, que quase todos nós podemos ser comprados por cinco mil libras por ano, e muitos de nós por muito menos. Também não nos oferece as suas vantagens de modo tão aberto, antes envolve as suas ofertas em toda a espécie de formas plausíveis. Mas se vê a menor oportunidade, não demora muito em mostrar-nos como podemos conseguir aquilo que queremos, se concordamos em ser infiéis a nós mesmos e, muitas vezes, à nossa fé católica”3.
Como nos lembra o Prefácio da Missa de hoje, o Senhor ensina-nos com a sua conduta como devemos vencer as tentações e como tirar proveito das provas por que iremos passar. Ele “permite as tentações e serve-se delas, providencialmente, para te purificar, para te fazer santo, para te desprender melhor das coisas da terra, para te conduzir aonde Ele quer e por onde quer, para te fazer feliz numa vida que não seja cômoda e para te dar maturidade, compreensão e eficácia no teu trabalho apostólico com as almas, e..., sobretudo, para te fazer humilde, muito humilde!”4 Feliz o homem que suporta a tentação – diz o Apóstolo Tiago – porque, depois de provado, receberá a coroa da vida que Deus prometeu aos que o amam5.
II. O DEMÔNIO TENTA-NOS aproveitando as necessidades e fraquezas da natureza humana.
O Senhor, depois de ter jejuado durante quarenta dias e quarenta noites, teve fome, como qualquer homem nas mesmas circunstâncias. Foi este o momento em que o tentador se aproximou dEle propondo-lhe que convertesse as pedras que havia por ali no pão de que tanto necessitava e que desejava.
E Jesus “não só rejeita o alimento que o corpo lhe pedia, como afasta de si uma incitação maior: a de usar do poder divino para remediar, digamos assim, um problema pessoal [...]. Generosidade do Senhor que se humilhou, que aceitou plenamente a condição humana, que não se serve do seu poder de Deus para fugir das dificuldades ou do esforço; que nos ensina a ser fortes, a amar o trabalho, a apreciar a nobreza humana e divina de saborear as conseqüências da entrega”6.
Esta passagem do Evangelho ensina-nos também a estar especialmente vigilantes nesses momentos de fraqueza ou cansaço que nos podem atingir, a nós e àqueles a quem temos obrigação de ajudar. São momentos ruins, em que o demônio talvez intensifique a tentação para que as nossas vidas tomem outros rumos, alheios à vontade de Deus.
Na segunda tentação, o demônio transportou-o à Cidade Santa, situou-o no pináculo do templo e disse-lhe: Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Ele ordenou aos seus anjos que te tomassem nas suas mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé nalguma pedra. Respondeu Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.
Era uma tentação aparentemente capciosa: se te recusas, demonstrarás que não confias em Deus plenamente; se aceitas, obrigas Deus a enviar em proveito pessoal os seus anjos para que te salvem. O demônio não sabe que Jesus não teria necessidade de anjo algum. No fim da sua vida terrena, Jesus ouvirá uma proposta parecida e com palavras quase idênticas: Se é o rei de Israel, desça agora da cruz e creremos nele7.
Cristo nega-se a fazer milagres inúteis, por vaidade ou por vanglória. Nós devemos estar atentos para saber rejeitar tentações semelhantes: o desejo de ficar bem, que pode surgir até nas coisas mais santas; o prurido de montar em benefício próprio falsas argumentações que pretendem fundar-se na Sagrada Escritura; a atitude cética de quem pede (e até exige) provas ou sinais extraordinários para crer, esquecido de que o Senhor nos dá no meio da nossa vida cotidiana graças e testemunhos suficientes para iluminarem o caminho da fé.
Na última das tentações, o demônio oferece a Jesus toda a glória e poder terreno que um homem pode ambicionar. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-lhe: Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares. O Senhor rechaça definitivamente o tentador.
O demônio promete sempre mais do que pode dar. A felicidade está muito longe das suas mãos. Toda a tentação é sempre um logro miserável. Mas, para nos experimentar, o demônio conta com as nossas ambições. E a pior delas é desejar a todo o custo a glória pessoal: a ânsia de nos procurarmos sistematicamente a nós mesmos nas coisas que fazemos e projetamos. Muitas vezes, o pior dos ídolos é o nosso próprio eu. Temos que vigiar, em luta constante, porque dentro de nós permanece a tendência de desejar a glória humana, apesar de termos dito ao Senhor repetidamente que não queremos outra glória que não a dEle. Jesus também se dirige a nós quando diz: Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás. E é isto o que nós desejamos e pedimos: servir a Deus alicerçados na vocação a que Ele nos chamou.
III. O SENHOR está sempre ao nosso lado, em cada tentação, e nos diz afetuosamente: Confiai: Eu venci o mundo8. E nós nos apoiamos nEle porque, se não o fizéssemos, pouco conseguiríamos sozinhos. Tudo posso nAquele que me conforta9. O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei?10
Podemos prevenir as tentações mediante a mortificação constante, mediante a prática da caridade e a guarda dos sentidos internos e externos. Devemos também fugir das ocasiões de pecar, por pequenas que sejam, pois aquele que ama o perigo nele perecerá (11).
E juntamente com a mortificação, a oração: Vigiai e orai para que não entreis em tentação (12). “É necessário repetir muitas vezes e com confiança a oração do Pai Nosso: Não nos deixeis cair em tentação. Já que o próprio Senhor põe nos lábios humanos esse pedido, é bom repeti-lo incessantemente. E também combatemos a tentação manifestando-a abertamente ao diretor espiritual, pois expô-la é vencê-la. Quem revela as suas tentações ao diretor espiritual pode estar certo de que Deus lhe concede a graça necessária para ser bem orientado” (13).
Contamos sempre com a graça de Deus para vencer qualquer tentação. “Não te esqueças, meu amigo, de que precisas de armas para vencer nesta batalha espiritual. As tuas armas serão: a oração contínua, a sinceridade e franqueza com o teu diretor espiritual, a Santíssima Eucaristia e o Sacramento da Penitência, um generoso espírito de mortificação cristã – que te levará a fugir das ocasiões e a evitar a ociosidade –, a humildade de coração e uma devoção terna e filial à Santíssima Virgem – Consoladora dos aflitos e Refúgio dos pecadores. Dirige-te sempre a Ela com confiança e diz-lhe: «Matermea, fiduciamea»; Minha Mãe, confiança minha!” (14)
Francisco Fernández-Carvajal

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Quaresma: iniciativa da divina misericórdia em restaurar as
relações abaladas pelas infidelidades dos homens ao amor.
Nega-se quem considera a conversão, resultado de uma iniciativa pessoal, motivada, sobretudo, por nossa vontade e pela liberdade que temos de não mais aceitar e realizar atos que ferem a dignidade humana e destroem a vida, não somente da criação humana, mas de toda a biodiversidade a qual esta vida se encontra presente.
Não é sem pensar que a liturgia do tempo quaresmal se inicia com a reflexão do livro de Gênesis, nome, que na sua etimologia quer dizer início; o início da vida marcado como ato criador de Deus, não como fato hitórico-científico, mas como relato de fé, compreendido a partir de um pensamento místico e espiritual, capaz de racionalizar aquilo que a ciência se limita a afirmar, pois não pode comprovar pela sua investigação sistemática e rigorosa.
Esta criação divina, com certeza, inicialmente realizada para a completa felicidade, aquela mesma que o pensamento racional diz não existir, pois, a felicidade, para este mundo, que se considera moderno não passa de fragmentos constituídos de pequenos momentos de felicidade, uma vez que na forma a qual se vive nesta sociedade, os momentos de infelicidade, pra não dizer desespero, ocorrem com muito mais frequência do que os momentos de felicidade, que não são puros, por ser uma felicidade contaminada, corrompida, sobretudo pelas condições do ter do que do ser; “considero-me feliz quando me encontro na segurança que este mundo me oferece” afirma o senso comum, no entanto esta sensação é sempre falsa, uma vez que se pensa essencialmente no caráter individual e não coletivo, isto é, não se concebe a existência e os direitos do outro também ser feliz; não raramente, para obter a felicidade nestas perspectivas, requer a anulação do outro, e anular o outro é o mesmo que eliminá-lo, e eliminação é pressuposto de morte. Quando anulamos alguém, de certa forma o matamos, ainda que não haja comportamentos de violência explícita.
“Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados” (1Pd. 3,18). Os pecados a que Paulo se refere, não são os pecados dos nossos antepassados, mas são os nossos pecados atuais e futuros que ferem e continuarão ferindo de morte, seja o Filho de Deus, que vive a glória da eternidade, sejam os filhos de Deus, uma vez que vivendo uma comunhão com o Cristo, tanto este quanto aquele, são partes de um mesmo corpo, de um só corpo, o Corpo de Cristo, a Igreja e sua Cabeça.
Assim, a conversão do pecador não é produto da vontade do pecador, mas é iniciativa da graça misericordiosa do Senhor que pela ação do Espírito Santo motiva e leva o pecador a relacionar-se novamente com o amor, é pois, o Espírito, aquele vento impetuoso que um dia adentrou as narinas daquele que era apenas matéria e encheu-o de vida (cf. Gn. 2,7): “Então Iahweh Deus modelou o homem com argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente”. O pecado tem como principal característica levar a criatura à condição anterior de ter se tornado um vivente, então, um não vivente. Para Paulo, a água do batismo não é suficiente para restaurar plenamente a condição de vivente da criatura, esta condição só pode ser restaurada pela unção do Espírito. É no espírito que, Jesus humano, é levado ao deserto, e lá, entre as feras selvagens (cf. Mc.1,13) e as tentações de sua materialidade – sede, fome, esgotamento físico-emocional, desolação e profunda tristeza – é revestido de força e poder para assumir seu ministério, o qual se inicia com a pregação da Palavra.
Que esta quaresma seja o nosso deserto espiritual, onde se revelam a nós mesmos, todas as nossas misérias e limitações e dele possamos sair completamente restaurados pelo ânimo do Senhor, o hálito da vida entre também em nós, Senhor! 
Jesuel Arruda


Evangelho: Marcos 1,12-15
1. Os versículos de hoje seguem imediatamente o batismo de Jesus.
Vamos dividi-los em dois momentos:
a. no deserto – vv. 12-13: a tentação
b. na Galileia – vv. 14-15: o tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam no evangelho.
a. no deserto – vv. 12-13: a tentação
2. A partir do batismo, Jesus é investido do Espírito Santo, e este o leva para o deserto (v. 13). Quarenta dias e deserto, tanto no evangelho de Marcos quanto na Bíblia com um todo, são um baú cheio de recordações. Não são simples contagem de dias nem lugar geográfico, mas “tempo e lugar teológicos” É aí que João Batista se apresenta pregando a chegada do “forte” (1,4-7), aquele que vai vencer o mal. João Batista se apresenta no deserto, em oposição a Jerusalém e ao Templo, sede do poder político, econômico e religioso da época.
3. O povo de Deus passou quarenta anos no deserto, organizando-se, lutando, perdendo e vencendo, até caminhar para conquistar a terra da promessa (cf. Ex. 16,35). Marcos abre o baú da memória do povo e ajuda a ver que Jesus vai inaugurar novo e definitivo êxodo, concretizado na pregação e na prática.
4. Quarenta anos recorda:
- recorda o tempo que durou o dilúvio, depois do qual surgiu a humanidade renovada na pessoa do justo Noé (Gn. 97,12);
- lembram também os 40 dias e noites que Moisés permaneceu no monte Horeb para receber a aliança (Ex. 24,18; 34,28; Dt. 9,11);
- fazem ainda pensar nos quarenta dias e quarenta noites que Elias caminhou, alimentado pelo anjo do Senhor, até chegar ao Horeb (1Rs. 19,8), o monte de Deus; depois dos quais provoca mudanças radicais no Reino do Norte.
- lembram ainda os 40 anos que o povo de Israel peregrinou pelo deserto (Dt. 2,7).
Todos esses aspectos repercutem na apresentação de Jesus: com ele tudo recomeça (como com Noé), chega anova aliança (a antiga veio por Moisés) e aproxima-se a mudança radical (superior à de Elias).
5. Marcos afirma que Jesus permaneceu no deserto por quarenta dias e ali foi tentado por satanás (vv.12-13a). O evangelho não revela o conteúdo da tentação sofrida. È que ela irá aparecer constantemente na vida do Mestre. Satanás (= adversário) quer dizer pessoas e sistemas que se opõem ao projeto de Deus a ser anunciado e realizado na pregação e na prática de Jesus (cf. 1,36-37; 8,33; 12,13).
6. No deserto, o Mestre vive novo tipo de relação. Os animais selvagens recordam a realidade nova anunciada por Isaías 11,1-9. Jesus inaugura novas relações de pessoas entre si e com toda a criação, e isso é fruto do Espírito que age nele (cf.v.12). No deserto, Jesus é servido pelos anjos, ou seja, é sustentado pelo próprio Deus, que o declarou seu Filho e Servo para instaurar o Reino.
b. na Galileia – vv. 14-15: o tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam no evangelho.
7. Marcos situa rapidamente o contexto em que apareceu o programa de Jesus, sintetizado pela primeira declaração do Mestre nesse evangelho. Temos uma vaga indicação de tempo (“depois que João Batista foi preso”) e de lugar (“Jesus foi para a Galileia”, v. 14). O mensageiro de Jesus foi preso. Marcos dirá, mais adiante, quais os motivos da prisão do Batista e as razões que o levaram à morte (cf. 6,17ss). Esse dado é importante. O mensageiro mexeu com os interesses e privilégios dos poderosos.
E aí? O que irá acontecer com Jesus?
8. Aos poucos o evangelho mostrará que Jesus, o “forte” (1,7), não se deixa amedrontar pelos poderosos, vencendo os mecanismos que geram morte para o povo. A Galileia é o lugar social onde Jesus inicia a sua atividade. Essa região era sinônimo de marginalidade, lugar de gente sem valor e impura. É no meio dessa gente e a partir dela que Jesus anuncia seu programa de vida: “O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam no Evangelho” (v. 15). Depois que ressuscitou, o Mestre convida os discípulos a descobri-lo vivo na Galileia (cf. 16,7), sinal de que a prática de Jesus em nada difere da dos que o desejam seguir.
9. O programa de Jesus (v. 15) consta de três momentos:
- O tempo já se cumpriu.
- O Reino de Deus está próximo.
- Convertam-se e creiam na Boa Notícia.
10. Em primeiro lugar ele anuncia que “O tempo já se cumpriu”. A espera da libertação chegou ao fim. Deus está presente em Jesus, atuando seu projeto de vida e liberdade. O caminho de Deus e o caminho dos marginalizados são uma coisa só. O desejo expresso em Is. 63,19 (“quem dera rasgasses o céu para descer!”) se cumpriu, pois com Jesus o céu se rasgou (cf. Mc. 1,10) e o Deus invisível se tornou gente no meio dos empobrecidos. Fez-se pobre como eles.
11. Em segundo lugar, Jesus anuncia que “o Reino de Deus está próximo”. Deus tomou a decisão de reinar. Por que o Reino de Deus está próximo? Porque a realeza de Deus vai tomando corpo através dos atos libertadores que Jesus realiza ao longo do evangelho. Está sempre próximo também mediante a prática dos seus discípulos, aos quais confiou a continuação daquilo que anunciou e fez. O Reino é uma realidade dinâmica. Refazendo a prática de Jesus no tempo, as pessoas e as comunidades vão abrindo espaços para que o Reino se torne realidade.
12. Em terceiro lugar, Jesus diz; “convertam-se e creiam na Boa Nova”. Conversão é sinônimo de adesão à pratica de Jesus. A libertação esperada, o céu rasgado, de nada adiantariam se as pessoas que anseiam pela libertação continuassem amarradas aos esquemas que mantêm uma sociedade desigual e discriminadora. O evangelho de Marcos é apenas o início da Boa Nova da libertação trazida por Jesus (cf. 1,1). Ela se tornará realidade mediante o compromisso das pessoas e comunidades que dizem sim ao Mestre.
1ª leitura: Gn. 9,8-15
13. Os versículos de hoje situam-se logo após o dilúvio e são de tradição sacerdotal. Com Noé, homem justo, a humanidade renasce do caos gerado pela violência e pelo mal. Isso nos ajuda a crer que a humanidade pode se salvar do caos, desde que as pessoas pratiquem a justiça.
14. O dilúvio, símbolo do mal que ameaça destruir o mundo, terminou. A vida recomeça a partir das pessoas justas, a nova criação, com as quais Deus faz aliança para sempre: “De minha parte, vou firmar minha aliança com vocês e com os seus descendentes … com todos os animais da terra que saíram com vocês da arca” (vv. 9-10). O resultado da aliança de Deus com Noé, com seus filhos e com toda a criação é este: “Nenhum ser que respira será novamente exterminado pelas águas de um dilúvio, e não haverá mais dilúvio para destruir a terra” (v. 11)
15. Desses versículos tiramos algumas conclusões.
15.1. A primeira nasce da constatação de que Deus faz aliança não somente com Noé, com sua família e descendente, mas também com todos os animais da terra que saíram da arca (cf.v. 10), ou seja, com toda a criação. É uma aliança universal. Esta se encontra, novamente, nas mãos de Deus, como no início (cf.Gn. 1-2).
15.2. A segunda conclusão brota do v. 11: Deus quer a vida e por isso, torna-se aliado da humanidade na luta pela continuidade e preservação da vida, não só a das pessoas, mas da natureza como um todo.
15.3. A terceira conclusão é esta: se Deus é a favor da vida em todas as suas manifestações, o mal, a destruição e todas as formas de morte não podem ser atribuídas a ele. Quem será, então, o responsável?
16. A aliança de Deus com Noé, com sua família, descendentes e animais da terra (= aliança com toda criação, para sempre), não exige, como as demais alianças do AT, um sinal concreto por parte do aliado de Deus (para Abraão, por exemplo, o selo da aliança foi a circuncisão; para os hebreus, o descanso do sábado). Há outro aspecto. A aliança com Abraão e com os hebreus exige compromisso do parceiro. Na aliança com Noé, Deus se compromete sozinho, independentemente do compromisso do aliado (Noé e os seus). Isso reforça a idéia de que Deus está, – para sempre e de modo irreversível, – compro-metido com a vida da criação. Cabe, portanto, ao ser humano o respeito e a co-responsabilidade na transmissão e preservação da vida.
17. O arco-íris é o símbolo da aliança de Deus com a humanidade: “Ponho o meu arco nas nuvens, como sinal da aliança entre mim e a terra. Quando eu cobrir de nuvens a terra, aparecerá o arco-íris. Então me lembrarei da minha aliança com vocês e com todas as espécies de animais vivos, e as águas nunca mais virão como dilúvio para destruir todo ser que respira” (vv. 13-15). O arco, instrumento de guerra, é trans-formado em instrumento de paz e aliança para a vida. E para nós, quais são hoje os sinais de que Deus é nosso aliado na luta pela defesa da vida?
2ª leitura: 1Pd. 3,18-22
18. A primeira carta de Pedro é um texto endereçado aos cristãos dispersos, migrantes forçados, que vivem como estrangeiros, passando por duros sofrimentos e perseguições. Nos versículos de hoje é possível descobrir uma espécie de profissão de fé batismal: “Cristo morreu uma vez por causa dos pecados, o justo pelos injustos” (v. 18a);
- “ele recebeu nova vida pelo Espírito” (v. 18b);
- “desceu à mansão dos mortos” (cf. v. 19);
- “subiu ao céu e está à direita de Deus” (v. 22a).
19. Este é o núcleo central desta leitura. Em torno disto, o autor constrói algumas reflexões que ajudam os cristãos dispersos a entender e a vivenciar seus compromissos batismais.
20. O tema da “descida de Jesus à mansão dos mortos” era muito caro aos primeiros cristãos. É a isso que o autor se refere nos vv. 19-20, fazendo uma ponte entre o tempo de Noé e o tempo dos primeiros cristãos. No passado, um pequeno grupo (oito pessoas) foi salvo pela ação do justo Noé, surgindo daí a nova humanidade. A descida de Jesus à mansão dos mortos provocou um encontro e um confronto dos que não foram salvos com a pessoa de Jesus: “Pelo Espírito, Jesus foi também pregar aos espíritos em prisão, isto é, aos que foram incrédulos antigamente…”
21. No tempo em que a carta foi escrita, os batizados eram minoria, mas são justamente eles os que provocam na humanidade inteira o confronto com o Evangelho de Jesus. Daí surgem a identidade e a missão dos batizados, e isso irá provocar novas criaturas e nova humanidade. O batismo não é um rito, como os antigos ritos de purificação, ”mas, é o pedido de uma boa consciência para com Deus pela ressurreição de Jesus Cristo” (v. 21). Ele confere, portanto, identidade nova, tornando as pessoas criaturas novas. E implica uma missão: fazer com que o mundo todo se confronte com as propostas do Evangelho, reconhecendo Jesus como único Senhor, pois a ele foram submetidos os anjos, dominações e poderes” (v. 22b).
R e f l e t i n d o
1. Celebramos o 1º domingo da Quaresma. Muitos jovens nem sabem o que é a Quaresma. Nem sequer sabem de onde vem o carnaval, antiga festa do fim do inverno (no hemisfério norte) que, – na cristandade, – se tornou a despedida da fartura antes de se iniciar o jejum da Quaresma.
2. Quaresma (do latim quadragésima) significa um tempo de 40 dias vivido na proximidade do Senhor, na entrega a Deus. Na Quaresma, deixamos para trás as preocupações mundanas e priorizamos as de Deus. Vivemos numa atitude de volta para Deus, de conversão. Isso não consiste necessariamente em abster-se de pão, mas sobretudo em repartir o pão com o faminto e em todas as demais formas de justiça. Tal é o verdadeiro jejum (Is. 58,6-8).
3. Depois de batizado por João Batista no rio Jordão, Jesus se retirou ao deserto de Judá e jejuou durante 40 dias, preparando-se para anunciar o Reino de Deus. A Igreja viu nesses 40 dias de preparação de Jesus uma imagem da preparação dos candidatos ao batismo. Assim como Jesus, depois desses 40 dias, se entregou à missão recebida de Deus, os catecúmenos eram, depois de 40 dias de preparação, incorporados a Cristo pelo batismo, para participar da vida nova. Batismo que era celebrado na noite da Páscoa, noite de ressurreição.
4. A meta da Quaresma é a Páscoa, o batismo, a regeneração para uma vida nova. Para os que ainda não receberam o batismo – os catecúmenos – isso se dá no sacramento do batismo na noite pascal. Para os já batizados, na conversão sempre necessária em nossa vida cristã: daí o sentido da renovação do compromisso batismal e do sacramento da reconciliação nesse período.
Conversão e renovação, se preciso também arrependimento pelas infidelidades, mas o tom principal é a alegria pela Boa-Nova e por Deus, que em Cristo, renova e transforma nossa vida.
5. A primeira carta de Pedro recorda os fundamentos da nossa fé e nossos compromissos batismais. Nessa quaresma é possível nos confrontarmos com o Evangelho de Jesus Cristo? Confrontar nossa vida com a mensagem e a prática de Jesus, o Nazareno?
6. Marcos apresenta Jesus sendo tentado por Satanás no deserto. E isso indica e aponta para um novo Êxodo. Se satanás é a encarnação de pessoas e estruturas que geram a morte, como descobri-lo e vencê-lo no que diz respeito à situação de quem está na exclusão? Quem precisa converter-se: o excluído ou nós, ou ambos? Se é verdade que Jesus inaugura novas relações das pessoas entre si e com toda a criação, o que isso representa para os excluídos?
7. Deus sempre oferece novas chances. Incansavelmente deseja que o ser humano viva, mesmo sendo pecador (cf. Ez. 18,23). Sua oferta tem pleno sucesso com Jesus de Nazaré. Este é verdadeiramente o seu Filho (Mc. 1,11). Impelido por seu Espírito, enfrenta no deserto as forças do mal, mas vence e os anjos do Altíssimo o servem. Por sua fidelidade na tentação, alcança um novo paraíso. Nas próximas semanas, o acompanharemos em sua subida a Jerusalém, obediente ao Pai. Será a verdadeira prova, na doação até a morte, morte de cruz. E “por isso”, Deus o exaltou… (cf. Fl. 2,9).
8. Jesus, porém, não vai sozinho. Leva-nos consigo. Com ele somos imersos no batismo e saímos dele renovados, numa nova e eterna Aliança. Portanto, a liturgia de hoje é como o início de uma grande catequese batismal: preparamo-nos para o batismo e para a renovação do nosso batismo, que é a participação na reconciliação que o sacrifício de Cristo operou por nós (cf. Rm. 3,21-26; 5,1-11; 6,3). Mergulhar com ele na provação que nos purifica, é o grande desafio da Quaresma na nossa vida. Mas à humanidade toda, – tanto a Noé como aos batizados, Deus dá novas chances: eis o tempo de conversão! Nisso consiste a revelação do íntimo do seu ser, que é, ao mesmo tempo, bondade e justiça: “Ele reconduz ao bom caminho os pecadores; aos humildes conduz até o fim, em seu amor!” (Sl. 25,8-9).
9. Gênesis 9,8-15 afirma que Deus está comprometido, para sempre e de modo irreversível, com a vida da humanidade como um todo. Aliás, desde a criação Deus sempre esteve presente na vida dos homens. Como isso repercute na nossa vida? Como isso repercute na vida dramática dos excluídos e suas famílias?
10. O mal tem muitas faces e está presente desde o início da humanidade. As águas do dilúvio representavam – para os antigos – um desencadeamento das forças do mal. Mas quem tem a última palavra, na criação, é o amor de Deus. Deus não quer destruir o homem, ele impõe limites ao dilúvio, que não mais voltará a destruir a terra. No fim do dilúvio, Deus repete o dia da criação, em que ele venceu o caos originário, separou as águas de cima e de baixo e deu um lugar ao homem para morar. Faz uma nova criação, melhor que a anterior, pois acompanhada de um pacto de proteção. O arco-íris, que no fim do temporal nos alegra espontaneamente, é o sinal natural desta aliança.
11. A nossa quaresma: começamos a quaresma deste ano. Um tempo que nos prepara para a celebração da vitória de Jesus sobre o sofrimento e a morte, e … tempo de conversão. De todos os lados escutamos clamores de solidariedade e a fraternidade não pode deixar-nos indiferentes. Este é um tempo especial – tempo de graça – que nos faz esperar e agir, pois a última palavra não pertence à morte, mas à vida. Aquele que vai ser crucificado será ressuscitado para que todos tenham vida em plenitude. Deus é nosso aliado na luta pela vida (ele vence a morte!), aliado de toda a criação. E a prática de Jesus o confirma, pedindo nossa colaboração solidária na implantação do projeto de Deus.
12. Complementos esclarecedores da 2ª leitura: sobre o batismo e sobre a descida à Mansão dos mortos.
Para termos um melhor esclarecimento do texto da 2ª leitura, transcrevemos aqui notas explicativas da Bíblia de Jerusalém, da Bíblia do Peregrino e do Novo comentário bíblico são Jerônimo NT.
12.1. Batismo e nossos compromissos batismais
12.1.1. Da Bíblia de Jerusalém: – comentário 1Pd. 3,18 letra c: ”Todo o trecho (3,18-4,6) contém os elementos de uma antiga profissão de fé: morte de Cristo (3,18), a descida à mansão dos mortos (3,19), a ressurreição (3,21d), o sentar-se à direita de Deus (3,22), o julgamento dos vivos e dos mortos (4,5).
12.1.2. Da Bíblia do Peregrino: – comentário nota 1Pd. 3, 17-22: ”Voltando ao tema favorito da carta, o sofrimento inocente, introduz uma profissão ou instrução batismal, que contém um dos textos mais enigmáticos do NT.
Vejamos o que está claro no texto.
- Primeiro: a morte redentora de Cristo, de alcance universal e definitivo, irrepetível (cf. Hb. 6,6; 9,26), que conduz o homem para Deus, consumando a reconciliação (2Cor. 5,20).
- Segundo: a morte de Jesus por sua condição humana (de carne) e a ressurreição pela ação do Espírito vivificante (Jo 6,63; Rm. 8,10-11; 1Cor. 15,44).
- Terceiro: a ascensão e senhorio universal ou glorificação (At. 1,10; Ef. 1,20-21).
- Quarto: a virtude “salvadora” do batismo em função da ressurreição de Jesus Cristo, e que inclui: uma “boa consciência”, não mais turbada (Sl. 32,2), e um compromisso pessoal com Deus. Isso é claro e representa uma síntese doutrinal, que bem pode proceder de ritos batismais primitivos”.
12.2. Sobre a descida à mansão dos mortos.
12.2.1. Da Bíblia de Jerusalém: – comentário 1Pd. 3,19 nota e: ”Alusão provável à descida de Cristo ao Hades (cf. Mt. 16,18) entre a sua morte e a sua ressurreição (Mt. 12,40, At. 2,24.31; Rm. 10,7; Ef. 4,9; Hb. 13,20), ao qual foi “em espírito” (cf. Lc. 23,46), ou antes, segundo o Espírito (Rm. 1,4) enquanto a sua “carne” estava morta na cruz (Rm. 8,3s). Os “espíritos em prisão” aos quais ele “pregou” (ou “anunciou”) a salvação são, segundo alguns, os demônios acorrentados de que fala o livro de Henoc (alguns, corrigindo o texto, atribuem esta pregação a Henoc e não a Cristo): nesta ocasião eles foram então submetidos ao seu domínio de Kyrios (v. 22; cf. Ef. 1,21s; Fl. 2,8-10), enquanto aguardavam sua sujeição definitiva (1Cor. 15,24s). Outros querem ver neles os espíritos dos mortos que, embora punidos no dilúvio, são, entretanto, chamados para a vida pela “paciência de Deus” (cf. 4,6). Mateus 27,52s contém uma alusão a uma liberação dos “santos”, operada por Cristo, entre a sua morte e a sua ressurreição. Esses “santos” eram justos que esperavam a sua vinda (Hb. 11,39s; 12,23), para entrarem com ele na “santa cidade” escatológica. ”
12.2.2. Da Bíblia do Peregrino: – comentário 1Pd. 3, 19-20 nota. ”O enigmático está nos vv. 19-20, ou seja, a pregação de Jesus às “almas encarceradas” de antepassados. O enigma não foi resolvido até agora, antes, tem provocado múltiplas explicações conjeturais. Entre todas, proponho uma leitura baseada na mentalidade do AT sobre a existência no além-túmulo. Quando morre, o homem “desce” pelo sepulcro ao Xeol, mundo subterrâneo e tenebroso dos mortos, que possuem uma existência umbrática (como os ‘fantasmas” do nosso folclore). Cf. Is. 14; Ez 32, etc. (Não tem sentido no AT dizer que o corpo inerte fica no sepulcro e a alma separada ‘desce ao inferno’ ). Nesse mundo dos mortos encontram-se, como grupo representativo, homens contemporâneos de Noé, a quem o patriarca anunciava o dilúvio e não lhe deram atenção. ”
12.2.3. Do Novo Comentário Bíblico S. Jerônimo – Novo Testamento ”V. 18. Cristo sofreu ["morreu na BJ] … O vocabulário de 1Pd. e o contexto exigem a leitura “sofreu” (cf.3,14.17; 4,1). Na carne … no espírito: esta distinção não é a de “corpo” e “alma” que se encontra na filosofia grega. Deste modo, 3,19 não se refere à atividade da “alma” de Cristo. O texto se refere a duas esferas da existência de Cristo, a de sua vida terrena e a de seu estado como Senhor ressuscitado, transformado pelo Espírito (cf. Rm. 1,3; 1Cor. 15,45; 1Tm. 3,16). No qual foi pregar aos espíritos em prisão: a interpretação universal do termo “no qual” por parte dos comentaristas antigos da língua grega favorecem a tradução “no qual” como equivalente a “e em seu espírito”. Cristo fez sua proclamação como Senhor ressurreto. Aos espíritos em prisão: no uso do NT, “espíritos” sem uma expressão identificadora (cf. Hb. 12,23) , significa “seres sobrenaturais” e não “almas humanas”. Em 1Henoc, um livro bastante popular na época do protocristianismo, Henoc, em uma missão recebida de Deus, foi e anunciou aos anjos rebelados (cf.Gn 6,1-2) que eles tinham sido condenados à prisão. Nesta tradição, a rebelião dos anjos é expressamente ligada com o dilúvio. Em um desenvolvimento posterior, Henoc cruza os céus e se encontra com os anjos rebeldes aprisionados no segundo céu (2Henoc 7,1-3). A história de Henoc é aplicada ao Cristo ressurreto em 1Pd 3,19, o qual, em sua ascensão, atravessou “todos os céus” (veja Ef. 4-8; Hb. 4,14; cf. 1Tm. 3,16; Fl. 2,9; Ef. 1,20; 6,12; Hb. 7,26). Todos os espíritos hostis foram sujeitados a ele (cf. Ef. 1,20-22; 4,8; 1Pd. 3,22). Foi pregar: este verbo se refere à atividade de Cristo após sua ressurreição corpórea. Tal ida foi entendida natural-mente como sua ascensão ao céu (cf. 3,22; At. 1,10-11). … Pregar significa “atuar como arauto”. Aqui Cristo proclama a si mesmo como “Senhor” (cf. Fl. 2,11).
Assim como em 3,22, declara-se que o poder dos espíritos hostis chegou ao fim. Tanto em 3,19 como em 3,22, o autor não está interessado na reação psicológica dos espíritos, mas unicamente na libertação dos seres humanos do poder desses espíritos.
prof. Ângelo Vitório Zambon


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