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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

23º DOMINGO TEMPO COMUM-B

23º DOMINGO TEMPO COMUM


6 DE SETEMBRO DE 2015
ANO B

EVANGELHO - MC 7,31-37


-SURDOS E MUDOS DE HOJE-José Salviano


Como  já fora anunciado pelo profeta, Jesus abre os ouvidos daquele homem e sua língua se soltou, e ele que era mudo, voltou a falar fluentemente. Leia mais...

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“ELE TEM FEITO BEM TODAS AS COISAS...”- Olivia Coutinho
23º DOMINGO DO TEMPO COMUM.
Dia 06 de Setembro de 2015
Evangelho de Mc7,31-37
Neste Mês da Bíblia, somos convidados a abrir as páginas deste livro sagrado, a fim de darmos uma atenção maior a palavra de Deus, palavra que  liberta, que  orienta, que  nos ensina o caminho da vida!
Numa comunidade cristã que alimenta a sua intimidade com a bíblia,  sempre acontece  mudanças significativas, tanto na catequese, quanto na liturgia, como também na vivencia  do dia a dia, pois através da leitura profunda da Bíblia, todos vão se inteirando  do querer de Deus e  se  colocando ao seu dispor!
O amor de Deus pela humanidade, manifestado  nas ações misericordiosas de Jesus, nos dá a certeza de que nunca estaremos sós!
Quem carrega no peito, os mesmos anseios de Jesus, sente necessidade de partilhar a vida, de se fazer caminho de libertação para o outro!
Em todos os seus ensinamentos, Jesus sempre deixou claro, que só o amor constrói que só o amor gera vida! O amor cria e recria vida, abre caminhos,  impulsiona, desinstale, leva-nos ao encontro do outro, nos conscientiza de que  as nossas atitudes devem convergir-se para o bem maior que é a vida.
Na sua trajetória terrena, Jesus fazia longas caminhadas ao encontro dos sofredores, um exemplo que deve ser seguido por cada um de nós!
O evangelho de hoje, vem nos mostrar, através das ações misericordiosas de Jesus, um Deus amoroso que investiu alto no humano, que aposta continuamente na renovação e na transformação do homem! Um Deus que não desiste de nós, mesmo quando na nossa ingratidão, o rejeitamos!
A narrativa nos mostra que o amor de Deus manifestado em Jesus, não tem fronteira, foi este amor que levou  Jesus a um território pagão, quebrando assim, as muralhas do preconceito, reafirmando que Ele não havia vindo somente para um povo e sim, para todos!
Antes de abrir os ouvidos de um surdo e de soltar a sua língua, Jesus acolhe os excluídos, os que viviam às margens. Com este gesto concreto de amor, Ele nos ensina que o amor é muito mais do que sentimento, mais do que palavras, o amor é  gesto concreto, é decisão de ir ao encontro do outro, de inteirar-se das suas necessidades  para poder ajudá-lo!
Ao abrir os ouvidos de um surdo, Jesus realizou o querer do Pai, que não quer ver nenhum de seus filhos jogado às margens, fora do convívio social.
Ao sentir-se curado, aquele  homem, vibra de alegria diante as maravilhas que Deus realizou à seu favor e mesmo tendo sido recomendado para  não contar o ocorrido a ninguém, ele não consegue guardar para si,  tamanha alegria! Livre da surdez que o impedia de viver socialmente, aquele homem, agradecido, retoma o caminho da vida no seguimento a Jesus!
Em sua missão, Jesus iniciou uma nova criação, hoje, Ele coloca em nossas mãos a responsabilidade de dar continuidade a essa missão libertadora, devolvendo a dignidade aos mutilados por esta sociedade excludente que tenta a todo custo abafar o grito dos excluídos. 
Infelizmente, nós vivemos numa cultura geradora de surdos e mudos, pessoas impedidas de ouvir e de falar. Como seguidores de Jesus, devemos quebrar esta corrente da exclusão, sendo a voz destes irmãos que clamam por justiça! Não podemos esquecer, de que no rosto do excluído, está estampado o rosto  desfigurado de Jesus, o que deixamos de fazer em favor destes irmãos, é a Jesus que deixamos de fazer.


FIQUE NA PAZ DE JESUS – Olívia Coutinho
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Jesus faz tudo bem feito
Com sua apresentação do “humanismo” de Jesus, Marcos não quer apenas mostrar que Jesus era um grande filantropo, mas que nesta atitude consiste o cumprimento do plano de Deus, aquilo que tradicionalmente se chama a “paz”, o dom de Deus trazido presente por seu Ungido, o Messias. O evangelho de hoje mostra isso claramente.
Chegamos quase ao fim da primeira metade do evangelho de Marcos, em que ele mostrou que em Jesus há um “quê” de messiânico. Na segunda parte, ele mostrará o que exatamente é messiânico em Jesus e como deve ser entendido. O evangelho de hoje deve preparar a exclamação de Pedro que inaugura a segunda metade de Marcos: “Tu és o Messias” (cf. próximo domingo).
Unindo em uma só pessoa dois defeitos, a surdez e a mudez, Marcos lembra imediata­mente o texto de Is. 35, lido na 1ª leitura, onde a cura de surdos e de mudos faz parte do tempo messiânico. E, para reforçar a nota, o povo exclama: “Ele fez tudo bem feito”, vislumbrando a obra messiânica de restauração do paraíso (cf. também Is 35). Lembra como Deus “fez tudo bem” no início (Gn. 1,31 etc.). Porém, a intenção de Marcos vai mais fundo. Para reconhecer que Jesus é o Messias é preciso que o homem esteja aberto. Ora, nem mesmo os discípulos eram fáceis de “abrir” (8,14-21!). Jesus não apenas “faz as coisas bem feitas”, ele abre também o coração para ver o Reino de Deus, que está aí, onde se faz a sua vontade e se revela seu amor. Por isso, Marcos insiste quase exageradamente no gesto material com que Jesus faz seu “trabalho”: impor as mãos, aplicar saliva, elevar os olhos, gemer, dizer effatá, “abre-te”… Não é fácil abrir o homem para o mistério de Deus.
Ora, se acreditamos que, com Jesus, chegou o Reino de Deus, não dá mais para voltar para trás. O que ele fez tão bem feito, nós o devemos continuar fazendo. É hoje o momento para prestar um pouco mais de atenção à carta de Tiago, cuja leitura foi iniciada no domingo passado. Ensina o que é o Reino de Deus na prática da Igreja; fazer como Deus: tudo bem feito. Para Deus não há acepção de pessoas (2ª  leitura). Então, para a Igreja também não. O rico não tem nenhuma precedência sobre o pobre. Mais ainda. Para mostrar seu amor, Deus escolhe quem mais precisa: os pobres. Para provar que não rejeitamos ninguém, devemos dar a preferência àqueles que normalmente são rejeitados. Quem quer provar seu amor por todos deve começar pelos últimos. É por isso que, no Reino de Deus, os últimos serão os primeiros. Claro, isso não se deve fazer “para ser visto”, transformando o pobre em ocasião de ostentação caritativa. Deve ser a expansão espontânea do amor, como uma mãe espontaneamente consagra atenção maior à criança que mais precisa. A própria Igreja surgiu, graças a este princípio. Não foi a Igreja constituída pelos que o judaísmo rejeitou, os “ignorantes”? Pelos que o paganismo desconsiderou: os escravos, os migrantes, os que não “contavam” para a sociedade pagã? No próprio evangelho, os sofridos e carentes de todo o tipo tomam-se os destinatários dos sinais do Reino e seus melhores propagandistas.
Não que Deus seja contra os ricos. Ele mesmo criou a riqueza para o bom uso. Mas é quanto a esse bom uso que surge divergência entre Deus e o rico, que acha que Deus fez tudo isso só para ele… Para poder repartir, a gente sempre deve receber de Deus. Aí está o problema do rico. Se está cheio de si mesmo, não é mais capaz de receber e aprender de Deus o que é graça e gratuidade; perde também a capacidade de abrir sua mão e seu coração. Por isso, quem é grande e poderoso deve admitir que é pobre e criança, frágil e carente. Então, Deus poderá consagrar sua atenção também a ele. Então, entenderá também que deve contribuir para mudar o mundo, para que encarne melhor a bondade de Deus que ele mesmo experimentou.
Johan Konings "Liturgia dominical"



Jesus percorre um território pagão ao sair de Tiro até chegar à Galiléia. Ali, Ele cura um homem pagão surdo-mudo, e esse milagre simboliza a libertação das pessoas, pois com os ouvidos e a boca abertos elas são capazes de ouvir, falar, discernir a realidade, criticar a situação que oprime e fazer o anúncio.
O homem surdo-mudo não vem sozinho até Jesus, mas é trazido por outras pessoas. Jesus o tira do meio delas para que ele tenha um encontro pessoal com o Senhor e se sinta responsável, após o milagre, pela Boa Nova, anunciando que verdadeiramente Jesus é o Filho de Deus.
O profeta Isaías assim falava sobre o Messias, (Is. 35,5-6): “Então os olhos dos cegos enxergarão e os ouvidos dos surdos se abrirão.” Porém não são os gestos de Jesus que curam o surdo-mudo e sim sua palavra, embora Marcos insista exageradamente nos gestos materiais com que Jesus realiza a sua missão como imposição das mãos, pois, é o próprio Deus cuidando diretamente daquele que foi privado da vida; usando a saliva que era considerada como tratamento; elevando os olhos aos céus; suspirando como indignação diante da situação em que se encontram tantas pessoas marginalizadas e fechadas à Palavra de Deus, e dizer Efatá, que significa ‘abre-te’. Ele toca primeiro os ouvidos e depois a boca, primeiramente para ouvir e compreender e depois anunciar a Palavra sem dificuldades.
Os milagres que Jesus realiza confirmam as profecias do Primeiro (Antigo) Testamento.
O evangelho de Marcos se destina a pagãos dispostos a abraçar a fé. A expressão ‘Efatá’ fazia parte da liturgia batismal da Igreja primitiva para aqueles que iniciavam a caminhada de discípulo.
No rito do Batismo, o celebrante toca a boca e os ouvidos do batizando e diz: “O Senhor Jesus que fez os surdos ouvirem e os mudos falarem, te conceda que possas logo ouvir a Palavra e professar a fé para louvor e glória de Deus Pai.” Pais e padrinhos devem instruir a criança na fé pela escuta da Palavra e ela deve ser educada para expressar essa mesma fé na oração e na vida.
A desobediência aos ensinamentos torna os homens e as mulheres surdos-mudos, pessoas incrédulas e fechadas ao conhecimento da Palavra de Deus e da Vida, e quando se abrem para a leitura e a proclamação dos ensinamentos de Jesus, reconhecem que Deus é o mais importante na vida.
A cura da surdez e do mutismo significa nas Escrituras a iniciação à fé. Jesus comunica vida nova! É preciso aprender a ouvir para poder acreditar e proclamar, pois a fé vivida faz o cristão atento ao cumprimento da verdade. Não é fácil abrir o homem para o mistério de Deus.
Todo discípulo sente a necessidade desta cura, para receber o dom da fé, abrir seu coração para o que Deus quer chamar, para entender o que Deus quer falar e para proclamar os ensinamentos de Jesus.
O pedido de sigilo que Jesus faz é para se proteger dos seus perseguidores e para preservar sua missão. Não se trata de uma proibição, pois quanto mais Ele recomendava, mais o povo falava.



Com sua apresentação do “humanismo” de Jesus, Mc. não quer apenas mostrar que Jesus era um grande filantropo, mas que nesta atitude consiste o cumprimento do plano de Deus, aquilo que tradicionalmente se chama a “paz”, o dom de Deus trazido presente por seu Ungido, o Messias. O evangelho de hoje mostra isso claramente. Chegamos quase ao fim da primeira metade do evangelho de Mc, em que ele mostrou que em Jesus há um “quê” de messiânico. Na segunda parte, ele mostrará o que exatamente é messiânico em Jesus e como deve ser entendido. O evangelho de hoje deve preparar a exclamação de Pedro que inaugura a segunda metade de Marcos: “Tu és o Messias”.
Unindo em uma só pessoa dois defeitos, a surdez e a mudez, Mc lembra imediatamente o texto de Is. 35, lido na 1ª leitura, onde a cura de surdos e de mudos faz parte do tempo messiânico. E, para reforçar a nota, o povo exclama: “Ele fez tudo bem feito”, vislumbrando a obra messiânica de restauração do paraíso (cf. também Is. 35). Lembra como Deus “fez tudo bem” no início (Gn. 1,131 etc.).
Porém, a intenção de Mc vai mais fundo. Para reconhecer que Jesus é o Messias é preciso que o homem esteja aberto. Ora, nem mesmo os discípulos eram fáceis de “abrir” (8,14-21!). Jesus não apenas “faz as coisas bem feitas”, ele abre também o coração para ver o Reino de Deus, que está aí, onde se faz a sua vontade e se revela seu amor. Por isso, Mc insiste quase exageradamente no gesto material com que Jesus faz seu “trabalho”: impor as mãos, aplicar saliva, elevar os olhos, gemer, dizer effatá, “abre-te”... Não é fácil abrir o homem para o mistério de Deus.
Ora, se acreditamos que com Jesus chegou o Reino de Deus, não dá mais para voltar para trás. O que ele fez tão bem feito, nós o devemos continuar fazendo. É hoje o momento para prestar um pouco mais de atenção à Carta de Tiago, cuja leitura foi iniciada no domingo passado. Ensina o que é o Reino de Deus na prática da Igreja; fazer como Deus: tudo bem feito. Para Deus não há acepção de pessoas (2ª leitura). Então, para a Igreja também não. O rico não tem nenhuma precedência sobre o pobre. Mais ainda. Para mostrar seu amor, Deus escolhe quem mais precisa: os pobres. Para provar que não rejeitamos ninguém, devemos dar a preferência àqueles que normalmente são rejeitados. Quem quer provar seu amor por todos deve começar pelos últimos. É por isso que, no Reino de Deus, os últimos serão os primeiros. Claro, isso não se deve fazer “para ser visto”, transformando o pobre em ocasião de ostentação caritativa. Deve ser a expansão espontânea do amor, como uma mãe espontaneamente consagra atenção maior à criança que mais precisa. A própria Igreja surgiu, graças a este princípio. Não foi a Igreja constituída pelos que o judaísmo rejeitou, os “ignorantes”, e pelos que o paganismo desconsiderou: os escravos, os migrantes, os que não “contavam” para a sociedade pagã? No próprio evangelho, os sofridos e carentes de todo o tipo tornam-se os destinatários dos sinais do Reino e seus melhores propagandistas.
Não que Deus seja contra os ricos. Ele mesmo criou a riqueza para o bom uso. Mas é quanto a esse bom uso que surge divergência entre Deus e o rico, que acha que Deus fez tudo isso só para ele... Para poder repartir, a gente sempre deve receber de Deus. Aí está o problema do rico. Se está cheio de si mesmo, não é mais capaz de receber e aprender de Deus o que é graça e gratuidade; perde também a capacidade de abrir sua mão e seu coração. Por isso, quem é grande e poderoso deve admitir que é pobre e criança, frágil e carente. Então, Deus poderá consagrar sua atenção também a ele. Então, entenderá também que deve contribuir para mudar o mundo, para que encarne melhor a bondade de Deus que ele mesmo experimentou.
Jesus faz tudo bem feito
No domingo passado, vimos Jesus criticando as tradições humanas que desviam a gente da verdadeira vontade de Deus, o bem de seus filhos e filhas. Agora, o evangelho mostra o exemplo do próprio Jesus. Depois de ter dado à mulher pagã as “migalhas” do pão dos filhos, Jesus cura, na mesma região pagã (a Decápole), um surdo-mudo, e o povo se põe a clamar: “Tudo ele tem feito bem!” Com isso Jesus realiza o que o profeta Isaías sonhou para o tempo do Messias: os olhos dos cegos vão se abrir, abrem-se também os ouvidos dos surdos, os aleijados vão pular feito cabritos e a língua dos mudos entoará um cântico (1ª leitura). Convém lembrar aqui que os cegos e os coxos eram excluídos do templo... A vinda do Messias transforma os excluídos – pagãos, coxos, cegos, aidéticos, favelados, presos – em filhos do Reino. Conforme Santo Irineu, a glória de Deus é que o ser humano tenha vida – e a vida do ser humano é contemplar Deus... Trata-se de uma certeza fundamental de nossa fé: Deus deseja que todos e todas tenham vida. A religião é para o bem da humanidade.
Com certeza, todo mundo se declara de acordo com isso. Mas, muitas vezes, a religião é usada para dominar as pessoas, para que fiquem quietas e não protestem contra a exploração pelos poderosos (que querem até passar por bons cristãos)... Será isso promover a vida do ser humano? Dizem que os que sofrem serão recompensados na eternidade. Mas isso não justifica que se faça sofrer aqui na terra! Também a vida neste mundo pertence a Deus: é o aperitivo da vida eterna.
O Deus da Bíblia quer o bem das pessoas desde já. Pode existir doença, sofrimento, mas não é a última palavra. Somos chamados a participar com Deus no aperfeiçoamento da criação. Por isso o povo saúda a chegada do Messias exclamando: “Tudo ele tem feito bem”.
Deus não pode servir para legitimar nenhuma opressão. A verdadeira religião liberta o ser humano do mal, também do mal político e econômico. Religião que pactua com a opressão não é a de Jesus. O cristianismo deve servir para o bem do ser humano: o bem de todos e do homem todo.
A religião serve para o bem de todos, eliminando exploração e discriminação (2ª leitura). Para dar chances a uma ordem melhor, provoca até revoluções, se as estruturas vigentes produzem desigualdade e injustiça. Pois a justiça é a exigência mínima do amor.
A religião serve para o bem do homem todo, para aquelas dimensões que facilmente são esquecidas: a integridade da vida (contra a tortura, a irresponsabilidade com a vida nova etc.); a integridade do verdadeiro amor (contra a exploração erótica, o amor descartável etc.), o crescimento espiritual (contra o imediatismo, o materialismo etc.), o sentido último da vida (contra a mecanização e encobrimento da morte)...
Para que o povo excluído possa exclamar “Tudo ele tem feito bem”, muito ainda deve mudar na maneira de vivermos o ensinamento e o exemplo de Jesus!
padre Jaldemir Vitório



Jesus estava sempre andando, de um lado para outro, em contato direto com o povo. Um dia, nas margens do lago da Galileia, levaram até Ele um homem surdo, que falava com muita dificuldade, e pediram que impusesse as mãos sobre ele. A imposição das mãos é uma prática antiga. Acredita-se que com ela se transmite uma energia positiva, que funciona como um tratamente para o nosso físico e o nosso psiquismo. Em termos religiosos, a imposição das mãos é sinal da presença do Espírito Santo, que consagra alguém para uma missão ou transmite uma força divina que cura. Jesus, porém, não impôs as mãos sobre o surdo-mudo. Sendo Ele quem é, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não depende de nenhum tipo de gesto, religioso ou humano, para agir em benefício de quem o procura.
Jesus saiu com aquele homem do meio da multidão, afastou-se um pouco e fez dois outros gestos: pôs os dedos nos ouvidos do surdo e saliva em sua língua. Depois olhou para o céu, suspirou e disse em aramaico: “Efatá”, que quer dizer “abre-te”. Imediatamente seus ouvidos se abriram e sua língua se soltou. Como sempre, Jesus pediu que não fizessem propaganda do que tinha feito, mas a notícia logo se espalhou e todo mundo dizia: “Tudo o que Ele faz é bem feito. Faz os surdos ouvirem e os mudos falarem”.
Uma pessoa que não pode falar nem ouvir tem muita dificuldade para conviver socialmente. Sua participação é muito limitada e grande a sensação de exclusão. Que bom seria se pudéssemos, com a imposição das mãos ou com um simples toque, curar os surdos e os mudos. Deus, porém, nos dá sensibilidade e inteligência para procurarmos soluções humanas para os problemas da vida: ajuda mútua, medicamentos, linguagem chamada Libras. Os milagres podem se multiplicar entre nós com a força da solidariedade. Como Jesus, fazer bem tudo o que tem que ser feito.
Em Jesus se realizam todas as profecias. Olhando para Ele e para o que Ele faz, ouvimos o profeta Isaías, que nos diz: “Aí está o vosso Deus”. Aí está o seu sinal de identificação: os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos se abrem, o mudo canta e o aleijado salta, a água brota no deserto e a terra seca se transforma em lago. Onde isto acontece, Deus está presente. Reconhecemos a verdadeira presença de Jesus onde isto acontece. Como é bom ver em nossa Igreja gente que reza com fervor, busca a santidade no recolhimento e na meditação da Palavra de Deus e se coloca ao lado do cego, do surdo e do aleijado, numa amizade desinteressada, num apoio fraterno e solidário.
Segundo São Tiago: “Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que Ele prometeu aos que o amam”. No seguimento do Mestre, os discípulos tratam a todos igualmente e, se houver alguma preferência, esta será sempre em favor dos menos amados e mais esquecidos.
Deus faz justiça aos oprimidos, dá pão a quem tem fome, liberta os cativos, ilumina os olhos dos cegos, levanta os abatidos, protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva. Ele ama o justo e barra o caminho dos pecadores. O mundo pode ver que o nosso Deus assim é e assim age olhando para nós, os discípulos, seguidores fiéis de Jesus Cristo.
cônego Celso Pedro da Silva



Os gestos de Jesus
Jesus iniciou seu ministério na Galileia, onde vivia com sua família. A Galileia era um território gentílico, vinculado à Síria, onde foram implantadas colônias judaicas na segunda metade do séc. 1 a.C. pelo hasmoneu Aristóbulo e por seu sucessor, Alexandre Janeu.
Na segunda etapa de seu ministério, Jesus se dirige aos povos gentílicos vizinhos à Galileia, tradicionalmente repudiados pelo judaísmo, começando por Tiro e, agora, na Decápole, em contato com sua população mesclada de gregos e romanos. O evangelho de Marcos destaca esta fase de missão nestes territórios, realçando como Jesus veio para libertar e comunicar vida a todos os povos, abolindo a distinção entre povos impuros, os gentios, e povo puro, os judeus.
O homem surdo que mal pode falar, curado por Jesus na Decápole, é a expressão da submissão e alienação de um poder dominador que inibe a comunicação das pessoas. Marcos narra minuciosamente os gestos de Jesus, realçando assim a presença do Deus encarnado, compassivo e solidário, entre nós. Os ouvidos do homem se abrem e ele começa a falar corretamente. Jesus liberta aquele homem em território pagão. Aqueles que ouvem Jesus começam a "falar corretamente". Isto é, passam a anunciar os seus feitos. Esta narrativa de Marcos visa mexer com os discípulos. Eles, ainda apegados à doutrina nacionalista e segregacionista de "povo eleito", ficam como surdos e sua palavra é frágil. Estão com dificuldade de entender que os gentios são também destinatários do Reino. É o universalismo da salvação, a comunhão com Deus oferecida a todas as criaturas.
A narrativa de Marcos é pródiga em assinalar a presença física de Jesus no meio da multidão, com o toque, o uso dos dedos e da saliva, sobre o homem que trouxeram para que ele impusesse as mãos. A imposição das mãos e a própria saliva eram tidas como uma comunicação de energia e cura.
Aqueles que participaram deste episódio da cura do surdo-tartamudo puseram-se a anunciar os feitos de Jesus em sua região, de maneira semelhante ao possesso geraseno libertado por Jesus (Mc. 5,1.20). São registros de Marcos sobre o anúncio missionário em andamento, tendo como agentes os próprios gentios.
As narrativas de cura, envolvendo as multidões de excluídos, carentes e adoentados, são a expressão da atenção especial de Jesus para com estes pobres, escolhidos por Deus, em vista de restaurar-lhes a vida.
A afirmação final, "faz os surdos ouvirem e os mudos falarem", se inspira na profecia atribuída a Isaías (primeira leitura), dirigida aos exilados da Babilônia. Na tradição profética, a menção aos cegos que veem, surdos que ouvem, mudos que falam, aleijados que pulam, "águas vão correr no deserto... e o seco vai se encher de minas d'água", é uma simbologia literária que indica uma nova situação do povo que é erguido de sua exclusão e de seu abatimento e recupera sua dignidade, com novo ânimo de vida. Com este mesmo caráter simbólico teriam sido elaboradas as diversas narrativas de cura encontradas nos evangelhos. Não são transformações milagrosas mas resultam do empenho em promover a vida, restaurando a justiça e a paz no mundo.
José Raimundo Oliva



O Evangelho deste domingo apresenta-nos um homem surdo e gago que é colocado diante de Jesus para que ele o cure.
Quem é o surdo-gago? É a humanidade, enquanto fechada para o dom de Deus que Jesus nos traz. Surda, porque incapaz de ouvir a Palavra, ouvi-la compreendendo-a, acolhendo-a no coração: “tem ouvido para ouvir, mas não ouve” (Jr. 5,21; cf. Mt. 13,14-15).
Esta é a tendência do coração humano, que a Escritura sempre denunciou: o fechamento para não acolher a proposta que Deus nos faz, de um caminho com ele, a tendência de nos fechar em nós e viver a vida como se fosse nossa de modo absoluto: “Escutai, prestai  ouvidos, não sejais  orgulhosos, porque o Senhor falou!” (Jr. 13,15); “Ah! Se meu povo me escutasse, se Israel andasse em meus caminhos... Mas meu povo não ouviu a minha voz, Israel não quis saber de obedecer-me; então os entreguei ao seu coração endurecido: que sigam seus próprios caminhos!” (Sl. 81/80,14.13). Assim, no fundo, é o fechamento para Deus, para um Deus verdadeiro, a resistência em realmente levar a sério o primeiro mandamento: “Ouve, ó Israel!” (Dt. 6,4).
Nossa civilização ocidental tem sido particularmente fechada à Palavra do Senhor: construímos a sociedade e construímos nossa vida privada, nossos valores morais, nossas escolhas, do nosso modo, sem realmente ouvir a proposta e o caminho que o Senhor nos indica. Reunimos e escutamos os especialistas: economistas, antropólogos, sociólogos, sexólogos, psicólogos... mas, para nós, o Senhor não tem mais nada a dizer! Os gurus são os economistas e psicólogos, é o Paulo Coelho, são os livros de auto-ajuda... Somos uma geração de surdos!
Ora, se somos surdos, também não podemos falar com clareza: nossas idéias são embotadas, nossos debates, nossas palavras, não chegam ao essencial da vida, do sentido da existência, não podemos proclamar de verdade a alegria da salvação, da plenitude de quem sabe de onde vem e para onde vai. A comunicação se torna oca, alienada e alienante. Basta observar o que os meios de comunicação veiculam! Por isso, Jesus cura primeiro a surdez e, depois, a gagueira do homem. Quando ele puder ouvir o Senhor, tornando-se discípulo pela fé, também poderá falar, proclamar a ação de Deus em Jesus: do Deus que salva e nos mostra o sentido da vida, abrindo-nos a esperança eterna!
Sigamos os detalhes da narração de Marcos: (1) Trouxeram o homem surdo-gago para que Jesus o curasse. “Jesus afastou-se com o homem para fora da multidão” – bem ao contrário dos curadores pentecostais de televisão, que exploram seus “milagres” e “curas” como shows, Jesus procura evitar todo sensacionalismo: ele quer encontrar-se realmente com aquele homem, pessoa a pessoa, quer que aquele homem o descubra como sua salvação; (2) “Em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele” – o homem, sendo surdo, somente poderia compreender a linguagem dos símbolos, dos sinais; é a que Jesus empregou: toca os dedos que, para os antigos, transmitiam poder (cf. Ex. 8,15) e, depois, toca sua língua com a saliva, significando o dom do Espírito que cura e liberta. Para os antigos, a saliva era o Espírito em estado líquido (a idéia é estranha, mas é preciso que nos transportemos para o modo de pensar semítico)! (3) “Olhando para o céu, suspirou e disse: ‘Ephatà’”. Assim, Jesus indica que a salvação que ele traz procede do Pai, que o enviou. Mais ainda: ao suspirar, ao gemer, ele exprime sua compaixão, sua dor pela situação humana; (4) “Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade”. Somente Jesus, com o poder do seu Espírito, pode curar o homem de seu fechamento para escutar e para proclamar. Sim, porque também nossa geração cristã é, muitíssimas vezes, covarde para proclamar, para professar sem medo e respeito humano nossa fé. O cristão ou é testemunha ou não é cristão: “Não podemos, nós, deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos. Nós somos testemunhas destas coisas, nós e o Espírito Santo” (At. 4,20; 5,32).
Este caminho do surdo-gago é urgente para o cristão: reaprender a escutar de verdade Jesus (= crer nele de verdade) e falar dele ao mundo no testemunho corajoso, pois, somente assim, a humanidade atual encontrará a paz que tanto almeja. Somente em Cristo aquilo que a primeira leitura vislumbra e anuncia de modo tão belo, pode realizar-se: “Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo! Vede! É o nosso Deus que vem; é ele que vem para salvar!’ Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos, assim como brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terá árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d’água” – Que imagens impressionantes, belas, evocativas! Quando Deus vem, quando ele está presente, tudo é vida, tudo é plenitude, tudo canta de alegria! Não é disso que nosso mundo atual tanto precisa? Mas, o homem fechado na sua soberba – nós, fechados na nossa auto-suficiência e no nosso comodismo! – jamais vai experimentar isso!
Para acolher na alegria e simplicidade, é necessário reconhecer-se necessitado, como o surdo-gago, que procurou Jesus, para que lhe impusesse as mãos: somente quem é pobre diante de Deus, quem se reconhece pequeno diante do Altíssimo, pode abrir-se para a salvação e recebê-la do Senhor! Daí a lembrete de são Tiago: “Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?” São palavras que nos incomodam e até escandalizam: Deus prefere os pobres... porque os pobres são abertos para Deus. Eles conseguem experimentar dolorosamente na carne aquilo que nós tentamos esquecer ou temos dificuldades para compreender: que somos todos pobres, necessitados, pequenos diante de Deus! Com nossas posses e nossas seguranças, apoiamo-nos em nós mesmos, tornando-nos surdos e mudos para o Senhor! O pobre é profético sempre, porque recorda o que nós somos e, quando descobrimos isso, podemos ser curados de nossa auto-suficiência surda e libertados de nossa preguiça muda. O salmo da Missa de hoje canta exatamente esta experiência: Deus salva o pobre, o pequeno, o desvalido!
Se o pobre é sempre profeta, sempre uma palavra de Deus ao nosso lado e, mais ainda, é presença do próprio Cristo, que sendo rico se fez pobre (cf. 2Cor. 8,9) - “O que fizestes ao menor dos meus irmãos, a mim o fizestes” (Mt. 25,40) -, então, o nosso modo de tratar o pobre, de ver o pobre, de nos aproximar do pobre – seja pessoal, seja comunitariamente – diz muito daquilo que nós e nossa Comunidade somos em relação a Deus; diz muito dos nossos critérios: se são segundo Deus ou segundo nosso coração mundano!
Que o Senhor nos cure da surdez e da gagueira; faça-nos atentos à sua Palavra e ao seu testemunho; dê-nos olhos para reconhecê-lo nos irmãos, sobretudo nos pobres, seja de que pobreza for... sobretudo os pobres, social e economicamente falando!




Hoje a santa Palavra do Senhor nos fala de um Deus que vem. E ele vem sempre, amados! Vem porque está entre nós na potência do seu Santo Espírito, que age constantemente nos sacramentos da Igreja, que proclamam a Palavra da Salvação e tornam realidade essa Palavra salvífica! Eis, portanto, nosso Deus vem, vem sempre no seu Filho Jesus pleno do Santo Espírito. E quando ele vem, a nossa sorte muda: “Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus: é ele que vem para vos salvar! Abrir-se-ão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos... brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d’água”. Ó caros! Não é coxo o mundo atual, não é cego, não é seco? Vede ao redor em que tem se tornado a nossa existência! Tanto mais o homem se feche para Deus, tanto menos vive, tanto menos se realiza, tanto menos é feliz... E, no entanto, se nos abrirmos, se nos deixarmos curar, o Senhor transformará a nossa pobre vida: nossa surdez será curada e escutaremos a doce voz do Senhor que nos guia, nossa mudez transformar-se-á em canto de exultação e da sequidão do nosso coração sem vida, a água fresca e vivificante brotará em abundância! Humanidade dura e teimosa, a nossa, que procura vida sem Deus e não encontra a não ser desilusão! Pois bem, caríssimos, é de paz, é de vida, é de felicidade que o Senhor nos fala hoje, nos fala sempre nos anúncios dos profetas! E o que eles anunciaram para os tempos do Messias, tempos de salvação, o Senhor Jesus realiza em plenitude: hoje, no Evangelho que ouvimos, ele coloca os dedos nos ouvidos dum surdo-mudo e, com a saliva, toca-lhe a língua. Que significa esse gesto? A saliva, para os judeus, era o ar feito líquido. Assim, Jesus dá seu Sopro, seu Espírito ao homem. Agora aquele zé-ninguém, aquele surdo-mudo de vida semi-humana é homem novo: pode ouvir o Senhor, pode proclamar suas maravilhas! Mas, não é isso que somos? Não é isso que devemos testemunhar com a nossa vida?
Recordam, irmãos amados, do rito batismal, quando o sacerdotes traçou o sinal da cruz nos nossos ouvidos e nos nossos lábios, repetindo o gesto de Jesus? Recordam quando ele exclamou: “Efatá!”, como o próprio Jesus, naquele tempo? Recordam? Surdos curados por Jesus, é o que somos; mudos libertados pelo Senhor, é a nossa realidade! Agora curados, aprendamos a escutar realmente a palavra e os apelos daquele que nos curou; agora libertos, proclamemos ante o mundo incréu as maravilhas daquele que nos livrou e nos chamou das trevas para a sua luz admirável! Somos novos em Cristo, somos novas criaturas! Externemos essa realidade com nossa vida pessoal e comunitária! Ó cristão, quantas vezes será necessário exortar-te a viver de acordo com aquilo que tu és? Por que és frouxo, por que covarde, por que sem entusiasmo, por que omisso, por que és duro e surdo para a voz do teu Senhor? Por que, caríssimos meus, o nosso modo de viver não impressiona? Por que nosso testemunho do Senhor não contagia os outros? Por que nossas ações não iluminam o mundo em trevas? Porque fugimos do Senhor, porque não deixamos que ele nos toque, nos cure, nos liberte! Sufocamos a graça recebida no batismo! E como  a sufocamos? Pela vida frouxa, pela existência displicente, que não leva a sério realmente a ação libertadora do Senhor em nós!
Somos novos de uma nova vida! Novos, cada um de nós; novos, nós todos como Igreja! Somos a comunidade dos que experimentam essa vida nova, dos que vivem já neste mundo o sonho de um novo modo de existir. Não se trata, meus caros, de um ideal sociológico ou simplesmente humanístico: o motivo da vida nova é o Cristo de Deus que, nos dando o seu Santo Espírito, faz-nos criaturas novas, capazes de viver no seu amor e do seu amor. A Igreja é isso: uma comunhão brotada do amor do Cristo – e este amor é o Santo Espírito. Uma comunidade que vive neste Espírito, que não é o do mundo, que não é o da esquerda festiva ou da direita egoísta, do centro omisso ou dos extremos exaltados... Nossa vida, nossa inspiração, nossa força é o Espírito no qual o Pai e o Filho se amam e se dão! Pois bem! Uma comunidade que vive nesse Espírito não admite discriminações injustas, não admite o desprezo de uns pelos outros, sobretudo dos seus membros mais frágeis e pobres. Uma comunidade “espiritual” julga segundo os critérios do Evangelho e descobre que aquilo que para o mundo é frágil, é perdido, é sem valor, na verdade é o que há de mais precioso aos olhos de Deus: “Meus queridos irmãos, escutai: não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?” Aqui não se trata de bom-mocismo, de uma filantropia meramente humana; trata-se, antes, de uma consciência que brota da contemplação do próprio modo de agir de Deus: ele ama o miserável porque é misericordioso, ele se volta para o pobre, de qualquer pobreza que seja, porque nos ama gratuitamente, e lhe apraz retirar o pobrezinho do monturo e elevá-lo com os nobres do seu povo! Neste sentido, São Tiago nos chama atenção para uma realidade bem concreta, palpável em cada geração: são os pobres, os débeis, os fracos que mais têm fé, que mais se abandonam no Senhor. Quem enche nossas igrejas? Quem é mais generoso para com Deus? Quem mais se esforça para levar a sério os preceitos do Senhor? Quem mais teme a Deus? Em geral, os pobres, os sofredores, os desvalidos! E por quê? Porque ali, na humana miséria, podemos ver sem máscaras aquilo que somos o tempo todo: pobres! Ainda que não queiramos admitir, somos todos pobres, todos necessitados, todos dependentes diante de Deus. Precisamente aqui está a grande bem-aventurança: ser pobre diante de Deus. E são os pobres do mundo e os pobres de nossas comunidades quem melhor nos lembram isso! Olhemos os pobres e vejamos o que somos; sirvamos e honremos os pobres, e serviremos e honraremos aquele por quem e para quem somos!
Neste sentido, a segunda leitura deste hoje é um sério convite a que nos perguntemos sobre como nossa comunidade e nossa casa se comportam em relação aos pobres e carentes do mundo. Damos-lhe atenção? Preocupamo-nos com eles? Uma comunidade cristã – a de casa, da paróquia ou do grupo e movimento de Igreja – que não abra o coração para os pobres, não é comunidade cristã! É incômodo isso que eu digo; mas, é a verdade da Palavra de Deus, que não pode ser maquiada nem domesticada! Nosso comportamento em relação aos pobres definirá nossa situação para sempre diante de Cristo no Último Dia! Disso não tenhamos a mínima dúvida! Portanto, ouçamos e tremamos!
Calem no coração as palavras que o Senhor hoje nos dirigiu. E que esta Eucaristia cure nossa surdez, desate nossa língua e converta o nosso coração.
dom Henrique Soares da Costa



A liturgia do 23º domingo do tempo comum fala-nos de um Deus comprometido com a vida e a felicidade do homem, continuamente apostado em renovar, em transformar, em recriar o homem, de modo a fazê-lo atingir a vida plena do Homem Novo.
Na primeira leitura, um profeta da época do exílio na Babilônia garante aos exilados, afogados na dor e no desespero, que Jahwéh está prestes a vir ao encontro do seu Povo para o libertar e para o conduzir à sua terra. Nas imagens dos cegos que voltam a contemplar a luz, dos surdos que voltam a ouvir, dos coxos que saltarão como veados e dos mudos a cantar com alegria, o profeta representa essa vida nova, excessiva, abundante, transformadora, que Deus vai oferecer a Judá.
No Evangelho, Jesus, cumprindo o mandato que o Pai Lhe confiou, abre os ouvidos e solta a língua de um surdo-mudo… No gesto de Jesus, revela-se esse Deus que não Se conforma quando o homem se fecha no egoísmo e na auto-suficiência, rejeitando o amor, a partilha, a comunhão. O encontro com Cristo leva o homem a sair do seu isolamento e a estabelecer laços familiares com Deus e com todos os irmãos, sem exceção.
A segunda leitura dirige-se àqueles que acolheram a proposta de Jesus e se comprometeram a segui-l’O no caminho do amor, da partilha, da doação. Convida-os a não discriminar ou marginalizar qualquer irmão e a acolher com especial bondade os pequenos e os pobres.
1ª leitura – Is 35,4-7ª - AMBIENTE
Os capítulos 34-35 do Livro de Isaías constituem aquilo que habitualmente se chama “pequeno apocalipse de Isaías” (para distinguir do “grande apocalipse de Isaías”, que aparece nos capítulos 24-27). Descrevem os últimos combates travados por Jahwéh contra as nações (particularmente contra Edom) e a vitória definitiva do Povo de Deus sobre os inimigos. Estes dois capítulos parecem poder ser relacionados com os capítulos 40-55 do Livro de Isaías (cujo autor é esse Deutero-Isaías que atuou na Babilônia entre os exilados, na fase final do Exílio). Porque razão estes dois capítulos se apresentam separados do seu “ambiente natural” (Is 40-55)? Provavelmente, foram atraídos pelas peças escatológicas soltas de Is 28-33, e especialmente pelo capítulo 33.
O autor destes textos escreve na fase final do exílio do Povo de Deus na Babilônia (à volta do ano 550 a.C.). A intenção do profeta é consolar os exilados, desanimados, frustrados e mergulhados no desespero, porque a libertação tarda e parece que Deus os abandonou (uma temática que será desenvolvida e aprofundada nos capítulos 40-55 do Livro de Isaías). Depois de apresentar o julgamento de Deus (cf. Is. 34,1-4) e o castigo de Edom (cf. Is 34,5-15), o autor descreve, por contraste, a alegria do Povo de Deus porque a libertação chegou e a transformação extraordinária do deserto sírio, pelo qual vão passar os israelitas libertados, que retornam do Exílio.
MENSAGEM
O Povo de Deus, exilado na Babilônia, está paralisado pelo desespero. Mostra-se abatido e incapaz de sair, por si só, da sua triste situação. Não tem perspectivas de futuro e não vê qualquer razão para ter esperança.
O profeta dirige-se então aos exilados e anuncia-lhes a iminência da libertação. O tom geral é de alegria – uma alegria que envolverá a natureza e as pessoas, porque o Senhor Se apresta para salvar Judá do cativeiro e para abrir uma estrada no deserto, a fim de que o seu Povo possa retornar em triunfo a Jerusalém.
Apesar das aparências, Deus não esqueceu o seu Povo. Judá deve recobrar ânimo e preparar-se para acolher o Senhor. O próprio Jahwéh irá realizar a libertação; Ele fará justiça e recompensará o seu Povo por todos os sofrimentos suportados no tempo do cativeiro (v. 4).
O resultado da iniciativa salvadora e libertadora de Deus traduzir-se-á no despertar do Povo, paralisado e desanimado, para uma vida nova. O encontro com o Deus libertador e salvador transformará o Povo, dar-lhe-á de novo a liberdade, a alegria, a coragem para enfrentar o caminho, a vida em abundância. Nas imagens dos cegos que voltam a contemplar a luz, dos surdos que voltam a ouvir, dos coxos que saltarão como veados e dos mudos a cantar com alegria (vs. 5-6), o profeta representa essa vida nova, excessiva, abundante, transformadora, que Deus vai oferecer a Judá.
Por outro lado, o dom de Deus manifestar-se-á na própria natureza. O deserto desolado e estéril, que os exilados terão de atravessar na caminhada de regresso à sua terra, transformar-se-á numa terra fértil, com água em abundância e onde o Povo não terá dificuldade em saciar a sua fome e a sua sede. A abundância de água no deserto, de que o profeta fala, é outra imagem para mostrar a vontade de Deus em cumular o seu Povo de vida plena e abundante.
A marcha do Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade será um novo êxodo, onde se repetirão as maravilhas operadas pelo Deus libertador aquando do primeiro êxodo; no entanto, este segundo êxodo será ainda mais grandioso, quanto à manifestação e à ação de Deus. Será uma peregrinação festiva, uma procissão solene, feita na alegria e na festa.
Qual o papel do Povo em tudo isto? Judá deve recobrar ânimo e acolher, com fé, com coragem, com confiança, os dons de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Para os otimistas, o nosso tempo é um tempo de grandes realizações, de grandes descobertas, em que se abre todo um mundo de possibilidades ao homem; para os pessimistas, o nosso tempo é um tempo de sobreaquecimento do planeta, de subida do nível do mar, de destruição da camada do ozono, de eliminação das florestas, de risco de holocausto nuclear… Para uns e para outros, é um tempo de desafios, de interpelações, de procura, de risco… Como é que nós nos relacionamos com este mundo? Vemo-lo com os olhos da esperança, ou com os óculos negros do desespero?
• Os crentes não podem esquecer que “Deus está aí”: a sua intervenção faz com que o deserto se revista de vida e que na planície árida do desespero brote a flor da esperança. Aos cegos, que caminham pela vida às apalpadelas e que têm dificuldade em descobrir o rumo e o sentido para a sua existência, Deus irá oferecer a luz que lhes indica o caminho seguro para a realização e para a felicidade; aos surdos, fechados no seu egoísmo e na sua auto-suficiência, Deus irá desimpedir os ouvidos para que escutem os gritos de sofrimento dos pobres e para que se comprometam na transformação do mundo; aos coxos, que não conseguem caminhar livremente e estão presos por cadeias de opressão, de injustiça, de pecado, Deus vai oferecer a liberdade; aos mudos, cuja língua está paralisada pelo medo, pelo comodismo, pela preguiça, pela passividade, Deus vai convocá-los e enviá-los como mensageiros da justiça, do amor e da paz. É com a certeza da presença salvadora e amorosa de Deus e com a convicção de que Ele não nos deixará abandonados nas mãos das forças da morte que somos convidados a caminhar pela vida e a enfrentar a história.
• O profeta é o homem que rema contra a maré… Quando todos cruzam os braços e se afundam no desespero, o profeta é capaz de olhar para o futuro com os olhos de Deus e ver, para lá do horizonte do sol poente, um amanhã novo. Ele vai então gritar aos quatro ventos a esperança, fazer com que o desespero se transforme em alegria e que o imobilismo se transforme em luta empenhada por um mundo melhor. É este testemunho de esperança que procuramos dar?
2ª leitura – Tiago 2,1-5 - AMBIENTE
Continuamos hoje a leitura dessa Carta de Tiago, enviada “às doze tribos que vivem na Diáspora” (Tg. 1,1). A expressão indica que os destinatários da missiva são, em primeiro lugar, cristãos de origem judaica, dispersos no mundo greco-romano, sobretudo nas regiões próximas da Palestina – como a Síria, o Egito ou a Ásia Menor; mas a carta serve também para todos os crentes, de todas as épocas, de todas as raças e de todas as latitudes. O objetivo fundamental do autor é exortar os crentes para que não percam os valores cristãos autênticos herdados do judaísmo através dos ensinamentos de Cristo.
O nosso texto pertence à segunda parte da carta (cf. Tg. 2,1-26). Aí, o autor trata dois temas fundamentais: a fé concretiza-se no amor ao próximo, sem qualquer tipo de discriminação ou de acepção de pessoas (cf. Tg 2,1-13); a fé expressa-se, não através de ritos formais ou de palavras ocas, mas através de ações concretas em favor do homem (cf. Tg 2,14-26). No geral, este capítulo convida os crentes a assumir uma fé operativa, que se traduz num compromisso social e comunitário.
MENSAGEM
Jesus não fez qualquer acepção de pessoas, mas a todos acolheu e a todos amou igualmente (mesmo os pobres, os “últimos”, os marginalizados, os pecadores, os doentes). Quem aderiu a Jesus Cristo e procura, com coerência, segui-l’O, tem de assumir os mesmos valores; por isso, não pode marginalizar ninguém ou aceitar qualquer sistema que crie discriminação (v. 1).
Depois da afirmação geral, o autor da carta apresenta exemplos concretos: a comunidade cristã não pode acolher e tratar de forma diferente o rico e o pobre, aquele que se apresenta bem vestido e aquele que se apresenta mal vestido, aquele que é conhecido e famoso e aquele que é humilde e passa despercebido (vs. 2-3). Na comunidade cristã, todos são iguais e dignos de consideração e de respeito, ainda que desempenhem funções diferentes e serviços diversos. Para os seguidores de Jesus, a acepção de pessoas por razões ligadas à riqueza, ao poder, à fama, à posição social, é um esquema perverso, absolutamente incompatível com a fé em Cristo (v. 4).
O nosso texto termina com uma pergunta retórica que parece afirmar a preferência de Deus pelos “pobres deste mundo”, escolhidos “pare serem ricos na fé e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam” (v. 5). Os “pobres deste mundo” são, mais do que uma categoria sociológica, uma categoria religiosa… A expressão designa, na linguagem bíblica, os humildes, os débeis, os pacíficos, aqueles que se apresentam diante de Deus numa atitude de simplicidade, despidos de qualquer atitude de orgulho, de auto-suficiência, de preconceitos; são aqueles que, com humildade e disponibilidade, aceitam os dons de Deus e acolhem as suas propostas com alegria e gratidão.
Porque é que Deus os prefere? Em primeiro lugar, porque são os que mais necessitam de ser libertados e salvos; em segundo lugar, porque são os mais disponíveis para acolher o dom do reino. Não é que o reino de Deus seja uma opção de classe e que os ricos e poderosos não possam, à partida, ter acesso ao reino; mas os ricos, os poderosos, os instalados, com o coração cheio de orgulho e de auto-suficiência, não estão disponíveis para acolher a novidade revolucionária e libertadora do reino… São os “pobres”, na sua simplicidade, humildade e despojamento, na sua ânsia de libertação, que estão preparados para acolher o dom de Deus que se torna presente em Jesus e nos seu projeto.
ATUALIZAÇÃO
• O cristão é, antes de mais, alguém que aderiu a Jesus Cristo, que assumiu os valores que Ele veio propor e que procura concretizar, dia a dia, essa proposta de vida que Ele veio fazer. Ora, Jesus Cristo nunca discriminou nem nunca marginalizou ninguém; sentou-se à mesa com os desclassificados, acolheu os doentes, estendeu a mão aos leprosos, chamou um publicano para fazer parte do seu grupo, teve gestos de bondade e de misericórdia para com os pecadores, disse que os pobres eram os filhos queridos de Deus, amou aqueles que a sociedade religiosa do tempo considerava amaldiçoados e condenados… A comunidade cristã é hoje, no meio do mundo, o rosto de Cristo para os homens; por isso, não faz sentido qualquer acepção de pessoas na comunidade cristã. Naturalmente, isto é uma evidência que ninguém contesta… Mas, na prática, todos são acolhidos na nossa comunidade cristã com respeito e amor? Tratamos com a mesma delicadeza e com o mesmo respeito quem é rico e quem é pobre, quem tem uma posição social relevante e quem a não tem, quem tem um título universitário e quem é analfabeto, quem tem um comportamento religiosamente correto e quem tem um estilo de vida que não se coaduna com as nossas perspectivas, quem se dá bem com o padre e quem tem uma atitude crítica diante de certas opções dos responsáveis da comunidade? Não esqueçamos: a comunidade cristã é chamada a testemunhar o amor, a bondade, a misericórdia, a tolerância de Cristo para com todos os irmãos, sem exceção.
• O problema da discriminação e da marginalização das pessoas põe-se também – e talvez com maior acuidade – nos contactos que estabelecemos fora da comunidade cristã. Encontramos todos os dias no nosso círculo de relações, no nosso universo profissional, no nosso prédio, talvez até na nossa família, pessoas com quem não nos identificamos, de quem não gostamos, a quem não entendemos… É difícil, então, acolhê-las, aceitá-las, entender as suas características e as suas falhas, tratá-las com bondade, com compreensão, com tolerância, com amor. No entanto, nós, os seguidores de Jesus, somos testemunhas dos valores do Evangelho vinte e quatro horas por dia, em qualquer espaço e em qualquer ambiente… A fraternidade, o amor, a misericórdia, a tolerância que Cristo nos propõe têm de informar cada passo da nossa existência e derramar-se sobre aqueles que encontramos em cada instante, mesmo se são de outra raça, se têm outra cultura, se frequentam ambientes diversos, se não concordam com as nossas ideias, se têm uma forma diferente de encarar a vida.
• O nosso texto revela-nos que Deus prefere os pobres, os humildes, os simples. Isto não quer dizer, contudo, que Deus tenha uma opção de classe e que privilegie uns em detrimento de outros… Deus oferece o seu amor, a sua graça e a sua vida a todos; contudo, uns acolhem os seus dons e outros não… O que é decisivo, na perspectiva de Deus, é a disponibilidade para acolher a sua proposta e os seus dons. O nosso texto convida-nos a despir-nos do orgulho, da auto-suficiência, dos preconceitos, para acolher com humildade e simplicidade os dons de Deus.
Evangelho – Mc. 7,31-37 - AMBIENTE
Na fase final da “etapa da Galileia”, multiplicam-se as reações negativas contra Jesus e contra o seu projeto, apesar do rasto de vida nova que Ele vai deixando pelas aldeias e cidades por onde passa. As últimas discussões com os fariseus e com doutores da Lei a propósito de questões legais e da “tradição dos antigos” (cf. Mc. 7,1-23) são uma espécie de gota de água que faz Jesus abandonar o território judeu e refugiar-Se em território pagão.
É nesse contexto que Marcos fala de uma viagem pela Fenícia, que leva Jesus a passar pelos territórios de Tiro e de Sídon – cidades da faixa costeira oriental do mar Mediterrâneo, no atual Líbano (cf. Mc. 7,24). No regresso dessa incursão pela Fenícia, Jesus teria dado uma longa volta pelo território pagão da Decápole (cf. Mc. 7,31). A Decápole (“dez cidades”) era o nome dado ao território situado na Palestina oriental, estendendo-se desde Damasco, ao norte, até Filadélfia, ao sul. O nome servia para designar uma liga de dez cidades, que se formou depois da conquista da Palestina pelos romanos, no ano 63 a.C.. As “dez cidades” que formavam esta liga eram helenísticas e não estavam sujeitas às leis judaicas. As cidades que integravam a Decápole (bem como os territórios circundantes a cada uma dessas cidades) estavam sob a administração do legado romano da Síria. Eram território pagão, considerado pelos judeus completamente à margem dos caminhos da salvação.
É nesse ambiente geográfico e humano que o episódio da cura do surdo-mudo nos vai situar. O gesto de Jesus de curar o surdo-mudo deve ser visto como mais um passo no anúncio desse projeto que Jesus vai propondo por toda a Galileia: o projeto do Reino de Deus.
MENSAGEM
Num lugar não identificado da região da Decápole, Jesus encontrou-Se com um surdo-mudo. As pessoas que trouxeram o surdo-mudo suplicaram a Jesus “que impusesse as mãos sobre Ele” (v. 32). Na seqüência Marcos descreve, com grande abundância de pormenores (alguns bem estranhos), como Jesus curou o doente e lhe deu a possibilidade de comunicar.
Contudo, depois de ler a narração deste episódio, ficamos com a sensação de que Marcos quer muito mais do que contar uma simples cura de um surdo-mudo… A descrição de Marcos, enriquecida com um número significativo de elementos simbólicos, é uma catequese sobre a missão de Jesus e sobre o papel que Ele desenvolve no sentido de fazer nascer um Homem Novo.
Vejamos, de forma esquemática, os elementos principais dessa catequese que Marcos apresenta.
1. No centro da cena está Jesus e o surdo-mudo (literalmente, “um surdo que tinha também um problema na fala”). Se a linguagem é um meio privilegiado de comunicar, de estabelecer relação, o surdo-mudo é um homem que tem dificuldade em estabelecer laços, em partilhar, em dialogar, em comunicar. Por outro lado, num universo religioso que considera as enfermidades físicas como consequência do pecado, o surdo-mudo é, de forma notória, um “impuro”, um pecador e um maldito. Finalmente, o surdo-mudo vive no território pagão da Decápole: é provavelmente um desses pagãos que a teologia judaica considerava à margem da salvação.
Na catequese de Marcos, este surdo-mudo representa todos aqueles que vivem fechados no seu mundo, na sua pobre auto-suficiência, de ouvidos fechados às propostas de Deus e de coração fechado à relação com os outros homens. Representa também aqueles que a teologia oficial considerava pecadores e malditos, incapazes de estabelecer uma relação verdadeira com Deus, de escutar a Palavra de Deus e de viver de forma coerente com os desafios de Deus. Representa ainda esses “pagãos” que os judeus desprezavam e que consideravam completamente alheados dos caminhos da salvação.
2. O encontro com Jesus transforma radicalmente a vida desse surdo-mudo. Jesus abre-lhe os ouvidos e solta-lhe a língua (v. 35), tornando-o capaz de comunicar, de escutar, de falar, de partilhar, de entrar em comunhão. Na história deste surdo-mudo, Marcos representa a missão de Jesus, que veio para abrir os ouvidos e os corações dos homens, quer à Palavra e às propostas de Deus, quer à relação e ao diálogo com os outros homens. O episódio lembra-nos imediatamente o anúncio de Isaías na primeira leitura: “Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-vos. Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria” (Is 35,4-6). Jesus é efetivamente o Deus que veio ao encontro dos homens, a fim de os libertar das cadeias do egoísmo, do comodismo, da auto-suficiência, dos preconceitos religiosos que impedem a relação, o diálogo, a comunhão com Deus e com os irmãos.
3. Aparentemente, não é o surdo-mudo que tem a iniciativa de se encontrar com Jesus (“trouxeram-Lhe um surdo que mal podia falar”; “suplicaram-Lhe que lhe impusesse as mãos sobre ele” – v. 32). O surdo-mudo, instalado e acomodado a essa vida sem relação, não sente grande necessidade de abrir as janelas do seu coração para o encontro e para a comunhão com Deus e com os irmãos. É preciso que alguém o traga, que o apresente a Jesus, que o empurre para essa vida nova de amor e de comunhão. É esse o papel da comunidade cristã… Os que já descobriram Jesus, que se deixaram transformar pela sua Palavra, que aceitaram segui-l’O, devem dar testemunho dessa experiência e desafiar outros irmãos para o encontro libertador com Jesus.
4. A sós com o surdo-mudo, Jesus realiza gestos significativos: mete-lhe os dedos nos ouvidos, faz saliva e toca-lhe com ela a língua (v. 33). Tocar com o dedo significava transmitir poder; a saliva transmitia, pensava-se, a própria força ou energia vital (equivale ao sopro de Deus que transformou o barro inerte do primeiro homem num ser dotado de vida divina – cf. Gn 2,7). Assim, Jesus transmitiu ao surdo-mudo a sua própria energia vital, dotando-o da capacidade de ser um Homem Novo, aberto à comunhão com Deus e à relação com os outros homens.
5. O gesto de Jesus de levantar os olhos ao céu (v. 34) deve ser entendido como um gesto de invocação de Deus. Para Jesus, os grandes momentos de decisão e de testemunho são sempre antecedidos de um diálogo com o Pai. Dessa forma, torna-se evidente a ligação estreita entre Jesus e o Pai, entre a ação que Jesus cumpre no meio dos homens e os projetos do Pai. Os gestos de Jesus no sentido de dar vida ao homem, de o libertar do seu fechamento e da sua auto-suficiência, de o abrir à relação, são gestos que têm o aval do Pai e que se inserem no projeto salvador do Pai.
6. De acordo com Marcos, Jesus teria pronunciado a palavra “effathá” (“abre-te”), quando abriu os ouvidos e desatou a língua do surdo-mudo. Não se trata de uma fórmula mágica, com especiais virtudes curativas… É um convite ao homem fechado no seu mundo pessoal a abrir o coração à vida nova da relação com Deus e com os irmãos. É um convite ao surdo-mudo a sair do seu fechamento, do seu comodismo, do seu egoísmo, da sua instalação, para fazer da sua vida uma história de comunhão com Deus e de partilha com os irmãos. O processo de transformação do surdo-mudo em Homem Novo não é um processo em que só Jesus age e onde o homem assume uma atitude de passividade; mas é um processo que exige o compromisso ativo e livre do homem. Jesus faz as propostas, lança desafios, oferece o seu Espírito que transforma e renova o coração do homem; mas o homem tem de acolher a proposta, optar por Jesus e abrir o coração aos desafios de Deus.
7. No final do relato da cura do surdo-mudo, as testemunhas do acontecimento dizem a propósito de Jesus: “tudo o que Ele faz é admirável” (v. 37). A expressão parece ser um eco de Gn. 1,31 (“Deus, vendo a sua obra, considerou-a muito boa”). Ao enlaçar este relato com o relato da criação do homem, Marcos está a dar-nos a chave de leitura para entender a obra de Jesus: a ação de Jesus no sentido de abrir o coração dos homens à comunhão com Deus e ao amor dos irmãos é uma nova criação. Dessa ação nasce um Homem Novo, uma nova humanidade. Esse Homem Novo é a “admirável” criação de Deus, o homem na plenitude das suas potencialidades, criado para a vida eterna e verdadeira.
ATUALIZAÇÃO
• O Evangelho deste domingo garante-nos, uma vez mais, que o Deus em quem acreditamos é um Deus comprometido conosco, continuamente apostado em renovar o homem, em transformá-lo, em recriá-lo, em fazê-lo chegar à vida plena do Homem Novo. Este Deus que abre os ouvidos dos surdos e solta a língua dos mudos é um Deus cheio de amor, que não abandona os homens à sua sorte nem os deixa adormecer em esquemas de comodismo e de instalação; mas, a cada instante, vem ao seu encontro, desafia-os a ir mais além, convida-os a atingir a plenitude das suas possibilidades e das suas potencialidades. Não esqueçamos esta realidade: na nossa viagem pela vida, não caminhamos sozinhos, arrastando sem objetivo a nossa pequenez, a nossa miséria, a nossa debilidade; mas ao longo de todo o nosso percurso pela história, o nosso Deus vai ao nosso lado, apontando-nos, com amor, os caminhos que nos conduzem à felicidade e à vida verdadeira.
• O surdo-mudo, incapaz de escutar a Palavra de Deus, representa esses homens que vivem fechados aos projetos e aos desafios de Deus, ocupados em construir a sua vida de acordo com esquemas de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, que não precisam de Deus nem das suas propostas. O homem do nosso tempo já nem gasta tempo a negar Deus; limita-se a ignorá-l’O, surdo aos seus desafios e às suas indicações. O que é que as propostas de Deus significam para mim? Dou ouvidos aos apelos e desafios de Deus, ou aos valores e propostas que o mundo me apresenta? Quando tenho que fazer opções, o que é que conta: as propostas de Deus ou as propostas do mundo?
• O surdo-mudo representa também aqueles que não se preocupam em comunicar, em partilhar a vida, em dialogar, em deixar-se interpelar pelos outros… Define a atitude de quem não precisa dos irmãos para nada, de quem vive instalado nas suas certezas e nos seus preconceitos, convencido de que é dono absoluto da verdade. Define a atitude daquele que não tem tempo nem disponibilidade para o irmão; define a atitude de quem não é tolerante, de quem não consegue compreender os erros e as falhas dos outros e não sabe perdoar. Uma vida de “surdez” é uma vida vazia, estéril, triste, egoísta, fechada, sem amor. Não é nesse caminho que encontramos a nossa realização e a nossa felicidade…
• O surdo-mudo representa ainda aqueles que se fecham no egoísmo e no comodismo, indiferentes aos apelos do mundo e dos irmãos. Somos surdos quando escutamos os gritos dos injustiçados e lavamos as nossas mãos; somos surdos quando toleramos estruturas que geram injustiça, miséria, sofrimento e morte; somos surdos quando pactuamos com valores que tornam o homem mais escravo e mais dependente; somos surdos quando encolhemos os ombros, indiferentes, face à guerra, à fome, à injustiça, à doença, ao analfabetismo; somos surdos quando temos vergonha de testemunhar os valores em que acreditamos; somos surdos quando nos demitimos das nossas responsabilidades e deixamos que sejam os outros a comprometer-se e a arriscar; somos surdos quando calamos a nossa revolta por medo, cobardia ou calculismo; somos surdos quando nos resignamos a vegetar no nosso sofá cômodo, sem nos empenharmos na construção de um mundo novo… Uma vida comodamente instalada nesta “surdez” descomprometida é uma vida que vale a pena ser vivida?
• A missão de Cristo consistiu precisamente em abrir os olhos aos cegos e desatar a língua dos mudos… Ele veio abrir-nos à relação com Deus, ao amor dos irmãos, ao compromisso com o mundo. Quem adere a Cristo e quer segui-l’O no caminho do amor a Deus e da entrega aos irmãos, não pode resignar-se a viver fechado a Deus e ao mundo. O encontro com Cristo tira-nos da mediocridade e desperta-nos para o compromisso, para o empenho, para o testemunho. Leva-nos a sair do nosso isolamento e a estabelecer laços familiares com Deus e com todos os nossos irmãos, sem exceção.
• O surdo-mudo da nossa história foi trazido e apresentado a Jesus por outras pessoas. O pormenor lembra-nos o nosso papel no sentido de fazer a ponte entre os irmãos que vivem prisioneiros da “surdez” e a proposta libertadora de Jesus Cristo. Não podemos ficar de braços cruzados quando algum dos nossos irmãos se instala em esquemas de fechamento, de egoísmo, de auto-suficiência; mas, com o nosso testemunho de vida, temos de lhe apresentar essa proposta libertadora que Cristo quer oferecer a todos os homens.
• Antes de curar o surdo-mudo, Jesus “ergueu os olhos ao céu”. O gesto de Jesus recorda-nos que é preciso manter sempre, no meio da ação, a referência a Deus. É necessário dialogarmos continuamente com Deus para descobrir os seus projetos, para perceber as suas propostas, para ser fiel aos seus planos; é preciso tomar continuamente consciência de que é Deus que age no mundo através dos nossos gestos; é preciso que toda a nossa ação encontre em Deus a sua razão última: se isso não acontecer, rapidamente a nossa ação perde todo o sentido.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho


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