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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

25º DOMINGO TEMPO COMUM-B

25º DOMINGO TEMPO COMUM

20 de Setembro de 2015
Ano  B

-O MAIS IMPORTANTE-José Salviano


Evangelho - Mc 9,30-37


Se alguém quiser ser o primeiro, que
seja aquele que serve a todos!

 

QUAL DE NÓS É O MAIS IMPORTANTE? Meus irmãos. A competição entre nós começa desde cedo! Começa desde que somos pequenos.  E o pior. Começa entre os próprios irmãos. (Leia a história de José vendido no Egito). Leia mais...


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“QUEM ACOLHER EM MEU NOME UMA DESTAS CRIANÇAS É A MIM QUE ESTARÁ ACOLHENDO. ”– Olívia Coutinho

25º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 20 de Setembro de 2015

Evangelho de Mc 9, 30-37

Vivemos numa sociedade materialista que ignora o “ser”  e que tem como parâmetro o “ter”, uma sociedade fixada na ideia da competitividade.
Contaminados por esta mentalidade contrária ao evangelho, muitos, chegam a assimilar a falta de esperteza e de dinheiro, como sendo a causa  do seu  não êxito na vida!
Em meio a tantos  adversários do projeto de Deus, Jesus vem nos trazer uma proposta de vida nova, proposta esta, que ao contrário do mundo, tem como prioridade o “ser”!
O evangelho que a liturgia de hoje nos apresenta, vem  nos alertar  sobre o perigo que corremos, quando não colocamos o Reino de Deus como prioridade na nossa vida, quando não estamos em sintonia com Jesus!
Enquanto atravessavam a Galiléia, Jesus passava  importantes ensinamentos  para os seus discípulos, no sentido de prepará-los bem,  já que seriam eles, os responsáveis em dar continuidade a sua missão após o seu retorno para o Pai! Conhecedor das fraquezas humanas, Jesus sabia que qualquer vento contrário, poderia desvirtuá-los da missão, pois eles ainda eram muito imaturos na fé!
Os discípulos  tinham muita dificuldades em entender o messianismo de  Jesus  e mais dificuldades tiveram ainda, quando Jesus  lhes falou da Cruz, do desfecho da sua trajetória terrena! Mesmo convivendo diretamente com Jesus, eles ainda não haviam entrado na dinâmica do Reino, continuavam presos a mentalidade egoística  do mundo, estavam voltados para os seus interesses  pessoais! Enquanto Jesus falava da sua morte e  ressurreição, eles estavam em outra sintonia, discutindo entre si, quem era o maior, quem ocuparia a liderança do grupo, após a morte de Jesus! E Jesus, pacientemente os adverte: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último, aquele que serve a todos”. E para mostrar o modelo de grandeza que agrada a Deus, Ele  toma consigo uma criança e a coloca no meio deles, dizendo:  “Quem acolher em  meu nome uma destas crianças, estará acolhendo a mim mesmo”. Estas palavras de Jesus, nos leva a um questionamento: qual tem sido  a nossa postura diante os prediletos de Jesus? O que estamos fazendo em favor dos pequenos?
A criança que Jesus tomou como exemplo, representa todos os que têm um coração puro, um coração que não  guarda rancores, um coração que ama.
A nossa preocupação primeira, não deve ser com a nossa promoção pessoal e sim, com a promoção daqueles que vivem às margens!
A chave que abre a porta do céu para nós são os pequenos, não somente a criança, mas todos aqueles que estão às margens desta sociedade que não os reconhece como pessoas! Estes são os últimos aos olhos do mundo, mas  os primeiros aos olhos de Deus, estando do lado  deles, estamos com Deus!

Jesus, em sua permanência física aqui na terra  nos deixou um grande exemplo de humildade: mesmo sendo  Deus, Ele se fez pequeno, a sua grandeza, estava em sentir-se  FILHO,  um Filho totalmente dependente do Pai!                                                              Quem quiser ser grande  aos olhos de Deus, precisa  desapegar-se  das coisas do mundo, para se tornar dependente Dele, assim como uma  criança é dependente dos seus Pais!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olivia Coutinho
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Ser discípulo: a humildade
A 2ª predição da Paixão (evangelho), que forma o núcleo da liturgia de hoje, tem um acento próprio. Enquanto a primeira fala da rejeição pelas lideranças religiosas, a segunda acentua o fato de” o Filho do Homem ser entregue em mãos humanas” (a terceira, mais completa, acrescentará ainda sua condenação à morte e extradição aos pagãos). A 1ª leitura é bem escolhida, no sentido de mostrar a inveja dos homens ímpios contra o justo, que considera Deus como seu pai. (Mt. 27,43 interpreta expressamente a morte de Cristo a partir desta idéia, presente também em Sl. 22[21],9; Sb. 2,18.) A idéia da inveja da virtude do justo forma, assim, o laço que une as leituras de hoje: a 1ª leitura, a 2ª leitura (os males da inveja) e o evangelho, que prolonga o anúncio da Paixão numa admoestação contra a ambição, o “pecado da comparação”.
Atinge-se assim um nível fundamental, tanto do ponto de vista cristológico quanto antropológico. Pois o “pecado da comparação” não é outro senão o pecado de Adão, o pecado originante, presente em todo ser humano: não agüentar que alguém seja maior, querer ocupar o lugar de Deus. E o que Cristo vem cumprir (e anuncia nas predições da Paixão) é exatamente o contrário: o despojamento, a obediência até a morte. Neste contexto do homem velho, corrompido por sua inveja, Jesus aparece como o homem novo, completamente filho de Deus, realizando por sua obediência o que o orgulho de Adão tentou alcançar em vão: a condição divina.
A lição de humildade (Mc. 9,33-37) completa, portanto, de modo adequado, o tema da Paixão de Jesus; não dilui a trágica realidade da cruz, nem a troca em miúdos para a vida cotidiana do cristão bem comportado… A humildade não é a virtude do medroso, a carência transformada em virtude. É a opção pelo caminho do Cristo, o caminho da obediência até a morte por amor, contrariamente ao orgulho, que leva à morte absurda. Tg. atribui toda a espécie de males ao orgulho e à ambição, e não sem razão. Não é o competicionismo uma forma de inveja que leva os homens a desarticular sempre mais a própria sociedade? Onde cada um quer ter e ser mais do que os outros, a ruína é inevitável.
O exemplo de Cristo nos ensina a escolher o caminho oposto. Olhar para os outros, sim, mas não para nos comparar com eles porém, para ver como servir melhor. Ser grande é ser o servo de todos. Até o menor merece ser acolhido como o próprio Senhor. Jesus toma, por exemplo, o acolhimento de uma criança. Coisa fácil? Quem é que não gosta de crianças? Todavia: 1) no tempo de Jesus a criança era de pouquíssimo valor aos olhos da sociedade (só importava para os pais e familiares); 2) será que hoje, realmente, todas as crianças são bem-vindas?
Conclusão: para realizar o caminho de Jesus no dia-a-dia, impõe-se a humilde dedicação ao mais insignificante dentre os nossos irmãos. Dedicação humilde, não aquela falsa humildade que é o orgulho de quem não quer nada com nada, mas o encaminhamento de nossa vida no caminho da doação total, do “perder-se para realizar-se” (cf. dom. pass.).
A última frase do evangelho estabelece uma relação muito significativa: quem acolhe uma criança em nome de Jesus (i.é, por causa do que Jesus ensinou), acolhe Jesus mesmo (como Mestre, pois segue seu ensinamento). Mas quem acolhe Jesus (o Enviado), acolhe aquele que o enviou (Deus). Estamos a poucos passos da parábola do último juízo de Mt. 25,31-46, onde o Rei e Juiz diz: “O que fizestes ao mínimo destes meus irmãos, a mim o fizestes”. O serviço humilde ao último dos homens é o critério decisivo do ser cristão (o agir em nome de Cristo), mas também de toda a salvação.
A oração do dia prepara bem o espírito deste ensinamento: o amor a Deus e ao próximo, não dois amores, mas o primeiro encamando-se no segundo e o segundo encontrando seu critério no primeiro (para que a gente não se ame a si mesmo no próximo … ).
Johan Konings "Liturgia dominical"



Paixão e ambições
Jesus se afasta do povo porque quer passar seus ensinamentos para os discípulos, e segue a caminho de Jerusalém, passando por Cafarnaum. Durante a viagem Ele faz o segundo anúncio de sua Paixão e Ressurreição. Jesus jamais separa o anúncio de sua Paixão do anúncio da Ressurreição, que é o ápice e que ilumina o anterior. Os discípulos, porém, só se atém ao anúncio da morte, sentem medo, não têm coragem de pedir explicação a Jesus porque temem um compromisso maior, e esta atitude de receio explica, inclusive, o abandono deles no futuro, na Paixão e Morte de Jesus.
Eles se distraem com outro assunto, entre si mesmos, pois, tentam ocultar do Mestre sentimentos que eles mesmos sabiam que O desagradavam. Estavam sofrendo da fraqueza de não conseguirem expulsar o demônio do rapaz, pela falta de fé do povo e deles mesmos (Mc. 9,17-18), e discutem qual deles seria o maior, o melhor para Jesus e para o povo, demonstrando ambição pelo poder.
Jesus que tudo sabe e lê o que está nos corações, ao chegar em Cafarnaum, dentro de casa, na intimidade com eles, longe das distrações do mundo, dá-lhes a explicação sobre como devem se comportar diante do próximo, ou seja, colocando-se a serviço em primeiro lugar. Diz que a ambição do poder é o caminho contrário ao caminho do Reino de Deus que dá preferência aos pequenos e aos que estão em último lugar no mundo. E completa que, não se alcança o Reino através do poder, mas sim do serviço, sem pretensão e sem interesses pessoais de dominação, pois é somente na humildade, opção do caminho do Cristo pela obediência, contrária ao orgulho, é que os homens se libertam da inveja e da vaidade.
Jesus compara as crianças, sinônimo de pessoa necessitada e dependente, aos pobres e marginalizados, e as coloca como a Si mesmo, quando diz que quem acolhe uma criança, acolhe também a Ele.
Este novo enfoque de ser o maior servindo ao próximo é um contraste ao que os discípulos vinham vivendo e desejando.

Pequeninos do Senhor



O servidor de todos
O testemunho de vida de Jesus, baseado na humildade e no espírito de serviço, não foi suficiente para conscientizar os discípulos a respeito do modo de proceder que lhes estava sendo proposto. Nem mesmo a alusão à sua morte violenta e à sua ressurreição bastou para abrir-lhes os olhos. Entre eles, permanecia um espírito mesquinho de competição. Sua preocupação era saber qual deles seria o maior. Jesus enunciou, com clareza, uma norma de conduta válida para regular as relações entre eles: quem quisesse ser considerado o primeiro e mais importante de todos, deveria ser capaz de se colocar no último lugar e assumir a condição de servo dos demais. O colocar-se em último lugar deveria resultar de um ato livre, sem nenhum complexo de inferioridade. O fazer-se servidor seria conseqüência da superação do próprio egoísmo, não uma atitude resignada de quem não sabe fazer valer seus direitos. Quebra-se, assim, o ciclo da ambição e fica banida do seio da comunidade a tentação da tirania. O Reino, portanto, tem uma escala de valores que não corresponde àquela do mundo. A orientação de Jesus exigiu dos discípulos uma reformulação de seus esquemas mentais. Não dava para aplicar ao Reino a visão mundana com que estavam contaminados.
padre Jaldemir Vitório



Homilia I
No domingo passado – deveis recordar - Jesus anunciou aos seus discípulos que ele era um Messias não de glória, mas de humildade e serviço até à morte de cruz. Ao final, triunfaria pela ressurreição. Pedro havia se escandalizado com tais palavras. Hoje, Jesus continua sua pregação. Ele ensinava a sós a seus discípulos: “’O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens e eles o matarão. Mas, três dias após, ele ressuscitará’. Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar”.
Vede, caríssimos, é a mesma atitude da semana passada. O ensinamento do Senhor tem como seu centro o Reino de Deus que viria pela sua cruz e ressurreição. Entrar no Reino é tomar com Jesus a cruz e com ele chegar à glória! Estejamos atentos: este não é apenas mais um dos muitos ensinamentos de Cristo; este é o ensinamento por excelência, a mensagem central que o Senhor veio nos revelar e mostrar com sua palavra, suas atitudes e sua própria vida. Repito: eis o que Jesus ensina: que o caminho do Reino passa pela cruz, passa pela morte e chega à plenitude da vida na ressurreição. Observai que ele ensina isso de modo insistente e prepara particularmente os discípulos para esse caminho... E, no entanto, os discípulos não compreendem a linguagem de Jesus, não compreendem sua missão, seu caminho! Esperavam um messias glorioso, cheio de poder, que resolvesse todos os problemas e reafirmasse orgulhosamente a glória terrena de Israel... Um messias na linha da teologia da prosperidade do Edir Macedo e do RR Soares. Nada mais distante de Cristo que esse tipo de coisa! Observai que, enquanto Jesus caminha adiante ensinando isso, os discípulos, seguindo-o com os pés, próximos fisicamente, estão com o coração muito longe do Senhor. No caminho, vão discutindo sobre quem deles era o maior! Jesus fala da humilhação e do serviço até à cruz; seus discípulos, nós, falamos de quem é o primeiro, o maior... Que perigo, caríssimos, pensarmos que somos cristãos, que seguimos Jesus, e estarmos com o coração bem longe do Mestre amado! 
Temos nós essa tentação também? Certamente! A linguagem da cruz continua difícil, dura, inaceitável para nós. É claro que não teoricamente: persignamos-nos com a cruz, beijamos a cruz, trazemo-la pendurada ao pescoço, veneramos a cruz... Mas, o caminho da cruz se faz na vida, não na teoria! Essa cruz de Cristo está presente nas dificuldades, no convite à renúncia de nossa vontade para fazer a vontade do Senhor, na aceitação dos caminhos de Deus, na doença e na morte, nas perdas que a vida nos apresenta, nos momentos de escuridão, de silêncio do coração e de aparente ausência de Deus... Todas essas coisas nos põem à prova, como o justo provado da primeira leitura deste hoje. É a vida, são os acontecimentos, são os outros que nos provam: “Armemos ciladas aos justos... Vamos pô-lo à prova para ver sua serenidade e provar a sua paciência; vamos condená-lo à morte vergonhosa, porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”. Jesus passou por esse caminho, fez essa experiência em total obediência à vontade do Pai. E nos convida a segui-lo no hoje, no aqui da nossa vida. Nossa tentação é a dos primeiros discípulos: um cristianismo fácil, de acordo com a mentalidade do mundo atual; um cristianismo a baixo preço – isso: que não custe o preço da cruz! Se assim for, como estaremos longe de Jesus, como não o conheceremos! Ele nos dirá: “Apartai-vos de mim! Não vos conheço!” (Mt 7,23). 
Caros irmãos, ouvindo isso, talvez digamos: mas, como suportar a dureza da cruz? Como amá-la? Não é possível! É que ninguém pode amar a cruz pela própria cruz, caríssimos. Cristo amou sua cruz e a abraçou por amor total e absoluto ao Pai, por fidelidade ao Pai. Nós, também, somente poderemos compreender a linguagem da cruz e somente não nos escandalizaremos com ela se for por um amor apaixonado pelo Senhor Jesus, para segui-lo em seu caminho, para estarmos em união com ele. Eis, portanto: é o amor ao Senhor que torna a cruz aceitável e até desejável! Sem o amor ao Senhor, a cruz é destrutiva, é louca, e desumana! Com Jesus e por causa de Jesus, a cruz é árvore bendita de libertação e de vida. É o amor a Jesus que torna doce o que é amargo neste vida! 
O problema é que precisamos redescobrir a experiência tão bela e doce de amar Jesus. Não se pode ser cristão sem paixão pelo Senhor, sem um amor sincero entranhado para com ele! Como se consegue isso? Estando com ele na oração, aprendendo a contemplá-lo no Evangelho, alimentando durante o dia, dia todo, sua lembrança bendita, procurando a sua graça nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, lutando pacientemente para vencer os vícios e colocar a vida, os sentimentos, os instintos e a vontade em sintonia com a vontade do Senhor Jesus... Sem esses exercícios não há amor, sem amor não há como compreender a linguagem da cruz e sem tomar a cruz com e por Jesus não há a mínima possibilidade de ser cristão! Quando vier a crise, largaremos tudo, trairemos o Senhor e terminaremos por fazer do nosso jeito, salvando a pele e fugiremos covardemente da cruz... 
Então - pode ser que perguntemos – por que o Senhor quer nos fazer passar pela cruz? Por que escolheu e determinou um caminho tão difícil? Eis a resposta: porque somos egoístas, imaturos, quebrados interiormente! O pecado nos desfigurou profundamente! São Tiago traça um perfil muito realista e muito feio da nossa realidade: guerras interiores, paixões, disputas, auto-afirmação doentia, desordens e toda espécie de obras más... Quem tiver a coragem de entrar em si mesmo, quem for maduro para se olhar de frente verá em si todas essas tendências. Quantas vontades, quantas guerras interiores! Ora, isso tudo nos fecha para Deus, nos joga na idolatria do ter, do poder, do prazer, da auto-suficiência de pensar que somos deuses... É a cruz do Senhor quem nos purifica, nos corrige e nos liberta de verdade. Não há outro modo, não há outro caminho. Somente sentimentos, risos, cantorias e boa vontade não nos construiriam, não nos colocariam de verdade em comunhão com o Senhor no seu caminho. O mistério do pecado é sério demais, profundo demais para ser tratado com leviandade... “Quem quiser seu meu discípulo tome a sua cruz e siga-me” – diz o Senhor! 
Caríssimos, tenhamos coragem! Na docilidade ao Espírito Santo que o Senhor nos concedeu, teremos tal união com o Senhor Jesus, que tudo poderemos e suportaremos. Foi esse o caminho dos santos de Deus de todos os tempos; é esse o caminho que agora nos cabe caminhar... Que o Senhor no-lo conceda por sua graça, ele que é Deus com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.
Homilia II
O Evangelho deste XXV Domingo é dramático, pois revela a solidão de Jesus e a incapacidade nossa de compreender verdadeiramente a proposta do Senhor e caminhar com ele. “Jesus e seus discípulos atravessavam a Galiléia. Ele não queria que ninguém soubesse disso, pois estava ensinando a seus discípulos”. Para onde caminha Jesus? Seu caminho irá terminar em Jerusalém; é para lá que ele, enfim, se dirigirá (cf. Mc. 10,1), para enfrentar seu destino final de morte e ressurreição por amor. E o que Jesus ensina, a sós, aos seus discípulos? “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após a sua morte, ele ressuscitará”. Jesus vai preparando seus discípulos para algo que eles de modo algum esperavam: o Messias não será aquele glorioso, como imaginavam, mas passará pela humilhação, pelo fracasso e pela cruz, como a primeira leitura de hoje no-lo apresenta: “Os ímpios dizem: ‘Armemos ciladas... sua presença nos incomoda... Vejamos se é verdade o que ele diz. Se é filho de Deus, Deus o defenderá. Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas; vamos condená-lo à morte vergonhosa...” Em vários momentos do Antigo Testamento fala-se de uma sorte desastrosa para o Messias, mas nem Israel nem os discípulos prestavam atenção a isso; recordavam-se somente das passagens gloriosas, lembravam-se somente do que interessava... Por isso o evangelho diz que “os discípulos não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar”. Parece que Jesus falava (a fala) para surdos, que não conseguem de modo algum escutar realmente o que ele está dizendo... que não conseguem sintonizar realmente com o Senhor...
Mas, há ainda mais... mais e pior, mais e mais trágico: “Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: ‘O que discutíeis pelo caminho?’ Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior”. É terrível e trágico constatar a distância enorme entre o Mestre e os discípulos, a falta de sintonia, de compreensão: no caminho, no caminho cristão, Jesus fala da cruz, da vida que ele entregará como serviço de amor (este é o caminho cristão, o caminho do cristão!); os discípulos falam de ser o maior, de glórias, de privilégios! Não é assim, ainda hoje? Não somos assim, no caminho? Leigos ou membros do clero, religiosos ou seculares, não nos encontramos muitas vezes atolados nesta surdez, nesta cegueira, nesta falta de sintonia real com o Senhor? O caminho de Jesus é o do serviço que dá vida, que se entrega, que encontra, precisamente no servir, a liberdade e a plenitude. Num outro momento do evangelho, o Senhor nos adverte gravemente: ”Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc. 10,42-45). Ele próprio se coloca como modelo de serviço, de vida doada! E nós? A segunda leitura de hoje, da Epístola de São Tiago, revela um quadro desolador: invejas, rivalidades, brigas na comunidade, conflitos interiores no coração dos cristãos... E por quê? Por que, ao invés de realmente abraçarmos o caminho do Senhor, que passa pela cruz como serviço de amor a Deus e aos outros, amor desinteressado, que, dando a vida, encontra vida, seguimos uma lógica perversa e pecaminosa, a lógica do homem velho, com suas paixões e seus desejos de posse, de domínio, de auto-afirmação: “Só quereis esbanjar o pedido nos vossos prazeres...” ou seja, buscais somente vossos interesses, totalmente desligados daquele que é o caminho proposto pelo Senhor Jesus. Esqueceis a exortação do Apóstolo São João: “Aquele que diz que permanece nele deve andar como ele andou” (1Jo. 2,6).
No fundo, no fundo, o desafio atual para os cristãos é o mesmo de nossas origens, na Igreja primitiva: compreender e levar a sério a linguagem da cruz, a linguagem do amor que se doa, que acolhe, que não busca seu próprio interesse nem sua própria glória e satisfação, sobretudo se isso é às custas da dignidade e da felicidade do irmão. O desafio é levar a sério o caminho de Jesus...
Ante esta palavra do Senhor que escutamos, impõem-se algumas questões sérias e urgentes: Que valores norteiam nossa vida pessoal? Que valores norteiam nossa vida comunitária, de grupo, de paróquia, de Igreja? Com tristeza, vemos, não poucas vezes, reproduzirem-se, em nossa vida pessoal e na vida de nossas comunidades, as atitudes do mundo: interesses, joguinhos de poder, dissimulações e invejas, maledicências e competições... e isto tudo sob a capa da santidade! Tudo hipocrisia! Não é à toa que, como os discípulos, ficaríamos envergonhados e calados, se o Senhor nos perguntasse sobre o que discutimos no caminho da vida!
“A sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta’conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem fingimento...” Esta sabedoria é que deveria nortear nossas relações como cristãos! Esta sabedoria, tão bendita, porque é fruto daquele amor-caridade que Jesus viveu e nos mandou viver: “o amor é paciente, a caridade á prestativo, não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Que o Senhor que, tendo nos amado, amou-nos até o extremo (cf. Jo. 13,1), no-lo conceda, para que sejamos realmente seus discípulos, com palavras e com a vida. Amém!
dom Henrique Soares da Costa



A liturgia do 25º domingo do comum convida os crentes a prescindir da “sabedoria do mundo” e a escolher a “sabedoria de Deus”. Só a “sabedoria de Deus” – dizem os textos bíblicos deste domingo – possibilitará ao homem o acesso à vida plena, à felicidade sem fim. O Evangelho apresenta-nos uma história de confronto entre a “sabedoria de Deus” e a “sabedoria do mundo”. Jesus, imbuído da lógica de Deus, está disposto a aceitar o projeto do Pai e a fazer da sua vida um dom de amor aos homens; os discípulos, imbuídos da lógica do mundo, não têm dificuldade em entender essa opção e em comprometer-se com esse projeto. Jesus avisa-os, contudo, de que só há lugar na comunidade cristã para quem escuta os desafios de Deus e aceita fazer da vida um serviço aos irmãos, particularmente aos humildes, aos pequenos, aos pobres. A segunda leitura exorta os crentes a viverem de acordo com a “sabedoria de Deus”, pois só ela pode conduzir o homem ao encontro da vida plena. Ao contrário, uma vida conduzida segundo os critérios da “sabedoria do mundo” irá gerar violência, divisões, conflitos, infelicidade, morte. A primeira leitura avisa os crentes de que escolher a “sabedoria de Deus” provocará o ódio do mundo. Contudo, o sofrimento não pode desanimar os que escolhem a “sabedoria de Deus”: a perseguição é a consequência natural da sua coerência de vida.
Sabedoria 2,12.17-20 - AMBIENTE
O “livro da Sabedoria” é o mais recente de todos os livros do Antigo Testamento (aparece durante o séc. I a.C.). O seu autor – um judeu de língua grega, provavelmente nascido e educado na Diáspora (Alexandria?) – exprimindo-se em termos e concepções do mundo helênico, faz o elogio da “sabedoria” israelita, traça o quadro da sorte que espera o “justo” e o “ímpio” no mais-além e descreve (com exemplos tirados da história do Êxodo) as sortes diversas que tiveram os pagãos (idólatras) e os hebreus (fiéis a Jahwéh). Estamos em Alexandria (Egito), num meio fortemente helenizado. As outras culturas – nomeadamente a judaica – são desvalorizadas e hostilizadas. A enorme colônia judaica residente na cidade conhece mesmo, sobretudo nos reinados de Ptolomeu Alexandre (106-88 a.C.) e de Ptolomeu Dionísio (80-52 a.C.), uma dura perseguição. Os sábios helênicos procuram demonstrar, por um lado, a superioridade da cultura grega e, por outro, a incongruência do judaísmo e da sua proposta de vida… Os judeus são encorajados a deixar a sua fé, a “modernizar-se” e a abrir-se aos brilhantes valores da cultura helênica. É neste ambiente que o sábio autor do Livro da Sabedoria decide defender os valores da fé e da cultura do seu Povo. O seu objetivo é duplo: dirigindo-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), convida-os a redescobrirem a fé dos pais e os valores judaicos; dirigindo-se aos pagãos, convida-os a constatar o absurdo da idolatria e a aderir a Jahwéh, o verdadeiro e único Deus… Para uns e para outros, o autor pretende deixar este ensinamento fundamental: só Jahwéh garante a verdadeira “sabedoria” e a verdadeira felicidade. O texto que nos é proposto faz parte da primeira parte do livro (cf. Sb. 1-5). Aí, o autor reflete longamente e em pormenor sobre o destino dos “justos” e o destino dos “ímpios”. Na secção que vai de Sb. 1,16-2,24, o autor do Livro da Sabedoria apresenta o quadro da vida dos “ímpios”. Depois de apresentar os raciocínios dos “ímpios” (cf. Sb. 1,16-2,9) e as suas reações de desprezo face aos “justos” (cf. Sb. 2,10-20), o sábio autor desta reflexão partilha com os seus leitores a sua própria crítica às atitudes incoerentes dos “ímpios” (cf. Sb. 2,21-24). Mostrando o sem sentido da conduta dos “ímpios”, ele pretende dizer aos seus concidadãos que vale a pena ser “justo” e manter-se fiel aos valores tradicionais da fé de Israel.
MENSAGEM
Esses “ímpios” de que fala o sábio autor do nosso texto são, certamente, os pagãos hostis, que zombavam dos costumes e dos valores religiosos judaicos e que levavam uma vida de corrupção e de imoralidade; mas são também, com toda a certeza, os judeus apóstatas, que se tinham deixado contaminar pela cultura grega, que haviam abandonado as tradições dos antepassados e que consideravam a religião judaica um conjunto de tradições obscurantistas, impróprias da “modernidade”.
A vida desses “justos” que assumiram os valores de Deus e que, mesmo no meio da hostilidade geral, procuram preservar os seus valores e viver de forma coerente com a sua fé, constitui um incômodo e uma dura interpelação para os “ímpios”. A coerência, a honestidade, a verticalidade e a fidelidade dos “justos” constituem um permanente espinho que magoa os “ímpios” e que não os deixa sentirem-se em paz com a sua consciência. A reação dos “ímpios” apresenta-se sempre em forma de perseguição, de ciladas, de ultrajes, de torturas e, em último caso, de assassínios. Trata-se de uma realidade que os justos de todas as épocas conhecem bem. A vida dos “justos” estará, então, condenada ao fracasso? Valerá a pena enfrentar a perseguição e conservar-se fiel a Deus e às suas propostas? O texto que nos é hoje proposto como primeira leitura não responde a estas questões; no entanto, o autor do Livro da Sabedoria dirá, mais à frente, que a fidelidade do justo será recompensada e que a sua vida desembocará nessa vida plena e definitiva que Deus reserva para aqueles que seguem os seus caminhos.
ATUALIZAÇÃO
• Por detrás do confronto entre o “ímpio” e o “justo”, está o confronto entre a “sabedoria do mundo” e a “sabedoria de Deus”. Trata-se de duas realidades em permanente choque de interesses e diante das quais temos, tantas vezes, de fazer a nossa opção. Para mim, qual destas duas realidades faz mais sentido? Por qual delas costumo optar?
• O que é a “sabedoria do mundo”? A “sabedoria do mundo” é a atitude de quem, fechado no seu orgulho e auto-suficiência, resolve prescindir de Deus e dos seus valores, de quem vive para o “ter”, de quem põe em primeiro lugar o dinheiro, o poder, o êxito, a fama, a ambição, os valores efêmeros. Trata-se de uma “sabedoria” que, em lugar de conduzir o homem à sua plena realização, o torna vazio, frustrado, deprimido, escravo. Pode apresentar-se com as cores sedutoras da felicidade efêmera, com as exigências da filosofia da moda, com a auréola brilhante da intelectualidade, ou com o brilho passageiro dos triunfos humanos; mas nunca dará ao homem uma felicidade duradoura.
• O que é a “sabedoria de Deus”? A “sabedoria de Deus” é a atitude daqueles que assumiram e interiorizaram as propostas de Deus e se deixam conduzir por elas. Atentos à vontade e aos desafios de Deus, procuram escutá-l’O e seguir os seus caminhos; tendo como modelo de vida Jesus Cristo, vivem a sua existência no amor e no serviço aos irmãos; comprometem-se com a construção de um mundo mais fraterno e lutam pela justiça e pela paz. Trata-se de uma “sabedoria” que nem sempre é entendida pelos homens e que, tantas vezes, é considerada um refúgio para os simples, os incapazes, os pouco ambiciosos, os vencidos, aqueles que nunca moldarão o edifício social. Parece, muitas vezes, apenas gerar sofrimento, perseguição, incompreensão, dor, fracasso. No entanto, trata-se de uma “sabedoria” que leva o homem ao encontro da verdadeira felicidade, da verdadeira realização, da vida plena.
• Quem escolhe a “sabedoria de Deus”, não tem uma vida fácil. Será incompreendido, caluniado, desautorizado, perseguido, torturado… Contudo, o sofrimento não pode desanimar os que escolhem a “sabedoria de Deus”: a perseguição é a consequência natural da sua coerência de vida. Não devemos ficar preocupados quando o mundo nos persegue; devemos ficar preocupados quando somos aplaudidos e adulados por aqueles que escolheram a “sabedoria do mundo”.
2ª leitura – Tiago 3,16-4,3 - AMBIENTE
Depois de convidar os crentes à autenticidade e coerência da fé (cf. Tg. 1,2-27) e de os exortar a expressar a fé em atitudes concretas (cf. Tg. 2,1-24), o autor da carta de Tiago elenca, na terceira parte desta carta (cf. Tg 3,1-4,10), uma série de aspectos particulares que precisam da atenção e do cuidado dos crentes. Estes aspectos particulares tratados na terceira parte da carta são, certamente, questões e situações que incomodavam as comunidades cristãs de origem judaica a quem a carta se dirige (e que não estão circunscritas à Palestina, mas espalhadas por todo o mundo greco-romano, sobretudo nas regiões próximas da Palestina, como a Síria, o Egito ou a Ásia Menor). O primeiro aspecto particular a que o autor se refere é ao cuidado a ter com a língua (cf. Tg. 3,1-12); o segundo refere-se à necessidade de os crentes rejeitarem a “sabedoria do mundo” e de acolherem a “sabedoria que vem do alto” (cf. Tg. 3,13-18); o terceiro é uma análise sobre a origem das discórdias que envenenam a vida das comunidades cristãs (cf. Tg. 4,1-10). O texto que nos é proposto junta alguns versículos do segundo com alguns versículos do terceiro ponto. O objetivo do autor da carta de Tiago continua a ser, também nesta terceira parte, purificar a existência cristã e exortar os crentes para que não percam os valores cristãos autênticos.
MENSAGEM
A primeira parte do nosso texto (cf. Tg. 3,16-18) exorta os crentes a viverem de acordo com a “sabedoria de Deus”. A “sabedoria do mundo” gera inveja, contendas, falsidade (cf. Tg. 3,14), rivalidade, desordem e toda a espécie de más ações (cf. Tg. 3,16). Acaba por destruir a vida da própria pessoa e por impedir a comunhão dos irmãos. Trata-se de uma “sabedoria” incompatível com as exigências da adesão a Cristo. Ao contrário, a “sabedoria de Deus” é “pura, pacífica, compreensiva e generosa, cheia de misericórdia e boas obras, imparcial e sem hipocrisia” (Tg. 3,17). São sete as “qualidades” da “sabedoria” aqui enumeradas: dado que o número sete significa “perfeição”, “plenitude”, o autor da Carta de Tiago está, assim, a propor aos crentes um caminho de perfeição, de realização total, de vida plena. Se o cristão quer viver em paz (isto é, em comunhão) com Deus, deve acolher a “sabedoria de Deus” e atuar de acordo com ela em cada passo da sua existência.
Na segunda parte do nosso texto (cf. Tg. 4,1-3), o autor da Carta analisa as causas da situação de conflito e de discórdia que se nota em muitas das comunidades cristãs e que é incompatível com as exigências do compromisso com Cristo. Esse quadro resulta do fato de os crentes não terem ainda interiorizado a proposta de Cristo… Em lugar de fazerem da sua vida, como Cristo, um dom de amor aos irmãos, e de traduzirem esse amor em gestos concretos de partilha, de serviço, de solidariedade, de fraternidade, estes crentes vivem fechados no seu egoísmo e no seu orgulho. O seu coração está dominado pela cobiça, pela inveja, pela vontade de se sobrepor aos outros… E essas “paixões” más traduzem-se naturalmente, a nível da relação comunitária, em atitudes de luta, de inveja, de rivalidade, de ciúme, de arrogância, de ira. Vivem de acordo com a “sabedoria do mundo” e não de acordo com a “sabedoria de Deus”. Naturalmente, a sua oração não é escutada por Deus… O que eles pedem a Deus não é para satisfazer as suas necessidades materiais, mas para satisfazer as suas “paixões”, o seu orgulho, a sua cobiça, a sua vontade de se sobrepor aos outros irmãos. Uma oração que assenta em bases egoístas não pode ser escutada por Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Batismo é, para todos os crentes, o momento da opção por Cristo e pela proposta de vida nova que Ele veio apresentar; é o momento em que os crentes escolhem a “sabedoria de Deus” e passam a conduzir a sua vida pelos critérios de Deus. A partir desse momento, a vida dos crentes deve ser expressão da vida de Deus, dos valores de Deus, do amor de Deus. Num mundo que se constrói, tantas vezes, à margem de Deus, os cristãos devem ser os rostos dessa vida nova que Deus quer oferecer ao mundo. Estou consciente desta realidade? Tenho vivido de forma coerente com os compromissos que assumi no dia do meu batismo? Os valores que conduzem a minha vida são os valores que brotam da “sabedoria de Deus”?
• No entanto, muitos batizados continuam a conduzir a sua vida de acordo com a “sabedoria do mundo”. Passam, com indiferença, ao lado dos desafios que Deus faz, instalam-se no egoísmo e na auto-suficiência, vivem para o “ter”, deixam que a sua existência seja dirigida por critérios de ambição e de ganância, recusam-se a fazer da sua vida uma partilha generosa com os irmãos… O autor da Carta de Tiago avisa: cuidado, pois a opção pela “sabedoria do mundo” não é um caminho para a realização plena do homem; só gera infelicidade, desordem, guerras, rivalidades, conflitos, morte. Nós, os cristãos, temos de estar permanentemente num processo de conversão para que a “sabedoria do mundo” não ocupe todo o nosso coração e não nos impeça de atingir a vida plena.
• Quando pautamos a nossa vida pela “sabedoria do mundo”, isso tem consequências nas relações que estabelecemos com aqueles que caminham ao nosso lado. A ambição, a inveja, o orgulho, a competição, o egoísmo, criam divisões e destroem a comunidade. As nossas comunidades cristãs (ou religiosas) dão testemunho da “sabedoria de Deus” ou da “sabedoria do mundo”? As rivalidades, os ciúmes, as críticas destrutivas, a indiferença, as palavras que magoam, as lutas pelo poder, as tentativas de afirmação pessoal à custa do irmão, são compatíveis com a “sabedoria de Deus” que escolhemos no dia do nosso batismo?
• Uma palavra para o tema da oração, abordado no último versículo do nosso texto… Quando o nosso coração está cheio da “sabedoria do mundo”, a nossa oração não faz sentido; torna-se um monólogo egoísta, uma pedinchice de coisas que se destinam a satisfazer as nossas “paixões”, as nossas ambições, os nossos interesses pessoais. Antes de falar com Deus, precisamos de mudar o nosso coração, de reequacionar os nossos valores e as nossas prioridades, de aprender a ver o mundo e a vida com os olhos de Deus. Só então a nossa oração fará sentido: será um diálogo de amor e de comunhão, através do qual escutamos Deus, percebemos os seus planos, acolhemos essa vida que Ele nos quer oferecer.
Evangelho – Mc 9,30-37 - AMBIENTE
Já dissemos no passado domingo que a preocupação essencial de Marcos na segunda parte do seu Evangelho (cf. Mc. 8,31-16,8) é apresentar Jesus como “o Filho de Deus”. No entanto, Marcos tem o cuidado de demonstrar que Jesus não veio ao mundo para cumprir um destino de triunfos e de glórias humanas, mas para cumprir a vontade do Pai e oferecer a sua vida em dom de amor aos homens. É neste contexto que devemos situar os três anúncios feitos por Jesus acerca da sua paixão e morte (cf. Mc. 8,31-33; 9,30-32; 10,32-34). O texto que nos é proposto neste domingo é, precisamente, o segundo desses anúncios. O grupo já deixou Cesareia de Filipe (onde Jesus, pela primeira vez, tinha falado da sua paixão e morte, como lemos no Evangelho do passado domingo) e está agora a atravessar a Galileia. Muito provavelmente, a próxima ida para Jerusalém está no horizonte dos discípulos e eles têm consciência de que em Jerusalém se vai jogar a cartada decisiva para esse projeto em que tinham decidido apostar. Nesta fase, todos acreditam ainda que Jesus irá entrar na cidade na pele de um Messias político, poderoso e invencível, capaz de libertar Israel, pela força das armas, do domínio romano. Ao longo dessa “caminhada para Jerusalém”, Jesus vai catequizando os discípulos, ensinando-lhes os valores do Reino e mostrando-lhes, com gestos concretos, que o projeto do Pai não passa por esquemas de poder e de domínio. O nosso texto faz parte de uma dessas instruções aos discípulos. Será que eles entendem a lógica de Deus e estão dispostos a embarcar, com Jesus, na aventura do Reino?
MENSAGEM
O texto divide-se em duas partes. Na primeira, Jesus anuncia a sua próxima paixão, em Jerusalém; na segunda, Jesus ensina aos discípulos a lógica do Reino: o maior, é aquele que se faz servo de todos. Na primeira parte (vs. 30-32), Marcos põe na boca de Jesus um segundo anúncio da sua paixão, morte e ressurreição, com palavras ligeiramente diferentes do primeiro anúncio (cf. Mc 8,31-33), mas com o mesmo conteúdo. As palavras de Jesus denotam tranquilidade e uma serena aceitação desses fatos que irão concretizar-se num futuro próximo. Jesus recebeu do Pai a missão de propor aos homens um caminho de realização plena, de felicidade sem fim; e Ele vai fazê-lo, mesmo que isso passe pela cruz. A serenidade de Jesus vem-Lhe da total aceitação e da absoluta conformidade com os projetos do Pai. Os discípulos mantêm-se num estranho silêncio diante deste anúncio. Marcos explica que eles não entendem a linguagem de Jesus e que têm medo de O interrogar (v. 32). As palavras de Jesus são claras; o que não é claro, para a mentalidade desses discípulos, é que o caminho do Messias tenha de passar pela cruz e pelo dom da vida. A morte, na perspectiva dos discípulos, não pode ser caminho para a vitória. O “não entendimento” é, aqui, o mesmo que discordância: intimamente, eles discordam do caminho que Jesus escolheu seguir, pois acham que o caminho da cruz é um caminho de fracasso. Apesar de discordarem de Jesus eles não se atrevem, contudo, a criticá-l’O. Provavelmente recordam a dura reação de Jesus quando Pedro, logo a seguir ao primeiro anúncio da paixão, Lhe recomendou que não aceitasse o projeto do Pai (cf. Mc. 8,32-33).
A segunda parte (vs. 33-37) situa-nos em Cafarnaum, “em casa” (será a casa de Pedro?). A cena começa com uma pergunta de Jesus: “Que discutíeis pelo caminho?” (v. 33). O contexto sugere que Jesus sabe claramente qual tinha sido o tema da discussão. Provavelmente, captou qualquer coisa da conversa e ficou à espera da oportunidade certa – na tranquilidade da “casa” – para esclarecer as coisas e para continuar a instrução dos discípulos. Só neste ponto Marcos informa os seus leitores de que os discípulos tinham discutido, pelo caminho, “sobre qual deles era o maior” (v. 34). O problema da hierarquização dos postos e das pessoas era um problema sério na sociedade palestina de então. Nas assembléias, na sinagoga, nos banquetes, a “ordem” de apresentação das pessoas estava rigorosamente definida e, com frequência, geravam-se conflitos inultrapassáveis por causa de pretensas infrações ao protocolo hierárquico. Os discípulos estavam profundamente imbuídos desta lógica. Uma vez que se aproximava o triunfo do Messias e iam ser distribuídos os postos-chave na cadeia de poder do reino messiânico, convinha ter o quadro hierárquico claro. Apesar do que Jesus lhes tinha dito pouco antes acerca do seu caminho de cruz, os discípulos recusavam-se a abandonar os seus próprios sonhos materiais e a sua lógica humana. Jesus ataca o problema de frente e com toda a clareza, pois o que está em jogo afeta a essência da sua proposta. Na comunidade de Jesus não há uma cadeia de grandeza, com uns no cimo e outros na base… Na comunidade de Jesus, só é grande aquele que é capaz de servir e de oferecer a vida aos seus irmãos (v. 35). Dessa forma, Jesus deita por terra qualquer pretensão de poder, de domínio, de grandeza, na comunidade do Reino. O discípulo que raciocinar em termos de poder e de grandeza (isto é, segundo a lógica do mundo) está a subverter a ordem do Reino. Jesus completa a instrução aos discípulos com um gesto… Toma uma criança, coloca-a no meio do grupo, abraça-a e convida os discípulos a acolherem as “crianças”, pois quem acolhe uma criança acolhe o próprio Jesus e acolhe o Pai (vs. 36-37). Na sociedade palestina de então, as crianças eram seres sem direitos e que não contavam do ponto de vista legal (pelo menos enquanto não tivessem feito o “bar mitzvah”, a cerimônia que definia a pertença de um rapaz à comunidade do Povo de Deus). Eram, portanto, um símbolo dos débeis, dos pequenos, dos sem direitos, dos pobres, dos indefesos, dos insignificantes, dos marginalizados. São esses, precisamente, que a comunidade de Jesus deve abraçar. No contexto da conversa que Jesus está a ter com os discípulos, o gesto de Jesus significa o seguinte: o discípulo de Jesus é grande, não quando tem poder ou autoridade sobre os outros, mas quando abraça, quando ama, quando serve os pequenos, os pobres, os marginalizados, aqueles que o mundo rejeita e abandona. No pequeno e no pobre que a comunidade acolhe, é o próprio Jesus (que também foi pobre, débil, indefeso) que Se torna presente.
ATUALIZAÇÃO
• Os anúncios da paixão testemunham que Jesus, desde cedo, teve consciência de que a missão que o Pai Lhe confiara ia passar pela cruz. Por outro lado, a serenidade e a tranquilidade com que Ele falava do seu destino de cruz mostram uma perfeita conformação com a vontade do Pai e a vontade de cumprir à risca os projetos de Deus. A postura de Jesus é a postura de alguém que vive segundo a “sabedoria de Deus”… Ele nunca conduziu a vida ao sabor dos interesses pessoais, nunca pôs em primeiro lugar esquemas de egoísmo ou de auto-suficiência, nunca Se deixou tentar por sonhos humanos de poder ou de riqueza… Para Ele, o fator decisivo, o valor supremo, sempre foi a vontade do Pai, o projeto de salvação que o Pai tinha para os homens. Nós, cristãos, um dia aderimos a Jesus e aceitamos percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu. Que valor e que significado tem, para nós, essa vontade de Deus que dia a dia descobrimos nos pequenos acidentes da nossa vida? Temos a mesma disponibilidade de Jesus para viver na fidelidade aos projetos do Pai? O que é que dirige e condiciona o nosso percurso: os nossos interesses pessoais, ou os projetos de Deus?
• Neste episódio, os discípulos são o exemplo clássico de quem raciocina segundo a “sabedoria do mundo”. Quando Jesus fala em servir e dar a vida, eles não concordam e fecham-se num silêncio amuado; e logo a seguir, discutem uns com os outros por causa da satisfação dos seus apetites de poder e de domínio. Aquilo que os preocupa não é o cumprimento da vontade de Deus, mas a satisfação dos seus interesses próprios, dos seus sonhos pessoais. A atitude dos discípulos mostra a dificuldade que os homens têm em entender e acolher a lógica de Deus. Contudo, a reação de Jesus diante de tudo isto é clara: quem quer seguir Jesus tem de mudar a mentalidade, os esquemas de pensamento, os valores egoístas e abrir o coração à vontade de Deus, às propostas de Deus, aos desafios de Deus. Não é possível fazer parte da comunidade de Jesus, se não estivermos dispostos a realizar este processo.
• O Evangelho de hoje convida-nos a repensar a nossa forma de nos situarmos, quer na sociedade, quer dentro da própria comunidade cristã. A instrução de Jesus aos discípulos que o Evangelho deste domingo nos apresenta é uma denúncia dos jogos de poder, das tentativas de domínio sobre os irmãos, dos sonhos de grandeza, das manobras para conquistar honras e privilégios, da busca desenfreada de títulos, da caça às posições de prestígio… Esses comportamentos são ainda mais graves quando acontecem dentro da comunidade cristã: trata-se de comportamentos incompatíveis com o seguimento de Jesus. Nós, os seguidores de Jesus, não podemos, de forma alguma, pactuar com a “sabedoria do mundo”; e uma Igreja que se organiza e estrutura tendo em conta os esquemas do mundo não é a Igreja de Jesus.
• Na nossa sociedade, os primeiros são os que têm dinheiro, os que têm poder, os que frequentam as festas badaladas nas revistas da sociedade, os que vestem segundo as exigências da moda, os que têm sucesso profissional, os que sabem colar-se aos valores politicamente corretos… E na comunidade cristã? Quem são os primeiros? As palavras de Jesus não deixam qualquer dúvida: “quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos”. Na comunidade cristã, a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço aos irmãos. Na comunidade cristã não há donos, nem grupos privilegiados, nem pessoas mais importantes do que as outras, nem distinções baseadas no dinheiro, na beleza, na cultura, na posição social… Na comunidade cristã há irmãos iguais, a quem a comunidade confia serviços diversos em vista do bem de todos. Aquilo que nos deve mover é a vontade de servir, de partilhar com os irmãos os dons que Deus nos concedeu.
• A atitude de serviço que Jesus pede aos seus discípulos deve manifestar-se, de forma especial, no acolhimento dos pobres, dos débeis, dos humildes, dos marginalizados, dos sem direitos, daqueles que não nos trazem o reconhecimento público, daqueles que não podem retribuir-nos… Seremos capazes de acolher e de amar os que levam uma vida pouco exemplar, os marginalizados, os estrangeiros, os doentes incuráveis, os idosos, os difíceis, os que ninguém quer e ninguém ama?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho



O mais importante de todos
– Mandar é servir.
– O exercício da autoridade e a obediência na Igreja procedem da mesma fonte: o amor a Cristo.
– A autoridade na Igreja é um grande bem. Obedecer como Cristo obedeceu.
I. A PRIMEIRA LEITURA da Missa1 apresenta‑nos um ensinamento acerca dos padecimentos dos filhos de Deus injustamente perseguidos por causa da sua honradez e santidade. Armemos laços ao justo, porque nos incomoda: é contrário às nossas obras, lança-nos em rosto as nossas transgressões da lei e desonra-nos publicando os erros da nossa conduta. Declara que tem a ciência de Deus e chama-se a si próprio filho de Deus. Só o vê-lo nos é insuportável... Ponhamo-lo à prova por meio de ultrajes e tormentos para verificarmos a sua mansidão e provarmos a sua paciência. Condenemo‑lo à morte mais infame, e então se verá se é verdade que há quem se ocupe dele. Estas palavras, escritas séculos antes da chegada de Cristo, são aplicadas pela liturgia ao Justo por excelência, Jesus, Filho Unigênito de Deus, condenado a uma morte ignominiosa depois de padecer todas as afrontas.
No Evangelho da Missa2, São Marcos relata‑nos que Jesus atravessava a Galiléia com os seus, e pelo caminho ia-os instruindo sobre a sua morte e ressurreição. Dizia-lhes com toda a clareza: O Filho do homem será entregue às mãos dos homens e dar-lhe‑ão a morte, e ele ressuscitará ao terceiro dia. Mas os discípulos, que tinham formado outra idéia acerca do futuro reino do Messias, não compreendiam estas palavras e temiam interroga-lo.
Surpreende que, enquanto o Mestre lhes anunciava os padecimentos e a morte que viria a sofrer, os discípulos discutissem às suas costas sobre qual deles seria o maior. Por isso, ao chegarem a Cafarnaum, quando estavam em casa, Jesus quis saber o que tinham discutido pelo caminho. Eles, talvez envergonhados, calaram-se. E, sentando-se, chamou os doze e disse‑lhes: Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos. E, para tornar mais expressivo o ensinamento, tomou um menino, colocou-o no meio deles e, depois de o abraçar, disse‑lhes: Todo aquele que recebe um destes meninos em meu nome, a mim me recebe, e todo aquele que me recebe, não me recebe a mim, mas àquele que me enviou.
O Senhor quis ensinar aos que iriam exercer a autoridade na Igreja, na família, na sociedade, que essa faculdade era um serviço que deviam prestar. Fala-nos a todos de humildade e abnegação para sabermos acolher nos mais fracos o próprio Cristo. “Nessa criança que Jesus abraça estão representadas todas as crianças do mundo, e também todos os homens necessitados, desvalidos, pobres, enfermos, nos quais nada de brilhante e destacado há para admirar”3.
II. O SENHOR, nesta passagem do Evangelho, quer ensinar principalmente aos Doze como devem governar a Igreja. Indica-lhes que exercer a autoridade é servir. A palavra autoridade procede do vocábulo latino autor, que quer dizer autor, promotor ou fonte de alguma coisa4. Sugere a função daquele que vela pelos interesses e pelo desenvolvimento de um grupo ou sociedade. Governo e obediência não são ações contrapostas: na Igreja, ambas nascem do mesmo amor a Cristo. Manda‑se por amor a Cristo e obedece‑se por amor a Cristo.
A autoridade é um elemento necessário em toda a sociedade, e na Igreja foi querida diretamente pelo Senhor. Quando não é exercida numa sociedade, ou é exercida indevidamente, causa‑se aos seus membros um mal que pode ser grave, sobretudo se o fim dessa corporação ou grupo social é essencial para os indivíduos que a compõem.
“Esconde‑se um grande comodismo – e, por vezes, uma grande falta de responsabilidade – naqueles que, constituídos em autoridade, fogem da dor de corrigir, com a desculpa de evitar o sofrimento dos outros.
“Talvez poupem desgostos nesta vida.... mas põem em risco a felicidade eterna – a sua e a dos outros – pelas suas omissões, que são verdadeiros pecados”5.
A autoridade na Igreja deve ser exercida como o fez o próprio Cristo, que não veio para ser servido, mas para servir: Non veni ministrari sed ministrare6. O seu serviço à humanidade teve por fim a salvação, pois Ele veio dar a sua vida para redenção de muitos7, de todos. Pouco antes de pronunciar estas palavras, e numa situação semelhante à que se lê no Evangelho da Missa de hoje, o Senhor tinha manifestado aos Doze: Sabeis que os príncipes das nações as tratam despoticamente, e que os grandes abusam da sua autoridade. Não há de ser assim entre vós, mas todo aquele que quiser ser o maior entre vós, seja vosso servo, e aquele que quiser ser entre vós o primeiro, seja vosso escravo8.
Os Apóstolos foram entendendo pouco a pouco estes ensinamentos do Mestre, e compreenderam‑nos plenamente depois da vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes. São Pedro escreverá aos presbíteros9, anos mais tarde, que lhes cabe apascentar o rebanho de Deus não como quem domina sobre a herança, mas sendo sinceramente exemplares. E São Paulo afirmará que, não estando submetido a ninguém, se fez servo de todos para ganhar a todos10. Quanto “mais alto” se está na hierarquia eclesiástica, tanto mais obrigação se tem de servir. Uma profunda consciência desta verdade é a que se reflete no título adotado há séculos pelos Papas: Servus servorum Dei, o servo dos servos de Deus11.
Os bons pastores na Igreja devem saber “harmonizar perfeitamente a firmeza que – no seio da família – descobrimos no pai com a amorosa intuição da mãe, que trata os seus filhos desiguais de maneira desigual”12.
Devemos pedir que nunca faltem na Igreja os bons pastores: que saibam servir a todos com abnegação, e que o façam especialmente com os mais necessitados. A nossa oração diária pelo Sumo Pontífice, pelos bispos, pelos que de alguma maneira estão constituídos em autoridade, pelos sacerdotes e por aqueles que o Senhor quis que nos ajudassem no caminho da santidade, subirá até o Senhor e ser‑lhe‑á especialmente agradável.
III. QUANDO SE EXERCE a autoridade, serve‑se como Cristo serviu; e serve‑se também quando se obedece, como o Senhor, que se fez obediente até à morte e morte de cruz13. E para obedecer, temos de compreender que a autoridade é um bem, um bem muito grande, sem o qual a Igreja, tal como Cristo a fundou, não poderia subsistir.
Qualquer comunidade que queira subsistir tende naturalmente a procurar alguém que a dirija, sob pena de em breve deixar de existir. “A vida de todos os dias oferece um sem-número de exemplos desta tendência do espírito comunitário em busca da autoridade: desde os clubes, sindicatos ou associações profissionais [...]. Numa verdadeira comunidade cujos membros estão unidos por fins e ideais comuns, a autoridade não é objeto de temor, mas de respeito e acatamento, por parte dos que estão submetidos a ela. Numa pessoa normalmente constituída, a consciência individual não tende naturalmente a desconfiar da autoridade ou a rebelar‑se contra ela; a sua disposição é antes a de aceitá‑la, de recorrer a ela, de apoiá‑la”14. Na Igreja, o sentido sobrenatural – a vida de fé – faz‑nos ver nos seus preceitos e conselhos o próprio Cristo, que vem ao nosso encontro nessas indicações.
Para obedecer, temos de ser humildes, pois em cada um de nós existe um princípio desagregador – fruto amargo do amor-próprio, herança do pecado original – que por vezes pode levar‑nos a encontrar qualquer desculpa para não submeter docilmente a vontade a uma indicação de quem Deus estabeleceu para nos conduzir a Ele. “Hoje, que o ambiente está cheio de desobediência, de murmuração, de bisbilhotice, de enredos, temos que amar mais do que nunca a obediência, a sinceridade, a lealdade, a simplicidade – e tudo isso com sentido sobrenatural, que nos fará mais humanos”15.
Para que a virtude da obediência tenha essas características – e não provoque em nós sequer um trejeito de desgosto ou a mais leve sombra de espírito crítico –, recorremos nestes minutos finais da nossa meditação ao amparo da nossa Mãe, Santa Maria, que quis ser Ancilla Domini, a Escrava do Senhor16. Ela nos fará ver que servir – tanto ao exercermos a autoridade como ao obedecermos – é reinar17.
(1) Sab 2, 17‑20;
(2) Mc 9, 29‑36;
(3) Sagrada Bíblia, Santos Evangelhos, nota a Mc 9, 36‑37;
(4) cfr. J. Corominas, Diccionario critico etimologico castellano e hispano, Gredos, Madrid, 1987, vol. I, verbete Autor;
(5) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Forja, n. 577;
(6) Mt 20, 28;
(7) ibid.;
(8) Mt 20, 24‑27;
(9) cfr. 1 Pe 5, 1‑3;
(10) cfr. 1 Cor 9, 19 e segs.;
(11) cfr. Cormac Burke, Autoridad y libertad en la Iglesia, Rialp, Madrid, 1988, pág. 179;
(12) Alvaro del Portillo, Escritos sobre el sacerdocio, Palabra, Madrid, 1979, pág. 35;
(13) Fil 2, 8;
(14) Cormac Burke, Autoridad y libertad en la Iglesia, págs. 183‑184;
(15) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Forja, n. 530;
(16) Lc 1, 38;
(17) cfr. Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, 36.
Francisco Fernández-Carvajal


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