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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

22º DOMINGO TEMPO COMUM-B

22º DOMINGO TEMPO COMUM

O SENHOR NOS CONVIDA PARA VIVER NO ARDOR MISSIONÁRIO, COMPROMETIDOS COM A VERDADE DO REINO, VIVENDO UMA FÉ AUTÊNTICA SEM FINGIMENTO, NA DACICALIDADE DE SEU AMOR.

30 de Agosto de 2015
Ano   B

-O QUE DEIXA NOSSA ALMA IMPURA-José Salviano


Evangelho - Mc 7,1-8.14-15.21-23


       Os judeus tinham uma preocupação extrema com relação ao impuro e ao puro.  Porém, essa atitude para a  qual eles diziam que fazia parte da tradição, na verdade se tratava de mais uma das distorções dos ensinamentos de Moisés.  Leia mais


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É DE UM CORAÇÃO PURO QUE BROTAM OS MAIS BELOS GESTOS DE AMOR! -Olívia Coutinho
22º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 30 de Agosto de 2015
Evangelho de Mc 7,1-08.14-15.21-23

 Quantos de nós perdemos a oportunidade de vivenciar  as maravilhas que nos vem de Deus, por estarmos  presos em pormenores, coisas insignificantes que não nos deixa enxergar o belo da vida!
Temos uma  forte  tendência de ficarmos  observando  o outro, pena que esta nossa observância se direciona mais, para  os pontos fracos  das pessoas, o que nos impede  de perceber o que há  de bom  no seu interior!
  Devido a esse nosso olhar malicioso, vamos perdendo a capacidade de ver além das aparências, de ter uma percepção profunda dos fatos, das pessoas, um sinal de  que não ainda não aprendemos a ter um olhar de contemplação, um olhar que vai além do que os  olhos físicos  alcançam, que nos faz enxergar a pessoa na sua essência.
Enquanto estamos nos ocupando em  buscar o negativo do outro, deixamos  de cuidar do nosso  interior, de sermos criteriosos nas nossas escolhas e assim vamos  dando espaço  para o mal.
O evangelho de hoje, narra um encontro dos  fariseus e alguns  mestres da lei, com Jesus.  Eles, haviam vindo  de Jerusalém com um único objetivo: confrontar Jesus.  Infiltrados no meio da multidão, eles disfarçavam de simpatizantes  de Jesus  para investiga-lo, saber qual  o tipo de ensinamento Ele estava  passando como formação para  os seus discípulos, se Ele estava  incitando  o povo a  não observância das Leis. Havia chegado  ao conhecimento deles, de que os ensinamentos de Jesus, não enquadravam  com os padrões religiosos da época e que as suas orientações poderiam  romper com o sistema religioso já estabelecido por eles!
Para os fariseus e mestres da lei, religião, era observar  as tradições antigas, cumprir preceitos, normas, rituais, que nada  acrescentava ao ser humano como lavar as mãos antes de comer, quando chegar da rua não comer sem tomar banho, a maneira certa de lavar copos, jarras, vasilhas...Eles observavam rigorosamente estes preceitos, mas deixavam o principal, não viviam o amor, não agiam com misericórdia, suas atitudes era totalmente contrária a vida.
Atrás de uma aparente pureza  eles escondiam a dureza dos seus corações!
O texto nos leva a um questionamento a respeito da nossa fé e da nossa vivencia do dia a dia: Estamos  sendo coerentes entre o que falamos e o que vivemos?
É importante lembrarmos:  Deus não nos olha externamente, para Ele não importa a nossa cor, nossa posição social, a nossa cultura e nem mesmo  a nossa religião, para Deus, o que importa  é  o que cultivamos de bom no nosso interior, ou seja: a pureza do coração, pois é do coração puro, que brotam os mais belos   gestos de amor!
De nada adianta nossos atos externos se eles  não retratam o que somos interiormente! Aos olhos de Deus, a prática exterior, só tem sentido, se for uma expressão do que realmente cremos e vivemos, do contrário, são práticas vazias, que nada significam pois mostram  o que na verdade não somos.
O que verdadeiramente agrada a Deus é um coração puro,  livre das maldades, das ambições. 
O que nos distingue como seguidores de Jesus, não são as nossas palavras e sim, a nossa vivencia no amor!
Deixemo-nos inundar pelo o amor de Jesus,  um amor que liberta, que inclui, que nos  torna sinal da sua presença no mundo.

 FIQUE NA PAZ DE JESUS – Olívia Coutinho
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EPÍSTOLA (Tg. 1,17-18.21b,22-27)
Chamados como primícias da palavra, não devemos unicamente contentar-nos em ouvi-la. Ela deve ser a razão da nossa conduta, para não sermos mera especulação como homens que se olham no espelho, e imediatamente esquecem qual foi sua figura. Pois a religião verdadeira é aquela que cuida dos necessitados e se vê livre das atrações e tentações do mundo.

DEUS AUTOR DE TODO BEM. Toda dádiva boa e todo dom perfeito é do alto descendendo do Pai das luzes para o qual não há  mudança nem sombra de variação (17).
DÁDIVA como em Fp 4, 15: Nenhuma igreja comunicou comigo com respeito a dar e a receber, senão vós somente.
DOM: em ambos os casos o adjetivo indica bondade - agathë [boa] e teleion [perfeito]- que unicamente tem como causa eficiente o Pai. Por isso, fala de que a sua procedência é do alto, onde se entendia estava a divindade.
Do PAI DAS LUZES Deus é luz, pois esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas (1Jo 1,5). Deus é o autor das luzes, das corporais como o sol, a lua, as estrelas já que no Gênesis criou a luz (Gn. 1,3), mas também das constelações do dia e da noite  (idem 14) e das estrelas  (idem 16) de modo que a ausência divina são as trevas, não unicamente materiais, mas também do espírito; luz que os homens rejeitaram porque amaram mais as trevas (Jo 3,19). Sempre que aparece, é visto rodeado de luz como na nuvem do Tabor (Mt. 17,5), ou as vestes de seus anjos ou mensageiros (Lc. 24,4). Sendo plena luz, Tiago pode afirmar que nEle, Deus, não há variação ou sombra de intensidade. Os astros, o sol e especialmente a lua estavam sujeitos às variações de luz. Eram criaturas com os defeitos da imperfeição e caducidade que acompanham as mesmas.

CRIAÇÃO DO HOMEM. Voluntariamente nos criou com palavra de verdade para sermos princípio de qualquer das suas criaturas (18).
VOLUNTARIAMENTE: em Lc 22,42 encontramos o mesmo verbo com o significado de querer: ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. De modo que podemos traduzir: unicamente pelo seu bem querer nos criou, COM PALAVRA DE VERDADE: seguramente aqui Tiago recorda o Gênesis em que a criação toda começou a existir pela palavra: e disse Deus. Palavra que o apóstolo chama de Verdade porque corresponde à vontade de Deus que sempre tem como finalidade uma determinada ação e não um desejo inacabado.
PRINCÍPIO: o latim pode confundir, pois initium refere-se principalmente ao tempo e aqui está considerando a criação do primeiro homem e esse aparchë, cujo significado era o de ser os primeiros frutos a serem consagrados e oferecidos em ação de graças; mas também primeiro como principal. Assim,  Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem (1Cor. 15, 20). Unindo ambas interpretações, podemos pensar que o homem é dentre as criaturas a principal e que deve ser como essência e remate da criação consagrada ao seu Criador.

A NOVA PALAVRA: recebei a implantada palavra poderosa para salvar vossas vidas (21).
Na leitura epistolar são suprimidos dois versículos e meio, que vamos incluir aqui como parêntesis (sabeis estas coisas meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar [19]. Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus [20]. Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade [21ª]). É uma explicação do versículo anterior em que a palavra ficava um tanto indecisa. Como palavra de Verdade não pode ser a palavra humana que geralmente é palavra de ira, mas palavra divina IMPLANTADA  que é um apax e que significa implantar, ou seja, como semeada divinamente por usar a passiva. Palavra que é PODEROSA para a salvação. Evidentemente essa palavra é a de Jesus, LOGOS [= palavra] do Pai, Filho Unigênito em cujo sacrifício estava a redenção e cuja carne e sangue eram a comida e bebida da vida. Nisso estava a salvação.

PRÁTICA DA PALAVRA. Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não só auditores que se iludem a si mesmos(22).
Mas parece que, aqui, é a palavra como saída da boca de Jesus, como anúncio do Reino a que interessa ao nosso autor.
PRATICANTES: poiëtës é aquele que atua, que opera ou faz. A frase relembra a paulina de Rm. 2,13: Os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. Quem foi primeiro, Paulo ou Tiago a usar a mesma frase? Autores modernos datam esta epístola como o primeiro escrito do Novo Testamento redatado cerca do ano 47, anterior ao Concílio de Jerusalém. Logo Paulo o conhecia e repetiu a frase em seu escrito aos romanos. Porém, ambos os escritos refletem a palavra de Jesus: Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus (Mt. 7,21).

EXEMPLO. Porque se alguém é ouvidor da palavra e não a pratica  este se assemelha a um homem considerando o rosto de seu nascimento em (o) espelho (23). Porque contempla a si mesmo e se retirou e, de imediato, se esqueceu como era (24).
Com um exemplo Tiago ilustra a diferença entre o cumpridor da palavra e o simples ouvinte da mesma: este último é como um homem que se olha no espelho e que logo se esquece do rosto que nele se refletiu. Logicamente o espelho é a palavra que compara a vida e costumes do ouvinte com a Lei nova de Cristo. Se o ouvinte nada faz é como se esquecesse o que ouviu e nada tivesse acontecido.

O QUE REALIZA A PALAVRA.  Mas quem olha para a Lei perfeita da liberdade e permanece, esse não auditor esquecido se tornado, mas fazedor de obra, este bendito em sua obra será (25).
A imagem do espelho é substituída pela realidade da LEI PERFFEITA DA LIBERDADE: segundo Tiago, não devem os cristãos se queixar [no sentido de levar a juízo?] uns contra os outros, para não serem condenados, pois o juiz está perto (Tg. 5,9). Desta frase deduzimos que a carta foi escrita antes da destruição de Jerusalém, pois fala do ser julgado que em sentido bíblico indica condenar que o juiz [kritës] realizará como castigo. E em 2,12 o mesmo apóstolo fala como devendo ser julgados pela lei da liberdade. Segundo Paulo, os cristãos foram chamados à liberdade (Gl. 5,13 ) de modo que a consciência de cada um não deve ser julgada pela consciência do outro (1Cor. 10,29). Liberdade que, segundo Pedro, não deve ser usada como pretexto de malícia [para fazer o mal], mas vivendo como servos de Deus (1Pd. 2,16). Disso tudo deduzimos que as leis dos homens, de vossa tradição (M. 13,52) segundo Jesus, não devem ter valor e delas estamos livres pela nova Lei do NT que Tiago diz ser perfeita e que Jesus resume em amar a Deus com toda a alma e ao próximo como a si mesmo (Mt. 22,37), que em João terá como modelo o próprio amor de Cristo (13,34).
A LÍNGUA COMO PROVA. Se alguém pensa ser religioso, entre vós, não dominando sua língua, engana seu coração, sua religião é vã (26).
Neste ponto, Tiago volta a sua preferente moral que é o domínio da língua. Esta é a cara externa da personalidade de modo que reflete o interior do homem. Como dizia Jesus é do interior que o mal contamina (Mc. 7,20).
ENGANA particípio de presente do verbo apataö, enganar, iludir. Se, pois, alguém pensa ser religioso deve dominar sua língua; pois de outro modo esse tal está enganado. Tiago fala do CORAÇÃO que era em tempos de Jesus a origem dos pensamentos e desejos onde não cabiam os alimentos, que iam para o ventre  e, portanto, não podiam impurificá-lo (Mc. 7,19). O que, pois, não domina sua língua é um religioso de religião falsa. Por isso relata na continuação as características da verdadeira religião.

VERADADEIRA RELIGIÃO. Religião limpa e sem mácula para Deus e Pai é esta: visitar órfãos e viúvas na sua aflição, manter-se incólume do mundo (27).
Antes de mais nada, quem deve julgar sobre a verdade de uma religião é Deus, o Pai. E esta tem como distintivo a caridade: visitar órfãos e viúvas, como diz Isaías que parece serem os seres de cuidados especiais do Senhor, que em Dt. 27, 19 afirma: Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva. E todo o povo dirá: Amém. Mas além dessa positividade existe um negativo que não pode ser esquecido: manter-se incólume do mundo. A impureza dos alimentos que só podia atingir o ventre está no NT substituída pela abstenção dos pensamentos e prazeres do mundo. Sabemos que os fariseus tinham como preceitos principais o jejum e os dízimos (Lc. 18,12), e como prêmio de suas orações, a riqueza que certamente contraria  o espírito evangélico como orgulho farisaico que se tornava desprezo dos ham haaretz [povo humilde da terra].

EVANGELHO (Mc 7,1-8; 14-15; 21-23)
LAVAÇÃO COMO PURIFICAÇÃO. E reuniram-se junto a Ele [Jesus] os fariseus e alguns dos escribas vindos de Jerusalém (1). E tendo visto alguns dos discípulos dEle com mãos comuns comendo pães comuns, isto é, sem lavar, censuraram (2). Porque os fariseus e todos os judeus se não lavam até o punho as mãos não comem, conservando a tradição dos anciãos (3).  E depois da praça, se não tomam banho, não comem e outras muitas são as que granjearam guardar: lavados de copos e jarros e chaleiras e leitos (4).
Os fariseus eram em número de 20 mil e estavam espalhados por toda a Palestina. Já os escribas ou doutores da lei, tinham sua morada principal em Jerusalém. A fama de Jesus e sua rebeldia contra certos preceitos da Lei como o sábado, o tornavam alvo de uma perseguição inquisitorial. Desta vez o objeto de suas intrigas foram os discípulos. COM MÃOS COMUNS. É uma maneira de dizer que não lavavam as mãos. Havia dois momentos em que todo judeu autêntico devia lavar o corpo ou parte do mesmo:
1) Antes de uma refeição, especialmente de pão;
2) Após voltar das ruas da cidade, em cujo caso era necessário tomar um banho. À parte existia o preceito de lavar todos os vasos e recipientes usados na comida e bebida. Eles eram submergidos em água, fria ou quente, dependendo do uso. Para isso existiam, nas casas, recipientes de água de aproximadamente 40 lt. de capacidade cada um, as talhas de pedra, como vemos em Jo 2,6. Segundo lemos em autores judeus da época, era necessário lavar as mãos até o cotovelo (batismo como diz Marcos), se a comida era de um sacrifício, ou se partilhava a refeição com um homem idoso; ou se se tratava de pão. E somente os dedos, se a comida era comum. Os escribas afirmavam que se as mãos eram impuras todo o corpo se tornava impuro. Aquele – dizia Rabi Eleazar- que despreza o lavado das mãos devia ser desenraizado da terra, porque na lavação está o segredo do decálogo. Quem deve ser considerado como um plebeu ou povo ruim? Aquele que não come com limpeza ou pureza legal. Por isso se distingue um judeu de um gentio, na lavagem das mãos. No caso particular de comer o pão (era o nosso pão sírio) sem lavar as mãos, era como se deitar com uma mulher da vida, afirmava Rabi Josef. Os discípulos de Jesus iniciaram sua refeição que era basicamente uma comida consistente em pão de cevada, em forma de um disco de 12 cm. de diâmetro e de uma espessura como de um dedo, sem lavar as mãos e talvez sem a bênção de ação de graças. Temos visto o que se pensava em círculos cultos e tradicionais sobre o assunto. A tradição dos antigos, especialmente dos dois chefes das escolas mais famosas da época, Hillel e Shammai, era muita estrita. Rabi Ishmael declarava: “As palavras da lei são palavras que contém tanto proibições como permissões, algumas delas leves, outras graves. Mas as palavras dos escribas todas são graves. As palavras dos escribas são mais pesadas que as dos profetas”. Por isso existia o seguinte conselho: “Aquele que transgride as palavras dos escribas é réu de morte”. Especialmente para comer o pão era necessário lavar as mãos porque o pão era considerado coisa sagrada, já que o pão representava toda comida. Por exemplo, para comer frutas não era necessário o lavado das mãos. Hillel e Shammai foram os que restabeleceram a tradição. Por isso clamavam: “Aquele que abençoa o pão com mãos impuras é réu de morte”. E para ameaçar os espíritos pusilânimes falavam de Shibta, uma sorte de mau espírito, que se assentava nas mãos e na cabeça do transgressor. Rabi Aquiba estava na prisão e preferiu antes morrer que comer sem lavar as mãos e por isso usou o pouco de água que ele tinha para lavar suas mãos antes de beber da mesma. Com estas citações vemos como era importante a matéria que Marcos descreve e que Jesus de modo tão eficiente soluciona.
O BATISMO. No versículo 4 fala Marcos de batismo do corpo e dos diversos recipientes. Parece uma exageração, mas na realidade o evangelista só expressa o que era de uso na época. Temos falado do banho corporal após vir das ruas. Mas os diversos recipientes também eram submergidos na água para se purificar. Marcos fala de diversos vasilhames como copos, sextários (= recipientes de 5 litros para vinho e água), vasilhas de bronze, e leitos. Os recipientes de cobre são especialmente nomeados porque se fossem de argila, eram destruídos uma vez tornados impuros. Um exemplo: pratos eram lavados antes do café da manhã, logo antes da refeição do meio-dia e logo antes da ceia noturna. O lavado era uma imersão (batismo) em água. Parece uma exageração o lavado dos reclinatórios nos quais os judeus se recostavam para os banquetes. Mas é uma realidade histórica. Em primeiro lugar todo recipiente comprado de um gentil devia ser submergido para tirar dele a contaminação. As mesas e as camas de madeira também eram incluídas nessa purificação. Especialmente as camas se o dormente morria nela, ou uma mulher menstruada ou um homem com blenorragia deitava nela, ou ainda se tivesse sido a cama de uma parturiente. O sangue derramado tornava impuro o leito. Até os travesseiros, se tinham capa de couro, comum na época, deviam ser purificados submergindo-os em água. A descrição do evangelista é, pois, exata mais do que correta.
A PERGUNTA. Então o interrogam os fariseus e os escribas: por que os teus discípulos não andam segundo a tradição dos anciãos, mas com mãos sem lavar comem o pão? (5)
Visto o que temos relatado, o escândalo farisaico era monumental. Como não perguntar ao Mestre, responsável pela educação e moral dos discípulos?

A RESPOSTA DE JESUS. Ele, pois, tendo respondido lhes disse: que bem profetizou Isaías sobre vós, os hipócritas, como está escrito: Este povo com os lábios me honra, mas o seu coração longe está de mim (6). Em vão, pois, me adoram ensinando ensinamentos prescrevidos pelos homens (7). Porque negligenciando o mandato do Deus, guardais a tradição dos homens: as lavagens de cântaros, e copos e outras muitas similares [vasilhas] fazeis (8).
Jesus distingue perfeitamente entre mandatos de Deus e preceitos dos homens. Por isso Jesus se queixa como se queixa de seu tempo Isaías, de que os seus conterrâneos honram a  Deus com os lábios, mas seus corações estão longe dEle. E como argumento principal cita o que está escrito em Isaías 29,13: “O Senhor disse: Visto que este povo se aproxima de mim e com sua boca e com seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu…”. A citação servia como anel no dedo, nas circunstâncias.
ADVERTÊNCIA AO POVO: E chamando todo o povo lhes dizia: Escutai-me todos e entendei (14). Nada há fora do homem que entrando dentro dele pode contaminá-lo; mas as procedentes dele, essas  [coisas] são as que contaminam o homem (15). Et advocans iterum turbam dicebat illis audite me omnes et intellegite. Nihil est extra hominem introiens in eum quod possit eum coinquinare sed quae de homine procedunt illa sunt quae communicant hominem.

O INTERIOR DO HOMEM. Porque de dentro do coração dos homens os pensamentos, os malignos, surgem: adultérios, fornicações, homicídios (21). Furtos, avarezas, maldades, engano, licenciosidade, olho maldoso, blasfêmia, soberba, insensatez (22).
Na leitura da epístola faltam os versículos 16-20. Neles Jesus explica aos discípulos por que o que entra do exterior não pode contaminar o homem: porque entra via digestiva e passa pelo ventre sem que tenha contato algum com o coração, órgão do sentimento e da inteligência. É dentro desse coração que as coisas se contaminam, pois é onde surgem os PENSAMENTOS os que são MALIGNOS [kakoi<2556>=malae] e além disso, Jesus cita outras maldades frequentes entre os homens: ADULTÉRIOS, FORNICAÇÕES, HOMICÍDIOS, FURTOS, AVAREZAS, ENGANO, LICENCIOSIDADE ou lascívia, OLHO MAU que traduzem por inveja, BLASFÊMIA, SOBERBA, INSENSATEZ. A enumeração dos vícios e maldades é quase exaustiva.

OS CONTAMINANTES VERDADEIROS. Todas estas coisas más de dentro surgem e contaminam o homem (23).
Esta é a conclusão verdadeira que remata o razoamento de  Jesus: o que provém de fora não contamina o homem; mas é de dentro que aceitando e animando sentimentos malignos o homem se torna efeito e causa do mal. Se a repreensão anterior era dirigida aos fariseus, agora Jesus se dirige ao povo: Escutai todos e entendei. Era uma lição magistral que Jesus exige ser bem assimilada. Nada de fora pode contaminar, ou tornar impuro um homem, entrando nele. Mas o que sai de dentro do mesmo, é o que o suja e envilece. Com isto Jesus declara nulas todas as leis de impureza ao mesmo tempo em que afirma que a impureza nada tem a ver com o pecado. A impureza  não afasta o homem de Deus como o pecado, pois este consiste em não cumprir as leis divinas. E Jesus enumera uma série de instintos internos, fontes de pecado que dão origem aos mesmos e que se realizados tornam o homem profano e vil perante Deus. Temos traduzido da melhor maneira possível, tendo em conta diversos textos, cuja origem é o grego e do qual pretendem ser traduzidas. São, pois, estas tendências más as seguintes: fornicações, roubos, homicídios, adultérios, cobiça (avareza), degradação (maldade, perversidade), fraude (engano), lascívia (desenfreamento), inveja (olho mau), blasfêmia, orgulho (arrogância), insensatez (estupidez). Tudo isso é que torna um homem contaminado, profano com respeito a Deus, que é sagrado por excelência.
padre Ignácio




Valorizando o interior do homem
“É do interior dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez” (Mc. 7,21-22). Como é importante, portanto, purificar o coração. Caso não cuidemos o nosso coração, ele poderia endurecer e Jesus nos diria, com razão, que nós pensamos diferente dele “devido à dureza do vosso coração” (Mc 10,5). A tradição cristã sempre gostou de resumir a atitude que devemos ter para com o Espírito Santo numa só palavra: docilidade! Um coração dócil sempre recebe com alegria a mensagem de Jesus e de sua Igreja, produzindo frutos abundantes.
Já no Antigo Testamento, o Espírito Santo havia dito por boca do salmista: “Não endureçais o vosso coração” (Sl. 94,8). Poderia acontecer também que tivéssemos – em lugar de um coração endurecido – um coração mole. Quanto se diz que uma pessoa é toda coração ou que ela é “boazinha” demais, no fundo o que se quer dizer é que essa pessoa tem um caráter débil ou, com outras palavras, é uma pessoa sem caráter. O cristão foge destes dois extremos: coração endurecido, coração molenga.
Há pessoas que se dizem a favor do divórcio porque “já é normal, ninguém liga mais para isso”, outras dizem que são a favor das relações pré-matrimoniais porque “já é normal, todo mundo faz”; outras ainda são a favor do aborto porque “já é normal, estamos num mundo moderno”, outras se dizem a favor da legalização dos “casamentos” de pessoas do mesmo sexo porque “já é normal, os países modernos já não põem barreiras” etc. Estes são alguns exemplos ou da falta de conhecimento ou do endurecimento do coração.
Jesus continua a recordar-nos que “no começo não foi assim” (Mt. 19,8), isto é, no plano originário de Deus não foi assim, não é assim e não pode ser assim!
Frequentemente, antes desse estado de endurecimento do coração encontra-se uma disposição que provém da falta de ideias claras e de critérios retos. Daí a importância da formação do coração. A Igreja Católica quer formar; ela não quer impor nada a ninguém, o que ela faz é propor a verdade… Aceita quem quer! Contudo, está em jogo a própria felicidade terrena e eterna. Você decide!
O coração humano tem que formar-se no Coração de Cristo. Nós, cristãos, precisamos mostrar aos nossos contemporâneos o Homem perfeito e Deus perfeito, Jesus Cristo. Não mostraremos uma caricatura de “deus”: o cristianismo sempre apresentou o “Cristo crucificado (…), força de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor. 1,23-24).
Um coração dócil – sinônimo de pessoa dócil – é aquele que se encontra aberto à verdade, ao bem, à beleza. Encontra-se aberto, portanto, a Deus: verdade, bondade e beleza eterna. Essa abertura verdadeira a Deus nos pedirá uma mudança, uma conversão constante. No caso do cristão, é necessário que o seu coração esteja crucificado com Cristo para com ele ressuscitar. Para viver na verdade de Deus é importante que adaptemos nossa vida à sua verdade, posto que o contrário não acontece: Deus não pode mudar a sua verdade, que é ele mesmo, por causa da nossa mentira. Deus não se engana nem nos engana!
Peçamos a Nossa Senhora, Virgem fiel, que nos faça sinceros, dóceis, alegres e cheios de paz. Desta maneira passaremos por esse mundo mostrando as rosas maravilhosas que tem o cristianismo, ainda que sintamos os espinhos das mesmas penetrando a nossa carne. Cristianismo sem cruz é ilusão, não existe!
Vinde Espírito Santo e fazei que apreciemos retamente todas as coisas!
O Evangelho: nem moderno demais, nem velho demais; simplesmente perene!
padre Françoá Costa




O que mancha o homem
O Evangelho mostra quando os fariseus e alguns mestres da Lei se reuniram em torno de Jesus e lhe perguntaram por que os discípulos não seguiam a tradição dos antigos, mas comiam o pão sem lavar as mãos. Jesus, citando Isaías, lhes respondeu que eles eram um povo que O honrava com os lábios, mas seu coração estava longe dele. De nada adianta o culto que prestavam, pois as doutrinas que ensinavam eram preceitos humanos. E concluiu, dizendo que eles tinham abandonado o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens.
E, disse Jesus, que o que torna impuro o homem não é o que entra nele, vindo de fora, mas o que sai de seu interior. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, etc.
Deus olha o interior das pessoas e não as práticas exteriores e formais.
É hipocrisia lavar escrupulosamente as mãos ou dar importância a qualquer outra exterioridade, se o coração estiver cheio de vícios.
As ações do homem procedem do coração. E se este está manchado, o homem inteiro fica manchado.
Jesus rejeita a mentalidade que se ocultava por trás daquelas prescrições desprovidas de conteúdo interior, e ensina-nos a amar a pureza de coração, que nos permitirá ver a Deus no meio das nossas tarefas.
“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8).
A pureza de alma – castidade e retidão interior nos afetos e sentimentos- tem que ser plenamente amada e procurada com alegria e com empenho, apoiando-nos sempre na graça de Deus. Só pode ser alcançada mediante uma luta positiva e constante, prolongada ao longo de uma vida que se mantém vigilante pelo exame de consciência diário; também fruto de um grande amor à Confissão frequente bem feita, mediante a qual o Senhor nos purifica e nos “lava” o coração, cumulando-nos da sua graça.
Com a ajuda da graça, é tarefa de todos os cristãos mostrar, com uma vida limpa e com a palavra, que a castidade é uma virtude essencial a todos – homens e mulheres, jovens e adultos-, e que cada um deve vivê-la de acordo com as exigências do estado a que o Senhor o chamou; “é exigência de amor. É a dimensão da sua verdade interior no coração do homem, e sem ela não seria possível amar nem a Deus nem aos outros” (beato João Paulo II).
Essa pureza cristã, a castidade, sempre constituiu uma das glórias da Igreja e uma das manifestações mais claras da sua santidade. Hoje, como nos tempos dos primeiros cristãos, muitos homens e mulheres procuram viver a virgindade e o celibato no meio do mundo – sem serem mundanos -, por amor do Reino dos Céus (Mt. 19,12). E uma grande multidão de esposos cristãos vivem santamente a castidade segundo o seu estado matrimonial. Como ensina a Igreja: “tanto o matrimônio como a virgindade e o celibato são dois modos de expressar e de viver o único mistério da Aliança de Deus com o seu povo” (Familiaris Consortio, 16).
Façamos como oração, como jaculatória, a prece que a liturgia dirige ao Espírito Santo, na festa de Pentecostes: “Limpa na minha alma o que está sujo, rega o que se tornou árido, sem fruto, cura o que está doente,dobra o que é rígido, aquece o que está frio, dirige o que se extraviou.”
Sozinhos nós não somos capazes de purificar nosso coração das intenções más e de nos abrirmos de modo justo à novidade do Espírito: devemos confiar-nos, para tanto, à força redentora de Cristo que se torna operante em nós, na Eucaristia… Graças à eucaristia, podemos dizer com ainda maior razão aquilo que dizia Moisés: “Qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos, como o Senhor nosso Deus?” (Dt. 4,7).
No mês da Bíblia, intensifiquemos a leitura, a meditação, da Palavra de Deus! Possamos acolhê-La e colocá-La em prática! Ensina São Tiago: “Sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg. 1,22).
Como ensinava S. Francisco de Assis: “O homem vale o que é diante de Deus e nada mais.” Jesus desloca todo o sentido da  lei do exterior para o interior, da boca para o coração, de “fora” do homem para “dentro” do homem, como diz retomando uma expressão de Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim…” (Mc. 7,6).
A quem dirige Jesus todas essas observações? Somente aos fariseus de seu tempo? Não! Diz-nos Jesus: “Escutai, TODOS, e compreendei…” (Mc. 7,14).
mons. José Maria Pereira



É bom celebrar o encontro com o Deus da vida, do amor e da sabedoria. Ele está atento a todos os homens e mulheres que sofrem no seu corpo ou no seu espírito. Ele é o Deus do amor, da beleza e da dignidade.
A palavra de Deus convida-nos a saber escutar, a observar, a pôr em prática.
Cristo convida-nos à beleza interior, ao acolhimento sincero e coerente da novidade do seu projeto.
Ao termos consciência deste encontro de amor, santidade e vida, que o Espírito Santo, penetre o coração e a inteligência, libertando de toda a hipocrisia, vaidade e soberba. E nos conceda: olhar como Deus olha, ouvir como Deus ouve, falar como Deus fala e amar como Deus ama.
Primeira leitura: Deuteronômio 4,1-2.6-8
A leitura é tirada da parte final do 1º discurso de Moisés; tem o aspecto duma espécie de introdução ao corpo legislativo central do Deuteronômio, num vivo apelo à observância da Lei.
7-8 «Qual é a grande nação…?» A superioridade de Israel sobre as grandes nações não reside no poderio militar, no valor e cultura do seu povo. Ele é incomparavelmente superior a todos os povos pelas relações tão estreitas com a divindade, pela elevadíssima noção que tem dum Deus único e transcendente, misericordioso e providente e, por outro lado, pela elevação da sua moral, das suas «leis e preceitos» (v. 1). Mas tudo isto – um poderoso motivo de credibilidade da sobrenaturalidade da sua religião – de nada aproveita se o povo não cumprir (v. 6) aqueles mesmos mandamentos que o tornam grande no meio dos outros povos.
Segunda leitura: Tiago 1,17-18.21b-22.27
Começamos hoje, durante 5 domingos, a fazer uma leitura respigada da Epístola de são Tiago. Como escrito tipicamente moral e didático que é, não obedece a um plano doutrinal previamente elaborado, sucedendo-se os temas ao correr da pena, sempre com a preocupação dominante de fazer um forte apelo a que os fiéis vivam o espírito cristão em todas as circunstâncias, de um modo coerente com a fé, em perfeita unidade de vida: o comportamento dos cristãos tem de ser um reflexo da sua fé.
17. «Pai das luzes» pode querer dizer, Pai dos astros (luminares: cf. Sl. 136,7-9); estes mudam de posição e de luminosidade, em contraste com o seu Criador, «no qual não há variação nem sombra de mudança».
18. «Nos gerou (cf. Jo 1,12-13; 3,3; 1Pe. 1,23; Tt. 3,5; 1Jo 3,9; 4,7; 5,1.4.18) pela palavra da verdade», isto é, pelo anúncio do Evangelho (cf. Ef. 1,13; 2Cor. 6,7; 2Tm. 2,15); para sermos primícias das suas criaturas: assim como os primeiros frutos da terra pertenciam a Deus (cf.Ex. 22,28-29; Lv. 23,10-14; Nm. 15,20-21; Dt. 18,4), assim também os cristãos, como início da humanidade renovada (cf. Ap. 14,4; 21,1; Rm. 8,19-23).
19-27 Nestes versículos, de que a leitura litúrgica extrai apenas uma pequena amostra, enumeram-se exigências para que a Palavra produza todo o seu fruto, com uma provável alusão à parábola do semeador (v. 21b: «a palavra em vós plantada» – cf. Mt. 13,4-30 par). Trata-se de viver numa absoluta coerência com a nova condição de filhos de Deus (v. 18) e com o Evangelho, o ponto fulcral da exortação que constitui este escrito: «sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes» (v. 22).
27 «A religião pura…» As obras de misericórdia fazem parte da essência da vida cristã (cf. Mt. 25,31-46; 1Tm. 5,3-8).
Evangelho: Marcos 7,1-8a.14-15.21-23
O texto evangélico não visa simplesmente dar a notícia de uma controvérsia, descrevendo o modo como Jesus se desenvencilhou da situação, ou relatar a oposição e conflito que começava a esboçar-se com as autoridades judaicas; aqueles «fariseus e alguns escribas, que tinham vindo de Jerusalém», viriam mandatados pelo Sinédrio. A intenção que preside ao relato é pôr em evidência o ensino de Jesus acerca da verdadeira pureza, do valor relativo das leis e tradições humanas e de como o elemento mais decisivo para a configuração moral do agir humano é a interioridade da pessoa, dando assim um golpe mortal no mero formalismo exterior.
1-13 Estes vv. referem a controvérsia a propósito de os discípulos de Jesus comerem sem lavar as mãos: é que estava a ser posta em causa a tradição dos antigos. São Marcos explica brevemente os preceitos judaicos relativos a purificações (vv. 3-4), pois escreve para cristãos que na maioria não são de origem judaica. Note-se que estes preceitos não constam de parte nenhuma do A. T.; a «tradição dos antigos» (v. 5), à letra, «dos mais velhos» (um título honorífico para célebres doutores da lei), pertencia à chamada «Lei oral», que os escribas, para imporem novas prescrições, faziam crer que fora revelada por Deus a Moisés, tão obrigatórias como a Lei escrita do A. T. e que só vieram a ser compiladas por escrito na Mixná (repetição), por fins do séc. II p. C. A 6ª ordem desta obra, dividida em 12 tratados, era toda ela dedicada às purificações. A generalidade do povo não fazia caso da purificação das mãos antes de comer, pois considerava que esta só obrigava os sacerdotes no exercício do culto (cf. Ex. 30,17-21). Jesus, com a citação de Is 29, 13, não só denuncia um culto sem alma, feito de exterioridades ocas e vazias, mas também censura abandono da lei de Deus em troca do zelo por preceitos humanos (v. 8; a leitura suprimiu as especificações dos vv. 9-13).
14-15 Nesta secção, só indiretamente ligada à anterior, Jesus dirige-se agora à «multidão» num ensino através de uma parábola, ou melhor de um enigma, que obriga a refletir em que consiste a autêntica pureza; já não se trata apenas de superar tradições e convencionalismos humanos, mas de abandonar uma mentalidade que não faz a destrinça entre o bem e o mal; só o pecado é que torna o homem impuro, e não pode haver pecado sem um querer deliberado, mau e desordenado. E não é apenas a tradição dos escribas e fariseus que é ultrapassada, mas a lei ritual do A. T., que declarava as pessoas impuras por grande quantidade de coisas de que se não tinha qualquer espécie de culpa. Estamos aqui na novidade da Lei de Cristo e perante uma moral de amor e responsabilidade.
21-23 Estes vv. pertencem à explicação particular e bem realista dada aos discípulos (vv. 17-23; os vv. 16-20 são omitidos na leitura). A moral cristã está no pólo oposto de todo o formalismo. É só «do coração», isto é, da vontade livre, que provém o que contamina o homem moralmente. Sem conhecimento e deliberação não pode haver propriamente pecado.
Note-se que Marcos apresenta imediatamente a seguir Jesus em terras gentias, na região de Tiro e Sídon, e a entrar numa casa pagã, sem fazer caso da impureza legal em que incorria (v. 24).
Sugestões para a homilia
Os mandamentos, exigência de amor.
A Palavra de Deus como proposta para este Domingo leva-nos a saborearmos o convite a uma vida de autenticidade, verdade e coerência. E tudo como consequência de uma relação de amor com o Deus vivo que penetra a verdade de cada pessoa e de cada acontecimento.
No relativismo moral, na indiferença para com Deus, na justificação para o injustificável, na vivência da duplicidade e hipocrisia, quão importante são os Mandamentos de Deus! São expressão de vida, de sabedoria e santidade.
Na tentação de sobrepor os nossos «códigos», a ignorância que dispensa a Graça de Deus, as nossas perspectivas – muitas vezes até humanamente pobre – é necessário anunciar os Mandamentos e vivê-los.
Os Mandamentos são pedagogia divina a levar a Palavra à vida, aí onde as opções e as atitudes devem encontrar o seu caráter de profundidade do mistério da pessoa, da vida e da atuação de Deus em nós, e do seu projeto de amor.
Só a Palavra de Deus, referência de vida, pode descer ao mais profundo da verdade do ser humano e permitir a sua transformação, conversão e uma vida de transparência.
Só a novidade que é Cristo permite ser livre. Permite uma humanidade cheia de dignidade. Permite uma nova e bela relação com Deus. Cristo liberta e leva as pessoas a viver com intensidade o amor de Deus e dos irmãos. Só Ele liberta de todas as barreiras, muros e preconceitos.
A proposta da coerência e verdade.
Deus não teme a pessoa autêntica, humilde, sincera, mesmo que revele a sua fragilidade.
Deus não «suporta» o soberbo, o hipócrita, os que exteriormente se esforçam por dar nas vistas, mas numa ausência de total desejo de conversão. Dos que impedem a novidade do Espírito que tem poder de fazer de um pecador um santo, do Espírito que cria e recria!
A tentação da «carreira» tem gerado vida hipócrita e autênticos campos de destruição da beleza da vida dos outros, da sua simples e esforçada doação. Tem gerado clamorosas injustiças. Tem impedido a novidade do Espírito.
Mas também, às vezes, há o gosto de apostar no exterior, no «curriculum» pesado e alargado, como as «filactérias», mas que depois se revela ausência de amor, de compreensão e de misericórdia. É quase como uma tentação de apostar no ser humano apetrechado em tudo, como se dispensássemos a graça de Deus e o mistério do Sua presença encantadora e da surpresa e novidade do Espírito.
Na proposta de coerência, verdade e autenticidade é bem essencial amar e viver os Mandamentos como consequência da relação pessoal com Jesus Cristo.
Em e com Jesus aprendemos a ser livres, a amar verdadeiramente, a ver como Deus vê, a fazer da vida doação aos mais pequeninos e fracos, a dar as mãos aos que erraram e fracassaram na vida, a propor uma religião verdadeira e autêntica.
Os desafios de hoje.
Se nós cristãos vivêssemos com autenticidade e coerência o nosso cristianismo encheríamos os nossos espaços e tempos com a encantadora e bela presença de Jesus Cristo. Como Ele aparece tantas vezes desfigurado, não tendo no Seu rosto beleza que atraia o ser humano!
É preciso observar e pôr em prática os Mandamentos, revelação da beleza de uma vida comprometida com o projeto de Deus.
Por isso, em Ano Sacerdotal, tendo como referência o santo Cura d’Ars, significa construir atitudes de santidade e confiança e correspondência ao «bem que Deus em nós começou».
Significa orar verdadeiramente a vida para aí estabelecer coerência, edificar na verdade, robustecer-se na graça de Deus, comprometer-se com a vida, com Deus e com os irmãos.
Há sinais que são tradutores da coerência, de vidas sem hipocrisia: a celebração pessoal e sincera do sacramento da confissão. A clareza do projeto de Jesus Cristo, sem fugas, subterfúgios, nas exigências da Verdade. Olhar a Igreja como Mistério de Comunhão e não olhá-la com os esquemas de «empresa», de visões verdadeiramente humanas. E nesta linha desmascarar todas as tentativas de desfiguração que corrompe a justiça, a verdade, a dignidade. A urgência de se falar da Graça de Deus e da sua necessidade. Isto não é só «obra» nossa, mas graça que deve ser acolhida, agradecida e comprometida.
A Igreja apostou em santo Agostinho, convertido. Fez dele um Bispo Santo! Será que estaremos presos a tantos preconceitos que nos impedem de ver a beleza que Deus opera, as transformações maravilhosas que realiza na vida de tantas pessoas? O cura d’Ars foi novidade do Espírito. Nos preconceitos de muitos nunca este Sacerdote seria significativo na Igreja! E somos capazes de acolher e apostar? Damos hipóteses aos irmãos. Pesam mais em nós os defeitos ou a riqueza de coração e a beleza da vida?
Muitas vezes gastamos energias em futilidades. Gastamos meios econômicos em vaidades de promoção. Criamos Espírito de competição para «arrumar» quem nos faz frente ou para «encher» o que só o espírito de oração e penitência podem encher! Criamos máquinas pesadas incapazes de descobrir a beleza da simplicidade de Cristo e do seu projeto.
Maria, Rainha de todos os cristãos ensina-nos a amar e a servir a Deus e aos irmãos com a verdade, com coerência e com a partilha da nossa vida. Ensina-nos a pôr em primeiro lugar o Amor a Deus e aos irmãos.
Armando Rodrigues Dias - Geraldo Morujão



A liturgia do XXII domingo do tempo comum propõe-nos uma reflexão sobre a “Lei”. Deus quer a realização e a vida plena para o homem e, nesse sentido, propõe-lhe a sua “Lei”. A “Lei” de Deus indica ao homem o caminho a seguir. Contudo, esse caminho não se esgota num mero cumprimento de ritos ou de práticas vazias de significado, mas num processo de conversão que leve o homem a comprometer-se cada vez mais com o amor a Deus e aos irmãos.
A primeira leitura garante-nos que as “leis” e preceitos de Deus são um caminho seguro para a felicidade e para a vida em plenitude. Por isso, o autor dessa catequese recomenda insistentemente ao seu Povo que acolha a Palavra de Deus e se deixe guiar por ela.
No Evangelho, Jesus denuncia a atitude daqueles que fizeram do cumprimento externo e superficial da “lei” um valor absoluto, esquecendo que a “lei” é apenas um caminho para chegar a um compromisso efetivo com o projeto de Deus. Na perspectiva de Jesus, a verdadeira religião não se centra no cumprimento formal das “leis”, mas num processo de conversão que leve o homem à comunhão com Deus e a viver numa real partilha de amor com os irmãos.
A segunda leitura convida os crentes a escutarem e acolherem a Palavra de Deus; mas avisa que essa Palavra escutada e acolhida no coração tem de tornar-se um compromisso de amor, de partilha, de solidariedade com o mundo e com os homens.
O que mancha e o que limpa
Existe um forte contraste entre, por um lado, o mandato de Moisés de não acrescentar nem tirar nada da lei e, pelo outro, a censura dos fariseus aos discípulos de Jesus em nome não da lei mosaica, senão precisamente de um complemento espúrio à mesma, “a tradição dos maiores”. No entanto, quando se lê a lei de Moisés nos livros do Pentateuco se entendem os acréscimos que a história foi fazendo: as normas mosaicas, tanto as referidas à pureza ritual como a muitas outras questões, não são tão detalhadas para dar resposta a todas as situações que a vida nos propõe na prática. Nesta, como em qualquer lei é inevitável que se produzam situações duvidosas, que a lei não regulamenta com clareza e que requerem interpretações, correções ou complementos. É assim, provavelmente, como se geram as “tradições dos maiores”. O problema é que isto pode levar, e leva com frequência, a um cumprimento mecânico de normas puramente externas que acabam apartando do espírito original com o que nasceu a lei. A lei de Moisés, que trata de institucionalizar o acontecimento salvífico da libertação do Egito e expressa a aliança de Deus com seu povo, para que aquela salvação se prolongue na história, acabou se convertendo em um complexo e asfixiante conjunto de normas, impossível de cumprir para a gente singela e iletrada, e que servia mais para condenar que para salvar.
Como entender então a exigência de Moisés de não acrescentar nem tirar nada, se resulta que isto é um impossível? Provavelmente há que a entender de maneira mais qualitativa que quantitativa, como a fidelidade a uma lei que não se reduz a uma regulamentação externa, senão que é expressão de uma Palavra criadora e salvadora. Cumprir não é executar externamente, mecanicamente, senão “cumprir”, encher, dar plenitude. E isto, como sabemos, se realiza em Jesus Cristo, que não veio para abolir a lei, senão à levar a perfeição (cf. Mt 5, 17). A lei de Moisés é realmente incompreensível e na prática converte-se em opressiva sem este relacionamento com a Palavra viva de Deus. Os profetas tiveram que o recordar continuamente. E essa mesma Palavra encarnou-se em Jesus e aperfeiçoou-se na lei do amor. É possível cumprir e aperfeiçoar a lei escutando, acolhendo e pondo em prática esta Palavra próxima, dialogante, compreensível.
É o que nos recorda de maneira viva Tiago na segunda leitura. A palavra que salva dá vida, nos engendra. E o faz desde dentro, pois, como semente, foi plantada em nós. Por isso, não devemos só a escutar como se fosse uma voz externa e estranha, senão que devemos lhe dar morada em nós, deixar que nos apure por dentro e permitir que, desde dentro, guie nossas ações e nossa vida. Isso significa a pôr em prática. E ao coloca-la em prática traduz-se necessariamente em obras de amor e misericórdia com os necessitados em suas tribulações.
Por conseguinte, embora resulte inevitável que “os maiores”, isto é, a experiência histórica e os novos problemas que vão surgindo nela, façam seus complementos e formem suas tradições, sua validade dependerá se servem à Palavra, à vida que essa Palavra engendra, a um melhor cumprimento e posta em prática da mesma; ou se, pelo contrário, convertem-se em esquemas rígidos de comportamento que limitam a liberdade e a abertura criativa à novidade da história, e servem, sobretudo para condenar aos que não se atem a elas. Em uma palavra, o critério de discernimento das diferentes tradições é a misericórdia.
As críticas dos fariseus aos discípulos de Jesus centram-se nesta ocasião na questão da pureza ritual, que se tinha convertido para eles em algo obsessivo, mas entendido em seu sentido mais externo e superficial. Pouco que ver com o nos recorda Tiago em relacionamento com o acolhimento e o cumprimento da Palavra: aqui “não se manchar as mãos com este mundo” não significa transgredir elementares medidas de higiene, senão evitar que os critérios deste mundo impeçam os frutos de misericórdia da semente da Palavra plantada em nosso interior. Jesus aproveita a ocasião para recordar a origem e a fonte da impureza religiosa: não as coisas deste mundo, criadas por Deus e sim as boas, não o pó da terra nem determinados alimentos, senão as intenções ruins do coração humano. A origem do mau e a impureza há que o buscar na própria vontade, nas motivações egoístas e desordenadas. E Jesus veio para nos curar por dentro, de maneira que possamos atuar para fora de um modo conforme a vontade de Deus, que é uma vontade de vida, de amor, de perdão e misericórdia.
Nos, os cristãos temos consciência de que nossa fé implica certas obrigações e de que “temos que cumprir com elas”. Às vezes, alguns veem nisto uma atitude farisaica que fica no mero cumprimento externo, e reagem dizendo, por exemplo, que “o importante não é ir à missa senão ser boa pessoa e ajudar aos demais”. Embora possamos entender estas reações, temos que ter cuidado com sua unilateralidade. Em primeiro lugar, porque ir a missa e atuar com bondade não são coisas incompatíveis: não só porque, coisa óbvia, se pode “ir a missa e ser boa pessoa”, senão porque participamos da Eucaristia precisamente para, em união com Cristo, fazer-nos melhores pessoas. E, em segundo local, porque nesta crítica cai-se no fundo no mesmo que se critica: reduz-se o “ir a missa” (ou outras práticas cristãs) a uma mera formalidade externa, descurando seu verdadeiro sentido. Para atuar de acordo o espírito cristão devemos estar em comunhão com Cristo; e essa comunhão realiza-se de maneira privilegiada no memorial de sua Paixão que ele mesmo nos mandou realizar; é possível viver como Cristo viveu se escutamos sua Palavra e comemos o pão e o vinho que são seu corpo e seu sangue. Se “ir à missa” reduz-se a uma formalidade que ”cumprimos”, sem deixar que seu significado penetre em nós, que nos faça sentir justificados e que, ademais, nos leva a julgar e condenar aos demais, aos que não cumprem, então sim, então estaremos reduzindo o grande dom da Eucaristia a uma “tradição de nossos maiores”. Mas se, pelo contrário, apesar da chateação ou da preguiça que às vezes nos embarga, tratamos de fazer da Eucaristia um encontro vivo com a Palavra e a pessoa de Cristo, então estaremos purificando nosso interior das maldades que fazem impuro ao homem, e abrindo nosso coração às boas obras do amor em que consiste a religião pura e imaculada.
José María Vegas, cmf



É do interior do coração dos homens»:
o coração de cada homem é fonte de paz ou de guerra?
É, portanto, claro, que nos devemos esforçar por todos os meios por preparar os tempos em que, por comum acordo das nações, se possa interditar absolutamente qualquer espécie de guerra. [...] E dirijam-se a Deus instantes preces, para que lhes dê [aos responsáveis políticos] a força necessária para empreender com perseverança e levar a cabo com fortaleza esta obra de imenso amor aos homens, que é construir virilmente a paz. Hoje em dia, isto exige certamente deles que alarguem o espírito para além das fronteiras da própria nação, deponham o egoísmo nacional e a ambição de dominar os outros países, fomentem um grande respeito por toda a humanidade que já avança tão laboriosamente para uma maior unidade. No entanto, evitem os homens entregar-se apenas aos esforços de alguns, sem se preocuparem com a própria mentalidade. Pois os governantes, responsáveis pelo bem comum da própria nação e, ao mesmo tempo, promotores do bem de todo o mundo, dependem muito das opiniões e sentimentos das populações.
De nada lhes aproveitará dedicarem-se à edificação da paz enquanto os sentimentos de hostilidade, desprezo e desconfiança, os ódios raciais e os preconceitos ideológicos dividirem os homens e os opuserem uns aos outros. Daqui a enorme necessidade duma renovação na educação das mentalidades e na orientação da opinião pública. Aqueles que se consagram à obra de educação, sobretudo da juventude, ou que formam a opinião pública, considerem como gravíssimo dever o procurar formar as mentalidades de todos para novos sentimentos pacíficos. Todos nós temos, com efeito, de reformar o nosso coração, com os olhos postos no mundo inteiro e naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade.
Concílio Vaticano II Constituição dogmática sobre a Igreja no mundo de hoje «Gaudium et spes» § 82



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