.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Transfiguração

2º DOMINGO QUARESMA

1º de Março de 2015
                                                 Ano  B

Evangelho - Mc 9,2-10

-TRANSFIGUROU-SE DIANTE DELES-José Salviano


Na verdade, a transfiguração de Jesus diante dos apóstolos: Pedro Tiago e João, foi uma pequena amostra do que iria acontecer com Ele depois da sua ressurreição. Foi uma amostra,um  antegoso da sua volta à vida. Continua

============================
“...E TRANSFIGUROU-SE DIANTE DELES.” - Olívia Coutinho

2º DOMINGO DA QUARESMA

Dia 1º de Março de 2015

Evangelho de Mc9, 2-10

 Estamos no segundo domingo da quaresma, nos preparando para  vivermos com  intensidade, a Páscoa do Senhor Jesus!
Este tempo reflexivo,  nos sugere um retiro interior, um aprofundamento no mistério do amor do Pai, bebendo da água viva que jorra do coração misericordioso de Jesus, o nosso redentor!
Se estamos enxertados em Cristo, não vamos ter dificuldades em viver a  nossa realidade dentro do plano de Deus, no respeito e no cuidado com o que lhe é de mais precioso: a vida humana!
Junto com a Quaresma, a Igreja nos apresenta  a Campanha da Fraternidade, com suas preocupações e desafios: “FRATERNIDADE: IGREJA E SOCIEDADE”.  Lema: “EU VIM PARA SERVIR” Mc10,45. É a Igreja no Brasil, convidando-nos a seguir o exemplo de Jesus, nos colocando a  serviço  do outro, prioritariamente daqueles que vivem às margens da sociedade.
 Como seguidores de Jesus, não podemos cruzar os braços  diante a realidade de tantos irmãos que sofrem a dor do abandono, do descaso, da indiferença...
 Na liturgia deste  tempo da Quaresmal  há sempre um  apelo de  conversão, a  conversão nos abre à luz de Cristo, nos tira da escuridão das trevas, nos faz enxergar e a   desmascarar os projetos que mantém o povo à sombra da injustiça.
Iluminados pela luz de Cristo, tornaremos uma luz peregrina, a iluminar e a resgatar aqueles que são forçados a viver nas trevas, que são impedidos  de usufruir da liberdade conquistada  com sangue de Jesus!
Em muitas situações, ser luz, pode implicar grandes riscos, porém, o pior risco, é de não  aceitarmos  o desafio de ser luz,  o que pode nos condenar à pior de todas as trevas: estar longe de Jesus!
 Aproveitemos, pois, este tempo precioso para revisar o quanto há de luz, e o quanto há de sombras em nossa vida!
Somos  filhos amados do Pai, que mais uma vez deseja percorrer o caminho que  Jesus percorreu, atualizando esta caminhada no contexto do mundo de hoje.
O Evangelho que a liturgia deste domingo coloca diante de nós, nos mostra a belíssima cena da transfiguração de Jesus!
 “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e os levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma alta  montanha. E transfigurou-se  diante deles. Suas roupas  ficaram brilhantes e tão brancas, como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar.”
A transfiguração  de Jesus, foi o prenúncio do seu retorno glorioso ao Pai, momento em que Ele apresenta aos discípulos uma pequena amostra do céu. Naquela  cena, Jesus  revela aos discípulos a sua  intimidade com o Pai, assegurando-os da Sua ressurreição após sua morte de cruz!
Na transfiguração, os discípulos Pedro, Tiago e João, puderam visualizar o encontro de Jesus com o Pai, a partir de então, eles, que andavam tristes, desapontados com as últimas revelações  de Jesus, sobre a proximidade de sua morte, se encheram de alegria, com a  certeza de que a vida e ação de Jesus não terminaria com a sua morte.
Jesus não  transfigurou-se diante de todos os discípulos, Ele escolheu apenas três deles, para testemunhar a sua gloria junto ao Pai, um testemunho que só poderia ser revelado aos outros discípulos, após a sua ressurreição.
Assim como Pedro desejou construir três tendas para que eles pudessem ficar no alto da montanha com Jesus, longe dos perigos e sem precisar batalhar a vida, nós também, certamente desejaríamos  o mesmo, essa  pode  ser a  nossa grande tentação dos dias de hoje: buscar a nossa comodidade sem pensar no outro. 
Ir a missa, rezar,  é muito importante, mas precisamos descer do alto da “montanha”, ir mais além, andar com os pés neste chão duro, com olhar sempre voltado para as margens do caminho, pois é lá, que estão os rostos desfigurados de tantos irmãos, que contam  conosco para se transfigurarem!
Precisamos sair de nossas tendas, do nosso  comodismo, descruzar os  nossos braços, desvendar os  nossos olhos e nos por à caminho, pois há muito o que fazer pelo o outro!
O episódio da transfiguração deve nos animar ao longo de toda nossa vida, especialmente quando esta transfiguração nos mostra o lado positivo da cruz! Jesus nos ensina com a própria vida a não temermos a cruz, Ele nos trouxe a certeza de que a cruz não é um sinal de morte e sim, sinal de vida, pois a cruz  leva ao Pai.
Guardemos dentro de nós, o brilho do rosto transfigurado de Jesus, o brilho que nos  servirá de farol, para iluminar os túneis escuras de nossa  vida.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

 Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook:


============================
Surpreende-nos, que neste tempo quaresmal, de tanta sobriedade, a Mãe católica nos coloque diante dos olhos Jesus transfigurado. Não seria mais adequado este texto num dos domingos da Páscoa? Cabe tanta glória, tanta luz, tanto esplendor, neste tempo de oração, penitência, esmola e combate espiritual? Mas, não duvidemos: a Igreja tem seus motivos; motivos sábios, motivos de mãe que educa com carinho.
Primeiramente, a glória de Jesus no Tabor, antegozo da sua ressurreição, anima-nos e alenta-nos neste caminho quaresmal. Ao nos falar da oração, da penitência, da esmola, ao nos exortar ao combate aos vícios e à leitura espiritual, a Igreja, fazendo-nos contemplar o Transfigurado, revela-nos qual o objetivo da batalha da Quaresma: encontrar o Cristo cheio de glória e, com ele, sermos glorificados. Olhai o Tabor, irmãos, e vereis o que o Senhor preparou para nós! Pensai no Tabor, e a penitência terá um sentido, as mortificações deste tempo serão feitas com alegria! Que diz o Evangelho? Diz que, diante dos apóstolos, Jesus transfigurou-se: “Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar”. Eis! A Transfiguração é uma profecia, uma antecipação da glória da Páscoa; e a Páscoa de Cristo é a garantia da nossa glorificação. Porque Cristo morreu e ressuscitou, nós também, mortos com ele, seremos daquela multidão vestida de branco, de que fala o Apocalipse! (Ap 7,9) Então, ânimo! As observâncias da santa Quaresma não são um peso, mas um belo caminho, um belo instrumento para conduzir-nos à Páscoa do Senhor!
Mas, a leituras de hoje colocam-nos também diante de uma outra realidade, bela e profunda. Comecemos pela primeira leitura, na qual Deus pede a Abraão tudo quanto ele tinha: “teu filho único, Isaac, a quem tanto amas”. Isaac era tudo para Abraão: por ele, tinha deixado Ur na Caldéia, por ele, tinha esperado mais de trinta anos, por ele, tinha suportado todas as provas... E, agora, já idoso, sem nenhuma possibilidade de ter mais filhos, agora que o menino já esta crescidinho e Abraão pensava poder descansar, Deus o pede a Abraão. Que prova, caríssimos! A fé de Abraão, aqui, chega quase que ao absurdo! Mas, ele foi em frente e “estendeu a mão, empunhando a faca para sacrificar o filho”.
Deus tinha o direito de pedir isso a Abraão? Deus tem o direito de nos provar, de tantas vezes nos pedir coisas que não compreendemos bem? Tem o direito de pedir fé e confiança diante dos percalços da vida? Poderíamos responder dizendo simplesmente que “sim”, porque ele é Deus; deu-nos tudo e pode pedir-nos o que desejar. Mas, não é essa a resposta que a Palavra de Deus nos indica na liturgia de hoje. Ele nos pode pedir, certamente, e nós devemos dar, com certeza, porque ele mesmo, o nosso Deus, nos deu tudo! Ele, que pede que Abraão lhe sacrifique o filho único e amado, é o mesmo Deus que, como diz São Paulo, na segunda leitura deste hoje, “não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós!” Eis o grande mistério: Deus, no seu amor por nós – primeiro pelo povo de Israel, descendência de Abraão, e, depois, por toda a humanidade, com a qual ele deseja formar o novo povo, que é a Igreja – Deus, no seu amor por nós, entregou à morte o seu Filho único, o Amado, o Justo e Santo, aquele no qual ele coloca todo o seu bem-querer. Não é assim que ele no-lo apresenta hoje no monte Tabor? “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!” É este Filho que será entregue à morte. O Evangelho de Lucas nos diz que, precisamente nesta ocasião, Jesus transfigurado falava com Moisés e Elias “sobre a sua partida, isto é, a sua morte, que iria se consumar em Jerusalém” (Lc. 9,31). E no Evangelho de São Marcos, que escutamos, o próprio Jesus, ao descer da montanha, “ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos”. Compreendei, caríssimos: sobre o monte Tabor, com o Transfigurado envolto em glória, paira a sombra da paixão, da morte do Filho amado e único, que o Deus de Abraão entregará por nós até o fim. Ao filho de Abraão, a Isaac, Deus poupou no último momento; não poupará, contudo, o seu próprio Filho!
Isso nos revela a dimensão do amor de Deus, da sua paixão pela humanidade, do seu compromisso salvífico em nosso favor! Ele pode nos pedir tudo, caríssimos, e nós deveríamos dar-lhe tudo, porque, ainda que não compreendamos, ele deseja somente o nosso bem, a nossa vida, a nossa salvação. Somos preciosos a seus olhos! Escutai o apóstolo: "Se Deus é por nós, quem será contra nós? Deus que não poupou seu próprio filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo juntamente com ele? Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus, que os declara justos? Quem condenará? Jesus Cristo, que morreu, mais ainda, que ressuscitou, e está à direita de Deus, intercedendo por nós?” Eis, pois, amados em Cristo, a dimensão e a profundidade, a largura e a altura do amor de Deus por nós! Deixemo-nos, portanto, tocar no nosso coração; convertamo-nos! Abramo-nos para o Senhor! Arrependamo-nos de nossas indiferenças, de nossa frieza, de nosso fechamento! Tenhamos vergonha de tanta incredulidade e desconfiança de Deus, simplesmente porque não entendemos seu modo de agir! Que Santo Abraão, nosso pai na fé, e a Santíssima Virgem Maria, nossa Mãe na fé, intercedam por nós para uma verdadeira conversão quaresmal. E que, realizando com generosidade a amor, as práticas quaresmais, cheguemos às alegrias da Páscoa e contemplemos nos santos mistérios da liturgia, a face do Cristo glorificado.
dom Henrique Soares da Costa
============================
No segundo domingo da Quaresma, a Palavra de Deus define o caminho que o verdadeiro discípulo deve seguir para chegar à vida nova: é o caminho da escuta atenta de Deus e dos seus projetos, o caminho da obediência total e radical aos planos do Pai.
O Evangelho relata a transfiguração de Jesus. Recorrendo a elementos simbólicos do Antigo Testamento, o autor apresenta-nos uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que vai concretizar o seu projeto libertador em favor dos homens através do dom da vida. Aos discípulos, desanimados e assustados, Jesus diz: o caminho do dom da vida não conduz ao fracasso, mas à vida plena e definitiva. Segui-o, vós também.
Na primeira leitura apresenta-se a figura de Abraão como paradigma de uma certa atitude diante de Deus. Abraão é o homem de fé, que vive numa constante escuta de Deus, que aceita os apelos de Deus e que lhes responde com a obediência total (mesmo quando os planos de Deus parecem ir contra os seus sonhos e projectos pessoais). Nesta perspectiva, Abraão é o modelo do crente que percebe o projecto de Deus e o segue de todo o coração.
A segunda leitura lembra aos crentes que Deus os ama com um amor imenso e eterno. A melhor prova desse amor é Jesus Cristo, o Filho amado de Deus que morreu para ensinar ao homem o caminho da vida verdadeira. Sendo assim, o cristão nada tem a temer e deve enfrentar a vida com serenidade e esperança.
1ª leitura – Gn. 22,1-2.9a.10-13.15-18 – AMBIENTE
A primeira leitura de hoje faz parte de um bloco de textos a que se dá o nome genérico de “tradições patriarcais” (cf. Gn 12-36). Trata-se de um conjunto de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, sem grande unidade e sem caráter de documento histórico. Nesses capítulos aparecem, de forma indiferenciada, “mitos de origem” (descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca do clã), “lendas cultuais” (narravam como um deus tinha aparecido nesse lugar ao patriarca do clã), indicações mais ou menos concretas sobre a vida dos clãs nômades que circularam pela Palestina durante o 2º milênio e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.
O relato do sacrifício de Isaac (Gn 22) é uma “lenda cultual”. Nasceu, provavelmente, num santuário do sul do país, muito antes de os patriarcas bíblicos se terem instalado na zona. A lenda primitiva contava como num lugar sagrado (o texto sugere que esse lugar se chamaria “El Yreêh”) o deus aí adorado tinha salvo uma criança destinada a ser oferecida em sacrifício (no mundo dos cananeus, os sacrifícios humanos eram relativamente frequentes). A partir daí, nesse lugar, os sacrifícios de crianças tinham sido substituídos por sacrifícios de animais. Foi essa a primeira etapa da tradição que nos é hoje proposta.
Numa segunda fase, esta história primitiva foi aplicada à figura de Abraão, quando o clã de Abraão se instalou na zona. O pai cananeu da primitiva história, que levava o filho para ser oferecido em sacrifício, foi identificado com o patriarca Abraão. A tradição acabou por englobar um clã ligado ao de Abraão, o clã de Isaac. Isaac tornou-se, assim, o filho destinado ao sacrifício de que falava a velha lenda pré-israelita.
Numa terceira fase, os teólogos elohistas (séc. VIII a.C.) pegaram na antiga lenda cultual e puseram-na ao serviço da sua catequese. Na reflexão dos catequistas de Israel, a antiga lenda cultual de “El Yreêh” tornou-se uma catequese sobre uma “prova” em que o justo Abraão manifestou a sua obediência radical e a sua confiança em Elohim.
Por fim, um redator pós-elohista acrescentou ao texto outros elementos de caráter teológico. Foi, certamente, ele que ligou a lenda do sacrifício de Isaac com o monte santo dos sacrifícios do Templo de Jerusalém; foi ele, também, que acrescentou à história a ideia de que o comportamento de Abraão para com Deus mereceu uma recompensa e que essa recompensa iria, no futuro, derramar-se sobre todos os descendentes de Abraão.
MENSAGEM
No início da narração (v. 1), aparece um verbo que vai presidir a todo o relato e definir o sentido que os catequistas elohistas atribuíram a esta história: o verbo “pôr à prova” (em hebraico “nassah”). No Antigo Testamento, este verbo apresenta, com frequência, as “nuances” de “examinar”, “experimentar”, “demonstrar”, “testar”. À partida, define-se logo o que está em jogo: Deus vai “submeter Abraão a um teste”. A ideia de que Deus submete o seu Povo ou indivíduos particulares a “provas” é relativamente frequente no Antigo Testamento. Estas “provas” servem, normalmente, para que Deus possa conhecer o coração do seu Povo e experimentar a sua fidelidade (cf. Dt. 8,2). São uma forma de Deus confirmar que tal comunidade ou tal pessoa é digna e é capaz de viver uma relação de especial comunhão e intimidade com Ele. Abraão, contudo, não sabe que está a ser “testado”.
A “prova” a que Abraão é submetido é especialmente dramática: Jahwéh pede-lhe que tome Isaac, o seu único filho, e o ofereça em holocausto sobre um monte (vers. 2). Contudo, Isaac não é, apenas, o filho único e amado de Abraão, embora só isso já fosse suficiente para tornar esta “prova” tremendamente dura; mas Isaac é, também, o herdeiro dessa promessa que Deus, continuamente, renovou a Abraão… Isaac é a garantia de um futuro, dessa descendência numerosa que irá tomar posse da terra; é a garantia dessas promessas que deram sentido à peregrinação de Abraão desde que Deus o mandou deixar a sua terra, a sua família e a casa de seus pais. Abraão encontra-se diante de um Deus que parece retomar o que havia dado e cuja palavra de hoje parece desmentir a de ontem. Porquê essa mudança de planos? Quais são, na realidade, os desígnios de Deus? Pode-se confiar num Deus que muda de ideias desta forma? A aposta de Abraão em deixar tudo (cf. Gn. 12) para apostar nos desafios de Deus terá sido uma boa opção? A verdadeira “prova” é esta… É o absurdo de uma exigência que nega a própria história da salvação; é o continuar a esperar num Deus que, num instante, parece querer destruir os sonhos que Ele próprio ajudou a criar; é o continuar a confiar num Deus que Se contradiz e que parece, de repente, esquecer tudo o que tinha prometido; é o impasse, a obscuridade, o sofrimento em que Abraão de repente se acha; é o ser convidado a atirar-se às cegas para um caminho escuro e incompreensível.
Como é que Abraão vai reagir a esta tremenda “prova”? Do princípio ao fim, Abraão não abre a boca a não ser para dizer “aqui estou” (v. 1. 11) – expressão de disponibilidade total diante de Deus. De resto, Abraão não discute, não argumenta, não procura obter respostas para esse drama incompreensível que parece hipotecar tudo o que Deus lhe havia prometido. Abraão age, apenas. Levanta-se de madrugada, prepara as coisas para o holocausto, põe-se a caminho. Já no “monte do sacrifício”, Abraão constrói o altar, amarra a vítima e puxa do cutelo para matar o filho. O silêncio de Abraão, a imediatez da resposta e a forma determinada como age mostram a entrega, a confiança absoluta em Deus, a obediência levada até às últimas consequências.
Percorrido o longo e angustiante caminho da “prova”, chega finalmente o momento em que Deus, pela voz do seu mensageiro, faz o balanço e constata o resultado. A “prova” é conclusiva: todo o comportamento de Abraão ao longo desta “crise” testemunha que ele “teme o Senhor” (v. 12). A expressão – frequente no Antigo Testamento – traduz, por um lado, a reverência e o respeito e, por outro lado, a pronta obediência à vontade divina, a confiança inamovível no Deus que não falha, a humilde renúncia aos próprios critérios, a adesão incondicional à vontade de Deus, a aceitação plena das propostas e mandamentos de Deus.
A nossa história termina com uma referência à “recompensa” oferecida por Deus. A obediência de Abraão irá gerar plenitude de vida e de dons divinos (bênção), uma descendência numerosa “como as estrelas do céu ou como a areia que está na margem do mar” e a posse da terra (v. 17). O mais interessante é a indicação de que a obediência do “justo” Abraão terá um alcance universal e resultará em bênção para “todas as nações da terra”.
Nesta “catequese”, a intenção fundamental do autor não é dizer-nos quem é Deus e como é que Ele age (por isso, não adianta estarmos a “perguntar” ao texto se, na realidade, os métodos de Deus passam por submeter o homem a provas desumanas a fim de o “testar”). A história do sacrifício de Isaac destina-se, sobretudo, a propor-nos a atitude que o crente deve assumir diante de Deus. Abraão é apresentado como o protótipo do crente ideal, que sabe escutar Deus e acolher os seus projetos com obediência incondicional, com confiança total… Mesmo que as propostas de Deus resultem incompreensíveis ou que os desafios de Deus interfiram com os projetos do homem, o crente ideal deve acolher os planos de Deus e realizá-los com fidelidade. Foi para deixar esta lição aos seus concidadãos – lição que serve, naturalmente, para os crentes de todos os tempos – que os teólogos elohistas foram buscar esta velha lenda.
ATUALIZAÇÃO
• O comportamento de Abraão face a esta “crise” revela, antes de mais, o lugar absolutamente central que Deus ocupa na sua existência. Deus é, para Abraão, o valor máximo, a prioridade fundamental; por isso, Abraão mostra-se disposto a fazer a Deus um dom total e irrevogável de si próprio, da sua família, do seu futuro, dos seus sonhos, das suas aspirações, dos seus projetos, dos seus interesses. Para Abraão, nada mais conta quando estão em jogo os planos de Deus… Na vida do homem do nosso tempo, contudo, nem sempre Deus ocupa o lugar central que Lhe é devido. Com frequência, o dinheiro, o poder, a carreira profissional, o reconhecimento social, o sucesso, ocupam o lugar de Deus e condicionam as nossas opções, os nossos interesses, os valores que nos orientam. Abraão, o crente para quem Deus é a coordenada fundamental à volta da qual toda a vida se constrói convida-nos, nesta Quaresma, a rever as nossas prioridades e a dar a Deus o lugar que Ele merece.
• Na sua relação com Deus, o crente Abraão manifesta uma vasta gama de “qualidades” – a reverência, o respeito, a humildade, a disponibilidade, a obediência, a confiança, o amor, a fé – que o definem como o crente “ideal”, o modelo para os crentes de todas as épocas. Neste tempo de preparação para a Páscoa, são estas “qualidades” que nos são propostas, também. É preciso que realizemos um caminho de conversão que nos torne cada vez mais atentos e disponíveis para acolher e para viver na fidelidade aos planos de Deus.
• O crente Abraão ensina-nos, ainda, a confiar em Deus, mesmo quando tudo parece cair à nossa volta e quando os caminhos de Deus se revelam estranhos e incompreensíveis. Quando os nossos projetos se desmoronam, quando as nuvens negras da guerra, da violência, da opressão se acastelam no horizonte da nossa existência, quando o sofrimento nos leva ao desespero, é preciso continuar a caminhar serenamente, confiando nesse Deus que é a nossa esperança e que tem um projeto de vida plena para nós e para o mundo.
• A ideia de que a obediência de Abraão é fonte de vida para ele, para a sua família e para “todas as nações da terra”, deve ser uma espécie de “selo de garantia” que atesta a validade deste caminho. Fazer de Deus o centro da própria existência e renunciar aos próprios critérios e interesses para cumprir os planos de Deus não é uma escravidão, mas um caminho que nos garante (a nós e aos nossos irmãos) o acesso à vida plena e verdadeira.
2ª leitura – Rm. 8,31b-34 – AMBIENTE
Quando Paulo escreve aos Romanos, está a terminar a sua terceira viagem missionária e prepara-se para partir para Jerusalém. Tinha terminado a sua missão no oriente (cf. Rm. 15,19-20) e queria levar o Evangelho ao ocidente. Dirigindo-se por carta aos Romanos, Paulo aproveita para contatar a comunidade cristã de Roma e para apresentar aos membros da comunidade os principais problemas que o ocupavam (entre os quais sobressaía a questão da unidade – um problema bem presente na comunidade cristã de Roma, afetada por alguns problemas de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos). Estamos no ano 57 ou 58.
Na primeira parte da Carta aos Romanos (cf. Rm. 1,18-11,36), Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afeta todos os homens (cf. Rm. 1,18-3,20), a “justiça de Deus” dá vida a todos, sem distinção (cf. Rm. 3,1-5,11); e é em Jesus Cristo que essa vida se comunica e que transforma o homem (cf. Rm. 5,12-8,39). Os crentes devem, portanto, fazer a experiência do amor de Deus que os une e alegrar-se por esse plano de salvação que Deus quer oferecer a todos. Acolher a salvação que Deus oferece, identificar-se com Jesus e percorrer com Ele o caminho do amor a Deus e da entrega aos irmãos (vida “segundo o Espírito”) não é, no entanto, um caminho fácil, de triunfos e de êxitos humanos; mas é um caminho que é preciso percorrer, tantas vezes, na dor, no sofrimento e na renúncia, enfrentando as forças da morte, da opressão, do egoísmo e da injustiça.
Apesar das barreiras que é necessário vencer, das nuvens ameaçadoras e dos mil desafios que, dia a dia, se põem ao crente que segue o caminho de Jesus, o cristão pode e deve confiar no êxito final. Porquê?
Num hino de triunfo, apaixonado e otimista, que exalta o amor de Deus (cf. Rm. 8,31-39), Paulo diz aos cristãos porque é que eles devem ter esperança no triunfo final.
MENSAGEM
A razão para a esperança dos cristãos está na certeza que Deus ama todos os seus filhos com um amor imenso e eterno. O envio ao mundo de Jesus Cristo, o Filho único de Deus, que nos ensinou o caminho da vida plena e da felicidade sem fim, que lutou até à morte contra tudo o que oprimia e escravizava o homem, é a “prova provada” do imenso amor de Deus por nós (v. 32).
Ora, se Deus nos ama dessa forma tão intensa e tão total, nada nem ninguém nos pode acusar, condenar, destruir ou fazer mal. É Deus “quem nos justifica” (v. 33) – quer dizer, é Deus que, na sua imensa bondade, pronuncia sobre nós um veredicto de graça e de perdão, apesar das nossas faltas e infidelidades. Ninguém nos condena pois o próprio Deus (o único que o poderia fazer) escolheu salvar-nos, mesmo que o não merecêssemos.
Sendo assim, o cristão deve enfrentar a vida com serenidade e esperança, confiando totalmente no amor de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Para Paulo, há uma constatação incrível, que não cessa de o espantar: Deus ama-nos com um amor profundo, total, radical, que nada nem ninguém consegue apagar ou eliminar. Esse amor veio ao nosso encontro em Jesus Cristo, atingiu a nossa existência e transformou-a, capacitando-nos para caminharmos ao encontro da vida eterna. Ora, antes de mais, é esta descoberta que Paulo nos convida a fazer… Nos momentos de crise, de desilusão, de perseguição, de orfandade, quando parece que todo o mundo está contra nós e que não entende a nossa luta e o nosso compromisso, a Palavra de Deus grita: “não tenhais medo; Deus ama-vos”.
• Descobrir esse amor dá-nos a coragem necessária para enfrentar a vida com serenidade, com tranquilidade e com o coração cheio de paz. O crente é aquele homem ou mulher que não tem medo de nada porque está consciente de que Deus o ama e que lhe oferece, aconteça o que acontecer, a vida em plenitude. Pode, portanto, entregar a sua vida como dom, correr riscos na luta pela paz e pela justiça, enfrentar os poderes da opressão e da morte, porque confia no Deus que o ama e que o salva.
Evangelho – Mc. 9,2-10 - AMBIENTE
A segunda parte do Evangelho de Marcos começa com um anúncio da Paixão, posto na boca de Jesus (cf. Mc. 8,31-32). Nesta altura, os discípulos já tinham percebido que Jesus era o Messias libertador que Israel esperava (cf. Mc. 8,29); mas ainda acreditavam que a missão messiânica de Jesus se ia concretizar num triunfo militar sobre os opressores romanos. Marcos vai explicar aos crentes a quem o Evangelho se destina que o projeto messiânico de Jesus não se vai concretizar em triunfos humanos, mas sim na cruz – isto é, no amor e no dom da vida.
O relato da transfiguração de Jesus é antecedido do primeiro anúncio da paixão (cf. Mc. 8,31-33) e de uma instrução sobre as atitudes próprias do discípulo (convidado a renunciar a si mesmo, a tomar a sua cruz e a seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega da vida – cf. Mc 8,34-38). Depois de terem ouvido falar do “caminho da cruz” e de terem constatado aquilo que Jesus pede aos que O querem seguir, os discípulos estão desanimados e frustrados, pois a aventura em que apostaram parece encaminhar-se para um rotundo fracasso; eles vêem esfumar-se – nessa cruz que irá ser plantada numa colina de Jerusalém – os seus sonhos de glória, de honras, de triunfos e perguntam-se se vale a pena seguir um mestre que nada mais tem para oferecer do que a morte na cruz.
É neste contexto que Marcos coloca o episódio da transfiguração. A cena constitui uma palavra de ânimo para os discípulos (e para os crentes, em geral), pois nela manifesta-se a glória de Jesus e atesta-se que Ele é – apesar da cruz que se aproxima – o Filho amado de Deus. Os discípulos recebem, assim, a garantia de que o projeto que Jesus apresenta é um projeto que vem de Deus; e, apesar das suas próprias dúvidas, recebem um complemento de esperança que lhes permite “embarcar” e apostar nesse projeto.
Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai colocar no quadro todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato fotográfico de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a ensinar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus.
MENSAGEM
Esta página de catequese, destinada a ensinar que Jesus é o Filho de Deus e que o projeto que Ele propõe vem de Deus, está construída sobre elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento. Que elementos são esses?
O monte situa-nos num contexto de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é no cimo de um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo.
A mudança do rosto e as vestes brilhantes, muitíssimo brancas, recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex. 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei.
A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto (cf. Ex. 40,35; Nm. 9,18.22; 10,34).
Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt. 18,15-18; Mal. 3,22-23).
O temor e a perturbação dos discípulos são a reação lógica de qualquer homem ou mulher, diante da manifestação da grandeza, da onipotência e da majestade de Deus (cf. Ex. 19,16; 20,18-21).
As tendas parecem aludir à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas”, no deserto.
A mensagem fundamental, amassada com todos estes elementos, pretende dizer quem é Jesus. Recorrendo a simbologias do Antigo Testamento, o autor deixa claro que Jesus é o Filho amado de Deus, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas (Elias). Mais ainda: Ele é um novo Moisés – isto é, Aquele através de quem o próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos homens uma nova Aliança.
Da ação libertadora de Jesus, o novo Moisés, irá nascer um novo Povo de Deus. Com esse novo Povo, Deus vai fazer uma nova Aliança; e vai percorrer com ele os caminhos da história, conduzindo-o através do “deserto” que leva da escravidão à liberdade.
Esta apresentação tem como destinatários os discípulos de Jesus (esse grupo desanimado e frustrado porque no horizonte próximo do seu líder está a cruz e porque o mestre exige dos discípulos que aceitem percorrer um caminho semelhante). Aponta para a ressurreição, aqui anunciada pela glória de Deus que se manifesta em Jesus, pelas “vestes brilhantes, muitíssimo brancas” (que lembram a túnica branca do “jovem” sentado junto do túmulo de Jesus e que anuncia às mulheres a ressurreição – cf. Mc. 16,5) e pela recomendação final de Jesus (“que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do Homem não ressuscitasse dos mortos” – Mc. 9,9): diz-lhes que a cruz não será a palavra final, pois no fim do caminho de Jesus (e, consequentemente, dos discípulos que seguirem Jesus) está a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.
Uma palavra final para o desejo – manifestado por Pedro – de construir três tendas no cimo do monte, como se pretendesse “assentar arraiais” naquele quadro. O pormenor pode significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus. Jesus nem responde à proposta: Ele sabe que o projeto de Deus – esse projeto de construir um novo Povo de Deus e levá-lo da escravidão para a liberdade – tem de passar pelo caminho do dom da vida, da entrega total, do amor até às últimas consequências.
ATUALIZAÇÃO
• A questão fundamental expressa no episódio da transfiguração está na revelação de Jesus como o Filho amado de Deus, que vai concretizar o projeto salvador e libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de Si próprio por amor. Pela transfiguração de Jesus, Deus demonstra aos crentes de todas as épocas e lugares que uma existência feita dom não é fracassada – mesmo se termina na cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.
• Na verdade, os homens do nosso tempo têm alguma dificuldade em perceber esta lógica… Para muitos dos nossos irmãos, a vida plena não está no amor levado até às últimas consequências (até ao dom total da vida), mas sim na preocupação egoísta com os seus interesses pessoais, com o seu orgulho, com o seu pequeno mundo privado; não está no serviço simples e humilde em favor dos irmãos (sobretudo dos mais débeis, dos mais marginalizados, dos mais infelizes), mas no assegurar para si próprio uma dose generosa de poder, de influência, de autoridade, de domínio, que dê a sensação de pertencer à categoria dos vencedores; não está numa vida vivida como dom, com humildade e simplicidade, mas numa vida feita um jogo complicado de conquista de honras, de glórias, de êxitos. Na verdade, onde é que está a realização plena do homem? Quem tem razão: Deus, ou os esquemas humanos que hoje dominam o mundo e que nos impõem uma lógica diferente da lógica do Evangelho?
• Por vezes somos tentados pelo desânimo, porque não percebemos o alcance dos esquemas de Deus; ou então, parece que, seguindo a lógica de Deus, seremos sempre perdedores e fracassados, que nunca integraremos a elite dos senhores do mundo e que nunca chegaremos a conquistar o reconhecimento daqueles que caminham ao nosso lado… A transfiguração de Jesus grita-nos, do alto daquele monte: não desanimeis, pois a lógica de Deus não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim.
• Os três discípulos, testemunhas da transfiguração, parecem não ter muita vontade de “descer à terra” e enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Representam todos aqueles que vivem de olhos postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, ser seguidor de Jesus obriga a “regressar ao mundo” para testemunhar aos homens – mesmo contra a corrente – que a realização autêntica está no dom da vida; obriga a atolarmo-nos no mundo, nos seus problemas e dramas, a fim de dar o nosso contributo para o aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. A religião não é um ópio que nos adormece, mas um compromisso com Deus, que se faz compromisso de amor com o mundo e com os homens.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
============================
Do tabor ao calvário
I. ESCUTO NO MEU CORAÇÃO: procurai a minha face. Eu procurarei a tua face, Senhor, não me escondas a tua face, rezamos na antífona de entrada da Missa de hoje1.
O Evangelho relata-nos o que aconteceu no Tabor. Pouco antes, Jesus havia declarado aos seus discípulos, em Cesaréia de Filipe, que iria sofrer e padecer em Jerusalém, e que morreria às mãos dos príncipes dos sacerdotes, dos anciãos e dos escribas. Os Apóstolos tinham ficado aflitos e tristes com a notícia. Agora Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João, e leva-os a um lugar à parte2 para orar3. São os três discípulos que serão testemunhas da sua agonia no Horto das Oliveiras. Enquanto orava, o seu rosto transformou-se e as suas vestes tornaram-se resplandecentes4. E vêem-no conversar com Elias e Moisés, que aparecem nimbados de glória e lhe falam da sua morte, que havia de ocorrer em Jerusalém (5).
São Leão Magno diz que “o fim principal da transfiguração foi desterrar das almas dos discípulos o escândalo da Cruz”6. Os Apóstolos jamais esquecerão esta “gota de mel” que Jesus lhes oferecia no meio da sua amargura. Muitos anos mais tarde, São Pedro ainda recordará de modo nítido esses momentos:... quando do seio daquela glória magnífica lhe foi dirigida esta voz: Este é o meu Filho muito amado, em quem pus todo o meu afeto. Esta voz, que vinha do céu, nós a ouvimos quando estavámos com Ele no monte santo7. Jesus sempre atua assim com os que o seguem. No meio dos maiores padecimentos, dá-lhes o consolo necessário para continuarem a caminhar.
Esta centelha da glória divina inundou os Apóstolos de uma felicidade tão grande que fez Pedro exclamar: Senhor, é bom permanecermos aqui. Façamos três tendas... Pedro quer prolongar a situação. Mas, como dirá mais adiante o evangelista, não sabia o que dizia; pois o que é bom, o que importa, não é estar aqui ou ali, mas estar sempre com Cristo, em qualquer parte, e vê-lo por trás das circunstâncias em que nos encontramos. Se estamos com Ele, tanto faz que estejamos rodeados dos maiores consolos do mundo ou prostrados na cama de um hospital, padecendo dores terríveis. O que importa é somente isto: vê-lo e viver sempre com Ele. Esta é a única coisa verdadeiramente boa e importante na vida presente e na outra. Vultum tuum, Domine, requiram: Desejo ver-te, Senhor, e procurarei o teu rosto nas circunstâncias habituais da minha vida.
II. COMENTANDO A PASSAGEM do Evangelho da Missa, São Beda diz que o Senhor, “numa piedosa autorização, permitiu que Pedro, Tiago e João fruíssem durante um tempo muito curto da contemplação da felicidade que dura para sempre, a fim de fortalecê-los perante a adversidade”8. A lembrança desses momentos ao lado do Senhor no Tabor foi sem dúvida uma grande ajuda nas várias situações difíceis por que estes três Apóstolos viriam a passar.
A vida dos homens é uma caminhada para o Céu, que é a nossa morada9. Uma caminhada que, às vezes, se torna áspera e difícil, porque com freqüência devemos remar contra a corrente e lutar com muitos inimigos interiores ou de fora. Mas o Senhor quer confortar-nos com a esperança do Céu, de modo especial nos momentos mais duros ou quando se torna mais patente a fraqueza da nossa condição: “À hora da tentação, pensa no Amor que te espera no Céu. Fomenta a virtude da esperança, que não é falta de generosidade”10.
No Céu, “tudo é repouso, alegria, regozijo; tudo é serenidade e calma, tudo paz, resplendor e luz. Não é uma luz como esta de que gozamos agora, a qual, comparada com aquela, não passa de uma lâmpada ao lado do sol... Porque lá não há noite nem tarde, frio nem calor, mudança alguma no modo de ser, mas um estado tal que somente o entendem os que são dignos de gozá-lo. Não há ali velhice, nem achaques, nem nada que se assemelhe à corrupção, porque é o lugar e aposento da glória imortal... E, acima de tudo, é o convívio e o gozo eterno com Cristo, com os anjos..., todos perpetuamente unidos num sentir comum, sem medo das investidas do demônio nem das ameaças do inferno e da morte”11.
A nossa vida no Céu estará definitivamente livre de qualquer possível temor. Não passaremos pela inquietação de perder o que temos, nem desejaremos ter nada de diferente. Então poderemos dizer verdadeiramente com São Pedro: Mestre, é bom estarmos aqui! “Vamos pensar no que será o Céu. Nem olho algum viu, nem ouvido algum ouviu, nem passaram pelo pensamento do homem as coisas que Deus preparou para os que o amam. Imaginamos o que será chegar ali, e encontrar-nos com Deus, e ver aquela formosura, aquele amor que se derrama sobre os nossos corações, que sacia sem saciar? Eu me pergunto muitas vezes ao dia: o que será quando toda a beleza, toda a bondade, toda a maravilha infinita de Deus se derramar sobre este pobre vaso de barro que sou eu, que somos todos nós? E então compreendo bem aquela frase do Apóstolo: Nem olho algum viu, nem ouvido algum ouviu... Vale a pena, meus filhos, vale a pena”12.
O pensamento da glória que nos espera deve espicaçar-nos na nossa luta diária. Nada vale tanto como ganhar o Céu. “E se fordes sempre avante com esta determinação de antes morrer do que desistir de chegar ao termo da jornada, o Senhor, mesmo que vos mantenha com alguma sede nesta vida, na outra, que durará para sempre, vos dará de beber com toda a abundância e sem perigo de que vos venha a faltar”13.
III. UMA NUVEM OS ENCOBRIU (14). Essa nuvem evoca-nos aquela que acompanhava a presença de Deus no Antigo Testamento: Então a nuvem cobriu a tenda de reunião e a glória do Senhor encheu o tabernáculo (15). Era o sinal que acompanhava as intervenções divinas: Então o Senhor disse a Moisés: Eis que vou aproximar-me de ti na obscuridade de uma nuvem, a fim de que o povo veja que Eu falo contigo e também confie em ti para sempre16. Essa nuvem envolve agora Cristo no Tabor e dela surge a voz poderosa de Deus Pai: Este é o meu Filho muito amado; ouvi-o.
E Deus Pai fala através de Jesus Cristo a todos os homens de todos os tempos. A sua voz faz-se ouvir em todas as épocas, sobretudo através dos ensinamentos da Igreja, que “procura continuamente as vias para tornar próximo do gênero humano o mistério do seu Mestre e Senhor: próximo dos povos, das nações, das gerações que se sucedem e de cada um dos homens em particular” (17).
Eles levantaram os olhos e não viram mais ninguém a não ser Jesus (18). Elias e Moisés já não estavam presentes. Só vêem o Senhor: o Jesus de sempre, que por vezes passa fome, que se cansa, que se esforça por ser compreendido... Jesus sem especiais manifestações gloriosas. Normalmente, os Apóstolos viam o Senhor assim; vê-lo transfigurado foi uma exceção.
Nós devemos encontrar esse Jesus na nossa vida corrente, no meio do trabalho, na rua, nos que nos rodeiam, na oração, quando nos perdoa no sacramento da Penitência, e sobretudo na Sagrada Eucaristia, onde se encontra verdadeira, real e substancialmente presente. Devemos aprender a descobri-lo nas coisas ordinárias, correntes, fugindo da tentação de desejar o extraordinário.
Não devemos esquecê-lo nunca: esse Jesus que esteve no Tabor com aqueles três privilegiados é o mesmo que está ao nosso lado diariamente. “Quando Deus vos concede a graça de sentir a sua presença e deseja que lhe faleis como ao amigo mais querido, esforçai-vos por expor os vossos sentimentos com toda a liberdade e confiança. Ele antecipa-se a dar-se a conhecer aos que o procuram (Sb. 6,14). Sem esperar que vos aproximeis, antecipa-se quando desejais o seu amor, e apresenta-se concedendo-vos as graças e remédios de que necessitais. Só espera de vós uma palavra para demonstrar que está ao vosso lado e disposto a escutar e consolar: seus ouvidos estão atentos à oração (Sl. 33,16). Há momentos que os amigos deste mundo passam juntos conversando, mas há horas em que estão separados; entre Deus e vós, se quiserdes, jamais haverá um momento de separação” (19).
Não é verdade que a nossa vida seria diferente, nesta Quaresma e sempre, se atualizássemos com mais freqüência essa presença divina no quotidiano, se procurássemos dizer mais jaculatórias, mais atos de amor e de desagravo, mais comunhões espirituais...? “Para o teu exame diário: deixei passar alguma hora sem falar com  meu Pai-Deus?... Conversei  com Ele, com amor  de filho? – Podes!” (20)
Francisco Fernández-Carvajal
============================
1. A transfiguração de Jesus Mc. 9, 2-10; Mt. 17,1-8; Lc. 9,28-36: cada evangelista trabalha a narrativa dentro dos objetivos específicos que tem. Marcos a inseriu no início da segunda parte do seu evangelho. De fato, a partir de 8,31 temos um novo início e, daqui para a frente, Jesus vai dedicar a maior parte do seu tempo ensinando aos discípulos o sentido profundo do seu messianismo.
2. Na primeira parte do Evangelho de Marcos, Jesus é incompreendido pelos “de fora”, acusado de blasfemar, de ser um possesso, louco e impuro. E os discípulos, o que pensam dele? Pedro, representando todos os que pretendem se unir ao Mestre, afirma que Jesus é o Messias (8,29). Marcos insere aqui o primeiro anúncio da Paixão. E Pedro, representando mais uma vez os discípulos, se torna “satanás”, porque pretende que o messianismo de Jesus se baseie nos moldes tradicionais. Jesus é incompreendido pelos “de dentro”.
2. E agora: a proposta messiânica de Jesus vai vencer? A transfiguração responde afirmativamente. Jesus vai vencer. Seu projeto será vitorioso porque é garantido pelo Pai, que o declara seu Filho amado, pedindo que todos escutem o que ele diz (9,7). A transfiguração, portanto, é o sinal da vitória de Jesus e de seu projeto.
3. Jesus sobe à montanha com Pedro, Tiago e João, três dos quatro primeiros escolhidos (cf. 1,16-20). A cena recorda Ex. 24, onde Moisés é convidado a subir à montanha de Javé em companhia de Aarão, Nadab, Abiú e setenta anciãos. Somente Moisés se aproximou de Javé e, ao descer do monte, contou ao povo tudo o que Javé lhe havia dito. A resposta do povo é uma só: “Faremos tudo o que Javé disse” (cf. Ex. 24,1-13). Qual será a resposta dos discípulos? Desde já podemos concluir que eles se deixam levar pelo medo e perplexidade (vv. 6.10).
4. Marcos afirma que “as roupas de Jesus ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar” (v. 3). Essa transformação aponta para a realidade da ressurreição de Jesus. Ninguém, – nem mesmo a morte, – poderá deter o projeto do Reino, pois o Mestre vai ressuscitar depois de três dias (cf. 8,31b).
5. Moisés e Elias – que representam respectivamente a Lei e os Profetas, isto é, todo o Antigo Testamento – se fazem presentes e conversam com Jesus. Elias é o restaurador do javismo no Reino do Norte no tempo do rei Acab, o profeta que libertou o povo da idolatria que gera opressão. Moisés é o líder da libertação do Egito. O comparecimento deles vem dar testemunho de Jesus: ele é o libertador definitivo, prometido e prefigurado nos líderes do passado. O Antigo Testamento testemunha que Jesus veio para libertar mediante a entrega total de sua vida.
6. Nuvem, esplendor, personagens (Elias - Moisés) e, sobretudo, a voz que sai da nuvem são modos de indicar a presença de Deus no acontecimento. O próprio Pai garante que Jesus é seu Filho amado, ao qual é preciso dar adesão (v. 7; cf. 1,15). Nesse versículo temos um dos pontos altos do Evangelho de Marcos. Desde o início afirma-se que Jesus é Filho de Deus (1,1) e, ao ser batizado, o Pai diz: “Tu és o meu Filho amado; em ti encontro o meu agrado” (1,11). O termo “filho” recorda o salmo 2,7, onde um rei é declarado filho de Deus. Jesus é esse Rei, mas seu messianismo passa pela entrega da vida.
7. Pedro representa nós todos quando pretendemos viver a alegria da ressurreição sem passar pela entrega e pela morte (cf. Abraão na 1ª leitura). O julgamento que Marcos faz de Pedro e de todos os seguidores de Jesus é muito severo: “Ele não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo”(v.6). No fim de tudo, os discípulos perguntam o que queria dizer “ressuscitar dos mortos” (cf. v. 10). O tema da ignorância dos discípulos é muito forte no evangelho de Marcos. É impossível saber quem é Jesus sem ir com ele até a cruz, sem passar pela morte, sem voltar à Galileia (16,7) para anunciar aí, por meio de uma prática libertadora, que o Mestre está vivo.
8. Pedro – e nós todos com ele – sofremos de ignorância crônica em relação a quem é Jesus. Por isso é que “escutar o que ele diz” (v. 7 ) = significa ir com ele até o fim. E não nos assustemos: no evangelho de Marcos, quem confessa Jesus como “Filho de Deus” é justamente um pagão, alguém que jamais estivera com o Mestre nas suas andanças pela Galileia.
9. E, de repente, olhando em volta, os discípulos não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles” (v.8). Jesus é a única autoridade credenciada pelo Pai. Ele está conosco para nos ajudar a descer do monte e a vencer o medo e a perplexidade.
1ª leitura: Gn. 22,1-2.9a.10-13.15-18
10. Estamos diante da maior prova de fé de Abraão, pai dos que crêem. O episódio do sacrifício de Isaac serviu para que o povo de Deus jamais admitisse sacrifícios humanos (como faziam os cultos cananeus). Isaac é resgatado por meio de um sacrifício, e isso se tornou mais tarde lei em Israel (cf. Ex. 13,13b). É para aprendermos: A vida é dom de Deus, mas isso não significa que Ele exija para si a vida das suas criaturas, nem no passado, nem no presente, nem no futuro.
11. O trecho, porém, não quer simplesmente justificar leis ou costumes adotados pelo povo de Deus ao longo da história. Ele é, sim, o melhor retrato da pessoa que crê em meio à escuridão da vida. De fato, o v. 1 afirma: “Deus pôs Abraão à prova”, sem contudo avisá-lo de que se tratava de uma prova. E um teste duríssimo: Isaac é seu filho único e Abraão o amava muito.
12. Abraão havia sido chamado a deixar o passado (cf. 12,1), confiando na promessa a daquele que o chamou, prometendo-lhe terra e descendência. Isaac é filho dessa promessa e esperança de futuro. Abraão é chamado a renunciar também ao futuro, devolvendo a Deus o dom da promessa, Isaac. Acabam-se assim todas as esperanças e seguranças para o velho patriarca (… velho e sem nada!).
13. Deus age dessa forma porque somente ele é segurança, ele que se mantém fiel até o fim. Abraão passou pela prova, amadureceu a sua fé, tornou-se construtor de uma nova história e pai de um povo que irá perpetuar sua memória e ações em outros lugares e tempos.
14. O povo de Deus não só se identificou com o Abraão eloqüente que conversa e pechincha com Deus (cf. 18,22-33), mas se identificou também com o Abraão que se cala diante do mistério. De fato, no episódio do sacrifício de Isaac, o patriarca quase não fala, e Deus se manifesta somente no início e no fim do relato. Abraão tem de fazer tudo sozinho, em silêncio e envolvido pelo mistério incomparável de Deus – superando com fé e confiança os absurdos que a vida apresenta.
15. Mas o povo se identifica também com Isaac, pois somos todos frutos de uma promessa e esperança de futuro. Nós, como Isaac, perguntamos quando percebemos que em nossa caminhada falta o essencial. E a única força que nos anima é esta: “Deus vai providenciar!”.
16. Isaac é fruto da promessa, mas Deus tirou de Abraão todas as seguranças para que ele não se acomodasse. Só assim é que a promessa se torna realização: “Uma vez que não me recusaste teu único filho, eu te abençoarei largamente e tornarei tua descendência tão numerosa como as estrelas do céu e como a areia da praia … Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque tu me obedeceste” (vv. 16b-18).
2ª leitura: Rm. 8,31b–34
17. O capítulo 8 de Romanos é uma das páginas magistrais de Paulo. Aí fala-se da vida no Espírito. Dois são os temas que percorrem este capítulo: o da vida no Espírito e o da filiação divina. A partir dessa certeza, ele compõe uma poesia que nossas comunidades hoje gostam de cantar (vv. 31-39). Ele celebra a certeza das comunidades de que o projeto de Deus vai vencer.
18. O capítulo 8 inicia com uma certeza: “Já não existe condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo” (v. 1). E as perguntas que Paulo faz (-nos versículos que a liturgia escolheu para este domingo-) não admitem outras respostas senão estas:
- “Deus é por nós, ninguém será contra nós” (v. 31b).
- “Deus não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós. Por isso, juntamente com ele, nos dará tudo o de que precisamos” (v. 32).
- “Ninguém acusará os escolhidos de Deus, pois é Deus quem justifica” (v. 33).
- “Ninguém condenará, nem mesmo Jesus Cristo, pois ele morreu e ressuscitou, está à direita de Deus e intercede por nós” (v. 34).
19. Se Deus não é contra nós, não nos nega nada, não nos acusa, não nos condena, quem de nós ousa fazer aquilo que Deus não faz? A responsabilidade, portanto, é de cada um e de todos.
R e f l e t i n d o
1. Celebramos a certeza de que, – se Deus é por nós, – ninguém será contra nós. Na celebração da Eucaristia aprendemos a escutar o que o Filho amado do Pai tem a nos dizer … e, confiantes, – … não em nossas seguranças, – mas no Deus fiel às suas promessas, enfrentamos os absurdos da vida, os mistérios que perpassam indecifráveis a nossa existência, as perplexidades e os desafios que o mundo dos excluídos nos apresenta. A fé nos garante que é possível transfigurar (além da nossa vida) também a vida de quem carece de dignidade humana. Seguindo os passos de Jesus – que foi solidário conosco e se entregou por amor – queremos aprender a construir sociedade nova e história nova.
2. O evangelho de hoje nos dá uma espiadinha no céu: Jesus revela sua glória diante de seus discípulos. Situando essa visão dentro da estrutura fundamental do evangelho de Marcos:
- na 1ª parte de sua atividade Jesus se dirige às multidões mediante sinais e ensinamentos, que deixam transparecer sua “autoridade” … mas não dizem nada do seu interior.
- Na 2ª metade (a partir de 8,27) Jesus revela – não à multidão, mas aos Doze, futuras testemunhas de sua missão, – seu mistério interior: sua missão de Servo Padecente (melhor, Filho do Homem padecente) e sua união com o Pai.
3. Na hora do Batismo, o que foi confiado a Jesus pessoalmente, pelo Pai, quando a voz da nuvem lhe revelou: “Tu és meu Filho amado, no qual está o meu agrado” (Mc. 1,11), é agora, na transfiguração, revelado aos discípulos: “Este é meu Filho amado, escutai-o”.
4. O mistério do Enviado de Deus (não mais reservado a Jesus) é comunicado aos que deverão continuar sua missão. É-lhes revelado, embora não o entendam (9,10; cf.8,32s), ou melhor, porque não entendem, pois aproxima-se o momento do escândalo da cruz. Por isso, por uma frestinha podem enxergar um pedacinho do céu. E gostam!
5. “Façamos aqui três tendas…”, diz Pedro (porém, ele não sabia o que estava dizendo,9,6). Pois – Jesus não podia ficar onde estavam.
- Devia caminhar.
- Não há glória sem cruz, não há Páscoa sem Semana Santa (cf. 9,12b).
6. Muitos gostariam de que existisse Páscoa sem Semana Santa. Um Jesus festivo, jovem, simpático, com olhos românticos, com ar de revolucionário, mas não um Jesus esmagado e aniquilado! Marcos, porém, situa a visão da glória na perspectiva da cruz, no início do caminho que conduz ao Gólgota, logo depois do convite aos discípulos de assumirem sua cruz no seguimento de Jesus (8,34).
7. Aprendemos hoje que não dá e não devemos construir “tendas eternas” antes da hora. Jesus ainda tem muito a caminhar, e nós com ele. Mas, entretanto, precisamos de uma “pré-visão” de sua glória, para, – na noite do sofrimento, – não desanimarmos e enxergarmos o sentido final, revelado nas palavras: “Este é meu Filho amado…”.
8. Deus nos mostra que o mistério que nos salva é sua própria doação por nós, na morte de seu Filho. É o que nos diz Paulo na II leitura: “não poupou seu próprio Filho”. E para que entendamos o que significam estas palavras, a 1ª leitura lembra o conflito que explodiu na alma de Abraão, quando Javé lhe pede o sacrifício de seu único e querido filho (o filho que encarnava a promessa de descendência, o filho em quem estava toda a sua vida).
9. A lógica de Deus é diferente da nossa. Nós diríamos que Jesus era um homem especial, o homem que interpretava, ensinava e vivia de modo perfeito a vontade de Deus. Portanto, deveria ser protegido, defendido, promovido, divulgado de todas as formas. Deus, não!
- Deus sabe que o coração humano é orgulhoso e só cai em si depois de destruir sua felicidade.
- Deus sabe que os homens só se convertem “elevando os olhos para aquele que traspassaram” (Zc. 12,10).
- A sede do poder, a agressividade, só reconhece seu vazio depois de ter esmagado o justo que a ela se opõe.
Deus quis e quer pagar esse preço para conquistar o coração humano. O Filho que ele envolve com sua glória, e que recebe o testemunho da Lei e dos profetas (Moisés e Elias), Deus não o poupou, pois era preciso que realizasse sua oferta de amor até o fim. Eis o risco que Deus quis correr!
10. Mas não aboliu Deus os sacrifícios humanos desde Abraão? Deus pôs fim aos sacrifícios em que os homens oferecem outros homens. Mas, – em seu Filho, – ele mesmo quis sofrer para nos ganhar com seu amor. Ele mesmo quis viver o amor até o fim. Nele Deus “se perdeu” a si mesmo em seu amor por nós…
11. “Escutai-o”. Os ensinamentos de Jesus, que agora se seguirão, são os ensinamentos sobre a humildade, o despojamento, o serviço, a doação em prol dos “muitos” (10,45). Só podemos aceitar este ensinamento na confiança de que “ele teve razão” quando deu sua vida por nós. É isto que a liturgia de hoje, antecipadamente, nos deixa entrever.
12. Se no domingo passado, Jesus – Filho e Servo de Deus, – se preparou para sua missão, hoje ele é mostrado diante da fase final de sua missão, prestes a subir a Jerusalém. Já tinha anunciado seu sofrimento aos discípulos, equivocados a seu respeito. No evangelho de hoje Pedro, Tiago e João são testemunhas de uma revelação de Jesus na glória de Deus: “Este é meu Filho amado, escutai-o!”. Antes de acompanhar Jesus no sofrimento, os discípulos recebem um “sinal” da glória de Jesus, para que saibam que o Pai está com ele quando ele vai dar a sua vida por todos. Pois não é só Jesus dando a própria vida, é o Pai que dá seu Filho por nós, como diz Paulo.
13. O gesto magnânimo de Abraão tornou-se imagem da incompreensível magnanimidade de Deus, que dá seu “Filho unigênito” para nós (Jo 3,16). Magnanimidade, de fato, muito mal compreendida. Há quem pense que Deus é um carrasco, que quer que seu Filho pague com seu sangue os pecados dos demais. Mas, muitos séculos antes de Cristo, os profetas negaram tal idéia: cada um é responsável por seu próprio pecado (Ez. 18; Jr. 31,29, etc.). Deus não é vingativo nem sanguinário, mas antes de tudo rico em misericórdia e fidelidade (Ex. 34,6; Sl. 115,1). É por isso que ele dispões de seu Filho, para que este nos mostre a misericórdia e fidelidade de Deus por sua própria prática de vida. Jesus é Filho na medida em que sua atitude representa o amor fiel de Deus. É precisamente no momento de subir a Jerusalém para enfrentar a inimizade mortal das autoridades, que isto se verifica. Jesus poderia ter virado o casaco, desistido de suas bonitas lições sobre o amor fraterno, poderia ter salvo a sua pele. Não quis. Quis ser a imagem do amor fiel de Deus. Por isso, quando Jesus dá sua vida por nós, é o Pai que a dá.
14. Nossa mentalidade egocêntrica, alimentada pela ideologia da competição e do consumo, dificilmente admite que Deus possa ser imaginado com uma magnanimidade tão grande, como alguém tão generosos que aceita a fidelidade de Jesus até o fim como se fosse o dom de seu único filho e herdeiro: “Este é meu Filho amado!” Nele, Deus se reconhece a si mesmo, reconhece seu próprio modo de agir.
15. QUARESMA é tempo de penitência, conversão, oração, escuta da Palavra de Deus, jejum e esmola-solidariedade. Muitos (e nós também…) preferem ficar na montanha… na admiração, na contemplação. É muito mais tranqüilo. Assim não precisa passar pelas dificuldades da vida, pelos sofrimentos, pela cruz… mas Jesus diz que é preciso descer da montanha, desfazer-se de “tendas provisórias” e ir ao encontro de todos os que necessitam, aqui embaixo na terra e morar com eles, no sentido de estabelecer com eles uma fraternidade e participar da construção de uma história de vida digna para todos.
16. Campanha da fraternidade.
Tanto o evangelho quanto a 1ª. leitura que defendem a vida (com saúde, em plenitude) devem nos levar a meditar profundamente sobre a CF – Fraternidade e Saúde. Se somos chamados a construir o Reino de Deus já aqui nesta terra, então, que seja um Rei- no de filhos de Deus, de pessoas sadias, saudáveis, dispostas, alegres e felizes. Saúde é dom de Deus, mas também fruto de solidariedade e fraternidade.
prof. Ângelo Vitório Zambon
============================
Esta realidade é comparável ao que se lê na primeira leitura de hoje: “Toma teu filho único,  Isaac, a quem tanto amas, dirije-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um monte que eu te indicar”.  Inúmeras vezes as pessoas e as famílias se vêem em situação quase sem escolha: ou sacrificar sua própria existência ou sentir-se excluída do mundo e da convivência habitual em que está inserida.
Tal como para Abrãao, Deus continua apontando outros caminhos e apresentando novas e extraordinárias alternativas: “'Não estendas a mão contra teu filho e não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu filho único'. Abraão, erguendo os olhos, viu um carneiro preso num espinheiro pelos chifres; foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto no lugar do seu filho”.
É assim que podem ser compreendidas as palavras de Paulo: “Irmãos: Se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Ou seja, no contexto da multidão de pecados, Deus está aí para perdoar, livrar e redimir. Ninguém condena, nem mesmo Deus.
Esta experiência é vivida pelos amigos de Jesus, no alto do monte, eles entram na intimidade de Jesus e de Deus seu Pai. São convidados a não permanecer naquele lugar, mas voltar para a realidade do pecado e da provação e lá ouvirem de novo aquilo que já sabiam, mas não tinha ainda compreendido: “'Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!”.
Sob esta ótica é possível cantar com o salmista: “Andarei na presença de Deus. Vou cumprir minhas promessas ao Senhor na presença de seu povo reunido; nos átrios da casa do Senhor, em teu meio, ó cidade de Sião!”.
Neste sentido a celebração de cada domingo, a Palavra que se ouve e a Eucaristia que se partilha são sinais extraordinários de que “Jesus Cristo, que morreu, mais ainda, que ressuscitou, e está, à direita de Deus, intercedendo por nós?” e que um mundo novo e muito melhor pode ser construído e que com a ajuda de todos “A saúde se difunda sobre a terra”.
padre Elcio Alberton

============================
1. Em todos os segundos domingos de quaresma dos ciclos litúrgicos A,B,C o tema é o mesmo: a Transfiguração de Jesus. Isso porque a liturgia da quaresma, quer ajudar a caminhada dos fieis colocando nos primeiros passos o sentido do mesmo caminho. É difícil, de fato, agüentar uma caminhada tão dura se não tiver claro, logo no começo, o objetivo, a meta.
2. “E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar” (Mc. 9,3).
Qual é o sentido deste versículo? Sem duvida, aquilo que aconteceu em cima da montanha naquele dia, é uma revelação, a manifestação da divindade de Jesus. O Filhe de Deus se manifestou por aquilo que ele é: não apenas um grande homem, mas também verdadeiro Deus. Significativo é que esta manifestação aconteceu naquele corpo nascido de uma mulher, Maria, um corpo totalmente aparecido ao nosso. Não desceu um espírito do Céu, mas foi a carne de Jesus a se transfigurar. É sobre este dato que devemos colocar a nossa atenção. De fato, se Jesus veio ao mundo para mostrar o sentido da vida humana, ou seja o que quer dizer ser homem e mulher dentro o plano de Deus, então esta transfiguração não aponta apenas algo sobre a natureza de Jesus, mas também sobre a nossa. Em Jesus somos chamados para participarmos da natureza divina (cf. 2Pd. 1,4): é este o grande mistério desvendado em Jesus. A vida litúrgica e  sacramental visa isso mesmo: divinizar a nossa natureza. É verdade que somos de carne, extremamente fracos, com uma tendência ao pecado incrível. Só que, em Jesus, Deus nos ofereceu tudo o que precisamos para a plena transformação da nossa natureza. O grande milagre que deve acontecer na nossa existência é exatamente isso: a plena transfiguração da nossa natureza. Este é ao mesmo tempo a meta e o compromisso corriqueiro da nossa caminhada de fé. “Ele nos escolheu em Cristo antes de criar o mundo para que sejamos santos e sem defeitos diante dele no amor” (Ef. 1,4).
Se tudo isso é verdade, e parece que seja, não basta mais constatarmos os nossos limites humanos, as nossas fraquezas: devemos fazer de tudo para que o Espírito Santo transfigure a nossa natureza. A grande tentação no caminho de conversão, é ficar empolgados para os sucessos que na nossa vida acontecem logo no inicio do Caminho e, depois, perante as dificuldades encontradas na mudança profunda da nossa natureza, criar um estado de acomodamento. A vida de fé é uma luta constante, um esforço, um sofrimento. A nossa natureza nascida mergulhada no pecado, sofre bastante a ação da graça: resiste com todas as forças até o fim dos dias.
3. Nessa altura poderíamos nos perguntar: como é possível, nesta vida presente, conseguir a transfiguração da nossa natureza que, aliás, é o mesmo sentido da santidade? 
“E da nuvem saiu uma voz: Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz” (Mc. 9,7).
Se tomássemos a serio estas palavras, talvez a nossa vida de fé seria mais evoluída. Escutar é um verbo central na historia da salvação. O encontramos, de fato, nos momentos cruciais da vida do povo de Israel. Quando o povo está perdido no pecado da idolatria, Deus manda um profeta que lembre para eles o que é verdadeiramente importante e essencial: escutar. “Escuta Israel, o Senhor é o teu Deus” (Dt 6,4).
Para conseguirmos uma natureza transformada pela ação do Espírito Santo, não temos outro caminho que aquele de escutar o que nos diz o Filho de Deus. É este costume, esta aproximação, esta amizade com a Palavra de Deus que deveria ser fortalecido nas nossas praticas religiosas. Também porque somente a Palavra de Deus, mostrando o que Deus mesmo quer de nós, pode derreter as nossas tradições, as nossas devoções tipicamente humanas, que não convertem ninguém, mas pelo contrario, contribuem para o mantimento da nossa pobreza espiritual. É o Evangelho a Palavra viva que aponta o caminho verdadeiro que devemos realizar.
4. Como podemos ter a certeza que estamos no caminho certo, ou seja, que a Palavra que estamos interiorizando está nos conduzindo no caminho da transfiguração da nossa natureza?
A resposta a encontramos na primeira leitura. “ E Deus disse: toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te á terra de Moriá e oferece-o ali em holocausto sobre um monte que eu te indicar” (Gn. 22,2).
A obediência absoluta a Deus é o sinal que o caminho que está sendo percorrido, não é fruto da nossa religiosidade pessoal, das nossas devoções humanas, dos nossos ídolos humanos, mas é obra do Espírito Santo. Quando nos tornamos disponíveis a abrir mão até daquilo que tanto amamos, então algo de grande está acontecendo na nossa alma. Por isso Abraão é considerado o pai da nossa fé. Uma natureza transformada pela ação do Espírito Santo enxerga somente Deus e deseja fazer somente a sua vontade. É bom acrescentar que, na perspectiva bíblica, a obediência é a resposta a um relacionamento de amor. Se Abraão abre mão de seu filho, não é por medo de Deus, por aquilo que Deus poderia fazer se ele desobedecesse. Pelo contrario: Abraão obedece porque ama a Deus. Mesma coisa poderíamos dizer para Jesus: a sua morte na cruz não foi o resultado de um mero projeto ao qual Ele se entregou, mas foi a resposta estrema do seu amor para o Pai.
Quanto mais amamos a Deus tanto mais sentiremos o desejo de fazer a sua vontade.
padre Paolo Cugini

============================
A transfiguração de Jesus – este é o meu Filho amado, escutai-o!
No domingo passado refletimos sobre o texto do Evangelho de Marcos 1,12-15 que relata o episódio das tentações de Jesus no deserto. Para os judeus, deserto é o lugar privilegiado do encontro com Deus. Quaresma é o grande retiro espiritual dos cristãos em preparação da festa da Páscoa cristã. É tempo de conversão e de fidelidade ao plano de Deus como nos mostra a 1ª leitura de hoje (Gênesis 22,1-2). Este texto do Antigo Testamento destina-se a apresentar Abraão como modelo de fé. Com o seu “sim”, Abraão recebe de Deus a missão de abençoar todos os povos e nações. Disse o Senhor Deus: “Em ti, serão abençoadas todas as famílias da terra.” A historia de Abraão está diretamente ligada a historia de toda a humanidade. Com Abraão surge o embrião de um povo que terá a missão de trazer a benção de Deus para todos os povos e nações. Que a fé experimentada por Abraão nos sirva de inspiração na certeza de que Deus não abandona aquele que Nele confia.
O apóstolo Paulo (2ª leitura) proclama: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” O texto do Evangelho (Mc. 9,2-10) descreve a transfiguração de Jesus. O evangelista menciona dois importantes personagens do Antigo Testamento – Moisés e Elias. O primeiro representa a Lei e o segundo os Profetas. As figuras de Elias e Moisés ressaltam que a Lei e as profecias são realizadas plenamente em Jesus. Na transfiguração, Pedro, Tiago e João, são agraciados fazendo de forma antecipada a experiência da glorificação do Mestre Jesus. Confirmados na fé, perceberam que Jesus era o Messias e que a transfiguração passa necessariamente pela cruz. Mais tarde testemunharam a agonia de Jesus no Getsêmani. Nosso seguimento a Jesus igualmente passa necessariamente pela cruz, um itinerário que requer de nós renúncia e capacidade de avançar sem medo rumo a Jerusalém. Não podemos nos transfigurar como Jesus, mas podemos transformar cada dia de nossa vida, fazendo com amor cada ato por menor que seja. A liturgia de hoje (transfiguração) nos faz enxergar muitos rostos desfigurados de irmãos e irmãs que clamam por vida digna.
Pedro Scherer
============================
No Evangelho deste II domingo da Quaresma, somos convidados a subir a montanha em companhia de Pedro, Tiago e João, seguindo os passos de Jesus que se afasta da multidão e se recolhe para rezar. A montanha na Bíblia é o lugar da presença e da manifestação de Deus. Foi sobre uma montanha que a Lei foi dada a Moisés como também foi sobre uma montanha que Elias revelou o Deus único.
Agora, é Marcos que nos conta o que se passou naquela montanha onde estava reunido Jesus com três dos seus discípulos: “transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar”. Esta mudança na aparência de Jesus que o torna luminoso é o que chamamos “transfiguração”. Transfigurar significa mudar a figura ou a feição.
Para nos ajudar a compreender melhor essa transfiguração de Jesus, podemos nos valer da expressão facial de algumas pessoas em determinadas circunstâncias que nos passam essa idéia: a expressão de uma mãe que amamenta seu filhinho, o de um pai apaixonado por seus filhos e sua esposa etc. O que caracteriza o olhar de ambos é o brilho no olhar. E o que faz iluminar a expressão destas pessoas? É o amor. É o amor que transparece do rosto deles e os torna brilhantes.
Com certeza, foi o amor que tornou o rosto de Jesus resplandecente. Enquanto estava rezando, ele entra em contato com o Pai, e o amor entre eles é tão grande que chega a alterar a sua aparência. Os três apóstolos que o acompanhavam certamente ficaram perplexos ao verem esta mudança; principalmente, quando apareceram Moisés e Elias. Moisés, que guiou o povo de Israel da escravidão do Egito à libertação dada por Deus; e Elias, que foi assunto ao céu numa carruagem de fogo (2Rs. 2,11). Os dois, que representam toda a história de Israel, aparecem na montanha para conversarem com Jesus.
Mas, qual era mesmo o assunto da conversa deles? Esta informação só o evangelista Lucas nos dá. Conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém, ou seja, da paixão de Jesus, o que estamos, neste tempo de Quaresma, nos preparando para celebrar. Nesse ínterim, Pedro constata maravilhado: “Mestre, é bom ficarmos aqui!” E propõe: “vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro tem razão: deve ter sido muito bom mesmo estar ali imersos na luz do amor entre o Pai e o Filho, escutando o diálogo com Moisés e Elias. Era tão bom que Pedro queria que aquele momento nunca acabasse. Por isso é que ele propôs fazer três tendas. Normalmente, quando as pessoas vão a uma montanha para acampar, ou seja, querem passar mais tempo lá, levam e armam suas barracas.
Entretanto, enquanto Pedro fazia a sua proposta, saiu uma voz do céu com uma indicação bem diferente: para saborear aquele momento extraordinário, não era preciso armar tendas, mas ter um coração atento para ouvir a Palavra de Jesus. De fato, saiu de uma nuvem a voz do Pai que dizia: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que Ele diz!”.
É a mesma exortação feita no relato do Batismo de Jesus. E este é um detalhe muito interessante, pois o Pai está dizendo que aquele Filho que começou o ministério no Jordão é o mesmo que está prestes a morrer crucificado. A força da voz do Pai deve ter sido uma experiência esplendorosa para os apóstolos, a ponto de ficarem assustados. Escutar! É a melhor maneira para se preparar para a Páscoa: escutar a Palavra que Jesus veio nos dar. Escutar com os ouvidos, mas, sobretudo, escutar com o coração. Só assim podemos ficar transfigurados.
MEDITAÇÃO
Infelizmente, hoje, o rosto de Jesus aparece mais desfigurado do que transfigurado. Desfigurado em tantos rostos humanos por causa da pobreza extrema e por falta de amor. Jesus sofredor aparece desfigurado no rosto de crianças doentes, abandonadas, desfrutadas; no de jovens desorientados, perdidos, vazios; no dos excluídos da sociedade; no de desempregados, no de idosos abandonados até mesmo pela família, no de viciados em algum tipo de droga.
São muitos os desafios que os missionários de Jesus têm de enfrentar. Coragem! Levantai-vos e não tenhais medo.
Perguntas: Procuro subir o “monte” (lugar de silêncio e deserto) para estar com Jesus através da oração? Como entendo o relato da transfiguração? Percebo as situações em que Jesus se transfigura na minha vida? Gosto de me lembrar dessas ocasiões ou só fico pensando nas experiências de desolação? Sou consciente de que a transfiguração na minha vida pode acontecer através de uma constante experiência de encontro com Jesus na vida sacramental? Sinto prazer em gastar meu tempo dialogando com Deus? “É bom ficarmos aqui, vamos fazer três tendas”. Tenho a tentação de Pedro de ficar no topo da montanha, na experiência da transfiguração, e não querer colocar os pés no chão, baixar esta experiência para a minha vida cotidiana? Reconheço que Jesus é o Filho amado do Pai e nele, também eu sou filho predileto do Pai? Escuto e observo o que o Filho amado tem a me dizer através da escuta da Palavra e da oração?
CURANDO AS EMOÇÕES FERIDAS: INDICAÇÃO DE LIVRO
Fiquei responsável por mostrar neste espaço ao longo do ano, livros que possam formar os agentes de pastoral que acompanham pessoas em nossas comunidades que sofrem com problemas sérios como o alcoolismo, a dependência química, a depressão, o machismo, a exclusão, a violência familiar e muitos outros problemas que deixam a face destas pessoas tão desfiguradas, tristes, vazias, amargas, maltratadas.
Um livro bastante interessante para a formação desses agentes que constantemente devem lidar com estas pessoas é o do sacerdote e psicoterapeuta americano Martin Padovani. O livro se intitula “Curando as emoções feridas: vencendo os males da vida”. Neste livro, o autor consciente da missão de Jesus e de seus discípulos de curar os corações quebrantados (Is 61,1), primeiramente mostra a compatibilidade existente entre teologia e psicologia, e a partir daí, aborda com muita experiência de confessor e terapeuta, temas como a raiva, o perdão, o perdoar a si mesmo, o sentimento de culpa, a depressão, a autocrítica, o amor a si mesmo, a compaixão, a mudança. Temas muito interessantes apresentados à luz da Palavra de Deus que podem com certeza ajudar as pessoas sofridas a adquirir o semblante da transfiguração. O livro foi lançado no Brasil pela Paulus.
padre Carlos Henrique de Jesus Nascimento
============================
Recorda-nos o apóstolo Paulo, na segunda leitura deste domingo, uma verdade fundamental que anima o nosso caminho de conversão quaresmal e de seguimento de Jesus: “Deus, que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou à morte por todos nós, como não havia de nos dar, com Ele, todas as coisas?”. Este maravilhoso hino ao amor de Deus, que a liturgia nos oferece neste segundo domingo da quaresma, deve reacender em nós a certeza do amor de Deus e a esperança. O amor de Deus é o que nos leva a ultrapassar as várias dificuldades que surgem no nosso caminho de discípulos de Jesus. Apesar de todos os obstáculos e contratempos que vão aparecendo no nosso caminho de discípulos devemos ter confiança no êxito final, porque Deus ama-nos e justifica-nos. Se Deus, o único que nos podia condenar pelos nossos pecados, nos amou e nos perdoou, ninguém nos poderá fazer mal ou acusar.
Quem experimentou em si mesmo este amor de Deus sabe que acreditar neste amor não é só algo intelectual mas que também tem consequências práticas. Na verdade, o amor de Deus é uma experiência fundamental na nossa vida que não nos deixa indiferentes. Acreditar no amor de alguém não é só uma atitude intelectual. Acreditar no amor de alguém é confiar nessa pessoa, é entregar-se a ela, é deixar-se guiar por ela. A resposta adequada ao amor é a fé. Não a fé no seu restritivo sentido intelectual mas a fé no seu amplo sentido existencial. Desta fé, quase em termos dramáticos, nos fala a primeira leitura deste domingo ao recordar-nos o episódio do sacrifício de Isaac.
A primeira leitura deste domingo, retirada da secção das tradições patriarcais do livro do Gênesis, é uma lenda cultual que pretende ser uma catequese sobre a obediência e a confiança que o homem deve ter para com Deus e não sobre quem é e como é Deus.
Num mundo, onde os sacrifícios humanos eram comuns, o texto começa por referir o pedido de Deus a Abraão de sacrificar Isaac, o seu filho único que tanto ama. É a uma prova dramática que Deus submete Abraão. Na verdade, Isaac além de ser o filho único e amado de Abraão é também o herdeiro e a garantia das promessas de Deus a Abraão. Ao pedir a Abraão quer sacrifique o seu filho, Deus parece querer de volta o que concedeu a Abraão e parece desmentir todas as promessas quer fez a Abrão.
Nesta situação de completo absurdo onde Deus se parece contrariar, Abraão continua a ter para com Deus uma obediência incondicional e uma confiança total. Depois da sua resposta (“aqui estou”), que demonstra a sua disponibilidade total, Abrão num silêncio total apenas age. O silêncio e a prontidão de Abraão em pôr em prática o pedido do Senhor mostram que Abraão verdadeiramente teme e confia no Senhor. Abraão passou na prova a que o Senhor o submeteu. E escusado será dizer que Deus não permitiu que o filho de Abraão fosse sacrificado. A confiança total de Abraão, a sua obediência a Deus não é um caminho de morte mas de bênção e de recompensa. Na verdade, Deus promete a bênção a Abraão e à sua descendência, promete a Abraão que a sua descendência será numerosa como as areias da praia do mar. Assim sendo, a primeira leitura deste dia mostra-nos que seguir, com fé e confiança, os planos de Deus não é um caminho de morte mas de vida. A narração do sacrifício de Isaac declara-nos que devemos confiar sempre, mesmo que nos apareça absurdo, em Deus que nos ama. Deus deve ser a nossa opção fundamental, o valor mias importante na nossa vida.
No entanto, esta fé, esta confiança e obediência total, é difícil e muitas vezes nos encontramos desanimados e tristes porque os projetos que Deus nos propõem contrariam as nossas expectativas. Assim se encontravam, os discípulos de Jesus no início do evangelho de hoje. No capítulo anterior ao texto evangélico deste domingo, Jesus faz o primeiro anúncio da sua paixão e morte: “começou, depois, a ensinar-lhes que o Filho do Homem tinha de sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos doutores da Lei, e ser morto e ressuscitar depois de três dia” (Mc. 8,31). Além disto, Jesus também dizia abertamente à multidão: “se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc. 8,34). Podemos imaginar como estavam consternados aqueles discípulos que deixaram tudo para seguir Jesus depois de ouvirem da boca de Jesus aquele primeiro anúncio da paixão e as condições para o discipulado. Certamente, que o desânimo e a frustração invadiram o coração dos discípulos.
É neste contexto de desânimo, que o evangelista Marcos coloca o episódio da transfiguração que escutávamos no evangelho de hoje e que pretende ser uma chamada à esperança.
Mais que uma reportagem fotográfica dos fatos, o texto evangélico da transfiguração é uma catequese que está repleta de elementos simbólicos que aparecem no Antigo Testamento.
Começa o texto por dizer que Jesus foi com 3 dos seus discípulos para um lugar retirado. Assim sendo, a primeira lição que este texto nos dá é que quando nos sentimos desanimados e frustrados devemos parar um pouco, devamos retirar-nos a sós com Jesus. Diz-nos o texto que este lugar retirado era um alto monte. O monte é um elemento simbólico. Na verdade, é sempre no monte que Deus se revela. A transfiguração outra coisa não é do que uma teofania, ou seja, uma manifestação de Deus.
As vestes brancas e resplandecentes, Moisés e Elias, o temor e a perturbação e a nuvem também são elementos simbólicos. As vestes brancas e resplandecentes evocam-nos o resplendor de Moisés depois de se ter encontrado com Deus no Monte Sinai e evocam-nos o jovem vestido de branco que as mulheres virão no dia da ressurreição. Moisés e Elias, protótipos da lei e dos profetas, eram duas figuras que, segundo a mentalidade de então, deveriam aparecer no dia do Senhor. Além disto, a aparição destas duas personagens, no momento da transfiguração, também sugere-nos que em Jesus se cumpre a lei e os profetas. Por sua vez, o medo e a perturbação são a reação habitual ante a manifestação de Deus. A nuvem, símbolo da presença de Deus, evoca-nos aquela nuvem que guiava o povo pelo deserto em direção à terra prometida. A voz vinda da nuvem testemunha a filiação divina de Jesus e é um convite a seguirmos as palavras de Jesus, por mais incompreensíveis e duras que sejam.
Assim sendo e pela referência, no final do episódio, à ressurreição podemos considerar que o episódio da transfiguração pretende devolver a esperança e a confiança aos discípulos, dizer-lhes que a paixão e morte de Jesus na cruz não é o fim. Na verdade, no final do caminho de Jesus e dos seus discípulos não está a morte mas a ressurreição e a vida.
Ante esta manifestação de Deus, Pedro, ao contemplar a glória de Jesus, deseja deter-se no tempo: “Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e noutra para Elias”. Os discípulos queriam deter-se naquele momento de glória e não queriam palmilhar o caminho de Cruz que Jesus tinha anunciado para si e para os seus discípulos. Ante esta proposta, Jesus nada diz. Na verdade, Jesus sabe que tem de descer desse monte e caminhar em direção a Jerusalém onde dará a vida pela salvação do mundo. Algo parecido a isto, pode-nos acontecer algumas vezes no nosso caminho de fé. Ao sentirmo-nos tristes e desanimados procuramos o Senhor na oração e acontece que o Senhor, com o seu amor, nos conforta e dá ânimo. No entanto, a oração não nos pode adormecer e paralisar. Os momentos de oração e de contemplação são momentos para “recarregarmos baterias” e não para estacionarmos. A oração não nos deve impedir de atuar mas deve levar-nos a atuar com mais esperança.
Que a celebração deste II Domingo da Quaresma nos ajude, através da oração, momento de encontro com o Deus amor, a caminharmos sempre com fé, aquela fé que é obediência incondicional e obediência total, em direção à Páscoa do Senhor.
padre Nuno Ventura Martins

============================

Nenhum comentário:

Postar um comentário