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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 18 de agosto de 2015

21º DOMINGO TEMPO COMUM-B

21º DOMINGO TEMPO COMUM

Evangelho - Jo 6,60-69


ESTA PALAVRA É DURA

-A QUEM IREMOS?-José Salviano


23 de Agosto de 2015
Ano   B


       A liturgia deste domingo nos coloca diante de duas opções de escolha: Deus ou outra saída, outro caminho. Deus ou os ídolos. Deus ou uma vida desregrada, sem freios, sem limites, sem graça, sem vida, sem esperança de uma vida eterna. Leia mais
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"NINGUÉM PODE VIR A MIM A NÃO QUE LHE SEJA CONCEDIDO PELO PAI”. - Olívia Coutinho

 

21º DOMINGO DO TEMPO COMUM.


Dia 23 de Agosto de 2015

Evangelho de Jo 6,60-69

Hoje, se percebe uma grande inquietação no campo da fé, há um desejo de se conseguir tudo fácil, o que leva muitas pessoas a trocar de religião, como se a religião fosse resolver todas as suas questões. Precisamos amadurecer na fé, conscientizarmos de que a religião é apenas um caminho de orientação na fé, as nossas questões, cabe a nós mesmos resolvê-las, sempre à luz da fé.
Há uma diferença muito grande entre ter fé e viver a fé, ter fé, é crer naquilo que não se vê, viver a fé, é viver aquilo que se crê.
Quando abraçamos a fé, descortina-se diante de nós, um novo horizonte,  nos fazendo enxergar o que os olhos humanos não conseguem alcançar! 
O evangelho de hoje, vem nos afirmar que só permanece com Jesus, quem chega a Ele, pelos caminhos da fé!
“Ninguém pode vir a mim a não ser que lhe seja concedido pelo Pai”. A fé é um dom de Deus, quem acolhe este dom, recebe a concessão do Pai para se achegar ao Filho e é através do Filho que se chega ao Pai!
Muitos recuam, ou até mesmo abandonam o seguimento a Jesus, quando tomam conhecimento de que  neste seguimento está presente  a cruz, um  sinal de um não amadurecimento na fé!
 Foram muitos os discípulos, que abandonaram Jesus, quando tomaram conhecimento de que seria impossível  seguir a Ele, sem assumir  a cruz! Eles queriam ficar com o Jesus da multiplicação dos pães, não quiseram aceitar o Jesus que passaria pela cruz!
 Mesmo Jesus tendo dito: "O meu Reino não é deste mundo", o povo estava longe de entender que Ele, não buscava a glória dos homens e sim, a glória do Pai!  Os mesmo, que queriam proclamá-lo como Rei, após  o episodio da multiplicação dos pães, o abandonaram  quando Ele disse: “Eis aqui o pão que desceu do céu, quem dele comer viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo6,51). Estas palavras de Jesus, que prenunciava a sua morte, ressoou para  os muitos  discípulos que o escutava, como sendo duras demais, não que eles não tivessem entendido o sentido daquelas palavras, mas porque eles  não estavam dispostos a enfrentar os desafios da cruz. Unir as suas  vidas a vida de Jesus, implicaria numa doação total de vida, isso, não estava nos  planos dele.
A nossa opção por Jesus deve ser radical, devemos estar com Ele para o que der e vier, do contrário, faremos como aqueles discípulos, abandonamo-lo  no meio do caminho, perdendo a oportunidade  do encontro com o Pai, pois só Ele é o caminho que nos leva ao Pai.
Mais importante do que entender as exigências de Jesus, é acatá-las sem questionamentos, pois Ele é soberano, sabe o que é bom para nós, Jesus é o  Senhor da nossa vida, questionar os seus ensinamentos é impor  condições  para segui-Lo, e esta, não é  a postura de um cristão verdadeiro.
Diante das palavras exigentes de Jesus, devemos nos comportar como uma criança obediente, que mesmo sem entender as exigências dos seus pais, acata as suas ordens.
No final do evangelho Jesus pergunta aos doze discípulos, os únicos que permaneceram com Ele até aquele momento: “Vós também quereis ir embora? Pedro responde: " A quem iremos Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!"
Creio que hoje, Jesus nos faria uma pergunta um tanto diferente, talvez Ele nos perguntasse: "E vós quereis ficar comigo”? A nossa resposta não será  verbal e nem imediata como  a resposta de Pedro e sim,  com as nossas atitudes do  dia a dia!
Ficar com Jesus, é optar pela vida!
Optemos pela  vida, ficando Jesus!

FIQUE NA PAZ DE JESUS – Olívia Coutinho
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Senhor, a quem iremos?
Os textos da liturgia de hoje sugerem que, se não servimos a Deus de livre vontade, o serviço pode resultar em hipocrisia. Deus deseja que o sirvamos de todo o coração, mas isso só será possível se fizermos opção consciente por ele. A opção por Deus traz como consequência novas formas de relacionamento com o próximo, a começar em casa. Isso significa que o cristianismo não se separa das relações que constituem a vida humana.
Evangelho (Jo 6,60-69): Vós também quereis ir embora?
Depois de todos terem visto o sinal do pão e ouvirem o discurso, chegou a hora da decisão da fé: aderir ou rejeitar Jesus como enviado de Deus. A decisão não é apenas da multidão, mas dos discípulos também. É decisão definitiva, porque, a partir daí, os que estão com Jesus também devem participar de seu destino.
A palavra de Jesus é muito dura. Somente a fé naquele que pode dar a vida eterna capacita para enfrentar a dureza dessa palavra.
Não se trata apenas de ouvir, mas de escutar prontamente para realizar na vida aquilo que se escuta de Deus. No caso, o que eles escutaram diz respeito à adesão incondicional dos discípulos à vida de Jesus. E se isso os escandaliza, o que dirão quando acontecer seu retorno ao Pai? É assim que Jesus concebe sua morte na cruz: como retorno para o lugar de onde veio, para o seio do Pai.
O contraste entre carne e espírito refere-se a duas formas de viver. A carne diz respeito ao ser humano entregue a si mesmo e aos limites de suas possibilidades. Por si mesmo é incapaz de perceber o sentido profundo das palavras e dos sinais de Jesus ou de crer. Por isso, é o espírito a força que ilumina o ser humano, lhe abre os olhos e lhe permite discernir a Palavra que se diz em Jesus. Não são duas dimensões do ser humano, mas duas maneiras de viver sua existência. Nem todos os discípulos estão se deixando conduzir pelo espírito, por isso não conseguem dar o próximo passo: a fé.
A verdadeira fé significa adesão sem reserva àquele cujas palavras prometem e comunicam a vida eterna: ele é efetivamente o enviado que Deus consagrou.
Simão Pedro, representante da comunidade, confessa sua fé em Jesus, dizendo que só ele tem palavras de vida eterna. A quem iremos? Quem poderia nos oferecer uma vida plena, reconciliada com Deus, cuja existência humana é sustentada com seu amor? Só Jesus.
1ª leitura (Js. 24,1-2a.15-17.18b): Escolhei
hoje a que deus quereis servir Siquém ocupa lugar de destaque na história
dos patriarcas, pois foi por ali que Abraão entrou na terra prometida (Gn. 12,6), rompendo com o passado e recomeçando uma vida nova que se caracterizava pela adoração ao Deus vivo e verdadeiro e pela renúncia ao politeísmo. Nada melhor que fazer a renovação da aliança naquele lugar; com esse objetivo, Josué reuniu ali os representantes das tribos. Antes de tudo, era necessário fazer uma escolha: a quem desejam adorar?
Ao Deus que os tirou do Egito ou aos deuses estrangeiros aos quais Abraão, Isaac e Jacó haviam renunciado?
Os hebreus responderam à pergunta de Josué de modo enfático, mostrando a opção
deles por servir o Senhor em vez dos ídolos. A expressão “Deus nos livre” ressalta o horror à idolatria; adorar os ídolos em vez do Senhor é algo absurdo e não deve ser cogitado em hipótese alguma.
A razão dada para a escolha é que eles provaram do cuidado e atenção que Deus teve para com eles, tirando-os da escravidão e guardando-os durante todo o caminho até ali.
2ª leitura (Ef. 5,21-32): Cristo amou a Igreja e se entregou por ela
Escrita no século I d.C. sob o império romano, uma sociedade dividida em castas, com senhores e escravos, e em que a posição da mulher dependia da decisão do marido, a carta aos Efésios mostra-se rica em sabedoria, porque se aproveita de elementos desse contexto histórico e cultural para ensinar sobre o relacionamento entre Cristo e a Igreja, ao mesmo tempo que instrui sobre como deve ser a nova forma de os cristãos construírem seus relacionamentos naquela sociedade.
Primeiramente deve haver subordinação de uns para com os outros. Assim ninguém tomará o lugar de Deus, pois o motivo dessa subordinação é a reverência ao Senhor. O termo grego correspondente a “subordinai--vos” não é pejorativo; ao contrário, é termo militar que significa estar sob as ordens (ou sob a orientação) de um oficial imediato. Esse termo iguala a todos, pois cada um está sob as ordens de outro, e ao mesmo tempo sugere que há funções diferentes. A expressão “reverência ao Senhor” significa que Deus está acima de qualquer autoridade e que somente a ele e não a outro se deve adorar.
No texto de hoje temos uma das mais belas (e menos compreendidas!) analogias paulinas, comparando a relação entre esposo e esposa ao relacionamento entre Cristo e a Igreja. Há alguns elementos sobre os quais a analogia está estruturada que nos ajudam a melhor entendê-la: (1) a esposa deve estar subordinada ao esposo; (2) destaca-se que o motivo dessa subordinação é Cristo e não o marido, ao contrário do que se pensava nanaquela época; (3) a esposa representa a Igreja e o esposo representa Cristo, o que significa que a subordinação da esposa é imagem da subordinação da Igreja a Cristo; (3) o esposo deve amar a esposa como Cristo amou a Igreja, isto é, o esposo deve dar a vida pela esposa até a cruz. Como naquela sociedade a responsabilidade maior era a do marido, assim também a maior exigência é feita a ele e não à esposa.
Enfim, todos somos membros do mesmo corpo, um não é maior que o outro, embora
haja diversas funções. Além disso, esposo e esposa constituem uma única carne, da mesma forma que a Igreja é corpo de Cristo.
O mistério da união entre Cristo e a Igreja é muito grande e não há palavras para defini-lo.
A analogia com o matrimônio é apenas uma tentativa de compreendê-lo melhor (v. 32) para melhor servir no reino de Deus.
Pistas para reflexão
– Encerramos o mês vocacional com textos que enfatizam o valor da opção consciente e instruída. No mundo de hoje, o cristianismo deve ser fruto de uma escolha muito mais que antigamente, pois, no tempo da comunidade primitiva, muitas vezes a família determinava as decisões dos filhos. Hoje, isso já não é possível.
A Igreja deve ter a coragem de perguntar a seus membros se têm certeza de que realmente querem continuar a ser cristãos católicos.
Além de mostrar que a vivência cristã é fruto de uma escolha, de uma decisão pessoal, a Igreja deve oferecer formação às pessoas para que conheçam e entendam mais profundamente o cristianismo católico e assim possam dar uma resposta mais consciente e segura.
– No domingo que vem começará o mês dedicado à Bíblia. Trata-se de ótima oportunidade para que a Igreja tenha membros mais conscientes, mais bem formados na palavra de Deus e mais seguros da decisão de serem cristãos católicos.



SEGUNDA HOMILIA
Aonde vou, meu Jesus?
Dona Judite queria abandonar de vez a Igreja. Ela era uma mulher de Igreja. Fazia de tudo: coordenava as celebrações, era do Apostolado da Oração, tinha sido ministra da eucaristia nos dois últimos anos. Um dia teve uma discussão com seu Antônio, o presidente da comunidade, por causa de uma coisa à toa. Foi porque seu Antônio não deixara a filha de dona Judite cantar o salmo na missa do padroeiro.
Ali só havia missa de vez em quando, uma vez por mês, e ainda havia mês em que o padre não aparecia, por ter de participar de alguma reunião. Assim, aquela missa do padroeiro seria especial. Além do padre, estaria lá o bispo, que vinha de longe. Judite achava que era um dia bonito para sua filha Bernadete cantar o salmo. Mas não, ela não fora escolhida. O presidente da comunidade tinha pedido que outra pessoa lesse! Por isso, dona Judite saiu da reunião pensando em deixar a Igreja de vez. Iria procurar outra religião, ou ficar sem religião. Ficou pensando que aquilo que seu Antônio fizera não era certo. Bernadete ficaria muito chateada quando soubesse, porque, na opinião da mãe, a filha era a melhor cantora das redondezas.
Dona Judite estava quase indo dormir quando olhou para a parede da sala e viu lá o quadro do Coração de Jesus. Era um quadro antigo. Tinha sido de sua avó. Quantos terços e ladainhas tinha rezado ali, em frente daquele quadro! Quantas vezes tinha chorado olhando para o Coração de Jesus, pedindo graças, implorando paciência com situações difíceis… Sentiu vontade de cantar aquela música, que aprendeu pequenininha: “Coração santo, tu reinarás, tu nosso encanto sempre serás…”. Cantou com vontade. Lembrou-se de tanta coisa bonita que tinha vivido na comunidade, da visita que fazia aos doentes, das novenas, da alegria de rezar o terço nas casas, do estudo bíblico, da pastoral da criança. Olhou para o quadro e pensou: “Não quero ficar longe de Jesus! Não vou abandonar a fé que recebi de minha família por causa de uma coisa tão pequena!” Então rezou: “Senhor, liberte meu coração de toda mágoa! Ajude-me a entender que a verdadeira palavra eu só encontro perto de você, que está tão vivo em minha comunidade, apesar de nossos pecados.”
padre Claudiano Avelino dos Santos, ssp



“A quem iremos Senhor?”
Estamos terminando a leitura do Sermão do Pão da vida do evangelho de João. Conhecemos quase de cor tudo aquilo que foi sendo lido ao longo dos domingos de agosto. Jesus se apresenta como alimento da vida dos seus. Não somente no pão da eucaristia, mas com toda sua vida e sua fala, seu testemunho e o testemunho que dele dá o Pai. Os ouvintes  experimentaram dúvidas a respeito da fala de Jesus. Não entendiam essa questão de dar a carne pelos seus, dar a vida pelos seus. “A partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele”. Jesus exige uma postura corajosa dos apóstolos.  Coloca a questão:  “Vós também quereis ir embora?”
Muitos de nós conhecemos Cristo em nossas famílias e no tempo da preparação para  Primeira Eucaristia. Pode ter acontecido que, por felicidade, tenhamos tido a oportunidade de aprofundar nosso conhecimento do Senhor e tenhamos mesmo chegada a uma vida de seguimento do Senhor… A fidelidade exige coragem, requer firmeza no tempo que passa e  audácia para superar as provações. Nesses momentos pode ser que a figura de Jesus, que o horizonte da fé nos pareçam fluidos e  venhamos a ter a tentação de deixar de ouvir o Senhor.  A fidelidade é sempre uma virtude difícil de ser profundamente vivida.
A primeira leitura do deste domingo é tirada do Livro de Josué.  O líder do povo tem a impressão que muitos querem abandonar o Senhor.  Se seus ouvintes não estão dispostos a seguir o Senhor, que tomem outro caminho: “Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses aos quais vossos pais serviram na Mesopotâmia ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais..  Quanto a mim e à minha família serviremos ao Senhor”. Josué declara solenemente  que não abandonará a fé.  Belíssima a resposta do povo: “Longe de nós abandonarmos o Senhor para servir a deuses estranhos…ele nos tirou da terra do Egito… nos guardou por todos os caminhos por onde peregrinamos e no meio de todos os povos pelos quais passamos. Portanto, nós também serviremos ao Senhor, porque ele é o nosso Deus”. O povo confirma seu desejo de ser um povo do Senhor.
Encontramos a mesma postura na figura de Pedro no final do evangelho do Pão da Vida. Quando Jesus  deixa liberdade para que os apóstolos se afastem como muitos discípulos tinham feito, ouvimos a palavra forte e luminosa de Pedro: “A quem iremos, Senhor?   Só tu tens palavras de vida eterna.  Nós cremos  firmemente e reconhecemos que tu és o santo de Deus”.
Cabe a cada um de nós, diante da fragilidade de cada um e das exigências da fé responder à pergunta de Jesus: “Quereis ir… quereis  fazer vossa vida de outro modo?”
frei Almir Ribeiro Guimarães



A quem iríamos, senão a Jesus?
“Comer e beber minha carne e meu sangue” (evangelho) são “palavras duras”, não só por sua significação teológica, mas também por suas conseqüências: implicam em aceitar Jesus sacrificado como alimento, recurso fundamental, de nossa vida. Isso era duro para os que puseram sua esperança num messias político-nacional. Exatamente porque pensavam em categorias “carnais”, não podiam aceitar um messias que viesse numa “carne” humilde e aniquilada, um messias alheio aos sonhos teocráticos deles. Menos ainda poderiam aceitar que esta “carne” fosse a manifestação da “glória” (6,62). Se esta é a glória de Deus… não precisam dela. Contudo: “A Palavra tomou-se carne e nós contemplamos sua glória” (1,14). A glória do Cristo é a cruz: nela, ele atrai a si todos os que se deixam atrair pelo Pai (cf. 12,32; 6,44).
Mas, também para nós, as palavras do Cristo são difíceis de aceitar. Sua “carne” é bastante incompatível com nossa sede de sucesso. Sua “glória”, por outro lado, a con­fundimos com a visibilidade efêmera do espetáculo religioso. Somos incapazes de imaginar a “subida” ao Pai daquele que viveu a condição de nossa carne até seus mais profundos abismos. Será que já imaginamos alguma vez um destes homens sofridos, quebrados, anti-higiênicos, porém radicalmente autênticos e bons que vivem em nosso redor como sendo o nosso “senhor”? Talvez consigamos ter pena de tais homens, mas admirá-los e tomá-los como guia de nossa vida … A glória é ainda mais escandalosa do que a carne.
Não adianta. Com categorias “carnais”, humanas, não chegamos a essa outra vi­são sobre a “carne” da Palavra. A “carne” não resolve. Precisamos de um impulso que venha de fora de nós. O “espírito”, a força operante, a inteligência atuante de Deus, nos levará a acolher o mistério do escravo glorificado. Jesus mesmo nos transmite esse es­pírito (10 3,34), e sua “exaltação” é a fonte desse dom (7,39). Suas palavras são “espíri­to e vida” – espírito da vida (6,68; cf. 6,63). Só entregando-nos à sua palavra (isto é, aplicando-a em nossa vida), poderemos experimentar que ele é fidedigno. Ou seja, o “espírito” que há de superar o que nossas categorias demasiadamente humanas recu­sam vem do próprio “objeto” de nosso escândalo. Não é como conclusão de um teore­ma que seu espírito penetra em nós, mas como conseqüência de uma arriscada decisão e opção. É essa opção que Pedro pronuncia, vendo a insuficiência de qualquer outra so­lução: “A quem iríamos … “.
A 1ª leitura ilustra o caráter de tal opção pelo exemplo de Josué: a escolha que Jo­sué apresenta aos israelitas do séc. XII a.C. (entre Javé, que os libertou do Egito, e os deuses da Mesopotâmia, supostos fornecedores de fecundidade etc.), escolha que os autores bíblicos apresentam a seus contemporâneos, no tempo da ameaça assíria e da deturpação da fé pelos cultos dos baalim (10).  A escolha entre um Deus que provou seu amor e fidelidade e deuses que devem sua “existência” aos mitos que os homens criam em redor deles. Essa opção se apresenta a nós também: optaremos por aquele que “deu a vida”, em todos os sentidos, ou pelos ídolos pelos quais tão facilmente damos nossa vida, sem deles recebermos a gratificação que prometem: sucesso, riqueza, poder.
A 2ª leitura de hoje é muito rica, mas não combina com as duas outras. Porém, por ser sua mensagem tão importante, sobretudo num tempo em que o caráter santificante do amor conjugal e familiar é praticamente desconsiderado, seria bom reservar na li­turgia um momento à parte para proporcionar também esta mensagem aos fiéis, talvez no envio final, como uma das maneiras para encarnar a opção por aquele que tem as pa­lavras da vida eterna …
(10). Para bem entendermos o trecho, ajuda o conhecimento de sua origem literária. Faz parte da “historiografia deuteronomista”, ou seja, da história de Israel escrita em função do movimento profético dos séculos VII e VI a.C. (que promoveu também o livro do Dt). Este movimento de­nunciava com força o perigo do comprometimento de Israel com os deuses e os príncipes das an­tigas populações cananéias e estrangeiras.
Johan Konings "Liturgia dominical"



Nenhum cristão jamais poderá dizer que foi enganado pelo Senhor! Deus nunca se mascarou para nós, nunca nos falou palavras agradáveis para nos seduzir, nunca agiu como os nossos políticos; Deus não usa botox! Ele é um Deus verdadeiro, leal, honesto! Não esconde suas exigências, não omite suas condições para quem deseja segui-lo e servi-lo...
Escutamos na primeira leitura de hoje Josué mandando o povo escolher: seguir os ídolos, que são de fácil manejo, que não exigem nada ou, ao invés, seguir o Senhor, que é exigente, que é Santo e corrige os que nele esperam? O próprio Josué dirá: “Não podeis servir ao Senhor, pois ele é um Deus santo, um Deus ciumento, que não tolerará as vossas transgressões, nem os vossos pecados!” (Js. 24,19) Vede, meus caros, que o nosso Deus não se preocupa com popularidade, não faz conta do número de fiéis, não abranda suas exigências para ser aceito, mas sim, faz conta da fidelidade ao seu amor e ao seu chamado!
O que aparece na primeira leitura torna-se ainda mais claro e dramático no evangelho. Após dizer claramente que sua carne é verdadeira comida e seu sangue é verdadeira bebida, muitos discípulos se escandalizaram com Jesus (os protestantes ainda hoje se escandalizam e não crêem na palavra do Salvador...). E Jesus, o que faz? Muda sua palavra? Volta atrás no ensinamento para ser popular, para ser compreendido e aceito, para encher as igrejas? Não! Popularidade, aceitação, bom-mocismo nunca foram seus critérios! Ainda que sua palavra escandalize, ele nunca volta atrás. O Senhor nunca se converte a nós; nós é que devemos nos converter a ele! Pode-se manipular os ídolos; nunca o Deus verdadeiro!
É importante prestar atenção! Diante dos discípulos escandalizados e murmuradores, que faz Jesus? Apresenta o critério decisivo: a cruz. Escutai, irmãos, o que diz o Senhor: “Isto vos escandaliza? E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes?” Lembremo-nos que, para o Evangelho de São João, a subida de Jesus para o Pai começa na cruz: ali ele será levantado! Vede bem, meus irmãos, que não poderá seguir o Senhor, não poderá suportar as palavras do Senhor, aquele que não estiver disposta a contemplá-lo na cruz! E Jesus previne: “O Espírito é que dá vida; a carne não adianta nada! As palavras que vos falei são Espírito e vida!” Compreendei: somente se nos deixarmos educar pelo Santo Espírito, somente se deixarmos os pensamentos e a lógica à medida da carne, isto é, à medida da mera razão humana, é que poderemos compreender as coisas de Deus, coisas que passam pela cruz de Cristo! Quando se trata do escândalo do Evangelho, “a carne não adianta nada”! Não nos iludamos: entregues à nossa própria razão, pensaremos como o mundo e jamais acolheremos Jesus e suas exigências! E, no entanto, o Senhor continua: “É por isso que vos disse: ninguém pode vir a mim a não ser que lhe seja concedido por meu Pai!” Vede bem, meus caros: acolher Jesus, compreender suas palavras e acolhê-las, por quanto sejam difíceis e duras, é graça de Deus e somente abertos para a graça poderemos realizá-lo! Como acolher a linguagem da cruz, sem mudar de vida? Como acolher as exigências do Senhor, sem a conversão do coração, sem nos deixarmos guiar pela imprevisível liberdade do Santo Espírito? Quando isso acontece, experimentamos como o Senhor é bom, o quanto é suave, o quando é doce segui-lo!
Um belíssimo exemplo disso, a Palavra de Deus nos dá hoje recordando a vida da família cristã. São Paulo pensa o lar cristão como uma pequena comunidade de discípulos de Cristo, uma pequena Igreja e dá conselhos estupendos! O sentimento que deve nortear o comportamento familiar é o amor. Que amor? O das músicas e das novelas? Não! Aquele amor manifestado na cruz, aquele entre Cristo e a Igreja! Que beleza, que desafio, que sonho: marido e mulher se amando como Cristo e a Igreja se amam, marido e mulher sendo felizes na felicidade um do outro: “Sede solícitos uns para com os outros!” 
Para o cristianismo, meus caros, a família cristã não é primeiramente uma instituição humana, mas uma instituição divina, um sacramento da Igreja. Mais ainda: a família é a primeira Igreja, a primeira comunidade de irmãos em Cristo. Ali, é Jesus quem deve reinar, ali é o santo e doce temor de Deus quem deve regular a convivência. Que desgraça hoje em dia a paganização, a secularização, a banalização da família cristã. Atentos, cristãos: a família é santa, a família é sagrada, a família não pode ser profanada pelo desamor, pela indiferença, pela imoralidade, pela violência, pelo consumismo, pela opressão, pela divisão, pela vulgarização! Que beleza, meus caros, um homem e uma mulher unidos no amor com a bênção do Senhor gerando filhos, gerando amor feito carne, feito gente, para o mundo, para a Igreja, para a vida! Este é o sonho do Senhor para a família! Este e só este! Aos olhos de Deus, não há outra forma legítima e aceitável de união familiar! Um homem, uma mulher; um esposo, uma esposa e os filhos – eis o sonho, eis a bênção, eis a felicidade quando se vive isso de acordo com o amor de Deus em Cristo! Que bênção a convivência familiar! Que doçura poder partilhar as alegrias e tristezas, as lutas e dificuldades num lar cristão, onde juntos se rezam, juntos partilham, juntos vencem-se as dificuldades! São Paulo, encantado com essa realidade, exclama: “É grande este mistério!” Que mistério? O mistério do amor entre marido e mulher, da sua união que gera vida, que é doçura e complementaridade. E o Apóstolo continua: “E eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja!” Atenção! São Paulo está dizendo que a comunhão familiar é imagem da comunhão entre Cristo e a Igreja!
É fácil, caríssimos, viver a família assim? Não! Como não é fácil levar a sério a Palavra do Senhor! E Jesus, mais uma vez, nos pergunta: “Isto vos escandaliza?” Escandaliza-vos o matrimônio ser indissolúvel? Escandaliza-vos a fidelidade conjugal? Assusta-vos o dever de gerar filhos com generosidade e educá-los com amor e firmeza? “Quereis também ir embora?”
Que nossa resposta seja a de Pedro, dada em nome dos Doze e de todos os discípulos: “A quem iremos, Senhor? Caminhar contigo não é fácil; acolher tuas exigências nos custa; compreender teus motivos às vezes é-nos pesado... Mas, a quem iremos? Só tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus!”. Que as palavras de Pedro sejam as nossas e, como Josué, possamos dizer: “Eu e minha família serviremos o Senhor!”
Escolher a Deus – um Deus difícil! Os ídolos são fáceis e muitos!
O Senhor é exigente; e não volta atrás na sua palavra, mesmo quando essa escandaliza. O critério é a cruz (o Filho do homem subindo e julgando). Somente pode compreendê-lo no Espírito, a carne não serve aqui! – Ser cristão não é questão de propaganda ou munganga: é graça; é o Pai quem atrai!
Muitos já não andavam mais com ele... Quereis ir embora?
Senhor, só tu tens palavras de vida eterna: és o Santo de Deus!
Provai e vede quão suave é o Senhor!
Uma família que serve o Senhor: a lei que regula é o amor, o mesmo que se contempla na entrega de Cristo, selando a aliança com a Igreja.
dom Henrique Soares da Costa



A liturgia do 21º domingo do tempo comum fala-nos de opções. Recorda-nos que a nossa existência pode ser gasta a perseguir valores efêmeros e estéreis, ou a apostar nesses valores eternos que nos conduzem à vida definitiva, à realização plena. Cada homem e cada mulher têm, dia a dia, de fazer a sua escolha.
Na primeira leitura, Josué convida as tribos de Israel reunidas em Siquém a escolherem entre “servir o Senhor” e servir outros deuses. O Povo escolhe claramente “servir o Senhor”, pois viu, na história recente da libertação do Egito e da caminhada pelo deserto, como só Jahwéh pode proporcionar ao seu Povo a vida, a liberdade, o bem estar e a paz.
O Evangelho coloca diante dos nossos olhos dois grupos de discípulos, com opções diversas diante da proposta de Jesus. Um dos grupos, prisioneiro da lógica do mundo, tem como prioridade os bens materiais, o poder, a ambição e a glória; por isso, recusa a proposta de Jesus. Outro grupo, aberto à ação de Deus e do Espírito, está disponível para seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida; os membros deste grupo sabem que só Jesus tem palavras de vida eterna. É este último grupo que é proposto como modelo aos crentes de todos os tempos.
Na segunda leitura, Paulo diz aos cristãos de Éfeso que a opção por Cristo tem consequências também ao nível da relação familiar. Para o seguidor de Jesus, o espaço da relação familiar tem de ser o lugar onde se manifestam os valores de Jesus, os valores do Reino. Com a sua partilha de amor, com a sua união, com a sua comunhão de vida, o casal cristão é chamado a ser sinal e reflexo da união de Cristo com a sua Igreja.
1ª leitura - Josué 24,1-2a.15-17.18b - AMBIENTE
O livro de Josué (de onde é tirada a nossa primeira leitura) abarca uma parte do séc. XII a.C., desde a época da entrada na Terra Prometida das tribos do Povo de Deus libertadas do Egito, até à morte de Josué. O livro oferece-nos uma visão muito simplificada da ocupação de Canaan: as doze tribos, unidas sob a liderança de Josué, realizaram várias expedições militares fulgurantes e apoderaram-se, quase sem oposição, de todo o território anteriormente nas mãos dos cananeus… Historicamente, contudo, as coisas não se passaram nem de forma tão fácil, nem de forma tão linear: é mais verosímil a versão apresentada no Livro dos Juízes e que fala de uma conquista lenta e difícil (cf. Jz 1), incompleta (cf. Jz 13,1-6; 17,12-16), que não foi obra de um povo unido à volta de um chefe único, mas de tribos que fizeram a guerra isoladamente.
O Livro de Josué, antes de ser um livro de história, é um livro de catequese. O objetivo dos autores deuteronomistas que o escreveram era destacar o poder imenso de Jahwéh, posto ao serviço do seu Povo: foi Deus (e não a capacidade militar das tribos) que, com os seus prodígios, ofereceu a Israel a Terra Prometida; ao Povo resta-lhe aceitar os dons de Deus e responder-Lhe com a fidelidade à Aliança e aos mandamentos.
O texto que nos é hoje proposto situa-nos na fase final da vida de Josué. Sentindo aproximar-se a morte, Josué teria reunido em Siquém (no centro do país) os líderes das diversas tribos do Povo de Deus e ter-lhes-ia proposto uma renovação do seu compromisso com Jahwéh. De acordo com Jos 24,15, Josué teria colocado as coisas da seguinte forma: “escolhei hoje a quem quereis servir… porque eu e a minha casa serviremos o Senhor”.
Na versão do autor deuteronomista a quem devemos esta notícia, Josué parece dirigir-se a um grupo de tribos que partilha uma fé comum em Jahwéh. Estaremos diante de uma assembléia que reúne essas “doze tribos” que, mais tarde (na época de David) vão constituir uma unidade nacional? Alguns biblistas pensam que não. Entre as tribos presentes não estaria certamente a tribo de Judá, já que os contactos entre Judá e a “casa de José” só se estabeleceram na época do rei David. A “casa” de Josué a que o texto se refere é certamente constituída pelas tribos do centro do país – Efraim, Benjamim e Manassés – que há muito tempo tinham aderido a Jahwéh e à Aliança. E as outras tribos, convidadas a comprometer-se com Jahwéh? Provavelmente, o convite a escolher entre “o Senhor” e os outros deuses (cf. Jos 24,14) dirige-se às tribos do norte do país que, sem dúvida, não abandonaram a Palestina desde a época dos patriarcas (e que, portanto, não viveram a experiência do Egito, nem fizeram a experiência de encontro com Jahwéh, o Deus libertador).
Talvez a “assembléia de Siquém” referida em Jos 24 seja a primeira tentativa histórica de estabelecer laços entre as tribos do centro da Palestina (Efraim, Benjamim e Manassés – as tribos que viveram a experiência do Egito, a libertação, a caminhada pelo deserto e a Aliança com Jahwéh) e as tribos do norte (Issacar, Zabulón, Neftali, Asher e Dan – tribos que nem sequer estiveram no Egito). A ligação far-se-ia à volta de uma fé comum num mesmo Deus. A união das diversas tribos do norte e do centro não se deu, contudo, de uma vez; mas foi uma caminhada lenta e progressiva, que só se completou muito tempo depois de Josué.
O ponto de partida para o texto que nos é proposto é o fato histórico em si (provavelmente, uma assembléia em Siquém, onde Josué propôs às tribos do norte que aceitassem Jahwéh como seu Deus). No entanto, o autor deuteronomista responsável por este texto pegou na notícia histórica e transformou-a numa catequese sobre o compromisso que Israel assumiu para com Jahwéh. O seu objetivo é convidar os israelitas da sua época (séc. VII a.C.) a não se deixarem seduzir por outros deuses e a manterem-se fiéis à Aliança.
MENSAGEM
Estamos, portanto, em Siquém, com “todas as tribos de Israel” (v. 1) reunidas à volta de Josué. Na interpelação que dirige às tribos, Josué começa por elencar alguns momentos capitais da história da salvação, mostrando ao Povo como Jahwéh é um Deus em quem se pode confiar; as suas ações salvadoras e libertadoras em favor de Israel são uma prova mais do que suficiente do seu poder e da sua fidelidade (cf. Jos 24,2-13).
Depois dessa introdução, Josué convida os representantes das tribos presentes a tirarem as devidas consequências e a fazerem a sua opção. É necessário escolher entre servir esse Senhor que libertou Israel da opressão, que o conduziu pelo deserto e que o introduziu na Terra Prometida, ou servir os deuses dos mesopotâmios e os deuses dos amorreus. Josué e a sua família já optaram: eles escolheram servir Jahwéh (v. 15).
A resposta do Povo é a esperada. Todos manifestam a sua intenção de servir o Senhor, em resposta à sua acção libertadora e à sua proteção ao longo da caminhada pelo deserto (vs. 16-18). Israel compromete-se a renunciar a outros deuses e a fazer de Jahwéh o seu Deus.
A aceitação de Jahwéh como Deus de Israel é apresentada, não como uma obrigação imposta a um grupo de escravos, mas como uma opção livre, feita por pessoas que fizeram uma experiência de encontro com Deus e que sabem que é aí que está a sua realização e a sua felicidade. Depois de percorrer com Jahwéh os caminhos da história, Israel constatou, sem margem para dúvidas, que só em Deus pode encontrar a liberdade e a vida em plenitude.
ATUALIZAÇÃO
¨ O problema fundamental posto pelo autor do nosso texto é o das opções: “escolhei hoje a quem quereis servir” – diz Josué ao Povo reunido. É uma questão que nunca deixará de nos ser posta… Ao longo da nossa caminhada pela vida, vamos fazendo a experiência do encontro com esse Deus libertador e salvador que Israel descobriu na sua marcha pela história; mas encontramo-nos também, muito frequentemente, com outros deuses e outras propostas que parecem garantir-nos a vida, o êxito, a realização, a felicidade e que, quase sempre, nos conduzem por caminhos de escravidão, de dependência, de desilusão, de infelicidade. A expressão “escolhei hoje a quem quereis servir” interpela-nos acerca da nossa servidão ao dinheiro, ao êxito, à fama, ao poder, à moda, às exigências dos valores que a opinião pública consagrou, ao reconhecimento público… Naturalmente, nem todos os valores do mundo são geradores de escravidão ou incompatíveis com a nossa opção por Deus… Temos, no entanto, que repensar continuamente a nossa vida e as nossas opções, a fim de não corrermos atrás de falsos deuses e de não nos deixarmos seduzir por propostas falsas de realização e de felicidade. O verdadeiro crente sabe que não pode prescindir de Deus e das suas propostas; e sabe que é nesse Deus que nunca desilude aqueles que n’Ele confiam que pode encontrar a sua realização plena.
¨ Israel aceitou “servir o Senhor” e comprometer-se com Ele, não por obrigação, mas pela convicção de que era esse o caminho para a sua felicidade. Por vezes, Deus é visto como um concorrente do homem e os seus mandamentos como uma proposta que limita a liberdade e a independência do homem… Na verdade, o compromisso com Deus e a aceitação das suas propostas não é um caminho de servidão, mas um caminho que conduz o homem à verdadeira liberdade e à sua realização plena. O caminho que Deus nos propõe – caminho que somos livres de aceitar ou não – é um caminho que nos liberta do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência, da escravidão dos bens materiais e que nos projeta para o amor, para a partilha, para o serviço, para o dom da vida, para a verdadeira felicidade.
¨ Josué, o líder da comunidade do Povo de Deus, tem um papel fundamental no sentido de interpelar o Povo e de testemunhar a sua opção por Deus. Não é um líder que diz belas palavras e apresenta belas propostas, mas que desmente com a vida aquilo que diz… É um líder plenamente comprometido com Deus e que testemunha, com a própria vida, essa opção. Josué poderia ser um exemplo para todos aqueles que têm responsabilidades na condução da comunidade do Povo de Deus em marcha pela história. O seu exemplo convida aqueles que presidem à comunidade do Povo de Deus a serem uma voz de Deus que interpela e que questiona aqueles que caminham ao seu lado; e convida também os responsáveis pelas comunidades cristãs a testemunharem com a própria vida aquilo que ensinam ao Povo.
2ª leitura – Ef. 5,21-32 - AMBIENTE
Continuamos a ler a parte moral e parenética da Carta aos Efésios (cf. Ef. 4,1-6,20). Nessa parte, Paulo lembra aos crentes a opção que fizeram no dia do seu batismo e que os obriga a viver como Homens Novos, à imagem de Jesus.
A vida desse Homem Novo que deixou as trevas e escolheu a luz deve traduzir-se em atitudes concretas. Por isso, Paulo enumera, a dado passo da sua reflexão, um conjunto de normas de conduta, através das quais se deve manifestar a opção que o crente assumiu no dia do seu batismo.
Na secção de Ef. 5,21-6,9 (a que o texto que hoje nos é proposto pertence), Paulo apresenta as normas que devem reger as relações familiares. De forma especial, Paulo refere-se aos deveres dos esposos, seguramente porque vê na sua união uma figura da união de Cristo com a sua Igreja. Trata-se de um dos temas mais importantes da teologia desenvolvida na Carta aos Efésios.
MENSAGEM
O nosso texto começa com um princípio geral que deve regular as relações entre os diversos membros da família cristã: “sede submissos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef. 5,21). O “ser submisso” expressa aqui a condição daquele que está permanentemente numa atitude de serviço simples e humilde, sem deixar que a sua relação com o irmão seja dominada pelo orgulho ou marcada por atitudes de prepotência. A expressão “no temor de Cristo” recorda aos crentes que o Cristo do amor, do serviço, da partilha é o exemplo e o modelo que eles devem ter sempre diante dos olhos.
Depois, Paulo dirige-se aos vários membros da família e propõe-lhes normas concretas de conduta. O texto que nos é proposto, contudo, apenas conservou a parte que se refere à relação dos esposos um com o outro (na continuação, Paulo falará também da conduta dos filhos para com os pais, dos pais para com os filhos, dos senhores para com os escravos e dos escravos para com os senhores – cf. Ef. 6,1-9).
Às mulheres, Paulo pede a submissão aos maridos, porque “o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu corpo” (v. 23). Esta afirmação – que, à luz da nossa sensibilidade e dos nossos esquemas mentais modernos parece discriminatória – deve ser entendida no contexto sócio-cultural da época, onde o homem aparece como a referência suprema da organização do núcleo familiar. De qualquer forma, a “submissão” de que Paulo fala deve ser sempre entendida no sentido do amor e do serviço e não no sentido da escravidão.
Aos maridos, Paulo recomenda que amem as suas esposas, “como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela” (vers. 25). Não se trata de um amor qualquer, mas de um amor igual ao de Cristo pela sua comunidade – isto é, de um amor generoso e total, que é capaz de ir até ao dom da própria vida. Para Paulo, portanto, o amor dos maridos pelas esposas deve ser um amor completamente despido de qualquer sinal de egoísmo e de prepotência; e deve ser um amor cheio de solicitude, que se manifesta em atitudes de generosidade, de bondade e de serviço, que se faz dom total à pessoa a quem se ama.
Neste contexto, Paulo desenvolve a sua teologia da relação entre Cristo e a Igreja, para depois tirar daí as devidas consequências para a união dos esposos cristãos… Cristo santificou a Igreja, purificando-a “no batismo da água pela palavra da vida” (v. 26). Há aqui, certamente, uma alusão ao batismo cristão (inspirada, provavelmente, nas cerimônias preparatórias do matrimônio, que contemplavam o “banho” da noiva antes de se apresentar diante do noivo), pelo qual Cristo edifica a sua comunidade e a purifica do pecado. O batismo é o momento em que Cristo oferece a vida plena à sua Igreja e em que a Igreja se compromete com Cristo numa comunidade de amor. A partir desse momento, Cristo e a Igreja formam um só corpo… Como Cristo e a Igreja formam um só corpo, do mesmo modo marido e esposa, comprometidos numa comunidade de amor, formam um só corpo: “por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher e serão dois numa só carne” (v. 31). A expressão “uma só carne” aqui usada por Paulo não alude só à união carnal dos esposos, mas a toda a sua vida conjugal, feita de um empenho quotidiano na vivência do amor, da fidelidade e da partilha de toda a existência.
Este paralelismo estabelecido por Paulo entre a união de Cristo e da Igreja e o amor que une os esposos dá um significado especial ao casamento cristão: a vocação dos esposos é anunciar e testemunhar, com o seu amor e a sua união, o amor de Cristo pela sua Igreja. Dito de outra forma: a união dos esposos cristãos deve ser, aos olhos do mundo, um sinal e um reflexo do “mistério” de amor que une Cristo e a Igreja.
ATUALIZAÇÃO
¨ O compromisso com Jesus e com a proposta de vida nova que Ele veio apresentar mexe com a totalidade da vida do homem e tem consequências em todos os níveis da existência, nomeadamente ao nível da relação familiar. Para o seguidor de Jesus, o espaço da relação familiar tem de ser também o lugar onde se manifestam os valores de Jesus, os valores do Reino. Com a sua partilha de amor, com a sua união, com a sua comunhão de vida, o casal cristão é chamado a ser sinal e reflexo da união de Cristo com a sua Igreja. “Os esposos, feitos à imagem de Deus e estabelecidos numa ordem verdadeiramente pessoal, estejam unidos em comunhão de afeto e de pensamento e com mútua santidade de modo que, seguindo a Cristo, princípio da vida, se tornem, pela fidelidade do seu amor, através das alegrias e sacrifícios da sua vocação, testemunhas daquele mistério de amor que Deus revelou ao mundo com a sua morte e ressurreição” (Gaudium et Spes, 52).
¨ Para Paulo, o amor que une o marido e a esposa deve ser um amor como o de Cristo pela sua Igreja. Desse amor devem, portanto, estar ausentes quaisquer sinais de egoísmo, de prepotência, de exploração, de injustiça… Deve ser um amor que se faz doação total ao outro, que é paciente, que não é arrogante nem orgulhoso, que compreende os erros e as falhas dos outro, que tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (cf. 1Cor. 13,4-7).
¨ Para Paulo, o amor que une a esposa e o marido deve ser um amor que se faz serviço simples e humilde. Não se trata de exigir submissão de um a outro, mas trata-se de pedir que os crentes manifestem total disponibilidade para servir e para dar a vida, sem esperar nada em troca. Trata-se de seguir o exemplo de Cristo que não veio para afirmar a sua superioridade e para ser servido, mas para servir e dar vida. O matrimônio cristão não pode tornar-se uma competição para ver quem tem mais direitos ou mais obrigações, mas uma comunhão de vida de pessoas que, a exemplo de Cristo, fazem da sua existência uma partilha e um serviço a todos os irmãos que caminham ao seu lado.
¨ Paulo utiliza, neste texto, a propósito das mulheres, uma palavra que não devemos absolutizar: “submissão”. Esta palavra deve ser entendida no contexto sócio-cultural da época, em que o marido era considerado a referência fundamental da ordem familiar. É claro que, nos dias de hoje, Paulo não teria usado este termo para falar da relação da esposa com o marido. A afirmação de Paulo não pode servir para fundamentar qualquer tipo de discriminação contra as mulheres… Aliás, Paulo dirá, noutras circunstâncias, que “não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus” (Gl. 3,28).
Evangelho – Jo 6,60-69 - AMBIENTE
Estamos no final do episódio que começou com a multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Jo 6,1-15) e que continuou com o “discurso do pão da vida” (cf. Jo 6,22-59). Trata-se de um episódio atravessado por diversos equívocos e onde se manifesta a perplexidade e a confusão daqueles que escutam as palavras de Jesus… A multidão esperava um messias rei que lhe oferecesse uma vida confortável e pão em abundância e Jesus mostrou que não veio “dar coisas”, mas oferecer-Se a Ele próprio para que a humanidade tivesse vida; a multidão esperava de Jesus uma proposta humana de triunfo e de glória e Jesus convidou-a a identificar-se com Ele e a segui-l’O no caminho do amor e do dom da vida até à morte… Os interlocutores de Jesus perceberam claramente que Jesus os tinha colocado diante de uma opção fundamental: ou continuar a viver numa lógica humana, virada para os bens materiais e para as satisfações mais imediatas, ou o assumir a lógica de Deus, seguindo o exemplo de Jesus e fazendo da vida um dom de amor para ser partilhado. Instalados nos seus esquemas e preconceitos, presos a aspirações e sonhos demasiado materiais, desiludidos com um programa que lhes parecia condenado ao fracasso, os interlocutores de Jesus recusaram-se a identificar-se com Ele e com o seu programa.
O nosso texto mostra-nos a reação negativa de “muitos discípulos” às propostas que Jesus faz. Nem todos os discípulos estão dispostos a identificar-se com Jesus (“comer a sua carne e beber o seu sangue”) e a oferecer a sua vida como dom de amor que deve ser partilhado com toda a humanidade. Temos de situar esta “catequese” no contexto em que vivia a comunidade joânica, nos finais do séc. I… A comunidade cristã era discriminada e perseguida; muitos discípulos afastavam-se e trilhavam outros caminhos, recusando-se a seguir Jesus no caminho do dom da vida. Muitos cristãos, confusos e perplexos, perguntavam: para ser cristão é preciso percorrer um caminho tão radical e de tanta exigência? A proposta de Jesus será, efetivamente, um caminho de vida plena, ou um caminho de fracasso e de morte? É a estas questões que o “catequista” João vai tentar responder.
MENSAGEM
A perícope divide-se em duas partes. A primeira (vs. 60-66) descreve o protesto de um grupo de discípulos face às exigências de Jesus; a segunda (vs. 67-69) apresenta a resposta dos Doze à proposta que Jesus faz. Estes dois grupos (os “muitos discípulos” da primeira parte e os “Doze” da segunda parte) representam duas atitudes distintas face a Jesus e às suas propostas.
Para os “discípulos” de que se fala na primeira parte do nosso texto, a proposta de Jesus é inadmissível, excessiva para a força humana (v. 60). Eles não estão dispostos a renunciar aos seus próprios projetos de ambição e de realização humana, a embarcar com Jesus no caminho do amor e da entrega, a fazer da própria vida um serviço e uma partilha com os irmãos. Esse caminho parece-lhes, além de demasiado exigente, um caminho ilógico. Confrontados com a radicalidade do caminho do Reino, eles não estão dispostos a arriscar.
Na resposta à objeção desses “discípulos”, Jesus assegura-lhes que o caminho que propõe não é um caminho de fracasso e de morte, mas é um caminho destinado à glória e à vida eterna. A “subida” do Filho do Homem, após a morte na cruz, para reentrar no mundo de Deus, será a “prova provada” de que a vida oferecida por amor conduz à vida em plenitude (vs. 61-62). Esses “discípulos” não estão dispostos a acolher a proposta de Jesus porque raciocinam de acordo com uma lógica humana, a lógica da “carne”; só o dom do Espírito possibilitará aos crentes perceber a lógica de Jesus, aderir à sua proposta e seguir Jesus nesse caminho do amor e da doação que conduz à vida (v. 63).
Na realidade, esses discípulos que raciocinam segundo a lógica da “carne” seguem Jesus pelas razões erradas (a glória, o poder, a fácil satisfação das necessidades materiais mais básicas). A sua adesão a Jesus é apenas exterior e superficial. Jesus tem consciência clara dessa realidade. Ele sabe até que um dos “discípulos” O vai trair e entregar nas mãos dos líderes judaicos (v. 64). De qualquer forma, Jesus encara a decisão dos discípulos com tranquilidade e serenidade. Ele não força ninguém; apenas apresenta a sua proposta – proposta radical e exigente – e espera que o “discípulo” faça a sua opção, com toda a liberdade.
Em última análise, a vida nova que Jesus propõe é um dom de Deus, oferecido a todos os homens (v. 65). O termo deste movimento que o Pai convida o “discípulo” a fazer é o encontro com Jesus e a adesão ao seu projeto. Se o homem não está aberto à ação do Pai e recusa os dons de Deus, não pode integrar a comunidade dos discípulos e seguir Jesus.
A primeira parte da cena termina com a retirada de “muitos discípulos” (v. 66). O programa exposto por Jesus, que exige a renúncia às lógicas humanas de ambição e de realização pessoal, é recusado… Esses “discípulos” mostram-se absolutamente indisponíveis para percorrer o caminho de Jesus.
Confirmada a deserção desses “discípulos”, Jesus pede ao grupo mais restrito dos “Doze” que façam a sua escolha: “também vós quereis ir embora?” (v. 67). Repare-se que Jesus não suaviza as suas exigências, nem atenua a dureza das suas palavras… Ele está disposto a correr o risco de ficar sem discípulos, mas não está disposto a prescindir da radicalidade do seu projeto. Não é uma questão de teimosia ou de não querer dar o braço a torcer; mas Jesus está seguro que o caminho que Ele propõe – o caminho do amor, do serviço, da partilha, da entrega – é o único caminho por onde é possível chegar à vida plena… Por isso, Ele não pode mudar uma vírgula ao seu discurso e à sua proposta. O caminho para a vida em plenitude já foi claramente exposto por Jesus; resta agora aos “discípulos” aceitá-lo ou rejeitá-lo.
Confrontados com esta opção fundamental, os “Doze” definem claramente o caminho que querem percorrer: eles aceitam a proposta de Jesus, aceitam segui-l’O no caminho do amor e da entrega. Quem responde em nome do grupo (uso do plural) é Simão Pedro: “Para quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (v. 68). A comunidade reconhece, pela voz de Pedro, que só no caminho proposto por Jesus encontra vida definitiva. Os outros caminhos só geram vida efêmera e parcial e, com frequência, conduzem à escravidão e à morte; só no caminho que Jesus acabou de propor (e que “muitos” recusaram) se encontra a felicidade duradoura e a realização plena do homem (v. 68).
É porque reconhece em Jesus o único caminho válido para chegar à vida eterna que a comunidade dos “Doze” adere ao que Ele propõe (“cremos” – v. 69a). A “fé” (adesão a Jesus) traduz-se no seguimento de Jesus, na identificação com Ele, no compromisso com a proposta que Ele faz (“comer a carne e beber o sangue” que Jesus oferece e que dão a vida eterna).
A resposta posta na boca de Pedro é precisamente a resposta que a comunidade joânica (a tal comunidade que vive a sua fé e o seu compromisso cristão em condições difíceis e que, por vezes, tem dificuldade em renunciar à lógica do mundo e apostar na radicalidade do Evangelho de Jesus) é convidada a dar: “Senhor, as tuas propostas nem sempre fazem sentido à luz dos valores que governam o nosso mundo; mas nós estamos seguros de que o caminho que Tu nos indicas é um caminho que leva à vida eterna. Queremos escutar as tuas palavras, identificar-nos contigo, viver de acordo com os valores que nos propões, percorrer contigo esse caminho do amor e da doação que conduz à vida eterna.
ATUALIZAÇÃO
¨ O Evangelho deste domingo põe claramente a questão das opções que nós, discípulos de Jesus, somos convidados a fazer… Todos os dias somos desafiados pela lógica do mundo, no sentido de alicerçarmos a nossa vida nos valores do poder, do êxito, da ambição, dos bens materiais, da moda, do “politicamente correto”; e todos os dias somos convidados por Jesus a construir a nossa existência sobre os valores do amor, do serviço simples e humilde, da partilha com os irmãos, da simplicidade, da coerência com os valores do Evangelho… É inútil esconder a cabeça na areia: estes dois modelos de existência nem sempre podem coexistir e, frequentemente, excluem-se um ao outro. Temos de fazer a nossa escolha, sabendo que ela terá consequências no nosso estilo de vida, na forma como nos relacionamos com os irmãos, na forma como o mundo nos vê e, naturalmente, na satisfação da nossa fome de felicidade e de vida plena. Não podemos tentar agradar a Deus e ao diabo e viver uma vida “morna” e sem exigências, procurando conciliar o inconciliável. A questão é esta: estamos ou não dispostos a aderir a Jesus e a segui-l’O no caminho do amor e do dom da vida?
¨ Os “muitos discípulos” de que fala o texto que nos é proposto não tiveram a coragem para aceitar a proposta de Jesus. Amarrados aos seus sonhos de riqueza fácil, de ambição, de poder e de glória, não estavam dispostos a trilhar um caminho de doação total de si mesmos em benefício dos irmãos. Este grupo representa esses “discípulos” de Jesus demasiado comprometidos com os valores do mundo, que até podem frequentar a comunidade cristã, mas que no dia a dia vivem obcecados com a ampliação da sua conta bancária, com o êxito profissional a todo o custo, com a pertença à elite que frequenta as festas sociais, com o aplauso da opinião pública… Para estes, as palavras de Jesus “são palavras duras” e a sua proposta de radicalidade é uma proposta inadmissível. Esta categoria de “discípulos” não é tão rara como parece… Em diversos graus, todos nós sentimos, por vezes, a tentação de atenuar a radicalidade da proposta de Jesus e de construir a nossa vida com valores mais condizentes com uma visão “light” da existência. É preciso estarmos continuamente numa atitude de vigilância sobre os valores que nos norteiam, para não corrermos o risco de “virar as costas” à proposta de Jesus.
¨ Os “doze” ficaram com Jesus, pois estavam convictos de que só Ele tem “palavras que comunicam a vida definitiva”. Eles representam aqueles que não se conformam com a banalidade de uma vida construída sobre valores efêmeros e que querem ir mais além; representam aqueles que não estão dispostos a gastar a sua vida em caminhos que só conduzem à insatisfação e à frustração; representam aqueles que não estão dispostos a conduzir a sua vida ao sabor da preguiça, do comodismo, da instalação; representam aqueles que aderem sinceramente a Jesus, se comprometem com o seu projeto, acolhem no coração a vida que Jesus lhes oferece e se esforçam por viver em coerência com a opção por Jesus que fizeram no dia do seu batismo. Atenção: esta opção pelo seguimento de Jesus precisa de ser constantemente renovada e constantemente vigiada, a fim de que o nível da coerência e da exigência se mantenha.
¨ Na cena que o Evangelho de hoje nos traz, Jesus não parece estar tão preocupado com o número de discípulos que continuarão a segui-l’O, quanto com o manter a verdade e a coerência do seu projeto. Ele não faz cedências fáceis para ter êxito e para captar a benevolência e os aplausos das multidões, pois o Reino de Deus não é um concurso de popularidade… Não adianta escamotear a verdade: o Evangelho que Jesus veio propor conduz à vida plena, mas por um caminho que é de radicalidade e de exigência. Muitas vezes tentamos “suavizar” as exigências do Evangelho, a fim de que ele seja mais facilmente aceite pelos homens do nosso tempo… Temos de ter cuidado para não desvirtuarmos a proposta de Jesus e para não despojarmos o Evangelho daquilo que ele tem de verdadeiramente transformador. O que deve preocupar-nos não é tanto o número de pessoas que vão à Igreja; mas é, sobretudo, o grau de radicalidade com que vivemos e testemunhamos no mundo a proposta de Jesus.
¨ Um dos elementos que aparece nitidamente no nosso texto é a serenidade com que Jesus encara o “não” de alguns discípulos ao projeto que Ele veio propor. Diante desse “não”, Jesus não força as coisas, não protesta, não ameaça, mas respeita absolutamente a liberdade de escolha dos seus discípulos. Jesus mostra, neste episódio, o respeito de Deus pelas decisões (mesmo erradas) do homem, pelas dificuldades que o homem sente em comprometer-se, pelos caminhos diferentes que o homem escolhe seguir. O nosso Deus é um Deus que respeita o homem, que o trata como adulto, que aceita que ele exerça o seu direito à liberdade. Por outro lado, um Deus tão compreensivo e tolerante convida-nos a dar mostras de misericórdia, de respeito e de compreensão para com os irmãos que seguem caminhos diferentes, que fazem opções diferentes, que conduzem a sua vida de acordo com valores e critérios diferentes dos nossos. Essa “divergência” de perspectivas e de caminhos não pode, em nenhuma circunstância, afastar-nos do irmão ou servir de pretexto para o marginalizarmos e para o excluirmos do nosso convívio.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho



Seguir Jesus Cristo
I. A primeira leitura da missa (1) relata‑nos o momento em que o Povo de Deus, tendo já atravessado o Jordão, estava a ponto de entrar na Terra Prometida. Josué convocou todas as tribos de Israel em Siquém, e disse‑lhes: Se vos desagrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses, a quem os vossos pais serviram na Mesopotâmia, se aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Quanto a mim e à minha casa, serviremos o Senhor. E o povo respondeu: Longe de nós abandonarmos o Senhor [...], porque ele é o nosso Deus.
No Evangelho da missa (2), Jesus também propõe aos seus discípulos uma decisão sobre quem seguir. Depois do anúncio da Eucaristia na sinagoga de Cafarnaum, muitos discípulos abandonaram o Mestre por lhes terem parecido duras de aceitar as suas palavras sobre o mistério eucarístico. Jesus voltou‑se então para os que o tinham seguido dia após dia, e perguntou‑lhes: Quereis vós também retirar‑vos? E Pedro, em nome de todos, disse‑lhe: Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna; e nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus. Os Apóstolos dizem uma vez mais a Cristo que sim. Que seria deles sem Jesus? Para onde dirigiriam os seus passos? Quem satisfaria as ânsias dos seus corações? A vida sem Cristo, então como agora, não tem sentido.
Nós também dissemos sim, para sempre, a Jesus. Abraçamos a Verdade, a Vida, o Amor. A liberdade que Deus nos outorgou foi por nós dirigida na única direção certa. Naquele dia em que o Senhor pôs os olhos de modo especial em nós, dissemos‑lhe que Ele seria a meta para a qual encaminharíamos os nossos passos; e depois daquele momento, em muitas outras ocasiões, voltamos a dizer‑lhe: Senhor, a quem iríamos? Sem Ti, nada tem sentido.
Hoje é uma boa ocasião para vermos como é a qualidade da nossa entrega ao Senhor, se realmente deixamos de lado com alegria tudo o que nos possa afastar de Deus... “Queres fazer o favor de pensar – eu também faço o meu exame – se manténs imutável e firme a tua opção de vida?; se, ao ouvires essa voz de Deus, amabilíssima, que te estimula à santidade, respondes livremente que sim?” (3) Dizer sim ao Senhor em todas as circunstâncias significa também dizer não a outros caminhos, a outras possibilidades. Ele é o Amigo; só Ele tem palavras de vida eterna.
II. À semelhança daqueles discípulos que reafirmaram a sua plena adesão a Cristo, muitos homens e mulheres de todas as épocas e raças, depois de terem andado talvez por muito tempo na escuridão, um dia encontraram Jesus e viram aberto e sinalizado o caminho que conduzia ao Céu. O mesmo aconteceu conosco; finalmente a nossa liberdade não servia apenas para irmos de um lado para outro sem rumo fixo, mas para caminhar para um objetivo: Cristo! Então compreendemos o caráter surpreendentemente alegre da liberdade que escolhe Jesus e rejeita o que a separa dEle, porque “a liberdade não se basta a si mesma: precisa de um norte, de um roteiro” (4). O norte da nossa liberdade, o que marca constantemente a direção dos nossos passos, é o Senhor, pois sem Ele, a quem iríamos?; em que empregaríamos estes breves dias que Deus nos deu? Existe alguma coisa que valha a pena sem Ele?
Para muitos, infelizmente, a liberdade significa seguir os impulsos ou os instintos, deixar‑se levar pelas paixões ou por aquilo que lhes agrada num dado momento. Na verdade, estes homens – tantos! – esquecem que “a liberdade é certamente um direito humano irrenunciável e basilar, que, no entanto, não se caracteriza pelo poder de escolher o mal, mas pela possibilidade de realizar responsavelmente o bem, reconhecido e desejado como tal” (5). Um homem que tenha um conceito errôneo e pobre da liberdade rejeitará toda a verdade que proponha uma meta válida e obrigatória para todos os homens, porque lhe parecerá um inimigo da sua liberdade (6).
Se escolhemos Cristo, se Ele é o verdadeiro objetivo dos nossos atos, veremos como um bem imenso e uma valiosa orientação tudo o que nos indique o modo de avançarmos ao seu encontro ou nos aponte os obstáculos que nos separam dEle. O viajante que se dirige a uma região desconhecida consulta um mapa, pergunta aos que conhecem o caminho e segue os sinais da estrada, e não o faz a contragosto, mas com todo o interesse, pois deseja chegar ao seu destino. Não se sente de maneira nenhuma diminuído na sua liberdade, nem considera uma humilhação depender dos mapas, sinais e guias para chegar aonde pretende. Se estava inseguro ou começava a sentir‑se perdido, as sinalizações que encontra são para ele motivo de alívio e agradecimento.
Não é verdade que geralmente confiamos mais nos mapas ou nas sinalizações da estrada do que no nosso sentido de orientação? Quando aceitamos esses sinais, não experimentamos nenhuma sensação de imposição; recebemo‑los antes como uma grande ajuda, como um novo conhecimento, que não demoramos a converter em coisa própria.
Ora bem, é o que se passa com os Mandamentos de Deus, com as leis e ensinamentos da Igreja, com os conselhos que recebemos na direção espiritual ou que pedimos numa situação difícil... São sinais que, de maneiras diferentes, garantem a nossa liberdade, a livre escolha que fizemos de seguir Jesus, abandonando outros caminhos que não nos levam aonde queremos ir. “A autoridade da Igreja, nos seus ensinamentos de fé ou de moral, é um serviço. É a sinalização do caminho que leva ao Céu. Merece toda a confiança, porque goza de uma autoridade divina. Não se impõe a ninguém. Simplesmente é oferecida aos homens. E cada um pode, se quiser, apropriar‑se dela, torná‑la sua...” (7)
Não devemos surpreender‑nos se alguma vez esses sinais indicadores de que Deus se serve, nos levam a abandonar caminhos ou avenidas que pareciam mais suaves, para nos conduzirem a outros mais íngremes e difíceis. Ainda que essa escolha possa sofrer os protestos do nosso comodismo, sempre teremos a alegria – também quando sentirmos as asperezas do caminho – de ver que a nossa vida tem um objetivo formidável, escolhido talvez há muito tempo ou há poucas semanas. Vamos em direção ao cume, e ali espera-nos Cristo.
III. As sinalizações que o Senhor nos vai dando devem merecer da nossa parte toda a confiança: são brilhantes pontos de luz que iluminam o caminho para que possamos vê-lo e percorre-lo com segurança. Quem procura corresponder sinceramente às graças de Deus nota que, nesse seguimento de Cristo, encontra a liberdade. Ao escutar as moções divinas, pode ver, finalmente, o caminho iluminado: “Não se sentem os mandamentos como uma imposição vinda de fora, mas como uma exigência nascida de dentro, e à qual, portanto, a pessoa se submete de bom grado, livremente, porque sabe que, desse modo, pode realizar‑se plenamente” (8). E então toma a decisão absolutamente pessoal de aderir a Cristo e assim realizar a plenitude a que todos fomos chamados.
“O homem – ensina o papa João Paulo II – não pode ser autenticamente livre nem promover a verdadeira liberdade se não reconhecer e viver a transcendência do seu ser sobre o mundo e a sua relação com Deus, pois a liberdade é sempre a do homem criado à imagem do seu Criador [...]. Cristo, Redentor do homem, torna-nos livres. Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres, diz o apóstolo são João (8,36). E São Paulo acrescenta: Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade (2Cor. 3,17). Ser libertado da injustiça, do medo, da aflição, do sofrimento, não serviria de nada se se permanecesse escravo no fundo do coração, escravo do pecado. Para ser verdadeiramente livre, o homem deve ser libertado dessa escravidão e transformado numa nova criatura. A liberdade radical do homem situa‑se, pois, num nível mais profundo: o da abertura a Deus pela conversão do coração, já que é no coração do homem que se situam as raízes de toda a sujeição, de toda a violação da liberdade” (9).
Enquanto cada um dos dias em que seguimos o Senhor nos faz experimentar com mais força a alegria da nossa escolha e a expansão da nossa liberdade, vemos ao nosso redor como vivem na escravidão os que um dia voltaram as costas a Deus e não quiseram conhece-lo.
“Escravidão ou filiação divina: eis o dilema da nossa vida. Ou filhos de Deus ou escravos da soberba, da sensualidade, desse egoísmo angustiante em que tantas almas parecem debater-se.
“O Amor de Deus marca o caminho da verdade, da justiça e do bem. Quando nos decidimos a responder ao Senhor: a minha liberdade para Ti, ficamos livres de todas as cadeias que nos haviam atado a coisas sem importância, a preocupações ridículas, a ambições mesquinhas” (10). Ao escolhermos Cristo como fim da nossa vida, acabamos por ganhar tudo.
Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna. Reafirmemos também hoje o nosso seguimento de Cristo, com muito amor, confiantes na sua ajuda cheia de misericórdia; e digamos com plena liberdade: A minha liberdade para Ti. Imitaremos assim Aquela que soube dizer: Eis aqui a escrava do Senhor, faça‑se em mim segundo a tua palavra.
Francisco Fernández-Carvajal



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