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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

26º DOMINGO TEMPO COMUM-B

26º DOMINGO TEMPO COMUM
27 de Setembro de 2015
Ano  B

Evangelho - Mc 9,38-43.45.47-48


-CORTAR O QUE NOS LEVA A PECAR-José Salviano



Jesus nos ordena a CORTAR tudo o que nos arrasta para o pecado. Tudo o que nos afasta de Deus e da salvação. É verdade que a vida eterna é mais importante do que ter dois olhos, duas mãos, etc. Porém, ousemos a não tomarmos suas palavras ao pé da letra, mas sim, entendemos que Jesus usou de palavras FORTES para que acordássemos enquanto é tempo. Continua


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QUEM NÃO É CONTRA NÓS É A NOSSO FAVOR– Olívia Coutinho

26º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 27 de Setembro de 2015

Evangelho de Mc 9,38-43.45.47-48

Neste domingo, comemoramos o dia Nacional da Bíblia, o livro Sagrado, onde encontramos todas as orientações para o nosso bem viver!  
Para nos tornarmos verdadeiramente seguidores de Jesus, precisamos mergulhar na profundidade da palavra de Deus para conhecermos melhor a quem seguimos!  A palavra de Deus é fonte de vida, quando embebedamos desta fonte de água viva, vamos  nos tornando, não somente ouvintes  da palavra de Deus, mas principalmente, anunciadores desta palavra com o nosso testemunho!
 Fomos criados  por amor e para o amor! Era sonho de Deus, que todos nós vivêssemos felizes numa só família, partilhando a vida, amando-nos mutuamente!  Mas  o mal encontrou brecha no coração humano, desfigurando a imagem de Deus presente nele! Porém, o amor do Criador pela sua criação é maior que tudo, Deus jamais  esgotou as formas de estar conosco, Ele investiu ato no humano, permitindo que o seu Filho pagasse com a vida, o preço da nossa liberdade! Jesus veio nos devolver a vida, nos  ensinar o caminho de volta ao coração Pai! 
O evangelho  que a liturgia de hoje nos apresenta, nos alerta sobre o perigo de fecharmos nas nossas verdades e não viver a verdade que é Jesus, o perigo de vivermos uma religião centrada no “poder” que sente  no direito de escolher quem entra e  quem deve sair, uma religião vazia que prega o amor, mas que na prática, não vive este amor!
 Quem não é contra nós é a nosso favor.” Esta foi a resposta de Jesus aos discípulos que proibiram alguém de fazer o bem, simplesmente pelo fato deste alguém, não pertencer ao grupo deles! Mesmo tendo  deixado tudo para seguir Jesus, os discípulos até então, não haviam entrado na dinâmica do reino, para eles, o seguimento a Jesus, traduzia numa  realização pessoal,  numa conquista de poder e de grandeza. Tomados por esta mentalidade, eles se sentiram  incomodados,  ao constatar que havia outras pessoas, fora do  grupo deles, realizando milagres  em nome de Jesus!
 Jesus não somente os  repreendeu,  como quis também conscientizá-lo de que a centralidade da fé está na vivencia do amor, o que independe  do grupo ou da religião de uma pessoa ! No coração de quem ama, não há espaço para o que não é de Deus, como a inveja o ciúme, o egoísmo...
O texto nos apresenta  várias orientações de Jesus, que nos faz refletir sobre a importância da  partilha, da tolerância, da caridade,  práticas de vida que se observadas no nosso dia a dia, nos tornará mais fraternos, mais próximos de Deus!  
A caminhada com Jesus para Jerusalém foi para os discípulos, uma grande escola de vida, pois enquanto caminhavam juntos, Jesus  ia ensinando-os na prática, como eles deveriam conduzir as suas vidas, despertando neles uma nova   mentalidade a respeito dos valores do Reino!
Em todos os seus ensinamentos, Jesus sempre deixou claro, que só o amor constrói, que só o amor gera vida! O amor cria e recria vida, abre caminhos,  leva-nos ao encontro do outro, enfim, é o amor que movimenta a nossa vida!
Jesus não quer que nenhum de nós seja escravizado pelas estruturas humanas, como a ambição, a inveja  o orgulho, por isto Ele nos  convoca a entrarmos  na dinâmica do reino, cortando pela raiz estes males que tem origem na própria natureza humana quando corrompida pelo desejo do ter, do poder e o prazer! Se não cortarmos de vez, as raízes deste mal, não daremos continuidade ao anúncio do evangelho, frustrando assim, mais uma vez, o sonho de Deus!
A prática do bem é sinal de amor ao próximo, ou seja, qualquer atitude que venha beneficiar alguém, partindo de quem quer que seja, deve ser acolhida com alegria por todos!
Todas as nossas atitudes devem convergir-se para o bem maior que é a vida! 

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olivia Coutinho
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Os dons de Deus não podem ser privatizados
Neste último domingo de setembro, celebramos o dia da Bíblia. Através da Bíblia temos a oportunidade de conhecer a Deus e o seu plano de amor. Ele se revela na história humana.
Concede seus dons com liberalidade para o bem de todos. Os dons de Deus não podem ser privatizados ou restringidos a determinadas
pessoas ou instituições. A primeira leitura relata um episódio de efusão do Espírito de Deus não somente sobre Moisés, o grande líder do Êxodo, mas sobre muitas outras pessoas, as quais começaram a profetizar. Diante disso, teve gente que tentou impedi-las. O evangelho de Marcos conta como os discípulos tiveram a mesma reação ao constatarem que outras pessoas faziam o bem em nome de Jesus sem pertencerem ao grupo deles. Essas reações revelam a descabida pretensão de privatizar os dons de Deus. Também os bens materiais são dons de Deus que devem ser administrados de forma a proporcionar vida digna para todos.
A segunda leitura denuncia veementemente a atitude dos ricos que privatizam esses bens e exploram os trabalhadores. Deus não deixará de ouvir o grito das pessoas injustiçadas e pedirá contas de quem retém os recursos que ele destinou para todos.
1ª leitura: Nm. 11,25-29
A efusão do Espírito de Deus
O povo de Israel encontra-se em caminhada pelo deserto, libertando-se da escravidão do Egito. Moisés foi chamado por Deus para liderar esse processo de conquista de uma terra de liberdade e vida. Esse chamado não significa a prática de um poder centralizado.
Acima de tudo, é necessário garantir o projeto de Deus. Moisés é um dos protagonistas, mas não o único. A sociedade nova é construída com
a participação do povo. Os setenta anciãos representam as lideranças necessárias para animar a organização social conforme a inspiração divina. Por isso, Deus lhes concede o seu Espírito a fim de que cumpram sua missão com fidelidade. Eles exercem a profecia, isto é, falam e orientam o povo em nome de Deus.
Os setenta anciãos estão na mesma tenda com Moisés. Pertencem, portanto, ao grupo íntimo do principal líder. A tenda de Moisés é o espaço oficial das decisões a serem tomadas para todo o povo. Os anciãos são oficialmente delegados para exercer a função de instruir, orientar e julgar o povo. Mas eis que duas pessoas que não se encontravam na tenda de Moisés também recebem o mesmo dom do Espírito e começam a profetizar no meio do acampamento. O texto conservou o nome dos dois: “Eldade” que significa “Deus é amigo”, e “Medad”, “Deus é amor”. Um jovem correu para informar a Moisés, certamente preocupado com a autonomia dos dois novos profetas que cumprem sua missão sem uma delegação oficial. Josué, que será o substituto de Moisés na condução do povo, sugere-lhe que os proíba. Moisés, no entanto, percebe que a tentativa de proibição da parte de Josué é motivada por ciúmes. Por isso, Moisés o corrige. Ele não teme ser ofuscado em sua autoridade. O que importa é que os dons de Deus, distribuídos conforme sua vontade, sejam acolhidos e administrados para o bem de todos. Os dons divinos não obedecem aos interesses de instituições oficiais. Deus é soberano em suas decisões, e sua liberalidade é extraordinária. Oxalá todo o povo se deixe conduzir pelo Espírito de Deus!
Evangelho: Mc. 9,38-43.45.47-48
Praticar o bem: alguém pode impedir?
No domingo passado, refletimos sobre o texto do evangelho de Marcos onde os discípulos, após discutirem, pelo caminho, sobre quem deles seria o maior, recebem em casa uma instrução especial de Jesus. Tomando uma criança e colocando-a no meio deles, Jesus mostra qual é a atitude verdadeira que seus discípulos devem ter na vida: “Ocupar o último lugar e tornar-se servos uns dos outros”. O texto de hoje é a continuação daquele episódio. No caminho, eles não apenas haviam discutido quem seria o maior, mas também tentaram impedir que alguém que não pertencia ao seu grupo realizasse boas ações em nome de Jesus. É João que, dessa vez, representa a todos: “Mestre, vimos alguém que não nos segue, expulsando demônios em teu nome, e o impedimos porque não nos seguia”.
Essa é mais uma atitude que revela o grau de imaturidade em que se encontram os discípulos de Jesus. Eles também já haviam sido enviados por Jesus para pregar o Evangelho e “expulsaram muitos demônios e curaram muitos enfermos” (Mc 6,12). Foi muito bonita essa experiência missionária quando numerosas pessoas foram beneficiadas. Certamente sentiram-se privilegiados por serem escolhidos por Jesus e enviados por ele para tão grande missão. O que eles não esperavam é que outras pessoas, além deles, pudessem realizar as mesmas obras. Ficaram aborrecidos e enciumados, como aconteceu com Josué, conforme ouvimos na primeira leitura. Moisés, cheio de sabedoria e de grande coração, corrigiu a atitude de Josué. Assim também Jesus, que veio ao mundo para salvar a todos, procura instruir os discípulos para que mudem de mentalidade e de atitude: “Não o impeçais... Quem não é contra nós, está a nosso favor”.
Com isso, Jesus está alertando que pode haver pessoas que pertencem ao círculo íntimo dos discípulos, mas são contra ele; ele está colocando o projeto de vida para todos acima das pretensões pessoais.
Não se pode fazer uso do nome de Deus ou da religião para satisfazer interesses pessoais ou para disputas de poder. Essa atitude seria escândalo para os pequeninos que olham para seus líderes esperando verdadeiro testemunho de fé e de amor. O escândalo existe quando alguém na comunidade pretende ser maior que os outros; ao invés de servir, quer ser servido. Jesus é enfático: melhor seria que essa pessoa se afogasse definitivamente no fundo do mar. E diz mais: é preciso cortar a mão que escandaliza, isto é, o mau agir; cortar o pé, que significa corrigir a direção ou a conduta errada na vida; arrancar o olho, ou seja,o modo de ver as coisas com cobiça, ciúme, inveja, ambição... Portanto, há necessidade de vigiar sobre o modo como vivemos e como exercemos as funções comunitárias. É preciso extirpar tudo o que contradiz o Evangelho e causa dano aos que querem entender e praticar verdadeiramente o que Jesus pede. A missão de promover a vida digna de todos constitui-se em serviço abnegado e humilde e não em uma forma de projeção social, de exploração do sentimento religioso dos pequeninos ou de outras intenções egoísticas.
2ª leitura: Tg. 5,1-6
O grito dos injustiçados
A realidade contemplada pelos autores da carta de Tiago, conforme se deduz desse texto, é de terrível injustiça social. Não sabemos se esses ricos exploradores fazem parte das comunidades cristãs. Provavelmente não, pois seria uma explícita contradição da fé que professam. Ou seriam aqueles cristãos cuja fé é morta, como já foi alertado anteriormente nessa mesma carta? Dizem que têm fé, mas não têm obras (2,14-17).
O fato é que Tiago, com palavras duras e contundentes, denuncia a situação social em que os pobres estão sendo oprimidos. Percebe-se que os ricos são grandes proprietários de terra que se aproveitam da mão de obra dos pobres trabalhadores pagando um salário irrisório (ou retendo) e reduzindo-os à condição de escravos. A riqueza acumulada nas mãos desses senhores, fruto do suor e do sangue dos oprimidos, se tornará motivo de sua própria condenação. Todo o ouro e a prata, apesar de serem metais naturalmente consistentes, estão corroídos pela ferrugem. Os bens acumulados à custa de injustiça carregam a “ferrugem” da maldade. Eles serão usados como testemunhas contra os seus donos, pois o grito dos injustiçados sempre é acolhido por Deus, que é justo e verdadeiro.
Ao longo da Bíblia encontramos frequentemente alusão ao uso dos bens materiais. Desde o episódio do maná no deserto, pelo qual Deus alimentou o seu povo, nos é dada a orientação de que não se pode acumular, pois o acúmulo apodrece (Ex. 16,19). Os profetas condenaram
a injustiça social como uma enorme ofensa a Deus a ponto de rejeitar qualquer tipo de manifestação religiosa enquanto não houvesse conversão (Am 5,21-24; Is 58, 6-9). Nos evangelhos, encontramos vários textos que se referem ao perigo da riqueza e da insensibilidade social: um exemplo é o do homem rico e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31). Chama a atenção o fato de que a salvação ou a condenação está ligada ao modo como cada um administra os bens. Não podemos reter ou privatizar o que Deus concedeu para a vida de todos.
Pistas para reflexão
– A Bíblia nos revela a bondade e a generosidade de Deus. Ele concede os dons e carismas com liberalidade. Cada pessoa que os recebe deve colocá-los a serviço da vida. Não podem ser considerados como bens privativos, pois eles são de Deus. Não podem ser usados como motivo de vanglória pessoal, e sim como expressão da bondade divina. Todas as pessoas recebem dons para alegria e felicidade de todos, independentemente da instituição ou da tradição religiosa a que pertence. Portanto, não tem sentido o ciúme ou a competição. O que importa é que todos os dons sejam aplicados verdadeiramente para o projeto de “vida em abundância” para todas as pessoas.
Assim, cada pessoa e cada religião, a política e a economia, a arte, a ciência e a tecnologia devem visar o bem social. Pode-se refletir sobre
os efeitos sociais de uma vida ou atividade (mão, pé e olho) orientadas pela ética e pelo amor e das que seguem objetivos egoísticos...
– Os bens materiais são dons de Deus para a vida de todos os seus filhos e filhas. Ofendemos a Deus quando os administramos de forma egoísta. A privatização da riqueza nas mãos de poucos denuncia o sistema social
injusto em que vivemos. “Perdemos a capacidade de sentir. Essa é uma das causas de nossa miséria” (Herbert de Souza – o Betinho). Jesus preveniu: “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem...
Ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça, nem o caruncho correm...” (Mt. 6,19-21). Podem-se levantar os desafios sociais que existem na paróquia e no município e incentivar o compromisso de cristãos na construção de um mundo justo, fraterno e solidário...
Celso Loraschi

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Ser discípulo sem rivalidade
Antes, Marcos falou em acolher pequenos “em nome de Jesus”. Encadeando outras sentenças no mesmo item, passa agora ao assunto do exorcizar “em nome de Jesus” (associação verbal, muito comum na tradição oral dos primeiros cristãos) (evangelho).
Logo nos albores da comunidade cristã, milagreiros e exorcistas não cristãos, notando a força do “nome de Jesus” (cf. At. 3,6.16; 4,10), tentavam usar esse nome em seus “trabalhos”. Mas os cristãos exigiam direitos autorais. Como resposta, Marcos traz uma sentença de Jesus: “Quem não é contra nós, é por nós”. Resposta de bom senso e desapego evangélico, pois o importante é que o nome de Jesus seja honrado. Mas quem considera o grupo mais importante que o nome de Jesus fica indisposto. Não aceita que os dons cristãos floresçam fora da Igreja.
Jesus presta pouca atenção a esse tipo de objeções. Os que por ele foram reunidos não devem pensar que eles são os únicos em quem possa operar seu espírito. Ser reunido por Cristo é uma graça, mas não um monopólio. Pelo contrário, devemos desejar que seus benefícios sejam espalhados o mais amplamente possível. Já Moisés deu aos hebreus uma lição neste sentido. No momento da assembléia dos setenta anciãos que receberam “algo do espírito de Moisés”, dois tinham ficado no acampamento; porém, receberam também o espírito profético. Josué quer impedi-los, mas Moisés retruca: “Oxalá o povo todo recebesse assim o espírito” (1ª leitura).
Estas idéias escandalizam aqueles para quem o grupo é tudo. Ora, não a Igreja em si, mas Cristo e seu espírito são o mais importante. (Não se alegue o velho adágio: “Extra Ecclesiam nulla salus”, pronunciado contra os que abandonavam a Igreja.) Mas escandalizam-se também os que só conhecem aquela outra sentença de Jesus: “Quem não é comigo, é contra mim” (Mt. 12,30 = Lc. 11,23), pronunciada num contexto de inimizade (os escribas acusam Jesus de expulsar demônios pela força de Beelzebu); pois em tal contexto, é preciso escolher: quem não se coloca do lado de Jesus se coloca do outro. Mas isso nada tem a ver com o caso de alguém que recebe os dons do Cristo fora da Igreja.
Sempre no item do “nome”, Jesus promete recompensa pelo mínimo benefício feito a alguém “em nome de ser do Cristo” (9,41). E já que se estava falando também de “pequenos” (cf. v. 37), cabe dizer algo sobre o escândalo dado aos pequenos (9,42). E, continuando com o item “escândalo”: a gente tem que erradicar de sua vida as raízes do escândalo, as causas das fraquezas na fé, assim como se amputa uma mão quando ela põe o corpo em perigo (ou como se extrai um dente quando causa enxaqueca) (9,43-48).
O evangelho trata, portanto, de assuntos diversos. Ora, o conjunto da liturgia acentua o tema da ação de Deus fora da assembléia “oficial”. Este ponto deve reter a atenção da catequese litúrgica, e é muito importante em nosso ambiente, onde macumbistas e espíritas fazem “trabalhos” em nome de Jesus (e com sucesso). Existe uma mentalidade de combater o sincretismo religioso. Talvez seria mais evangélico ponderar – sem esconder os problemas – o bem que eventualmente façam e reconhecer que lá também Deus pode levar alguém a colocar em obra o seu amor. Tal atitude mostrará a face compreensiva da Igreja, procurando reconhecer em tudo o bem – e levaria menos pessoas a procurar a umbanda por não encontrar resposta humana num catolicismo formalizado e ríspido (11).
11. Pensando no diálogo em torno de problemas econômicos e ecológicos de nosso mundo, devemos pensar nas coisas boas que podem ser feitas “em nome de Jesus” mediante pensamentos que não nasceram no âmbito da cristandade.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Homilia I
Hoje, a Palavra de Deus apresenta alguns elementos importantes que nos precisam ser continuamente recordados. Tanto a primeira leitura quanto o Evangelho, recordam-nos que Deus não é propriedade de ninguém. Ante o zelo mesquinho de João, Jesus afirma:
“Quem não é contra nós é a nosso favor”. É preciso compreender bem a afirmação do Senhor. Certamente, ele é o Caminho e a Verdade da humanidade; certamente ele fundou a Igreja, comunidade de seus discípulos; dotou essa Igreja do seu Espírito, de pastores e de toda uma estrutura visível. Esta Igreja de Cristo, nós cremos que permanece de modo pleno na Igreja católica. Isto significa que os elementos essenciais da Igreja de Cristo permanecem, por graça e fidelidade do Senhor, naquela Comunidade que ele fundou desde o início, a Igreja una, santa, católica e apostólica. Quais são esses elementos essenciais? A Palavra de Deus, pregada e interpretada segundo a Tradição apostólica, a Eucaristia como banquete e sacrifício, os sete sacramentos, o ministério de Pedro, presente nos seus sucessores, os Papas de Roma, o ministério episcopal, no qual se concretiza a sucessão apostólica, a caridade fraterna, os vários dons e carismas da comunidade, o sentido da missão de anunciar Jesus ao mundo como Senhor e Salvador, o martírio como testemunho máximo de Cristo, a presença materna da Virgem Maria e dos Santos, amigos de Cristo. A Igreja católica é, portanto, Igreja de Cristo, pertence a Cristo e, por graça de Cristo, conserva e conservará sempre, sem poder perder, estes elementos. Mas, isso não significa que a Igreja seja proprietária de Cristo. Aqui é preciso dizer claramente: a Igreja pertence a Cristo, mas Cristo não é propriedade da Igreja! De fato, na força do seu Espírito Santo, ele manifesta sua ação também fora da estrutura visível da Igreja católica. Pensemos nos nossos irmãos separados, de tradição protestante. Eles têm tantos elementos da Igreja de Cristo: a Palavra de Deus, a confissão de Jesus como Senhor e Salvador, tantos dons e carismas, o amor sincero a Jesus, a caridade fraterna, o ela missionário. Tudo isso deve ser, para nós, católicos, causa de alegria. Ainda que não estejam em comunhão plena com a Igreja de Cristo e falte-lhe elementos essenciais da Igreja de Cristo, eles não estão fora do caminho da salvação! Hoje, Jesus nos convida à tolerância e ao amor a esses irmãos.
Isto não significa de modo algum dizer que está tudo bem, que tanto faz ser católico como não ser, que o importante é a fé em Jesus e pronto. Não! É preciso recordar que a divisão na Igreja é um pecado grave e contraria o desejo de unidade que o Senhor deixou como testamento: “Pai, não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo. 17,20s). É também absolutamente falso afirmar que as questões de doutrina não são importantes. O Novo Testamento está repleto de advertências contra os que ensinam doutrinas erradas e contrárias à fé dos apóstolos e são Paulo mesmo exorta a separar da Comunidade quem pregar um evangelho diferente do dele (cf. Gl. 1,6-9). A busca de recompor a unidade visível da Igreja em torno de Cristo, com os mesmos pastores, os mesmos sacramentos e a mesma doutrina é dever de todos os cristãos! Mas, também é necessário deixar claro o dever que todos nós temos da tolerância respeitosa e amorosa para com os irmãos separados. Se nos entristece ouvi-los falar mal da Igreja – às vezes até caluniando-a e mentindo contra ela -, deve alegrar-nos ouvi-los falar bem de Cristo e pregar o Evangelho. Ainda mais: até para com os não-cristãos, como os espíritas, muçulmanos, budistas, adeptos da seicho-no-iê... temos o dever do respeito e da tolerância. Deles, o Senhor afirma no evangelho de hoje: “Quem vos der a beber um copo da água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa”. Então, que fique bem claro o dever da tolerância que nós, discípulos de Cristo, temos para com os demais.
Mas, a Palavra de Deus também fala hoje de radicalidade. Tolerância para com os outros; radicalidade para conosco, no nosso ser cristãos! Vejamos: (1) Radicalidade no respeito pela debilidade dos pequeninos e fracos na fé: “Se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”. Deus nos livre de escandalizar, Deus nos livre de, por nossas atitudes, ser causa de tropeço para os irmãos mais fracos na fé! (2) Radicalidade para cortar o que em nós é escândalo, isto é, o que em nós leva ao pecado e ao afastamento de Cristo: “Se tua mão te leva a pecar, corta-a... Se teu pé te leva a pecar, corta-o... Se teu olho te leva a pecar, arranca-o!” Hoje, a tendência é arrancar o Evangelho para não termos que arrancar nada em nós, para não termos que nos incomodar nem mudar de vida! Jesus é claro: não entrará na vida quem sinceramente não combater aquilo que o faz tropeçar no caminho cristão. (3) Finalmente, a radicalidade de apoiar-se somente no Senhor e não nas nossas posses espirituais e materiais: espiritualmente, nunca pensar que somos proprietários do Senhor e da salvação e, materialmente, recordar que nossas riquezas apodrecem e nosso outro enferruja. São Tiago nos adverte duramente na segunda leitura de hoje: triste de quem é rico para si, desprezando os outros, mas não é rico para Deus!
Que o Senhor, pela sua graça, nos dê toda tolerância e toda intolerância. Toda tolerância com os irmãos e toda intolerância com o nosso pecado e as nossas manhas,! Que o Senhor nos converta, ele que é bendito para sempre. Amém.
Homilia II
Tomemos o Evangelho deste hoje. Três coisas nos diz, três exortações nos faz.
A primeira delas é uma exortação à tolerância, a não querermos manipular Deus ou cair na ilusão de que o temos como uma propriedade, um monopólio. Eis: “João disse a Jesus: ‘Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue’. Jesus disse: ‘Não o proibais. Quem não é contra nós é a nosso favor’”. Vede, caríssimos, o Senhor nos convida a uma atitude de abertura, nos exorta a reconhecer o bem naqueles que não são dos nossos, que não estão na plena comunhão com a sua Igreja católica. Não se trata de relativismo, não se trata de afirmar que todas as religiões são iguais. Nada disso! Trata-se de reconhecer o que de bom, pela graça de Deus, há nos outros. Por exemplo: como não reconhecer que nossos irmãos protestantes, ainda que não estejam na plena comunhão com a Igreja de Cristo e tenham erros sérios de doutrina, amam sinceramente a Jesus? Como não nos alegrar pelo bem que fazem, pela proclamação de Jesus que testemunham, pelos dons e carismas que têm entre eles? Ainda que fora da comunhão plena com a Igreja que o Senhor Jesus fundou e entregou a Pedro e aos Doze, eles são nossos irmãos verdadeiramente pela fé e o batismo. Outro exemplo: Como não nos alegrar porque tantos judeus procuram ser sinceramente fiéis ao Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó e, de todo o coração, procuram viver os preceitos da Lei e esperam o Messias? Ou ainda, como não reconhecer que é um bem que os muçulmanos adorem um só Deus e respeitem o nome de Jesus como de um profeta? Ou então, como não admirar sinceramente a idéia de compaixão que existe entre os budistas? E assim por diante... Também aí, em todas essas religiões, há elementos de verdade, mesmo que misturados a tantos erros de doutrina ou de prática... Mas, pelos acertos, pelo bem, pelos elementos de verdade, bendito seja Deus! E, precisamente aqui, o Senhor nos convida ao respeito pelos outros, pelos que pensam e vivem e crêem de maneira diferente da nossa... Também entre esses há bons sentimentos, há retidão de consciência, há bondade. Não reconhecer isso seria pecado de nossa parte! “E quem vos der a beber um copo de água porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa”. Vede, também o bem que fizerem, ainda que não sejam dos nossos, será recompensado pelo Senhor!
Meus caros, nossa primeira tendência é refutar quem não pensa como nós, é rechaçar o diferente, procurar logo os defeitos e condenar; nossa tentação é a dureza, a intransigência, a rejeição. Recordai a mesma atitude fechada de Josué, na primeira leitura. É zelo, mas zelo desorientado; é amor, mas amor que precisa ser evangelizado! Vede que o Senhor claramente nos convida a uma outra atitude. Repito: nada de relativismo, nada de nivelar as religiões com a fé católica, recebida dos apóstolos. Mas também nada de prepotência, orgulho ou intransigência mesquinha. Acolhamos a todos, a todos respeitemos, com todos procuremos a paz na verdade, sobretudo com aqueles que, sem ser dos nossos, adoram conosco o nosso Cristo Jesus como Deus e Salvador.
Uma segunda exortação do Senhor: o cuidado com os pequenos, os fracos na fé, os imaturos que estão na nossa comunidade: “Se alguém escandalizar um desses pequeninos que crêem , melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”. Não basta ser tolerante com os de fora; é necessário mais ainda ser cuidadoso com os de nossa comunidade, de nossa paróquia, os nossos irmãos, filhos da mesma mãe católica. Quantas vezes uma palavra dura, um mau exemplo, uma atitude de fechamento, podem fazer esfriar a fé do irmão que é fraco. É o escândalo, isto é, é se tornar causa de tropeço e de queda para os outros. Deus nos livre, caríssimos, de servir a Deus passando por cima dos outros! Deus nos defenda de uma santidade que não cuide do bem e da fé dos irmãos! Deus nos guarde de um cristianismo sem amor! Eis aqui: com os de fora, tolerância e respeito; com os de dentro, amor e cuidado fraterno!
É impressionante o quanto Jesus nos faz responsáveis uns pelos outros, o quanto pedirá contas da fé e da perseverança do nosso irmão! Ai de nós se escandalizarmos, ai de nós se desprezarmos, ai de nós se formos motivo de queda para os outros! – Senhor, tem piedade de nós, que somos fracos! Tem compaixão de nós, pois tantas vezes, sem querer, escandalizamos, sem perceber, fazemos os outros sofrerem! – Recordai, caríssimos da súplica do Salmo de hoje: “Quem pode perceber suas faltas? Perdoai as que não vejo! E preservai o vosso servo do orgulho: não domine sobre mim!” Não aconteça que fiquemos sem ter o que responder quando o Senhor, no Dia final, nos perguntar como a Caim: “Onde está o teu irmão?” Cuidemos, caríssimos, uns dos outros e, na medida de nossa humana limitação, sejamos solícitos pelo bem de nossos irmãos!
Por último, uma gravíssima exortação do nosso Salvador: tudo quanto nos escandalizar, isto é, tudo quanto nos atrapalhar na vida cristã, tudo quanto nos fizer tropeçar, devemos ter a coragem de arrancar de nossa vida: “Corta-o! Arranca-o!” Caro meu, o que te faz tropeçar no caminho do Senhor? Tens combatido, tens afastado, tens lutado contra esses empecilhos? Se combatermos nossos pedaços ruins, nossas más tendências, nossos vícios, saibamos que o Senhor não nos abandonará e estaremos caminhando para ele. Mas, ao contrário, se descansarmos preguiçosamente no mal, então nosso coração irá sendo endurecido e afastado do Senhor, iremos nos enchendo de nós mesmos e nos esvaziando de Deus, ao ponto de termos de escutar a reprimenda duríssima de São Tiago, na segunda leitura: “Agora, ricos, chorai e gemei, por causa das desgraças que estão para cair sobre vós!” O Apóstolo convida-nos à retidão, à justiça, à uma vida segundo a verdade de Cristo! Ricos de pecados, ricos de uma vida soberba, ricos para si mesmos e não para Deus – se assim formos, morreremos para Cristo!
Eis, pois! Guardemos no coração estas advertências do nosso Salvador e vivamos uma vida nova, segunda a sua santa vontade. Amém!
dom Henrique Soares da Costa

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A liturgia do 26º domingo do tempo comum apresenta várias sugestões para que os crentes possam purificar a sua opção e integrar, de forma plena e total, a comunidade do Reino. Uma das sugestões mais importantes (que a primeira leitura apresenta e que o Evangelho recupera) é a de que os crentes não pretendam ter o exclusivo do bem e da verdade, mas sejam capazes de reconhecer e aceitar a presença e a ação do Espírito de Deus através de tantas pessoas boas que não pertencem à instituição Igreja, mas que são sinais vivos do amor de Deus no meio do mundo.
A primeira leitura, recorrendo a um episódio da marcha do Povo de Deus pelo deserto, ensina que o Espírito de Deus sopra onde quer e sobre quem quer, sem estar limitado por regras, por interesses pessoais ou por privilégios de grupo. O verdadeiro crente é aquele que, como Moisés, reconhece a presença de Deus nos gestos proféticos que vê acontecer à sua volta.
No Evangelho temos uma instrução, através da qual Jesus procura ajudar os discípulos a situarem-se na órbita do Reino. Nesse sentido, convida-os a constituírem uma comunidade que, sem arrogância, sem ciúmes, sem presunção de posse exclusiva do bem e da verdade, procura acolher, apoiar e estimular todos aqueles que atuam em favor da libertação dos irmãos; convida-os também a não excluírem da dinâmica comunitária os pequenos e os pobres; convida-os ainda a arrancarem da própria vida todos os sentimentos e atitudes que são incompatíveis com a opção pelo Reino.
A segunda leitura convida os crentes a não colocarem a sua confiança e a sua esperança nos bens materiais, pois eles são valores perecíveis e que não asseguram a vida plena para o homem. Mais: as injustiças cometidas por quem faz da acumulação dos bens materiais a finalidade da sua existência afastá-lo-ão da comunidade dos eleitos de Deus.
1ª leitura: Nm. 11,25-29 - Ambiente
O livro dos Números (assim chamado na versão grega, pelo fato de o livro começar com uma lista de recenseamento onde são dados os números de membros de cada tribo do Povo de Deus) apresenta um conjunto de tradições – sem grande preocupação de coerência e de lógica – sobre a estadia no deserto dos hebreus libertados do Egito. São tradições de origem diversa, que os teólogos das escolas jahwista, elohista e sacerdotal utilizaram com fins catequéticos. No seu estado atual, o livro está dividido em três partes. A primeira narra os últimos dias da estadia do Povo de Deus no Sinai (cf. Nm. 1,1-10,10); a segunda apresenta, em várias etapas, a caminhada do Povo pelo deserto, desde o Sinai à planície de Moab (cf. Nm. 10,11-21,35); a terceira apresenta a comunidade dos filhos de Israel instalada na planície de Moab, preparando a sua entrada na Terra Prometida (cf. 11,1-36,13). Mais do que uma crônica de viagem do Povo de Deus desde o Sinai, até às portas da Terra Prometida, o Livro dos Números é um livro de catequese. Pretende mostrar que a essência de Israel é ser um Povo reunido à volta de Jahwéh e da Aliança. Com algum idealismo, os autores do Livro dos Números vão descrevendo como, por ação de Jahwéh, esse grupo informe de nómadas libertado do Egito foi ganhando progressivamente uma consciência nacional e religiosa, até chegar a formar a “assembléia santa de Deus”. Ao longo do percurso geográfico pelo deserto, Israel vai fazendo também uma caminhada espiritual, durante a qual se vai libertando da mentalidade de escravo, para adquirir uma cultura de liberdade e de maturidade. O autor mostra como, por ação de Deus (que está sempre presente no meio do Povo), Israel vai progressivamente amadurecendo, renovando-se, transformando-se, alargando os horizontes, tornando-se um Povo mais responsável, mais consciente, mais adulto e mais santo. O episódio que hoje nos é proposto acontece pouco depois da partida do Sinai. Num lugar chamado Tabera (cf. Nm. 11,3), o Povo revoltou-se por não ter comida em abundância e murmurou contra Jahwéh. Moisés, cansado e desiludido, queixou-se ao Senhor de não conseguir aguentar o fardo da condução deste Povo rebelde (cf. Nm. 11,11-15); então, Jahwéh propôs a Moisés escolher setenta anciãos que, depois de ungidos pelo Espírito de Deus, ajudariam Moisés na tarefa de conduzir o Povo pelo deserto (cf. Nm 11,16-24). É precisamente neste ponto que começa o nosso texto.
Mensagem
Os “anciãos” (em hebraico: “tzequenîm”) são uma instituição no universo político e social de Israel. São os “cabeças de família” que formavam, em cada cidade, uma espécie de “conselho” e que presidiam à comunidade. O nosso texto faz remontar a Moisés e ao deserto a instituição dos anciãos. Na perspectiva do catequista bíblico, eles recebem o Espírito de Deus para colaborar na governação do Povo de Deus.
A forma como o nosso autor descreve o dom do Espírito é a seguinte: Deus tirou “uma parte” do Espírito que estava em Moisés e derramou-o sobre os setenta anciãos. Na perspectiva do autor, a explicação é esta: Moisés possuía a plenitude do Espírito enquanto dirigiu sozinho o Povo de Deus; porém, quando a responsabilidade da governação foi dividida com os setenta anciãos, também o Espírito que repousava em Moisés foi repartido por todos. A descrição, ainda que bizarra, dá a idéia, por um lado, da unidade do Espírito e, por outro, da partilha do mesmo Espírito por todos aqueles que Deus chama a uma missão.
A presença do Espírito de Deus nos anciãos manifesta-se na capacidade de profetizar. O “profetismo” de que aqui se fala não tem nada a ver com o “profetismo” dos grandes profetas pregadores e escritores que Israel conhecerá mais tarde; mas designa um estado de entusiasmo ou frenesim, de êxtase e delírio coletivo, destinados a criar um clima de fervor e de exaltação religiosa. Nesta altura, manifestações deste tipo são vistas como sinais da presença do Espírito de Deus.
A história tem, contudo, um epílogo inesperado: Eldad e Medad, dois anciãos que estariam na lista dos setenta escolhidos, mas que não estavam presentes no momento da recepção do Espírito, começaram também a profetizar. Josué crê que se trata de um abuso intolerável, que põe em causa as competências da hierarquia estabelecida e propõe a Moisés que lhe ponha cobro… A resposta de Moisés é a resposta de um homem livre, magnânimo, de espírito aberto, que não está preocupado com o controle dos mecanismos de poder, mas com a vida e a felicidade do seu Povo: “Estás com ciúmes por causa de mim? Quem me dera que todo o Povo fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles” (v. 29).
A resposta de Moisés será um anúncio profético do dia do Pentecostes, quando o Espírito de Deus se derramou sobre a totalidade do Povo da Nova Aliança (cf. At. 2,16-21).
Atualização
• A comunidade do Povo de Deus é a comunidade do Espírito. O Espírito não é privilégio dos membros da hierarquia; mas está bem vivo e bem presente em todos aqueles que abrem o coração aos dons de Deus e que aceitam comprometer-se com Jesus e com o seu projeto de vida. Mesmo o irmão mais humilde, mais pobre, menos considerado da nossa comunidade possui o Espírito de Deus.
•O episódio ensina também que o Espírito de Deus é livre e atua onde quer e como quer. Não está limitado por fronteiras, nem por regras, nem por interesses pessoais, nem por privilégios de grupo. Nenhuma Igreja tem o monopólio do Espírito, nenhuma instituição pode controlá-lo ou acorrentá-lo. Por vezes, somos testemunhas da ação do Espírito no mundo através de pessoas que não pertencem à nossa instituição religiosa… Não temos que sentir-nos melindrados ou ciumentos se Deus age no mundo através de pessoas que não pertencem à nossa Igreja; temos é de reconhecer a presença de Deus nos gestos de amor, de paz, de justiça, de solidariedade, de partilha que todos os dias testemunhamos (mesmo naqueles que se dizem ateus) e agradecer ao nosso Deus a sua presença, a sua ação, o seu amor pelos homens e pelo mundo.
•A certeza de que ninguém tem o exclusivo do Espírito obriga-nos a pôr de lado qualquer atitude de fanatismo, de intransigência ou de intolerância face às perspectivas diferentes com que somos confrontados. Os preconceitos, os esquemas egoístas, as condenações à priori, os julgamentos apressados, podem fazer-nos perder os desafios que o Espírito, pela voz dos irmãos, nos apresenta.
•Moisés, o líder do processo de libertação que trouxe os hebreus da terra da escravidão para a Terra da liberdade, foi capaz de reconhecer a sua debilidade e a sua incapacidade de “fazer tudo” e aceitou a ajuda da comunidade. Não teve ciúmes, nem inveja, nem medo de perder o controle do processo, nem dificuldade em aceitar a partilha das tarefas que o Senhor lhe confiou. Com o seu exemplo, ele ensina os responsáveis das nossas comunidades a aceitar a ajuda dos irmãos, a partilhar com outros o peso da responsabilidade de conduzir a comunidade do Povo de Deus. Por vezes, temos a convicção de que só nós somos capazes de fazer as coisas bem e evitamos aceitar a ajuda dos outros; por vezes, sentimos que a intervenção de outras pessoas é uma ameaça ao nosso poder e rejeitamos qualquer ajuda; por vezes, queremos controlar o caminho da comunidade, porque não estamos dispostos a renunciar aos nossos sonhos, aos nossos projetos pessoais… Já pensamos que, quando não aceitamos partilhar responsabilidades, estamos a impedir os outros de crescer? Já pensamos que, quando somos nós a conduzir todo o processo, sem nos deixarmos confrontar com perspectivas diferentes, podemos estar a calar os desafios do Espírito?
2ª leitura: Tg. 5,1-6 - Ambiente
A carta de Tiago termina com dois blocos de exortações onde o autor recorda aos seus interlocutores alguns dos aspectos que elencou anteriormente e que, na sua perspectiva, devem ser tidos em séria conta por parte de quem está interessado em viver a vida cristã autêntica. Para o autor, o acesso à vida plena depende das opções que o homem faz enquanto caminha nesta terra. O primeiro bloco (cf. Tg. 4,11-5,6) contém um elenco de atitudes negativas, que os crentes devem evitar a todo o custo: falar mal dos irmãos (cf. Tg. 4,11-12), viver no orgulho e na auto-suficiência face a Deus (cf. Tg 4,13-17), viver para os bens materiais e praticar injustiças contra os pobres (cf. Tg. 5,1-6). O segundo bloco (cf. Tg. 5,7-20) contém uma lista de atitudes positivas que os crentes devem assumir enquanto esperam a vinda do Senhor: paciência, perseverança e firmeza no falar (cf. Tg. 5,7-12), oração (cf. Tg. 5,1-18) e preocupação em reconduzir ao bom caminho o irmão que anda afastado (cf. Tg. 5,19-20). O texto que nos é proposto é um grito profético de denúncia dos ricos, do seu orgulho e auto-suficiência, da sua obsessão pelos bens materiais. Este texto deve ser colocado no quadro geral de uma época de profundas desigualdades: ao lado de uma riqueza desmesurada e sem limites, vive e sofre a miséria mais aguda. A exploração do pobre e a violência contra os humildes eram, na época, fenômenos demasiado frequentes e que os cristãos conheciam bem.
Mensagem
A primeira parte do nosso texto (vs. 1-3) trata do problema da acumulação da riqueza. O autor, como numa visão profética, contempla o final dos tempos e descreve, com violência, a sorte que espera aqueles cujo objetivo principal na vida foi o acumular bens. Será que os bens, o poder, a consideração que eles gozaram neste mundo lhes servirá de alguma coisa, quando chegar o juízo final, o momento em que se joga o destino definitivo do homem? Obviamente que não. Esses bens nos quais os ricos depositam agora toda a sua segurança e esperança perderão todo o valor (“as vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se…” – vers. 2-3a); ou, pior ainda, serão uma testemunha de acusação, que denunciará o amor descontrolado dos bens materiais, o orgulho e a auto-suficiência, as injustiças praticadas contra os pobres. O destino final dos bens perecíveis é a destruição; e quem tiver os bens materiais como o seu deus, a sua referência fundamental, não terá acesso à vida plena e eterna (v. 3b.c). Na segunda parte do nosso texto (vers. 4-6), o autor refere-se à origem desses bens acumulados pelos ricos. Para o autor, não há dúvidas nem meios-termos: a riqueza provém sempre da exploração dos pobres. Como exemplo, o autor cita o não pagamento dos salários devidos aos trabalhadores que ceifaram os campos dos ricos (v. 4). Trata-se de um pecado que a Lei condena de forma veemente e que Deus castigará duramente (cf. Lv. 19,13; Dt. 24,15). Não pagar o salário ao trabalhador é condená-lo à morte, bem como a toda a sua família (v. 6). Os luxos e os prazeres dos ricos vivem assim da morte dos pobres. Naturalmente, Deus não pode pactuar com a injustiça e, por isso, não ficará indiferente ao sofrimento do pobre e do oprimido. O clamor dos injustiçados sobe da terra até junto de Deus e faz com que Deus atue. Com ironia mordaz, o autor compara o rico ao cevado que, engordando, apressa o dia da sua própria matança (v. 5): os ricos, vivendo no luxo e nos prazeres à custa do sangue dos pobres, estão a preparar para si próprios um caminho de desgraça e de castigo. A linguagem do autor da Carta de Tiago é violenta e colorida, bem ao gosto dos pregadores da época. Para além da veemência das palavras deve ficar, contudo, esta mensagem: quem vive para os bens materiais e coloca neles o sentido da sua existência, dificilmente terá disponibilidade para acolher os dons de Deus e para acolher essa vida plena que Deus quer oferecer aos homens. Por outro lado, Deus não tolera a exploração, a opressão do pobre; e quem conduzir a sua vida por caminhos de injustiça, não poderá fazer parte da família de Deus.
Atualização
• O autor da carta de Tiago critica os ricos, em primeiro lugar porque eles vivem apenas para acumular bens materiais, negligenciando os verdadeiros valores. Fazem do ouro e da prata os seus deuses e centram toda a sua existência em valores caducos e perecíveis. No final da sua existência vão perceber que gastaram a vida a correr atrás de algo que não dá felicidade nem conduz o homem à vida plena; a sua existência terá sido, então, um dramático equívoco. O “aviso” do autor da Carta de Tiago conserva uma espantosa atualidade… A acumulação de bens materiais tornou-se, para tantos homens do nosso tempo, o único objetivo da vida e o critério único para definir uma vida de sucesso. Contudo, aqueles que apostam tudo nos bens perecíveis facilmente constatam como essa opção não responde, em definitivo, à sua sede de felicidade e de vida plena. O ouro, a conta bancária, o carro de luxo, a casa de sonho, dão-nos satisfações imediatas e, talvez, um certo estatuto aos olhos do mundo; mas não saciam a nossa sede de vida eterna. Nós, os cristãos, somos chamados a testemunhar que a vida verdadeira brota dos valores eternos – esses valores que Deus nos propõe.
•O autor da Carta de Tiago critica os ricos, em segundo lugar, porque frequentemente a riqueza resulta da exploração e da injustiça. Acumular bens à custa da miséria e da exploração dos irmãos é, na perspectiva do autor do nosso texto, um crime abominável e que Deus não deixará impune. Não é cristão quem não paga o salário justo aos seus operários, mesmo que ofereça depois somas chorudas para a construção de uma igreja; não é cristão quem especula com os bens de primeira necessidade, mesmo que vá todos os domingos à missa e pertença a vários grupos paroquiais; não é cristão quem inventa esquemas para não pagar impostos, mesmo que seja muito amigo do padre da paróquia; não é cristão quem se aproveita da ignorância e da miséria para realizar negócios altamente rentáveis, mesmo que pense repartir com Deus os frutos das suas rapinas…
•Uma coisa deve ficar clara: Deus não apóia nunca quem vive fechado em si próprio, no açambarcamento egoísta desses bens que Deus nos concedeu para serem postos ao serviço de todos os homens; e qualquer crime cometido contra os pobres é um crime contra Deus, que afasta o homem da vida plena da comunhão com Deus.
Evangelho: Mc. 9,38-43.45-47-48 - Ambiente
Estamos ainda em Cafarnaum (cf. Mc. 9,33), a cidade de pescadores situada junto do Lago de Tiberíades. Jesus está “em casa” rodeado pelos discípulos. A ida para Jerusalém está próxima e os discípulos estão conscientes de que se aproximam tempos decisivos para esse projeto em que estão envolvidos. Apesar da sua opção inequívoca por Jesus, os discípulos continuam a dar mostras de não terem ainda conseguido absorver os valores do Reino. Para eles, o seguimento de Jesus é uma opção que deverá traduzir-se na concretização de determinados sonhos de poder, de grandeza e de prestígio… Por isso, sentem-se inquietos e ciumentos quando encontram algo que possa colocar em causa os seus interesses, a sua autoridade, os seus “privilégios”. Jesus vai, com paciência, tentando formar os discípulos na lógica do Reino. O texto que a liturgia deste domingo nos propõe como Evangelho é mais uma instrução que Jesus dirige aos discípulos no sentido de lhes mostrar os valores que eles devem interiorizar, se quiserem integrar a comunidade messiânica. Marcos juntou aqui uma série de “ditos” de Jesus, inicialmente independentes entre si e pronunciados em contextos diversos. Estes “ditos” apresentam, contudo, exigências várias que os discípulos de Jesus devem considerar e que, em última análise, definem a pertença ou a não pertença à comunidade do Reino.
Mensagem
Sendo o Evangelho deste domingo constituído por um conjunto de “ditos” de Jesus – originariamente independentes uns dos outros e versando questões diversas – temos vários temas a cruzar o nosso texto. O tema principal (uma vez que é também o tema da primeira leitura) aparece na primeira parte do Evangelho… Refere-se à necessidade de a comunidade cristã ser uma comunidade aberta, acolhedora, tolerante, capaz de aceitar como sinais de Deus os gestos libertadores que acontecem no mundo. Nos primeiros versículos deste texto, João (desta vez o porta-voz do grupo) queixa-se pelo fato de terem encontrado alguém a “expulsar demônios” em nome de Jesus, embora não pertencesse ao grupo dos discípulos; considerando um abuso a utilização do nome de Jesus por parte de alguém que não fazia parte da comunidade messiânica, os discípulos procuraram impedi-l’O de atuar (vs. 38-41). A atitude dos discípulos mostra, antes de mais, arrogância, sectarismo, intransigência, intolerância, ciúmes, mesquinhez, pretensão de monopolizar Jesus e a sua proposta, presunção de serem os donos exclusivos do bem e da verdade… Mas, por detrás da reação dos discípulos, deve estar também uma grande preocupação com a concretização dos projetos pessoais de prestígio e grandeza que quase todos eles alimentavam. Pouco tempo antes, eles tinham estado a discutir uns com os outros acerca de quem seria o maior e de quem iria herdar os postos mais importantes no Reino que, com Jesus, ia nascer (cf. Mc. 9,33-37); agora, eles estão inquietos e preocupados, porque apareceu alguém de fora do grupo que pretende atuar em nome de Jesus e que pode, num futuro próximo, disputar-lhes os lugares de relevo na estrutura política do Reino. Jesus procura levar os discípulos a ultrapassar esta visão sectária e egoísta da missão. Na perspectiva de Jesus, quem luta pela justiça e faz obras em favor do homem, está do lado de Jesus e vive na dinâmica do Reino, mesmo que não esteja formalmente dentro da estrutura eclesial. A comunidade de Jesus não pode ser uma comunidade fechada, exclusivista, monopolizadora, que amua e sente ciúmes quando alguém de fora faz o bem; nem pode sentir-se atingida nos seus privilégios e direitos pelo fato de o Espírito de Deus atuar fora das fronteiras da Igreja… A comunidade de Jesus deve ser uma comunidade que põe, acima dos seus interesses, a preocupação com o bem do homem; e deve ser uma comunidade que sabe acolher, apoiar e estimular todos aqueles que atuam em favor da libertação dos irmãos. Na segunda parte do nosso texto (vs. 42-48), temos outros “ditos” de Jesus que abordam outros temas. Constituem também indicações aos discípulos sobre as atitudes a assumir para integrar plenamente a comunidade do Reino. Nesses “ditos”, são usadas imagens fortes, expressivas, hiperbólicas, bem ao gosto dos pregadores da época, destinadas a impressionar profundamente os ouvintes. Não são expressões para traduzir à letra; mas são expressões que pretendem marcar a necessidade de fazer escolhas acertadas, de optar com radicalidade pelos valores do Reino. O primeiro desses “ditos” é um aviso àqueles que “escandalizam” os “pequeninos” (v. 42). Na nossa cultura, “escandalizar” é protagonizar um mau exemplo ou um fato revoltante que melindra ou fere a susceptibilidade daqueles que testemunham essa ação. Na linguagem de Marcos, no entanto, “escandalizar” tem um significado um tanto diferente… O verbo grego “scandalidzô” aqui utilizado define, em Marcos, a ação de desistir de seguir Jesus, de não ter coragem para assumir a proposta que Jesus veio fazer (cf. Mc. 4,17; 8,35.38). Os “pequeninos” de que Jesus fala são os membros da comunidade que estão numa situação de dependência, de debilidade, de necessidade… Os membros da comunidade do Reino devem, portanto, abster-se de qualquer atitude que possa afastar alguém (especialmente os pequenos, os débeis, os pobres) da adesão a Jesus e ao caminho que Ele veio propor. Fazer algo que afaste uma dessas pessoas de Cristo e da comunidade é algo verdadeiramente inadmissível e impensável (a quem fizer isso, “melhor seria que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar” – v. 42). O segundo “dito” de Jesus (vs. 43-48) refere-se à absoluta necessidade de arrancar da própria vida todos os sentimentos e atitudes que são incompatíveis com a opção por Cristo e pela sua proposta. Quando Jesus fala em cortar a mão (a mão é, nesta cultura, o órgão da ação, através do qual se concretizam os desejos que nascem no coração) ou de cortar o pé ou de arrancar o olho que é ocasião de pecado (o olho é, nesta cultura, o órgão que dá entrada aos desejos), está a sublinhar, com toda a veemência, a necessidade de atuar, lá onde as ações más do homem têm origem e eliminar na fonte as raízes do mal. Estando em jogo o destino último do homem, não se pode protelar ou adiar “cortes” importantes nas atitudes de egoísmo e de auto-suficiência que afastam os homens de Deus e da vida plena. Há ainda, neste segundo “dito”, referências sucessivas a um castigo na “Geena”, “onde o verme não morre e o fogo não se apaga”, para aqueles que recusarem cortar com as atitudes e os sentimentos incompatíveis com o seguimento de Jesus. A palavra “Geena” vem do hebraico “Ge Hinnon” (“Vale do Hinnon”). Refere-se a um vale situado a sudoeste de Jerusalém, onde eram enterrados os mortos e onde, dia e noite, era queimado o lixo produzido pelos habitantes da cidade. Era considerado, portanto, um lugar maldito, impuro, tenebroso, que convinha evitar. Jesus usa aqui a imagem do “Ge Hinnon”, para falar de uma vida perdida, frustrada, destruída, maldita, sem sentido. Quem não for capaz de cortar com o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, é como se, em lugar de viver num lugar livre e feliz, estivesse condenado a viver no “Ge Hinnon”.
Atualização
•O Evangelho deste domingo apresenta-nos um grupo de discípulos ainda muito atrasados na aprendizagem do “caminho do Reino”. Eles ainda raciocinam em termos de lógica do mundo e têm dificuldade em libertar-se dos seus interesses egoístas, dos seus esquemas pessoais, dos seus preconceitos, dos seus sonhos de grandeza e poder… Eles não querem entender que, para seguir Jesus, é preciso cortar com certos sentimentos e atitudes que são incompatíveis com a radicalidade que a opção pelo Reino exige. As dificuldades que estes discípulos apresentam no sentido de responder a Jesus não nos são estranhas: também fazem parte da nossa vida e do caminho que, dia a dia, percorremos… Assim, a instrução que, neste texto, Jesus dirige aos seus discípulos serve-nos também a nós. As propostas de Jesus destinam-se aos discípulos de todas as épocas; pretendem ajudar-nos a purificar a nossa opção e a integrar, de forma plena, a comunidade do Reino.
•Antes de mais, Jesus mostra aos discípulos que a comunidade do Reino não pode ser uma seita arrogante, fechada, intolerante, fanática, que se arroga a posse exclusiva de Deus e das suas propostas. Tem de ser uma comunidade que sabe qual o seu papel e a sua missão, mas que reconhece que não tem o exclusivo do bem e da verdade e que é capaz de se alegrar com os gestos de bondade e de esperança que acontecem à sua volta, mesmo quando esses gestos resultam da ação de não crentes ou de pessoas que não pertencem à instituição Igreja. O verdadeiro discípulo não tem inveja do bem que outros fazem, não sente ciúmes se Deus atua através de outras pessoas, não pretende ter o monopólio da verdade nem ter o exclusivo de Jesus. O verdadeiro discípulo esforça-se, cada dia, por testemunhar os valores do Reino e alegra-se com os sinais da presença de Deus em tantos irmãos com outros percursos religiosos, que lutam por construir um mundo mais justo e mais fraterno.
•Os discípulos de que o Evangelho de hoje nos fala estão preocupados com a ação de alguém que não é do grupo, pois temem ver postos em causa os seus sonhos pessoais de poder e de grandeza. Por detrás dessa preocupação dos discípulos não está o bem do homem (aquilo que, em última análise, devia “mover” os membros da comunidade do Reino), mas a salvaguarda de certos interesses egoístas. Nas nossas comunidades cristãs ou religiosas, há pessoas capazes de gestos incríveis de doação, de entrega, de serviço aos irmãos; mas há também pessoas cuja principal preocupação é proteger o espaço que conquistaram e continuar a manter um estatuto de poder e de prestígio… Quando afastamos (com o pretexto de defender a pureza da fé, os interesses da moralidade, ou tranquilidade da comunidade) aqueles que desafiam a comunidade a purificar-se e a procurar novos caminhos para responder aos desafios de Deus, estaremos a proteger os interesses de Deus ou os nossos projetos, os nossos esquemas interesseiros, as nossas apostas pessoais?
•No nosso texto, Jesus exige dos discípulos o corte radical com os valores, os sentimentos, as atitudes que são incompatíveis com a opção pelo Reino. O discípulo de Jesus nunca está acomodado, instalado, conformado; mas está sempre atento e vigilante, procurando detectar e eliminar da sua existência tudo aquilo que lhe impede o acesso à vida plena. Naturalmente, a renúncia ao egoísmo, ao comodismo, ao orgulho, aos esquemas pessoais, à vontade de poder e de domínio, ao apelo do êxito, ao aplauso das multidões, é um processo difícil e doloroso; mas é também um processo libertador e gerador de vida nova. O que é que eu necessito, prioritariamente, de “cortar” da minha vida, para me identificar mais com Jesus, para merecer integrar a comunidade do Reino, para ser mais livre e mais feliz?
•O apelo de Jesus à sua comunidade no sentido de não “escandalizar” (afastar da comunidade do Reino) os pequenos, faz-nos pensar na forma como lidamos, enquanto pessoas e enquanto comunidades, com os pobres, os que falharam, os que têm atitudes moralmente reprováveis, aqueles que têm uma fé pouco consistente, aqueles que a vida marcou negativamente, aqueles que a sociedade marginaliza e rejeita… Eles encontram em nós a proposta libertadora que Cristo lhes faz, ou encontram em nós rejeição, injustiça, marginalização, mau exemplo? Quem vê o nosso testemunho tem razões para aderir a Cristo, ou para se afastar de Cristo?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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Tarefa de todos
I. A primeira leitura da missa (1) traz-nos a passagem do Antigo Testamento em que Javé – a instâncias de Moisés, que não se sentia com forças para enfrentar sozinho o fardo de todo o povo –, tirou parte do espírito que havia em Moisés e passou-o aos setenta anciãos. Estes, que se tinham congregado em torno da Tenda da Reunião, começaram a profetizar. E aconteceu que dois deles, chamados Eldad e Medad, embora estivessem na lista, não compareceram à Tenda, mas o Espírito pousou também sobre eles e começaram a profetizar no acampamento. Então Josué pediu a Moisés que os proibisse de fazê-lo. A reação de Moisés foi profética: Oxalá todo o povo profetizasse e recebesse o espírito do Senhor.
O Evangelho da Missa relata-nos um acontecimento de certo modo semelhante (2). João aproximou-se de Jesus para dizer-lhe que tinham visto uma pessoa que expulsava os demônios em nome dEle. Como não era do grupo que acompanhava o Mestre, tinham-no proibido de fazê-lo. Jesus respondeu-lhes: Não lho proibais, porque não há ninguém que faça um milagre em meu nome e possa depois falar mal de mim. Jesus reprova a intransigência e a mentalidade exclusivista e estreita dos discípulos, e abre-lhes o horizonte e o coração para um apostolado universal, variado e diversificado.
Nós, cristãos, não temos mentalidade de partido único, de quem condena formas apostólicas diferentes daquelas que, por formação e modo de ser, se sente chamado a realizar. A única condição – dentro da grande variedade de modos de levar Cristo às almas – é a unidade no essencial, naquilo que pertence ao núcleo fundamental da Igreja.
O papa João Paulo II, depois de afirmar a liberdade de associação que existe dentro da Igreja em conseqüência do Batismo, referia-se aos critérios que podem servir para discernir se realmente determinada associação mantém a comunhão com a Igreja (3). Entre esses critérios – diz o Pontífice –, encontra-se a primazia que se deve dar à vocação de cada cristão para a santidade, que tem como fruto principal a plenitude de vida cristã e a perfeição da caridade. Neste sentido, as associações de leigos estão chamadas a ser instrumento de santidade na Igreja.
Outro critério apontado pelo Papa é o apostolado, que deve antes de mais nada proclamar a verdade sobre Cristo, sobre a Igreja e sobre o homem, em filial obediência ao Magistério da Igreja que a interpreta autenticamente. Trata-se de uma participação no fim sobrenatural da Igreja, que tem como objetivo a salvação de todos os homens. Todos os cristãos participam desse único fim missionário, e portanto exercem o apostolado em unidade filial com o papa e os bispos; devem, pois, dar testemunho de uma comunhão firme e convicta, expressa na leal disposição de acolher os ensinamentos doutrinais e as orientações práticas dos seus pastores. Esta unidade manifesta-se, além disso, no reconhecimento da legítima pluralidade das diversas formas associativas dos leigos, que devem estar sempre abertas a uma colaboração leal e recíproca.
Se somos cristãos verdadeiros, embora às vezes sejamos muito diferentes uns dos outros, sentir-nos-emos comprometidos a levar para Deus a sociedade em que vivemos e da qual fazemos parte. E ser-nos-á fácil aceitar modos de ser e de atuar bem diferentes dos nossos. Como nos alegraremos de que o Senhor seja anunciado de formas tão diversas! Isto é o que realmente importa: que Cristo seja conhecido e amado.
A Boa Nova deve chegar a todos os cantos da terra. E para o cumprimento desta tarefa, o Senhor conta com a colaboração de todos: homens e mulheres, sacerdotes e leigos, jovens e anciãos, solteiros, casados, religiosos..., associados ou não, conforme tenham sido chamados por Deus, com iniciativas que nascem da riqueza da inteligência humana e do impulso sempre novo do Espírito Santo.
II. Todo o cristão é chamado a dilatar o Reino de Cristo, e qualquer circunstância é boa para levar a cabo essa tarefa. “Onde quer que o Senhor abra uma porta à palavra para proclamar o mistério de Cristo a todos os homens, anuncie-se com confiança e sem cessar o Deus vivo e Jesus Cristo, enviado por Ele para a salvação de todos” (4). Diante da covardia, da preguiça ou das várias desculpas que podem surgir, temos de pensar que serão muitos os que receberão a incomparável graça de aproximar-se de Cristo através da nossa palavra, da nossa alegria, de uma vida exemplar cheia de normalidade. O apostolado com as pessoas entre as quais transcorre a nossa vida não deve deter-se nunca: os modos e as formas podem ser muito diversos, mas o fim é o mesmo. Como são diferentes os caminhos que Deus escolhe para atrair as almas!
“Conservemos a doce e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando temos de semear entre lágrimas” (5). Não podemos considerar as circunstâncias adversas como um obstáculo para dar a conhecer Cristo, mas como meio muito valioso de espalhar a sua doutrina, como o demonstraram os primeiros cristãos e tantos que têm padecido por causa da fé. São Paulo, da sua prisão em Roma, escreve assim aos cristãos de Filipos: muitos dos irmãos no Senhor, animados pelas minhas cadeias, têm-se atrevido com maior audácia a anunciar sem temor a palavra de Deus. E ainda que alguns pregassem por inveja, com intenções pouco retas, o apóstolo exclama: mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado, sob algum pretexto ou sinceramente, não só nisto me alegro, como me alegrarei sempre (6). A única coisa verdadeiramente importante é que o mundo esteja cada dia um pouco mais perto de Cristo.
Ainda que o trabalho, os tempos de descanso, a visita a um amigo, o esporte, possam ser caminho para levar as pessoas a Deus, também o devem ser as contradições de um ambiente aberta ou disfarçadamente contrário à fé. Essa pode ser uma ocasião muito oportuna para praticarmos a caridade, esforçando-nos por tratar bem os que não nos compreendem ou nos tratam mal. Na sua carta aos Filipenses, incluída hoje na liturgia das horas, são Policarpo, bispo e mártir, exorta-os a abster-se “da difamação, do falso testemunho; de pagar o mal com o mal, a maldição com a maldição, o golpe com outro golpe e o ódio com o ódio. Bem lembrados dos ensinamentos do Senhor: Não julgueis e não sereis julgados; perdoai e sereis perdoados; tende misericórdia para alcançardes misericórdia; com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos; e bem-aventurados os pobres e os que sofrem perseguição, porque deles é o reino de Deus” (7).
Não reagiremos nunca com severidade e secamente, não devolveremos o mal com o mal; a defesa, quando for oportuna, levá-la-emos a cabo respeitando as pessoas. E procuraremos ensinar, por todos os meios ao nosso alcance, que o motor que impulsiona a nossa vida é a caridade de Cristo. Toda a ação apostólica realizada à sombra da Cruz é sempre fecunda.
III. Qualquer que seja o modo apostólico a que o cristão se sinta chamado e as circunstâncias em que tenha de exercê-lo, a caridade deve sempre preceder todos os nossos passos e iniciativas. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, anunciou o Senhor (8).
Quando são Paulo escreve aos cristãos de Tessalônica e lhes recorda a sua estadia entre eles, diz-lhes: A cada um de vós, como um pai aos seus filhos, fomos exortando-vos e confortando-vos, e suplicando que andásseis de uma maneira digna de Deus, que vos chamou ao seu reino e à sua glória (9). A cada um, escreve o Apóstolo, pois não se limitou a pregar na sinagoga ou nos lugares públicos, como costumava fazer. Ocupou-se de cada pessoa em particular; com o calor da amizade, soube dar alento e consolo a cada um; e ensinava-lhes como deviam comportar-se. É o que nós também devemos procurar fazer com aqueles com quem compartilhamos o lugar de trabalho, o lar, a sala de aula..., o bairro. Devemos começar por aproximar-nos deles com uma caridade bem vivida, que é a base de todo o apostolado, manifestando um apreço sincero por cada um, ainda que o relacionamento com este ou aquele seja mais difícil a princípio; sem permitir que os defeitos, aparentes ou reais, nos separem seja de quem for. “A obra da evangelização implica, no evangelizador, um amor fraterno sempre crescente para com os que evangeliza” (10). Em cada um deles vemos um filho de Deus de valor infinito, que os modos de ser ou os defeitos não anulam.
Nós, que recebemos o dom da fé, sentimos a necessidade de comunicá-la aos outros, fazendo-os participar do grande achado da nossa vida. Esta missão, como se vê na vida dos primeiros cristãos, não é da competência exclusiva dos pastores de almas, mas tarefa de todos, de cada um segundo as suas circunstâncias particulares e a chamada que recebeu do Senhor.
Vejamos hoje se a influência cristã que exercemos ao nosso redor é a que o Senhor espera. Não esqueçamos as consoladoras palavras de Jesus, que também lemos no Evangelho da Missa: E quem vos der um copo de água em meu nome, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa. Que recompensa não nos preparará o Senhor, se ao longo da vida formos procurando que muitas almas se aproximem dEle?
Francisco Fernández-Carvajal


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