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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sábado, 21 de março de 2015

Você conhece Jesus?

5º DOMINGO QUARESMA

Comentários Prof.Fernando


22 de Março de 2015
Ano B

-VOCÊ JÁ CONHECE JESUS?-José Salviano


Evangelho - Jo 12,20-33


Domingo passado, foi Nicodemos quem desejou conhecer de perto o Filho de Deus. Hoje a liturgia nos mostra que os gregos queriam conhecer Jesus. Leia mais.


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“QUEREMOS VER JESUS”. – Olívia Coutinho

5º DOMINGO DA QUARESMA

Dia 22 de Março de 2015

Evangelho Jo 12,20-33

Nestes dias que antecedem  a grande festa da vida, queremos proclamar com mais intensidade a nossa fé, colocando em prática tudo que aprendemos nesta nossa caminhada de preparação  para a Páscoa!
Ao longo deste tempo Quaresmal, em que buscamos uma proximidade maior com Deus, podemos dizer que muita coisa já mudou em  nós! Já temos a consciência  de que não podemos viver de qualquer jeito, de que precisamos  viver do jeito de Jesus, sem fugirmos das cruzes, sem buscarmos atalhos pra encurtar o caminho.
O evangelho de hoje nos convida a pautar a nossa vida no exemplo de Jesus, a assumir  a  fé com todas as suas consequências!
Enquanto as autoridades judaicas tramavam a morte de Jesus, alguns gregos, que haviam subido para Jerusalém, a fim de adorar a Deus durante a Páscoa dos Judeus, sentiram-se desejosos de ver Jesus! Certamente, aqueles gregos já haviam ouvido falar de Jesus.  Ao invés de irem diretamente a Ele, optaram por um intermediário, eles  aproximaram-se de Felipe e disseram: “Senhor, queremos ver Jesus!” Felipe convidou  André e os dois, levaram o fato ao conhecimento de Jesus, que ao invés de combinar um encontro com os gregos, Ele dirige-se aos discípulos, aproveitando aquela oportunidade, para  falar da sua volta ao Pai! Naquelas alturas, Jesus já dava como  encerrada a sua trajetória terrena, dando a entender, que  a partir daquele momento, Ele só seria conhecido através da cruz!
Jesus sabia de tudo que estava para lhe acontecer, mas Ele não foge do confronto. Mesmo no momento crucial de sua vida, quando a  angustia já tomava conta do   seu coração “humano,”  Jesus ainda encontra força  para falar da fecundidade da  vida, referindo-se  sobre os  frutos que seriam produzidos com a sua morte! No caminho para a cruz, Jesus  fala de vida, dando o exemplo de  uma semente que só produz frutos, quando cai  na terra e morre! Falando de uma semente, Jesus   fala de si mesmo, Ele  seria aquela   semente que  morreria  na terra para produzir  frutos!
Falando claramente de sua morte, Jesus,  delega aos  discípulos,  a incumbência  de  torná-Lo conhecido, não somente pelos gregos, mas pelo mundo inteiro, o que realmente aconteceu depois de  sua morte e ressurreição!
 Foi a partir da Cruz, que Jesus tornou conhecido em todos os rincões da terra!
Finalizando a  sua missão aqui na terra, Jesus advertiu aos discípulos e hoje a nós, sobre o perigo do apego a nossa vida terrena!  A sua mensagem é clara: somente quem é  desapegado, desprendido, é  livre para servir!
O primeiro passo, de quem quer seguir Jesus, consiste em renunciar a si mesmo, para tornar-se um servidor do Reino!
Quando resguardamos a nossa vida, podemos até  nos sentir   protegidos de muitos perigos, mas não nos sentiremos realizados, pois não produziremos frutos!
A nossa opção por Jesus, deve ser radical! Um verdadeiro seguidor de Jesus, deve apresentar-se a Ele, completamente livre de qualquer apego.
São muitos, os que querem "ver" Jesus, mas desconhece o caminho para chegar até Ele! Sejamos como Felipe, tornemos caminho para que o outro possa, chegar à Jesus!
 “Queremos ver Jesus!” Conhecer Jesus, é descobrir um tesouro de valor incalculável, é enriquecer-se preservando o coração pobre!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

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Concentremos, neste domingo, todo o nosso olhar no Senhor nosso, Jesus Cristo, e na sua missão salvadora. Para isto, comecemos pelo belíssimo evangelho deste hoje. Contemplemos o Senhor! Contemplemo-lo com os olhos, contemplemo-lo com a fé, contemplemo-lo com o coração!
Jesus estava no interior do templo de Jerusalém, no pátio interno, chamado Pátio de Israel. Ali, nenhum pagão podia entrar, sob pena de morte. Pois bem, dois gregos, dois pagãos, aproximaram-se de Filipe, que certamente estava na parte mais externa, no chamado Pátio dos Gentios, até onde qualquer pessoa podia chegar. Dois gentios, que procuravam com fervor o Deus de Israel, tanto que “tinham subido a Jerusalém para adorar durante a festa”. Com humildade, eles pedem: “Gostaríamos de ver Jesus!” Eles não podiam entrar no Templo, não poderiam ver Jesus, a não ser que este saísse e viesse aonde eles estavam. Filipe, então, foi a Jesus e lhe relatou o pedido dos gregos. Jesus, então, afirmou, de modo misterioso: “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado!” Que mistério, caríssimos: para que os pagãos vejam Jesus, isto é, para que o contemplem com os olhos da fé, para que nele creiam e nele tenham a vida, é necessário que Jesus seja glorificado pela cruz e pela ressurreição! É necessário que Jesus, grão de trigo, que se faz Eucaristia, morra de dê fruto – e este fruto é toda a humanidade, judeus e gentios que nele acreditarão e nele terão a vida eterna: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz fruto”. Jesus entregará ao Pai a sua vida, para frutificar em salvação para nós, para que possamos vê-lo, contemplá-lo e experimentá-lo como nossa Luz e nossa Vida!
Mas, não foi fácil a sua missão! A vida de Nosso Senhor foi toda ela uma entrega de amor, que culminou com a entrega mais absoluta na cruz. E isso custou! Como não nos impressionar com as misteriosas palavras da Epístola aos Hebreus?“Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu. Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem!” Que mistério tão grande, tão adorável! O Filho foi se consumindo durante toda a vida, fazendo-se, por nós, obediente ao Pai, até a morte e morte de cruz. O Filho amado, durante toda a sua existência humana foi, humildemente, buscando a vontade do Pai e a ela se entregando, mesmo quando foi percebendo que a vontade do Pai querido apontava para a cruz! Assim, tornou-se causa de salvação para todos nós, para os judeus e para os pagãos! Quanto tudo isso custou: “Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora?’ Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome!” Em Cristo, caríssimos, vai cumprir-se a promessa que o Senhor fizera pelo Profeta Jeremias: “Eis que virão dias em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança: imprimirei minha lei em suas entranhas e hei de inscrevê-la em seu coração. Todos me reconhecerão, pois perdoarei sua maldade e não mais lembrarei o seu pecado”. Eis, irmãos e irmãs: é na morte de Cristo que judeus e gentios entrarão para a nova e eterna Aliança no sangue do Senhor! Quanto somos valiosos, quanto custamos em dores e sacrifício, em doação e trabalhos ao Senhor! Quanto deveríamos amar àquele que nos amou até a morte e morte de cruz! Por isso mesmo São Pedro exclamará: “Sabeis que não foi com coisas perecíveis, com prata ou com ouro, que fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais, mas pelo sangue precioso de Cristo” (1Pd. 1,18).
E, no entanto, caríssimos em Cristo, é a cruz do Senhor, é seu sacrifício amoroso ao Pai por nós, o critério do julgamento do mundo. Como dizia Bento XVI, não são os grandes, os crucificadores, que salvam, mas o pobre e impotente Crucificado: “É agora o julgamento deste mundo. Agora o Chefe deste mundo vai ser expulso, e eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim”. Compreendem, meus caros, o que o Senhor está dizendo? Sua cruz é o critério do julgamento do mundo: tudo aquilo que não couber na cruz, tudo aquilo que fugir da lógica da cruz, é lixo, é palha para ser queimada! É o amor manifestado e derramado na cruz que vence satanás, que vence o pecado, que vence a morte e nos dá a vida plena. Não é a força, o sucesso, as razões humanas, o prestígio que salvam! Eis a loucura de Deus: é Cristo elevado na cruz quem libertará os gregos que estavam do lado de fora, sem poder entrar no povo da antiga aliança. Cristo morrerá por eles, por nós, para que todos, atraídos a ele, formemos um novo povo, a Igreja, povo da Nova e Eterna Aliança, selada no sacrifico do Senhor, neste mesmo Sacrifício Eucarístico que agora estamos celebrando nos ritos da sagrada liturgia! Quanta bondade, quanta misericórdia! Que dom tão grande recebemos do Senhor! Na cruz, de braços abertos, o Salvador nosso une judeus e pagãos num só povo, o novo Povo, a Igreja, sua amada esposa una, santa, católica e apostólica!
É este, caríssimos, o mistério que a Palavra do Senhor nos convida a contemplar neste último Domingo antes do início da Grande Semana. Mas, do alto da contemplação, o Senhor nos surpreende com um convite, um desafio, quase que uma ordem inesperada: “Se alguém me quer servir, siga-me, onde eu estou estará também o meu servo”. – Nós queremos, sim, te servir, Senhor nosso! Dá-nos a força de te seguir até onde estás: estás na cruz e estás na glória. Jamais chegaremos a esta sem passar por aquela, porque quem não ama a tua cruz não verá a tua luz, a luz da tua glória! Senhor, concede-nos, como fruto da santa Quaresma, um coração generoso para ir contigo, fazendo, como tu, a vontade do Pai na nossa vida! Senhor, dá-nos a graça de unirmo-nos mais intensamente a ti nestes benditos e santos dias que se aproximam, nos quais faremos memorial nos santos mistérios, da tua Paixão, Morte e Ressurreição, pelas quais fomos salvos e libertos! “Dai-nos caminhar com alegria na mesma caridade que te levou a entregar-te à morte no teu amor pelo mundo”. A ti a glória, ó Cristo Deus, hoje e para sempre!
dom Henrique Soares da Costa


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Na liturgia do 5º domingo comum ecoa, com insistência, a preocupação de Deus no sentido de apontar ao homem o caminho da salvação e da vida definitiva. A Palavra de Deus garante-nos que a salvação passa por uma vida vivida na escuta atenta dos projetos de Deus e na doação total aos irmãos.
Na primeira leitura, Jahwéh apresenta a Israel a proposta de uma nova Aliança. Essa Aliança implica que Deus mude o coração do Povo, pois só com um coração transformado o homem será capaz de pensar, de decidir e de agir de acordo com as propostas de Deus.
A segunda leitura apresenta-nos Jesus Cristo, o sumo-sacerdote da nova Aliança, que Se solidariza com os homens e lhes aponta o caminho da salvação. Esse caminho (e que é o mesmo caminho que Jesus seguiu) passa por viver no diálogo com Deus, na descoberta dos seus desafios e propostas, na obediência radical aos seus projetos.
O Evangelho convida-nos a olhar para Jesus, a aprender com Ele, a segui-l’O no caminho do amor radical, do dom da vida, da entrega total a Deus e aos irmãos. O caminho da cruz parece, aos olhos do mundo, um caminho de fracasso e de morte; mas é desse caminho de amor e de doação que brota a vida verdadeira e eterna que Deus nos quer oferecer.
1ª leitura – Jr. 31,31-34 – AMBIENTE
Jeremias, o profeta nascido em Anatot por volta de 650 a.C., exerceu a sua missão profética desde 627/626 a.C., até depois da destruição de Jerusalém pelos Babilônios (586 a.C.). O cenário da atividade do profeta é, em geral, o reino de Judá (e, sobretudo, a cidade de Jerusalém).
A primeira fase da pregação de Jeremias abrange parte do reinado de Josias. Este rei – preocupado em defender a identidade política e religiosa do Povo de Deus – leva a cabo uma impressionante reforma religiosa, destinada a banir do país os cultos aos deuses estrangeiros. A mensagem de Jeremias, neste período, traduz-se num constante apelo à conversão, à fidelidade a Jahwéh e à aliança.
No entanto, em 609 a.C., Josias é morto, em combate contra os egípcios. Joaquim sucede-lhe no trono. A segunda fase da atividade profética de Jeremias abrange o tempo de reinado de Joaquim (609-597 a.C.).
O reinado de Joaquim é um tempo de desgraça e de pecado para o Povo, e de incompreensão e sofrimento para Jeremias. Nesta fase, o profeta aparece a criticar as injustiças sociais (às vezes fomentadas pelo próprio rei) e a infidelidade religiosa (traduzida, sobretudo, na busca das alianças políticas: procurar a ajuda dos egípcios significava não confiar em Deus e, em contrapartida, colocar a esperança do Povo em exércitos estrangeiros). Jeremias está convencido de que Judá já ultrapassou todas as medidas e que está iminente uma invasão babilônica que castigará os pecados do Povo de Deus. É, sobretudo, isso que ele diz aos habitantes de Jerusalém… As previsões funestas de Jeremias concretizam-se: em 597 a.C., Nabucodonosor invade Judá e deporta para a Babilônia uma parte da população de Jerusalém.
No trono de Judá fica, então, Sedecias (597-586 a.C.). A terceira fase da missão profética de Jeremias desenrola-se, precisamente, durante este reinado.
Após alguns anos de calma submissão à Babilônia, Sedecias volta a experimentar a velha política das alianças com o Egito. Jeremias não está de acordo que se confie em exércitos estrangeiros mais do que em Jahwéh… Mas, nem o rei, nem os notáveis prestam qualquer atenção à opinião do profeta.
Em 587 a.C., Nabucodonosor põe cerco a Jerusalém; no entanto, um exército egípcio vem em socorro de Judá e os babilônios retiram-se. Nesse momento de euforia nacional, Jeremias aparece a anunciar o recomeço do cerco e a destruição de Jerusalém (cf. Jr. 32,2-5). Acusado de traição, o profeta é encarcerado (cf. Jr. 37,11-16) e corre, inclusive, perigo de vida (cf. Jr. 38,11-13). Enquanto Jeremias continua a pregar a rendição, Nabucodonosor apossa-se, de fato, de Jerusalém, destrói a cidade e deporta a sua população para a Babilônia (586 a.C.).
É impossível dizer com segurança o contexto em que apareceu essa mensagem que o texto que nos é hoje proposto apresenta.
Para alguns comentadores, trata-se de um oráculo que poderia situar-se na primeira fase da atividade profética de Jeremias (reinado de Josias) e dirigir-se-ia aos israelitas do Reino do Norte. Seria uma mensagem de esperança, destinada a animar esse povo que há cerca de cem anos tinha perdido a independência e estava sob o domínio assírio.
Para outros, contudo, este texto será da época de Sedecias, algures entre a primeira e a segunda deportação do Povo para a Babilônia (597-586 a.C.). É a época em que Jeremias descobre perspectivas teológicas novas e começa a reflectir sobre um tempo novo que Deus irá oferecer ao seu Povo: após a catástrofe, será possível recomeçar tudo, pois Deus tem em mente fazer uma nova Aliança com Judá.
MENSAGEM
Deus está disposto a firmar uma nova Aliança com o seu Povo. Essa Aliança será, contudo, diferente da Aliança do Sinai.
A Aliança do Sinai foi uma Aliança externa, gravada em tábuas de pedra e que o Povo nunca interiorizou devidamente. Apresentava leis que o Povo devia cumprir; mas essas leis eram sempre leis externas, que não atingiram o coração do Povo nem mudaram substancialmente a sua maneira de ser. Por isso, o Povo de Deus continuou a trilhar caminhos de infidelidade a Deus, de injustiça, de auto-suficiência, de pecado. O Povo de Deus aderiu à Aliança do Sinai, mas mais com a boca do que com o coração. Ora, sem uma adesão efetiva, uma adesão do coração, era impossível manter a fidelidade aos mandamentos e exigências dessa Aliança.
Constatada a falência da antiga Aliança, Deus vai seguir outro caminho e propor uma nova Aliança que se fundamente noutras bases… Em concreto, Deus vai intervir no sentido de gravar as suas leis e preceitos no coração, no íntimo de cada membro do Povo. Na antropologia semita, o coração é, além da sede dos sentimentos, a sede dos pensamentos, dos projetos, das decisões e das ações do homem; é o centro do ser, onde o homem dialoga consigo mesmo, toma as suas decisões, assume as suas responsabilidades. Portanto, a iniciativa de Deus irá possibilitar que as exigências da Aliança sejam interiorizadas por cada membro do Povo de Deus e que estejam presentes nessa sede onde nascem os pensamentos, onde se definem os valores, onde se decidem as ações. Com um “coração” assim transformado (isto é, que pensa, que decide e que age segundo os esquemas e a lógica de Deus), cada crente poderá viver na fidelidade à Aliança, na obediência aos mandamentos, no respeito pelas leis, no amor a Jahwéh. Então, Jahwéh será, efetivamente, o Deus de Israel; Israel será, verdadeiramente, o Povo que vive de acordo com as propostas de Deus e que testemunha Deus no meio do mundo.
Com esse novo tipo de relação, Jahwéh não será mais um “desconhecido” para o seu Povo. Entre Deus e Israel será possível o estabelecimento de uma relação pessoal de proximidade, de intimidade, de familiaridade. A comunhão com Jahwéh não será uma lição dificilmente aprendida, mas algo de inato e natural, que brota de um coração em permanente diálogo com Deus.
Na última frase do nosso texto, Deus anuncia o perdão para as faltas do seu Povo: um perdão total e sem reservas é o primeiro resultado desta nova relação que se vai estabelecer entre Deus e o seu Povo. Também nisto se manifesta o “amor eterno” de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• A primeira leitura do 5º domingo da Quaresma dá-nos conta da eterna preocupação de Deus com a realização plena do homem. Nessa linha, Jahwéh propõe-se intervir no sentido de mudar o coração do homem, tornando-o apto para fazer as escolhas mais corretas. Só com um coração transformado, o homem será capaz de acolher as propostas de Deus e de conduzir a sua vida de acordo com esses valores que lhe asseguram a harmonia, a paz, a verdadeira felicidade. Ao homem pede-se, naturalmente, que acolha o dom de Deus, que se deixe transformar por Deus, que aceite o desafio de Deus para integrar a comunidade da nova Aliança. Integrar a comunidade da nova Aliança implica, no entanto, renunciar a caminhos de fechamento, de auto-suficiência, de recusa, de indiferença face aos desafios e às propostas de Deus. Estamos dispostos, neste tempo de Quaresma, a acolher o dom de Deus e a deixar-nos transformar por Ele?
• Fazer parte da comunidade da nova Aliança não tem a ver com o cumprimento de ritos ou de obrigações externas; mas tem a ver com a adesão incondicional do coração às propostas de Deus. O que nos faz membros efetivos da comunidade da nova Aliança não é o ter o nome inscrito no livro de registros de batismos da nossa paróquia, ou o ter celebrado o casamento na igreja, ou o ir à missa ao domingo… Mas é o estar atento aos projetos de Deus, interiorizar as propostas de Deus, conduzir a vida de acordo com os valores de Deus, testemunhar a vida de Deus nos gestos simples do dia a dia, viver em comunhão com Deus.
• O projeto de uma nova Aliança entre Deus e o seu Povo concretiza-se em Jesus: Ele veio ao mundo para renovar os corações dos homens, oferecendo-lhes a vida de Deus. As outras duas leituras que nos são propostas neste 5º domingo da Quaresma vão dizer-nos como é que Jesus concretizou este projeto.
2ª leitura – Hb. 5,7-9 - AMBIENTE
A Carta aos Hebreus é um escrito (um sermão) de autor anônimo e cujos destinatários, em concreto, desconhecemos (o título “aos hebreus” provém das múltiplas referências ao Antigo Testamento e ao ritual dos “sacrifícios” que a obra apresenta). É possível que se dirija a uma comunidade cristã constituída majoritariamente por cristãos vindos do judaísmo; mas nem isso é totalmente seguro, uma vez que o Antigo Testamento era um patrimônio comum, assumido por todos os cristãos – quer os vindos do judaísmo, quer os vindos do paganismo. Trata-se, em qualquer caso, de cristãos em situação difícil, expostos a perseguições e que vivem num ambiente hostil à fé… São, também, cristãos que facilmente se deixam vencer pelo desalento, que perderam o fervor inicial e que cedem às seduções de doutrinas não muito coerentes com a fé recebida dos apóstolos… O objetivo do autor é estimular a vivência do compromisso cristão e levar os crentes a crescer na fé. Para isso, ele expõe o mistério de Cristo (apresentado, sobretudo, como “o sacerdote” da Nova Aliança) e recorda a fé tradicional da Igreja.
O texto que nos é hoje proposto é parte de uma longa reflexão (cf. Hb. 3,1-9,28) sobre o sacerdócio de Cristo. Em concreto, a perícope de Hb. 5,1-10 desenvolve o tema do sacerdócio de Cristo por comparação com o sumo-sacerdote do Antigo Testamento, apresentando uma série de aspectos semelhantes e opostos. Na perspectiva do autor deste sermão, o sumo-sacerdote deve ser um homem que, pela sua humanidade e fragilidade, é capaz de entender os pecados dos seus irmãos (“pode compadecer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele está cercado de fraqueza” – Hb. 5,2); ele oferece sacrifícios, “tanto pelos seus pecados, como pelos do povo”, a fim de refazer a comunhão entre Deus e o homem (Hb. 5,3); e é chamado por Deus a desempenhar esta missão, tal como aconteceu com o sacerdote Aarão (Hb. 5,4).
Estes três elementos estão bem patentes em Cristo, o sumo-sacerdote da nova Aliança.
MENSAGEM
Cristo, apesar de Filho de Deus, foi um homem que viveu entre os homens e que experimentou a fragilidade e a debilidade dos homens. Sofreu, chorou, sentiu angústia e medo diante da morte, como qualquer homem (o autor alude, provavelmente, à oração de Jesus no Monte das Oliveiras, pouco antes de ser preso – cf. Mc. 14,36). Por isso, Jesus é o sumo-sacerdote, capaz de compreender as fraquezas e as fragilidades dos homens. A partir dessa compreensão, Ele será também capaz de dar-lhes remédio.
O sacerdócio de Jesus realizou-se num permanente diálogo com o Pai. Ele procurou sempre, através de uma oração intensa, discernir e cumprir a vontade do Pai. Mesmo nos momentos mais duros e difíceis da sua existência terrena, Ele escutou o Pai, manteve a sua adesão incondicional ao Pai, manifestou a sua total disponibilidade para cumprir o projeto de salvação que o Pai queria, através d’Ele, oferecer aos homens. Desta forma, Jesus, na oração e pela oração que acompanha a sua vida inteira (e especialmente os momentos dramáticos da paixão e morte), converteu toda a sua existência numa oferenda ao Pai, num “sacrifício” de doação ao Pai. Ao fazer da sua vida um dom, uma entrega total, um “sacrifício”, Ele realizou o projeto de refazer a comunhão entre Deus e os homens. Com a sua obediência, Ele ensinou os homens a viver em comunhão total com Deus, a cumprir os projetos de Deus e a amar os irmãos até ao dom total da vida; com a sua obediência, Ele eliminou o egoísmo e o pecado que afastavam os homens de Deus. Sendo, pela sua comunhão total com o Pai e com os homens, o modelo de Homem Novo, Ele tornou-se, para todos aqueles que escutaram a sua mensagem e que O seguiram, “fonte de salvação eterna” (v. 9).
Jesus Cristo é, portanto, o sumo-sacerdote da nova Aliança. Ele conhece e entende as fragilidades dos homens e está apto a oferecer-lhes a ajuda necessária para que possam alcançar a salvação. Cumprindo integralmente o projeto do Pai, Jesus mostra aos homens que o caminho da salvação está na comunhão com Deus, na obediência radical aos projetos de Deus e no dom da vida aos irmãos. Jesus é, assim, um sumo-sacerdote que proporciona eficazmente aos homens a salvação, levando-os ao encontro de Deus e da vida plena.
ATUALIZAÇÃO
• Antes de mais, o nosso texto recorda-nos a solidariedade de Jesus com os homens. Ele veio ao nosso encontro, assumiu a nossa humanidade, conheceu as nossas fragilidades, partilhou as nossas dores, medos e incertezas. Ele compreendeu os homens e as suas fraquezas, sem nunca os acusar nem condenar, sem se demitir da sua condição de irmão dos homens. Desta forma, tornou-Se capaz de Se compadecer da nossa miséria e de nos trazer a ajuda necessária para que pudéssemos superar a nossa situação de debilidade. A Palavra de Deus que hoje nos é proposta garante-nos a solidariedade de Cristo em todos os instantes da nossa existência. Não estamos sozinhos, frente a frente com a nossa fragilidade e debilidade; Cristo entende-nos, caminha à nossa frente, pega-nos ao colo quando não conseguimos caminhar. Sobretudo Cristo, o irmão que veio ao nosso encontro e que caminha conosco, aponta-nos o caminho para essa vida plena e definitiva que Deus nos quer oferecer.
• Toda a vida de Cristo cumpriu-se num intenso diálogo e numa total comunhão com o Pai. Através desse diálogo, Ele pôde discernir a vontade do Pai e conhecer os seus projetos. Pela oração, Ele encontrou forças para obedecer, para dizer “sim” e para concretizar os planos do Pai, mesmo nos momentos mais dramáticos da sua existência terrena. O caminho da doação total ao Pai não é um caminho impossível para os homens (Jesus, tornado homem como nós, demonstrou-o); mas é um caminho que os homens podem percorrer, apesar das suas fragilidades. É esse caminho que Jesus, o homem como nós, nos aponta. Temos espaço, na nossa vida, para dialogar com o Pai, para perceber os seus projetos para nós e para o mundo, para escutar os desafios que Deus nos faz? A nossa vida cumpre-se na indiferença para com Deus e para com os seus projetos, ou numa procura sincera e empenhada da vontade de Deus?
Evangelho – Jo 12,20-33 - AMBIENTE
O Evangelho que a liturgia do 5º domingo da Quaresma nos propõe situa-nos em Jerusalém, aparentemente no próprio dia da entrada solene de Jesus na cidade santa (cf. Jo 12,12-19). As multidões “que tinham chegado para a Festa” haviam aclamado Jesus como o rei/messias, encenando um rito de entronização e aclamando Jesus como “o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel” (Jo 12,12-13). De acordo com João, as pessoas colheram ramos de palma e saíram ao encontro de Jesus um gesto que está ligado, no folclore religioso judaico, à Festa das Cabanas, a festa que celebrava o tempo em que os israelitas viveram em tendas, ao longo da caminhada pelo deserto, após a libertação do Egito. O autor do Quarto Evangelho sugere, assim, que está a chegar ao fim o processo de libertação definitiva do Povo de Deus. Apresenta-se, assim, uma chave de leitura para entender a morte próxima de Jesus.
No quadro entram “alguns gregos” que “tinham subido a Jerusalém para adorar” e que queriam ver Jesus. Aqui, “grego” significa, provavelmente, “não judeu”. Podem ser prosélitos (estrangeiros convertidos ao judaísmo) ou simples simpatizantes do judaísmo.
Os “gregos” dirigem-se a Filipe, natural de Betsaida, uma cidade situada na tetrarquia de Herodes Filipe, já fora do território judeu propriamente dito. Curiosamente, “Betsaida” significa “lugar de pesca” (o que pode aludir à missão dos discípulos – ser “pescadores de homens” – Mc 1,17). Filipe vai falar com André a propósito do pedido e os dois apresentam o caso a Jesus.
A história dos “gregos” que querem “ver Jesus” vai servir de pretexto a João para uma belíssima catequese sobre o que significa “ver Jesus”.
MENSAGEM
Os “gregos” vieram a Jerusalém “adorar” a Deus no Templo; mas quiseram encontrar-se com Jesus, conhecer Jesus e o seu projeto, tomar contacto com a salvação que Ele veio oferecer (queriam “ver Jesus” – v. 21). Com isto, o autor do Quarto Evangelho sugere que o Templo e o culto antigo já não são mais os lugares onde o homem encontra Deus e a salvação; agora, quem estiver interessado em encontrar a verdadeira libertação deve dirigir-se ao próprio Jesus. Por outro lado, a salvação/libertação que Jesus veio trazer tem um alcance universal e destina-se a todos os homens – mesmo àqueles que vivem fora das fronteiras físicas de Israel (“gregos”).
Estes “gregos” não se dirigem diretamente a Jesus, mas aos discípulos. Haverá aqui, talvez, um aceno à responsabilidade missionária da comunidade de Jesus, encarregada da missão de levar Jesus a todos os povos da terra. O fato de Filipe falar primeiro com André e só depois os dois irem contar o que se passa a Jesus reflete a dificuldade com que as primeiras comunidades cristãs deram o passo para a evangelização dos pagãos. João quer, provavelmente, sugerir que a decisão de integrar os pagãos na comunidade de Jesus não é uma decisão individual, mas uma decisão que a comunidade tomou depois de haver consultado o Senhor.
Quem vai ao encontro de Jesus, o que é que vai encontrar? Um messias aclamado pelas multidões, preocupado em gerir a carreira e em manter a todo o custo o seu clube de fãs, que faz prodígios de equilíbrio para não desagradar às autoridades constituídas e não arruinar as suas hipóteses de êxito?
No horizonte próximo de Jesus, está apenas a cruz (a “hora”). Ele está consciente de que vai sofrer uma morte violenta e maldita, e que todos o vão abandonar como um fracassado. Paradoxalmente, Ele está consciente, também, que nessa cruz se manifestará a “glória” do Filho do Homem.
A morte de Jesus não é um momento isolado, mas o culminar de um processo de doação total de Si mesmo, que se iniciou quando “o Verbo Se fez carne e montou a sua tenda no meio dos homens” (Jo 1,14); é o último ato de uma vida de entrega total aos projetos de Deus, feita amor até ao extremo. Durante toda a sua existência terrena, Jesus procurou, em cada palavra e em cada gesto, tornar o homem livre de todas as opressões, dotá-lo de dignidade, dar-lhe vida em plenitude. Dessa forma, despoletou o ódio do sistema opressor, interessado em manter o homem escravo. Sem se assustar com a perspectiva da morte, cumprindo até ao fim o projeto libertador de Deus em favor do homem, Jesus levou avante a sua luta pela libertação da humanidade. A sua morte é a consequência do seu confronto com as forças da morte que dominavam o mundo.
Por outro lado, ao dar a vida por amor, Jesus deixa aos seus discípulos a última e a suprema lição, a lição final que eles devem aprender. Com a morte de Jesus na cruz, os discípulos aprendem o amor até ao extremo, o dom total da vida, a entrega radical aos projetos de Deus e à libertação dos irmãos.
O que é que nasce deste “dom” de Jesus? Nasce uma nova humanidade. É uma humanidade que Jesus libertou da opressão, da injustiça, dos mecanismos que geram sofrimento e medo… E é uma humanidade que venceu o egoísmo e que aprendeu que a vida é para ser dada, sem limites, por amor. Não há dúvida que o dom da vida dá abundantes frutos de vida. Na cruz de Jesus manifesta-se, portanto, o projeto libertador de Deus para os homens.
Quem quiser “conhecer” Jesus deve olhar para esse Homem que põe totalmente a sua vida ao serviço dos projetos de Deus e que morre na cruz para ensinar aos homens o amor sem limites. Deve aprender essa verdade que, para Jesus, é evidente: não se pode gerar vida (para si próprio e para os outros), sem entregar a própria vida. A vida nasce do amor, do amor total, do amor que se dá até às últimas consequências. Só o amor como dom total é fecundo e gerador de vida (“em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo caído na terra não morrer, permanece só; se morrer, produz muito fruto” – v. 24). Quem se ama a si mesmo e se fecha num egoísmo estéril, quem se preocupa apenas com defender os seus interesses e perspectivas, perde a oportunidade de chegar à vida verdadeira, à salvação. O apego egoísta à própria vida levará ao medo de agir, à dificuldade em comprometer-se, ao silêncio perante a injustiça – em suma, a uma vida de medo e de opressão, que é infecunda e não vale a pena ser vivida. Ao contrário, quem é totalmente livre do medo, quem se esquece dos seus próprios interesses e seguranças e se compromete com a luta pela justiça, pelos direitos, pela dignidade e liberdade do homem, quem ama tanto os outros que entrega a sua vida por eles, esse dará frutos de vida e viverá uma vida plena, que nem a morte calará. É esta vida que tem sentido e que leva o homem à realização plena.
Jesus viveu esta dinâmica da vida dada por amor, sem medo de enfrentar o “mundo” – isto é, sem medo de enfrentar esse sistema de opressão e de injustiça que pensava poder manter os homens escravos através do medo da morte. Jesus está livre desse medo e, portanto, está livre para amar totalmente. Àqueles que querem “ver Jesus” e conhecer o seu projeto, Ele propõe o mesmo caminho – o caminho do amor e da entrega total. Ser discípulo é colaborar com Jesus na libertação dos homens que ainda são escravos, mesmo que isso signifique enfrentar as forças de opressão do “mundo” e enfrentar a própria morte (“se alguém Me quer servir, siga-Me” – v. 26a).
Quem aceitar esta proposta permanece unido a Jesus, entra na comunidade de Deus (v. 26b). Poderá ser desprezado pelo “mundo”; mas será honrado por Deus e acolhido como seu filho (v. 26c).
O nosso texto termina com a “voz do céu” que glorifica Jesus (v. 28-32). É uma forma de mostrar que o caminho de Jesus tem o selo de garantia de Deus. A “voz do céu” assegura que a forma de viver proposta por Jesus é verdadeira e que Deus garante a sua autenticidade. Confirma-se, desta forma, aos discípulos que oferecer a vida por amor não é um caminho de fracasso e de morte, mas um caminho de glorificação e de vida.
ATUALIZAÇÃO
• A primeira leitura mostrava-nos a preocupação de Deus no sentido de propor aos homens uma nova Aliança, capaz de gerar um Homem Novo. Como é que chegamos a essa realidade do Homem Novo, de coração transformado (isto é, com um coração que pensa, que decide e que age segundo os esquemas e a lógica de Deus)? O Evangelho responde: é olhando para Jesus, aprendendo com Ele, seguindo-O no caminho do amor, acolhendo essa vida que Ele nos propõe. Jesus tem de ser o modelo, a referência, o exemplo de quem quer aceitar o desafio de Deus e viver na comunidade da nova Aliança. Na verdade, o que é que Jesus representa, para nós? Uma pequena nota no rodapé da história humana? Um idealista com boas intenções que fracassou no seu sonho de um mundo melhor? Um pensador original, mas cujas idéias e perspectivas parecem desfasadas face às novas realidades do mundo? Ou é o Deus que veio ao encontro dos homens com um projeto de vida nova, capaz de dar um novo sentido à nossa vida e de nos encaminhar para a vida plena, para a felicidade sem fim?
• O caminho que Jesus aponta aos homens é o caminho do amor radical, do dom da vida, da entrega total a Deus e aos irmãos. Este caminho pode parecer, por vezes, um caminho de fracasso, de cruz; pode ser um caminho que nos coloca à margem desses valores que o mundo admira e consagra; pode parecer um caminho de perdedores e de fracos, reservado a quem não tem a coragem de se impor, de vencer a todo o custo, de conquistar o mundo… No entanto, Jesus garante-nos: a vida plena e definitiva nasce do dom de si mesmo, do serviço simples e humilde prestado aos irmãos (sobretudo aos pequenos e aos pobres), da disponibilidade para nos esquecermos de nós próprios e para irmos ao encontro das necessidades dos outros, da capacidade para nos solidarizarmos com os irmãos que sofrem, da coragem com que enfrentamos tudo aquilo que gera sofrimento e morte. Estamos dispostos a seguir a proposta de Jesus?
• Jesus rejeita absolutamente o caminho da auto-suficiência, do fechamento em si próprio, do egoísmo estéril, dos valores efêmeros. Na lógica de Deus, trata-se de um caminho de perdedores, que produz vidas vazias e sem sentido, sofrimento e frustração, medo e desilusão. Quem vive exclusivamente para si próprio, quem se preocupa apenas em defender os seus interesses e perspectivas, quem se apega excessivamente a uma realização pessoal cumprida em circuitos fechados, “compra” uma existência infecunda e que não vale a pena ser vivida. Perde a oportunidade de chegar ao Homem Novo, à realização plena, à vida verdadeira, à salvação. Talvez nesta Quaresma Jesus nos peça que dispamos o nosso egoísmo e que nos convertamos ao amor…
• É através da comunidade dos discípulos que os homens “vêem Jesus”, descobrem o seu projeto, encontram esse caminho de amor e de doação que conduz à vida nova do Homem Novo, à salvação. Isto recorda-nos a nossa responsabilidade de testemunhas de Jesus e da sua salvação no meio dos homens do nosso tempo… Aqueles irmãos que se cruzam conosco nos caminhos da vida descobrem no nosso testemunho o rosto de Jesus? Todos aqueles que vêm ao encontro de Jesus à procura da vida plena encontram na forma como nos doamos, como servimos e como amamos a proposta libertadora que, através de nós, Jesus quer passar a todos os homens?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho


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Um clamor de justiça
I. Fazei-me justiça, ó Deus, e defendei a minha causa... Pois Vós, ó meu Deus, sois a minha fortaleza (1), rezamos na antífona de entrada da missa.
Grande parte da humanidade clama aos brados por uma maior justiça, por “uma paz melhor assegurada num ambiente de respeito mútuo entre os homens e entre os povos” (2). Este desejo de construir um mundo mais justo, em que se respeite mais o homem criado por Deus à sua imagem e semelhança, é parte fundamental da fome e sede de justiça (3) que deve palpitar no coração cristão.
Toda a pregação de Jesus Cristo é um apelo à justiça (na sua plenitude, sem reducionismos) e à misericórdia. O próprio Senhor condena os fariseus que devoram as casas das viúvas, enquanto fingem longas orações (4). E é o apóstolo Tiago quem dirige esta severa censura aos que se enriquecem mediante a fraude e a injustiça: As vossas riquezas estão podres [...]. Eis que brada aos céus o salário que defraudastes aos trabalhadores que ceifavam os vossos campos, e os gritos dos ceifadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos (5).
Fiel ao ensinamento da Sagrada Escritura, a Igreja pede-nos que nos unamos urgentemente a este clamor do mundo e o convertamos numa oração que chegue até o nosso Pai-Deus. Ao mesmo tempo, anima-nos e concita-nos a observar as exigências da justiça na vida pessoal, profissional e social, e a sair em defesa daqueles que – por serem mais fracos – não podem fazer valer os seus direitos. Não são próprias do cristão as lamentações estéreis. O Senhor, ao invés de queixas inúteis, quer que o desagravemos pelas injustiças que todos os dias se cometem no mundo, e que procuremos remediar todas as que possamos, começando pelas que estão ao nosso alcance, no âmbito em que se desenvolve a nossa vida: a mãe de família no seu lar e com as pessoas com quem se relaciona, o empresário na empresa, o professor na Universidade...
A solução definitiva para instaurar e promover a justiça em todos os níveis está no coração de cada homem, pois é nele que se forjam todas as injustiças existentes e que está a possibilidade de tornar retas todas as relações humanas. “O homem, negando e tentando negar a Deus, seu Princípio e Fim, altera profundamente a sua ordem e equilíbrio interior, o da sociedade e também o da criação visível. É em conexão com o pecado que a Escritura considera o conjunto das calamidades que oprimem o homem no seu ser individual e social” (6).
Por isso, nós, cristãos, não podemos esquecer que quando, mediante o apostolado pessoal, aproximamos os homens de Deus, estamos construindo um mundo mais humano e mais justo. Além disso, a nossa fé intima-nos urgentemente a nunca eludir o compromisso pessoal de sair em defesa da justiça, particularmente no âmbito dos direitos fundamentais da pessoa: o direito à vida, ao trabalho, à educação, à boa fama... “Cumpre-nos defender o direito, que todos os homens têm, de viver, de possuir o necessário para desenvolver uma existência digna, de trabalhar e descansar, de escolher o seu estado, de formar um lar, de trazer filhos ao mundo dentro do matrimônio e de poder educá-los, de passar serenamente o tempo da doença ou da velhice, de ter acesso à cultura, de associar-se com os demais cidadãos para atingir fins lícitos, e, em primeiro lugar, de conhecer e amar a Deus com plena liberdade” (7).
Na nossa esfera pessoal, devemos perguntar-nos se executamos com perfeição e intensidade o trabalho pelo qual nos pagam, se remuneramos devidamente as pessoas que nos prestam serviços, se exercemos responsavelmente os direitos e deveres que podem influir na configuração das instituições de que fazemos parte, se defendemos o bom nome dos outros, se saímos em defesa dos fracos, se fazemos silenciar as críticas difamatórias que podem surgir à nossa volta... É assim que amaremos a justiça.
II. Os deveres profissionais são um campo excelente para vivermos a virtude da justiça. Dar a cada um o que é seu – característica própria dessa virtude – significa neste caso cumprir aquilo a que nos comprometemos. O patrão, a dona de casa, o chefe, obrigam-se a remunerar as pessoas que trabalham às suas ordens de acordo com as leis civis justas e com os ditames de uma consciência reta, que muitas vezes irá mais longe que a própria lei.
Por seu turno, os operários e empregados têm o grave dever de trabalhar responsavelmente, com espírito profissional, aproveitando o tempo. A laboriosidade apresenta-se assim como uma manifestação prática da justiça. “Não acredito na justiça dos folgazões, porque com o seu dolce far niente – como dizem na minha querida Itália – faltam, e às vezes de modo grave, ao mais fundamental dos princípios da eqüidade: o do trabalho” (8).
O mesmo princípio se pode aplicar aos estudantes. Têm o grave dever de estudar – é o seu trabalho – e contraíram uma obrigação de justiça para com a família e a sociedade, que os sustentam economicamente para que se preparem e possam vir a prestar serviços eficazes.
Os deveres profissionais são, por outro lado, o caminho mais à mão com que contamos ordinariamente para colaborar na resolução dos problemas sociais e para intervir na construção de um mundo mais justo. No seu desejo de construir esse mundo, o cristão deve ser exemplar no cumprimento das legítimas leis civis, porque, se essas leis são justas, são queridas por Deus e constituem a base da própria convivência humana. Como cidadãos correntes que são, os cristãos devem ser exemplares no pagamento dos impostos justos, necessários para que a sociedade organizada possa chegar aonde o indivíduo pessoalmente seria ineficaz. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem imposto, imposto; a quem tributo, tributo; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra (9). É necessário, pois, submeter-se, não só por temor do castigo, mas por dever de consciência (10). Assim viveram os cristãos desde o começo as suas obrigações sociais, mesmo no meio das perseguições e do paganismo dos poderes públicos. “Tal como aprendemos dEle (de Cristo) – escrevia São Justino, nos meados do século II –, nós procuramos pagar os tributos e contribuições, integralmente e com prontidão, aos vossos encarregados” (11).
Entre os deveres sociais do cristão, o Concílio Vaticano II recorda “o direito e ao mesmo tempo o dever [...] de votar para promover o bem comum” (12). Desinteressar-se de manifestar a própria opinião nos diferentes níveis em que devemos exercer os nossos direitos sociais e cívicos seria uma falta contra a justiça, às vezes grave, se essa abstenção favorecesse candidaturas (tanto na composição dos parlamentos como na das associações de pais e mestres de um colégio, na direção de uma escola profissional, etc.) cujo programa se opusesse aos princípios da doutrina cristã. Com maior razão, seria uma irresponsabilidade, e talvez uma grave falta contra a justiça, apoiar organizações ou pessoas que não respeitassem na sua atuação os fundamentos da lei natural e da dignidade humana (aborto, divórcio, liberdade de ensino, respeito à família...)
III. “O CRISTÃO que queira viver a sua fé numa ação política concebida como serviço, não pode aderir – sem contradizer-se – a sistemas ideológicos que se oponham, radicalmente ou em pontos substanciais, à sua fé e à sua concepção do homem. Não é lícito, portanto, favorecer a ideologia marxista, o seu materialismo ateu, a sua dialética de violência e a maneira como entende a liberdade individual dentro da sociedade, negando ao mesmo tempo qualquer transcendência ao homem e à sua história pessoal e coletiva. O cristão também não apoia a ideologia liberal, que julga exaltar a liberdade individual subtraindo-a a qualquer limitação, estimulando-a mediante a procura exclusiva do interesse e do poder, e considerando as solidariedades sociais como conseqüências mais ou menos automáticas das iniciativas individuais, e não como fim e motivo primário do valor da organização social” (13).
Unimo-nos hoje a esse desejo de uma maior justiça, que é uma das características do nosso tempo (14). Pedimos ao Senhor uma maior justiça e uma maior paz, rezamos pelos governantes, como sempre se fez na Igreja (15), para que sejam promotores da justiça, da paz e de um maior respeito pela dignidade da pessoa. E, dentro daquilo que está nas nossas mãos, fazemos o propósito de introduzir as exigências do Evangelho na nossa vida pessoal, na família, no mundo em que cada dia nos movemos e do qual participamos.
Além do que cabe em sentido estrito à virtude da justiça, viveremos também aquelas outras manifestações de virtudes naturais e sobrenaturais que a completam e enriquecem: a lealdade, a afabilidade, a alegria... E sobretudo a fé, que nos dá a conhecer o verdadeiro valor da pessoa, bem como a caridade, que nos leva a comportar-nos com os outros muito além do que nos pediria a estrita justiça, porque vemos nos outros filhos de Deus, o próprio Cristo que nos diz: Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes (16).
Francisco Fernández-Carvajal


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O mistério pascal é a aliança definitiva,
presente de amor e redenção à toda humanidade
Desde sempre, o ser humano tem sua razão de existir para preencher uma lacuna, a de colaborar com o desenvolvimento do ato criador; de ser companhia eterna no grande projeto de Deus de ser plenamente realizado contemplando o resultado de sua criação, por outro lado, a criatura contemplaria tudo o que fora criado, encontrando em si e para si o próprio Criador. É um plano de felicidade plena, não fosse a tendência natural do homem de querer retirar Deus da centralidade de sua vida, e ocupar, a partir daí, esta centralidade. E nisto consiste o pecado motivador do distanciamento, da ruptura desta amizade.
A iniciativa da reaproximação coubera então a Deus, que na sua extrema pureza, poderia refazer a aliança, diferentemente do da criatura, que na sua natureza sujeita à corrupção do pecado, não poderia ir além de um sacrifício imperfeito e efêmero; o sacrifício na Antiga Aliança tinha justamente estas características, por isso era necessário, de acordo com a lei, realizá-lo anualmente, em peregrinação ao centro religioso e político, o templo de Jerusalém.
Tornando-se humano, Deus, na Pessoa do Filho pôde então conhecer a natureza humana em todas as suas entranhas e, como prometera, elevado à cruz pôde então cumprir sua promessa de reconstruir o templo corrompido, em três dias, na sua glorificação, sua ressurreição, e nele, também fomos ressuscitados, uma vez que tornou-se um de nós, tornou-se também premissa da salvação. A lei não esta mais impressa na lápide, mas no coração e na mente do ser humano que doravante, adere a este projeto de salvação, e todo homem torna-se capacitado a ser divinizado a partir deste acontecimento histórico, e ao mesmo tempo, místico, isto é, do âmbito da fé.
Por isso engana-se quem acredita ser ministro, portador da salvação, intermediário da conversão alheia; todos nós, batizados pelo Espírito do Senhor, somos nada mais que sujeitos da salvação, a qual Jesus nos concedeu por adoção; a promessa é bastante clara: “não será mais necessário ensinar seu próximo, ou seu irmão dizendo: ‘Conhece o Senhor!’; todos me reconhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor, pois perdoarei sua maldade, e não mais lembrarei o seu pecado” (Jr. 31,34).
A dialética da salvação é esta: a negação do obvio. Seguir Jesus não é senão, entregar a vida pelos propósitos divinos de ver na terra a redenção da condição humana daquele primeiro momento da criação, onde Deus viu que tudo era perfeito, é negar aos privilégios de uma vida protegida pela corrupção a qual o mundo nos oferece e nos aprisiona, pois é nesta negação que Deus se manifesta plenamente e com todo o seu poder. Neste mundo, distanciado de Deus, quando pensamos estar seguros e vivos é que a morte se faz mais presente, e é neste contexto que Deus nos apresenta a possibilidade de sermos Nele e com Ele eterna e verdadeiramente felizes. 
Jesuel Arruda

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Evangelho: Jo 12, 20 – 33
1. Dois versículos sintetizam o tema do evangelho de hoje. O primeiro nasce da constatação dos fariseus no v. 19 b: “vejam como vocês não conseguem nada. Todo mundo vai atrás de Jesus”. O segundo é a própria afirmação de Jesus: “quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (v. 32).
2. O texto inicia afirmando que “havia alguns gregos entre os que tinham ido à festa para adorar a Deus” (v. 20). Aqui os gregos representam todos os que não são judeus. (As comunidades joaninas foram se formando a partir de um grupo judeu que, mais tarde, “incluiu” samaritanos e pagãos). Para João, é o momento em que começa a se realizar o que Jesus dissera em 10,16: “tenho também outras ovelhas que não são deste curral. Também a elas eu devo conduzir; elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”. Os gregos são “essas ovelhas”. Eles vão ao templo mas, em vez de entrar, vão a Jesus: “Eles se aproximam de Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e disseram: “Senhor, queremos ver Jesus” (v. 21). Note-se o detalhe: Filipe e André são nomes gregos.
3. E Jesus, em vez de falar com os “gregos”, se dirige aos discípulos, afirmando que ”chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado” (v. 23). Esse detalhe é importante, pois caberá à comunidade abrir novos horizontes, levando a humanidade inteira a fazer experiência de Jesus.
4. É chegada a “hora” de Jesus anunciada em 2,4. O evangelho de João, desde o início, aponta para o momento culminante da hora, isto é, a glorificação de Jesus e do Pai ao mesmo tempo. A glória é a manifestação do amor fiel de Deus, concretizado em Jesus que entrega sua vida. Jesus é a teofania (manifestação) de Deus, o templo de Deus que reúne todos para a comunhão e a vida.
5. Os versículos seguintes desenvolvem esse tema. Em primeiro lugar, Jesus é o grão de trigo que cai na terra e morre para produzir fruto (v. 24). Ele optou desaparecer, ser esquecido, morrer. A morte é a condição para que o grão libere a capacidade de vida que possui. Se não morre também não gera vida. Se morre, de um só grão nascem muitos.
6. A maioria de nós, – ao contrário de Jesus, – tem medo de morrer. O evangelho nos diz que a vida fica frustrada quando temos medo da morte (v. 25), pois o amor é verdadeiro somente quando está disposto a doar-se totalmente, desaparecendo, sendo esquecido, morrendo… É próprio dos regimes de força incutir medo nas pessoas, e o medo maior é o de ter que morrer de forma violenta, como tem acontecido em muitos casos em nosso país e na América Latina.
7. Os regimes de força se fortalecem quando temos medo de entregar a vida por aquilo que acreditamos. Jesus não tem medo de morrer, embora sinta forte-mente a carga psicológica que isso implica (cf. v. 27: “agora me sinto angustiado”). Qual é a força que anima os cristãos diante disso? “Quem ama sua vida, a perde; e quem despreza sua vida neste mundo, a conserva para a vida eterna. Se alguém quer me servir, que me siga; e onde eu estiver, estará também o meu servo. Se alguém me serve, o Pai o honrará” (vv. 25-26). A expressão “onde eu estiver” recorda a morte, mas também a ressurreição, “honra” que o Pai confere a quem segue os passos de Jesus.
8. Jesus não foge do confronto: “foi precisamente para esta hora que eu vim” (v. 27b). Sua firme decisão é comprovada pelo Pai. É dele a voz que vem do céu (cf. v. 28b), embora os presentes a interpretem como um trovão ou um anjo (v. 29). Para João, trata-se de uma teofania (manifestação de Deus) que aprova as opções de Jesus e confirma o caminho de seus seguidores: “esta voz que vocês ouviram não foi por causa de mim, mas por causa de vocês (v. 30; leia 1Sm. 12,15-17 e compare).
9. Com sua morte Jesus sela a aliança de Deus com a humanidade, mas, ao mesmo tempo, provoca a sociedade para um confronto ou julgamento (v. 31). Sua hora é, ao mesmo tempo, a revelação do amor fiel, a glorificação do Pai e do Filho, e o desmascaramento da sociedade injusta e infiel que patrocina a morte. O “chefe deste mundo” (v. 31b) é o sistema que matou Jesus, o “pecado” que o Cordeiro veio tirar do nosso meio (cf. 1,29).
10. O tema do julgamento é muito importante no evangelho de João. Jesus não veio para condenar o mundo, mas para salvar (cf. 3,17). Porém, a morte de Jesus – e de todos os que, como ele, foram privados de viver – desmascara os regimes de força que matam para intimidar. Alguém tem que ser responsabilizado pelas mortes que acontecem em nosso meio. Deus é a favor da vida. E nós, como nos posicionamos? Jesus é o rejeitado que atrai (v. 32). Também nisso se realiza hoje o julgamento de Deus. O marginalizado e o crucificado continua atraindo, e todos os sofredores, “querem ver Jesus”. Nossas comunidades percebem isso? Já conseguem mostrar-lhes Jesus?
1ª leitura: Jr. 31,31–34
11. Os capítulos 30 e 31 de Jeremias são chamados de ”livro da consolação de Israel’. A característica principal desses capítulos é a esperança de reconstrução da vida nacional do povo de Deus, às portas do exílio da Babilônia.
12. Jeremias fez uma experiência ímpar de Deus em sua vida: raptado por Deus e por ele conquistado desde o ventre materno, viveu sozinho e só para Deus, conhecendo-o a partir do sofrimento, solidão e rejeição social.
13. Os versículos que compõem esta leitura, um dos pontos altos de todo o Antigo Testamento, só poderiam nascer do coração de um profeta como Jeremias. E todos os profetas de hoje, que puseram em segundo plano interesses pessoais e até a continuidade da vida que se prolonga nos filhos, descobrirão neles a mística que anima seus passos e os faz caminhar apesar dos temores e conflitos.
14. O texto fala de nova aliança, diferente da que Deus concluiu com o povo quando o tirou da escravidão egípcia (vv. 31-32). Ela é nova por duas razões: não se trata mais de uma aliança externa, ritual e jurídica, e não precisará mais de mediações (vv. 33-34). A aliança do Sinai era externa. O contrato fora registrado em pedras e possuía caráter jurídico. Jeremias percebeu a caducidade de tais leis, seja porque não respondiam ao anseio profundo do ser humano, seja porque as mediações (sacerdócio, templo, sacrifícios, lideranças político-religiosas) não foram capazes de traduzir um código de leis em vida, e em experiência pessoal do Deus libertador.
15. A nova Aliança é interna, gravada no fundo do ser e no coração de cada pessoa, “nas entranhas” (v. 33), e dispensa as mediações (v. 34), pois é capaz de gerar uma experiência pessoal e insubstituível do Deus da vida que fala a partir dos anseios de cada pessoa de todos os tempos e lugares. Deus, portanto, se alia à humanidade – a partir daquilo que ela possui de mais sagrado, – o desejo de viver em liberdade e na fraternidade.
16. Diante disso a gente se pergunta:
- que sentido tem as mediações existentes hoje se a Nova Aliança se realizou, para nós, em Cristo Jesus?
- Não estamos, – ainda, – vivendo num regime de aliança antiga? Não é fácil responder.
- No fundo todo ser humano aspira à liberdade e à vida, e é justamente nisso que Deus é nosso eterno aliado. Mas a liberdade e a vida são prerrogativas de todo ser humano, e não de uma minoria.
- Aqui reside a fonte de todos os conflitos, pois os que desejam liberdade e vida só para si jamais poderão afirmar que fizeram a experiência do Deus libertador.
2ª leitura: Hb. 5,7–9
17. O sacerdócio de Cristo. A assim chamada “carta aos Hebreus” não é uma carta, e sim, um discurso sobre o sacerdócio de Cristo. O autor é um cristão anônimo que, (aí pelo ano 80), escreveu a cristãos tentados de desânimo e em perigo de rejeitar a fé em Jesus revelador e portador da salvação. Os motivos de desalento desses cristãos eram: o ter de suportar sofrimentos por serem cristãos, a vontade de retornar às formas já superadas do culto judaico e o afrouxa-mento diante da demora da salvação final.
18. O nosso texto pertence a uma parte que pode ser intitulada: Jesus, Sumo Sacerdote, digno de fé e misericordioso (3,1-5,10). Ele é digno de fé porque preencheu todos os requisitos que Deus tencionava realizar. Sua credibilidade perante Deus foi plena (3,2-6). Por isso, a humanidade adere a ele com plena confiança (3,7-4,14). Sendo plenamente confiável perante Deus, ele é também Sumo Sacerdote misericordioso em relação às pessoas (4,15), por ter experimentado nossa condição humana, conhecendo nossas fraquezas. Por meio do sofrimento tornou-se obediente de uma obediência tal que, se as pessoas a fizerem sua – aderindo a ele, – saborearão a salvação definitiva (5,9).
19. Condições para ser sumo sacerdote. O AT impunha algumas condições para que alguém pudesse ser sumo sacerdote. Uma delas (à primeira vista parece ser tão evidente), prescrevia que o sumo sacerdote fosse semelhante às pessoas pelas quais iria interceder junto a Deus com orações e apresentação de sacrifícios. Esse dado nos ajuda a entender melhor os versículos do nosso texto. Jesus é um ser humano como qualquer um de nós (cf. 5,1). Não só. Ele experimentou a dura realidade da vida das pessoas, vivendo o dia-a-dia do sofrimento humano. Para entender a vontade de Deus a seu respeito, serviu-se da oração: “durante sua vida na terra, Cristo fez orações e súplicas a Deus, – em alta voz e com lágrimas, – ao Deus que o podia salvar da morte. E Deus o escutou, porque ele foi submisso” (v. 7).
20. A oração de Jesus não é fuga. O v. 7 recorda o que aconteceu com ele no Getsêmani. Jesus não escapou da morte na cruz. Sua oração foi atendida quando o Pai o ressuscitou dos mortos, depois de ter sido obediente até o fim.
21. A obediência de Jesus é perfeita. Os sumos sacerdotes do passado ofereciam sacrifícios por si e pelo povo que representavam. Mas o sacrifício era externo a eles. Jesus, ao contrário, é ao mesmo tempo o Sumo Sacerdote e o sacrifício oferecido, não para si próprio, mas em vista da purificação e salvação do povo: “depois de perfeito, tornou-se a fonte de salvação para todos aqueles que lhe obedecem” (v. 9).
R e f l e t i n d o
1. “Dias virão”: esta expressão, no AT, muitas vezes soa como uma ameaça. Hoje, porém, anuncia uma promessa das mais carinhosas: uma nova Aliança (1ª leitura). A antiga tinha sido rompida demasiadas vezes. Ficou gasta. Deus recorre ao último recurso: uma nova Aliança, diferente da anterior. A Lei não mais estará escrita em tábuas de pedra ou em rolos de papel (como os dos escribas), mas no coração de cada um. E ninguém mais precisará de mestre, pois todos conhecerão Deus. E Deus os acolherá, esquecendo seus pecados.
2. O evangelho nos apresenta Jesus Cristo como cumprimento desta promessa. Chegou a “hora”, hora de “glorificação”. Glorificação de Cristo pelo Pai, do Pai por Cristo (Jo 12,23.28; cf. 13,31; 17). Pois a glória é o atributo mais próprio de Deus. Sem sua vontade, não há glória para o Cristo. E esta vontade manifesta-se, de modo dramático, numa antecipação da agonia de Jesus: “Salva-me dessa hora, Pai”.
3. A 2ª leitura, Hebreus 5, comenta esse momento, na conclusão de sua exposição referente a Jesus Cristo, Sumo Sacerdote e Mediador: aquele que participa em tudo de nossa condição humana, menos no pecado. Participa do abismo da agonia. Grita a Deus entre lágrimas, e é por ele ouvido, tirado, não da morte, mas da angústia da morte, porque se sabe na mão de Deus. Jesus sabe que Deus está com ele: eis o que ele “aprendeu” (Hb. 5,8).
4. Assim também em João: na hora da completa angústia (12,27: “Pai, salva-me desta hora”), Jesus reconhece a vontade de Deus, não como algo terrível, mas como glória, ou seja, o íntimo de Deus revelando-se no amor de seu Filho para os seus: “Pai, glorifica teu nome” (12,28). Também nossa vocação, na “Nova Aliança”, é: conhecer Deus de perto (cf. 1ª leitura), do modo como Jesus o aprendeu (2ª leitura e evangelho).
5. O tema da aprendizagem divina é comentado no Salmo 51 Miserere, inspirado em Jr. 31: pede um coração novo, um espírito puro. Exprime com acerto a aspiração que animou o “nosso tempo de quarenta dias”, que chega ao fim. Só falta ainda a etapa final da aprendizagem – a de Cristo e a nossa: a morte na cruz.
6. Conhecer Deus, seu modo de ser e de agir: “se o grão de trigo não morre na terra, fica só; mas se morre, produz muito fruto”. È a “lei do grão de trigo”, o modo de agir de Deus, a instrução da Aliança definitivamente renovada. Deus sabe que o endurecimento de coração do agressor, só é vencido pela vítima. Quando o agressor a quer abafar, a verdade do amor se afirma. É a força da flor sem defesa. A justiça se vê afirmada e vencedora na hora em que a violência a quer suprimir. Os exemplos da “lei do grão de trigo” são muitos em nosso mundo e na América Latina. Pois essa lei vale não só para Jesus, mas também para seus seguidores: “Quem quer servir-me, siga-me, e onde estiver eu, estará também aquele que me serve, e meu Pai o honrará” (12,26).
7. O homem moderno talvez se revolte diante desta temática: tal Deus é um opressor! Seria, se não fosse ele mesmo o primeiro envolvido, pois se trata de seu Filho. O que o Filho aprende é o que Deus é. Deus o atende, comungando com ele, na mútua comunicação da glória (Jo 12,28), vitória sobre o príncipe deste mundo (Jo 12,31). Também isso acontecerá – e já deveria estar acontecendo – conosco: comungar com o mais íntimo de Deus na nossa total doação aos seus filhos, vencendo o mal que os oprime.
8. No 1º domingo da quaresma esboçou-se a luta de Jesus contra o poder do mal. Hoje, – ao aproximar-nos da semana santa, – descobrimos a arma com a qual Jesus venceu seu adversário: a obediência no amor até o fim.
9. A lei de Deus, a lei do amor – impressa no coração de cada um de nós, – não é algo externo, (algo imposto de fora), mas algo que brota – e deve brotar sempre – do mais íntimo do nosso coração. É algo que precisamos redescobrir… e mais do que isso colocar em prática. Essa semente, escondida como grão, frutificará em atitudes solidárias, fraternas, humanitárias, políticas, sociais. Eis o grande desafio! Seremos capazes de “morrer” em relação aos nossos proveitos imediatos, a fim de que brote aquilo que, – profundamente, – sabemos ser verdadeiro e justo?
10. O profeta Jeremias denuncia – a cada um de nós – que reduzimos a prática do amor a um mero preceito jurídico. Por isso, não respeitamos nem nos empenha-mos em cumpri-lo para provar a nós mesmos que somos independentes (= os tais) e podemos inventar nossos próprios mandamentos, nossas próprias leis. Esta é a nossa maior declaração de que ninguém manda em nós, que somos os donos do nosso nariz, os donos do mundo (… e o pior é que acreditamos nisso!). Isso = nosso orgulho é maior que tudo.
11. Acontece que o Senhor – na sua misericórdia, na sua bondade (que é diferente de orgulho) - gravou no nosso coração e no coração de todo mundo uma lei especial, a lei do amor, da fraternidade, da solidariedade, da justiça, da partilha… Se não a quere-mos seguir é por pura “cabeçudice”, “burrice”. Ninguém precisa nos ensinar estas coisas, elas são inatas (= nasceram conosco, queiramos ou não), fazem parte da nossa vida.
12. Nesse mundo de hipocrisia, falsidade, mentira, em que vivemos, onde os valores humanos (só humanos…) estão invertidos, nossa vida só ganhará sentido se nos voltarmos para re-descobrir os valores (humanos e divinos) que moram dentro de nós, gravados em nosso coração. Aí então, entenderemos a mensagem do Jesus de Nazaré: se o grão de trigo não morre para si mesmo, não consegue frutificar … isto é, não dá em nada… acaba para sempre… desintegra-se…
13. Queixamo-nos da vida… que falta sentido para viver… que não somos felizes … que não vivemos contentes… Mas é lógico! Buscando-nos unicamente a nós mesmos, vivemos olhando só para nosso umbigo, para nossos interesses egoístas, para nosso único bem-estar… realmente é impossível conseguir qualquer gota de felicidade.
14. Ou tenhamos a coragem de enfrentar o desafio de Jesus ou não conseguiremos nunca sermos felizes. Se Jesus tivesse dissimulado – na hora da paixão – e buscado escapar da cruz (… como nós estamos acostumados a fazer), não teria havido ressurreição, não teria havido domingo de Páscoa. Apesar de ter sentido medo, Jesus não trapaceou, mas se entregou (grão de trigo), em lealdade e fidelidade, ao desígnio do Pai, por amor ao mundo. A grande descoberta a fazer e a aprender: amar é fazer do amor a prioridade radical da vida… e só é amor, se for até o fim (isto é = chegar até a entrega total, na cruz).
15. Paulo nos faz saber que Jesus aprendeu, – sofrendo, – a obedecer e que nós, nos momentos de escuridão, de desânimo, de dor e de angústia, – como Jesus, – devemos novamente aprender a obedecer.
16. Cada um de nós já viveu “situação-limite”, – quando, acreditando ter domínio completo sobre nós e sobre o mundo ao nosso derredor e uma fé inabalável, – nos defrontamos com situações e provações que exigem uma re-atualização das forças da nossa fé e um re-aprender a esperança, a partir do zero. Esta é a hora de nos defrontar-mos com o Crucificado: olhar longamente para ele e deixá-lo entrar em nós.
17. Jesus nos legou o testemunho da sua vida para que – ao seguir o seu caminho - tenhamos um novo olhar sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre a natureza, sobre o futuro das nossas vidas. Descortinar no horizonte a realidade que acontecerá, ver na ressurreição o significado para o sofrimento presente, ver na vida eterna a explicação da dor, do sofrimento, da morte. Vale as palavras de Roger Garaudy: “ver a borboleta na larva, a santa na prostituta, a águia no ovo, o irmão em meu próximo e em meu distante, e, no sorriso efêmero do jasmim, a ressurreição eterna da primavera” (da reflexão do P. Paulo Botas, mts)
18. Eu sou o vosso Deus, e vós sois o meu povo! Deus disse que é o seu Deus, o meu Deus, o nosso Deus! Mesmo sendo Filho de Deus, aprendeu o que significa obediência por aquilo que sofreu! Quem se agarra à sua vida, perde-a. Quem despreza sua vida neste mundo, guarda-la-á para a vida eterna!
prof. Ângelo Vitório Zambon


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1. O caminho quaresmal que a liturgia está nos oferecendo, não é apenas um itinerário espiritual, mas também existencial. Fitar os olhos em Jesus, como a liturgia quaresmal exige, não é apenas uma busca de mais intensidade espiritual, mas visa aprimorar o conhecimento daquele que revela o homem ao homem. Nessa altura, podemos afirmar que quanto mais conheceremos a Jesus tanto mais melhoraremos a nossa humanidade. E é este, também, o sentido profundo de uma autentica caminhada de fé: o aprimoramento da nossa natureza, para uma existência mais plena e realizada.
 Neste sentido, as leituras de hoje nos oferecem pelo menos três conselhos.
2. “Imprimirei minha lei em suas entranhas e hei de inscreva-la em seu coração” (Jer 31,33).
O primeiro caminho rumo uma humanidade mais autentica, é o caminho da interiorização. Conforme a profecia de Jeremias, depois de Jesus é impossível conhecer a Palavra de Deus e os seus mandamentos, a não ser através de um constante esforço de interiorização. Através do Batismo, de fato, o Espírito Santo derramou o amor de Deus em nós (cf. Rom 5,5). É no nosso coração que Deus decidiu escrever a sua lei, para que cada homem e mulher tivessem a possibilidade de ter acesso a sua Palavra. Só que para isso acontecer, é necessário um caminho de interiorização, que leve progressivamente as pessoas ao centro de si mesmas, para aprender a lei que Deus escreveu no coração. Uma vida mais silenciosa, marcada para uma busca constante de Deus, deve ser a característica do cristão.
“Não sair de ti mesmo, mas entra em ti mesmo, pois é dentro de ti que a verdade mora” (S. Agostinho). Um cristão é tanto mais sábio quanto mais não desperdiça as forças espirituais fora de sim, mas aprende os benefícios da vida interior procurando o silencio fora e dentro de sim. É, de fato, dentro de sim, que o cristão aprende que Deus exige uma reposta pessoal. Somente saindo do mundo da multidão anônima rumando o caminho da interioridade, o cristão conseguirá aprender a própria identidade de filho amado pelo Pai, filho chamado a manifestar o amor do Pai no mundo.  
3. Mesmo sendo filho aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu” (Heb. 5, 8).
O segundo conselho que a liturgia da Palavra hoje nos oferece, para uma humanidade mais conforme a imagem de Deus que em Cristo se revelou, é a capacidade de integrar o sofrimento na própria experiência existencial. Se for verdade que o mundo faz de tudo para afastar e distrair o homem de qualquer forma de sofrimento e dor, do outro lado a Palavra de Deus encarnada em Jesus, nos revela que o sofrimento é caminho necessário para o amadurecimento da humanidade. De fato, qualquer experiência de sofrimento, seja física que espiritual, exige uma resposta pessoal. Ninguém pode ser substituído na ora da dor: sou eu mesmo que sofro e nenhum outro. O mundo busca distrair o homem no momento da dor por causa do medo da solidão que ela provoca. O mundo aborreci a solidão, pois nela surge a possibilidade de o homem se escutar e, desta maneira, de escutar também a voz de Deus. É isso que Jesus nos ensina. Na hora da dor não se fechou em si mesmo, procurando aliviar de qualquer forma o sofrimento, mas no silencio buscou a consolação do Pai. É no sofrimento que de uma forma mais profunda e autentica, o homem encontra a possibilidade de fazer a experiência de Deus. É no sofrimento que o homem vive ao mesmo tempo a experiência do tempo presente e do próprio limite. Por isso mais uma vez, é o sofrimento que Deus, de uma maneira toda especial e profunda se oferece ao homem para um conhecimento novo. Sem duvida nenhuma o homem naturalmente foge da experiência da dor. A Igreja, mestra de humanidade (Paulo VI), ajuda o homem a encontrar-se com Deus, ajudando-o a não fugir da própria dor, da própria cruz. A Igreja poderá fazer isso somente se ela mesma, nos seus lideres e nos fieis, saberá viver aos pés da cruz. Esta é a misteriosa vocação da Igreja.
Esta escuta de Deus, que o homem realiza no momento da dor, visa criar um coração obediente. Jesus, diz o texto da carta aos Hebreus, aprendeu a obediência. Isso quer dizer duas coisas. Em primeiro lugar, que o homem não nasce obediente: é algo que deve ser alcançado. Então, se apesar de tantos esforços espirituais, encontramos ainda em nós traços de desobediência, não podemos ficar aflitos demais: a obediência é algo que aprenderemos ao longo do caminho da vida. Do outro lado a carta aos Hebreus nos ensina que a obediência é exatamente o fruto da caminhada de fé.
4. O ultimo conselho que podemos abstrair das leituras e hoje, o encontramos no Evangelho.
“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto” (Jo. 12, 24).
Ninguém quer ser “só um grão de trigo”, ou seja, apenas um homem, uma mulher. Deus criou o homem, a mulher para serem filhos e filhas de Deus: é este o fruto que devemos produzir, a grande vocação á qual Deus nos chamou! Só que, para realizar isso, existe um preço a ser pago ou seja, a morte dos nossos instintos egoístas ou, como diria São Paulo, a morte do homem velho (Col. 3,1 ss.)O problema é serio porque, na realidade, somos apegados de mais ao nosso homem velho. Apesar do caminho de fé, muitas vezes, nas horas decisivas da vida, não é a Palavra de Deus que procuramos, mas os nossos critérios humanos. É o nosso egoísmo a lei que, apesar de tudo, guia a nossa existência. Vaidade, ciúme, inveja, etc., são todos sentimentos que desvendem o apego a nós mesmo, a nossa vida, ao nosso jeito de viver do qual não queremos abrir mão de jeito nenhum. Por isso em tantos jovens que Deus chama para uma vida de consagração plena a Ele, se encontra tanta resistência, que muitas vezes, desemboca numa recusa. Quem não se decide, é o egoísmo que irá se decidir para ele. Quem tentar segurar a própria vida, adiando uma decisão definitiva, perderá-la-á para sempre. Decidir-se para Deus, tomando nas mãos a própria vida e não deixando a vida me arrastar aonde ela quiser, é morrer ao mundo.
Quem morrer ao mundo viverá para Deus, em Deus, com Deus.
padre Paolo Cugini
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“A morte não tem a última palavra”
Refletimos no domingo passado (18) sobre o texto do Evangelho (João 2,13-25) que apresentou o episódio do Templo. Concluímos que o Reino de Deus está ao alcance de todos; que muitas pessoas por opções que fazem se excluem e se fecham diante de Deus, preferindo o caminho das trevas. Aprendemos que a melhor opção é o caminho de luz que é Jesus. Neste 5º Domingo da Quaresma o evangelista usa a imagem da semente para significar o caminho pelo qual Jesus irá passar (João 12,20-33). Estamos chegando ao final da Quaresma, aproxima-se a celebração da Semana Santa e recordaremos o momento mais alto da vida de Jesus: Sua morte na cruz e sua ressurreição no 3º dia. Olhando para Jesus no momento de sua morte, compreendemos esta passagem do Evangelho de hoje. “Se o grão de trigo caído na terra não morrer, fica só; se morrer produz muito fruto”. Jesus ensina que a morte não tem a última palavra. A morte é apenas uma passagem (travessia), pois é necessário que o grão de trigo caia na terra e morra para poder produzir frutos. O sacrifício na cruz foi um passo necessário para firmar a Nova Aliança que Jesus selou com seu sangue derramado para que todos tenham vida. Portanto, a morte não tem a última palavra. Cristo Jesus ressuscitou e com Ele também nós ressuscitaremos. A cruz transforma-se em sinal de vida. O símbolo que o cristão leva consigo, é sinal do triunfo da vida sobre a morte.
A grande festa da Páscoa Cristã se aproxima. Nestes poucos dias que faltam queremos jejuar alegremente de certas coisas e também fazer festa de outras: Queremos jejuar de julgar os outros e festejar porque Deus habita neles; jejuar das trevas da tristeza e celebrar a luz; jejuar de pensamentos e palavras doentias e alegrar-se com palavras carinhosas e edificantes; jejuar do ódio e festejar a paciência santificadora; jejuar de preocupações, queixas e egoísmos e festejar a esperança;
Pedro Scherer


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