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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 8 de abril de 2015

OS "TOMÉS" DE HOJE

2º DOMINGO DA PÁSCOA

12 DE ABRIL DE 2015
ANO B

-OS "TOMÉS" DE HOJE-José Salviano


EVANGELHO - JO 20,19-31

Os "Tomés" do mundo atual estão por toda parte, questionando a nossa prática da fé, rindo de nós por vivermos o amor de Cristo, por nos dedicar aos trabalhos da paróquia, etc. Leia mais
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“A PAZ ESTEJA CONVOSCO. COMO O PAI ME ENVIOU, TAMBÉM EU VOS ENVIO!” – Olívia Coutinho

 

II DOMINGO DA PÁSCOA


Dia 12 de Abril de 2015

Evangelho  de  Jo 20,19-31

Ainda ecoa em nossos corações,  o anuncio Pascal, a notícia mais bela que já se ouviu em todo o universo: JESUS CRISTO RESSUSCITOU, ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS!
As celebrações  do domingo da Páscoa, falaram fundo ao nosso coração, nos  envolveu no mistério da vida que a morte não venceu! Mas não podemos ficar somente no encantamento das celebrações,  precisamos voltar para o nosso cotidiano, pois é no nosso dia a dia, que iremos testemunhar a ressurreição de Jesus, assumindo o compromisso de retirar da cruz, os muitos irmãos crucificados pela falta de pão, de moradia, em fim, pela falta de justiça.  É hora de assumirmos a nossa missão de continuadores da presença de Jesus, no meio em que vivemos, fazendo chegar  a outros  corações, a Luz do Cristo ressuscitado!
“A liturgia de hoje, nos apresenta a comunidade de Homens Novos, que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus, que é a Igreja! A missão da Igreja consiste em revelar aos homens a vida nova que brota da ressurreição”.
Assim que Jesus aparece para os discípulos, o medo, que os mantinha presos, dá  lugar a  coragem! A paz do Cristo Ressuscitado, não  isentou os discípulos da cruz, mas ofereceu  a eles  força e coragem para carregá-la!
Ao soprar o Espírito Santo sobre os discípulos, Jesus nos recorda o sopro de Deus, que deu  vida a criatura humana!  Gesto que Jesus repete como início de uma nova criação. “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhe serão  perdoados;  a quem  não perdoardes, eles lhe serão retidos”.  Aqui se trata da  transmissão do Espírito Santo para uma missão particular. (Só  em   Pentecostes, que a descida do Espírito Santo seria sobre todo o povo de Deus). Com o sopro do Espírito Santo, Jesus concede o poder de perdoar ou não perdoar os pecados, a um grupo específico de pessoas que hoje nós chamamos de sacerdote. É Deus quem tem o poder de perdoar os pecados, mas Jesus concede este poder e o transmite à sua Igreja, através dos discípulos. Trata-se do “sacramento da reconciliação. É importante termos em mente, que “reter os pecados", não significa condenação, e sim, um renovado apelo à conversão.
No sopro do Espírito Santo, sobre os discípulos, é expressa a criação renovada! É O Espírito Santo que recria a comunidade dos apóstolos e descerra suas portas para a missão!
Os discípulos só conseguiram tomar atitudes corajosas para anunciar o evangelho, depois que receberam o Espírito Santo!
O Texto nos fala também da incredulidade de Tomé. Muitos de nós, vemos Tomé, como  um homem  sem fé, pois o próprio Senhor o exorta dizendo: “Não sejas incrédulo, mas fiel”!  Além do mais, ele não aderiu a fé  quando os discípulos  atestaram que haviam visto Jesus. Tomé  não  acreditou  no testemunho deles, pretendendo  uma constatação pessoal. Esta postura de Tomé, simboliza  todos  que precisam ver para crer. Entretanto, foi  por meio de Tomé,  que recebemos a belíssima promessa de Jesus: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto”. Mesmo antes da nossa existência, já estávamos incluídos nesta Bem aventurança!  Somos felizes porque cremos na ressurreição de Cristo!
“As pessoas de todos os tempos e lugares encontram nas Escrituras o testemunho dos discípulos, mas  isso não dispensa a necessidade de um encontro pessoal e íntimo com o Ressuscitado”! O encontro com Jesus é  transformador, foi o que aconteceu com Tomé, depois do seu vacilo na fé, ele se prostrou  diante do Cristo Ressuscitado e fez a belíssima  profissão de fé, que hoje nós fazemos na celebração Eucarística : “MEU SENHOR E MEU DEUS”!
Com a  ressurreição de Jesus, a vida divina entrou na vida humana e  assim como as sementes espalhadas pelo vento, o anúncio da ressurreição  se espalhou por  todos os rincões da terra, chegando  até a nós.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

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Há oito dias atrás, no primeiro dia após o sábado dos judeus, ao anoitecer, Jesus ressuscitado entrou onde estavam os discípulos e lhes disse: “A paz esteja convosco!” Há oito dias, no dia da Ressurreição, o nosso Jesus, vencedor da morte, enviado pelo Pai no Espírito Santo, soprou esse mesmo Espírito sobre seus discípulos, sua Igreja, e disse: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio. Recebei o Espírito Santo!” Há oito dias atrás, Tomé, teimoso e incrédulo, afirmou peremptoriamente: “Se eu não vir as marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei!” Todas essas coisas que ouvimos no Evangelho deste hoje, ocorreram no domingo de Páscoa, no dia da Ressurreição, há precisamente uma semana.
Hoje é a oitava da festa pascal, o Domingo seguinte. E como no domingo passado, também hoje, neste Domingo, o Senhor vem ao encontro dos seus discípulos e coloca-se no meio deles. Será sempre assim: a cada oito dias os cristãos reunidos experimentarão na Palavra proclamada e no Sacrifício eucarístico celebrado, a presença real, viva e atuante Daquele que ressuscitou e caminha conosco, ou melhor, caminha à nossa frente. E como Tomé, nós, a cada Domingo, admirados, exclamamos: “Meu Senhor e meu Deus!” E queremos, emocionados, ouvi-lo novamente dizer a nossa respeito: “Acreditaste porque me viste, Tomé. Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” Bem-aventurados nós, caríssimos meus em Cristo aqui presentes! Bem-aventurados nós que firmemente cremos no Senhor e participamos do seu Sacrifício eucarístico, ainda que não tenhamos visto o Senhor com os olhos da carne!
Eis precisamente aqui a mensagem deste domingo da oitava: fazer-nos conscientes do nosso encontro, da nossa comunhão real, íntima, transformante, com o Senhor ressuscitado. Este encontro que ocorre de modo mais intenso a cada domingo na eucaristia – e, por isso mesmo, faltar à Missa dominical é excluir-se da comunidade dos discípulos, é “ex-comungar-se”, é colocar-se fora da Comunhão com o Ressuscitado e aqueles aos quais ele chama de “meus irmãos”... Este encontro que ocorre de modo mais intenso a cada Domingo nesta Eucaristia, não começou aqui; iniciou-se no nosso Batismo, quando recebemos, no símbolo da água, o Espírito Santo do Ressuscitado, passando a viver nele que, no seu Espírito, veio realmente viver em nós! Três misteriosas palavras da Missa de hoje exprimem este mistério. Ei-los: (1) A palavra da segunda leitura: o Autor sagrado afirma que quem crê em Jesus nasceu de Deus e vive uma vida de amor aos irmãos. Quem crê em Jesus, diz ele, vence o mundo, vence o pecado, vence a tragédia de uma vida sem sentido, distraída apenas com eventos, futilidades e copas do mundo. Eis as suas palavras: “Quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” E, então, acrescenta de modo belo, forte, surpreendente e misterioso: “Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo. Não veio somente com a água, mas com a água e o sangue. E o Espírito é que dá testemunho, porque o Espírito é a Verdade”. Caríssimos, que palavras impressionantes! Se nossos irmãos protestantes as compreendessem pediam imediatamente a comunhão com a Igreja de Cristo! Aqui o Autor sagrado está falando do Batismo e da Eucaristia. Vence o mundo quem crê em Jesus; não num Jesus do passado, mas num Jesus que está vivo e na força do Espírito Santo, o Espírito da Verdade, que ele derramou sobre nós, vem ao nosso encontro, habita em nosso íntimo. Como? Pelos sacramentos! É nos sacramentos que recebemos o Espírito Santo, é nos sacramentos que o Senhor entra em comunhão conosco e nós com ele. Ele vem continuamente, vivo e vivificador pela água do Batismo e o Sangue da Eucaristia! Nos santos sacramentos, nós experimentamos Jesus, recebemos a vida de Jesus e podemos testemunhar ao mundo que Jesus está vivo e atuante! Que realidade tão misteriosa; que graça tão grande: Jesus é o que vem sempre à sua Igreja na água e no sangue; e ambos nos dão o Espírito Santo de Jesus! (2) A segunda palavra desta liturgia é da oração inicial. Ali a Igreja nos ensinou a pedir ao Pai que compreendêssemos melhor “o Batismo que nos lavou, o Espírito que nos deu nova vida e o sangue que nos redimiu”. Mais uma vez o Batismo e a Eucaristia que, dando-nos o Espírito de Jesus, nos colocam em comunhão íntima com ele. (3) Finalmente, as palavras da Entrada da Missa de hoje, como aparecem no Missal, tiradas da Primeira Epístola de são Pedro: “Como crianças recém-nascidas, desejai o puro leite espiritual para crescerdes na salvação! (2,2). A Igreja pensa nos que foram batizados na Vigília Pascal, nossos irmãozinhos em Cristo, criancinhas no Senhor. Que recebendo a cada Domingo a Eucaristia, puro alimento espiritual, possam – eles e nós – crescer na salvação.
Ora, se vivemos mergulhados nesse mistério tão grande, que é a real e íntima comunhão com o Senhor ressuscitado, se experimentamos sua força e sua graça nos sacramentos, se nele, Vencedor da morte, somos criaturas nova, então vivamos de modo novo. E não somente de modo individual, mas como comunidade dos salvos e redimidos por Cristo. Vede, irmãos meus, o exemplo descrito na primeira leitura, a Igreja católica de Jerusalém, logo após a Ressurreição e o Dom do Espírito: nós éramos “um só coração e uma só alma”, sabíamos repartir amor e bens, colocando a vida em comum, e toda a nossa vida comunitária era uma clara proclamação da novidade, da alegria e da esperança de quem sabia e vivia a Ressurreição do Senhor. Dois mil anos após, não damos mais a impressão de um bando de discípulos sonolentos e cansados? Não parecemos mais uns conformados e desanimados, mornos pelo peso do tempo? Nossa vida, será que não exprime mais comodismo e falta de fé, que aquela feliz exultação de quem tem sempre Jesus diante dos olhos? Sabem o motivo disso, meus caros? Falta de comunhão viva com o Senhor na sua Palavra, na oração e, sobretudo, nos sacramentos! Muitos de nós temos uma fé fria, formal, burocrática, teórica. Não é a ideia, mas o amor que dá sentido e gosto à vida!
Aprendamos a nos reaproximar de Jesus! Ele está vivo aqui, na Palavra, na Eucaristia, nos irmãos, na vida. Se aprendermos a vê-lo, mais uma vez, cheios de pasmos, exclamaremos como o duro Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!” Que ele no-lo conceda por sua graça. Amém.
dom Henrique Soares da Costa
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A liturgia deste domingo apresenta-nos essa comunidade de Homens Novos que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus: a Igreja. A sua missão consiste em revelar aos homens a vida nova que brota da ressurreição.
Na primeira leitura temos, numa das “fotografia” que Lucas apresenta da comunidade cristã de Jerusalém, os traços da comunidade ideal: é uma comunidade formada por pessoas diversas, mas que vivem a mesma fé num só coração e numa só alma; é uma comunidade que manifesta o seu amor fraterno em gestos concretos de partilha e de dom e que, dessa forma, testemunha Jesus ressuscitado.
No Evangelho sobressai a ideia de que Jesus vivo e ressuscitado é o centro da comunidade cristã; é à volta d’Ele que a comunidade se estrutura e é d’Ele que ela recebe a vida que a anima e que lhe permite enfrentar as dificuldades e as perseguições. Por outro lado, é na vida da comunidade (na sua liturgia, no seu amor, no seu testemunho) que os homens encontram as provas de que Jesus está vivo.
A segunda leitura recorda aos membros da comunidade cristã os critérios que definem a vida cristã autêntica: o verdadeiro crente é aquele que ama Deus, que adere a Jesus Cristo e à proposta de salvação que, através d’Ele, o Pai faz aos homens e que vive no amor aos irmãos. Quem vive desta forma, vence o mundo e passa a integrar a família de Deus.
1 leitura – At. 4,32-35 – AMBIENTE
Os “Atos dos Apóstolos” são uma catequese sobre a “etapa da Igreja”, isto é, sobre a forma como os discípulos assumiram e continuaram o projeto salvador do Pai e o levaram – após a partida de Jesus deste mundo – a todos os homens.
O livro divide-se em duas partes. Na primeira (cf. At. 1-12), a reflexão apresenta-nos a difusão do Evangelho dentro das fronteiras palestinas, por ação de Pedro e dos Doze; a segunda (cf. At. 13-28) apresenta-nos a expansão do Evangelho fora da Palestina (até Roma), sobretudo por ação de Paulo.
O texto que hoje nos é proposto pertence à primeira parte do Livro dos Atos dos Apóstolos. Faz parte de um conjunto de três sumários, através dos quais Lucas descreve aspectos fundamentais da vida da comunidade cristã de Jerusalém. Um primeiro sumário é dedicado ao tema da unidade e ao impacto que o estilo cristão de vida provocou no povo da cidade (cf. At. 2,42-47); um segundo sumário (e que é exatamente o texto que nos é hoje proposto) refere-se sobretudo à partilha dos bens (cf. At. 4,32-35); o terceiro trata do testemunho que a Igreja dá através da atividade miraculosa dos apóstolos (cf. At. 5,12-16).
Naturalmente, estes sumários não são um retrato histórico rigoroso da comunidade cristã de Jerusalém, no início da década de 30 (embora possam ter algumas bases históricas). Quando Lucas escreve estes relatos (década de 80), arrefeceu já o entusiasmo inicial dos cristãos: Jesus nunca mais veio para instaurar definitivamente o “Reino de Deus”, e posicionam-se no horizonte próximo as primeiras grandes perseguições… Há algum desleixo, falta de entusiasmo, monotonia, divisão e confusão (até porque começam a aparecer falsos mestres, com doutrinas estranhas e pouco cristãs). Neste contexto, Lucas recorda o essencial da experiência cristã e traça o quadro daquilo que a comunidade deve ser.
MENSAGEM
Como será, então, essa comunidade ideal, que nasce do Espírito e do testemunho dos apóstolos?
Em primeiro lugar, é uma comunidade formada por pessoas muito diversas, mas que abraçaram a mesma fé (“a multidão dos que tinham abraçado a fé” – v. 32a). A “fé” é, no Novo Testamento, a adesão a Jesus e ao seu projeto. Para todos os membros da comunidade, o Senhor Jesus Cristo é a referência fundamental, o cimento que a todos une num projeto comum.
Em segundo lugar, é uma comunidade unida, onde os crentes têm “um só coração e uma só alma” (v. 32a). Da adesão a Jesus resulta, obrigatoriamente, a comunhão e a união de todos os “irmãos” da comunidade. A comunidade de Jesus não pode ser uma comunidade onde cada um puxa para o seu lado, preocupado em defender apenas os seus interesses pessoais; mas tem de ser uma comunidade onde todos caminham na mesma direção, ajudando-se mutuamente, partilhando os mesmos valores e os mesmos ideais, formando uma verdadeira família de irmãos que vivem no amor.
Em terceiro lugar, é uma comunidade que partilha os bens. Da comunhão com Cristo resulta a comunhão dos cristãos entre si; e isso tem implicações práticas. Em concreto, implica a renúncia a qualquer tipo de egoísmo, de autossuficiência, de fechamento em si próprio e uma abertura de coração para a partilha, para o dom, para o amor. Expressão concreta dessa partilha e desse dom é a comunhão dos bens: “ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum” – v. 32b). Num desenvolvimento que explicita este “pôr em comum”, Lucas conta que “não havia entre eles qualquer necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e traziam o produto das vendas, que depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se então a cada um conforme a sua necessidade” (vs. 34-35). É uma forma concreta de mostrar que a vida nova de Jesus, assumida pelos crentes, não é “conversa fiada”; mas é uma efetiva libertação da escravidão do egoísmo e um compromisso verdadeiro com o amor, com a partilha, com o dom da vida. Num mundo onde a realização e o êxito se medem pelos bens acumulados e que não entende a partilha e o dom, a comunidade de Jesus é chamada a dar exemplo de uma lógica diferente e a propor uma mundo que se baseie nos valores de Deus.
Finalmente, é uma comunidade que dá testemunho: “os apóstolos davam testemunho da ressurreição de Jesus com grande poder” (v. 33). Os gestos realizados pelos apóstolos infundiam em todos aqueles que os testemunhavam a inegável certeza da presença de Deus e dos seus dinamismos de salvação.
A primitiva comunidade cristã, nascida do dom de Jesus e do Espírito, é verdadeiramente uma comunidade de homens e mulheres novos, que dá testemunho da salvação e que anuncia a vida plena e definitiva. A fé dos discípulos, a sua união e, mais do que tudo, essa “ilógica” e “absurda” partilha dos bens eram a “prova provada” de que Cristo estava vivo e a atuar no mundo, oferecendo aos homens um mundo novo. A Cristo ressuscitado, os habitantes de Jerusalém não podiam ver; mas o que eles podiam ver era a espantosa transformação operada no coração dos discípulos, capazes de superar o egoísmo, o orgulho e a autossuficiência e de viver no amor, na partilha, no dom. Viver de acordo com os valores de Jesus é a melhor forma de anunciar e de testemunhar que Jesus está vivo.
A comunidade cristã de Jerusalém era, de fato, esta comunidade ideal? Possivelmente, não (outros textos dos Atos falam-nos de tensões e problemas – como acontece com qualquer comunidade humana); mas a descrição que Lucas aqui faz aponta para a meta a que toda a comunidade cristã deve aspirar, confiada na força do Espírito. Trata-se, portanto, de uma descrição da comunidade ideal, que pretende servir de modelo à Igreja e às Igrejas de todas as épocas.
ATUALIZAÇÃO
• A comunidade cristã é uma “multidão” que abraçou a mesma fé – quer dizer, que aderiu a Jesus, aos seus valores, à sua proposta de vida. A Igreja não é um grupo unido por uma ideologia, ou por uma mesma visão do mundo, ou pela simpatia pessoal dos seus membros; mas é uma comunidade que agrupa pessoas de diferentes raças e culturas, unidas à volta de Jesus e do seu projeto de vida e que de forma diversa procuram encarnar a proposta de Jesus na realidade da sua vida quotidiana. Que lugar e que papel Jesus e as suas propostas ocupam na minha vida pessoal e na vida da minha comunidade cristã? Jesus é uma referência distante e pouco real, ou é uma presença constante, que me interroga, que me questiona e que me aponta caminhos?
• A comunidade cristã é uma família unida, onde os irmãos têm “um só coração e uma só alma”. Tal fato resulta da adesão a Jesus: seria um absurdo aderir a Jesus e ao seu projeto e, depois, conduzir a vida de acordo com mecanismos de divisão, de afastamento, de egoísmo, de orgulho, de autossuficiência… A minha comunidade cristã é uma comunidade de irmãos que vivem no amor, ou é um grupo de pessoas isoladas, em que cada um procura defender os seus interesses, mesmo que para isso tenha de magoar e de espezinhar os outros? No que me diz respeito, esforço-me por amar todos, por respeitar a liberdade e a dignidade de todos, por potenciar os contributos e as qualidades de todos?
• A comunidade cristã é uma comunidade de partilha. No centro dessa comunidade está o Cristo do amor, da partilha, do serviço, do dom da vida… O cristão não pode, portanto, viver fechado no seu egoísmo, indiferente à sorte dos outros irmãos. Em concreto, o nosso texto fala na partilha dos bens… Uma comunidade onde alguns esbanjam os bens e onde outros não têm o suficiente para viver dignamente, será uma comunidade que testemunha, diante dos homens, esse mundo novo de amor que Jesus veio propor? Será cristão aquele que, embora indo à igreja, só pensa em acumular bens materiais, recusando-se a escutar os dramas e sofrimentos dos irmãos mais pobres? Será cristão aquele que, embora contribuindo com dinheiro para as necessidades da paróquia, explora os seus operários ou comete injustiças?
• A comunidade cristã é uma comunidade que testemunha o Senhor ressuscitado. Como? Através do discurso apologético dos discípulos? Através de palavras elegantes e de discursos bem elaborados, capazes de seduzir e de manipular as massas? O testemunho mais impressionante e mais convincente será sempre o testemunho de vida dos discípulos… Se conseguirmos criar verdadeiras comunidades fraternas, que vivam no amor e na partilha, que sejam sinais no mundo dessa vida nova que Jesus veio propor, estaremos a anunciar que Jesus está vivo, que está a atuar em nós e que, através de nós, Ele continua a apresentar ao mundo uma proposta de vida verdadeira.
2ª leitura – 1Jo 5,1-6 – AMBIENTE
Não é fácil a identificação do autor da Primeira Carta de João. Ele apresenta-se a si próprio como “o Ancião” (cf. 2 Jo 1; 3 Jo 1) e como testemunha da “Vida” manifestada em Jesus (cf. 1 Jo 1,1-3; 4,14); mas não refere o seu nome. A opinião tradicional atribui a Primeira Carta de João (como também a segunda e a terceira Cartas de João) ao apóstolo João; no entanto, essa atribuição é problemática. Em qualquer caso, o autor da carta é alguém que se move no mundo joânico e que conhece bem a teologia joânica. Pode ser esse “João, o Presbítero” conhecido da tradição primitiva e que, aparentemente, era uma personagem distinta do “João, o apóstolo” de Jesus.
Também não há, na Carta, qualquer referência a um destinatário, a pessoas ou a comunidades concretas. A missiva parece dirigir-se a um grupo de igrejas ameaçadas pelo mesmo problema (heresias). Trata-se, provavelmente, de igrejas da Ásia Menor (à volta de Éfeso), como diz a antiga tradição.
O autor não se refere, de forma direta, às circunstâncias que motivaram a composição da carta. Do tom polêmico que atravessa várias passagens, pode concluir-se que as comunidades às quais a carta se dirige vivem uma crise grave. A difusão de doutrinas incompatíveis com a revelação cristã ameaça comprometer a pureza da fé.
Quem são os autores dessas doutrinas heréticas? O autor da Carta chama-lhes “anti-cristos” (1Jo 2,18.22; 4,3), “profetas da mentira” (1Jo 4,1), “mentirosos” (1Jo 2,22). Diz que eles “são do mundo” (1Jo 4,5) e deixam-se levar pelo espírito do erro (1Jo 4,6). Até há pouco tempo pertenciam à comunidade cristã (1Jo 2,19); mas agora saíram e procuram desencaminhar os crentes que permaneceram fiéis (cf. 1Jo 2,26; 3,7).
Em que consistia este “erro”? Os heréticos em causa pretendiam “conhecer Deus” (1Jo 2,4), “ver Deus” (1 Jo 3,6), viver em comunhão com Deus (1Jo 2,3) e, não obstante, apresentavam uma doutrina e uma conduta em flagrante contradição com a revelação cristã. Recusavam-se a ver em Jesus o Messias (cf. 1Jo 2,22) e o Filho de Deus (cf. 1Jo 4,15), recusavam a encarnação (cf. 1Jo 4,2). Para estes hereges, o Cristo celeste tinha-Se apropriado do homem Jesus de Nazaré na altura do batismo (cf. Jo 1,32-33), tinha-o utilizado para levar a cabo a revelação e tinha-o abandonado antes da paixão, porque o Cristo celeste não podia padecer. O comportamento moral destes hereges não era menos repreensível: pretendiam não ter pecados (cf. 1Jo 1,8.10) e não guardavam os mandamentos (cf. 1Jo 2,4), em particular o mandamento do amor fraterno (cf. 1Jo 2,9). Tudo indica que estejamos diante de um desses movimentos pré-gnósticos que irá desembocar, mais tarde, nos grandes movimentos gnósticos do séc. II.
O objetivo do autor da Carta é, portanto, advertir os cristãos contra as pretensões destes pregadores heréticos e explicar-lhes os critérios da vida cristã autêntica. Na confusão causada pelas doutrinas heréticas, o autor da Carta quer oferecer aos crentes uma certeza: são eles e não esses profetas da mentira que vivem em comunhão com Deus e que possuem a vida divina.
MENSAGEM
Quais são, então, os critérios da vida cristã autêntica, que distinguem os verdadeiros crentes dos profetas da mentira?
Antes de mais, os verdadeiros crentes são aqueles que amam a Deus e que amam, também, Jesus Cristo, o Filho que nasceu de Deus (v. 1). Jesus de Nazaré é, ao contrário do que diziam os hereges, Filho de Deus desde a encarnação e durante toda a sua existência terrena. A sua paixão e morte também fazem parte do projeto salvador de Deus (Jesus veio apresentar aos homens um projeto de salvação, “não só pela água, mas com a água e o sangue” – v. 6).
No entanto, amar a Deus significa cumprir os seus mandamentos. Quando amamos alguém, procuramos realizar obras que agradem àquele a quem amamos… Não se pode dizer que se ama a Deus se não se cumprem os seus mandamentos… E o mandamento de Deus é que amemos os nossos irmãos. Todo aquele que se considera filho de Deus e que pertence à família de Deus deve amar os irmãos que são membros da mesma família. Quem não ama os irmãos, não pode pretender amar a Deus e fazer parte da família de Deus (vs. 2-3).
Quando o crente ama a Deus, acredita que Jesus é o Filho de Deus e vive de acordo com os mandamentos de Deus (sobretudo com o mandamento do amor aos irmãos), vence o mundo. Amar Deus, amar Jesus e amar os irmãos significa construir a própria vida numa dinâmica de amor; e significa, portanto, derrotar o egoísmo, o ódio, a injustiça que caracterizam a dinâmica do mundo (vs. 4-5).
Esta vida nova que permite aos crentes vencer o mundo é oferecida aos homens através de Jesus Cristo. A vida nova que Jesus veio oferecer chega aos homens pela “água” (batismo – isto é, pela adesão a Cristo e à sua proposta) e pelo “sangue” (alusão à vida de Jesus, feita dom na cruz por amor). O Espírito Santo atesta a validade e a verdade dessa proposta trazida por Jesus Cristo, por mandato de Deus Pai (v. 6).
Quando o homem responde positivamente ao desafio que Deus lhe faz (batismo), oferece a sua vida como um dom de amor para os irmãos (a exemplo de Cristo) e cumpre os mandamentos de Deus, vence o mundo, torna-se filho de Deus e membro da família de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Na perspectiva do autor da primeira Carta de João, o projeto de salvação que Deus apresentou ao homem passa por Jesus – o Jesus que encarnou na nossa história, que nos revelou os caminhos do Pai, que com a sua morte mostrou aos homens o amor do Pai e que nos ensinou a amar até ao extremo do dom total da vida. Também na paixão e morte de Jesus se nos revela o caminho para nos tornarmos “filhos de Deus”: o processo passa por seguir o caminho de Jesus e por fazer da nossa vida um dom total de amor a Deus e aos nossos irmãos. Que é que Jesus significa para nós? Ele foi apenas um “homem bom” que a morte derrubou? Ou Ele é o Filho de Deus que veio ao nosso encontro para nos propor o caminho do amor total, a fim de chegarmos à vida definitiva? O caminho do amor, do dom, do serviço, da entrega que Cristo nos propôs é uma proposta que assumimos e procuramos viver?
• Amar a Deus e aderir a Jesus implica, na perspectiva do autor da Primeira Carta de João, o amor aos irmãos. Quem não ama os irmãos, não cumpre os mandamentos de Deus e não segue Jesus. É preciso que a nossa existência – a exemplo de Jesus – seja cumprida no amor a todos os que caminham pela vida ao nosso lado, especialmente aos mais pobres, aos mais humildes, aos marginalizados, aos abandonados, aos sem voz. O amor total e sem fronteiras, o amor que nos leva a oferecer integralmente a nossa vida aos irmãos, o amor que se revela nos gestos simples de serviço, de perdão, de solidariedade, de doação, está no nosso programa de vida?
• O autor da Primeira Carta de João ensina, ainda, que o amor a Deus e a adesão a Cristo “vencem o mundo”. Os cristãos não se conformam com a lógica de egoísmo, de ódio, de injustiça, de violência que governa o mundo; a esta lógica, eles contrapõem a lógica do amor, a lógica de Jesus. O amor é um dinamismo que vence tudo aquilo que oprime o homem e que o impede de chegar à vida verdadeira e definitiva, à felicidade total. Ainda que o amor pareça, por vezes, significar fragilidade, debilidade, fracasso, frente à violência dos poderosos e dos senhores do mundo, a verdade é que o amor terá sempre a última e definitiva palavra. Só ele assegura a vida verdadeira e eterna, só ele é caminho para o mundo novo e melhor com que os homens sonham.
Evangelho – Jo 20,19-31 - AMBIENTE
Continuamos na segunda parte do Quarto Evangelho, onde nos é apresentada a comunidade da Nova Aliança. A indicação de que estamos no “primeiro dia da semana” faz, outra vez, referência ao tempo novo, a esse tempo que se segue à morte/ressurreição de Jesus, ao tempo da nova criação.
A comunidade criada a partir da ação criadora e vivificadora de Jesus está reunida no cenáculo, em Jerusalém. Está desamparada e insegura, cercada por um ambiente hostil. O medo vem do fato de não terem, ainda, feito a experiência de Cristo ressuscitado.
João apresenta, aqui, uma catequese sobre a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, no meio dos discípulos em caminhada pela história. Não lhe interessa tanto fazer uma descrição jornalística das aparições de Jesus ressuscitado aos discípulos; interessa-lhe, sobretudo, afirmar aos cristãos de todas as épocas que Cristo continua vivo e presente, acompanhando a sua Igreja. De resto, cada crente pode fazer a experiência do encontro com o “Senhor” ressuscitado, sempre que celebra a fé com a sua comunidade.
MENSAGEM
O texto que nos é proposto divide-se em duas partes bem distintas. Na primeira parte (vs. 19-23), descreve-se uma “aparição” de Jesus aos discípulos. Depois de sugerir a situação de insegurança e de fragilidade em que a comunidade estava (o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”), o autor deste texto apresenta Jesus “no centro” da comunidade (v. 19b). Ao aparecer “no meio deles”, Jesus assume-Se como ponto de referência, fator de unidade, videira à volta da qual se enxertam os ramos. A comunidade está reunida à volta dele, pois Ele é o centro onde todos vão beber essa vida que lhes permite vencer o “medo” e a hostilidade do mundo.
A esta comunidade fechada, com medo, mergulhada nas trevas de um mundo hostil, Jesus transmite duplamente a paz (vs. 19 e 21: é o “shalom” hebraico, no sentido de harmonia, serenidade, tranqüilidade, confiança, vida plena). Assegura-se, assim, aos discípulos que Jesus venceu aquilo que os assustava (a morte, a opressão, a hostilidade do mundo); e que, doravante, os discípulos não têm qualquer razão para ter medo.
Depois (v. 20a), Jesus revela a sua “identidade”: nas mãos e no lado trespassado, estão os sinais do seu amor e da sua entrega. É nesses sinais de amor e de doação que a comunidade reconhece Jesus vivo e presente no seu meio. A permanência desses “sinais” indica a permanência do amor de Jesus: Ele será sempre o Messias que ama e do qual brotarão a água e o sangue que constituem e alimentam a comunidade.
Em seguida (v. 22), Jesus “soprou” sobre os discípulos reunidos à sua volta. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gn. 2,7 (quando se diz que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida de Deus). Com o “sopro” de Gn. 2,7, o homem tornou-se um ser vivente; com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova que fará deles homens novos. Agora, os discípulos possuem o Espírito, a vida de Deus, para poderem – como Jesus – dar-se generosamente aos outros. É este Espírito que constitui e anima a comunidade de Jesus.
Na segunda parte (vs. 24-29), apresenta-se uma catequese sobre a fé. Como é que se chega à fé em Cristo ressuscitado?
João responde: podemos fazer a experiência da fé em Cristo vivo e ressuscitado na comunidade dos crentes, que é o lugar natural onde se manifesta e irradia o amor de Jesus. Tomé representa aqueles que vivem fechados em si próprios (está fora) e que não faz caso do testemunho da comunidade, nem percebe os sinais de vida nova que nela se manifestam. Em lugar de integrar-se e participar da mesma experiência, pretende obter (apenas para si próprio) uma demonstração particular de Deus.
Tomé acaba, no entanto, por fazer a experiência de Cristo vivo no interior da comunidade. Porquê? Porque no “dia do Senhor” volta a estar com a sua comunidade. É uma alusão clara ao domingo, ao dia em que a comunidade é convocada para celebrar a Eucaristia: é no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre Jesus ressuscitado.
A experiência de Tomé não é exclusiva das primeiras testemunhas; mas todos os cristãos de todos os tempos podem fazer esta mesma experiência.
ATUALIZAÇÃO
• Antes de mais, a catequese que João nos apresenta garante-nos a presença de Cristo no meio da sua comunidade em marcha pela história. Os discípulos de Jesus vivem no mundo, numa situação de fragilidade e de debilidade; experimentam, como os outros homens e mulheres, o sofrimento, o desalento, a frustração, o desânimo; têm medo quando o mundo escolhe caminhos de guerra e de violência; sofrem quando são atingidos pela injustiça, pela opressão, pelo ódio do mundo; conhecem a perseguição, a incompreensão e a morte… Mas são sempre animados pela esperança, pois sabem que Jesus está presente, oferecendo-lhes a sua paz e apontando-lhes o horizonte da vida definitiva. O cristão é sempre animado pela esperança que brota da presença a seu lado de Cristo ressuscitado. Não devemos, nunca, esquecer esta realidade.
• A presença de Cristo ao lado dos seus discípulos é sempre uma presença renovadora e transformadora. É esse Espírito que Jesus oferece continuamente aos seus, que faz deles homens e mulheres novos, capazes de amar até ao fim, ao jeito de Jesus; é esse Espírito que Jesus oferece aos seus, que faz deles testemunhas do amor de Deus e que lhes dá a coragem e a generosidade para continuarem no mundo a obra de Jesus.
• A comunidade cristã gira em torno de Jesus é construída à volta de Jesus e é de Jesus que recebe vida, amor e paz. Sem Jesus, estaremos secos e estéreis, incapazes de encontrar a vida em plenitude; sem Ele, seremos um rebanho de gente assustada, incapaz de enfrentar o mundo e de ter uma atitude construtiva e transformadora; sem Ele, estaremos divididos, em conflito, e não seremos uma comunidade de irmãos… Na nossa comunidade, Cristo é verdadeiramente o centro? É para Ele que tudo tende e é d’Ele que tudo parte?
• A comunidade tem de ser o lugar onde fazemos, verdadeiramente, a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. É nos gestos de amor, de partilha, de serviço, de encontro, de fraternidade (no “lado trespassado” e nas chagas de Jesus, expressões do seu amor), que encontramos Jesus vivo, a transformar e a renovar o mundo. É isso que a nossa comunidade testemunha? Quem procura Cristo ressuscitado, encontra-O em nós? O amor de Jesus – amor total, universal e sem medida – transparece nos nossos gestos?
• Não é em experiências pessoais, íntimas, fechadas, egoístas, que encontramos Jesus ressuscitado; mas encontramo-l’O no diálogo comunitário, na Palavra partilhada, no pão repartido, no amor que une os irmãos em comunidade de vida. O que é que significa, para mim, a Eucaristia?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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A fé de Tomé
I. O primeiro dia da semana (1), o dia em que o Senhor ressuscitou, o primeiro dia do novo mundo, está repleto de acontecimentos: desde a manhã, muito cedo (2), quando as mulheres vão ao sepulcro, até à noite, muito tarde3, quando Jesus vem confortar os amigos mais íntimos: A paz esteja convosco, disse-lhes. Depois mostrou-lhes as mãos e o lado. Nesta ocasião, Tomé não estava com os demais Apóstolos; não pôde, pois, ver o Senhor nem ouvir as suas palavras consoladoras.
Fora este Apóstolo que dissera uma vez: Vamos também nós e morramos com Ele4. E na Última Ceia manifestara ao Senhor a sua ignorância com a maior simplicidade: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho? (5) Cheios de um profundo júbilo, os Apóstolos devem ter procurado Tomé por toda a Jerusalém naquela mesma noite ou no dia seguinte. Mal o encontraram, disseram-lhe: Vimos o Senhor! Mas Tomé continuava profundamente abalado com a crucifixão e a morte do Mestre. Não dá nenhum crédito ao que lhe dizem: Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos e a minha mão no seu lado, não acreditarei (6). Os que tinham compartilhado com ele aqueles três anos, e que lhe estavam unidos por tantos laços, devem ter-lhe repetido então, de mil maneiras diferentes, a mesma verdade que era agora a sua alegria e a sua certeza: Vimos o Senhor!
Nós temos que fazer o mesmo: para muitos homens e para muitas mulheres, é como se Cristo estivesse morto, porque pouco significa para eles e quase não conta nas suas vidas. A nossa fé em Cristo ressuscitado anima-nos a ir ao encontro dessas pessoas e a dizer-lhes de mil maneiras diferentes que Cristo vive, que estamos unidos a Ele pela fé e permanecemos com Ele todos os dias, que Ele orienta e dá sentido à nossa vida.
Desta maneira, cumprindo essa exigência da fé que é difundi-la com o exemplo e a palavra, contribuímos pessoalmente para a edificação da Igreja, como aqueles primeiros cristãos de que falam os Atos dos Apóstolos: Cada vez mais aumentava o número dos homens e mulheres que acreditavam no Senhor7.
II. Oito dias depois, encontravam-se os seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: A paz esteja convosco. Depois disse a Tomé: Mete aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima também a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas fiel (8).
A resposta de Tomé é um ato de fé, de adoração e de entrega sem limites: Meu Senhor e meu Deus! São quatro palavras inesgotáveis. A fé do Apóstolo brota, não tanto da evidência de Jesus, mas de uma dor imensa. O que o leva à adoração e ao retorno ao apostolado não são tanto as provas como o amor. Diz a Tradição que o Apóstolo Tomé morreu mártir pela fé no seu Senhor. Consumiu a vida a seu serviço.
As dúvidas de Tomé viriam a servir para confirmar a fé dos que mais tarde haviam de crer nEle. “Porventura pensais – comenta são Gregório Magno – que foi um simples acaso que aquele discípulo escolhido estivesse ausente, e que depois, ao voltar, ouvisse relatar a aparição e, ao ouvir, duvidasse, e, duvidando, apalpasse, e, apalpando, acreditasse? Não foi por acaso, mas por disposição divina que isso aconteceu. A divina clemência agiu de modo admirável quando este discípulo que duvidava tocou as feridas da carne do seu Mestre, pois assim curava em nós as chagas da incredulidade [...]. Foi assim, duvidando e tocando, que o discípulo se tornou testemunha da verdadeira ressurreição” (9).
Se a nossa fé for firme, também haverá muitos que se apoiarão nela. É necessário que essa virtude teologal vá crescendo em nós de dia para dia, que aprendamos a olhar as pessoas e os acontecimentos como o Senhor os olha, que a nossa atuação no meio do mundo esteja vivificada pela doutrina de Jesus. Por vezes, ver-nos-emos faltos de fé, como o Apóstolo. Teremos então de crescer em confiança no Senhor, seja em face das dificuldades no apostolado, ou de acontecimentos que não sabemos interpretar do ponto de vista sobrenatural, ou de momentos de escuridão, que Deus permite para que se firmem em nós outras virtudes.
A virtude da fé é a que nos dá a verdadeira dimensão dos acontecimentos e a que nos permite julgar retamente todas as coisas. “Somente com a luz da fé e a meditação da palavra divina é que é possível reconhecer Deus sempre e por toda a parte, esse Deus em quem vivemos e nos movemos e existimos (At. 17,28). Somente assim é possível procurar a vontade divina em todos os acontecimentos, ver Cristo em todos os homens, sejam parentes ou estranhos, proferir juízos corretos sobre o verdadeiro significado e valor das coisas temporais, tanto em si mesmas como em relação ao fim do homem”10.
Meditemos o Evangelho da Missa de hoje. “Fixemos de novo o olhar no Mestre. Talvez também nós escutemos neste momento a censura dirigida a Tomé: Mete aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima também a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas fiel (Ioh XX, 27). E, com o Apóstolo, sairá da nossa alma, com sincera contrição, aquele grito: Meu Senhor e meu Deus! (Ioh XX, 28), eu te reconheço definitivamente por Mestre, e já para sempre – com o teu auxílio – vou entesourar os teus ensinamentos e esforçar-me por segui-los com lealdade” (11).
Meu Senhor e meu Deus! Estas palavras têm servido de jaculatória a muitos cristãos, e como ato de fé na presença real de Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia, quando se passa diante de um sacrário ou no momento da Consagração da Missa... Também nos podem ajudar a nós a tornar atual a nossa fé e o nosso amor por Cristo ressuscitado.
III. O Senhor respondeu a Tomé: Creste porque me viste. Felizes os que crêem sem terem visto (12). “É uma frase – diz São Gregório Magno – que se refere sem dúvida a nós, que confessamos com a alma Aquele que não vimos na carne. Mas refere-se a nós se vivermos de acordo com a fé, pois só crê verdadeiramente aquele que nas suas ações pratica o que crê” (13). A Ressurreição do Senhor é um apelo para que manifestemos com a nossa vida que Ele vive. As obras do cristão devem ser fruto e manifestação da sua fé em Cristo.
Nos primeiros séculos, a difusão do cristianismo realizou-se principalmente pelo testemunho pessoal dos cristãos que se convertiam. Era uma pregação singela da Boa Nova: de homem para homem, de família para família; entre os que tinham o mesmo ofício, entre vizinhos; nos bairros, nos mercados, nas ruas. Hoje também o Senhor quer que o mundo, a rua, o trabalho, as famílias sejam veículo para a transmissão da fé.
Para confessarmos a nossa fé com a palavra, é necessário que conheçamos o seu conteúdo com clareza e precisão. Por isso, a nossa Mãe a Igreja tem feito tanto fincapé ao longo dos séculos em que se estudasse o Catecismo, pois contém de uma maneira breve e simples as verdades essenciais que temos de conhecer para podermos depois vivê-las. Já Santo Agostinho insistia com os catecúmenos que estavam prestes a receber o Batismo: “No próximo sábado, em que, se Deus quiser, celebraremos a vigília, recitareis não a oração (o Pai-Nosso), mas o símbolo (o Credo); porque, se não o aprenderdes agora, depois, na Igreja, não o ouvireis todos os dias da boca do povo. E, aprendendo-o bem, dizei-o diariamente para não o esquecerdes: ao levantar-vos da cama, ao ir dormir, recitai o vosso símbolo, oferecei-o a Deus, procurando memorizá-lo e repetindo-o sem preguiça. Para não esquecer, é bom repetir. Não digais: «Já o disse ontem, e digo-o hoje, e repito-o diariamente; tenho-o bem gravado na memória». Que seja para ti como um recordatório da tua fé e um espelho em que te possas olhar. Olha-te nele, verifica se continuas a acreditar em todas as verdades que de palavra dizes crer, e alegra-te diariamente na tua fé. Que essas verdades sejam a tua riqueza; que sejam como que o adorno da tua alma” (14). Teríamos que dizer estas mesmas palavras a muitos cristãos, pois são muitos os que andam esquecidos do conteúdo essencial da sua fé.
Jesus Cristo pede-nos também que o confessemos com obras diante dos homens. Por isso, pensemos: não teríamos que ser mais valentes nesta ou naquela ocasião? Pensemos no nosso trabalho, no ambiente à nossa volta: somos conhecidos como pessoas que têm vida de fé? Não nos faltará audácia no apostolado?
Terminamos a nossa oração pedindo à Virgem, Sede da Sabedoria, Rainha dos Apóstolos, que nos ajude a manifestar com a nossa conduta e com as nossas palavras que Cristo vive.
Francisco Fernández-Carvajal
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1. O tempo pascal, no qual entramos no Domingo passado, é o tempo litúrgico privilegiado para entendermos a nossa tarefa de cristãos. De fato, somos nós os “bem-aventurados” do Evangelho de hoje, porque somos convidados a crer sem termos visto o Senhor Jesus em carne e osso, ou seja assim como Ele se manifestou na historia.
 Apesar disso, porem, para que a nossa fé possa ser fundamentada, devemos ver Jesus com os olhos do Espírito, aprimorando os nossos sentidos espirituais. Somente encontrando e reconhecendo o Jesus Ressuscitado na nossa vida, poderemos acreditar nele e, assim, segui-lo. Mas, aqui vem o problema: como é que o Cristo Ressuscitado se manifesta na nossa historia corriqueira? Quais são os sinais da sua presença misteriosa no meio de nós?
2. O primeiro sinal  da presença de  Cristo ressuscitado no meio de nós é a paz.  Por três vezes, no Evangelho que acabamos de ouvir, Jesus aparecendo aos discípulos, fala de paz: “Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: a paz esteja com vocês” (Jo 20,19).
Quem encontra Cristo ressuscitado, vive em paz. Jesus ressuscitado é a vida eterna que derruba a morte. E é a morte o grande problema do homem, que o deixa  angustiado, aflito, na continua busca  de algo que possa preencher a sua vida, que possa tirar o cheiro fedorento da morte. Jesus é o bálsamo de vida,  a luz que espanta as trevas, a vida que, de uma forma definitiva, derrubou a morte. É claro que um encontro com o Jesus ressuscitado não pode que produzir paz. Não, porem, aquela paz psicológica, que se identifica com a tranqüilidade. A paz que o Jesus ressuscitado transmite pelas pessoas que o encontram, é plenitude de vida, sensação de ter encontrado o tesouro escondido no campo, a pérola preciosa, algo que preenche de uma forma  indefinível a vida. Esta vida autentica, plena que recebemos no encontro com o ressuscitado, produz aquela paz que, a invés de nos tranqüilizar, nos impulsiona a criar aquelas condições para que esta paz, como plenitude de vida, se espalhe em todo canto.
 Esta mesma idéia de paz a encontramos no Evangelho de Mateus, no contexto das Bem-aventuranças quando Jesus, falando ao povo, disse: “Felizes os que promovem a paz” (Mt. 5,9). A vida autentica que recebemos em Jesus ressuscitado, não é um tranqüilizante, um anestético: pelo contrario é força que nos leva a buscar caminhos de paz num mundo de violências, guerras e divisões. Então, quando na nossa vida encontramos pessoas que estão se esforçando para construírem pontes de paz, tentando de sarar as divisões, apaziguando as partes em luta, criando laços de amizades entre as pessoas, é sem duvida o espírito de Cristo ressuscitado que está soprando, para criar algo que o principie deste mundo não quer de jeito nenhum, ou seja a paz.
3. O segundo sinal que o Cristo ressuscitado deixou na historia para ser reconhecido é o marco das suas feridas. “Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor” (Jo 20,20).
O Jesus ressuscitado é o mesmo que travou uma luta espantosa com o mundo do pecado. As mãos e o lado que Jesus logo mostrou aos discípulos no momento da aparição, querem salientar esta realidade, que é ao mesmo tempo histórica e espiritual. Histórica, porque aconteceu isso mesmo: o Filho de Deus foi crucificado. Espiritual, porque ninguém pode sonhar de herdar a vida eterna, sem passar através daquela mesma luta que Jesus enfrentou. Quem domina o mundo é o pecado e, o príncipe deste mundo, quer levar toda a humanidade na morte do pecado. É por isso que Jesus mostrou na sua vida terrena, que é impossível viver buscando o amor e a justiça nesta terra, sem ser perseguidos, massacrados, humilhados.
 Tudo isso quer dizer o que para nós? Que o mundo, para ser salvo, precisa ver os marcos de Jesus crucificado na sua Igreja. De fato, a Igreja é o corpo místico de Cristo e é nela que devem ser bem visíveis os marcos da luta que o mundo da injustiça e do ódio trava com o amor e a justiça encarnados na vida de Cristo. Todas as vezes que nós cristãos buscamos uma vida tranqüila, relaxada, estamos impedindo ao mondo de ver os marcos de Jesus ressuscitado e, então, de conhece-lo.
“Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). A que serve o Espírito Santo se não para fortalecer os cristãos na luta que estão travando com o mundo? O Espírito Santo é o testemunho intimo, que nos encoraja na busca da realização do Reino de Deus, que é o reino da Justiça, da paz e do amor. Por isso os sacramentos são necessários na caminhada de fé, pois é através deles que o Espírito Santo entra em nós.
4. O terceiro marco do Cristo ressuscitado que encontramos nas leituras de hoje, é a comunidade. Neste mundo de egoísmo, aonde os relacionamentos humanos são dominados pelo orgulho e pela vontade de poder e submissão, encontrar homens e mulheres que vivem em comunhão, partilhando os próprios bens, vivendo com “um só coração e uma só alma” (At. 4,32), é sem duvida um sinal e uma experiência de vida que não tem origem terrena. O Espírito Santo, que Jesus ressuscitado soprou sobre os discípulos e que nós recebemos no Batismo, deve produzir um estilo de vida diferente, contrario a lógica do mundo. A verdade da nossa vida sacramental, deve manifestar-se na qualidade dos nossos relacionamentos humanos e do nosso estilo de vida.
Este tempo pascal que estamos vivendo, torna-se, então, uma possibilidade importante para nós avaliarmos a autenticidade da nossa caminhada espiritual. A ressurreição de Jesus Cristo é o coroamento da sua encarnação. Isso quer dizer que a ressurreição é o prêmio não de qualquer vida, mas da vida mesma de Jesus, do seu estilo, do seu jeito de amar, da sua maneira de buscar o caminho da paz e da justiça. É este caminho que Deus valorizou com a ressurreição de seu Filho Jesus. E não se trata apenas de um caminho espiritual, mas de uma espiritualidade encarnada na historia cotidiana.
 Quem acredita na ressurreição de Cristo e vive do seu Espírito, não pode viver de qualquer jeito, mas do jeito que o mesmo Jesus apontou.
5.Que o tempo pascal que estamos vivendo possa produzir em nós os marcos do Cristo ressuscitado, pela salvação do mundo.
padre Paolo Cugini
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Jesus ressuscitado está vivo na comunidade
Depois de nos prepararmos durante 40 dias para celebrar o evento maior de nossa fé, agora é hora de nos regozijarmos durante 50 dias com a maior notícia de todos os tempos: Jesus ressuscitou, está vivo na comunidade. A experiência de fé no Ressuscitado que fizemos na Festa da Páscoa nos fortalece na caminhada. O Cristo ressuscitado é o caminho que conduz à vida plena tão desejada por nós. Liturgicamente estamos no “Tempo Pascal” que vai do Domingo de Páscoa até o Domingo de Pentecostes. A Festa da Páscoa é tão importante que a celebramos por 50 dias. Agora, com Jesus ressuscitado caminhando ao nosso lado nos enchemos de esperança na certeza de que nossa vida também caminha para a Páscoa definitiva em Cristo. Olhando a triste realidade do mundo moderno muitos já não conseguem acreditar na vitória da vida sobre a morte; há tanto sofrimento e injustiça, corrupção e violência, serviços públicos sucateados e pessoas excluídas. Somente uma experiência profunda de Jesus vivo e presente na comunidade, poderá nos sustentar na luta por uma sociedade mais justa e fraterna.
O Evangelho de hoje (João 20,19-31) relata duas aparições de Jesus Ressuscitado. Na primeira promove a comunhão da comunidade consigo e entre os irmãos, fazendo-a participar de sua vida e de sua obra. “A paz esteja convosco!” Os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Tomé não estava presente. Pela segunda vez Jesus diz: “A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio”. A paz – o primeiro dom pascal deve estar presente na família e na comunidade. Na força do Espírito Santo os discípulos serão portadores da “Boa Notícia”. Na segunda aparição as atenções se voltam a Tomé que representa aquelas pessoas que não fizeram a experiência da Ressurreição, da Páscoa Cristã. Se foi importante ter convivido com Jesus antes de sua morte de cruz, igualmente é importante viver a vida nova que nasce da Ressurreição. Tomé quer ver o sinal dos pregos... Então, Jesus disse: “Bem-aventurados os que creram sem ter visto!” Ao refletir sobre as leituras bíblicas da “Oitava da Páscoa” encontramos a passagem Jesus caminhando com os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Concluímos que a missão não pode parar. Já não é hora de ficarmos trancados nos porões e nas sacristias. Se no passado Jesus convocou os discípulos, hoje convoca a cada um de nós a dar continuidade a missão. Pense nisto e tenha uma semana abençoada.
Pedro Scherer
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Os bispos na V Conferência falaram muitas vezes da fé: “O ‘irmão’ de Jesus (cf. Jo 20,17) participa da vida do Ressuscitado, Filho do Pai celestial, porque Jesus e seu discípulo compartilham a mesma vida que procede do Pai: Jesus, por natureza (cf. Jo 5,26; 10,30) e o discípulo, por participação (cf. Jo 10,10). A conseqüência imediata deste tipo de vínculo é a condição de irmãos que os membros de sua comunidade adquirem.” (D. Ap 132).
Depois da morte de Jesus, a comunidade se sente com medo, insegura e indefesa diante das represálias que surgiam contra ela pela instituição judaica.
Ela se encontra em uma situação de temor paralela à do antigo Israel no Egito, quando os israelitas eram perseguidos pelas tropas do faraó (Ex. 14,10).
Como aquele povo, os discípulos estão também na noite (já anoitecendo) quando o Senhor vai tirá-los da opressão (Ex. 12,42; Dt. 16,1).
A mensagem de Maria Madalena, contudo, não os libertou do temor. Não basta ter noticia do sepulcro vazio; somente a presença de Jesus pode dar-lhes segurança em meio a um mundo hostil.
Tudo muda desde o momento em que Jesus, que é o centro da comunidade, aparece em seu meio, como ponto de referencia, fonte de vida e fator de unidade.
Sua saudação lhes devolve a paz que haviam perdido. Suas mãos e suas costas, provas de sua paixão e morte, são agora os sinais de seu amor e de sua vitória: o que está vivo diante deles é o mesmo que morreu na cruz.
Se tinham medo da morte que os judeus poderiam impor-lhes, agora vêem que ninguém pode tirar deles a vida que o ressuscitado comunica.
O efeito do encontro com Jesus é a alegria, como ele mesmo havia anunciado (16,20: vossa tristeza se converterá em alegria). Já começou a festa da páscoa, a nova criação, o novo ser humano capaz de dar a vida para dar a vida.
Com sua presença, Jesus lhes comunica seu espírito que lhes dá força para o enfrentamento com o mundo e libertar a homens e mulheres do pecado, da injustiça, do desamor e da morte.
Para isso, os envia ao mundo, a um mundo que os odeia como odiou a Jesus (15,18). A missão da comunidade não será outra senão a de perdoar os pecados para dar vida, o que é igual, colocar fim a tudo que oprime, reprime ou suprime a vida, que é o efeito que produz o pecado na sociedade.
Porém, nem todos crêem. Um deles, Tomé, o mesmo que se mostrou pronto a acompanhar a Jesus em sua morte (Jo 11,16), que agora resiste a crer no testemunho dos discípulos e não lhe basta ver a comunidade transformada pelo Espírito.
Não admite que o que eles viram seja o mesmo que ele havia conhecido. Não acredita na permanência da vida. Exige uma prova individual e extraordinária.
As frases redundantes de Tomé, com sua repetição de palavras (suas mãos, colocar o dedo, colocar minha mão), sublinham estilisticamente sua cabeça dura. Não busca a Jesus fonte de vida, mas uma relíquia do passado.
Tomé vai precisar de algumas palavras de Jesus para crer: “Coloca aqui teu dedo, olha minhas mãos; coloca tua mão e não seja incrédulo, mas fiel”.
Tomé, que não chega a tocar em Jesus, pronuncia a mais sublime confissão evangélica de fé chamando Jesus de “Meu Senhor e meu Deus!”.
Com esta dupla expressão alude ao mestre a quem chamavam de Senhor, sempre disposto a lavar os pés de seus discípulos e ao projeto de Deus, realizado agora em Jesus, de fazer chegar ao ser humano ao cume da divindade realizado agora em Jesus (Meu Deus…)
Porém, por sua atitude incrédula recebe de Jesus uma reprovação, junto com ela uma última bem-aventurança para todos os que já não poderão nem vê-lo nem tocá-lo e terão, por isso, que descobri-lo na comunidade e notar nela sua presença sempre viva.
De agora em diante a realidade de Jesus vivo não é percebida com elucubrações nem buscando experiências individuais e isoladas, mas que se manifesta na vida e conduta de uma comunidade que é expressão de amor, de vida e de alegria.
Uma comunidade, cuja utopia de vida refletida no livro dos Atos (4,32-35): comunidade de pensamentos e sentimentos comuns, de colocação em comum dos bens e de partilha igualitária dos mesmos como expressão de fé em Jesus ressuscitado, uma comunidade de amor como defende a primeira carta de João (1Jo 5,1-5).
Se a ressurreição de Jesus não tivesse efeito algum na vida dos discípulos, isto é, se a ressurreição não tivesse sentido final, a re-criação do ser humano e, portanto, a recriação de uma nova ordem, a Ressurreição de Jesus não teria passado de um assunto particular entre o Pai e seu Filho.
Como a ressurreição de Jesus é a base e fundamento de uma comunidade e o horizonte para o qual tende toda a criação, por isso tanto o evangelho de hoje como a primeira leitura de Atos, tratam de iluminar esse horizonte e quais os efeitos imediatos, reais e concretos da ressurreição.
As falhas, os tropeços e as quedas no processo de construção de uma comunidade igualitária e justa não devem ser vistos como a demonstração de que não se pode alcançar essa construção.
Esses aspectos negativos podem ser percebidos como um desafio, sobretudo havendo plena consciência de que este é o projeto de Deus e que, por este projeto, Jesus derramou seu sangue e entregou sua vida.
Porém também por esse projeto, o Pai o ressuscitou, para que quem confessa ser seu seguidor, seja também comprometido com esse seu projeto, partilhado conosco, e respaldado e acompanhado em todo momento. Este é o principal sentido da ressurreição e o que os discípulos não entendiam de maneira imediata.
Justamente o evangelho de hoje nos dá a pista para entender que a descoberta dos efeitos e alcances da ressurreição de Jesus não podem ser compreendidos rapidamente, de um momento para outro.
Mesmo que os discípulos tenham comprovado que Jesus “não está” no túmulo, mesmo que Maria Madalena lhes tenha anunciado que Jesus estava vivo e que tenha falado com ele (cf. Jo 20,1-18), os discípulos continuam fechados. As expressões “os discípulos estavam com as portas bem fechadas” (v. 19) e “oito dias depois os discípulos estavam reunidos em sua casa” (v. 26), são um sinal de que existe um processo de amadurecimento na fé.
O evangelista nos diz que os discípulos “não creram” no ressuscitado; com exceção de Tomé, todos o haviam visto e todos acreditavam nele; porém uma coisa é crer e outra coisa é abrir-se às implicações da fé.
Este é o processo e a busca da comunidade de discípulos, ajudada pela proximidade de Jesus que, com toda paciência e compreensão, acompanha, anima e ajuda a comunidade a amadurecer a fé de cada discípulo.
Talvez para nós, como crentes deste tempo, seja necessário amadurecer muito ainda a fé. Talvez nossos conceitos tradicionais, aprendidos sobre Jesus e seu evangelho não nos permitam ver com clareza o horizonte dessa fé cristã que confessamos tão folcloricamente e que, portanto, não impacta a ninguém.
Valeria a pena fazer o exercício de desaprender, esvaziar completamente nosso ser, nosso coração, fazer o que Tomé fez.
Podemos ver o caso de Tomé desde a partir de um ótica mais positiva. Não precisamos julgá-lo, de imediato, como “o incrédulo”, mas como quem quer crer e colocar em prática sua fé, mas que o seu vazio interior necessita ser preenchido pela presença de seu Senhor. Este é o caminho que somos chamados hoje a percorrer.
Reflexão apostólica
A narrativa do Evangelho de hoje nos diz que Jesus Cristo, por três vezes anunciou a paz aos Seus discípulos que, ainda temerosos, se reuniam a portas fechadas.
Jesus surgiu no meio deles e lhes desejou a Paz. Mas a paz de Jesus nos vem através do Espírito Santo. Por isso, Jesus também lhes disse: “Recebei o Espírito Santo”.
O sopro do Espírito Santo de Jesus em nós nos fará levar a paz ao mundo, assim como também nos motivará a oferecer o perdão e a misericórdia de Deus aos nossos irmãos.
A paz da nossa consciência é oriunda da justiça de Deus que para nós é o Seu perdão e a Sua misericórdia. Se perdoarmos seremos perdoados e teremos paz.
Jesus nos conscientiza de que o perdão deve ser ministrado por nós mesmos. Portanto, se nós não perdoarmos aos nossos irmãos os seus pecados, diante de Deus eles serão retidos pela nossa falta de perdão. Conseqüentemente, nós também, não teremos o perdão dos nossos pecados por parte dos nossos irmãos diante do Pai.
É o Espírito Santo também quem nos leva a crer no Cristo Ressuscitado, mesmo sem precisar colocar o dedo nas marcas dos pregos de Jesus como fez Tomé.
Colocar as mãos nas chagas de Jesus para nós, muitas vezes é viver o sofrimento e experimentar a dor. “Felizes os que creram sem terem visto!” Felizes, portanto, são os que sem experimentarem a dor confiam que Jesus está vivo.
Não percamos tempo: o Espírito Santo já foi soprado e está dentro de nós. Portanto, proclamemos com convicção: “MEU SENHOR E MEU DEUS!”
Você tem consciência firme de que o Espírito Santo mora em você? O que tem lhe dado paz? Você já aprendeu a dar e receber perdão das pessoas? Você encontrou Jesus no amor ou na dor? Você costuma anunciar ao mundo que Jesus Cristo está vivo na sua vida?
O evangelho retrata nitidamente nossa realidade, mostrando a falta de fé de Tomé, que mesmo tendo acompanhado a trajetória de Jesus, só acreditou depois que viu as chagas.
E nós, quantas vezes duvidamos da palavra de Deus e de suas obras? A falta de fé nos deixa cegos e evita que propaguemos sua palavra.
Felizes os que creram sem ter visto…
Sidnei Walter John
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