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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 12 de março de 2015

Seremos salvos pela graça de Deus

4º DOMINGO QUARESMA

Evangelho - Jo 3,14-21


-O AMOR DE DEUS É QUE NOS SALVA-José Salviano


15 de Março de 2015
Ano A

A liturgia deste domingo nos mostra o amor e a compaixão de Deus para conoscoContinua

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SE NOS É OFERECIDO A LUZ, PORQUE VIVER NAS TREVAS? - Olívia Coutinho
4º DOMINGO DA QUARESMA

DIA 15 de Março de 2015

Evangelho - Jo 3,14-21

 Neste quarto domingo da quaresma, já podemos alargar um pouco mais os nossos passos, passar de uma percepção  ingênua, para uma visão lúcida da vontade de Deus, do que Ele quer de nós!
O nosso propósito de realizar a vontade de Deus, nos possibilitará viver o verdadeiro sentido da Páscoa! A nossa caminhada Quaresmal, nos leva a um aprofundamento maior  na fé, a contemplarmos o mistério do amor de Deus pela humanidade! Um amor que ultrapassou todos os limites, que não levou em conta as nossas ingratidões.
Aprendemos muito nesta nossa caminhada de preparação para a Páscoa do Senhor Jesus, mas ainda há muito que aprender, afinal, a responsabilidade de darmos continuidade  a missão de Jesus é muito grande!
No evangelho de hoje, Jesus,   num diálogo com Nicodemos,  prenuncia  a sua morte: "Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, é preciso que o Filho do homem seja levantado para que todos os que Nele crerem tenham a vida eterna.” Com estas palavras, Jesus fala da sua crucificação, da entrega total de sua vida  pelo resgate da humanidade!
Naquele momento, no  horizonte próximo de Jesus, estava apenas à cruz! Jesus estava ciente de que Ele  seria levantado na cruz, por aqueles que não quiseram reconhecê-lo como o Filho de Deus,  mas Ele estava  ciente também, de que na cruz, seria manifestada a sua glória!
O texto nos fala da grandiosidade do amor de Deus, nos trazendo a certeza  de que a  realização plena do homem é a  sua prioridade!  Ele provou isto, investindo alto no resgate  deste bem que lhe é precioso, permitindo  que o seu  Filho pagasse com a vida  o preço da nossa liberdade.
O caminho da nossa salvação passa pela a cruz,  foi pela cruz que Jesus abriu definitivamente as portas do céu para nós!
A cruz é  a expressão suprema do amor de Deus, de um Deus que veio ao nosso encontro na pessoa de Jesus! A cruz nos faz lembrar  o martírio de Jesus, mas a mensagem mais forte que Ela  nos traz, é a vitória da vida  sobre a morte, a passagem das trevas para luz!
As palavras do evangelho, provoca-nos  a uma tomada de posição: Estar com Jesus, ainda que seja na cruz, em favor da vida, ou estar longe Dele  nas trevas, em favor da morte! Podemos escolher em dar a Jesus  uma resposta de fé, ou  de descrença.  A  fé e descrença já contêm o juízo de Deus: salvação, ou condenação.  A condenação, não vem de Deus, nós é que nos condenamos quando não acolhemos e não colocamos a verdade de Deus no nosso existir.
 É Jesus quem nos diz: ”Quem crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado”... Quem não crê, já está condenado porque não realizará  a vontade de Deus. 
Crer em Jesus é continuar a sua presença atuante aqui na terra, não crer, é não assumir o seu projeto de vida,  é rejeitar a luz.
Sejamos  luz no mundo, ainda  que para isso, tenhamos que correr grandes riscos, afinal, o  pior de todos risco, é não aceitar o desafio de ser luz, o que pode nos condenar a pior de todas as trevas: estar longe de Jesus!
A luz esteve presente no mundo e o mundo a rejeitou, mas Deus não desiste de sua criação, no seu infinito amor, Ele permitiu que o seu Filho morresse por nós!
À sombra, dá lugar a luz, quando nos aproximamos de Deus! Estar longe de Deus, é estar nas trevas!
Aproveitemos pois, este tempo que nos separa da grande Festa do amor, para revisar o quanto há de luz e  sombras  em nossa vida! Ainda há tempo de abandonarmos   tudo que nos distancia da Luz!
O amor de Deus abre caminhos, é a  extensão do céu aqui na terra! 

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

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“Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações” (Is. 66,10s).
Estas palavras de Isaías dão o tom da liturgia deste domingo, chamado pela liturgia de domingo Laetare – domingo “Alegra-te!” No meio da Quaresma, na metade do caminho para a a celebração da Ressurreição do Senhor, a Igreja nos convida à alegria pela aproximação da Santa Páscoa. Daí hoje a cor rosa e as flores na igreja. “Alegra-te, Jerusalém!” – Jerusalém é a Igreja,é o Povo santo de Deus, o novo Israel, é cada um de nós... Alegremo-nos, apesar das tristezas da vida, apesar da consciência dos nossos pecados! Alegremo-nos, porque a misericórdia do Senhor é maior que nossa miséria humana!
Como o povo da Antiga Aliança, também nós tantas vezes somos infiéis – já devíamos ter visto isso claramente a essa altura da Quaresma! É trágico, na primeira leitura, o resumo que o livro das Crônicas traçou da história de Israel: “Todos os chefes dos sacerdotes e o povo multiplicaram suas infidelidades, imitando as práticas abomináveis das nações pagãs. O Senhor Deus dirigia-lhes a palavra por meio de seus mensageiros, porque tinha compaixão do seu povo. Mas, eles zombavam dos enviados de Deus, até que o furor do Senhor se levantou contra o seu povo e não teve mais jeito”. Com estas palavras dramáticas, o Autor sagrado nos explica o motivo do terrível e doloroso exílio da Babilônia: Israel fez pouco de Deus, virou-lhe as costas; por isso mesmo, foi expulso do aconchego do Senhor na Terra que lhe fora prometida, perdeu a liberdade, o Templo, a Cidade Santa, e tornou-se escravo no Exílio de Babilônia. Aqui aparece toda a gravidade do pecado, que provoca a ira de Deus! É sempre essa a conseqüência do pecado: o exílio do coração, a escravidão da vida! A Escritura nos ensina, caríssimos, que Deus nunca faz pouco do nosso pecado, nunca passa a mão na nossa cabeça, jamais faz de conta que não pecamos! Jamais despensa de modo leviano as nossas infidelidades! E por quê? Porque realmente nos ama, nos leva a sério, faz conta de nós! Ora, o pecado, afastando-nos de Deus, nos desfigura e nos faz perder o rumo e o sentido da existência. Por isso mesmo, causa a ira de Deus! Pois bem, o Senhor levou, então, seu povo para o terrível deserto do Exílio para corrigi-lo e fazê-lo voltar de todo o coração para Aquele que é seu único bem, sua verdadeira riqueza – aquele que é o seu Deus! É por misericórdia que ele corrige Israel, por misericórdia que nos corrige: “Pois o Senhor não rejeita para sempre: se ele aflige, ele se compadece, segundo sua grande bondade. Pois não é de bom grado que ele humilha e que aflige os filhos do homem” (Lm. 3,31-33). Deus é amor e misericórdia. A leitura do Livro das Crônicas nos mostrou que, uma vez Israel convertido, corrigido, o Senhor fá-lo voltar para a Terra sempre prometida. Sim, efetivamente, “não é de bom grado que ele humilha e que aflige os filhos do homem”.
Esta mesma idéia que tantas vezes aparece no Antigo Testamento, cumpre-se de modo definitivo em Cristo Jesus. Hoje, o Senhor, com palavras comoventes, explica a Nicodemos a sua missão: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho unigênito, para que não morra todo aquele que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”. Porque “estávamos mortos por causa de nossos pecados”, Deus, na sua imensa misericórdia, nos deu a vida no seu Filho único. Vede: há duas realidades que são bem concretas na nossa existência. Primeiro, a realidade do nosso pecado. Nesta metade de caminho quaresmal, é preciso que tenhamos a coragem de reconhecer que somos pecadores, que temos profundas quebraduras interiores, paixões desordenadas, desejos desencontrados que combatem em nós...
Quantas incoerências, quantos fechamentos para Deus e para os outros, quantas resistências à graça, quantas máscaras! A humanidade é isso! Não somos bonzinhos! Somos todos feridos, todos doentes, todos pecadores, todos necessitados da salvação! Mas, ao lado dessa realidade tão triste, há uma outra: Deus não se cansa de nós; estende-nos a mão para nos tirar do nosso atoleiro e nos salvar! Essa mão estendida é o seu Filho Jesus! Deus amou tanto o mundo, levou-nos tão a sério, que entregou o seu Filho, o Amado, o Único, o Santo! Grande o nosso pecado, imensa a misericórdia de Deus em Cristo; grande a nossa treva, imensa a Luz de Deus que nela brilhou em Cristo; grande o nosso egoísmo; imenso o amor de Deus manifestado em Cristo; grande a nossa morte; imensa a Vida que nos foi dada em Cristo Jesus, nosso Senhor!
A grande tentação de nossa época é fazer pouco de Deus e, cinicamente, mascarar nosso pecado. Quantos cristãos adulteram, roubam, fornicam, abortam, negligenciam seus deveres para com Deus e com a Igreja, desobedecem aos mandamentos, e não estão nem aí. É um espírito de descrença, de falta de atenção e delicadeza para com o Senhor. Vemos isso em tanta gente de Igreja... Aqueles que nos corrigem são chamados logo de reacionários, fechados, sem misericórdia, duros, insensíveis para o mundo atual... E no entanto, a Palavra do Senhor é clara: é necessário que fixemos o olhar em Cristo que se entregou por nós e reconheçamos a gravidade e a concretude do nosso pecado! Volta, Israel! Volta, Igreja de Cristo! Volta, povo do Senhor! Voltemos! Em Cristo Jesus, nosso Salvador, “Deus quis mostrar a incomparável riqueza da sua graça!” Não brinquemos com o amor de Deus, não recebamos em vão a sua correção!
Recordemos que hoje, no Evangelho, após mostrar o imenso amor de Deus pelo mundo, a ponto de entregar o Filho amado, Jesus nos previne duramente: Quem nele crê, não é condenado, mas, quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito”. Ora, caríssimos, acreditar no nome de Jesus não é aderir a uma teoria, mas levá-lo a sério na vida pelo esforço contínuo de conversão à sua Pessoa divina e à sua Palavra santa!
Crede não com palavras vãs! Crede com o afeto, crede com o coração, crede com os lábios, mas, sobretudo, crede com as mãos, com os vossos atos, com a prática da vossa vida! De verdade creremos na medida em que de verdade nos abrirmos para a sua luz; pois “o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz”.
Que o Senhor nos dê a graça de ver realisticamente nossos pecados, reconhecê-los humildemente e confessá-los sinceramente, para celebrarmos verdadeiramente a Páscoa que se aproxima e dela participar eternamente na glória do céu.
dom Henrique Soares da Costa
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A liturgia do 4º domingo da Quaresma garante-nos que Deus nos oferece, de forma totalmente gratuita e incondicional, a vida eterna.
A primeira leitura diz-nos que, quando o homem prescinde de Deus e escolhe caminhos de egoísmo e de auto-suficiência, está a construir um futuro marcado por horizontes de dor e de morte. No entanto, diz o autor do livro das Crônicas, Deus dá sempre ao seu Povo outra possibilidade de recomeçar, de refazer o caminho da esperança e da vida nova.
A segunda leitura ensina que Deus ama o homem com um amor total, incondicional, desmedido; é esse amor que levanta o homem da sua condição de finitude e debilidade e que lhe oferece esse mundo novo de vida plena e de felicidade sem fim que está no horizonte final da nossa existência.
No Evangelho, João recorda-nos que Deus nos amou de tal forma que enviou o seu Filho único ao nosso encontro para nos oferecer a vida eterna. Somos convidados a olhar para Jesus, a aprender com Ele a lição do amor total, a percorrer com Ele o caminho da entrega e do dom da vida. É esse o caminho da salvação, da vida plena e definitiva.
1ª leitura – 2Cr. 36,14-16.19-23 – AMBIENTE
O livro das Crônicas é uma obra de um autor anônimo, que pretende oferecer a história de Israel, desde a criação do mundo, até à época do Exílio. A tradição judaica atribui a obra a Esdras; mas tal hipótese não é provável. O livro faz parte de um bloco com alguma unidade (em conjunto com os livros de Esdras e de Neemias) que se costuma designar como “Obra do cronista”.
Os investigadores e comentadores do livro das Crônicas propõem várias hipóteses para a datação da obra (as diversas propostas apontam para datas entre 515 a.C. e 250 a.C.). Recentemente, alguns autores falam de um processo em várias etapas… À volta de 515 a.C. poderia ter aparecido uma primeira edição da obra, com a finalidade de legitimar o culto no “segundo Templo” (isto é, no Templo reconstruído pelos judeus regressados do Exílio na Babilônia); entre 400 e 375 a.C., poderia ter aparecido uma segunda edição, destinada a sublinhar a autoridade de Esdras como legislador e intérprete da Torah; entre 350 e 300 a.C., poderia ter aparecido uma terceira edição, destinada a animar, a fortalecer e a consolidar a comunidade judaica frente à hostilidade dos vizinhos, particularmente dos samaritanos.
O texto que nos é proposto aparece na parte final do segundo volume do Livro das Crônicas. Neste texto, o Cronista refere dois fatos históricos separados por quase 50 anos: a queda de Jerusalém nas mãos de Nabucodonosor (586 a.C.) e a autorização dada pelo rei persa Ciro para o regresso dos exilados a Jerusalém, após a queda da Babilônia (538 a.C.). Pelo meio, o Povo de Deus conheceu a dramática experiência do Exílio na Babilônia.
Contudo, o autor está muito mais interessado em dar-nos uma interpretação teológica dos fatos do que em oferecer-nos uma descrição pormenorizada dos acontecimentos históricos. Não é um historiador ou um analista político a falar, mas sim um crente preocupado em ler a história à luz da fé e em tirar daí as conclusões que se impõem.
MENSAGEM
A destruição de Jerusalém, o incêndio do Templo e a deportação do Povo de Deus para a Babilônia são vistas pelo Cronista como o resultado lógico dos pecados da nação. “Os chefes de Judá, os sacerdotes e o Povo multiplicaram as suas infidelidades” (v. 14); ignoraram os avisos enviados por Deus por intermédio dos profetas e desdenharam os seus apelos… Então, a ira do Senhor abateu-se sem remédio sobre o seu Povo (vs. 15-16). O próprio tempo que o Exílio durou (e que o autor situa num número não muito exato mas simbólico de 70 anos – isto é, de dez vezes sete) é visto como um grande jubileu forçado por Deus, um tempo de compensação por todos esses sábados (sétimos dias) que o Povo não respeitou e nos quais não cumpriu as suas obrigações para com Jahwéh. A “terra de Deus”, martirizada pela injustiça e pelo pecado, deve descansar durante setenta anos, até que seja renovada e volte a ser de novo a “casa” do Povo de Deus (v. 21).
Por detrás desta leitura da história, está uma noção um tanto ou quanto primitiva da justiça de Deus: quando o Povo vive na fidelidade à Aliança e aos mandamentos, Deus oferece-lhe vida e felicidade; quando o Povo é infiel aos compromissos assumidos, conhece morte e desgraça.
De qualquer forma, o Cronista está consciente de que o castigo não é a última palavra de Deus. Os últimos versículos (vs. 22-23 – que são uma versão resumida de Esd. 1,1-4) apontam no sentido da esperança e de um recomeço. Por detrás da referência à libertação operada por Ciro e ao édito que autoriza os habitantes de Judá a regressar à sua terra, está a ideia de um Deus que não abandona o seu Povo e que continua a dar-lhe, em cada momento da história, a possibilidade de recomeçar.
ATUALIZAÇÃO
• A teologia da retribuição apresentada pelo Cronista (a fidelidade a Deus é recompensada com vida e bênção; a infidelidade é castigada com sofrimento e desgraça) tem, evidentemente, as suas limitações e os seus perigos. Levada às últimas consequências, pode sugerir que Deus é apenas um comerciante preocupado em fazer a contabilidade dos débitos e dos créditos do homem, incapaz de amor e de misericórdia. O Evangelho deste domingo virá, precisamente, demonstrar os limites desta perspectiva e apresentar um Deus que, embora abominando o pecado, ama o homem para além de toda a medida e está sempre disposto a oferecer-lhe a vida e a salvação.
• Embora usando elementos teológicos e formas de expressão típicas de uma época, o Cronista recorda-nos, no entanto, algo que é indesmentível: quando o homem prescinde de Deus e escolhe caminhos de egoísmo e de auto-suficiência, está a construir um futuro marcado por horizontes de dor e de morte. Na verdade, a nossa experiência de todos os dias mostra como a indiferença do homem face a Deus e às suas propostas gera violência, opressão, exploração, exclusão, sofrimento. Na leitura que o Cronista faz da história do seu Povo, há um convite claro a escutar Deus e a pautar as opções que fazemos pelas propostas de Deus.
• A perspectiva de que a libertação do cativeiro é comandada por Deus e de que Deus oferece ao seu Povo a oportunidade de um novo começo, aponta no sentido da esperança. Cá está: o Deus que nos é proposto é um Deus que abomina o pecado, mas que dá sempre aos seus filhos a oportunidade de recomeçar, de refazer tudo, de refazer o caminho da esperança e da vida nova. Neste tempo de Quaresma, este texto abre-nos horizontes de esperança e convida-nos a embarcar na apaixonante aventura da vida nova.
2ª leitura – Ef. 2,4-10 - AMBIENTE
A cidade de Éfeso estava situada na costa ocidental da Ásia Menor. Era uma cidade grande e próspera, capital da Província Romana da Ásia. O seu porto de mar ligava o interior da Ásia Menor com todas as cidades do Mediterrâneo.
Quando Paulo chegou a Éfeso (cf. At. 19,1), durante a sua terceira viagem missionária, encontrou alguns cristãos escassamente preparados. Paulo instruiu-os e formou com eles uma comunidade cristã. De acordo com o Livro dos Atos dos Apóstolos, Paulo permaneceu na cidade durante um longo período (mais de dois anos, segundo At. 19,10), ensinando na sinagoga e, depois, na “escola de Tirano” (At. 19,9). Assim, reuniu à sua volta um número considerável de pessoas convertidas ao “Caminho” (At. 19,9.23). Ainda de acordo com Lucas, foi aos anciãos da Igreja de Éfeso que Paulo confiou, em Mileto (cf. At. 20,17-38), o seu testamento espiritual, apostólico e pastoral, antes de ir a Jerusalém, onde acabaria por ser preso. Tudo isto faz supor uma relação muito estreita entre Paulo e a comunidade cristã de Éfeso. Curiosamente, a carta aos Efésios é bastante impessoal e não reflete essa relação. Alguns dos comentadores dos textos paulinos duvidam, por isso, que esta carta venha de Paulo. Outros, porém, acreditam que o texto que chegou até nós com o nome de “Carta aos Efésios” é um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias igrejas da Ásia Menor – inclusive à comunidade cristã de Éfeso.
Em qualquer caso, a Carta aos Efésios apresenta-se como uma carta escrita por Paulo, numa altura em que o apóstolo está na prisão (em Roma?). O seu portador teria sido um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60. Trata-se de um texto com uma grande riqueza temática, de uma reflexão amadurecida e completa onde o autor apresenta uma espécie de síntese da teologia paulina.
O texto que nos é proposto integra a parte dogmática da carta (cf. Ef. 1,3-3,21). Mais concretamente, o texto apresenta-nos uma reflexão sobre o papel de Cristo na salvação do homem. O ponto de partida do autor da Carta aos Efésios é a constatação da situação de pecado em que o homem vive e da qual, por si só, não pode sair. O homem estará, portanto, condenado à escravidão do pecado e à morte?
MENSAGEM
Deus é rico em misericórdia e ama o homem com um amor imenso. Por isso, à situação pecadora do homem, Deus responde com a sua graça (v. 4). O amor salvador e libertador de Deus não é um amor condicional, que só se derrama sobre o homem se e quando o homem se converte; mas é um amor incondicional, que atinge o homem mesmo quando ele continua a percorrer caminhos de pecado e de morte (v. 5).
A esse homem orgulhoso e auto-suficiente, instalado no egoísmo e no pecado, Deus ofereceu uma nova vida, ressuscitando-o e sentando-o com Cristo no céu (“nos ressuscitou e nos fez sentar no céu com Cristo Jesus” – v. 6). Repare-se neste pormenor: o autor da Carta aos Efésios não se refere à ressurreição do homem e à sua glorificação como uma coisa futura, mas como uma coisa passada (ele usa o tempo grego do aoristo, que tem significado de passado). No entanto, essa ação passada afeta o presente e tem implicações no presente… Unido a Cristo, o cristão já ressuscitou e já foi glorificado; ele continua a viver na terra, sujeito à finitude e às limitações da vida presente mas é já, aqui e agora, um cidadão do céu. Na verdade, Deus já introduziu na débil e frágil natureza humana os dinamismos da vida eterna. A vida do cristão está, consequentemente, marcada pela dupla condição da fragilidade e da eternidade. Apesar dos seus limites e da sua debilidade, o cristão tem de testemunhar e anunciar essa vida nova que Deus já lhe ofereceu nesta terra.
Em toda esta exposição há um elemento incontornável e ao qual o autor da Carta aos Efésios dá uma grande importância: a gratuidade da ação salvadora de Deus. A salvação não é uma conquista do homem, nem resulta das obras ou dos méritos do homem, mas é puro dom de Deus. Portanto, não há aqui lugar para qualquer sentimento de orgulho ou para qualquer atitude de auto-glorificação. A salvação é uma oferta gratuita que Deus faz ao homem, mesmo que o homem não a mereça (v. 9).
Da oferta de salvação que Deus faz ao homem, nasce um homem novo, que pratica boas obras. As boas obras não são a condição para se receber a salvação, mas o resultado da ação dessa graça que Deus, no seu amor e na sua bondade, derrama gratuitamente sobre o homem (v. 10).
ATUALIZAÇÃO
• A vida do homem sobre a terra está marcada pela debilidade, pela finitude, pelas limitações inerentes à nossa condição humana. A doença, o sofrimento, o egoísmo, o pecado são realidades que acompanham a nossa existência, que nos mantêm prisioneiros e que nos roubam a esperança. Parece que, por nós próprios, nunca conseguiremos superar os nossos limites e alcançar essa realidade de vida plena, de felicidade total com que permanentemente sonhamos. Por isso, certos filósofos contemporâneos referem-se à futilidade da existência, à náusea que acompanha a vida do homem, à inutilidade da busca da felicidade, ao fracasso que é a vida condenada à morte… Este quadro seria desesperante se não existisse o amor de Deus. É precisamente isso que o autor da Carta aos Efésios nos recorda: Deus ama-nos com um amor total, incondicional, desmedido; e é esse amor que nos levanta da nossa condição, que nos faz vencer os nossos limites, que nos oferece esse mundo novo de vida plena e de felicidade sem fim a que aspiramos. Não somos pobres criaturas derrotadas, condenadas ao fracasso, limitadas por um horizonte sem sentido, mas somos filhos amados a quem Deus oferece a vida plena, a salvação.
• Na verdade, Deus introduziu na nossa realidade humana dinamismos de superação e de vida nova que apontam para o homem novo, livre das limitações, da debilidade e da fragilidade. Aqueles homens e mulheres que acolheram o dom de Deus são chamados a dar testemunho de um mundo novo, livre do sofrimento, da injustiça, do egoísmo, do pecado. Por isso, os crentes têm de anunciar e de construir um mundo mais justo, mais fraterno, mais humano. Eles são testemunhas, nesta terra, de uma realidade nova de felicidade sem fim e de vida eterna.
• Muitas vezes, a vida nova de Deus manifesta-se nas nossas palavras, nos nossos gestos de partilha e de serviço, nas nossas atitudes de tolerância e de perdão e somos sinais de esperança e de libertação para os irmãos que nos rodeiam. Convém, no entanto, não esquecer este facto essencial: o mérito não é nosso, mas sim de Deus. É Deus que age no mundo, que o transforma, que o recria; nós somos, apenas, os instrumentos frágeis através dos quais Deus manifesta ao mundo e aos homens o seu amor.
Evangelho: Jo 3,14-21 - AMBIENTE
O nosso texto pertence à secção introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Nessa secção, o autor apresenta Jesus e procura – através dos contributos dos diversos personagens que vão sucessivamente ocupando o centro do palco e declamando o seu texto – dizer quem é Jesus.
Mais concretamente, o trecho que nos é proposto faz parte da conversa entre Jesus e um “chefe dos judeus” chamado Nicodemos (cf. Jo 3,1). Nicodemos foi visitar Jesus “de noite” (cf. Jo 3,2), o que parece indicar que não se queria comprometer e arriscar a posição destacada de que gozava na estrutura religiosa judaica. Membro do Sinédrio, Nicodemos aparecerá, mais tarde, a defender Jesus, perante os chefes dos fariseus (cf. Jo 7,48-52). Também estará presente na altura em que Jesus foi descido da cruz e colocado no túmulo (cf. Jo 19,39).
A conversa entre Jesus e Nicodemos apresenta três etapas ou fases. Na primeira (cf. Jo 3,1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus, graças às suas obras; mas Jesus acrescenta que isso não é suficiente: o essencial é reconhecer Jesus como o enviado do Pai. Na segunda (cf. Jo 3,4-8), Jesus anuncia a Nicodemos que, para entender a sua proposta, é preciso “nascer de Deus” e explica-lhe que esse novo nascimento é o nascimento “da água e do Espírito”. Na terceira (cf. Jo 3,9-21), Jesus descreve a Nicodemos o projeto de salvação de Deus: é uma iniciativa do Pai, tornada presente no mundo e na vida dos homens através do Filho e que se concretizará pela cruz/exaltação de Jesus. O nosso texto pertence a esta terceira parte.
MENSAGEM
No texto que nos é proposto, Jesus começa por explicar a Nicodemos que o Messias tem de “ser levantado ao alto”, como “Moisés levantou a serpente” no deserto (a referência evoca o episódio da caminhada pelo deserto quando os hebreus, mordidos pelas serpentes, olhavam uma serpente de bronze levantada num estandarte por Moisés e se curavam – cf. Nm. 21,8-9). A imagem do “levantamento” de Jesus refere-se, naturalmente, à cruz – passo necessário para chegar à exaltação, à vida definitiva. É aí que Jesus manifesta o seu amor e que indica aos homens o caminho que eles devem percorrer para alcançar a salvação, a vida plena (v. 14).
Aos homens é sugerido que acreditem no “Filho do Homem” levantado na cruz, para que não pereçam mas tenham a vida eterna. “Acreditar” no “Filho do Homem” significa aderir a Ele e à sua proposta de vida; significa aprender a lição do amor e fazer, como Jesus, dom total da própria vida a Deus e aos irmãos (v. 15). É dessa forma que se chega à “vida eterna”.
Depois destas afirmações gerais, o autor do Quarto Evangelho vai entrar em afirmações mais detalhadas. O que é que significa, exatamente, a cruz de Jesus? Como é que a cruz gera vida definitiva para o homem?
Jesus, o “Filho único” enviado pelo Pai ao encontro dos homens para lhes trazer a vida definitiva, é o grande dom do amor de Deus à humanidade. A expressão “Filho único” evoca, provavelmente, o “sacrifício de Isaac” (cf. Gn. 22,16): Deus comporta-se como Abraão, que foi capaz de desprender-se do próprio filho por amor (no caso de Abraão, amor a Deus; no caso de Deus, amor aos homens)… Jesus, o “Filho único” de Deus, veio ao mundo para cumprir os planos do Pai em favor dos homens. Para isso, encarnou na nossa história humana, correu o risco de assumir a nossa fragilidade, partilhou a nossa humanidade; e, como consequência de uma vida gasta a lutar contra as forças das trevas e da morte que escravizam os homens, foi preso, torturado e morto numa cruz. A cruz é o último ato de uma vida vivida no amor, na doação, na entrega. A cruz é, portanto, a expressão suprema do amor de Deus pelos homens. Ela dá-nos a dimensão do incomensurável amor de Deus por essa humanidade a quem Ele quer oferecer a salvação (v. 16).
Qual é o objetivo de Deus ao enviar o seu Filho único ao encontro dos homens? É libertá-los do egoísmo, da escravidão, da alienação, da morte, e dar-lhes a vida eterna. Com Jesus – o “Filho único” que morreu na cruz – os homens aprendem que a vida definitiva está na obediência aos planos do Pai e no dom da vida aos irmãos, por amor.
Ao enviar ao mundo o seu “Filho único”, Deus não tinha uma intenção negativa, mas uma intenção positiva. O Messias não veio com uma missão judicial, nem veio excluir ninguém da salvação. Pelo contrário, Ele veio oferecer aos homens – a todos os homens – a vida definitiva, ensinando-os a amar sem medida e dando-lhes o Espírito que os transforma em Homens Novos (v. 17).
Reparemos neste fato notável: Deus não enviou o seu Filho único ao encontro de homens perfeitos e santos; mas enviou o seu Filho único ao encontro de homens pecadores, egoístas, auto-suficientes, a fim de lhes apresentar uma nova proposta de vida… E foi o amor de Jesus – bem como o Espírito que Jesus deixou – que transformou esses homens egoístas, orgulhosos, auto-suficientes e os inseriu numa dinâmica de vida nova e plena.
Diante da oferta de salvação que Deus faz, o homem tem de fazer a sua escolha. Quando o homem aceita a proposta de Jesus e adere a Ele, escolhe a vida definitiva; mas quando o homem prefere continuar escravo de esquemas de egoísmo e de auto-suficiência, rejeita a proposta de Deus e auto-exclui-se da salvação. A salvação ou a condenação não são, nesta perspectiva, um prêmio ou um castigo que Deus dá ao homem pelo seu bom ou mau comportamento; mas são o resultado da escolha livre do homem, face à oferta incondicional de salvação que Deus lhe faz. A responsabilidade pela vida definitiva ou pela morte eterna não recai, assim, sobre Deus, mas sobre o homem (v. 18).
De acordo com a perspectiva de João, também não existe um julgamento futuro, no final dos tempos, no qual Deus pesa na sua balança os pecados dos homens, para ver se os há-de salvar ou condenar: o juízo realiza-se aqui e agora e depende da atitude que o homem assume diante da proposta de Jesus.
Na parte final do nosso texto (vs. 19-21), João repete o tema da opção pela vida (Jesus) ou pela morte. Ele constata que, por vezes, os homens rejeitam a proposta de Deus e preferem a escravidão e as trevas (o egoísmo, a injustiça, o orgulho, a auto-suficiência, tudo o que torna o homem infeliz e lhe impede o acesso à vida definitiva). Ao contrário, quem pratica as obras do amor (as obras de Jesus), escolhe a luz, identifica-se com Deus e dá testemunho de Deus no meio do mundo.
Em resumo: porque amava a humanidade, Deus enviou o seu Filho único ao mundo com uma proposta de salvação. Essa oferta nunca foi retirada; continua aberta e à espera de resposta. Diante da oferta de Deus, o homem pode escolher a vida eterna, ou pode excluir-se da salvação.
ATUALIZAÇÃO
• João é o evangelista abismado na contemplação do amor de um Deus que não hesitou em enviar ao mundo o seu Filho, o seu único Filho, para apresentar aos homens uma proposta de felicidade plena, de vida definitiva; e Jesus, o Filho, cumprindo o mandato do Pai, fez da sua vida um dom, até à morte na cruz, para mostrar aos homens o “caminho” da vida eterna… O Evangelho deste domingo convida-nos a contemplar, com João, esta incrível história de amor e a espantar-nos com o peso que nós – seres limitados e finitos, pequenos grãos de pó na imensidão das galáxias – adquirimos nos esquemas, nos projetos e no coração de Deus.
• O amor de Deus traduz-se na oferta ao homem de vida plena e definitiva. É uma oferta gratuita, incondicional, absoluta, válida para sempre e que não discrimina ninguém. Aos homens – dotados de liberdade e de capacidade de opção – compete decidir se aceitam ou se rejeitam o dom de Deus. Às vezes, os homens acusam Deus pelas guerras, pelas injustiças, pelas arbitrariedades que trazem sofrimento e morte que pintam as paredes do mundo com a cor do desespero… O nosso texto, contudo, é claro: Deus ama o homem e oferece-lhe a vida. O sofrimento e a morte não vêm de Deus, mas são o resultado das escolhas erradas feitas pelo homem que se obstina na auto-suficiência e que prescinde dos dons de Deus.
• Neste texto, João define claramente o caminho que todo o homem deve seguir para chegar à vida eterna: trata-se de “acreditar” em Jesus. “Acreditar” em Jesus não é uma mera adesão intelectual ou teórica a certas verdades da fé; mas é escutar Jesus, acolher a sua mensagem e os seus valores, segui-l’O nesse caminho do amor e da entrega ao Pai e aos irmãos. Passa pelo ser capaz de ultrapassar a indiferença, o comodismo, os projetos pessoais e pelo empenho em concretizar, no dia a dia da vida, os apelos e os desafios de Deus; passa por despir o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, os preconceitos, para realizar gestos concretos de dom, de entrega, de serviço que tragam alegria, vida e esperança aos irmãos que caminham lado a lado conosco. Neste tempo de caminhada para a Páscoa, somos convidados a converter-nos a Jesus e a percorrer o mesmo caminho de amor total que Ele percorreu.
• Alguns cristãos vivem obcecados e assustados com esse momento final em que Deus vai julgar o homem, depois de pesar na balança as suas ações boas e as suas acções más… João garante-nos que Deus não é um contabilista, a somar os débitos e os créditos do homem para lhes pagar em conformidade… O cristão não vive no medo, pois ele sabe que Deus é esse Pai cheio de amor que oferece a todos os seus filhos a vida eterna. Não é Deus que nos condena; somos nós que escolhemos entre a vida eterna que Deus nos oferece ou a eterna infelicidade.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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A alegria da cruz
I. Regozija-te, Jerusalém; e alegrai-vos com ela, vós que a amais; regozijai-vos com a sua alegria..., rezamos na antífona de entrada da missa: Laetare, Ierusalem... (1)
A alegria é uma característica essencial do cristão, e a Igreja não deixa de no-la recordar neste tempo litúrgico, para que não esqueçamos que ela deve estar presente em todos os momentos da nossa vida.
Existe uma alegria que sobressai na esperança do Advento, outra viva e radiante no tempo de Natal; mais tarde, a alegria de estar com Cristo ressuscitado; e hoje, já avançada a Quaresma, meditamos na alegria da Cruz. É sempre o mesmo júbilo de estar com Cristo: “Somente dEle é que cada um de nós pode dizer com plena verdade, juntamente com São Paulo: Amou-me e entregou-se por mim (Gl. 2,20). Daí deve partir a vossa alegria mais profunda, daí deve advir também a vossa força e o vosso ponto de apoio. Se, por desgraça, deveis encontrar amarguras, padecer sofrimentos, experimentar incompreensões e até cair em pecado, que o vosso pensamento se dirija rapidamente para Aquele que vos ama sempre e que, com o seu amor ilimitado, faz vencer todas as provas, preenche todos os nossos vazios, perdoa todos os nossos pecados e nos impele com entusiasmo para um caminho novamente seguro e alegre” (2).
Este domingo é tradicionalmente conhecido por domingo “Laetare”, em vista da primeira palavra do Intróito da Missa. Interrompe-se a severidade da liturgia quaresmal, que é substituída pela alegria. Hoje permite-se que os paramentos do sacerdote – se se dispõe deles – sejam de cor rosa ao invés de roxos (3), e que se enfeite o altar com flores, coisa que não se faz nos outros dias da Quaresma (4).
A Igreja quer recordar-nos assim que a alegria é perfeitamente compatível com a mortificação e a dor. O que se opõe à alegria é a tristeza, não a penitência. Vivendo com profundidade este tempo litúrgico que conduz à Paixão – e portanto à dor –, compreendemos que aproximar-se da Cruz significa também aproximar-se do momento da Redenção, e por isso a Igreja e cada um dos seus filhos se enchem de alegria: Laetare: Rogozija-te, Jerusalém, e alegrai-vos com ela, vós que a amais.
A mortificação que procuramos viver nestes dias não deve ensombrar a nossa alegria interior, mas, pelo contrário, deve fazê-la crescer, porque está prestes a realizar-se essa sobreabundância de amor pelos homens que é a Paixão, e é iminente o júbilo da Páscoa. Por isso queremos estar muito unidos ao Senhor, para que também na nossa vida se repita o mesmo processo da sua: chegarmos, pela sua Paixão e Cruz, à glória e à alegria da sua Ressurreição.
II. Alegrai-vos sempre no Senhor; digo-vos mais uma vez: alegrai-vos (5). Devemos alegrar-nos com uma alegria que há de ser sinônimo de júbilo interior, de felicidade, e que logicamente se manifestará também exteriormente.
“Como se sabe – diz Paulo VI –, existem diversos graus de «felicidade». A sua expressão mais elevada é a alegria ou «felicidade» no sentido estrito da palavra, quando o homem, no nível das suas faculdades superiores, encontra a sua satisfação na posse de um bem conhecido e amado [...]. Com muito mais razão chega ele a conhecer a alegria e a felicidade espiritual quando o seu espírito entra na posse de Deus, conhecido e amado como bem supremo e imutável” (6). E o papa continua: “A sociedade técnica conseguiu multiplicar as ocasiões de prazer, mas é-lhe muito difícil engendrar a alegria, pois a alegria provém de outra fonte: é espiritual. Muitas vezes, não faltam, com efeito, o dinheiro, o conforto, a higiene e a segurança material; apesar disso, o tédio, o mau humor e a tristeza continuam infelizmente a ser a sorte de muitos” (7).
O cristão entende perfeitamente estas idéias expressas pelo Sumo Pontífice. E sabe que a alegria surge de um coração que se sente amado por Deus e que, por sua vez, ama com loucura o Senhor; de um coração que, além disso, se esforça por traduzir esse amor em obras, porque sabe – com o ditado castelhano – que “obras é que são amores, não as boas razões”.
Os sofrimentos e as tribulações acompanham todos os homens na terra, mas o sofrimento, por si só, não transforma nem purifica; pode até causar revolta e ódio. Alguns cristãos separam-se do Mestre quando chegam até a cruz, porque esperavam uma felicidade puramente humana, que estivesse isenta de dor e acompanhada de bens naturais.
Para o amarmos com obras, o Senhor pede-nos que percamos o medo à dor, às tribulações, e o procuremos onde Ele nos espera: na Cruz. A nossa alma ficará então mais purificada e o nosso amor mais forte. Então compreenderemos que a alegria está muito perto da cruz. Mais ainda: que nunca seremos felizes se não amarmos o sacrifício.
Essas tribulações que, à luz exclusiva da razão, nos parecem injustas e sem sentido, são necessárias para a nossa santidade pessoal e para a salvação de muitas almas. No mistério da corredenção, a nossa dor, unida aos sofrimentos de Cristo, adquire um valor incomparável para toda a Igreja e para toda a humanidade. O Senhor faz-nos ver que tudo – mesmo aquilo que não tem muita explicação humana – concorre para o bem daqueles que o amam (8). A dor, quando lhe damos o seu verdadeiro sentido, quando serve para amar mais, produz uma paz íntima e uma profunda alegria. Por isso, em muitas ocasiões, o Senhor abençoa-nos com a cruz.
Assim temos que percorrer “o caminho da entrega: a cruz às costas, com um sorriso nos lábios, com uma luz na alma” (9).
III. O cristão dá-se a Deus e aos outros, mortifica-se e é exigente consigo próprio, suporta as contrariedades... e tudo isso, realiza-o com alegria, porque sabe que essas coisas perdem muito do seu valor se as faz arreganhando os dentes: Deus ama aquele que dá com alegria (10). Não deve surpreender-nos o fato de a mortificação e a penitência nos custarem; o importante é que saibamos abraçá-las com decisão, com a alegria de agradar a Deus, que nos vê.
“Contente? – A pergunta deixou-me pensativo. – Ainda não se inventaram as palavras para exprimir tudo o que se sente – no coração e na vontade – quando se sabe que se é filho de Deus” (11). É lógico que quem se sente filho de Deus experimente esse júbilo interior.
Neste sentido, a experiência que os santos nos transmitem é unânime. Basta recordar a confidência do apóstolo são Paulo aos fiéis de Corinto: ...Estou cheio de consolação, transbordo de gozo em todas as nossas tribulações (12). E convém lembrar-se de que a vida de são Paulo não foi fácil nem cômoda: Cinco vezes recebi dos judeus quarenta açoites menos um; três vezes fui açoitado com varas; uma vez apedrejado; três vezes naufraguei; passei uma noite e um dia à beira do abismo no mar alto. Nas minhas viagens sem conta, expus-me a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos por parte dos da minha raça, perigos dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos. Trabalhos e fadigas, repetidas vigílias, com fome e com sede, freqüentes jejuns, com frio e nudez (13). Pois bem, depois de toda esta enumeração, são Paulo é veraz quando nos diz: Estou cheio de consolação, transbordo de gozo em todas as nossas tribulações.
Aproximam-se a Semana Santa e a Páscoa, e portanto o perdão, a misericórdia, a compaixão divina, a superabundância da graça. Mais uns dias, e consumar-se-á o mistério da nossa salvação. Se alguma vez tivemos medo da penitência, da expiação, enchamo-nos de coragem, lembrando-nos de que o tempo é breve e grande o prêmio, sem proporção com a pequenez do nosso esforço. Sigamos Jesus com alegria, até Jerusalém, até o Calvário, até a cruz. Além disso, “não é verdade que, mal deixas de ter medo à cruz, a isso que a gente chama de cruz, quando pões a tua vontade em aceitar a Vontade divina, és feliz, e passam todas as preocupações, os sofrimentos físicos ou morais?” (14)
Francisco Fernández-Carvajal
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A misericórdia divina reintegra em nós a graça de ser humano
O domingo da alegria, no tempo da Quaresma, é marcado pela manifestação da misericórdia de Deus para conosco, a humanidade, que tem em sua natureza, a tendência de se afastar da graça santificante do criador, ao mesmo tempo em que é acolhida, por meio da entrega do Filho amado a quem Deus se compraz. A comunidade dos fieis, faz deste mistério, um momento celebrativo, lembrando fatos reveladores da presença do próprio Deus na caminhada histórica da salvação, sinais de sua infinita misericórdia.
Marca também, este domingo, a proximidade com as festividades do mistério pascal, ápice e razão de toda celebração litúrgica; de fato, a Páscoa torna-se a centralidade de nossa fé, materialização da misericórdia divina, a tal ponto, de não mais exigir sacrifícios provenientes de mãos humanas, mas tornar-se Deus mesmo, sacrifício por nossas misérias.
Evidencia então Deus compassivo, não mais vingativo, prefigurado na pessoa de Ciro (1ª Leitura), rei da Pérsia, responsável pela reconstrução do Templo de Jerusalém e a libertação do povo que até então, encontrava-se escravo na Babilônia.
Paulo sublinha este caráter divino revelado somente pela fé em Jesus Cristo (2ª Leitura). Não é mais, a realização das obras de sacrifício, realizadas pelos sacerdotes do templo, que garantirão a remissão dos pecados mas – doravante a manifestação do Cristo, tornado Messias, muito mais completo e abrangente do que Ciro – a fé incondicional na pessoa do Filho; as obras que a partir daí se realizarão na comunidade de fé, não são mais obras provenientes da vontade humana, mas da vontade do Criador, materializada pelas ações do Espírito Santo, a nós concedido pelo Filho e pela glória que conquistou na cruz; desta forma, “ninguém pode gloriar-se”, revestindo-se da mesma soberba que encerrou-nos no distanciamento da graça divina.
A cruz do Cristo torna-se então, o antídoto dos males que cometemos, no entanto, sem ter como pressuposto a fé, somos capazes de dessacralizar, pior ainda, ridicularizar este sinal, que pode ser considerado a chave da salvação, pois sem cruz não há ressurreição, e este é o perigo de se protestar fundamentalmente contra os símbolos da fé cristã; relegar estes símbolos é desprezar todo o processo da redenção, graça restauradora dignidade humana, sem a qual, não podemos entrar na comunhão com Deus.
Realmente, em Jesus, nossa vontade tornou-se irrelevante, pois prevalece a vontade de Deus, uma vez que é dele a iniciativa da reaproximação e não do homem, no entanto, uma coisa é certa: abrir o coração à docilidade para relacionar-se com o amor, torna-se essencial, e isso só é possível mediante a fé e não à racionalidade.
Jesuel Arruda

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Deus amou tanto o mundo, que lhe deu seu Filho Único !
1. Os versículos de hoje fazem parte do diálogo com Nicodemos (cap. 3). Esse homem ilustre pertence à elite do judaísmo. É membro do Sinédrio (cf. 7,50), o supremo tribunal que condenará Jesus à morte. Dentro e fora do Sinédrio Nicodemos é considerado o mestre em Israel (cf. 3,9), mas ignora uma porção de coisas. Permanecendo no Sinédrio, ele se tornará cúmplice da morte de Jesus. Nicodemos demorou a entender isso, e parece que chegou tarde, pois se encontra novamente com Jesus quando este já estava morto (19,39). Por isso, ele representa cada um de nós diante dos desafios e conflitos da vida.
2. O texto de hoje inicia com a memória da serpente que Moisés, no deserto, levantou sobre um poste. Quem fosse mordido por uma cobra venenosa, ao olhar para a serpente de bronze, ficava curado (Nm. 21,8s). Para o povo da Nova Aliança, Jesus é a fonte de vida e salvação: “Do mesmo modo que Moisés levantou a serpente no deserto, assim é preciso que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que crerem tenham nele a vida eterna” (vv. 14-15).
3. O evangelho vai além do que mostra a 1ª leitura (um Deus que não abandona seu povo), pois mostra Deus superando e vencendo inclusive aqueles limites próprios da condição humana, como a morte.
4. Deus ama a todos indistintamente. Não só um povo particular. Ele ama o mundo!
5. No evangelho de João, “mundo” tem pelo menos dois sentidos. Às vezes é sinônimo de sociedade injusta, um arranjo social fundado na desigualdade, na opressão e na exploração. Às vezes, como aqui, significa a humanidade toda, capaz de rejeitar o amor de Deus.
6. Ora, o amor de Deus é oferta gratuita que atinge o ser humano em profundidade, antecipando-se à sua capacidade de amar. Ele nos ama não porque sejamos bons, mas porque ele é bom, quer salvar, quer comunicar vida em plenitude (v. 16).
7. A vida em plenitude se realizou na encarnação e morte de Jesus. O v. 16 mostra Deus desprendendo-se do Filho único, a ponto de entregá-lo em vista da salvação de quem crê. Jesus é a personificação do amor do Pai levado às últimas conseqüências: a entrega do Filho único. A salvação de Jesus não discrimina as pessoas: todos necessitam dela e todos tem acesso a ela , mediante a fé em Jesus, a fonte da vida: “Porque Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (v. 17).
8. Deus não deseja que as pessoas se percam, nem sente satisfação em condenar alguém (veja Ez. 18). O prazer de Deus é salvar a todos, é desarmar a todos com a lógica do amor. Portanto, o sofrimento, a injustiça, o pecado , a opressão, tudo o que gera dor e morte é contrário ao projeto de Deus. Esse projeto visa erradicar essas forças de morte para criar canais que comuniquem vida em plenitude. É isso que Jesus veio revelar com sua vida e palavra. É isso que deseja criar com a força de sua morte e ressurreição, presente e atuantes na comunidade cristã.
9. A vida de Jesus provoca as pessoas à decisão. Os judeus achavam que o julgamento se daria no final dos tempos, quando os vivos e os mortos teriam de se apresentar diante do tribunal de Deus.
- Para João o julgamento se dá aqui e agora no confronto das pessoas e da sociedade como um todo com a pessoa e a prática de Jesus. O tempo do julgamento é o momento em que vivemos. Estar a favor da vida é estar com Jesus. Não estar com ele é patrocinar a morte (o risco de Nicodemos e de todos nós).
- Para João, Jesus não julga nem condena. Ele simplesmente provoca o julgamento de Deus. Quem se julga são as pessoas, confrontando-se com a prática de Jesus e tomando partido a favor ou contra.
- Quem se posiciona a favor não é julgado, nem condenado. Quem se decide contra já está julgado e condenou a si próprio, porque não acreditou, isto é, não aderiu ao Nome do Filho único de Deus (cf. v. 18).
10. O nome revela o que a pessoa é e faz. No AT (Ex 3,14), Javé se mostrou o Deus libertador que caminha com o povo rumo à libertação e à vida. No NT ele se mostrou libertador em Jesus (cujo nome significa Javé salva). Acreditar nesse nome é ser a favor da vida em todas as suas expressões, aproximando-se da luz e fazendo a verdade (v. 21). Esse é o significado da proposta de “nascer do alto” (cf. 3,3.7) que Jesus faz a Nicodemos e … a todos nós.
11. No texto de João, o “alto” ou “elevado” é o próprio Jesus elevado na cruz. Nascer do alto significa ser como Jesus nas palavras e nas ações. Mas o próprio Jesus constata que “os homens preferiram as trevas à luz, porque suas obras eram más” (v. 19). É o caso de Nicodemos: ele está envolvido com o Sinédrio, o supremo tribunal. E o Sinédrio odeia a luz, não se aproximando dela para não ser desmascarado (cf. v. 20).
12. O que resta a fazer, então? O evangelho de hoje responde: agir conforme a verdade que é Jesus. E nós sabemos quem é Jesus-verdade: aquele que foi fiel ao projeto do Pai até o fim. Agir conforme a verdade (ou aproximar-se da luz) é fazer tudo o que ele fez para que a humanidade tenha vida em plenitude, pois “não se pode ser opressor do homem e dar adesão a Jesus” (J.Mateos).
1ª leitura: 2Cr. 36, 14-16.19-23
13. Deus não abandona seu povo. O trecho é o final do 2º. Livro das Crônicas e também o final da Bíblia hebraica. O objetivo do cronista é fazer uma síntese da história do povo de Deus, (de Adão ao fim do exílio da Babilônia, 538 a.C).
14. Em poucas palavras ele consegue pôr juntos os dois grandes temas que atravessam a sua obra: o tema da infidelidade do povo ao projeto de Deus e o tema da fidelidade de Deus (o Deus que, – apesar de tudo -, permanece fiel à aliança, ao seu projeto e, consequentemente, ao povo que escolheu).
15. O final do texto de hoje (vv. 22-23) aponta para a esperança, sinal de que nem tudo está perdido por causa das traições do povo. O Deus fiel é capaz de criar coisas novas e inesperadas – como o surgimento de Ciro, rei dos persas – para que seu povo volte a ter esperança de vida e liberdade. Os versículos de hoje são uma chave de leitura teológica para ler e entender a história de Israel.
16. O autor sintetiza o que se passou sob o reinado de Sedecias, último rei de Judá (597-586 a.C.). Depois de relatar a má conduta desse rei, mostra que todo o povo, por causa dos desmandos dos líderes religiosos e políticos, acabou deportado para a Babilônia (para ser escravo do rei Nabucodonosor). Trata-se da segunda deportação (586 a.C), maior que a primeira.
17. Por que o povo de Deus chegou a essa situação? O autor aponta como causa principal o abandono do projeto de Deus (vv.14-15) e o conseqüente desprezo pelos mensageiros (profetas) que constantemente denunciavam os desmandos dos dirigentes do povo (v.16).
18. Jeremias é mencionado como um dos profetas não ouvidos e desprezados (vv. 21s). E através de duas de suas passagens (cf. Jr. 25,11; 29,10 – citadas pelo autor de Crônicas) ficamos sabendo em que consistia o abandono do projeto de Javé: depois que foi levado para o cativeiro, “o país desfrutou o seu descanso sabático e repousou por todo o tempo de sua desolação, até se completarem setenta anos” (v. 21).
19. O projeto de Javé foi violado, entre outras coisas, na questão da terra. O repouso da terra era uma lei prevista no Levítico (cf. Lv. 26,34s). Essa lei pretendia básica-mente duas coisas: manter a consciência de que a terra é de Deus e evitar que ela se tornasse objeto de especulação, para que não fosse desfrutada sem medida por conta da ganância (de acordo com Ex. 23,10-11, o que a terra produzir no ano de descanso pertence aos pobres).
20. O texto de hoje revela que a terra jamais teve seu sábado, isto é, seu ano de descanso a cada sete anos. Isso só veio acontecer de modo forçado, depois que o povo foi expulso de seu chão, tornado escravo do rei da Babilônia.
21. O povo foi infiel ao projeto de Javé, mas nem tudo está perdido. Deus continua sendo fiel às suas promessas, sobretudo as que fez a Davi (2Sm. 7,155s). É daí que nasce novamente a esperança para o povo reconstruir o templo outrora profanado (v. 14). Na reconstrução do templo o autor das Crônicas vê a síntese de tudo o que precisa ser refeito a fim de que o povo possa novamente, ter liberdade e vida. Ele encerra apontando para a esperança e a comunhão com Deus que não abandona seu povo.
2ª leitura: Ef. 2,4–10
22. O texto da 2ª leitura mostra dois modos de ser e de viver: sem Cristo e em Cristo. O autor afirma que os destinatários da Carta viveram, no passado, longe de Cristo. É uma referência ao mundo pagão, a um tipo de sociedade marcada pela desigualdade e pela injustiça. O autor também viveu esta experiência, que ele chama de situação de morte: “estávamos mortos pelos pecados” (v. 4b).
23. Mas o que marca o texto de hoje é a novidade de Jesus Cristo: Deus é rico em misericórdia (v. 4a), amoroso, gratuito e doador da graça. A riqueza da misericórdia e amor de Deus é explicada pelo texto: “levado pelo grande amor com que nos amou, nos fez reviver juntamente com Cristo … com ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus, em Cristo Jesus … tratando-nos com bondade em Cristo Jesus” (v. 4-7).
24. A morte e ressurreição de Jesus são a passagem da vida sem Cristo para a vida com Cristo. E o texto salienta duas vezes que isso é fruto da graça de Deus e não o resultado dos méritos das pessoas (vv. 5b.8-10). Em Cristo o cristão vive já uma situação de ressuscitado, salvo e glorificado (”… nos fez sentar nos céus”). Aqui aparece um dos temas desenvolvidos por Paulo em outros escritos: nós possuímos, desde já, a salvação e a glorificação. Mas ainda não se manifestou plenamente o que seremos – de fato – no futuro em Deus.
25. A fé é o compromisso que brota espontâneo em quem se descobre salvo e glorificado: “mediante a fé, vocês são salvos pela graça!” (v.8a). Portanto, a tarefa do cristão é viver entre o “já agora” e o “ainda não”, entre o que Deus fez por nós em Cristo, e o que nós devemos fazer, na fé, para os outros. A fé é nossa resposta ao amor misericordioso de Deus, e esta gera novas relações entre as pessoas: relações de vida nova e de esperança renovada.
26. Deus, rico em misericórdia … nos amou, nos deu a vida em Cristo. E é por graça que somos salvos! Com efeito, é – pela graça – que somos salvos, mediante a fé. Isso não vem de nós, não depende do que fazemos, é pura graça de Deus, é dom de Deus! Não vem das nossas obras e práticas e devoções e coisas mais, … mas é dom de Deus, para que ninguém se orgulhe. Pois foi ele quem nos fez e é ele quem nos faz a cada dia, a cada hora. Interessante! Como nos esquecemos disso! Como não nos lembramos de agradecer! Como achamos que fazemos muito nessa vida! Como nos achamos importantes! Como nos esquecemos que tudo o que temos é dom, é dádiva, é graça, é bondade de Deus!
R e f l e t i n d o
1. A liturgia de hoje está permeada por um fio homogêneo: a passagem da morte para a vida, das trevas à luz, do pecado à reconciliação. Israel estava morto: a terra e a cidade destruídas, o povo exilado. MAS Deus o fez reviver, levando-o de volta. E isso, sem mérito da parte de Israel, mas por intermédio de um pagão, o rei Ciro (que se apresenta como encarregado por Javé para realizar essa obra (2Cr. 36,23; cf. Is. 44,24-45,13).
2. Na mesma linha, a 2ª leitura fala da nossa re-vivificação com Cristo (terminologia batismal, cf. Rm. 6,3). Acentua fortemente a gratuidade do agir de Deus. Não foi por nossos méritos (Ef. 2,8s), mas porque Deus o quis em sua grande misericórdia (2,4s). Isso, contudo, não quer dizer que não precisamos fazer nada. Não somos salvos pelas obras, mas para as obras: para as obras boas que Deus nos preparou em sua eterna providência (2,10).
3. POR QUE não nos salvam nossas obras? Porque nosso relacionamento com Deus não é comercial, mas vital. Como poderíamos restituir Àquele de quem recebemos a própria vida? A única maneira de reconciliação é: aceitar. Aceitar a nova vida que nos é oferecida, nossa nova “realização”, numa práxis que vem de Deus mesmo e que nós assumimos em união com Cristo, seu grande dom.
4. A 1ª. leitura mostra como os israelitas – afastados de Deus, exilados de sua terra, levados à Babilônia, – entenderam que sua desgraça era sinal de seu afastamento. Voltaram seu coração para Deus, que os fez voltar à sua terra. Essa história prefigura a volta de todos os seres humanos para Deus, reconduzidos pelo amor que Cristo nos manifestou.
5. Nós que estávamos mortos pelo pecado, mas acreditamos em Cristo, fomos salvos pela graça recebida na fé: “pela graça fostes salvos” (2ª leitura). Nossos erros mostram que, – por nós mesmos, – não somos capazes de trilhar o caminho certo. A única maneira de voltar é deixar-nos atrair pela bondade, amizade, misericórdia de Deus. Não somos salvos pelas nossa obras (=fizemos esforços por merecer), mas Deus nos salva para as boas obras que ele preparou para que nós entrássemos (penetrássemos) nelas: a caridade, a solidariedade… (Ef. 2,10). Não são as nossas obras que nos salvam: quem nos salva é Deus. Mas o que fazemos – a nossa prática de vida fraterna e solidária – encarna a nossa salvação (traduz, revela nossa fé).
6. O evangelho expressa idéias semelhantes. É o fim do diálogo com Nicodemos, o fariseu. O trecho inicia com a lembrança do Êxodo. Deus tinha castigado a rebeldia do povo com a praga das serpentes. Para os livrar da praga, Moisés levantou numa haste, à vista dos israelitas, uma serpente de bronze. Os que levantaram com fé os olhos para este sinal ficaram curados. Assim devemos levantar com fé os olhos para o Cristo elevado na cruz e receber dele a salvação, pois Deus o deu ao mundo para que testemunhasse seu amor até o fim. … “Tanto amou Deus o mundo…” (Jo. 3,14-16).
7. O evangelho ressalta a bondade de Deus, gratuita e radical, pois dá seu próprio Filho por nós. E descreve a reação dos homens – na sua práxis – diante da irrupção da oferta de Deus: Jesus Cristo e sua mensagem. O homem pode expor a práxis de sua vida à luz dessa oferta, e, então, sua práxis será trans-formada. Ou pode (auto-suficiente!) fugir dessa nova iluminação, porque suas obras não agüentam a luz do dia. Portanto, e aqui João se torna muito esclarecedor para a problemática atual: a razão por que alguém aceita ou rejeita Jesus não é tanto uma razão intelectual, mas a práxis que ele está vivendo. Quem “faz a verdade” (3,21) aceita a luz de Cristo.
8. Para João, o julgamento acontece na rejeição de Cristo, enviado do Pai. E isso acontece já, como também a salvação existe, desde já, na sua aceitação (3,18). Ora esta rejeição ou aceitação acontece na práxis. Nisto está uma mensagem importante para nossa “subida” à festa pascal em espírito de conversão. Não bastará proclamar na noite pascal o Credo, o compromisso da fé. A proclamação deve ser a confirmação daquilo que já estamos vivendo e praticando. Desde já, a Quaresma nos deve levar a uma nova práxis.
9. Daí ser necessário participar da Campanha da Fraternidade e de práticas semelhantes que nos levem a viver, – com convicção, – na luz projetada pelo Filho de Deus, morto na cruz por nós, não austera abnegação, mas positiva e alegre doação aos necessitados. Não que nossa práxis nos salvasse. Mas é preciso que façamos algo, para que se encarne o que Deus quer para conosco; um amor em atos e verdade (1Jo. 3,18). Não são nossas obras que nos salvam. Quem nos salva é Deus. Mas nossas obras encarnam e revelam a salvação operada por Deus.
10. Assim como a gente gosta de expor-se ao sol benfazejo da manhã, devemos expor-nos à luz de Cristo. Sua prática deve iluminar nossa vida, para que “pratiquemos a verdade”. Todos somos salvos ou devemos ser salvos pelo amor de Deus que Cristo nos manifesta. Ninguém fabrica sua própria salvação. O autossuficiente permanece nas trevas, ainda que sua suficiência pareça virtude, como era o caso dos fariseus, aos quais se dirige a advertência do evangelho. Por outro lado, se nos deixamos iluminar por Cristo, seremos também uma luz para nossos irmãos. O evangelizado seja também evangelizador.
11. A Quaresma insiste: o pecado não é irreparável. Para os que crêem, existe volta, conversão, perdão, salvação. Jesus não veio para condenar, mas para salvar. Ele é a luz que penetra nossas trevas. Mas há quem fuja da luz, para não admitir que está agindo de maneira errada. Nesse caso, não há remédio (Jo 3,19-21).
12. As leituras nos devem fazer pensar na nossa vida. Deus advertiu bastante, pela boca dos profetas, mas Israel não quis ouvir, não obedeceu e os governantes quiseram fazer sua própria vontade; conseqüência disso foi a destruição de Jerusalém e o exílio. Mas a última palavra de Deus é misericórdia; como fez destruir, assim também faz reconstruir. Deus castiga não para destruir, mas para renovar o homem. Mais que castigo, é uma advertência de pai amoroso para com seus filhos. Conosco acontece algo parecido? … Ou só acontece com os outros?
13. Deus quer restaurar nossa vida em Cristo. Quando nos afastamos de Deus estamos mais perto da morte que da vida. Mas Deus nos co-ressuscitou com Cristo e nos deu um lugar na sua vida. Morto é quem está entregue ao seu egoísmo, às sua paixões, aos seus instintos, aos seus desmandos, à sua vontade hedonista. Para reviver precisa de um amor maior que seu fechamento: a “riqueza da graça” que Deus nos demonstra em Jesus Cristo. Maravilha de amor que deve manifestar-se também na vida dos que são assim renovados; devem realizar a caridade que Deus desde sempre sonhou para eles.
Pare e pense: “O que Deus sonhou para você? Você acha que está no caminho certo de realizar o que Deus sonhou para você?
prof. Ângelo Vitório Zambon
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O concílio Vaticano II, recorda com firmeza uma das mais importantes tarefas  da Igreja quando diz: “As alegrias e as tristezas, as angústias e as esperanças dos homens de hoje são também as alegrias e as tristezas dos discípulos de Cristo”.
Nos dias de hoje, em quase todos os segmentos da sociedade,  vive-se tempos de medo, de preocupação e de insegurança. Facilmente corre-se o risco de ser pessimista e acreditar que nada mais tem solução, que nada tem jeito, que as pessoas são más, que a sociedade está perdida e assim por diante.
É verdade que são muitos os sinais de morte e de desencanto, mas é maior ainda a certeza de que Deus está presente e que o agir de Deus é muito diferente dos atos humanos. Longe de que castigar, vingar, destruir, amedrontar, Deus acolhe, anima, recolhe, esclarece, dá novas oportunidades.
É isso o que se tem nas leituras deste domingo.  No texto do livro das Crônicas  se lê que enquanto o povo multiplicou a infidelidade, “ O Senhor, Deus do céu, deu-me todos os reinos da terra, e encarregou-me de lhe construir um templo em Jerusalém, que está no país de Judá. Quem dentre vós todos, pertence ao seu povo? Que o Senhor, seu Deus, esteja com ele, e que se ponha a caminho”.
No mesmo sentido São Paulo fala aos Efésios: “Deus é rico em misericórdia. Por causa do grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo. É por graça que vós sois salvos!"
E Jesus se apresenta como o enviado do Pai para salvar e dar nova oportunidade a todos. Não importa a condição do pecador. O que conta, segundo o evangelho deste domingo, é acreditar na pessoa e na missão do Filho de Deus: “De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê, não é condenado”.
Desta forma a quaresma se constituí num tempo de graça extraordinária. Preparando a páscoa a Igreja e todas as pessoas são convidadas a reconhecer que o Filho Deus aponta para um novo tempo e distribui graças sobre graça longe de condenar, amedrontar e destruir.
padre Elcio Alberton
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1. “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele creram tenham a vida eterna” (Jo. 3,14-15).
Passei a semana toda refletindo e matutando sobre este versículo. Aquilo que me chama atenção e não me deixa dormir, é o fato que Jesus mesmo acha necessária a sua morte vergonhosa na cruz. O fato do levantamento do Filho do Homem quer dizer duas coisas ao mesmo tempo: de um lado, a morte violenta na cruz: nela Cristo é levantado do chão e, assim, todo mundo poderá enxergá-lo. Do outro lado, o verbo levantar (em grego anastásis) aponta a ressurreição, ou seja aquele levantamento extraordinário que é o mistério da vida que em Cristo derruba a morte e, o morto, se levanta para sempre.
Porque foi necessária a morte de Jesus? Porque foi necessário que o Filho do Homem sofresse daquele jeito horrível?   A pergunta fica mais forte ainda se colocada ao lado daquele versículo, que a liturgia proclama na sexta feira da paixão, o texto famoso do quarto canto do servo de Jahvé “ No entanto, Jahvé  queria esmagá-lo com o sofrimento” (Is. 53,10).
 Deus quis esmagar o seu Filho Jesus com o sofrimento: é isso que nos diz este versículo verdadeiramente inquietante de Isaias. Na continuação da leitura do texto de Isaias o profeta relata que é por causa do esmagamento do servo de Jahvé que o projeto de Deus triunfará. São palavras estranhas, extremamente duras, que mostram o peso e o valor do plano salvífico de Deus, que não é lógico, ou seja que não se coloca num plano racional mas, sim, no plano da fé. Então pela ultima vez repito a mesma pergunta? Porque foi necessário esmagar o Filho de Deus e porque o Pai quis esmagá-lo com o sofrimento?
Ao meu ver a resposta encontra-se no mesmo Evangelho de hoje. De fato, para respondermos a esta pergunta dramática é necessário colocar uma outra pergunta: que humanidade Jesus encontrou quando veio ao mundo? “A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas á luz, porque suas ações eram más” (Jo. 3,19). Num mundo totalmente mergulhado nas trevas do pecado, da desobediência, da rebeldia, Jesus não foi reconhecido mas, pelo contrario, o seu jeito de ser e de viver provocou o ódio do mundo. Jesus é a justiça de Deus e a sua Palavra aponta o caminho da Verdade. Por todos aqueles que vivem mergulhados na mentira e no engano, é claro que as suas palavras ressoam como uma condenação. Jesus veio ao mundo mostrando para toda a humanidade que, a grande vocação do homem e da mulher, é o amor e o amor é doação total de se mesmo. Neste mundo mergulhado na imoralidade, o jeito de Jesus viver foi bastante provocante, aliás chocante. De fato Jesus viveu a própria vocação sem se casar, mostrando para toda humanidade corrupta, o sentido profundo de um amor totalmente livre e o sentido de uma sexualidade transfigurada, livre da cobiça e do desejo de possuir o outro. Em Jesus vislumbramos a humanidade autentica, plenamente realizada, assim como o Pai a pensou no começo da criação. Era impossível, então, salvar uma humanidade cega, incapaz de viver a própria vocação ao amor, assim como Deus a tinha pensada, sem pagar um preço altíssimo: a morte dolorosa do Filho do Homem.
 Deus sabia que a vinda do Seu Filho teria sido um fracasso. Isso aponta para um outro problema. Quem vive no pecado e se acostuma nisso, vai chegar ao ponto que não consegue mais dar espaço a luz de Deus, porque o pecado fecha lentamente os olhos á luz de Deus. O pecado é morte, enquanto Deus é vida. O pecado é trevas, enquanto Deus é luz. Estes poucos versículos do Evangelho de João, que a liturgia nos propõe hoje nesta caminhada quaresmal, são extremamente vislumbrantes e esclarecedores. O homem, a mulher, não conseguem controlar a força destruidora e aniquiladora do pecado: quem tentar fazer isso, segurando  o pecado dentro de sim sem confessá-lo por medo, será esmagado, tornando-se insensível á Palavra de Deus.
Deus quis esmagar o seu Filho Jesus porque não tinha outro jeito para salvar uma humanidade tão mergulhada nas trevas do pecado de não poder agüentar a luz do Amor, da Verdade, da Vida. E, assim, Jesus vindo ao mundo, atraiu sobre si o ódio do mundo. De fato, o mundo não agüentou ver tanto amor, tanta doação, tanta dedicação e gratuidade. Jesus carregou sobre si mesmo as conseqüências de uma humanidade pecadora, cega, incapaz de reconhecer a misericórdia de Deus presente no mundo.
2. Porque é tão importante aprofundar o mistério da morte de Jesus? Porque tudo aquilo que aconteceu com Ele vale também para nós. Na vida e na historia de Jesus, Deus manifestou o seu método para salvar a humanidade: o sofrimento do Justo, o esmagamento do Inocente. É este Espírito que é derramado em nós no Batismo: é o Espírito do Cordeiro de Deus que foi imolado para resgatar os pecados do mundo. Agora, esta imolação deve ser nossa. É a nossa vida que deve ser imolada para que o mundo se salve. O mundo é cego e consegue se tocar, ou seja entrar em se mesmo, somente perante a morte do justo, o esmagamento do inocente. Para que o mundo seja salvo –que, aliás, é o sentido do projeto de Deus (cf Jo. 17)- é necessário que a nossa vida se torne uma oferta gratuita ao Pai. Segundo são Paulo, é este, de agora em diante, o sentido profundo do culto autentico: “Irmãos, pela misericórdia de Deus, peço que vocês ofereçam os próprios corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Esse é o culto autentico de vocês” (Rm. 12,1).
Deus decidiu destruir o pecado dentro do homem, através da morte do Justo. É vivendo na graça de Deus, na sua justiça, da sua Palavra que o mundo descarrega o próprio ódio, a própria raiva  nas  costas do Filho do Homem e, agora, nas costas dos seus seguidores. Este é o sentido autentico do Batismo, que o tempo de quaresma quer resgatar: acolher em nós o Espírito do ressuscitado para que a nossa vida se torne tão transparente a graça de Deus da iluminar o mundo com a doação total da nossa vida. E é isso, também, o sentido profundo de uma consagração a Deus: a doação total de se mesmo para que o mundo seja salvo. Nesta doação vivida em Cristo, por Cristo e com Cristo o mundo não acha outro caminho que descarregar a própria morte em cima daqueles e aquelas que seguem o Cordeiro imolado (cf.  Ap. 20-21).
3. Irmãos e irmãs se o mundo nos odeia, se  o mundo não gosta de nós, não devemos estranhar: é a lógica da salvação. Se estamos sendo esmagados, humilhados, injuriados por causa do Evangelho, não devemos nos queixar: Deus, através do nosso esmagamento, do nosso sofrimento está  salvando o mundo. Pedimos ao Espírito santo que fortaleça a nossa fé, para que saibamos ficar aonde Deus quer e não aonde nós queremos.
padre Paolo Cugini
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O gemido do vento
Tiago: Está na hora de dormir, rapaziada, pois amanhã temos de madrugar!
Pedro: Ai, meus pés! Essas três jornadas que fizemos hoje eu não desejo nem para a minha sogra!
Maria: Pois então fiquem um par de dias mais. Há lugar na taberna. Ainda mais agora que as pessoas começaram a regressar aos seus povoados.
Pedro: Não dá, Maria, temos de voltar para a Galiléia. E sabe por quê? Porque nosso dinheiro já se acabou. Não temos mais nenhum tostão.
Maria: Bah, se é por isso, não se preocupem. Meu irmão Lázaro tem muito carinho por vocês. Se não podem pagar agora, a gente cobra quando voltarem outra vez. Porque vocês voltarão, não é mesmo?
Estávamos guardando a meia dúzia de bugigangas que compramos durante a festa da Páscoa em Jerusalém e despedindo-nos de Marta e Maria. Já era noite quando Lázaro, o taberneiro, chegou correndo...
Lázaro: Pshh! Algum de vocês está levando contrabando para o norte?
Pedro: Contrabando? Está louco? As alfândegas ficam muito vigiadas nestas datas. Por que pergunta?
Lázaro: Porque vocês têm visita. Um peixe grande. Um dos setenta magistrados do Sinédrio... Está aí fora, com um par de guarda-costas, perguntando por vocês. Eu pensei que vocês levavam contrabando.
Maria: Se estão levando, eles disfarçam muito bem... não é à toa que são galileus!
Lázaro: Vamos, rapazes, alguém tem de sair e dar as caras...!
Tiago: Bom, eu vou, vamos ver o que ele quer. Você vem comigo, João?
Meu irmão Tiago e eu saímos para ver quem nos procurava. À porta da Palmeira Bonita estava nos esperando um homem alto, com longa barba crespa e envolto em um manto de púrpura muito elegante. Acompanhavam-no dois etíopes, com a cabeça raspada e adaga na cintura...
Tiago: Vejamos, em que podemos servi-lo, senhor?
Nicodemos: Quero falar com o chefe de vocês.
Tiago: Com o chefe? Aqui ninguém é chefe de ninguém. Somos um grupo de amigos.
Nicodemos: Estou me referindo a este tal Jesus, de Nazaré. Aquele que faz as “coisas”.
Tiago: O que faz as “coisas”? Explique-se melhor.
Nicodemos: Não vim falar com vocês, mas com ele. Vão e chamem-no!
Tiago e eu entramos novamente na taberna...
Jesus: O que será que ele quer falar comigo...? O que estará procurando esse sujeito?
Tiago: Isso não me cheira nada bem, Jesus. É um fariseu importante, sabe? E eu acho muito esquisito que ele tenha vindo até aqui e a essas horas... Alguma coisa ele estará aprontando...
Jesus: Bem, vamos ver do que se trata...
Maria: Não demore muito, Jesus. A história dos três camelos ainda está pela metade...!
Jesus saiu para o pátio onde o esperava o misterioso visitante...
Nicodemos: Puxa vida, até que enfim o encontrei, nazareno! Quero falar alguns minutos com você, a sós...
Jesus: Sim, está bem. Mas se você está procurando contrabando, creio que perdeu seu tempo. A única coisa que levo de Jerusalém é um lenço para minha mãe, que os daqui são muito baratos.
Nicodemos: Não, não se trata disso, meu rapaz. Vou explicar-lhe já, já. Vocês dois, esperem ali.
Os dois etíopes se distanciaram como a um tiro de pedra...
Nicodemos: Deve haver por aqui algum lugar para conversar, não é mesmo...?
Jesus: Debaixo daquela palmeira estaremos bem. Vamos!
Do fogão, vimos Jesus afastar-se até a um canto do pátio. As nuvens corriam rápidas no céu, empurradas por um vento da noite que gemia entre as árvores...
Jesus: Você dizia que...
Nicodemos: Eu me chamo Nicodemos, Jesus. Sou magistrado no Tribunal Supremo de Justiça. Meu pai foi o ilustre Jeconias, tesoureiro-chefe do templo.
Jesus: E o que quer de mim um homem tão importante?
Nicodemos: Compreendo que você estranhe minha visita. Embora já tenha imaginado por quê vim.
Jesus: Devo ter pouca imaginação porque, francamente, não tenho a mínima idéia do que você quer de mim.
Nicodemos: Não quero nada de você. Na realidade, vim ajudá-lo.
Jesus: Ajudar-me?
Nicodemos: Digamos que será uma ajuda mútua. Um benefício mútuo, compreende?
Jesus: Como você não fala mais claro, não estou entendendo nada.
Nicodemos: Jesus, sei muitas coisas sobre você... Olhe, o que você fez na piscina de Betesda correu por toda a cidade... Sim, não faça essa cara! Aquela história do paralítico sair andando... assim, numa boa... Sei também que você fez coisas parecidas lá pela Galiléia: um louco, um leproso... até dizem que ressuscitou uma menina morta em pleno velório. Também ao Sinédrio chegaram esses rumores...
Jesus: Uf, como correm depressa as notícias neste país, heim?
Nicodemos: Como você vê, segui bem de perto sua pista. E lhe dou meus parabéns, Jesus.
Jesus: Continuo sem entender de onde você veio e onde quer chegar...
Nicodemos: Vamos, vamos, não disfarce. Reconheço que para ser truques, estão muito bem bolados... Não vai me dizer que são milagres... você não tem cara de santo... Está bem, está bem. Compreendo que desconfie de mim. Mas vamos ao que interessa. Afinal de contas, para mim dá no mesmo se são truques seus, ou milagres de Deus... ou se é o rabo do diabo que está metido nisso. Para o caso, tanto faz. O povo não distingue uma coisa da outra. Essa gente sofre muito e precisa iludir-se com alguma coisa. E nisso você é mestre, na arte de entusiasmar o povo... Enfim, quero lhe propor um negócio, Jesus de Nazaré. Podemos fazer uma sociedade e os lucros seriam meio a meio... Ou então, se preferir, posso dar-lhe uma quantia fixa, por exemplo... 50 denários. Acha pouco?... Sim, não é muito mas... Digamos 75... Mais ainda?... Parece-me exagerado tanto dinheiro para um camponês, porque depois ficam bebendo nas tabernas mas, enfim, porque acho você muito simpático, poderia subir para até 100 denários. Trato feito. Agora vou explicar o que quero que faça... Mas, do que você está rindo?
Jesus: De nada. É que estou achando isso muito engraçado...
Nicodemos: Sim, já sei, vocês galileus têm os caninos retorcidos como o javali. Está bem. Acho que 100 denários é um bom salário para um mago, mas... até aí tudo bem, ponha o seu preço. Quanto você quer?... Acredite, rapaz, seu negócio me interessa mais que qualquer outro...
Jesus: Sim, sim, estou vendo, mas... não tenho o menor interesse nesse assunto, Nicodemos.
Nicodemos: Como?... Por que? Estou dizendo que posso lhe dar muito dinheiro, e não estou mentindo.
Jesus: Não, não é por isso.
Nicodemos: Então, por que?
Jesus: Bem, é que... é que você é muito velho.
Nicodemos: Por isso mesmo, rapaz. Dizem que até o diabo sabe mais por velho do que por diabo. Com minha experiência e sua habilidade podemos ir muito longe.
Jesus: Não, Nicodemos. Digo-lhe que preciso de gente jovem.
Nicodemos: Bom, eu tenho uns quantos anos nas costas, essa é a verdade, mas... de saúde não estou tão mal. Ainda me defendo...
Jesus: Nicodemos: preciso de meninos.
Nicodemos: Meninos? Ah, vamos lá, Jesus, deixe as crianças na escola e vamos falar de coisas sérias.
Jesus: Eu estou falando sério, Nicodemos. Eu preciso de crianças. Se você quer se meter nesse assunto, teria que... nascer outra vez. Isso, voltar a ser criança...
Nicodemos: Já haviam me falado que você é muito cômico, nazareno. Bom, como você sabe tantos truques, talvez você possa fazer-me entrar outra vez no ventre de minha mãe para que ela volte a me parir... Enfim, voltemos ao nosso negócio. Como ia lhe dizendo, trata-se de...
Jesus: Você se tornou velho juntando dinheiro, Nicodemos. E aí surgiu um calo no seu coração e outro nos seus ouvidos. Por isso não compreende. Por isso não ouve o vento.
Nicodemos: Olhe, sei que estou velho, mas não surdo. O vento eu ouço, sim. Mas de você não entendo nenhuma palavra. O que é que você está querendo me dizer?... Que o dinheiro não lhe interessa?... É isso?... Ah, vocês jovens não têm jeito mesmo... Todos dizem a mesma coisa. Claro, quando se tem o papai por trás: “dinheiro? Para que? O dinheiro é o de menos”... Depois, quando a fruta amadurece, dão-se conta de que com o dinheiro se consegue quase tudo nesta vida... Mas, enfim, se você é tão pouco ambicioso, guardo meus denários. Pior pra você.
Jesus: Não, não, não os guarde, não disse isso.
Nicodemos: Ah, seu safado, já sabia que acabaria mordendo a isca. Estava certo de que esse negócio lhe interessaria. Veja você: poderíamos começar com uma apresentação no teatro... ou no hipódromo, que cabe mais gente... ou também... Mas o que acontece? Está distraído ou o quê?
Jesus: Nicodemos, está ouvindo o vento?... Ele traz a queixa de todos os que sofrem, de todos os que morrem chamando por Deus para que haja justiça na terra. Como pode guardar seu dinheiro e fazer-se surdo aos lamentos que traz o vento?... Escute... É como o grito de uma mulher que dá à luz... Está nascendo um homem novo, um homem que não vive para o dinheiro mas para os demais, que prefere dar a receber.
Nicodemos: Agora sim que não entendo patavina.
Jesus: Claro, para entender você teria de escolher.
Nicodemos: Escolher? Escolher o que?
Jesus: Não se pode servir a dois senhores de uma só vez. Tem que escolhe entre Deus e o dinheiro. Se escolher Deus, você entenderá os lamentos do vento e o vento o levará até onde você nem sequer imagina. Se escolher o dinheiro você ficará sozinho.
Nicodemos: De verdade, não sei de quê você está falando.
Jesus: Você deveria saber. Você que tem tantos títulos, não entende o que está acontecendo? O povo está reclamando seu direito. Queremos ser livres como o vento. Queremos ser felizes. Queremos viver.
Nicodemos: Jesus de Nazaré, já sei o que você é: um sonhador! Mas esse mundo com que você sonha, jamais chegará.
Jesus: Já chegou, Nicodemos. Deus quer tanto este mundo que já pôs as mãos à obra. O Reino de Deus já começou!
Nicodemos: Desce das nuvens, rapaz, seja realista, meu jovem... Quem lhe diz sou eu, que já tenho os dentes amarelos. Pense em primeiro lugar em você, e em segundo também. Depois de você, o dilúvio. As coisas são como são. E continuarão sendo assim.
Jesus: Não, Nicodemos. As coisas podem ser diferentes. E já estão sendo. Lá na Galiléia vimos gente muito pobre repartindo o pouco que tinham com os demais. Você não queria ver milagres? Pois desce você de sua cátedra de mestre e olhe para além do nosso bairro. Eu lhe asseguro que você aprenderá a fazer o maior milagre de todos, o compartilhar com quem não tem.
Nicodemos: Sim, estou percebendo, você está pirado. Não tenho mais dúvida. Mas reconheço que, ouvindo você falar...
Jesus: Olhe pra cima, Nicodemos... não a vê?
A lua cheia do mês de Nisan, redonda como uma moeda, espargia sua luz branquíssima sobre o pátio da taberna...
Jesus: Veja-a! Brilha como o seu dinheiro. Mas sabe o que fez Moisés, lá no deserto? Pegou o bronze das moedas e com ele fabricou uma serpente e a ergueu no meio do acampamento. E os que a olhavam ficavam curados da picada das cobras... A serpente do dinheiro picou você, Nicodemos. Você tem o veneno dentro... Se quiser curar-se...
Nicodemos ficou em silêncio, olhando aquela lua de bronze... O punhado de moedas que levava na bolsa lhe pesava agora como um fardo. Sentia-se mais velho e mais cansado que nunca, como se sua vida não tivesse sido mais que um pouco de água que se lhe escorria pelas mãos...
Nicodemos: Você acredita que para um homem velho como eu... ainda... ainda há esperança?
Jesus: Sim, sempre há esperança. A água limpa e o espírito renova... Se você quiser...
E o vento continuou soprando entre as árvores. Vinha de muito longe e empurrava as palavras de Jesus muito longe também. E quando Nicodemos deixou a taberna e se pôs a caminho para Jerusalém, o vento o acompanhou em seu regresso.
Comentários
Nicodemos é citado unicamente pelo evangelho de João. É uma das poucas pessoas pertencentes à instituição religiosa que estabeleceram uma relação amistosa com Jesus. Era do grupo fariseu do Sinédrio. O Sinédrio era o órgão supremo do governo judaico. Funcionava também como Corte de Justiça. Era composto por setenta e um membros, que deviam ter um profundo conhecimento das Escrituras para dar suas sentenças. Concretamente, os sinedritas do partido fariseu – como este Nicodemos – haviam ocupado os postos administrativos do organismo e tinham dentro dele uma grande influência. Os sinedritas eram pessoas sumamente privilegiadas dentro da sociedade: donos do saber e de todo o poder que lhes dava o fato de interpretar as leis. Ademais, eram geralmente, muito ricos. Quando no evangelho de João se fala “dos chefes dos judeus”, se faz referência a homens que ocupavam cargos político-religiosos deste tipo.
Um homem situado em um posto de poder como Nicodemos, teria intenções não muito claras ao aproximar-se de Jesus. Neste episódio aparece interessado em negócios “rentáveis”. Quer usar o religioso em seu próprio benefício. Entre os sinedritas não eram usuais atitudes deste tipo. No tempo de Jesus o Sinédrio era um órgão de poder político, social e econômico muito corrompido. A um homem que vem de um ambiente deste, Jesus proporá uma alternativa básica de verdadeira atitude religiosa: ou Deus ou o dinheiro. Escolher Deus é converter-se ao Reino. Escolher o dinheiro é deixar-se fora do projeto de Deus.
No diálogo entre Jesus e este influente fariseu, recolhido pelo quarto evangelho, João emprega toda uma série de temas teológicos: A água e o Espírito, o que vem de cima e o que é da terra, a luz e as trevas... Também emprega símbolos: a serpente de Moisés, o vento... Isto nos indica que não relata exclusivamente uma conversa real, pois um diálogo assim torna-se inverossímil. Trata-se, muito mais, de uma explicação teológica. A este homem dominado pela Lei, Jesus fala de liberdade (o vento que sopra onde quer) e se coloca a possibilidade de nascer de novo, de começar outra vez a vida, de converter-se.
A idéia do “homem novo” que se expõe neste programa é básica para se entender este diálogo de Jesus com Nicodemos. Em última instância, toda conversão é isso: transformação para a vida, para o novo, para o futuro. O homem novo que Jesus propõe a Nicodemos neste relato, é o que antepõe a atitude de compartilhar ao do benefício próprio. É o homem comunitário frente ao homem individualista. Tudo isso é difícil, exige juventude de coração. O tema do homem novo é freqüente nas cartas de Paulo (Col. 3,9-11; Ef. 8,2-10 e 4,20-24).
As conseqüências do batismo cristão foram expressas tradicionalmente com a fórmula que Jesus empregou com Nicodemos: Renascer da água e do Espírito. A água, que é símbolo da vida e o espírito (no hebraico espírito e vento se diz com a mesma palavra “ruah”), símbolo da liberdade, marcam o cristão. Trata-se de ser esse homem novo que escolhe sempre a vida e defenda a liberdade diante de toda servidão. O batismo possibilita a esse homem novo a disponibilidade para escolher o Deus da vida em seus compromissos e em todos os seus atos. (João, 3,1-21)



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