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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 1 de julho de 2015

14º DOMINGO TEMPO COMUM

14º DOMINGO TEMPO COMUM

5 de Julho de 2015
Ano  B

Comentários Prof.Fernando


-UM PROFETA SÓ NÃO É ESTIMADO EM SUA PÁTRIA-José Salviano


Evangelho - Mc 6,1-6

Jesus fez uma visita a sua terra natal. A vila de Nazaré, onde Ele passou sua infância, naquele vilarejo sem importância política nem econômica. Era realmente, um lugar humilde.  Continua

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O CAMINHO DO PROFETA É MARCADO PELA CRUZ! - Olívia Coutinho

 

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM


Dia 05 de Julho de 2015

Evangelho de Mc 6-1-6

O caminho do profeta é um caminho  marcado pela perseguição, pela rejeição e até mesmo pela incompreensão das pessoas  que fazem parte do seu convívio! Jesus, o profeta Maior de todos os tempos, passou por esta experiência, além de rejeitado pelas autoridades políticas e religiosas, foi também rejeitado pelos seus conterrâneos.
 O  evangelho que a liturgia de  hoje coloca diante de nós, nos trás uma amostra  dos desafios enfrentados pelos profetas de ontem e que os profetas de hoje  continuam enfrentando!
A cruz é certeira  no caminho do profeta, pois são muitos os que tentam calar a sua voz, o que é impossível,  pois nem a morte  consegue calar a voz do profeta, é justamente depois da  morte do profeta, que as suas palavras,   passam  a ressoar com mais força ainda no coração do povo!
O evangelho deste domingo,  nos fala  do retorno de Jesus à  sua cidade de origem: Nazaré.  Lá, Ele experimentou  no corpo e na alma a dor da rejeição, uma dor,  que certamente doeu mais forte ainda, por partir dos seus próprios conterrâneos, àqueles que deveriam ser os primeiros a acolhê-Lo. 
Antes de saber que Jesus era o enviado de Deus, o povo ficou maravilhado com as palavras de Jesus, mas quando a identidade do Messias anunciado pelos profetas foi se revelando na sua pessoa, a admiração pelas palavras de Jesus, caiu  por terra! Aqueles, que esperavam por um Messias extraordinário, triunfalista, que fosse defender os seus interesses, não quiseram aceitar um Messias de origem simples, que tinha o olhar voltado para os pequenos, os pobres, os marginalizados. Julgando conhecer Jesus, isto é: conhece-lo  pela sua condição social, eles  recusaram a aprofundar no mistério de Deus, ficaram somente no superficial, o mais importante, estava longe de ser percebido por eles: o Rosto humano do Pai, se revelando no filho de um carpinteiro!
Os compatriotas de Jesus,  tiveram nas mãos, a chave da felicidade, mas não se deram conta desta preciosidade, e assim, eles desperdiçaram a graça de Deus! Ali, Jesus não pode realizar muitos  milagres, não por retaliação, mas pela falta de fé daquele povo.
Será que nós também, não temos atitudes semelhantes as atitudes dos conterrâneos de Jesus? Será que estamos aceitando o recado de Deus, que chega até a nós por meio das pessoas simples?
Dificilmente reconhecemos  a sabedoria presente nas pessoas simples, temos a tendência de  acreditar somente nas palavras retóricas das pessoas de alto "nível intelectual", com isso, deixamos escapar as mensagens que Deus quer nos passar, através dos pequenos, dos simples!
É importante lembrarmos, que Jesus, o Mestre de todos os mestres, o profeta Maior de todos os tempos, serviu-se de meios humanos bem simples para anunciar o reino de Deus!
Ainda hoje, a  humanidade  continua dividida, uns  acolhe a voz do profeta e se dispõe a mudar de vida, outros  ignoram a sua fala, preferindo continuar na escravidão do pecado.
A rejeição à Jesus,  não interrompeu o anúncio do Reino, que continua através dos incansáveis profetas de hoje, homens e mulheres que se embrenham pelo caminho da cruz, dispostos a dar a vida se preciso for, pela causa do Reino.
Finalizando esta reflexão, vou contar um pequeno fato que pode retratar o não reconhecimento de um profeta no meio em que vive: Em uma  comunidade, as pessoas  se reuniam uma vez por semana, para um encontro de reflexão.  Nestes encontros, lia-se uma mensagem, cujo nome do autor não era revelado. A mensagem era bem acolhida por todos.  Seu conteúdo levava a crer que eram escritos por alguém  de grande sabedoria.  Até que um dia, o povo descobriu  quem era o autor de  tais maravilhas: se tratava de um simples jardineiro, um grande observador da natureza, suas mensagens tinham como finalidade conscientizar o povo da importância  da preservação da natureza. A partir de então,  tais mensagens passaram  a não ter o mesmo valor para o povo, pelo simples  fato de serem escritas por  uma pessoa  humilde.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

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O Evangelho deste domingo apresenta-nos Jesus na sua Nazaré. Ali mesmo, na sua própria cidade, onde nascera e fora criado, os seus o rejeitam: “’Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?’ E ficaram escandalizados por causa dele”. Assim, cumpre-se mais uma vez a Escritura: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam” (Jo. 1,11). E a falta de fé foi tão grande, a dureza de coração, tão intensa, a teimosia, tão pertinaz, que São Marcos afirma, de modo surpreendente: “Ali não pôde fazer milagre algum!”, tão grande era a falta de fé daquele povo.
Meus caros, pensemos bem na advertência que esta Palavra de Deus nos faz! O próprio Filho do Pai, em pessoa, esteve no meio do seu povo, conviveu com ele, falou-lhe, sorriu-lhe, abraçou-lhe e, no entanto, não foi reconhecido pelos seus. E por quê? Pela dureza de coração, pela insistência teimosa em esperar um messias de encomenda, sob medida, a seu bel prazer... Valia bem para Israel a censura da primeira leitura de hoje, na qual o Senhor Deus se dirige a seu servo: “Filho do homem, eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim. A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou-te enviar, e tu lhes dirás: ‘Assim fala o Senhor Deus’. Quer escutem, quer não, ficarão sabendo que houve entre eles um profeta!” Que coisa tremenda, meus caros: houve entre os israelitas um profeta, e mais que um profeta: o Filho de Deus, o Eterno, o Filho amado... E Israel o rejeitou!
Mas, deixemos Israel. E nós? Acolhemos o Senhor que nos vem? Escutamos com fé sua Palavra, quando ele se dirige a nós na Escritura, aquecendo nosso coração? Acolhemo-lo na obediência da fé, quando ele se nos dirige pela boca da sua Igreja católica, ensinando-nos o caminho da vida? Acolhemo-lo, quando nos fala pela boca de seus profetas? Não tenhamos tanta certeza de que somos melhores que aqueles de Nazaré! Aliás, é bom que nos perguntemos: por que os nazarenos não foram capazes de reconhecer Jesus como Messias? Já lhes disse: porque o Senhor não era um messias do jeito que eles esperavam: um simples fazedor de milagres, um resolvedor de problemas... Jesus, pobre, manso, humilde, era também exigente e pedia do povo a conversão de coração. Mas, há também uma outra razão para os nazarenos rejeitarem Jesus: eles foram incapazes de ver além das aparências. De fato, enxergaram em Jesus somente o filho de José, aquele que correra e brincara nas suas praças, aquele ao qual eles haviam visto crescer. Assim, sem conseguir olhar com mais profundidade, empacaram na descrença. Mas, nós, conseguimos olhar com profundidade? Somos capazes de escutar na voz dos ministros de Cristo a própria voz do Senhor? Somos sábios o bastante para ouvir na voz da Igreja a voz de Cristo?
É exatamente pela tendência nossa, tremenda, de sermos surdos ao Senhor, que Jesus tanto sofreu e que Paulo se queixava das dificuldades do seu ministério. O Apóstolo fala de um anjo de Satanás que o esbofeteava. Que anjo era esse? Ele mesmo explica: suas “fraquezas, injúrias, necessidades, perseguições e angústias sofridas por amor de Cristo”. O drama de Paulo é uma forte exortação aos pregadores do Evangelho e a todos os cristãos. Aos pregadores do Evangelho essa palavra do Apóstolo recorda que o anúncio será sempre numa situação de pobreza humana, de apertos e contradições. A evangelização, caríssimos, não é um trabalho de marketing televisivo como vemos algumas vezes nos “missionários” dos meios de comunicação. O Evangelho do Cristo crucificado e ressuscitado, é proclamado não somente pela palavra do pregador, mas também pela carne de sua vida. Como proclamar a Palavra sem sofrer por ela? Como anunciar o Crucificado que ressuscitou sem participar da sua cruz na esperança firme da sua ressurreição? O Evangelho não é uma teoria, não é um sistema filosófico. O Evangelho é Cristo Jesus encarnado na nossa vida, de modo que possamos dizer como São Paulo: “Eu trago no meu corpo as marcas de Jesus” (Gl. 6,17) Triste do pregador que pensar em anunciar Jesus conservando-se para si mesmo. Um diácono, um padre, um bispo, que quisessem se poupar, que separasse a pregação do seu modo de viver, que fosse pregador de ocasião, tornar-se-ia um falso profeta, transformar-se-ia em marketeiro do Evangelho, portanto, inútil e estéril. É toda a vida do pregador que deve ser envolvida na pregação: seu modo de viver, de agir, de vestir, de relacionar-se com os bens materiais, sua vida afetiva, seu modo de divertir-se, seu tipo de amizade... Tudo nele dever ser comprometido com o Senhor e para o Senhor! 
Mas, essa palavra de são Paulo na liturgia de hoje vale também para cada cristão. Hoje, somos minoria. O mundo não-crente, seculartizado zomba de nós e já não crê no anúncio de Cristo que lhe fazemos. Sentimos isso na pela! Pois bem, quando experimentarmos a frieza e a dura rejeição, quando em casa, no trabalho, nos círculos de amizades, formos ignorados ou ridicularizados por sermos de Cristo, recordemos do Evangelho de hoje, recordemo-nos dos sofrimentos dos apóstolos e retomemos a esperança: o caminho de Cristo é também o nosso; se sofrermos com ele, com ele reinaremos; se morrermos com ele, com ele viveremos (cf. 2Tm. 2,11-12) Não tenhamos medo: nós somos as testemunhas, os profetas, os sinais de luz que Deus envia ao mundo de hoje! Sejamos fiéis: o Senhor está conosco, hoje e sempre.
dom Henrique Soares da Costa

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O escândalo da encarnação
Jesus, profeta rejeitado na sua terra
A liturgia de hoje mostra a sorte do profeta: rejeição. Tema atual no continente do bispo Romero e de tantos outros mártires da justiça de Deus. Alguns desaparecem até sem deixar traços, mas sabemos que estiveram entre nós (cf. 1ª leitura: Ez. 2,5). Ezequiel é enviado a um povo “duro de cerviz”, mesmo enquanto vivendo no exílio (Ef. 3,12-15). Como outrora Jeremias (Jr. 2,20; 7,24; 22,21; 32,20), Ezequiel lembra a Israel seu passado rebelde. É um povo que se revolta contra Deus e mata seus profetas, inclusive Jesus de Nazaré (cf. Mt. 23,33-35; At. 7,34.39.51-53 etc.).
O profeta deve marcar presença; goste ou não, o povo deve saber que o porta-voz de Deus esteve no meio dele (Ez. 2,5). Daí o duplo sabor da missão profética: o profeta tem que comer a palavra de Deus, que é doce como mel, mas causa amargura no profeta (Ez. 2,8-3,3; 3,14; cf. Ap. 10,8-10). Aceito ou não (Ez. 3,11), tem de proclamar, oportuna ou inoportunamente (2Tm. 4,2). Profeta não é diplomata. Há um momento em que a palavra deve ser dita com toda a clareza: é o momento do profeta.
O evangelho de Mc descreve a manifestação do “poder-autoridade” em Jesus. Ao revelar seu “poder”, Jesus encontrou aceitação da parte dos humildes, doentes e peca­dores, e inimizade junto às autoridades. Agora, chegando à sua terra de origem, Nazaré, encontra tanta incredulidade, que deve dar testemunho contra sua própria gente  (evangelho). Por não existir fé, o espírito profético nele não encontra respaldo; quase não lhe é dado operar sinais (Mc. 6,5-6). Pois sabemos, pelos evangelhos dos domingos anteriores, que os sinais de Jesus são a revelação, para os que nele acreditam, de sua união com o Pai. A uma geração incrédula não se dá sinal algum (Mc. 8,11-14; cf. Mt. 12,38-42 e Lc. 11,29-32). Mas, mesmo se Jesus não pode fazer milagres em Nazaré, ainda revela sua personalidade. O próprio fato de ser rejeitado demonstra que ele é profeta: é em sua pátria, entre sua gente, que o profeta é rejeitado (cf. Ez. 3,6) (*)
A razão por que Jesus não é escutado é a mesquinhez. Gente mesquinha não presta ouvido a quem é da mesma origem. Santo de casa não faz milagre. Para se fazer de im­portante, gente mesquinha exige coisa importada. Os semi-intelectuais brasileiros ado­ram o último grito de Paris e Nova York, mas desprezam a cultura autêntica das tradições de seu próprio povo e odeiam a cultura emergente que nasce da base conscientiza­da e que denuncia a alienação institucionalizada. A flor do orgulho é o espírito estreito e mesquinho, incapaz de admitir que tão perto do brilho enganoso possa florescer flor admirável de verdade.
Devemos ver, também, nas críticas dos nazarenses, as objeções do judaísmo à pre­gação apostólica. Como pode Jesus ser o Messias, se conhecemos seus parentes até o presente dia? Eles nem mesmo ocupam altos cargos no seu Reino (cf. 10,35-40). A in­credulidade de Nazaré representa a incredulidade de uma tradição religiosa e socioló­gica que não quer mudar seus conceitos a respeito daquilo que Deus deveria fazer. Por isso, Deus também não faz nada: não dá sinal.
A experiência de Paulo (2ª  leitura) vai na mesma direção. Paulo descreve as dificuldades de seu apostolado, “gloriando-se” contra aqueles que se gloriam na observân­cia judaica e outros pretextos para destruir a obra da evangelização que ele está reali­zando. Pede a seus leitores suportar um pouco de loucura da sua parte: seu próprio elo­gio (2Cor. 11,1). Mas que elogio! O currículo de Paulo não está cheio de diplomas, con­cursos e obras publicadas, mas de loucuras mesmo (11,8.16.29). Gloria-se de sua fra­queza (11,30). Tem um aguilhão na carne, algo misterioso – os exegetas falam em doença, prisão, tentações, remorso de seu passado, epilepsia … -, “um anjo de Satanás”, uma provação semelhante à de Jó. Importa o sentido que Paulo lhe dá: impedir que se encha de soberba. O evangelho vale mais que ouro, mas o apóstolo é apenas um recipiente de barro (2Cor 4,6ss; cf. 9° dom. T.C. ). Se ele produz efeito, é o espírito de Deus que o produz. Para o apóstolo, basta a graça, isto é, que Deus realize sua redenção, sem depender de nossas qualidades humanas (embora as utilize e absorva). Em nossa fra­queza é que seu poder se manifesta. Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré: fraqueza também. Mas Deus realizou seu plano na suprema “fraqueza” do Cristo: sua morte na Cruz (cf.oração do dia). Junto a ele há lugar para os “fracos”; nele, tornam-se fortes (cf. canto da comunhão II).
(*) Aconselhamos o estudo do trecho Ez. 2,1-3,15 inteiro. Ez 3,6 sugere que as nações pagãs, entre as quais Israel agora deve viver, escutariam a palavra (cf. Jonas)
Johan Konings "Liturgia dominical"


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O evangelista Marcos narra que Jesus foi para "sua própria terra", isto é, para sua cidade de origem, a cidade de sua família, Nazaré. O fato de os seus discípulos o acompanharem indica que não é apenas uma visita familiar, mas também uma visita já em vista do anúncio de sua Boa-Nova. Neste Evangelho, esta é a terceira e última vez que Jesus aparece no espaço simbólico da sinagoga, e todas as ocasiões em clima de contestação e conflito com os chefes religiosos e sua doutrina. Jesus, exercendo seu ministério na Galiléia e nos territórios gentílicos vizinhos, abandona a sinagoga e tem a "casa" como centro de irradiação da missão. Os que ouviam Jesus "maravilhavam-se" com o que dizia, mas o rejeitaram. E Jesus "espantava-se" com a incredulidade deles. "Não é ele o carpinteiro?" diziam, com desprezo. Faltava-lhes a fé. A sentença "Um profeta só não é valorizado na sua própria terra" é um patrimônio da cultura antiga, sendo citada em documentos do Antigo Egito. Como palavra de Jesus, exprime sua rejeição pelos freqüentadores da sinagoga e por seus familiares. A mensagem central deste episódio é o distanciamento de Jesus em relação às tradicionais estruturas sociorreligiosas de culto e parentesco do judaísmo. Este se afirmava como povo divinamente eleito a partir dos vínculos carnais de consangüinidade, provados por genealogias, com a ascendência abraâmica, e na obediência à Lei de Moisés. Afastando-se das sinagogas, Jesus exerce seu ministério percorrendo os povoados da Galiléia e regiões vizinhas, ensinando. Com ele, o espaço do encontro com Deus é a casa, onde se reúne a comunidade; e a família fica caracterizada pela união em torno do cumprimento da vontade do Pai. Percebe-se bem como os Evangelhos deixam transparecer a dificuldade que aqueles que conviveram com Jesus tiveram em compreender sua identidade. Quem é Jesus? Durante cerca de trinta anos ele viveu com a família, na Galiléia, sem nada excepcional que chamasse a atenção sobre sua pessoa. É o Filho de Deus presente no mundo, em comunicação com todos, certamente de maneira humilde, digna e com amor. É a condição humana, na simplicidade do dia-a-dia, que é valorizada pelo Pai e que, em tudo o que nela há de bom, justo e verdadeiro, a assume no seu amor e na sua vida eterna.
padre Jaldemir Vitório



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A liturgia deste domingo revela que Deus chama, continuamente, pessoas para serem testemunhas no mundo do seu projeto de salvação. Não interessa se essas pessoas são frágeis e limitadas; a força de Deus revela-se através da fraqueza e da fragilidade desses instrumentos humanos que Deus escolhe e envia.
A primeira leitura apresenta-nos um extrato do relato da vocação de Ezequiel. A vocação profética é aí apresentada como uma iniciativa de Jahwéh, que chama um “filho de homem” (isto é, um homem “normal”, com os seus limites e fragilidades) para ser, no meio do seu Povo, a voz de Deus.
Na segunda leitura, Paulo assegura aos cristãos de Corinto (recorrendo ao seu exemplo pessoal) que Deus atua e manifesta o seu poder no mundo através de instrumentos débeis, finitos e limitados. Na ação do apóstolo – ser humano, vivendo na condição de finitude, de vulnerabilidade, de debilidade – manifesta-se ao mundo e aos homens a força e a vida de Deus.
O Evangelho, ao mostrar como Jesus foi recebido pelos seus conterrâneos em Nazaré, reafirma uma ideia que aparece também nas outras duas leituras deste domingo: Deus manifesta-Se aos homens na fraqueza e na fragilidade. Quando os homens se recusam a entender esta realidade, facilmente perdem a oportunidade de descobrir o Deus que vem ao seu encontro e de acolher os desafios que Deus lhes apresenta.
1ª leitura: Ez. 2,2-5 - AMBIENTE
Ezequiel, o “profeta da esperança”, exerceu o seu ministério na Babilônia no meio dos exilados judeus. O profeta fez parte dessa primeira leva de exilados que, em 597 a.C., Nabucodonosor deportou para a Babilônia.
A primeira fase do ministério de Ezequiel decorreu entre 593 a.C. (data do seu chamamento à vocação profética) e 586 a.C. (data em que Jerusalém foi conquistada uma segunda vez pelos exércitos de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados foi encaminhada para a Babilônia). Nesta fase, o profeta preocupou-se em destruir as falsas esperanças dos exilados (convencidos de que o exílio terminaria em breve e que iam poder regressar rapidamente à sua terra) e em denunciar a multiplicação das infidelidades a Jahwéh por parte desses membros do Povo judeu que escaparam ao primeiro exílio e que ficaram em Jerusalém.
A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrolou-se a partir de 586 a.C. e prolongou-se até cerca de 570 a.C.. Instalados numa terra estrangeira, privados de Templo, de sacerdócio e de culto, os exilados estavam desiludidos e duvidavam de Jahwéh e do compromisso que Deus tinha assumido com o seu Povo. Nessa fase, Ezequiel procurou alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador não tinha abandonado nem esquecido o seu Povo.
O texto que nos é proposto hoje como primeira leitura faz parte do relato da vocação de Ezequiel (cf. Ez 1,1-3,27). Depois de descrever a manifestação de Deus, num quadro que apresenta todas as características especiais das teofanias (cf. Ez 1,1-28), o profeta apresenta um discurso no qual Jahwéh define a missão que lhe vai confiar (cf. Ez. 2,1-3,15). O episódio é situado “no quinto ano do cativeiro do rei Joaquin”, “na Caldeia, nas margens do rio Cabar” (Ez. 1,2).
Seria um erro interpretar este relato como informação biográfica… Trata-se, antes, de mostrar – com a linguagem da época e utilizando os processos típicos da literatura da época – que o profeta recebeu uma missão de Deus e que fala e atua em nome de Deus.
MENSAGEM
O nosso texto apresenta alguns dos elementos típicos dos relatos de vocação e que fazem parte de qualquer história de vocação.
Sugere-se, em primeiro lugar, que a vocação profética é um desígnio divino. Não se nomeia Jahwéh diretamente; mas aquele que chama Ezequiel não pode ser outro senão Deus… O nosso texto é antecedido (cf. Ez. 1,1-28) de uma solene manifestação de Deus. Depois, o profeta ouve uma “voz” que o chama (v. 2) e que revela a Ezequiel que deve dirigir-se a esse Povo rebelde que se insurgiu contra Deus. Há também uma referência ao “espírito” que se apossou do profeta e o fez “levantar”; de acordo com a reflexão judaica, era Deus que comunicava uma força divina – o seu “espírito” – àqueles que escolhia para enviar a salvar o seu Povo, como os juízes (cf. Jz. 14,6.19; 15,14), os reis (cf. 1Sm. 10,6.10; 16,13) e os profetas (no caso de Ezequiel, esse “espírito” aparece como uma manifestação especialmente violenta de Deus, que se apossa do profeta e o destina para o seu serviço). A vocação é sempre uma iniciativa de Deus e não uma escolha do homem. Foi Deus que chamou Ezequiel e que o designou para o seu serviço.
Em segundo lugar, aparece a idéia de que o chamamento é dirigido a um homem. Ezequiel é chamado “filho de homem” (v. 3) – expressão hebraica que significa simplesmente “homem ligado à terra, fraco e mortal. Deus chama homens frágeis e limitados, não seres extraordinários, etéreos, dotados de capacidades incomuns… O que é decisivo não são as qualidades extraordinárias do profeta, mas o chamamento de Deus e a missão que Deus lhe confia. A indignidade e a limitação, típicas do “filho do homem”, não são impeditivas para a missão: a eleição divina dá ao profeta autoridade, apesar dos seus limites bem humanos.
Em terceiro lugar, temos a definição da missão. Ezequiel, o profeta, é enviado a um Povo rebelde, que continuamente se afasta dos caminhos de Jahwéh. A sua missão é apresentar a esse Povo as propostas de Deus. O mais importante não é que as palavras do profeta sejam ou não escutadas; o que é importante é que o profeta seja, no meio do Povo, a voz que indica os caminhos de Deus (vers. 4-5).
A vida de Ezequiel realizou integralmente o projeto de Deus. Chamado por Jahwéh, ele foi, no meio do Povo exilado na Babilônia, uma voz humana através da qual Deus apresentou ao seu Povo o caminho para a vida plena e verdadeira. É essa a missão do profeta.
ATUALIZAÇÃO
• Os “profetas” não são um grupo humano extinto há muitos séculos, mas são uma realidade com que Deus continua a contar para intervir no mundo e para recriar a história. Quem são, hoje, os profetas? Onde estão eles?
• No Batismo, fomos ungidos como profetas, à imagem de Cristo. Cada um de nós tem a sua história de vocação profética: de muitas formas Deus entra na nossa vida, desafia-nos para a missão, pede uma resposta positiva à sua proposta. Temos consciência de que Deus nos chama – às vezes de formas bem banais – à missão profética? Estamos atentos aos sinais que Ele semeia na nossa vida e através dos quais Ele nos diz, dia a dia, o que quer de nós? Temos a noção de que somos a “boca” através da qual a Palavra de Deus se dirige aos homens?
• O profeta é o homem que vive de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo (numa mão a Bíblia, na outra o jornal diário). Vivendo em comunhão com Deus e intuindo o projeto que Ele tem para o mundo, e confrontando esse projeto com a realidade humana, o profeta percebe a distância que vai do sonho de Deus à realidade dos homens. É aí que ele intervém, em nome de Deus, para denunciar, para avisar, para corrigir. Somos estas pessoas, simultaneamente em comunhão com Deus e atentas às realidades que desfeiam o nosso mundo? Em concreto, em que situações sou chamado, no dia a dia, a exercer a minha vocação profética?
• A denúncia profética implica, tantas vezes, a perseguição, o sofrimento, a marginalização e, em tantos casos, a própria morte (Óscar Romero, Luther King, Gandhi…). Como lidamos com a injustiça e com tudo aquilo que rouba a dignidade dos homens? O medo, o comodismo, a preguiça, alguma vez nos impediram de ser profetas?
• É preciso ter consciência, também, que as nossas limitações e indignidades muito humanas não podem servir de desculpa para realizar a missão que Deus quer confiar-nos: se Ele nos pede um serviço, dar-nos-á também a força para superar os nossos limites e para cumprir o que nos pede. As fragilidades que fazem parte da nossa humanidade não podem, em nenhuma circunstância, servir de desculpa para não cumprirmos a nossa missão profética no meio dos nossos irmãos.
2ª leitura: 2Cor.12,7-10 - AMBIENTE
A segunda carta de Paulo aos Coríntios espelha uma época de relações conturbadas entre Paulo e os cristãos de Corinto. As críticas de Paulo a alguns membros da comunidade que levavam uma vida pouco consentânea com os valores cristãos (primeira carta aos Coríntios) provocaram uma reação extremada e uma campanha organizada no sentido de desacreditar Paulo. Essa campanha foi instigada por certos missionários itinerantes procedentes das comunidades cristãs da Palestina, que se consideravam representantes dos Doze e que minimizavam o trabalho apostólico de Paulo. Entre outras coisas, esses missionários afirmavam que Paulo era inferior aos outros apóstolos, por não ter convivido com Jesus e que a catequese apresentada por Paulo não estava em consonância com a doutrina da Igreja. Paulo, informado de tudo, dirigiu-se apressadamente para Corinto e teve um violento confronto com os seus detratores. Depois, bastante magoado, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de Paulo, fino negociador e hábil diplomata, partiu para Corinto, a fim de tentar a reconciliação.
Paulo, entretanto, deixou Éfeso e foi para Tróade. Foi aí que reencontrou Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas por Tito eram animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os coríntios estavam, outra vez, em comunhão com Paulo.
Reconfortado, Paulo escreveu uma tranquila apologia do seu apostolado, à qual juntou um apelo em favor de uma coleta para os pobres da Igreja de Jerusalém. Esse texto é a nossa segunda carta de Paulo aos Coríntios. Estamos no ano 56 ou 57.
O texto que nos é proposto integra a terceira parte da carta (cf. 2Cor 10,1-13,10). Aí Paulo, num estilo apaixonado, às vezes cáustico, mas sempre levado pela exigência da verdade e da fé, defende a autenticidade do seu ministério frente a esses “super-apóstolos” que o acusavam.
Como apóstolo, Paulo não se sente inferior a ninguém e muito menos aos seus detratores. Estes orgulhavam-se das suas credenciais e afirmavam por toda a parte os seus dons carismáticos… Paulo, se quisesse entrar no mesmo jogo, podia orgulhar-se de muitas coisas, nomeadamente das revelações que recebeu e das suas experiências místicas (cf. 2Cor. 12,1-4); mas ele quer apenas que o vejam como um homem frágil e vulnerável, a quem Deus chamou e a quem enviou para dar testemunho de Jesus Cristo no meio dos homens.
MENSAGEM
Assumindo essa condição de debilidade e de vulnerabilidade, Paulo fala aos Coríntios de uma limitação que transporta no seu corpo, um “anjo de Satanás” que lhe recorda continuamente a sua finitude e fragilidade (v. 7). De que é que se trata, em concreto? Não o sabemos. Provavelmente, trata-se de uma doença física crônica (em Gl. 4,13-14 Paulo fala de uma grave enfermidade física, que fez com que o corpo do apóstolo fosse, para os Gálatas, “uma provação”; mas nada garante que essa enfermidade física esteja relacionada com este “anjo de Satanás” de que ele fala aos Coríntios). O fato de Paulo chamar a essa limitação que o apoquenta um “anjo de Satanás” deve ter a ver com o fato de a mentalidade judaica ligar as enfermidades aos “espíritos maus”. De acordo com outra interpretação, esse “espinho na carne” que é um “anjo de Satanás” poderia referir-se também aos obstáculos que Satanás põe a Paulo no que diz respeito ao anúncio do Evangelho.
Em todo o caso, o problema pessoal de Paulo mostra como a finitude e a fragilidade não são determinantes para a missão; o que é determinante é a graça de Deus… Com a graça de Deus, Paulo tudo pode, apesar da sua debilidade. Deus não eliminou o problema, apesar dos insistentes pedidos de Paulo; mas é Ele que dá a Paulo a força para continuar a sua missão, apesar dos limites que esse “espinho na carne” lhe impõe. Na verdade, o problema pessoal de que Paulo sofre dá testemunho de que Deus atua e manifesta o seu poder no mundo através de instrumentos débeis, finitos e limitados. No apóstolo – ser humano, vivendo na condição de finitude, de vulnerabilidade, de debilidade – manifesta-se ao mundo e aos homens a força de Deus e de Cristo.
ATUALIZAÇÃO
• O caso pessoal de Paulo diz-nos muito sobre os métodos de Deus… Para vir ao encontro dos homens e para lhes apresentar a sua proposta de salvação, Deus não utiliza métodos espetaculares, poderosos, majestosos, que se impõem de forma avassaladora e que deixam uma marca de estupefação e de espanto na memória dos povos; mas, quase sempre, Deus utiliza a fraqueza, a debilidade, a fragilidade, a simplicidade para nos dar a conhecer os seus caminhos. Nós, homens e mulheres do séc. XXI, deixamo-nos, facilmente, impressionar pelos grandes gestos, pelos cenários magnificentes, pelas roupagens sumtuosas, por tudo o que aparece envolvido num halo cintilante de riqueza, de prestígio social, de poder, de beleza; e, por outro lado, temos mais dificuldade em reparar naquilo que se apresenta pobre, humilde, simples, frágil, débil… A Palavra de Deus que hoje nos é proposta garante-nos que é na fraqueza que se revela a força de Deus. Precisamos de aprender a ver o mundo, os homens e as coisas com os olhos de Deus e a descobrir esse Deus que, na debilidade, na simplicidade, na pobreza, na fragilidade, vem ao nosso encontro e nos indica os caminhos da vida.
• A consciência de que as suas qualidades e defeitos não são determinantes para o sucesso da missão, pois o que é importante é a graça de Deus, deve levar o “profeta” a despir-se de qualquer sentimento de orgulho ou de auto-suficiência. O “profeta” deve sentir-se, apenas, um instrumento humano, frágil, débil e limitado, através do qual a força e a graça de Deus agem no mundo. Quando o “profeta” tem consciência desta realidade, percebe como são despropositadas e sem sentido quaisquer atitudes de vedetismo ou de busca de protagonismo, no cumprimento da missão… A missão do “profeta” não é atrair sobre si próprio as luzes da ribalta, as câmaras da televisão ou o olhar das multidões; a missão do “profeta” é servir de veículo humano à proposta libertadora de Deus para os homens.
• Como pano de fundo do nosso texto, está a polemica de Paulo com alguns cristãos que não o aceitavam. Ao longo de todo o seu percurso missionário, Paulo teve de lidar frequentemente com a incompreensão; e, muitas vezes, essa incompreensão veio até dos próprios irmãos na fé e dos membros dessas comunidades a quem Paulo tinha levado, com muito esforço, o anúncio libertador de Jesus. No entanto, a incompreensão nunca abalou a decisão e o entusiasmo de Paulo no anúncio da Boa Nova de Jesus… Ele sentia que Deus o tinha chamado a uma missão e que era preciso levar essa missão até ao fim, doesse a quem doesse… Frequentemente, temos de lidar com realidades semelhantes. Todos experimentamos já momentos de incompreensão e de oposição (que, muitas vezes, vêm do interior da nossa própria comunidade e que, por isso, magoam mais). É nessas alturas que o exemplo de Paulo deve brilhar diante dos nossos olhos e ajudar-nos a vencer o desânimo e a tentação de desistir.
• Neste texto de Paulo (como, aliás, em quase todos os textos do apóstolo), transparece a atitude de vida de um cristão para quem Cristo é, verdadeiramente, o centro da própria existência e que só vive em função de Cristo… Nada mais lhe interessa senão anunciar as propostas de Cristo e dar testemunho da graça salvadora de Cristo. Que lugar ocupa Cristo na minha vida? Que lugar ocupa Cristo nos meus projetos, nas minhas decisões, nas minhas opções, nas minhas atitudes?
Evangelho: Mc. 6,1-6 - AMBIENTE
O Evangelho de hoje fala-nos de uma visita à “terra” de Jesus. De acordo com Mc. 1,9, a “terra” de Jesus era Nazaré, uma pequena vila da Galileia situada a 22 Km. a oeste do Lago de Tiberíades. Esta povoação tipicamente agrícola nunca teve grande importância no universo na história do judaísmo… O Antigo Testamento ignora-a completamente; Flávio Josefo e os escritores rabínicos também não lhe fazem qualquer referência. Os contemporâneos de Jesus parecem conceder-lhe escassa consideração (cf. Jo. 1,46). Nazaré é, no entanto, a cidade onde Jesus cresceu e onde reside a sua família.
A cena principal que nos é relatada por Marcos passa-se na sinagoga de Nazaré, num sábado. Jesus, como qualquer outro membro da comunidade judaica, foi à sinagoga para participar no ofício sinagogal; e, fazendo uso do direito que todo o israelita adulto tinha, leu e comentou as Escrituras.
O episódio que nos é proposto integra a primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc. 1,14-8,30). Aí, Jesus é apresentado como o Messias que proclama, por toda a Galileia, o Reino de Deus. Na secção que vai de 3,7 a 6,6, contudo, Marcos refere-se especialmente à reação do Povo face à proclamação de Jesus… À medida que o “caminho do Reino” vai avançando, vão-se multiplicando as oposições e incompreensões face ao projeto que Jesus anuncia. O nosso texto deve ser entendido neste ambiente.
MENSAGEM
Os ensinamentos de Jesus na sinagoga, naquele sábado, deixam impressionados os habitantes de Nazaré, como já tinham deixado impressionados os fiéis da sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc. 1,21-28). No entanto, os de Cafarnaum, depois de ouvir Jesus, reconheceram a sua autoridade mais do que divina (e que, segundo eles, era diferente da autoridade dos doutores da Lei); os de Nazaré vão chegar a conclusões distintas.
Depois de escutarem Jesus, na sinagoga, os seus conterrâneos traduzem a sua perplexidade através de várias perguntas… Duas das questões postas dizem respeito à origem e à qualidade dos ensinamentos de Jesus (“de onde lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que lhe foi dada?” – v. 2); uma outra questão refere-se à qualificação das ações de Jesus (“e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?” – v. 2).
Numa espécie de contraponto à impressão que Jesus lhes deixou, eles recordam o seu ofício e a “normalidade” da sua família (v. 3a)… Para eles, Jesus é “o carpinteiro”: não é um “rabbi”, nunca estudou as Escrituras com nenhum mestre conceituado e não tem qualificações para dizer as coisas que diz. Por outro lado, eles conhecem a identidade da família de Jesus e não descobrem nela nada de extraordinário: Ele é o “filho de Maria” e os seus irmãos e irmãs são gente “normal”, que toda a gente conhece em Nazaré e que nunca revelaram qualidades excepcionais. Portanto, parece claro que o papel assumido por Jesus e as ações que Ele realizou são humanamente inexplicáveis.
A questão seguinte (que, no entanto, não aparece explicitamente formulada) é esta: estas capacidades extraordinárias que Jesus revela (e que não vêm certamente dos conhecimentos adquiridos no contacto com famosos mestres, nem do ambiente familiar) vêm de Deus ou do diabo? Desde o primeiro momento, os comentários dos habitantes de Nazaré deixam transparecer uma atitude negativa e um tom depreciativo na análise de Jesus. Nem sequer se referem a Jesus pelo próprio nome, mas usam sempre um pronome para falar d’Ele (Jesus é “este” ou “ele” - vs. 2-3). Depois, chamam-Lhe depreciativamente “o filho de Maria” (o costume era o filho ser conhecido em referência ao pai e não à mãe). Como cenário de fundo do pensamento dos habitantes de Nazaré está provavelmente a acusação feita a Jesus algum tempo antes pelos “doutores da Lei que haviam descido de Jerusalém e que afirmavam: «Ele tem Belzebu! É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios»“ (Mc. 3,22). Marcos conclui que os habitantes de Nazaré ficaram “escandalizados” (v. 3b) com Jesus (o verbo grego “scandalidzô”, aqui utilizado, significa muito mais do que o “ficar perplexo” das nossas traduções: significa “ofender”, “magoar”, “ferir suscetibilidades”). Há na vila uma espécie de indignação porque Jesus, apesar de ter sido desautorizado pelos mestres reconhecidos do judaísmo, continua a desenvolver a sua atividade à margem da instituição judaica. Ele põe em causa a religião tradicional, quando ensina coisas diferentes e de forma diferente dos mestres reconhecidos. Conclusão: Ele está fora da instituição judaica; o seu ensinamento não pode, portanto, vir de Deus, mas do diabo. Os conterrâneos de Jesus não conseguem reconhecer a presença de Deus naquilo que Jesus diz e faz.
Jesus responde aos seus concidadãos (v. 4) citando um conhecido provérbio, mas que Ele modifica, em parte (o original devia soar mais ou menos assim: “nenhum profeta é respeitado no seu lugar de origem, nenhum médico faz curas entre os seus conhecidos”). Nessa resposta, Jesus assume-Se como profeta – isto é, como um enviado de Deus, que atua em nome de Deus e que tem uma mensagem de Deus para oferecer aos homens. Os ensinamentos que Jesus propõe não vêm dos mestres judaicos, mas do próprio Deus; a vida que Ele oferece é a vida plena e verdadeira que Deus quer propor aos homens.
A recusa generalizada da proposta que Jesus traz coloca-o na linha dos grandes profetas de Israel. O Povo teve sempre dificuldade em reconhecer o Deus que vinha ao seu encontro na palavra e nos gestos proféticos. O fato de as propostas apresentadas por Jesus serem rejeitadas pelos líderes, pelo povo da sua terra, pelos seus “irmãos e irmãs” e até pelos da sua casa não invalida, portanto, a sua verdade e a sua procedência divina.
Porque é que Jesus “não podia ali fazer qualquer milagre” (vers. 5)? Deus oferece aos homens, através de Jesus, perspectivas de vida nova e eterna… No entanto, os homens são livres; se eles se mantêm fechados nos seus esquemas e preconceitos egoístas e rejeitam a vida que Deus lhes oferece, Jesus não pode fazer nada. Marcos observa, apesar de tudo, que Jesus “curou alguns doentes impondo-lhes as mãos”. Provavelmente, estes “doentes” são aqueles que manifestam uma certa abertura a Jesus mas que, de qualquer forma, não têm a coragem de cortar radicalmente com os mecanismos religiosos do judaísmo para descobrir a novidade radical do Reino que Jesus anuncia.
Marcos nota ainda a “surpresa” de Jesus pela falta de fé dos seus concidadãos (v. 6a). Esperava-se que, confrontados com a proposta nova de liberdade e de vida plena que Jesus apresenta, os seus interlocutores renunciassem à escravidão para abraçar com entusiasmo a nova realidade… No entanto, eles estão de tal forma acomodados e instalados, que preferem a vida velha da escravidão à novidade libertadora de Jesus.
Este fato decepcionante não impede, contudo, que Jesus continue a propor a Boa Nova do Reino a todos os homens (vers. 6b). Deus oferece, sem interrupção, a sua vida; ao homem resta acolher ou não esse oferecimento.
ATUALIZAÇÃO
O texto do Evangelho repete uma ideia que aparece também nas outras duas leituras deste domingo: Deus manifesta-Se aos homens na fraqueza e na fragilidade. Normalmente, Ele não se manifesta na força, no poder, nas qualidades que o mundo acha brilhantes e que os homens admiram e endeusam; mas, muitas vezes, Ele vem ao nosso encontro na fraqueza, na simplicidade, na debilidade, na pobreza, nas situações mais simples e banais, nas pessoas mais humildes e despretensiosas… É preciso que interiorizemos a lógica de Deus, para que não percamos a oportunidade de O encontrar, de perceber os seus desafios, de acolher a proposta de vida que Ele nos faz…
• Um dos elementos questionantes no episódio que o Evangelho deste domingo nos propõe é a atitude de fechamento a Deus e aos seus desafios, assumida pelos habitantes de Nazaré. Comodamente instalados nas suas certezas e preconceitos, eles decidiram que sabiam tudo sobre Deus e que Deus não podia estar no humilde carpinteiro que eles conheciam bem… Esperavam um Deus forte e majestoso, que se havia de impor de forma estrondosa, e assombrar os inimigos com a sua força; e Jesus não se encaixava nesse perfil. Preferiram renunciar a Deus, do que à imagem que d’Ele tinham construído. Há aqui um convite a não nos fecharmos nos nossos preconceitos e esquemas mentais bem definidos e arrumados, e a purificarmos continuamente, em diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta da Palavra revelada e na oração, a nossa perspectiva acerca de Deus.
• Para os habitantes de Nazaré Jesus era apenas “o carpinteiro” da terra, que nunca tinha estudado com grandes mestres e que tinha uma família conhecida de todos, que não se distinguia em nada das outras famílias que habitavam na vila; por isso, não estavam dispostos a conceder que esse Jesus – perfeitamente conhecido, julgado e catalogado – lhes trouxesse qualquer coisa de novo e de diferente… Isto deve fazer-nos pensar nos preconceitos com que, por vezes, abordamos os nossos irmãos, os julgamos, os catalogamos e etiquetamos… Seremos sempre justos na forma como julgamos os outros? Por vezes, os nossos preconceitos não nos impedirão de acolher o irmão e a riqueza que Ele nos traz?
• Jesus assume-Se como um profeta, isto é, alguém a quem Deus confiou uma missão e que testemunha no meio dos seus irmãos as propostas de Deus. A nossa identificação com Jesus faz de nós continuadores da missão que o Pai Lhe confiou. Sentimo-nos, como Jesus, profetas a quem Deus chamou e a quem enviou ao mundo para testemunharem a proposta libertadora que Deus quer oferecer a todos os homens? Nas nossas palavras e gestos ecoa, em cada momento, a proposta de salvação que Deus quer fazer a todos os homens?
• Apesar da incompreensão dos seus concidadãos, Jesus continuou, em absoluta fidelidade aos planos do Pai, a dar testemunho no meio dos homens do Reino de Deus. Rejeitado em Nazaré, Ele foi, como diz o nosso texto, percorrer as aldeias dos arredores, ensinando a dinâmica do Reino. O testemunho que Deus nos chama a dar cumpre-se, muitas vezes, no meio das incompreensões e oposições… Frequentemente, os discípulos de Jesus sentem-se desanimados e frustrados porque o seu testemunho não é entendido nem acolhido (nunca aconteceu pensarmos, depois de um trabalho esgotante e exigente, que estivemos a perder tempo?)… A atitude de Jesus convida-nos a nunca desanimar nem desistir: Deus tem os seus projetos e sabe como transformar um fracasso num êxito.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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Basta‑te a minha graça
I. Na segunda leitura (1) da missa, São Paulo revela‑nos a sua profunda humildade. Depois de falar aos fiéis de Corinto dos seus trabalhos por Cristo e das visões e revelações que o Senhor lhe concedeu, declara‑lhes também a sua debilidade: Para que não me ensoberbeça, foi‑me dado um aguilhão na carne, um anjo de satanás, que me esbofeteia para que eu não me exalte.
Não sabemos com certeza a que se refere São Paulo quando fala desse aguilhão da carne. Alguns Padres (Santo Agostinho) pensam que se tratava de uma doença física particularmente dolorosa; outros (são João Crisóstomo) acham que se referia às tribulações que lhe causavam as contínuas perseguições que o atingiam; alguns (são Gregório Magno) julgam que aludia a tentações especialmente difíceis de repelir (2). Seja como for, tratava‑se de alguma coisa que humilhava o Apóstolo, que entravava de certo modo a sua tarefa de evangelizador.
São Paulo pediu ao Senhor por três vezes que retirasse dele esse obstáculo. E recebeu esta sublime resposta: Basta‑te a minha graça, pois a força resplandece na fraqueza. Para superar essa dificuldade, bastava‑lhe a ajuda de Deus, e, além disso, ela servia para manifestar o poder divino que lhe permitiria vencê‑la. Ao contar com a ajuda de Deus, tornava‑se mais forte, e isso fê‑lo exclamar: Por isso glorio‑me com muito gosto nas minhas fraquezas, nos opróbrios, nas necessidades, nas perseguições e angústias, por Cristo; pois, quando sou fraco, então sou forte. Na nossa fraqueza, experimentamos constantemente a necessidade de recorrer a Deus e à fortaleza que nos vem dEle. Quantas vezes o Senhor nos terá dito na intimidade do nosso coração: Basta‑te a minha graça, tens a minha ajuda para venceres nas provas e dificuldades!
Pode ser que, de vez em quando, a solidão, a fraqueza ou a tribulação nos atinjam de um modo particularmente vivo e doloroso: “Procura então o apoio dAquele que morreu e ressuscitou. Procura para ti abrigo nas chagas das suas mãos, dos seus pés, do seu lado aberto. E renovar‑se‑á a tua vontade de recomeçar, e reempreenderás o caminho com maior decisão e eficácia”3.
Por outro lado, as próprias dificuldades e fraquezas podem converter‑se num bem maior. São Tomás de Aquino, ao comentar essa passagem da Epístola de São Paulo, explica que Deus pode permitir algumas vezes certos males de ordem moral ou física para obter bens maiores ou mais necessários4. O Senhor nunca nos abandonará no meio das provações. A nossa própria debilidade ajuda‑nos a confiar mais, a procurar com maior presteza o refúgio divino, a pedir mais forças, a ser mais humildes: “Senhor, não te fies de mim! Eu, sim, é que me fio de Ti. E ao vislumbrarmos na nossa alma o amor, a compaixão, a ternura com que Cristo Jesus nos olha – porque Ele não nos abandona –, compreenderemos em toda a sua profundidade as palavras do apóstolo: Virtus in infirmitate perficitur, a virtude se fortalece na fraqueza (2Cor. 12,9); com fé no Senhor, apesar das nossas misérias – ou melhor, com as nossas misérias –, seremos fiéis ao nosso Pai‑Deus, e o poder divino brilhará, sustentando‑nos no meio da nossa fraqueza”5.
II. FOI‑ME DADO UM AGUILHÃO na carne, um anjo de Satanás que me esbofeteia... É como se São Paulo sentisse aqui, de uma maneira muito viva, as suas limitações, paralelamente à grandeza de Deus e da sua missão de Apóstolo que contemplara em diversas ocasiões. Por vezes, também nós podemos vislumbrar “metas generosas, metas de sinceridade, metas de perseverança..., e, não obstante, temos como que incrustada na alma, no mais profundo do que somos, uma espécie de raiz de debilidade, de falta de forças, de obscura impotência..., e isso nos deixa tristes e dizemos: não posso” (6). Vemos o que o Senhor espera de nós em determinada situação ou em face de certas circunstâncias, mas talvez nos sintamos fracos ou cansados perante as provas e dificuldades que acarretam e que temos de superar:
“A inteligência – iluminada pela fé – mostra‑te claramente não só o caminho, mas a diferença entre a maneira heróica e a maneira estúpida de percorrê‑lo. Sobretudo, põe diante de ti a grandeza e a formosura divina das tarefas que a Trindade deixa em nossas mãos.
“O sentimento, pelo contrário, apega‑se a tudo o que desprezas, mesmo que continues a considerá‑lo desprezível. É como se mil e uma insignificâncias estivessem esperando qualquer oportunidade, e logo que a tua pobre vontade se debilita – por cansaço físico ou por perda de sentido sobrenatural –, essas ninharias se amontoam e se agitam na tua imaginação, até formarem uma montanha que te oprime e te desanima: as asperezas do trabalho; a resistência em obedecer; a falta de meios; os fogos de artifício de uma vida regalada; pequenas e grandes tentações repugnantes; rajadas de sentimentalismo; a fadiga; o sabor amargo da mediocridade espiritual... E, às vezes, também o medo: medo porque sabes que Deus te quer santo e não o és.
“Permite‑me que te fale com crueza. Sobram‑te «motivos» para voltar atrás, e falta‑te arrojo para corresponder à graça que Ele te concede, porque te chamou para seres outro Cristo, «ipse Christus!» – o próprio Cristo. Esqueceste a admoestação do Senhor ao Apóstolo: «Basta‑te a minha graça», que é uma confirmação de que, se quiseres, podes”7.
Basta‑te a minha graça. São palavras que o Senhor dirige hoje a cada um de nós para que nos enchamos de fortaleza ante as provas que tenhamos pela frente. A nossa própria fraqueza servirá para nos gloriarmos no poder de Cristo, ensinar‑nos‑á a amar e a sentir a necessidade de estar muito perto de Jesus. As próprias derrotas, os projetos inacabados, levar‑nos‑ão a exclamar: Quando sou fraco, então sou forte, porque Cristo está comigo.
Quando a tentação, os contratempos ou o cansaço se tornarem maiores, o demônio tratará de insinuar‑nos a desconfiança, o desânimo, o descaminho. Por isso, devemos hoje aprender a lição que São Paulo nos dá: nessas situações, Cristo está especialmente presente com a sua ajuda; basta que recorramos a Ele. E também poderemos dizer com o Apóstolo: Glorio‑me com muito gosto nas minhas fraquezas, nos opróbrios, nas necessidades, nas perseguições e angústias, por Cristo...
III. SERIA TEMERÁRIO desejar a tentação ou provocá‑la, mas também seria um erro temê‑la, como se o Senhor não nos fosse proporcionar a sua assistência para vencê‑la. Podemos considerar confiadamente como dirigidas a nós mesmos as palavras do Salmo: Porque ele mandou aos seus anjos que te guardassem em todos os teus caminhos. / Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra. / Pisarás sobre serpentes e víboras, calcarás aos pés o leão e o dragão. / Porque me amou, eu o livrarei; eu o defenderei, pois confessou o meu nome. / Quando me invocar, eu o atenderei; na tribulação, estarei com ele; hei de livrá‑lo e cobri‑lo de glória. / Favorecê‑lo‑ei com longa vida, e dar‑lhe‑ei a ver a minha salvação8.
Mas, ao mesmo tempo, o Senhor pede que estejamos prevenidos contra a tentação e que lancemos mão dos meios ao nosso alcance para vencê‑la: a oração e a mortificação voluntária; a fuga das ocasiões de pecado, pois aquele que ama o perigo, nele perecerá9; uma vida laboriosa de trabalho contínuo, pelo cumprimento exemplar dos deveres profissionais; um grande horror a todo o pecado, por pequeno que possa parecer; e, sobretudo, o esforço por crescer no amor a Cristo e a Santa Maria.
Combatemos com eficácia quando abrimos a alma de par em par ao diretor espiritual no momento em que começa a insinuar‑se a tentação da infidelidade, “pois manifestá‑la é já quase vencê‑la. Quem revela as suas tentações ao diretor espiritual pode estar certo de que Deus concede a este a graça necessária para dirigi‑lo bem [...].
“Não pensemos nunca que se combate a tentação discutindo com ela, nem sequer enfrentando‑a diretamente [...]. Mal se apresente, afastemos dela o olhar, para dirigi‑lo ao Senhor que vive dentro de nós e combate ao nosso lado, e que venceu o pecado; abracemo‑nos a Ele num ato de humilde submissão à sua vontade, de aceitação dessa cruz da tentação [...], de confiança nEle e de fé na sua proximidade, de súplica para que nos transmita a sua força. Deste modo, a tentação conduzir‑nos‑á à oração, à união com Deus e com Cristo: não será uma perda, mas um lucro. Deus faz concorrer todas as coisas para o bem dos que o amam (Rom 8, 28)”10.
Podemos tirar muito proveito das provas, tribulações e tentações, pois nelas demonstramos ao Senhor que precisamos dEle e o amamos. Elas avivarão o nosso amor e aumentarão as nossas virtudes, pois a ave não voa apenas pelo impulso das asas, mas também pela resistência do ar: de alguma maneira, precisamos dos obstáculos e das contrariedades para levantarmos vôo no amor. Quanto maior for a resistência do ambiente ou das nossas próprias fraquezas, mais ajudas e graças Deus nos dará. E a nossa Mãe do Céu estará sempre muito perto de nós nesses momentos de maior necessidade: não deixemos de recorrer à sua proteção maternal.


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