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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 17 de julho de 2015

16º DOMINGO TEMPO COMUM-ANO B

16º DOMINGO TEMPO COMUM

Evangelho - Mc 6,30-34


-OVELHAS SEM PASTOR-José Salviano


19 de Julho de 2015
Ano  B
       Domingo passado a liturgia nos mostrou o envio. Jesus enviou os discípulos para iniciar a missão que depois seria continuada por nós.
Neste domingo, vemos a volta dos discípulos cheios de alegria e confiança pelo sucesso daquela sublime experiência... Continua

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“VINDE SOZINHOS PARA UM LUGAR DESERTO E DESCANSAI UM POUCO.” – Olívia Coutinho

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM.

Dia 19 de Julho de 2015

Evangelho de Mc 6, 30-34

No evangelho que a liturgia deste Domingo nos apresenta, Jesus nos convida: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco.”
O texto coloca diante de nós, duas realidades que deixaram Jesus sensibilizado diante a necessidade humana! De um lado, a necessidade do descanso daqueles que foram os primeiros a se entregarem a missionariedade: os apóstolos, que acabavam de chegar de uma missão! Do outro lado, a carência de um povo que buscava em Jesus e nos seus seguidores, um norte pra suas vidas!
Conhecidos pela convivência com Jesus, os apóstolos ganharam a confiança do povo, que passaram a confiar neles, na mesma intensidade que confiavam em Jesus! A procura por eles, tomou uma dimensão tão grande, que eles já não tinham mais tempo para se alimentarem.
Embora felizes com o êxito da missão, o cansaço lhes era visível, tão visível, que deixou Jesus sensibilizado à ponto de convidá-los a se retirarem sozinhos para um lugar deserto longe da multidão, onde eles poderiam descansar, repor as suas energias, afinal, a missão deles estava apenas no começo! Porém, o descanso planejado por Jesus, não lhes fora possível, já que muitas pessoas os reconheceram de longe e foram ao encontro deles!
A compaixão de Jesus pela multidão, que mais parecia ovelhas sem pastor, falou mais alto ao seu coração do que a necessidade do descanso dos apóstolos! Rendendo-se a necessidade do povo, Jesus transforma o local onde eles deveriam descansar, no local de mais uma de suas pregações! Ali, Jesus passou muitos ensinamentos para o povo, ensinamentos, que chegaram até a nós, por meio dos seus primeiros seguidores! E assim, nasceu a Igreja missionária, possibilitando chegar a todos os rincões da terra, os ensinamentos de Jesus, de geração a geração!
Ao contrário da insensibilidade, presente no mundo de hoje, em que o trabalhador é visto como máquina, com a única finalidade de produz lucros, Jesus vê a necessidade humana e se compadece de cada um! Podemos perceber isso claramente na sua preocupação com o desgaste dos apóstolos, após retornarem da missão. Os apóstolos tinham o pão, mas não tinham tempo para comer, enquanto que o povo tinha todo o tempo do mundo, mas não tinha pão! Assim como Jesus, nós também devemos ter compaixão do outro, o que é completamente diferente do que ter pena, ter compaixão, é tomar para si, a dor do outro, é inteirar-se das suas necessidades e colocar-se pronto para ajuda-lo.
Como operários da vinha do Senhor, nós precisamos de descanso, de um repouso restaurador, um tempo para um encontro conosco mesmo, momento para fazermos um retiro interior, buscando na nossa essência, a motivação para darmos continuidade a nossa caminhada missionária!
É no mais profundo do nosso ser, que realizamos o nosso encontro pessoal com Jesus, é a partir deste encontro, que aprendemos a viver como Ele viveu, a amar como Ele nos ama!
O texto nos desperta sobre a importância de administrarmos bem o nosso tempo, precisamos respeitar as nossas limitações, afinal, somos frágeis!
De nada adianta fazermos muitas coisas e não fazermos do jeito certo! O descanso, o retiro interior é fundamental para a qualidade do nosso trabalho missionário!
Hoje, Jesus nos convida, a um descanso semanal, na participação do Banquete da vida: a eucarística! Participando da Eucaristia, nós nos reabastecemos na fé, repomos as nossas energias para darmos continuidade a nossa missão, missão essa, que recomeça a cada vez que saímos da Igreja descansados e alimentados da força inovadora de Jesus!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia
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Cristo, o verdadeiro pastor  que nos apascenta
O tema do Deus pastor e do Messias pastor é o fio condutor das leituras de hoje. Esse tema tão importante do Antigo Testamento é reinterpretado com frequência pelo Novo Testamento. O evangelho sintetiza no simbolismo do pastoreio as intensas atividades de Jesus junto ao povo e o cuidado com os discípulos. Totalmente entregue à tarefa de proclamar o reino de Deus, Jesus se dedica com intensidade ao cuidado do rebanho que o Pai lhe confiou. Cristo, o verdadeiro pastor, não se comporta como os líderes religiosos a quem o profeta Jeremias critica como maus pastores que não cuidaram do rebanho de Deus. A vocação ao pastoreio foi dada por Jesus aos seus seguidores, não é exclusiva da hierarquia da Igreja. Todos os cristãos são convidados a continuar a missão de Cristo e, para que isso seja possível, é necessário fixar os olhos nele, modelo e critério do pastor.
Evangelho: Mc. 6,30-34
A multidão era como ovelhas sem pastor
Os apóstolos que tinham sido enviados dois a dois se reuniram novamente a Jesus e contaram tudo o que tinham realizado. 
Como bom pastor, Jesus reúne suas ovelhas e as leva ao deserto para descansar. O deserto era o lugar onde o pastor costumava reunir suas ovelhas para restaurarem suas forças (cf. Sl. 23,23). A atitude de Jesus demonstra seu cuidado para com seus discípulos. Ele cuida com carinho e atenção de suas ovelhas, levando-as para um lugar propício, devido à vida fatigante que levam com ele em prol do anúncio do reino. Todos, em certo momento, precisam dirigir-se ao deserto para estar a sós com o Senhor, recuperar suas forças e, depois, retornar à missão de anunciar o reino.
Também a multidão percebeu a intenção de Jesus e o seguiu para fora da cidade. A multidão vinda de várias cidades evoca a promessa de que o Messias deveria reunir os judeus dispersos pelo mundo. E Jesus percebeu a carência profunda desse povo. Ele se compadeceu porque eram como ovelhas sem pastor, famintas da palavra de Deus. Os supostos pastores do povo, que deveriam alimentá-lo com a palavra de Deus, estavam sendo omissos nessa missão. 
O povo foi em busca de Jesus porque viu nele o verdadeiro pastor e encontrou nele o mesmo cuidado dedicado aos seus discípulos.
1ª leitura: Jr. 23,1-6
Ai dos pastores  que dispersam meu rebanho
Por meio de Jeremias, Deus condena a conduta dos maus pastores, os líderes religiosos daquela época. Em vez de reunir as ovelhas (o povo de Deus), dispersavam-nas. Em vez de cuidar delas, deixavam-nas perecer. Essas duas atividades principais do pastoreio, reunir as ovelhas e delas cuidar, estavam sendo negligenciadas pelos pastores do povo. Por isso Deus mesmo cuidará de suas ovelhas e as entregará a pastores mais dignos.
Além do simbolismo do pastor e do rebanho, o texto de Jeremias utiliza o símbolo do brotinho nascido de um tronco de árvore cortada. Esse brotinho representa o Messias, o rei pastor, sob cujo governo as ovelhas dispersas de Israel serão finalmente reunidas e poderão desfrutar de segurança, justiça e paz.
2ª leitura: Ef. 2,13-18
Reconciliados com Deus mediante a cruz
Ainda no quadro da salvação universal realizada por Deus por intermédio de Cristo, a segunda leitura nos lembra que, pela cruz, as ovelhas dispersas, não pertencentes ao povo de Israel, mas às outras nações, foram reunidas ao antigo povo de Deus. Israel bem como as demais nações foram reconciliados em Cristo e se tornaram amigos de Deus. Todos os seres humanos foram irmanados por meio de Jesus, todas as ovelhas foram reunidas em um só rebanho no Messias. Todos receberam um só Espírito. Tudo isso é o fruto da oferta da vida que Jesus fez a Deus por suas ovelhas.
Pistas para reflexão
– Lido com olhos cristãos, o salmo responsorial delineia a figura de Jesus, o bom pastor, e expressa a alegria dos fiéis: “O Senhor é meu pastor, nada me falta” (Sl. 23,1). Jesus é o pastor que cuidadosamente guarda seu rebanho, defende-o dos perigos, alimenta-o com a rica mesa de sua palavra e do seu Corpo e Sangue.
– É importante enfatizar na homilia a experiência existencial e profunda de cada cristão com o Cristo ressuscitado. A eucaristia já não pode ser entendida como uma obrigação do católico, mas como o momento em que Cristo reúne suas ovelhas, após os trabalhos e as lutas por um mundo melhor, para que possam restaurar suas forças e ser alimentadas por sua palavra e pelo pão eucarístico.
– Também é importante que as celebrações efetivamente proporcionem um encontro pessoal e comunitário com o Ressuscitado, em vez de serem rituais mecânicos e enfadonhos, em que o presidente da celebração pronuncia palavras vazias de espiritualidade e vida plena. Não esqueçamos a palavra de Jeremias: “Ai de vós, pastores, que dispersam e destroem as ovelhas”.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj

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A compaixão de Jesus, pastor messiânico
O evangelho esboça o quadro para a ação seguinte de Jesus, a multiplicação dos pães. Os discípulos voltam de seu “estágio pastoral”, contam tudo o que fizeram. E Je­sus, dando um exemplo para a Igreja futura, os convida a descansar na sua presença, num lugar deserto (o deserto, em Mc e em muitas páginas da Bíblia, é o lugar onde Deus fala a seu povo). Mas aí acontece o inesperado: chegando ao lugar deserto, encontram uma multidão de gente, que acorreu por terra ao lugar aonde se dirigira o barco. Decepção no plano humano, mas hora da graça no plano de Deus. E então, Jesus tem compaixão da multidão, “porque eram como ovelhas sem pastor”. Esta breve frase de Mc. 6,34 evoca um mundo: toda a tradição bíblica acostumada a falar em Deus como o “Pastor de Israel” (cf. Is. 40,11), título dado também a Moisés (Is. 63,11), aos reis e, sobretudo, ao rei messiânico, anunciado por Jr, Ez. e Zc. Para quem sabe ler, significa que ele é o Pastor escatológico que chegou. Jesus, movido de compaixão (qualidade primordial de Deus: cf. Ex. 34,5-6) assume ser o pastor dessas ovelhas que não têm pastor, vindas de todos os lados para encontrá-lo (imagens de Ez. 34 e 36). Uma situação humana inesperada torna-se rea­lização da reunião escatológica do rebanho de Deus. Pela incansável “com-paixão” do Cristo, prepara-se a mesa para o banquete escatológico.
O simbolismo do pastor, no A.T., tem várias facetas. Nos textos clássicos de Jr, Ez e Zc encontramos a oposição entre o bom pastor (Deus ou seu enviado) e os maus pas­tores, que são os chefes de Israel e Judá (cf. festa de Cristo Rei/A). Que o significado do bom Pastor oscila entre Deus e seu enviado não é um problema para o leitor orien­tal: ele sabe que o pastor não é necessariamente o dono do rebanho; pode ser seu ho­mem de confiança. Em Sl. 23[22] (salmo responsorial), Jr. 23,1-3 (1ª leitura), Ez. 34,1-22, o pastor é Deus mesmo; em Jr. 23,4-6 e Ez. 34,23-24 e, sobretudo, em Zc. 9,14, trata-se de seu(s) enviado(s). O N.T. vê a realização desta figura em Jesus Cristo (Mc. 6,34; 14,27 cf. 16,7 e par; Jo 10, 1Pd. 2,25). A imagem do pastor nos lembra ainda a ter­nura descrita em Is. 40,11.
No presente contexto predomina o fato de reunir o rebanho: a reunião escatológica das tribos dispersas. Falar do Bom Pastor significa falar de unidade (cf. Jo 10). Neste sentido, a 2ª leitura de hoje vem sublinhar a mensagem da 1ª leitura e do evangelho. Enquanto em outros textos, por exemplo, Rm. 3,21-25, a idéia da reconciliação pelo sangue do Cristo – simbolismo cultual tomado do A.T. – se refere à reconciliação do homem com Deus, Ef. 2 a aplica à superação da divisão da humanidade, divisão entre “o povo” (Israel) e “as nações” (pagãs). Agora, em Cristo, os que estavam longe (os helenistas, a quem a carta é dirigida) aproximaram-se. Isso foi realizado pelo sangue de Cristo, isto é, por sua morte, que marcou o fim do sistema de justificação baseado na Lei judaica, até então parede divisória da humanidade (alusão à parede que confinava, no templo de Jerusalém, o “átrio dos gentios”). Ef retoma aqui um tema caro a Paulo: se Jesus foi condenado pela Lei, mas ressuscitou, quem foi condenado é a Lei (cf. Gl. 3,13-14). A Lei não mais separa os que pertencem a Cristo, sejam judeus, sejam gentios. Assim, Jesus anunciou a “paz” (o dom messiânico) aos de longe (os pagãos) e aos de perto (os judeus), linguagem que evoca a reunião escatológica presente também no simbolismo do pastor (cf. 1ª  leitura e evangelho).
Do conjunto destas leituras depreendemos uma idéia para ser meditada: a reconci­liação do homem com Deus o une com seus irmãos. Na prática, porém, o homem, mui­tas vezes, usa Deus para justificar discriminação, ódio, perseguição. De modo aberto, quando uma convicção religiosa se torna ideologia de combate. De modo velado, no coração do indivíduo, quando alguém se acha superior por razões religiosas. Jesus fez “dos dois um só povo”, “um só corpo”, o “homem novo”, “em si mesmo” (“linguagem corporativa”: a descendência está no patriarca, a comunidade no seu fundador). Este único corpo é, ao mesmo tempo, o do Cristo e o da comunidade constituída por ele. Ele veio a nós, dando-nos o poder de nos aproximar do Pai: movimento recíproco, cuja iniciativa está do lado da graça de Deus. Uma religião agressiva não é de Jesus Cristo. Este morreu, não para separar, mas para aproximar. Aquele que morreu por todos pode servir de pretexto para qualquer discriminação.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Se pensarmos bem, em Cristo, tudo quanto a Igreja tem para dizer ao mundo é Jesus: ele é a Palavra viva do Pai, ele é o Salvador e a Salvação, é a ele que a Igreja dirige continuamente o olhar e o coração, para contemplá-lo, escutá-lo e nele beber das fontes da vida e da paz! Pois bem: é de Jesus que a Palavra santa hoje nos fala – de Jesus Bom Pastor!
Em Israel, pastores do povo eram seus dirigentes: reis, aristocracia, sacerdotes, escribas, profetas. Infelizmente, de modo freqüente, esses eram pastores maus e infiéis, pois não faziam o que era de se esperar de quem apascenta: não amavam o rebanho, dele não cuidavam, com ele não se preocupavam. Faziam como os políticos brasileiros de agora, esses mesmos que irão mostrar a cara lisa no programa eleitoral gratuito, enganando, mentindo e fazendo-se passar por bons, sem, no entanto, terem outra preocupação que o próprio bem-estar e os próprios poder e prestígio... Dos maus pastores, Santo Agostinho dizia que procuram somente o leite e a lã das ovelhas, sem com elas se preocuparem. O leite simboliza os bens materiais; a lã, o prestígio e os aplausos. Pobres ovelhas, o povo brasileiro, que mais uma vez serão assaltadas por cruéis ataques de pastores maus: mensaleiros, sanguessugas e gatunos de todos os níveis e especialidades. Que Deus ajude esse povo a discernir políticos de politiqueiros e os poucos preocupados com o bem comum, dos muitos ocupados com o próprio bem!
Contudo, não devemos esquecer de modo algum que os pastores do povo de Deus, que é a Igreja, são os ministros de Cristo: Bispos, padres e diáconos. A eles também o Senhor repreende neste hoje e a eles exorta a que se convertam e sejam pastores de verdade. Mas, quem é pastor de verdade na Igreja? Quem se deixa plasmar pelo verdadeiro Pastor, pelo único Pastor, aquele que é a própria justiça, a própria santidade de Deus: “Este é o nome com que o chamarão: ‘Senhor, nossa Justiça’”. Falamos de Jesus Cristo.
Ante os maus pastores da Israel, que infestaram todo o tempo do Antigo Testamento, o Senhor prometeu, da Casa de Davi, um novo pastor: “Eis que virão dias em que farei nascer um descendente de Davi; reinará e será sábio, fará valer a justiça e a retidão na terra”. Aqui Deus fala do Messias; e esse Messias é a própria presença de Deus apascentando o seu povo: “Eu reunirei o resto de minhas ovelhas de todos os países para onde forem expulsas, e as farei voltar a seus campos, e elas se reproduzirão e multiplicarão”. Eis, portanto: um messias, presença do próprio Deus, Pastor do seu povo, cuidador do seu rebanho... É precisamente assim que o evangelho de hoje nos apresenta Jesus: “Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas”. Que imagem sublime, que cena tão doce! Jesus cansado, pensando em algo tão humano, tão legítimo: um dia de descanso em companhia dos doze. E quando chega ao local escolhido para o merecido repouso, lá estava a multidão cansada e acabrunhada, sedenta de luz, sedenta de vida, sedenta de verdes pastagens, desorientada, como ovelhas sem pastor... E Jesus, Bom Pastor, esquece de si mesmo, deixa de lado seu cansaço e, cheio de compaixão, vai cuidar das ovelhas... Por isso mesmo, ele é o Pastor por excelência, o Belo, Perfeito, Pleno Pastor! Ele ama o rebanho, preocupa-se com ele, dele se compadece e por ele vai dando, derramando, diariamente, a própria vida. Nunca se viu Jesus poupar-se, nunca se testemunhou Jesus fazendo um milagre em benefício próprio, nunca se apanhou o Senhor buscando algum favor para si. Não! Toda a sua vida foi vida vivida para o rebanho por amor ao Pai, vida dada, vida doada, entregue de modo total... até a morte e morte de cruz. Tem razão São Paulo, quando diz aos Efésios, na segunda leitura de hoje: “Agora, em Cristo, vós que outrora estáveis longe, vos tornastes próximos, pelo sangue de Cristo. Ele, de fato é a nossa paz!” O Bom Pastor, entregando a vida pela humanidade, nos atraiu, abrindo um novo caminho, suscitando uma nova esperança para judeus e pagãos, reunindo-os todos no seu aconchego, no seu coração de Pastor, dando-nos a paz e fazendo de nós a sua Igreja!
Igreja aqui reunida, em torno deste Altar, tu nasceste da dedicação do teu Pastor; tu és fruto da sua vida entregue amorosa e dolorosamente! O Apóstolo afirma, de modo profundo e comovente que Cristo “quis reconciliá-los, judeus e pagãos, com Deus, ambos em um só corpo, por meio da cruz; assim ele destruiu em si mesmo a inimizade”. Prestai bem atenção: na carne de Cristo, no corpo ferido de Cristo, na vida dilacerada de Cristo, deu-se a nossa paz! – Ó Senhor Jesus, que tu mesmo, de corpo e alma, de sonho e de dor és o nosso repouso, és nossa segurança! Tu mesmo és a nossa paz! E quão alto foi o preço dessa paz! E tudo isso para que, no teu Santo Espírito, tivéssemos acesso Àquele a quem tu chamas de Pai, fonte de toda vida!
Tanto para nós, pastores, quanto para vós, ovelhas, o exemplo de Cristo é motivo de questionamento e chamado à conversão. Para nós, pastores, é forte apelo a que sejamos como ele, sejamos presença dele no meio do rebanho, tendo seus sentimentos, suas atitudes, participando de sua entrega total. Pastores que não apascentam em Cristo, que não vivem a vida de Cristo na carne de sua vida, não são pastores de fato; são maus pastores, ladrões e salteadores, como aqueles do Antigo Testamento. E para vós, ovelhas, que apelos o Bom Pastor hoje vos faz? Ele que se deu todo a vós como pastor, vos convida a que vos entregueis totalmente a ele como ovelhas. Como a ovelha do Salmo da Missa de hoje, que confia totalmente no seu pastor, ainda mesmo que passe pelo vale tenebroso, porque sabe que o pastor é fiel, que o pastor haverá de defendê-la, assim também nós, ovelhas do seu pasto, confiemo-nos ao Senhor, sigamo-lo, nele coloquemos a nossa existência. E que ele, cheio de amor e misericórdia, nos conduza às campinas verdejantes, nos faça descansar, restaure nossas forças, guie-nos no caminho mais seguro, nos prepare a mesa eucarística, unja-nos com o suave óleo do seu Espírito, faça transbordar a taça da nossa exultação e nos dê habitação na sua casa pelos tempos infinitos.
dom Henrique Soares da Costa

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A liturgia do 16º domingo do tempo comum dá-nos conta do amor e da solicitude de Deus pelas “ovelhas sem pastor”. Esse amor e essa solicitude traduzem-se, naturalmente, na oferta de vida nova e plena que Deus faz a todos os homens.
Na primeira leitura, pela voz do profeta Jeremias, Jahwéh condena os pastores indignos que usam o “rebanho” para satisfazer os seus próprios projetos pessoais; e, paralelamente, Deus anuncia que vai, Ele próprio, tomar conta do seu “rebanho”, assegurando-lhe a fecundidade e a vida em abundância, a paz, a tranquilidade e a salvação.
O Evangelho recorda-nos que a proposta salvadora e libertadora de Deus para os homens, apresentada em Jesus, é agora continuada pelos discípulos. Os discípulos de Jesus são – como Jesus o foi – as testemunhas do amor, da bondade e da solicitude de Deus por esses homens e mulheres que caminham pelo mundo perdidos e sem rumo, “como ovelhas sem pastor”. A missão dos discípulos tem, no entanto, de ter sempre Jesus como referência… Com frequência, os discípulos enviados ao mundo em missão devem vir ao encontro de Jesus, dialogar com Ele, escutar as suas propostas, elaborar com Ele os projetos de missão, confrontar o anúncio que apresentam com a Palavra de Jesus.
Na segunda leitura, Paulo fala aos cristãos da cidade de Éfeso da solicitude de Deus pelo seu Povo. Essa solicitude manifestou-se na entrega de Cristo, que deu a todos os homens, sem exceção, a possibilidade de integrarem a família de Deus. Reunidos na família de Deus, os discípulos de Jesus são agora irmãos, unidos pelo amor. Tudo o que é barreira, divisão, inimizade, ficou definitivamente superado.
1ª leitura: Jr. 23,1-6 - AMBIENTE
Jeremias, o profeta nascido em Anatot por volta de 650 a.C., exerceu a sua missão profética desde 627/626 a.C., até depois da destruição de Jerusalém pelos Babilônios (586 a.C.). O cenário da atividade do profeta é, em geral, o reino de Judá (e, sobretudo, a cidade de Jerusalém).
A primeira fase da pregação de Jeremias abrange parte do reinado de Josias. Este rei – preocupado em defender a identidade política e religiosa do Povo de Deus – leva a cabo uma impressionante reforma religiosa, destinada a banir do país os cultos aos deuses estrangeiros. A mensagem de Jeremias, neste período, traduz-se num constante apelo à conversão, à fidelidade a Jahwéh e à aliança.
No entanto, em 609 a.C., Josias é morto, em combate contra os egípcios. Joaquim sucede-lhe no trono. A segunda fase da atividade profética de Jeremias abrange o tempo de reinado de Joaquim (609-597 a.C.).
O reinado de Joaquim é um tempo de desgraça e de pecado para o Povo, e de incompreensão e sofrimento para Jeremias. Nesta fase, o profeta aparece a criticar as injustiças sociais (às vezes fomentadas pelo próprio rei) e a infidelidade religiosa (traduzida, sobretudo, na busca das alianças políticas: procurar a ajuda dos egípcios significava não confiar em Deus e, em contrapartida, colocar a esperança do Povo em exércitos estrangeiros). Jeremias está convencido de que Judá já ultrapassou todas as medidas e que está iminente uma invasão babilônica que castigará os pecados do Povo de Deus. É, sobretudo, isso que ele diz aos habitantes de Jerusalém… As previsões funestas de Jeremias concretizam-se: em 597 a.C., Nabucodonosor invade Judá e deporta para a Babilônia uma parte da população de Jerusalém.
No trono de Judá fica, então, Sedecias (597-586 a.C.). A terceira fase da missão profética de Jeremias desenrola-se, precisamente, durante este reinado.
Após alguns anos de calma submissão à Babilônia, Sedecias volta a experimentar a velha política das alianças com o Egito. Jeremias não está de acordo que se confie em exércitos estrangeiros mais do que em Jahwéh… Mas, nem o rei, nem os notáveis lhe prestam qualquer atenção à opinião do profeta. Considerado um amargo “profeta da desgraça”, Jeremias apenas consegue criar o vazio à sua volta.
Em 587 a.C., Nabucodonosor põe cerco a Jerusalém; no entanto, um exército egípcio vem em socorro de Judá e os babilônios retiram-se. Nesse momento de euforia nacional, Jeremias aparece a anunciar o recomeço do cerco e a destruição de Jerusalém (cf. Jr. 32,2-5). Acusado de traição, o profeta é encarcerado (cf. Jr. 37,11-16) e corre, inclusive, perigo de vida (cf. Jr. 38,11-13). Enquanto Jeremias continua a pregar a rendição, Nabucodonosor apossa-se, de fato, de Jerusalém, destrói a cidade e deporta a sua população para a Babilônia (586 a.C.).
O texto que nos é hoje proposto como primeira leitura faz referência a esses tempos de desnorte nacional, em que Judá, sem líderes capazes, já perdeu as referências e a esperança no futuro. No texto, Deus condena os “pastores” de Israel porque dispersaram as ovelhas do rebanho, o que parece aludir ao exílio na Babilônia. Provavelmente, este texto deve situar-se entre 597 e 586 a.C., no tempo que vai desde o primeiro exílio (após a primeira queda de Jerusalém – 597 a.C.) ao segundo exílio (após a segunda tomada de Jerusalém pelos babilônios – 586 a.C.).
O uso da imagem do “pastor” para falar dos líderes da nação é bastante frequente no Antigo Testamento. Aliás, a imagem adquiriu uma força especial na sequência de David, o pastor que Jahwéh ungiu e transformou em rei, encarregando-o de cuidar do rebanho do Povo de Deus.
MENSAGEM
O nosso texto começa com uma breve exposição da culpa: os “pastores” de Judá perderam, dispersaram, escorraçaram as ovelhas do Senhor, sem terem cuidado delas (vs. 1-2a). Cada um dos verbos utilizados faz referência a fatos concretos (bem recentes) da história de Judá. O aventureirismo, os interesses pessoais, as jogadas políticas, a inconsciência dos líderes trouxeram consequências funestas ao Povo, ao “rebanho” de Deus. Os líderes de Judá não procuraram servir o Povo, mas serviram-se do Povo para concretizar os seus objetivos pessoais. Ora, o “rebanho” não é propriedade dos “pastores”, mas do Senhor… Deus chamou-os a uma missão concreta, encarregou-os de cuidar do seu “rebanho” e eles, depois de terem aceite o compromisso, falharam totalmente.
Depois da culpa, vem a sentença: Deus vai “ocupar-se” desses maus pastores: vai castigá-los, pedir-lhes contas das suas más ações (v. 2b). Deus não está disposto a tolerar abusos de confiança, nem pode pactuar com líderes que exploram o “rebanho” em seu benefício próprio. Na perspectiva de Deus, trata-se de algo intolerável e que não pode ser deixado em claro.
Mas a intervenção de Deus não se fica pelo pedir contas aos maus líderes… O próprio Jahwéh vai intervir, no sentido de salvar o seu “rebanho”. A intervenção de Deus justifica-se pelo fato de se tratar do “rebanho” do Senhor e de Ele ter responsabilidades para com as suas ovelhas.
A intervenção de Deus vai desenvolver-se em três tempos, ou momentos… O primeiro é a repatriação dos exilados: as ovelhas serão devolvidas “às sua pastagens para que cresçam e se multipliquem” (v. 3). Para esta tarefa, Deus não conta com intermediários: Ele mesmo vai liderar o processo de libertação e de regresso dos exilados à terra.
O segundo momento da intervenção de Deus consiste na escolha de “pastores” exemplares (v. 4). A missão desses “pastores” será, simplesmente, “apascentar”. Isso implica, naturalmente, o cuidado, a solicitude, o amor, a ternura pelo rebanho… Esses pastores estarão, naturalmente, ao serviço do rebanho e não usarão o rebanho para concretizar os seus interesses pessoais. As “ovelhas” aprenderão a confiar nesse “pastor” que as ama e não terão mais “medo nem sobressalto”.
O terceiro momento da intervenção de Deus é projetado para um futuro sem data marcada. Promete a chegada de um “rebento justo” da dinastia de David (v. 5). A imagem tirada do reino vegetal (“rebento”) sugere fecundidade e vida em abundância, porque ele dará vida em abundância ao rebanho de Jahwéh. Ele assegurará “o direito e a justiça” e trará salvação e segurança ao Povo de Deus. O nome desse rei será “o Senhor é a nossa justiça” (v. 6), pois é Deus que o legitima e a sua missão será administrar a justiça que Deus quer. Garantindo a justiça, esse “pastor” irá trazer a harmonia, a paz, a tranquilidade, a salvação, a vida verdadeira ao Povo de Deus. Esta promessa com contornos messiânicos pretende anular a frustração e o desespero e inaugurar um tempo de esperança para o Povo de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Antes de mais, o nosso texto mostra a preocupação de Deus com a vida e a felicidade do seu Povo. Nos momentos conturbados da nossa história (coletiva ou pessoal) sentimo-nos, muitas vezes, órfãos, perdidos e abandonados ao sabor dos ventos e das marés… As catástrofes que afetam o mundo, os conflitos que dividem os povos, a miséria que toca a vida de tantos dos nossos irmãos, os perigos dos fundamentalismos, as mudanças vertiginosas que o mundo todos os dias sofre, a perda dos valores em que apostávamos, as novas e velhas doenças, as crises pessoais, os problemas laborais, as dificuldades familiares trazem-nos a consciência da nossa pequenez e impotência frente aos grandes desafios que o mundo hoje nos apresenta. Sentimo-nos, então, “ovelhas” sem rumo e sem destino, abandonadas à nossa sorte. Por vezes, no nosso desespero, apostamos em “pastores” humanos que, em lugar de nos conduzirem para a vida e para a felicidade, nos usam para satisfazer a sua ânsia de protagonismo e para realizar os seus projetos egoístas… A Palavra de Deus que nos é proposta neste domingo garante-nos que Deus é o “Pastor” que se preocupa conosco, que está atento a cada uma das suas “ovelhas”; Ele cuida das nossas necessidades e está permanentemente disposto a intervir na nossa história para nos conduzir por caminhos seguros e para nos oferecer a vida e a paz. É n’Ele que temos de apostar, é n’Ele que temos de confiar. Esta constatação deve ser, para todos os crentes, uma fonte de alegria, de esperança, de serenidade e de paz.
• As ameaças contra os maus pastores apresentadas neste texto de Jeremias talvez nos tenham levado a pensar nos líderes do mundo, nos nossos governantes e, talvez também, nos líderes da Igreja. Na verdade, a nossa história recente está cheia de situações em que as pessoas encarregadas de cuidar da comunidade humana usaram o “rebanho” em benefício próprio e magoaram, torturaram, roubaram, assassinaram, privaram de vida e de felicidade essas pessoas que Deus lhes confiou… De qualquer forma, este texto toca-nos a todos, pois todos somos, de alguma forma, responsáveis pelos irmãos que caminham conosco. Convida-nos a refletir sobre a forma como tratamos os irmãos, na família, na Igreja, no emprego, em qualquer lado… Recorda-nos que os irmãos que caminham conosco não estão ao serviço dos nossos interesses pessoais e que a nossa função é ajudar todos a encontrar a vida e a felicidade.
• O nosso texto faz referência a “um rei” que Deus vai enviar ao encontro do seu Povo e que governará com sabedoria e justiça. Jesus é a concretização desta promessa. Ele veio propor ao “rebanho” de Deus a vida plena e verdadeira… Como é que nós, as “ovelhas” a quem se destina a proposta de salvação que Deus nos faz em Jesus, acolhemos o que Ele nos veio dizer? As propostas de Jesus encontram eco na nossa vida? Estamos sempre dispostos a acolher as indicações e os valores que Ele nos apresenta?
2 leitura: Ef. 2,13-18 - AMBIENTE
A Carta aos Efésios é, provavelmente, um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias Igrejas da Ásia Menor, numa altura em que Paulo está na prisão (em Roma? em Cesareia?). O seu portador é um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60.
Alguns vêem nesta carta uma espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que Paulo sente ter terminado a sua missão apostólica na Ásia e não sabe exatamente o que o futuro próximo lhe reserva (recordemos que ele está, por esta altura, prisioneiro e não sabe como vai terminar o cativeiro).
O tema central da carta aos Efésios é aquilo a que Paulo chama “o mistério”: o desígnio (ou projeto) salvador de Deus, definido desde toda a eternidade, escondido durante séculos aos homens, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos, desfraldado e dado a conhecer ao mundo na Igreja.
O texto que nos é aqui proposto integra a parte dogmática da carta. Depois de refletir sobre o papel de Cristo no projeto de salvação que Deus tem para os homens (cf. Ef. 2,1-10), Paulo refere-se à reconciliação operada por Cristo, que com a sua doação uniu judeus e pagãos num mesmo Povo (cf. Ef. 2,11-22).
MENSAGEM
Paulo dirige-se aos pagãos (“vós outrora longe de Deus” – v. 13) e explica-lhes que foi pelo sangue de Cristo que eles se aproximaram de Deus. Antes, eles adoravam os ídolos e tinham convicções religiosas; mas desconheciam o verdadeiro Deus e a sua proposta de salvação; agora, foram admitidos a fazer parte da família de Deus.
Além disso, a entrega de Cristo derrubou a tradicional barreira de inimizade que separava judeus e pagãos e fez de todos um único Povo. Os judeus, convencidos de que eram um Povo à parte, desprezavam os pagãos e não queriam qualquer contacto com eles; as suas leis pugnavam por uma rígida separação e interditavam o contacto com os outros povos. Os pagãos, por sua vez, nutriam um profundo desprezo pelos judeus, pela sua diferença, pela sua arrogância…
Ora, Cristo veio apresentar uma proposta de vida que é para todos, sem exceção. O que é decisivo, agora, não é a pertença a um determinado Povo, mas a forma como se responde à proposta de vida que Jesus faz. Responder positivamente à proposta de Cristo é passar a integrar a comunidade dos santos. A Lei de Moisés, com as suas prescrições e exigências (que, na prática, vedavam aos pagãos a possibilidade de integrar o Povo de Deus), fica anulada… Na nova economia da salvação, o que conta é a disponibilidade para acolher a vida que Deus oferece e ser Homem Novo.
Nasce, assim, um “corpo” que integra os mais diversos membros, pertencentes a todos os quadrantes da família humana. Todos aqueles que aceitaram integrar a comunidade de Jesus, sem diferenças de etnias, de raças, de cor da pele, de classes sociais ou culturais, pertencem à mesma família, a família de Deus. Todos – judeus e pagãos – são, agora, membros da comunidade trinitária do Pai (que oferece a vida), do Filho (que vem ao encontro dos homens para lhes comunicar a vida do Pai) e do Espírito (que mantém unidos os membros deste “corpo” entre si e com Deus.
ATUALIZAÇÃO
• O texto que nos é proposto tem, em pano de fundo, essa verdade fundamental que a liturgia nos recorda todos os domingos: Deus tem uma proposta de salvação para oferecer a todos os homens, sem exceção; e essa proposta tem como finalidade inserir-nos na família de Deus. A constatação de que para Deus não há distinções e todos são, igualmente, filhos amados – para além das possíveis diferenças rácicas, étnicas, sociais ou culturais – é algo que nos tranquiliza, que nos dá serenidade, esperança e paz. O nosso Deus é um pai que não marginaliza nenhum dos seus filhos; e, se tem alguma predileção, não é por aqueles que o mundo admira e endeusa, mas é pelos mais débeis, pelos mais fracos, pelos oprimidos, pelos que mais sofrem.
• O que é verdadeiramente importante, na perspectiva de Deus, não é a cor da pele, nem as capacidades intelectuais, nem as qualidades humanas, nem a pertença a determinada instituição política ou religiosa, nem os contributos (em dinheiro ou em obras) que se dão à Igreja; mas o que é decisivo é ter disponibilidade para acolher a vida que Ele oferece e para aderir à proposta de caminho que Ele faz. Estou sempre numa permanente atitude de escuta das propostas de Deus, ou vivo fechado a Deus e às suas indicações, num caminho de orgulho e de auto-suficiência? Para mim, o que é que significam as propostas de Deus? Elas influenciam as minhas opções, os meus valores, as minhas atitudes? A forma como eu me relaciono com todos os homens e mulheres que encontro nos caminhos deste mundo é coerente com essa proposta de vida que Deus me faz?
• A comunidade cristã é uma família de irmãos, que partilham a mesma fé e a mesma proposta de vida. É um “corpo”, formado por uma grande diversidade de membros, onde todos se sentem unidos em Cristo e entre si numa efetiva fraternidade. As nossas comunidades (cristãs ou religiosas) são, efetivamente, comunidades de irmãos que se amam, para além das diferenças legítimas que há entre os membros? Nas nossas comunidades todos os irmãos são acolhidos e amados, ou há irmãos considerados de segunda classe, marginalizados e maltratados? Eu, pessoalmente, como é que vejo esses irmãos na fé que caminham comigo? Perante as diferenças de perspectiva, como é que eu reajo: com respeito pela opinião do outro, ou com intolerância?
• No mundo de hoje o fenômeno da globalidade aproxima-nos dos outros homens que partilham conosco esta casa comum que é o mundo e torna-nos mais tolerantes para com as diferenças. Contudo, subsistem muros – alicerçados nas diferenças rácicas, políticas, religiosas, sociais, afetivas – que impedem uma total experiência de fraternidade universal. Na nossa vida pessoal e familiar, na nossa vida pessoal e na nossa experiência de caminhada comunitária, aparecem frequentemente muros que nos dividem, que impedem a comunicação, o encontro, a comunhão. Nós, os discípulos desse Cristo que veio reconciliar “judeus e gregos” e fazer de todos “um só povo”, temos o dever de dar testemunho da paz e da unidade e de lutar objetivamente contra todas as barreiras que separam os homens.
Evangelho: Mc. 6,30-34 - AMBIENTE
O Evangelho do passado domingo mostrava-nos Jesus a enviar os discípulos, dois a dois, para pregarem o arrependimento, expulsarem os demônios, ungirem e curarem os doentes (cf. Mc. 6,7-13). O anúncio que é confiado aos discípulos é o anúncio que Jesus fazia (o “Reino”); os gestos que os discípulos são convidados a fazer para anunciar o “Reino” são os mesmos que Jesus fez.
O Evangelho deste domingo apresenta-nos o regresso dos enviados de Jesus. Marcos chama-lhes, agora, “apóstolos” (enviados): é a única vez que a palavra aparece no Evangelho segundo Marcos. A missão correu bem e os “apóstolos” estão entusiasmados, mas naturalmente cansados.
Não há, no texto, qualquer indicação do lugar onde a cena se teria desenrolado.
MENSAGEM
O nosso texto começa com a narração do regresso dos discípulos que, entusiasmados, contam a Jesus a forma como se tinha desenrolado a missão que lhes fora confiada (v. 30). Na seqüência, Jesus convida-os a irem com Ele para um lugar isolado e a descansarem um pouco (v. 31). Os discípulos foram, com Jesus, para um lugar deserto (v. 32); mas as multidões adivinharam para onde Jesus e os discípulos se dirigiam e chegaram primeiro (v. 33). Ao desembarcar, Jesus viu as pessoas, teve compaixão delas (“porque eram como ovelhas sem pastor”) e pôs-se a ensiná-las (v. 34).
O episódio, em si, é banal… No entanto, Marcos vai aproveitá-lo para desenvolver a sua catequese sobre o discipulado. A catequese apresentada por Marcos desenvolve-se à volta dos seguintes pontos:
1. Os apóstolos são os enviados de Jesus, chamados a continuar no mundo a missão de Jesus. Essa missão consiste em anunciar o Reino. Para a concretizar, os apóstolos convidam os homens que escutam a mensagem a mudarem a sua vida e a acolherem a proposta que Jesus lhes faz. Os gestos dos discípulos (“expulsaram demônios, curaram doentes” – Mc. 6,13) anunciam esse mundo novo de homens livres e esse projeto de vida verdadeira e plena que Deus quer oferecer a todos os homens.
2. A referência à necessidade de os “apóstolos” descansarem (pois nem sequer tinham tempo para comer) pretende ser um aviso contra o ativismo exagerado, que destrói as forças do corpo e do espírito e leva, tantas vezes, a perder o sentido da missão.
3. Os “apóstolos” são convidados por Jesus a irem com Ele para um lugar isolado. Já dissemos, acima, que não se nomeia esse lugar: na realidade, o que interessa aqui não é o lugar geográfico, mas sim que esse “descanso” deve acontecer junto de Jesus. É ao lado de Jesus, escutando-O, dialogando com Ele, gozando da sua intimidade, que os discípulos recuperam as suas forças. Se os discípulos não confrontarem, freqüentemente, os seus esquemas e projetos pastorais com Jesus e a sua Palavra, a missão redundará num fracasso.
4. Entretanto, as multidões tinham seguido Jesus e os discípulos a pé – quer dizer, deslocando-se à volta do lago de Tiberíades, com o barco sempre à vista. Esta busca incansável e impaciente espelha, com algum dramatismo, a ânsia de vida que as pessoas sentem… Jesus, cheio de compaixão, compara a multidão a um rebanho sem pastor. Não é nos líderes religiosos ou políticos da nação que elas encontram segurança e esperança; não é nos ritos da religião tradicional que elas encontram paz e sentido para a vida… Mas é em Jesus e na sua proposta que as multidões encontram vida verdadeira e plena. Na seqüência, Marcos vai narrar-nos a cena da multiplicação dos pães e dos peixes, que saciam a fome de cinco mil homens.
ATUALIZAÇÃO
• A proposta salvadora e libertadora de Deus para os homens, apresentada em Jesus, é agora continuada pelos discípulos. Os discípulos de Jesus são – como Jesus o foi – as testemunhas do amor, da bondade e da solicitude de Deus por esses homens e mulheres que caminham pelo mundo perdidos e sem rumo, “como ovelhas sem pastor”. As vítimas da economia global, os que são colocados à margem da sociedade e da vida, os estrangeiros que buscam noutro país condições dignas de vida e são empurrados de um lado para o outro, os doentes que não têm acesso a um sistema de saúde eficiente, os idosos abandonados pela família, as crianças que crescem nas ruas, aqueles que a vida magoou e que ainda não conseguiram sarar as suas feridas, encontram em cada um de nós, discípulos de Jesus, o amor, a bondade e a solicitude de Deus? Que fizemos com essa proposta de vida nova e de libertação que Jesus nos mandou testemunhar diante das “ovelhas sem pastor”?
• A missão dos discípulos não pode ser desligada de Jesus. Os discípulos devem, com frequência, reunir-se à volta de Jesus, dialogar com Ele, escutar os seus ensinamentos, confrontar permanentemente a pregação feita com a proposta de Jesus. Por vezes, os discípulos (verdadeiramente comovidos com a situação das “ovelhas sem pastor”) mergulham num ativismo descontrolado e acabam por perder as referências; deixam de ter tempo e disponibilidade para se encontrarem com Jesus, para confrontarem as suas opções e motivações com o projeto de Jesus… Por vezes, passam a “vender”, como verdade libertadora, soluções que são parciais e que geram dependência e escravidão (e que não vêm de Jesus); outras vezes, tornam-se funcionários eficientes, que resolvem problemas sociais pontuais, mas sem oferecerem às “ovelhas sem pastor” uma libertação verdadeira e global; outras, ainda, cansam-se e abandonam a atividade e o testemunho… Jesus é que dá sentido à missão do discípulo e que permite ao discípulo, tantas vezes fatigado e desanimado, voltar a descobrir o sentido das coisas e renovar o se empenho.
• A comoção de Jesus diante das “ovelhas sem pastor” é sinal da sua preocupação e do seu amor. Revela a sua sensibilidade e manifesta a sua solidariedade para com todos os sofredores. A comoção de Jesus convida-nos a sermos sensíveis às dores e necessidades dos nossos irmãos. Todo o homem é nosso irmão e tem direito a esperar de nós um gesto de bondade e de acolhimento. Não podemos ficar no nosso canto, comodamente instalados, com a consciência em paz (porque até já fomos à missa e rezamos as orações que a Igreja manda), a ver o nosso irmão a sofrer. O nosso coração tem de doer, a nossa consciência tem de questionar-nos, quando vimos um homem ou uma mulher (nem que seja um desconhecido, nem que seja um estrangeiro) ser magoado, explorado, ofendido, marginalizado, privado dos seus direitos e da sua dignidade. Um cristão é alguém que tem de sentir como seus os sofrimentos do irmão.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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No tempo de descanso
I. Na primeira leitura (1), diz‑nos o profeta Jeremias: Juntarei o resto das minhas ovelhas [...] e as farei voltar aos seus campos, e elas crescerão e se multiplicarão. A profecia refere‑se à solicitude do Messias para com todos os homens e para com cada um deles. Ele conduz‑me a águas tranqüilas e repara as minhas forças, lemos no Salmo responsorial (2).
O Evangelho (3) mostra a preocupação de Jesus pelos seus discípulos, cansados depois de uma missão apostólica pelas cidades e aldeias vizinhas. Vinde à parte, a algum lugar solitário, e descansai um pouco, diz‑lhes. E explica o Evangelista que eram tantos os que iam e vinham que não tinham tempo para comer. Entrando, pois, numa barca, retiraram‑se à parte, a um lugar deserto. “Que coisas não lhes perguntaria e contaria Jesus!” (4)
A nossa vida, que é também serviço a Cristo, à família, à sociedade, está cheia de trabalho e de dedicação aos outros. Por isso não podemos estranhar que nos sintamos cansados ao fim do dia e tenhamos vontade de descansar. Nesses tempos livres, recuperamos as forças para depois voltarmos a servir, e evitamos danos desnecessários à saúde que, entre outras coisas, repercutiriam naqueles que estão ao nosso lado, na qualidade das coisas que oferecemos a Deus: na atenção devida aos filhos, à mulher, ao marido, aos irmãos, aos amigos; na dedicação às nossas tarefas apostólicas; na atenção e formação das pessoas que o Senhor colocou sob os nossos cuidados.
Há ocasiões em que o descanso se torna uma obrigação grave. “A corda não pode suportar uma tensão ininterrupta, e as suas extremidades precisam de afrouxar um pouco, se se quer voltar a retesar o arco sem que se tenha tornado inútil para o arqueiro” (5). O Senhor quer que, naquilo que depende de nós, nos esforcemos pelos meios ao nosso alcance por estar em boas condições físicas, pois é muito o que Ele espera de todos. “Quanto não nos ama Deus, irmãos – exclama santo Agostinho – se chega a dizer que descansa quando nós descansamos”! (6)
Mas temos que distrair‑nos como bons cristãos, começando antes de mais nada por santificar a própria perda de energias, amando a Deus na fadiga, mesmo que esta se prolongue e, por esta ou aquela circunstância, não nos seja possível interromper a tarefa que nos ocupa. Nessas ocasiões, será especialmente consolador recorrermos ao Senhor, que tantas vezes chegava ao fim do dia extenuado. Ele compreende‑nos muito bem.
II. Haverá dias, talvez por longas temporadas, em que experimentaremos a dureza de não nos sentirmos bem e de mesmo assim termos que levar adiante os negócios, o lar, o estudo... Essa situação não nos deve desconcertar: é parte da fraqueza humana e muitas vezes sinal de que trabalhamos intensamente. “Chegam dias – confessava Santa Teresa com muita simplicidade – em que uma simples palavra me aflige e em que gostaria de partir deste mundo, porque me parece que tudo me cansa” (7).
Esses momentos também devem ser oferecidos a Deus; o Senhor também está muito próximo nessas circunstâncias, e deseja que tomemos as medidas oportunas em cada caso: recorrer ao médico, se for necessário, e obedecer às suas indicações; dormir um pouco mais; dar um passeio ou ler um livro entretido... São circunstâncias que o Senhor permite para que aprofundemos no desprendimento da saúde, para que cresçamos em caridade, esforçando‑nos por sorrir, ainda que seja custoso ou até muito custoso. O oferecimento a Deus dessas situações pode ser de um valor sobrenatural muito grande, mesmo que o coração pareça seco e sem forças para os atos de piedade.
Vinde... e descansai um pouco, diz‑nos o Mestre. No descanso, longe de centrarmos a atenção no nosso eu, também devemos procurar Cristo, porque o Amor não conhece férias. “Em qualquer lugar para onde o homem se dirija, se não se apóia em Deus, sempre achará dor” (8), adverte‑nos santo Agostinho: ao menos a dor de termos deixado o Senhor de lado.
Não devemos empregar os momentos de lazer em não fazer nada. “Descanso significa represar: acumular forças, ideais, planos... Em poucas palavras: mudar de ocupação, para voltar depois – com novos brios – aos afazeres habituais” (9). Esse tempo deve produzir um enriquecimento interior, conseqüência de se ter amado a Deus, de se ter cuidado com esmero das normas de piedade, e de se ter vivido também a entrega aos outros, mediante o esquecimento próprio; devem ser momentos do dia, períodos de férias ou fins de semana em que procuramos especialmente tornar a vida mais amável aos que estão ao nosso lado; a alegria e a felicidade que virmos espelhadas nos seus rostos constituirão uma boa parte do nosso descanso.
Atualmente, são muitos os que deixam a sua vida espiritual de lado ao escolherem, imprudentemente, lugares de férias onde o ambiente moral se degradou de tal modo que um bom cristão não pode freqüentá‑los, se deseja ser coerente. Seria doloroso que uma pessoa que vive habitualmente de olhos postos em Deus aprovasse com a sua presença o triste espetáculo desses ambientes e se expusesse gravemente a ofender o Senhor. Mais grave seria, tratando‑se dos pais, se cooperassem para que os seus filhos e as pessoas que dependem deles viessem a sofrer um prejuízo espiritual sério, muitas vezes irreparável: pesar‑lhes‑iam sobre a consciência os pecados próprios e os dos filhos.
O Senhor poderia dizer a muitos: “Por que continuas a caminhar por estradas difíceis e penosas? O descanso não está onde tu procuras. Fazes bem em procurar o que procuras; mas deves saber que não está onde o procuras. Procuras a vida feliz na região da morte. Não está ali! Como é possível que haja vida feliz onde nem sequer há vida?” (10)
Ainda que em alguns ambientes se tenha esquecido a doutrina moral da cooperação com o mal, nós, que desejamos ser bons cristãos e que muitos outros o sejam, recordá‑la‑emos, no momento oportuno e com espírito positivo, aos nossos amigos e companheiros. Não esqueçamos que, ainda que o descanso seja um dever, não o é de um modo absoluto, e que o bem da alma, própria ou alheia, está acima do bem corporal.
Num cristão que deseja imprimir unidade à sua vida, Deus não quer um tempo em que repor‑se fisicamente signifique para a alma ficar doente, alquebrada ou pelo menos enfraquecida. Além disso, com um pouco de boa vontade, sempre é possível encontrar ou criar lugares e modos em que se venha a descansar tendo a Deus muito perto, no interior da alma em graça, aproveitando o tempo para estreitar laços de amizade e realizar um apostolado fecundo.
III. “Os cristãos devem cooperar para que as manifestações e atividades culturais coletivas próprias da nossa época se impregnem de espírito humano e cristão” (11).
É tarefa nossa abrir horizontes nobres e gratos a uma sociedade em que muitas pessoas gozam de mais tempo livre devido à tendência das legislações para diminuir a jornada de trabalho, com fins de semana mais longos, mais tempo de férias, etc. Devemos ensinar também por toda a parte que as festas têm um sentido essencialmente religioso, e que sem ele ficariam vazias de conteúdo: o Natal, a Semana Santa, os domingos e demais festas do Senhor e da Virgem. Trata‑se de um apostolado urgente, pois é cada vez maior o número dos que aproveitam esses dias para evadir‑se dos seus deveres cotidianos e, talvez, para afastar‑se mais de Deus.
As festas têm uma importância decisiva “para ajudar os cristãos a receber melhor a ação da graça divina e permitir‑lhes corresponder a ela mais generosamente” (12). A missa é “o coração da festa cristã” (13), e nela temos de oferecer ao Senhor tudo o que compõe o nosso dia. Nada teria sentido se descuidássemos este primeiro dever para com Deus, ou se o relegássemos para uma hora que somente preenchesse um buraco do dia, repleto de outras atividades tidas por mais importantes; isso revelaria ao menos pouco amor de Deus num cristão que deseja ter o Senhor como verdadeiro centro da sua vida. Para Ele deve ser a melhor hora do nosso dia, especialmente se se trata de um domingo ou de outro dia de preceito, ainda que para isso tenhamos que mudar os planos pessoais ou da família. Se formos generosos neste ponto, sentiremos a alegria profunda de quem correspondeu ao amor de seu Pai-Deus.
Por último, não nos esqueçamos de que – como continua o Evangelho da Missa –, quando Jesus se dirigiu numa barca com os seus para um lugar afastado, muitos o viram partir e foram para lá a pé, e chegaram antes que eles. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e encheu‑se de compaixão, porque estavam como ovelhas sem pastor, e começou a ensinar‑lhes muitas coisas. Nem Jesus nem os seus discípulos puderam descansar naquele dia. O Senhor ensina‑nos aqui com o seu exemplo que as necessidades dos outros estão por cima das nossas. Também nós, em tantas ocasiões do dia, teremos que deixar o descanso para outro momento porque há quem esteja à espera da nossa atenção e dos nossos cuidados. Façamo‑lo com a alegria com que o Senhor se ocupou daquela multidão que precisava dEle, deixando de lado os planos que tinha feito. É um bom exemplo de desprendimento que devemos aplicar às nossas vidas.
Francisco Fernández-Carvajal


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