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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

24º DOMINGO TEMPO COMUM-B

24º DOMINGO TEMPO COMUM

Evangelho - Mc 8,27-35

-QUEM É JESUS?-José Salviano


13 de Setembro de 2015
Ano B

Quem é Jesus? Quem é Ele?  Quem é esse que até o mar e o vento obedecem?...  Leia mais...



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“E VÓS QUEM DIZEIS QUE EU SOU?” – Olívia Coutinho.

24º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 13 de Setembro de 2015

Evangelho de Mc 8,27-35

É pela fé que reconhecemos Jesus como  o nosso Deus e Senhor, o que não é fruto do saber humano e  sim, do acolhimento a este  dom de Deus que  é a fé! Porém, não basta reconhecer Jesus como Deus e Senhor e nem ser um admirador de suas palavras, é preciso  comprometer-se com Ele, testemunhá-Lo no  dia a dia, aceitar o seu chamado, aderindo à sua proposta de vida nova!
Nossa opção por Jesus, tem que ser radical, isto é: devemos nos entregar a Ele por inteiros, sem reservas!
Muitas vezes, professamos a nossa fé em Jesus e até sentimos atraídos pelas suas propostas, mas quando tomamos conhecimento de que no seguimento a Ele está  presente a cruz, tendemos a recuar, um sinal de que ainda não temos uma fé suficientemente  madura para aceitarmos  o desafio de ser cristão!
O evangelho que nos é apresentado neste domingo vem nos despertar para a importância de conhecermos bem Jesus, de nos tornarmos íntimos Dele! Sem aprofundarmos no conhecimento à Jesus, ficamos na superficialidade da fé, na lógica dos homens, não vamos compreender que, para ganhar a vida, é preciso passar pela cruz!
O texto nos diz que Jesus, no desejo de saber se os seus discípulos já haviam entendido o seu messianismo, pergunta-lhes: “Quem dizem as pessoas ser o Filho do Homem? Para esta pergunta, surgiram várias resposta, afinal, é fácil responder em nome do outro, não compromete! Já quando esta mesma pergunta é direcionada aos discípulos, vem o silencio, pois desta vez, a pergunta requer uma resposta pessoal, o  que exige comprometimento!
Pedro foi o único que respondeu, e respondeu com firmeza: “Tu és o Messias.” Ao mesmo tempo, que Pedro   reconhece Jesus como sendo  o Filho  de Deus,  ele demonstra não  haver  assumido de fato a condição  de verdadeiro discípulo, pois ele ainda  caminhava na obscuridade, carregando consigo a mentalidade do mundo, alimentando dentro de  si,  a ideia de um Messias glorioso, mas  sem a cruz! Quando Jesus fala do  desfecho da sua trajetória terrena, Pedro interpela-o, não admitindo que Jesus, fosse passar  por tamanho sofrimento! Ao mesmo tempo que Jesus  repreende Pedro com palavras duras, Eleentende a dificuldade dos discípulos  em aceitar o desafio da cruz, por isso, Ele  insiste em   fazê-los compreender  que sem cruz, é impossível entender quem é Ele e o que significa  segui-Lo!
Jesus proíbe severamente aos discípulos de revelar a sua identidade, afinal, um povo que esperava por  um Messias triunfalista, com poderes políticos, jamais aceitaria um Messias  na condição de servo, alguém que tivesse o olhar voltado para os pequenos!  Jesus  sabia que não seria reconhecido como  Filho de Deus sem antes passar pela cruz! 
Hoje, depois  de ter passado pela cruz, de nos ter dado tão grande prova de amor, não precisamos esperar que Jesus nos faça perguntas, para darmos a  Ele, a nossa resposta de amor!
Façamos a nós mesmo uma pergunta: “O que temos  feito da nossa  vida, que custou a vida de Jesus? Com certeza, a nossa resposta chegará até  Ele, não com palavras, e sim, com as nossas atitudes do dia a dia! É nas nossas ações do dia a dia, que vamos respondendo  ao  tão grande amor de Jesus por nós!
O seguimento à  Jesus, inclui  à cruz, pois a nossa  adesão a Ele, nos leva a atitudes que contrariam  os seus opositores!
Estar disposto a carregar a cruz, não é buscar o sofrimento, e sim, assumir as consequências  de uma vida pautada no exemplo de Jesus,  uma vida coerente com o evangelho.
Sem aprofundarmos no conhecimento a Jesus, ficamos  no superficial da fé, na lógica dos homens,  não iremos  compreender, que, para ganhar a vida, é preciso passar pela cruz!

FIQUE NA PAZ DE JESUS!
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Jesus, o Messias “diferente”
Chegamos ao ponto culminante da “pedagogia” messiânica de Jesus (evangelho). Até agora, todo mundo e também os discípulos foram descobrindo traços excepcionais em Jesus. Uns o consideravam João Batista reencarnado; outros Elias, de volta para anunciar o Dia de Javé (cf. Ml. 3,23-24). Mas Simão Pedro, falando pelos Doze, diz claramente: “Tu és o Messias”. Agora, Jesus lhes faz ver o que se deve entender por esse título. Pedro pensava provavelmente num “Filho de Davi”, num guerreiro, herói nacional, libertador da opressão estrangeira etc. Mas Jesus quer revelar um outro sentido do ser Messias. Proíbe aos Doze falar daquilo que Pedro reconheceu, pois levaria a perigosos mal-entendidos (com isso, Mc justifica por que Jesus em sua vida não se fez conhecer como Messias). Ensina-lhes que o “Filho do Homem” – a figura que encarnava a intervenção escatológica de Deus, cf. Dn. 7,13-14 – devia sofrer, morrer e ressuscitar (mas parece que Pedro nem ouviu este último verbo, pois reage violentamente com “isso nunca de minha vida”). Réplica de Jesus: “Vai atrás de mim, Satanás, pois tu estás preocupado com o que Deus quer e sim com o que os homens querem”. Que censura para aquele que, pouco antes, liderou a proclamação da fé messiânica!
A partir deste episódio começa a segunda parte do evangelho de Mc. Já não descreve as lidas de Jesus com a multidão, e sim, o ensinamento aos Doze, as discussões com o judaísmo de Jerusalém e a Paixão e Morte. Explica o modo de ser messias de Jesus, não o modo do poder externo, do messianismo político, mas o modo que atinge o interior das pessoas, prefigurado na figura do Servo Padecente do Senhor (cf. 1a leitura). Jesus mostra uma nova “leitura” do messianismo veterotestamentário. Em vez do messianismo guerreiro, lembra os cânticos do Servo Padecente, sobretudo ls. 52,13-53,12; os textos de Sf. sobre os pobres de Javé; de Zc. 9 e 12 sobre o messias manso e humilde e o bom pastor; de Dn. 9,25-26, sobre o “Ungido” morto pela população da cidade etc. Mas ao mesmo tempo, diverge do messianismo corriqueiro sob um outro ângulo ainda: esse messias sofredor tem a autoridade do Filho do Homem (Mc. 2,10-28; 8,38 etc.); é o executivo escatológico de Deus. E, contudo, é rejeitado e morto. Este paradoxo é que provocou a veemente reação de Pedro, e é exatamente o que devemos aprender a aceitar.
Para apreender um mistério existe só um caminho: penetrar nele. Um teorema aprende-se rodeando-o com raciocínios: “compreende”-se. Um mistério não. Não cabe em nossos raciocínios, transborda-os. Envolve-nos. Só se entende penetrando nele. Quem quer aceitar Jesus, tem que o conhecer por dentro. Tem que repartir sua experiência. Tem que ir com ele, ser seu seguidor, seu discípulo. O mistério da cruz só se entende assumindo-o (como espírito do Mestre, é claro). Quem se quer salvaguardar, perde sua chance. Mas quem se arrisca, realiza-se de uma maneira que nunca antes suspeitou. Nisto consiste a “revelação”. Não em doutrinas intelectuais, mas na opção por um caminho diferente para viver, que Jesus nos mostra e abre: o caminho da cruz.
A 2ª  leitura, como toda a Carta de Tiago, oferece exemplos do que é o caminho da cruz, da negação de si mesmo. Não é imediatamente um martírio público ou sei lá o quê. É a abnegação de si mesmo nas pequenas coisas práticas. Não apenas desejar bem-estar aos outros, mas repartir com eles do que é seu, tirar algo de si para ser realmente irmão e “próximo” do necessitado. Fé não é uma adesão meramente intelectual; é escolher o caminho da negação de si em prol do irmão. E isso, porque Cristo no-lo mostrou. Porque lhe damos crédito, na experiência única que ele teve de Deus e que ele quer repartir conosco.
Uma atitude fundamental para realizarmos essa participação é a “obediência”, no sentido bíblico: o “dar audiência” àquilo que é maior do que nós: o mistério de Deus, que normalmente se apresenta em nossos irmãos. Esta obediência é que caracteriza o Servo de Javé (Is. 50,4b) e aquele que realiza plenamente o caminho do Servo, Jesus Cristo (Fl. 2,8). Não a obediência constrangida do medo do inferno, mas a obediência do amor, o tornar-se atento para o amado. A liturgia de hoje, nas suas orações, nos convida a esta atitude: servir Deus de todo o coração, para sentir seu amor por nós (idéia da participação; oração do dia); sermos movidos não mais por nossos impulsos, mas pelo sacramento, ou seja, o sinal que toma o amor de Deus eficaz em nós (oração final).
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Jesus inicia uma conversa com os seus discípulos questionando: "Quem dizem os homens que eu sou?"
A questão parece simples, de fácil resposta e, no entanto, surgem muitas opiniões. Para o povo Ele era simplesmente um profeta.
Ele insiste, e quer saber o que dizem também os seus discípulos sobre Si, e é Pedro quem responde, em nome de todos, que Jesus é o Messias.
Pedro havia sido ungido por Deus e inspirado pelo Espírito Santo para dizer esta Verdade, pois ninguém nunca havia dito isto antes, e é aí que se encontra a confirmação, pois Pedro não repete o que já ouviu de um homem, mas sim o que ouviu de Deus.
Até aquele momento Jesus não havia se declarado Filho de Deus.  A resposta está certa, mas Ele os proíbe de falar essa verdade ao povo para se proteger, e evitar que a sua missão seja mal entendida, principalmente pelos fariseus e doutores da lei.
Embora Pedro reconhecesse Jesus como Messias, a sua resposta precisava de uma correção muito importante, pois para o povo hebreu, o termo Messias queria dizer “o poderoso salvador de Deus”, e essa não era a verdadeira identidade de Jesus, que o corrige e não o poupa. Jesus o trata como o tentador do deserto, ordenando que se coloque no seu lugar, ou seja, atrás do Mestre, e diz que seu caminho é um caminho de sofrimento, e que o caminho do Messias é o caminho da cruz que continua a ser, para muitos, de difícil compreensão. O Filho do Homem não encontrará acolhida entre os chefes, autoridades e doutores, ao contrário, O perseguirão.
Tudo o que Jesus fala sobre seu sofrimento aos discípulos é relativo a sua Paixão, está nas Escrituras e precisa se cumprir. Jesus é o Servo Sofredor descrito por Isaías, e quem quer segui-Lo precisa estar consciente desse caminho de sofrimento, o termo mostra claramente a necessidade de o Salvador passar pelo sofrimento e a morte para realizar seu plano de salvação. Mas Pedro e os discípulos não estavam preparados para ouvir isso!
Pedro, como verdadeiro judeu, escandaliza-se com a cruz que é sinônimo de maldição. Ele que afirmou com tanta segurança ser Jesus o Messias, também é o primeiro a reagir reprovando-O.
Aos poucos, com o tempo, os apóstolos aprendem esta lição e todos, de um modo ou de outro, irão carregar a sua própria cruz e darão a vida por Cristo.
Ainda hoje, o Jesus do calvário permanece um mistério! Porém é preciso entender que Deus fez brotar da morte a vida!

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Tu és o Messias
A pessoa de Jesus não se enquadrava nas categorias da época e era interpretada de formas as mais variadas. Seu modo de ser austero e a maneira incisiva de sua pregação levavam alguns a confundi-lo com João Batista ou com Elias. Pensava-se que Jesus tivesse como que feito reviver em si estas figuras. A postura de Jesus era também identificada com as dos profetas do passado, cujas vidas pareciam servir-lhe de inspiração.
Jesus quis saber a opinião dos discípulos a seu respeito, por não estar bem seguro de como o consideravam. A resposta foi dada por Pedro, em nome do grupo, de maneira correta, e convenceu a Jesus. Ele, de fato, era o Messias.
Entretanto, o Mestre sentiu-se na obrigação de oferecer aos discípulos pistas para a correta compreensão de sua condição messiânica. Seu messianismo leva-lo-ia a confrontar-se com a rejeição das autoridades e com a morte violenta. Ele, no entanto, estava também destinado à ressurreição.
As expectativas em voga giravam em torno de um futuro Messias revestido de glória e poder. Os discípulos, pois, tiveram de fazer um esforço gigantesco para introduzir o sofrimento no messianismo do Mestre. Jamais se esperava um Messias sofredor, como Jesus se proclamava ser. Os discípulos viram-se, portanto, na obrigação de refazer seus esquemas.
Oração 
Senhor Jesus, faze-me compreender que escolheste o caminho da cruz e do sofrimento, para realizar a missão recebida do Pai.
padre Jaldemir Vitório

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Quem é Jesus Cristo?
Viver por causa de Cristo e de seu Evangelho pode se tornar o lema da vida de cada um de nós na medida em que descobrimos a pessoa de Jesus e os valores que Ele nos propõe. A frase pode ser uma motivação constante que nos orienta em nossas tomadas de posição. Se todas as pessoas numa comunidade assumirem este lema elas se sentirão motivadas a uma ação comum na mesma direção: a de Cristo e de seu Evangelho.
Quem é Jesus Cristo para mim? Certa vez, Jesus perguntou aos seus discípulos o que os outros andavam dizendo d’Ele, e o que os discípulos diziam. Há muitas ideias e muitas opiniões sobre Jesus. É importante conhecê-las para organizar um bom programa de evangelização. Mais importante, porém, é saber o que pensa de Cristo cada um de nós que nos consideramos membros da sua Igreja. Naquele tempo, diziam que Jesus era João Batista ressuscitado, Elias ou um profeta. Hoje diriam que Jesus é um grande líder, uma energia sobrenatural, um espírito de luz, um grande santo ou um grande homem.
São Pedro respondeu: “Tu és o Messias”. Messias é o ungido de Deus, que foi prometido e que devia vir para restaurar o reino de Davi. É o filho de Deus, o Rei de Israel. São palavras que podem ter vários sentidos na cabeça de quem fala. O que Pedro entendia naquela momento por Messias? Certamente ele não imaginava que fosse o Servo de Deus sofredor. Por isso Jesus logo acrescentou que Ele ia sofrer muito, ser rejeitado pelas autoridades de seu povo, ia ser morto, mas também ressuscitar no terceiro dia. No Evangelho de São Marcos, podemos observar o primeiro anúncio da Paixão, seguido de uma primeira reação, a de São Pedro. Ao reagir, Pedro mostra que pensava do Messias tudo menos alguém que devia sofrer, ser rejeitado e morrer! Daí a reação de Pedro, que puxa Jesus para o lado e lhe diz: “Não diga isso, Senhor! Isso não vai acontecer!”.
Por que Jesus chama Pedro de Satanás e manda que ele se afaste? Porque, diz o próprio Jesus, Pedro não estava pensando como Deus, mas como os homens. No Evangelho de São Marcos, Jesus veio para combater o poder de Satanás. Seus discípulos devem trabalhar com Ele no mesmo combate e não bandear para o lado de Satanás. O poder demoníaco é um poder de dominação, nunca de entrega, de serviço ou de sofrimento salvador. Naquele momento Jesus diz que Pedro estava do lado oposto, o lado do adversário, que seu pensamento não era o de Deus.
Vejam a propaganda vocacional do Evangelho de São Marcos: “Se alguém quer ser discípulo de Jesus deve renunciar a si mesmo, tomar a cruz e segui-lo”. Deve viver “por causa de Cristo e de seu Evangelho”. Qualquer outra motivação é demoníaca.
O Messias é o Servo Sofredor, firme e perseverante, que tem a proteção de Deus e não teme o adversário. Como Ele, seus seguidores não vivem de palavras e sim de ações concretas em favor dos outros, o que supõe sacrifício, renúncia e constante motivação.
Quais são os valores que povoam a nossa mente? Com que critérios analisamos e julgamos as pessoas, os acontecimentos, as estruturas da vida social e religiosa? Perdemos a coragem? Desanimamos? É necessário rever constantemente os próprios valores e renovar as motivações para perseverar no caminho de Cristo e de seu Evangelho.
cônego Celso Pedro da Silva

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O Evangelho que acabamos de ouvir apresenta-nos, caríssimos, alguns dos aspectos mais essenciais da nossa fé cristã, aspectos que jamais poderemos esquecer se quisermos ser realmente fiéis a Nosso Senhor. Vejamo-los um a um:
Primeiro. A pergunta de Jesus: “Quem dizem os homens que eu sou?” Notem que as respostas são muitas: umas erradas, outras imprecisas, nenhuma satisfatória. Estejamos atentos a este fato: somente a razão humana, entregue às suas próprias forças, jamais alcançará verdadeiramente o mistério de Cristo. A verdade sobre o Senhor, sua realidade mais profunda, sua obra salvífica, o mistério de sua pessoa e de sua missão, sua absoluta necessidade para que o mundo encontre salvação, vida e paz somente podem ser compreendidos à luz da fé, isto é, daquela humilde atitude de abertura para o Senhor que nos vem ao encontro e nos fala. O homem fechado em si mesmo, preso no estreito orgulho da sua razão, jamais poderá de verdade penetrar no mistério de Cristo e experimentar a doçura de sua salvação. Quanto já se disse de Jesus; quanto se diz hoje ainda: já tentaram descrevê-lo como um simples sábio, como um homem bom e justo, como uma espécie de pacifista, como um pregador de uma moral humanista, como um revolucionário, o primeiro comunista, como um hippie, etc. Nós, cristãos, não devemos nos iludir nem nos deixar levar por tais visões do nosso Divino Salvador. Jesus é e será sempre aquilo que a Igreja sempre experimentou, testemunhou e ensinou sobre ele: o Filho eterno do Pai, Deus com o Pai e como o Pai, o Messias, o único Salvador da humanidade, através de quem e para quem tudo foi criado no céu e na terra. Qualquer afirmação sobre Jesus que seja menos que isso, não é cristã e deve ser rejeitada claramente pelos cristãos! 
Segundo. Ante as opiniões do mundo, o Senhor dirige a pergunta a nós, seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Em cada geração, todos nós e cada um de nós devemos responder quem é Jesus. Não se trata de uma resposta somente teórica, teológica, digamos assim. Trata-se de uma resposta que deve ter sérias repercussões na nossa vida. Então: quem é Jesus para mim? Que papel desempenha na minha vida? Como me relaciono com ele? Amo-o? Procuro-o na oração, procuro de todo o meu coração viver na sua palavra? Estou disposto a construir minha existência de acordo com a sua verdade? Deixo-me julgar por ele ou eu mesmo, discretamente, procuro julgá-lo? São perguntas muito atuais, caríssimos, sobretudo hoje, quando nossa sociedade ocidental vira as costas para o Cristo, julgando-o anacrônico e ultrapassado. Agora que a nossa cultura já não considera mais Jesus como aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida, mas julga que a própria razão humana, com seus humores e pretensões, é que é a Verdade e a Luz, é, mais que nunca, essencial que nós proclamemos com a vida, com a palavra e com os costumes que Jesus é realmente o nosso Senhor, o nosso critério, a nossa única Verdade! 
Terceiro. Pedro respondeu quem é Jesus: “Tu és o Messias!”, isto é, “Tu és o Cristo, o Esperado de Israel, aquele que Deus prometera aos nossos Pais!” Recordai, meus caros, que na mesma passagem, em São Mateus, Jesus declara claramente: “Não foi carne nem sangue que te revelaram isto, mas o meu Pai que está nos céus” (Mt. 16,15). Insisto: somente o Pai, na potência do Santo Espírito que habita em nós e na Igreja como um todo, é que pode revelar-nos quem é Jesus. A fé não é uma experiência acadêmica, não é fruto de estudos, não se resume a uma especulação teológica. Para um cristão, crer é entrar na experiência que há dois mil anos a Igreja vem fazendo na Palavra, nos sacramentos, na vida de cada dia: a experiência do Cristo Senhor, que foi morto pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa vida e justificação. Quem se coloca fora dessa fé, da fé da Igreja, já não é realmente cristão! Aqui é muito importante compreender que a nossa fé é pessoal, mas nunca individual: cremos na fé da Igreja, cremos no Cristo da Igreja, cremos como Igreja e com a Igreja. Uma outra fé, um outro Cristo seriam triste ilusão! 
Quarto. O Evangelho nos surpreende com uma afirmação: “Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a seu respeito”. Por quê? Porque havia o perigo de pensar nele como um messias glorioso, um messias como os sonhos dos judeus haviam fabricado: o messias do sucesso, das curas, dos shows da fé, dos palanques políticos, etc. Jesus somente afirmará de modo público que é o Messias quando estiver preso, amarrado, diante do Sumo Sacerdote. Aí já não haverá ocasião para engano. Mas, aqui a pergunta? Também nós, muitas vezes, não temos a tentação de querer um Cristo do nosso modo, sob a nossa medida, para nosso consumo? Amamos o Cristo como ele é ou o renegamos quando não faz como gostaríamos? Estamos realmente dispostos a ir com ele até o fim, crendo nele e nele nos abandonando? 
Quinto. Exatamente para deixar claro que tipo de Messias ele é, Jesus começa a dizer “que o filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado; devia ser morto e ressuscitar depois de três dias. Ele dizia isso abertamente”. Eis, caríssimos, o tipo de Messias, o tipo de Salvador, o tipo de Deus que Jesus é! Será que nos interessa? Estamos nós dispostos a seguir um Mestre assim? 
Sexto. Não será a nossa a mesma atitude de Pedro, que repreende Jesus, que desejaria um mestre mais racional, mais palatável, menos radical? Não é essa a maior tentação nossa: um Cristo sem cruz, um cristianismo sem renúncia, uma vida cristã que não nos custe nada? 
Sétimo. A resposta de Jesus é clara, curta e dirigida perenemente a todos nós: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem quiser perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la!” O caminho é este, sem máscara, sem acordos, sem jeitinhos! Nosso Senhor nunca nos enganou; sempre disse claramente quais as condições para segui-lo... 
Caríssimos, saiamos hoje daqui com estas palavras que nos incomodam, nos provocam e nos desafiam. Que ele nos conceda a graça de reconhecê-lo como nosso único Salvador, de segui-lo como nossa única Verdade e de nele viver como nossa única Vida, ele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
dom Henrique Soares da Costa

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A liturgia do 24º Domingo do Tempo Comum diz-nos que o caminho da realização plena do homem passa pela obediência aos projetos de Deus e pelo dom total da vida aos irmãos. Ao contrário do que o mundo pensa, esse caminho não conduz ao fracasso, mas à vida verdadeira, à realização plena do homem.
A primeira leitura apresenta-nos um profeta anônimo, chamado por Deus a testemunhar a Palavra da salvação e que, para cumprir essa missão, enfrenta a perseguição, a tortura, a morte. Contudo, o profeta está consciente de que a sua vida não foi um fracasso: quem confia no Senhor e procura viver na fidelidade ao seu projeto, triunfará sobre a perseguição e a morte. Os primeiros cristãos viram neste “servo de Jahwéh” a figura de Jesus.
No Evangelho, Jesus é apresentado como o Messias libertador, enviado ao mundo pelo Pai para oferecer aos homens o caminho da salvação e da vida plena. Cumprindo o plano do Pai, Jesus mostra aos discípulos que o caminho da vida verdadeira não passa pelos triunfos e êxitos humanos, mas pelo amor e pelo dom da vida (até à morte, se for necessário). Jesus vai percorrer esse caminho; e quem quiser ser seu discípulo, tem de aceitar percorrer um caminho semelhante.
A segunda leitura lembra aos crentes que o seguimento de Jesus não se concretiza com belas palavras ou com teorias muito bem elaboradas, mas com gestos concretos de amor, de partilha, de serviço, de solidariedade para com os irmãos.
Leitura I – Is. 50,5-9a
Leitura do Livro de Isaías
O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo.
Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba;
não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam.
Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não fiquei envergonhado;
tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.
O meu advogado está perto de mim.
Pretende alguém instaurar-me um processo?
Compareçamos juntos.
Quem é o meu adversário?
Que se apresente!
O Senhor Deus vem em meu auxílio.
Quem ousará condenar-me?
Ambiente
O nosso texto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). “Deutero-Isaías” é um nome convencional com que os biblistas designam um profeta anônimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética na Babilônia, entre os exilados judeus. Estamos na fase final do Exílio, entre 550 e 539 a.C..
A missão do Deutero-Isaías é consolar os exilados judeus. Nesse sentido, ele começa por anunciar a iminência da libertação e por comparar a saída da Babilônia ao antigo êxodo, quando Deus libertou o seu Povo da escravidão do Egito (cf. Is. 40-48); depois, anuncia a reconstrução de Jerusalém, essa cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz sem fim (cf. Is. 49-55).
No meio desta proposta “consoladora” aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is. 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que falam de uma personagem misteriosa e enigmática, que os biblistas designam como o “Servo de Jahwéh”: ele é um predileto de Jahwéh, a quem Deus chamou, a quem confiou uma missão profética e a quem enviou aos homens de todo o mundo; a sua missão cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra; o sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo; Deus aprecia o sacrifício deste “Servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.
Quem é este profeta? É Jeremias, o paradigma do profeta que sofre por causa da Palavra? É o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho da Palavra no ambiente hostil do Exílio? É um profeta desconhecido? É uma figura coletiva, que representa o Povo exilado, humilhado, esmagado, mas que continua a dar testemunho de Deus, no meio das outras nações? É uma figura representativa, que une a recordação de personagens históricas (patriarcas, Moisés, David, profetas) com figuras míticas, de forma a representar o Povo de Deus na sua totalidade? Não sabemos; no entanto, a figura apresentada nesses poemas vai receber uma outra iluminação à luz de Jesus Cristo, da sua vida, do seu destino.
O texto que nos é proposto é parte do terceiro cântico do “servo de Jahwéh”.
Mensagem
O texto dá a palavra a um personagem anônimo, chamado por Deus a dizer aos homens desanimados palavras de alento e de esperança (vers. 4); e o profeta acolheu esse chamamento sem resistência, sem discussão, numa entrega total aos desígnios de Deus (vers. 5).
Por ser fiel ao chamamento de Deus, o profeta conheceu a prisão, a tortura, o sofrimento (vers. 6). O anúncio fiel das propostas de Deus para o mundo e para os homens provoca sempre confrontos com as forças da opressão e da morte… Mas o profeta experimenta o socorro do Senhor e, fortalecido por esse socorro, pode enfrentar todas as contrariedades e dores. Ele nada teme, pois confia plenamente no Senhor e sabe que não ficará desiludido (vers 7-9).
A situação descrita neste poema sugere a de um prisioneiro que, depois de ter sido torturado e maltratado, espera o julgamento que irá decidir o seu destino. Confiando plenamente na ajuda do Senhor, ele espera serenamente o momento em que Deus o irá defender no tribunal, confundindo os seus adversários.
O que mais impressiona neste texto é a serenidade com que o profeta, prisioneiro e sofredor, enfrenta o seu destino. Essa serenidade vem-lhe, não da inconsciência, da insensibilidade ou de uma leviana indiferença perante a morte, mas de uma total confiança no Deus que não falha e que não deixa cair aqueles que ama.
Atualização
•Não sabemos, efetivamente, quem é este “servo de Jahwéh”; no entanto, os primeiros cristãos vão utilizar este texto como grelha para interpretar o mistério de Jesus: Ele foi esse “Servo de Deus” que veio ao mundo para dizer aos homens a Palavra do Pai, que entrou em choque com as forças da opressão e da injustiça, que foi torturado e maltratado porque a sua proposta incomodava os poderosos, que ofereceu a sua vida para trazer a salvação/libertação aos homens… E a história de Jesus – morto pelos homens, mas que Deus ressuscitou e glorificou – confirma a esperança do “Servo de Jahwéh”: quem confia em Deus e vive na fidelidade às suas propostas, não sairá decepcionado. O exemplo de Jesus mostra que uma vida colocada ao serviço dos projetos de Deus não termina no fracasso, mas na ressurreição que gera vida nova.
• Uma das coisas que sobressai nesta “partilha de vida” que o “Servo de Jahwéh” faz conosco é a forma absoluta como ele se entrega aos projetos de Deus. Diante do chamamento de Deus, ele não resiste, não discute, “não recua um passo”; mas assume, com total obediência e fidelidade, os desafios que Deus lhe faz, mesmo quando tem de percorrer um caminho de sofrimento e de morte. Para nós que vivemos envolvidos pela cultura da facilidade e do comodismo, para nós que temos medo de arriscar, para nós que preferimos fechar-nos no nosso “cantinho” protegido, arrumado e seguro, o “Servo de Jahwéh” constitui uma poderosa interpelação… É preciso abraçar, com coragem e coerência o projeto que Deus nos confia, mesmo quando esse projeto se cumpre no meio da oposição do mundo; é preciso deixarmo-nos desafiar por Deus e acolher, com generosidade, as propostas que Ele nos faz; é preciso assumirmos o papel que Deus nos chama a desempenhar e empenharmo-nos na transformação do mundo.
• Outra das coisas que sobressai nesta “partilha de vida” que o “Servo de Jahwéh” faz conosco é a sua total confiança em Deus. Para ele, Deus é, efetivamente, essa “rocha segura” que se mantém sempre firme e a que o crente se pode agarrar, mesmo quando tudo o resto parece cair. A certeza da fidelidade de Deus, da sua presença, do seu amor deve permitir-nos (como permitiu ao “Servo”) encarar a vida com serenidade e confiança. O crente que confia em Deus sente-se seguro e protegido, como uma criança ao colo da sua mãe. Dessa forma, o crente poderá viver livre do medo, com o coração em paz, e aceitando tranquilamente os desafios que Deus lhe faz.
• O “Servo” sofredor que põe a sua vida, integralmente, ao serviço do projeto de Deus e da salvação dos homens mostra-nos o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido. Temos a coragem de fazer da nossa vida uma entrega radical ao projeto de Deus e à libertação dos nossos irmãos? O que é que ainda entrava a nossa aceitação de uma opção deste tipo? Temos consciência de que, ao escolher este caminho, estamos a gerar vida nova, para nós e para todos aqueles com quem nos cruzamos nos caminhos deste mundo?
Salmo responsorial – Salmo 114 (116)
Refrão 1: Andarei na presença do Senhor sobre a terra dos vivos.
Refrão 2: Caminharei na terra dos vivos na presença do Senhor.
Refrão 3: Aleluia.
Amo o senhor, porque ouviu a voz da minha súplica.
Ele me atendeu no dia em que O invoquei.
Apertaram-me os laços da morte, caíram sobre mim as angústias do além, vi-me na aflição e na dor. Então invoquei o Senhor: «Senhor, salvai a minha alma».
Justo e compassivo é o Senhor, o nosso Deus é misericordioso.
O Senhor guarda os simples: estava sem forças e o Senhor salvou-me.
Livrou da morte a minha alma, das lágrimas os meus olhos, da queda os meus pés.
Andarei na presença do Senhor,
sobre a terra dos vivos.
Leitura II – Tiago 2,14-18
Leitura da Epístola de São Tiago
Meus irmãos:
De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras?
Poderá essa fé obter-lhe a salvação?
Se um irmão ou uma irmã não tiverem que vestir e lhes faltar o alimento de cada dia, e um de vós lhe disser: «Ide em paz.
Aquecei-vos bem e saciai-vos», sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes servem as vossas palavras?
Assim também a fé sem obras está completamente morta.
Mas dirá alguém: «Tu tens a fé e eu tenho as obras».
Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé.
Ambiente
Continuamos a reflexão dessa “Carta de Tiago” que nos tem acompanhado nos últimos domingos. Trata-se, segundo parece, de uma carta enviada aos cristãos de origem judaica, dispersos no mundo greco-romano, sobretudo nas regiões próximas da Palestina – como a Síria, o Egito ou a Ásia Menor. O objetivo fundamental do autor é exortar os crentes para que não percam os valores cristãos autênticos herdados do judaísmo através dos ensinamentos de Cristo. O nosso texto pertence à segunda parte da carta (cf. Tg. 2,1-26). Aí, o autor trata dois temas fundamentais: a fé concretiza-se no amor ao próximo, sem qualquer tipo de discriminação ou de acepção de pessoas (cf. Tg. 2,1-13); a fé expressa-se, não através de ritos formais ou de palavras ocas, mas através de ações concretas em favor do homem (cf. Tg. 2,14-26). No geral, este capítulo convida os crentes a assumir uma fé operativa, que se traduz num compromisso social e comunitário.
Mensagem
O nosso texto refere-se à relação entre a fé e as obras. A tese do autor da Carta de Tiago é que a fé sem obras não serve para nada (vers. 14.17).
O tema da relação entre a fé e as obras foi objeto de muitas discussões, sobretudo a partir do séc. XVI. Paulo, na Carta aos Romanos, considera que “é pela fé que o homem é justificado, independentemente das obras da Lei” (Rom. 3,28); e esta afirmação de Paulo serviu a Lutero para fundamentar a sua teologia da salvação pela fé: a salvação não depende das ações do homem, mas é um dom gratuito e imerecido que Deus, na sua infinita misericórdia, oferece ao homem. Contudo, servindo-se da Carta de Tiago, muitos outros teólogos defendiam que o homem precisava de realizar ações concretas para chegar à salvação, pois a fé sem obras não vale nada.
Na verdade, o texto da Carta de Tiago não nasceu no contexto de uma polemica que contrapunha a fé às obras. O autor da Carta de Tiago nunca esteve interessado em dizer que as obras são importantes e que a fé não tem qualquer valor… O que ele quer dizer é que a fé tem de traduzir-se em ações concretas de compromisso com o mundo e com os homens. Se isso não acontecer, essa fé é apenas uma declaração de boas intenções, mas que não passa de uma farsa sem valor e sem conteúdo.
A adesão a Jesus e ao seu projeto (fé) significa que o homem está disposto a acolher essa vida nova e plena que Deus, gratuitamente e sem condições, lhe oferece (salvação). Essa vida, interiorizada e assumida, tem de transparecer em gestos de amor, de solidariedade, de fraternidade, de serviço, de partilha, de perdão. A vivência da fé tem, portanto, de se traduzir na vida do dia a dia, especialmente na forma como se vive a relação com esses irmãos com quem nos cruzamos nos caminhos do mundo. Se isso não acontece, quer dizer que a fé (adesão à proposta de vida que Deus, gratuitamente, faz) é uma mentira.
Os bonitos discursos que fazemos, os conselhos muito sábios que damos, as teorias bem elaboradas que apresentamos, as reflexões muito piedosas que impingimos, não passam de belas palavras que podem não significar nada. Quando um irmão tem fome, ou não tem que vestir, ou está a sofrer, é preciso ir ao seu encontro e manifestar-lhe, com gestos concretos, o nosso amor, a nossa solidariedade, a nossa fraternidade. A nossa religião tem de manifestar-se na vida e tem de transparecer nos nossos gestos.
Atualização
•O que é ser cristão? O nosso compromisso cristão é algo que se vive a nível da teoria, ou do compromisso vital? O que caracteriza um cristão não é o conhecimento de belas fórmulas que expressam uma determinada ideologia, nem o cumprimento exato de ritos vazios e estéreis, nem uma assinatura feita no livro de registros de batismo da paróquia, mas é a adesão a Cristo. Ora, aderir a Cristo (fé), significa conformar, a cada instante, a própria vida com os valores de Cristo, seguir Cristo a par e passo no caminho do amor a Deus e da entrega total aos irmãos. Não se pode fugir a isto: a nossa caminhada cristã não é um processo teórico e abstrato concretizado num reino de belas palavras; mas é um compromisso efetivo com Cristo que tem de se traduzir, a cada instante, em gestos concretos em favor dos irmãos.
• Que gestos são esses? São os mesmos gestos que Cristo realizou e que o tornaram, aos olhos dos seus concidadãos, um sinal de Deus. Ora, Cristo lutou pela justiça e pela verdade, denunciou tudo aquilo que escravizava o homem e o impedia de ser feliz, foi ao encontro dos marginalizados e manifestou-lhes o amor de Deus, realizou gestos de serviço e de partilha, distribuiu o perdão e a paz, ofereceu a sua própria vida para salvar os seus irmãos. Assim, quem segue a Cristo tem de lutar, objetivamente, contra as estruturas que geram injustiça e opressão; tem de acolher e amar aqueles que a sociedade marginaliza e rejeita; tem de denunciar uma sociedade construída sobre esquemas de egoísmo e de mostrar, com o seu testemunho, que só a partilha e o amor tornam o homem feliz; tem de quebrar a espiral da violência e do ódio e propor a tolerância e o amor…
• Por vezes há uma profunda dicotomia, nas nossas comunidades cristãs, entre a fé e a vida. O nosso compromisso religioso traduz-se em liturgias soleníssimas, em procissões suntuosas, na construção de igrejas esplendorosas, em rituais fascinantes… e mais nada. Depois, na vida da comunidade, há desunião, há conflito, há falta de solidariedade, há indiferença para com as necessidades do irmão, há críticas destrutivas, há palavras que ferem e afastam os outros, há gestos de arrogância, há falta de amor… De acordo com os ensinamentos da Carta de Tiago, a nossa religião será verdadeira se não se traduzir em gestos concretos de amor e de fraternidade?
• Por vezes, há uma profunda dicotomia, nas nossas vidas pessoais, entre a fé e a vida. O nosso compromisso cristão traduz-se na participação certa nas eucaristias dominicais, na oferta de chorudas quantias para as obras da igreja, na participação destacada em manifestações públicas de religiosidade, na pertença a movimentos eclesiais… e mais nada. Depois, na vida do dia a dia, praticamos injustiças, pactuamos com esquemas de corrupção, tratamos com pouca caridade aqueles que vivem ao nosso lado, passamos indiferentes diante das necessidades e dores dos irmãos, marginalizamos aqueles de quem não gostamos, demitimo-nos das nossas responsabilidades na construção de um mundo novo e melhor… De acordo com os ensinamentos da Carta de Tiago, a nossa religião será verdadeira se não se traduzir em gestos concretos de amor e de fraternidade?
Aleluia – cf. Gal. 6,14
Aleluia. Aleluia.
Toda a minha glória está na cruz do Senhor, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.
Evangelho – Mc. 8,27-35
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo, Jesus partiu com os seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe.
No caminho, fez-lhes esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?»
Eles responderam: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas».
Jesus então perguntou-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias».
Ordenou-lhes então severamente que não falassem d’Ele a ninguém.
Depois, começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas;
de ser morto e ressuscitar três dias depois.
E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.
Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O.
Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens».
E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes: «Se alguém quiser seguir-Me,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á;mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho,salvá-la-á».
Ambiente
O texto que nos é hoje proposto é um texto central no Evangelho segundo Marcos. Apresenta-nos os últimos versículos da primeira parte (cf. Mc. 8,27-30) e os primeiros versículos da segunda parte (cf. Mc. 8,31-35) deste Evangelho.
A primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc. 1,14-8,30) tem como objetivo fundamental levar à descoberta de Jesus como o Messias que proclama o Reino de Deus. Ao longo de um percurso que é mais catequético do que geográfico, os leitores do Evangelho são convidados a acompanhar a revelação de Jesus, a escutar as suas palavras e o seu anúncio, a fazerem-se discípulos que aderem à sua proposta de salvação. Este percurso de descoberta do Messias que o catequista Marcos nos propõe termina, em Mc. 8,29-30, com a confissão messiânica de Pedro, em Cesareia de Filipe (que é, evidentemente, a confissão que se espera de cada crente, depois de ter acompanhado o percurso de Jesus a par e passo): “Tu és o Messias”.
Depois, vem a segunda parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc. 8,31-16,8). Nesta segunda parte, o objetivo do catequista Marcos é explicar que Jesus, além de ser o Messias libertador, é também o “Filho de Deus”. No entanto, Jesus não veio ao mundo para cumprir um destino de triunfos e de glórias humanas, mas para oferecer a sua vida em dom de amor aos homens. Ponto alto desta “catequese” é a afirmação do centurião romano junto da cruz (que Marcos convida, implicitamente, os seus cristãos a repetir): “realmente este homem era o Filho de Deus” (Mc. 15,39).
Cesareia de Filipe – o quadro geográfico onde o Evangelho de hoje nos coloca – era uma cidade situada no Norte da Galileia, perto das nascentes do rio Jordão (na zona da atual Bânias). Tinha sido construída por Herodes Filipe (filho de Herodes o Grande) no ano 2 ou 3 a.C., em honra do imperador Augusto.
Mensagem
O nosso texto apresenta, portanto, duas partes bem distintas. Na primeira, Pedro dá voz à comunidade dos discípulos e constata que Jesus é o Messias libertador que Israel esperava; na segunda, Jesus explica aos discípulos que a sua missão messiânica deve ser entendida à luz da cruz (isto é, como dom da vida aos homens, por amor).
A primeira parte do nosso texto (vers. 27-30) começa com Jesus a pôr uma dupla questão aos discípulos: o que é que as pessoas dizem d’Ele e o que é que os próprios discípulos pensam d’Ele?
A opinião dos “homens” vê Jesus em continuidade com o passado (“João Baptista”, “Elias”, ou “algum dos profetas”). Não captam a condição única de Jesus, a sua novidade, a sua originalidade. Reconhecem apenas que Jesus é um homem convocado por Deus e enviado ao mundo com uma missão – como os profetas do Antigo Testamento… Mas não vão além disso. Na perspectiva dos “homens”, Jesus é apenas um homem bom, justo, generoso, que escutou os apelos de Deus e que Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes d’Ele (vers. 28). É muito, mas não é o suficiente: significa que os “homens” não entenderam a novidade de Jesus, nem a profundidade do seu mistério.
A opinião dos discípulos acerca de Jesus vai muito além da opinião comum. Pedro, porta-voz da comunidade dos discípulos, resume o sentir da comunidade do Reino na expressão: “Tu és o Messias” (vers. 29). Dizer que Jesus é o “Messias” (o Cristo) significa dizer que Ele é esse libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o seu Povo e para lhe oferecer a salvação definitiva.
A resposta de Pedro estava correta. No entanto, podia prestar-se a graves equívocos, numa altura em que o título de Messias estava conotado com esperanças político-nacionalistas. Por isso, os discípulos recebem ordens para não falarem disso a ninguém. Era preciso clarificar, depurar e completar a catequese sobre o Messias e a sua missão, para evitar perigosos equívocos. É isso que Jesus vai fazer, logo de seguida.
Na segunda parte do nosso texto (vers. 31-35), há duas questões. A primeira (vers. 31-33) é a explicação dada pelo próprio Jesus de que o seu messianismo passa pela cruz; a segunda (vers. 34-35) é uma instrução sobre o significado e as exigências de ser discípulo de Jesus.
Jesus começa, portanto, por anunciar que o seu caminho vai passar pelo sofrimento e pela morte na cruz (vers. 31-33). Não é uma previsão arriscada: depois do confronto de Jesus com os líderes judeus e depois que estes rejeitaram de forma absoluta a proposta do Reino, é evidente que o judaísmo medita a eliminação física de Jesus. Jesus tem consciência disso; no entanto, não se demite do projeto do Reino e anuncia que pretende continuar a apresentar, até ao fim, os planos do Pai.
Pedro não está de acordo com este final e opõe-se, decididamente, a que Jesus caminhe em direção ao seu destino de cruz. A oposição de Pedro (e dos discípulos, pois Pedro continua a ser o porta-voz da comunidade) significa que a sua compreensão do mistério de Jesus ainda é muito imperfeita. Para ele, a missão do “messias, Filho de Deus” é uma missão gloriosa e vencedora; e, na lógica de Pedro – que é a lógica do mundo – a vitória não pode estar na cruz e no dom da vida.
Jesus dirige-se a Pedro com alguma dureza, pois é preciso que os discípulos corrijam a sua perspectiva de Jesus e do plano do Pai que Ele vem realizar. O plano de Deus não passa por triunfos humanos, nem por esquemas de poder e de domínio; mas o plano do Pai passa pelo dom da vida e pelo amor até às últimas consequências (de que a cruz é a expressão mais radical). Ao pedir a Jesus que não embarque nos projetos do Pai, Pedro está a repetir essas tentações que Jesus experimentou no início do seu ministério (cf. Mc. 1,13); por isso, Jesus responde a Pedro: “Vai-te, Satanás”. As palavras de Pedro pretendem desviar Jesus do cumprimento dos planos do Pai; e Jesus não está disposto a transigir com qualquer proposta que O impeça de concretizar, com amor e fidelidade, os projetos de Deus.
Depois de anunciar o seu destino (que será cumprido, em obediência ao plano do Pai, no dom da própria vida em favor dos homens), Jesus convida os seus discípulos a seguir um percurso semelhante… Quem quiser ser discípulo de Jesus, tem de “renunciar a si mesmo”, “tomar a cruz” e seguir Jesus no caminho do amor, da entrega e do dom da vida.
O que é que significa, exatamente, renunciar a si mesmo? Significa renunciar ao seu egoísmo e auto-suficiência, para fazer da vida um dom a Deus e aos outros. O cristão não pode viver fechado em si próprio, preocupado apenas em concretizar os seus sonhos pessoais, os seus projetos de riqueza, de segurança, de bem estar, de domínio, de êxito, de triunfo… O cristão deve fazer da sua vida um dom generoso a Deus e aos irmãos. Só assim ele poderá ser discípulo de Jesus e integrar a comunidade do Reino.
O que é que significa “tomar a cruz” de Jesus e segui-l’O? A cruz é a expressão de um amor total, radical, que se dá até à morte. Significa a entrega da própria vida por amor. “Tomar a cruz” é ser capaz de gastar a vida – de forma total e completa – por amor a Deus e para que os irmãos sejam mais felizes.
No final desta instrução, Jesus explica aos discípulos as razões pelas quais eles devem abraçar a “lógica da cruz”. Convida-os a entender que oferecer a vida por amor não é perdê-la, mas ganhá-la. Quem é capaz de dar a vida a Deus e aos irmãos, não fracassou; mas ganhou a vida eterna, a vida verdadeira que Deus oferece a quem vive de acordo com as suas propostas (vers. 35).
Atualização
•Quem é Jesus? O que é que “os homens” dizem de Jesus? Muitos dos nossos conterrâneos vêem em Jesus um homem bom, generoso, atento aos sofrimentos dos outros, que sonhou com um mundo diferente; outros vêem em Jesus um admirável “mestre” de moral, que tinha uma proposta de vida “interessante”, mas que não conseguiu impor os seus valores; alguns vêem em Jesus um admirável condutor de massas, que acendeu a esperança nos corações das multidões carentes e órfãs, mas que passou de moda quando as multidões deixaram de se interessar pelo fenômeno; outros, ainda, vêem em Jesus um revolucionário, ingênuo e inconsequente, preocupado em construir uma sociedade mais justa e mais livre, que procurou promover os pobres e os marginais e que foi eliminado pelos poderosos, preocupados em manter o “status quo”. Estas visões apresentam Jesus como “um homem” – embora “um homem” excepcional, que marcou a história e deixou uma recordação imorredoira. Jesus foi apenas um “homem” que deixou a sua pegada na história, como tantos outros que a história absorveu e digeriu?
• “E vós, quem dizeis que Eu sou?” É uma pergunta que deve, de forma constante, ecoar nos nossos ouvidos e no nosso coração. Responder a esta questão não significa papaguear lições de catequese ou tratados de teologia, mas sim interrogar o nosso coração e tentar perceber qual é o lugar que Cristo ocupa na nossa existência… Responder a esta questão obriga-nos a pensar no significado que Cristo tem na nossa vida, na atenção que damos às suas propostas, na importância que os seus valores assumem nas nossas opções, no esforço que fazemos ou que não fazemos para o seguir… Quem é Cristo para mim? Ele é o Messias libertador, que o Pai enviou ao meu encontro com uma proposta de salvação e de vida plena?
• Frente a frente o Evangelho deste domingo coloca a lógica dos homens (Pedro) e a lógica de Deus (Jesus). A lógica dos homens aposta no poder, no domínio, no triunfo, no êxito; garante-nos que a vida só tem sentido se estivermos do lado dos vencedores, se tivermos dinheiro em abundância, se formos reconhecidos e incensados pelas multidões, se tivermos acesso às festas onde se reúne a alta sociedade, se tivermos lugar no conselho de administração da empresa. A lógica de Deus aposta na entrega da vida a Deus e aos irmãos; garante-nos que a vida só faz sentido se assumirmos os valores do Reino e vivermos no amor, na partilha, no serviço, na solidariedade, na humildade, na simplicidade. Na minha vida de cada dia, estas duas perspectivas confrontam-se, a par e passo… Qual é a minha escolha? Na minha perspectiva, qual destas duas propostas apresenta um caminho de felicidade seguro e duradouro?
• Jesus tornou-se um de nós para concretizar os planos do Pai e propor aos homens – através do amor, do serviço, do dom da vida – o caminho da salvação, da vida verdadeira. Neste texto (como, aliás, em muitos outros), fica claramente expressa a fidelidade radical de Jesus a esse projeto. Por isso, Ele não aceita que nada nem ninguém O afastem do caminho do dom da vida: dar ouvidos à lógica do mundo e esquecer os planos de Deus é, para Jesus, uma tentação diabólica que Ele rejeita duramente. Que significado e que lugar ocupam na minha vida os projetos de Deus? Esforço-me por descobrir a vontade de Deus a meu respeito e a respeito do mundo? Estou atento a esses “sinais dos tempos” através dos quais Deus me interpela? Sou capaz de acolher e de viver com fidelidade e radicalidade as propostas de Deus, mesmo quando elas são exigentes e vão contra os meus interesses e projetos pessoais?
• Quem são os verdadeiros discípulos de Jesus? Muitos de nós receberam uma catequese que insistia em ritos, em fórmulas, em práticas de piedade, em determinadas obrigações legais, mas que deixou para segundo plano o essencial: o seguimento de Jesus. A identidade cristã constrói-se à volta de Jesus e da sua proposta de vida. Que nenhum de nós tenha dúvidas: ser cristão é bem mais do que ser batizado, ter casado na igreja, organizar a festa do santo padroeiro da paróquia, ou dar-se bem com o padre… Ser cristão é, essencialmente, seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. O cristão é aquele que faz de Jesus a referência fundamental à volta da qual constrói toda a sua existência; e é aquele que renuncia a si mesmo e que toma a mesma cruz de Jesus.
• O que é “renunciar a si mesmo”? É não deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a auto-suficiência dominem a vida. O seguidor de Jesus não vive fechado no seu cantinho, a olhar para si mesmo, indiferente aos dramas que se passam à sua volta, insensível às necessidades dos irmãos, alheado das lutas e reivindicações dos outros homens; mas vive para Deus e na solidariedade, na partilha e no serviço aos irmãos.
• O que é “tomar a cruz”? É amar até às últimas consequências, até à morte. O seguidor de Jesus é aquele que está disposto a dar a vida para que os seus irmãos sejam mais livres e mais felizes. Por isso, o cristão não tem medo de lutar contra a injustiça, a exploração, a miséria, o pecado, mesmo que isso signifique enfrentar a morte, a tortura, as represálias dos poderosos.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A palavra meditada ao longo da semana.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 24º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. Bilhete de evangelho.
Ficamos sempre admirados ao ver Jesus proibir que falem d’Ele. A razão é simples: tem medo que os seus discípulos ou a multidão desfigurem o seu rosto de Messias. Os homens olham com os olhos da carne, e que desejam eles? Um Messias nacionalista, poderoso, libertando o seu povo da ocupação romana. Quanto a Jesus, pede que O olhem com os olhos da fé: o Messias prometido é um Messias sofredor, porque Deus quer dar aos homens o sinal do seu Amor, um Amor que vai até ao fim, até ao dom total. Pedro terão, então, necessidade de purificar a sua fé, e é após a ressurreição que os seus olhos se abrirão, reconhecendo o Messias n’Aquele que lhe mostrará as suas chagas. E Ele mesmo fará a experiência da passagem pela morte para conhecer a Vida, ele caminhará atrás do seu Mestre, ele renunciará a si próprio, ele tomará a sua cruz e seguirá Jesus até ao fim.
3. À escuta da palavra.
Como qualquer ser humano, Pedro é uma mistura muito complexa de sombra e de luz. À questão de Jesus “para vós, quem sou Eu?”, ele responde: “Tu és o Messias”. Mateus precisa que é por uma revelação do Pai que Pedro pôde reconhecer que Jesus era o Messias. Daí a necessidade que Pedro estivesse aberto e acolhedor, na escuta do Pai! É o lado-luz do apóstolo… E logo depois, quando Jesus anuncia a sua paixão e morte, Pedro muda. Aos seus olhos, é o Mestre que se engana. Pedro aqui não escuta o Pai, fecha-se. É o lado-sombra de Pedro… Pedro ficará sempre o mesmo. Conhecemos bem as suas declarações de fidelidade incondicional, seguidas, alguns horas depois, pela sua tríplice negação. Ele terá a mesma atitude após o Pentecostes. Em Antioquia, segundo os Atos dos Apóstolos, ele não hesitava em comer com os pagãos convertidos a Jesus, o que um bom judeu não podia aceitar. Eis que pessoas que andavam com Tiago chegam. Pedro tem medo: vão contestá-lo. Então, retira-se. Através de Pedro, vemos como Deus age. Jesus escolheu Pedro para que fosse o primeiro servidor da unidade dos discípulos. Ele teve nele uma confiança ainda maior após a sua negação. Jesus não muda! Ele continua a escolher e a enviar discípulos para que sejam, ao serviço da unidade da comunidade, pastores que prolongam a ação do único Pastor. Mas estes homens guardam o seu lado-luz e o seu lado-sombra. S. Paulo dirá que Deus confia o seu tesouro a vasos de argila, “para que a vossa fé repouse, não na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus”. Apesar dos limites e dos defeitos dos pastores, o Espírito Santo continua a fazer crescer o Reino! Que Ele fortaleça a nossa fé e a nossa esperança!
4. Para a semana que se segue…
Em nome de Jesus Cristo… Nesta semana, através de alguns pequenos “atos” (gestos de gentileza, de serviço, de perdão, de partilha, etc.), procuremos seguir o caminho de Cristo, mas tendo consciência de o fazer em seu nome, em nome do amor com que nos ama. E ofereçamos-Lhe estes pequenos testemunhos na nossa oração da tarde.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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Com Jesus
I. Aproximava-se a festa de Pentecostes do terceiro ano da vida pública de Jesus. Das vezes anteriores, o Senhor tinha subido a Jerusalém para anunciar a Boa Nova às multidões que acorriam à Cidade santa nessa festividade. Desta vez – possivelmente para manter os discípulos longe do ambiente hostil que se vinha formando à sua volta –, procurou abrigo nas terras tranqüilas e afastadas de Cesaréia de Filipe. E enquanto caminhava (1), depois de ter permanecido em oração, como indica expressamente são Lucas (2), perguntou em tom familiar aos discípulos que o acompanhavam: Quem dizem os homens que eu sou? E eles, com simplicidade, contaram-lhe o que lhes chegava aos ouvidos: "Uns dizem que és João Batista; outros, Elias... Então Ele voltou a interrogá-los: E vós, quem dizeis que eu sou?"
Na vida, há perguntas que, se ficam por responder, nada acontece. Pouco ou nada nos comprometem: por exemplo, a capital de um país longínquo, a idade de certa pessoa... Mas há questões cujo conhecimento e vivência são muito mais importantes: em que coisas reside a dignidade do ser humano, qual o sentido dos bens terrenos, por que a vida é tão breve... E dentre essas questões, existe uma em cuja resposta não devemos errar, pois nos dá a chave de todas as verdades que nos dizem respeito. É a mesma que Jesus fez aos Apóstolos naquela manhã a caminho de Cesaréia de Filipe: E vós, quem dizeis que eu sou? Então e agora, só existe uma resposta verdadeira: Tu és o Cristo, o Ungido, o Messias, o Filho Unigênito de Deus: a Pessoa de quem depende toda a minha vida, o meu destino, a minha felicidade, o meu triunfo ou a minha desgraça.
A nossa felicidade não está na saúde, no êxito, na realização de todos os nossos desejos... A nossa vida terá valido a pena se tivermos conhecido, servido e amado a Cristo. Todos os problemas têm solução se estamos com Ele; nenhum tem uma solução definitiva se o Senhor não é o eixo, se não é Ele quem dá sentido ao nosso viver, com êxitos ou com fracassos, na saúde e na doença.
Os Apóstolos, pela boca de Pedro, deram a Jesus a resposta certa depois de dois anos de convivência e trato. Nós, como eles, “temos de percorrer um caminho de escuta atenta, diligente. Temos de ir à escola dos primeiros discípulos, que são as suas testemunhas e os nossos mestres, e ao mesmo tempo temos de receber a experiência e o testemunho nada menos que de vinte séculos de história sulcados pela pergunta do Mestre e enriquecidos pelo imenso coro das respostas dos fiéis de todos os tempos e lugares” (3).
Nós, que talvez venhamos seguindo o Mestre há não poucos anos, devemos examinar hoje, na intimidade do nosso coração, o que Cristo significa para nós. Digamos como são Paulo: Tudo isso que para mim era lucro, considero‑o agora por amor de Cristo como perda, por causa do sublime conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por Ele renunciei a todas as coisas e tenho-as por esterco, a fim de ganhar Cristo (4).
II. Deus manifestou o seu amor pelos homens enviando ao mundo o seu Filho Unigênito para que vivamos por Ele (5). Cristo é o único caminho para ir ao Pai: Ninguém vai ao Pai senão por Mim (6), declarará o Senhor aos seus discípulos na última Ceia. Sem Ele, nada podemos (7).
A primeira preocupação do cristão deve, pois, consistir em viver a vida de Cristo, em incorporar-se a Ele, como os ramos à videira. O ramo depende da união com a videira, que lhe envia a seiva vivificante; separado dela, seca e é lançado ao fogo8. A vida do cristão resume-se em ser pela graça o que Jesus é por natureza: filho de Deus. Esta é a meta fundamental: imitar Jesus, assimilar a sua atitude de filho diante de Deus Pai. O próprio Cristo no‑lo disse: Subo para «meu» Pai e «vosso» Pai, «meu» Deus e «vosso» Deus (9).
Neste itinerário, o Senhor interpela-nos todos os dias sobre a nossa fé e a nossa confiança nEle, sobre o que Ele representa na nossa vida. Ele é o Amigo, o Irmão mais velho, que nos inspira, que nos acompanha, que nos levanta e nos restitui a alegria. Mas não podemos olhar para outro lado, não podemos ter medo de fita-lo e dizer‑lhe sem reservas: “Que queres de mim, Senhor?”
Nestes minutos de oração, a sós com Cristo, temos de reconhecer que muitas vezes fugimos dEle, que não chegamos a compreender por que se interessa tanto por cada um de nós, que vamos adiando para amanhã, sempre para amanhã, o nosso compromisso de amor com Ele. Por isso podemos dizer‑lhe hoje com o soneto do clássico castelhano:
Que tenho eu que a minha amizade procuras?
Que interesse tens, meu Jesus,
que à minha porta, coberto de rocio,
passas as noites do inverno escuras?
Oh como foram as minhas entranhas duras,
pois não te abri! Que estranho desvario
se da minha ingratidão o gelo frio
secou as chagas das tuas plantas puras!
Quantas vezes o anjo me dizia:
Alma, assoma agora à janela,
verás com quanto amor em chamar porfia!
E quantas, formosura soberana,
“Amanhã lhe abriremos”, respondia,
Para o mesmo responder amanhã! (10)
III. Depois da confissão de Pedro, Jesus declarou aos seus discípulos pela primeira vez que o Filho do homem tinha de padecer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas, e ser morto, e ressuscitar depois de três dias. E falava-lhes destas coisas abertamente (11).
Era uma linguagem estranha para os que tinham visto tantas maravilhas. E Pedro, tomando-o à parte, começou a repreende-lo. Então o Senhor, dirigindo‑se ao Apóstolo, mas com a intenção de que todos o ouvissem, disse-lhe estas duríssimas palavras: Afasta-te de mim, Satanás! Foram as mesmas palavras que tinha utilizado para repelir o demônio depois das tentações no deserto (12). Este por ódio, aquele por um amor mal entendido, tinham tentado dissuadi-lo da sua obra redentora na cruz, para a qual se orientava toda a sua vida, e que haveria de trazer-nos todos os bens e graças necessários para alcançarmos o Céu. Na primeira leitura da missa (13), Isaías anuncia com vários séculos de antecedência a Paixão que o Servo de Javé haveria de sofrer: Aos que me feriam, ofereci as espáduas [...], não desviei o meu rosto dos ultrajes e dos escarros.
Sabemos bem que “perante Jesus, não podemos contentar‑nos com uma simpatia simplesmente humana, por legítima e preciosa que seja, nem é suficiente considera-lo somente como um personagem digno de interesse histórico, teológico, espiritual, social, ou como fonte de inspiração artística” (14). Jesus Cristo compromete-nos de modo absoluto. Pede-nos que, ao segui-lo, renunciemos à nossa vontade para nos identificarmos com Ele. Por isso, depois de recriminar Pedro, o Senhor chamou todos os outros e disse-lhes: Quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida perde-la-á, e quem perder a sua vida por mim e pelo Evangelho, esse a salvará (15).
A dor e qualquer tipo de sofrimento são condição necessária para chegarmos à intimidade com Cristo. Com a dor – a cruz –, acompanhamo‑lo ao Calvário, não nos separamos dEle nesses momentos em que mais sente a deslealdade, a covardia e a omissão dos homens: identificamo-nos plenamente com Ele.
Mas, além disso, quando tiramos os olhos dos nossos próprios sofrimentos para os pôr nos sofrimentos inauditos de Cristo, esvaziamos a nossa cruz pessoal de qualquer elemento de tragédia e solidão, e vemos nela um tesouro, uma “carícia divina” que passamos a agradecer do fundo da alma. Obrigado, Senhor!, é o que dizemos diante de quaisquer circunstâncias adversas. O Senhor retira então o que há de mais áspero, incômodo e doloroso nos nossos sofrimentos e eles deixam de pesar e oprimir; pelo contrário, preparam a alma para a oração e dilatam o coração para que seja mais generoso e compreensivo com os outros.
Já o cristão que recusa sistematicamente o sacrifício e não se conforma com as contrariedades e a dor, nunca encontra Cristo no caminho da sua vida, como também não encontra a felicidade. Quantos cristãos não se sentem no final do dia tristes, abatidos e sem impulso vital, por não terem sabido santificar, não já as grandes contradições, mas as pequenas contrariedades que foram surgindo ao longo da jornada!
Vamos dizer a Jesus que queremos segui‑lo em todos os passos da sua vida e da nossa, que nos ajude a levar a cruz de cada dia com garbo. Pedimos-lhe que nos acolha entre os seus discípulos mais íntimos. “Senhor”, suplicamos-lhe, “toma-me como sou, com os meus defeitos, com as minhas debilidades; mas faz-me chegar a ser como Tu desejas” (16), como fizeste com Simão Pedro.
Francisco Fernández-Carvajal


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