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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 29 de setembro de 2015

27º DOMINGO TEMPO COMUM-B

27º DOMINGO TEMPO COMUM
4 de Outubro de 2015
Ano B

Evangelho - Mc 10,2-16


-ELES SERÃO UMA SÓ CARNE-José Salviano


Os fariseus mais uma vez tentam encostar Jesus na parede, ou seja, tenta pressioná-lo com mais uma pergunta maliciosa, enfocando dessa vez, o machismo existente por parte dos homens com relação às mulheres, desde os tempos de Moisés...  Lleia mais

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Deus nos fez família
Outubro é o mês das Missões. Somos todos discípulos missionários do Senhor a partir da família. Deus criou o homem e a mulher de modo que se reconhecessem extensão um do outro e vivessem na igualdade e mútua complementaridade.
O casamento é uma bênção divina. O marido e a esposa assumem o compromisso de se doarem um ao outro, conscientes de que já não são dois, mas uma só carne (1ª leitura). Jesus, em seu Evangelho, orienta os casais a viverem o amor em profundidade e não se deixarem conduzir por ideologias que permitem e facilitam a separação por qualquer motivo. O amor exige sacrifícios (= fazer o que é sagrado), do mesmo modo como Jesus amou doando sua vida em favor de todos. Ele abraça e abençoa cada criança defendendo seus direitos e sua dignidade. Faz-se solidário com cada mulher e cada homem levando-os à perfeição (2ª leitura); pais e filhos são chamados a expressar cotidianamente o amor trinitário, vivendo e promovendo os valores do diálogo, do respeito mútuo, da igualdade e da paz.
1ª leitura (Gn. 2,18-24): Homem e mulher: uma só carne
O texto faz parte do segundo relato da criação (Gn. 2,4b-25). Reflete sobre a missão que o ser humano recebeu de ser o colaborador de Deus no cultivo do “jardim” ou no cuidado com a natureza a fim de que ela produza os alimentos necessários para a vida. O humano e a natureza estão intimamente unidos. É do húmus da terra que o humano é modelado.
Ele recebe o poder de dar nomes aos outros seres, os animais. Tem a função de cuidar da criação de Deus.
A narrativa aponta para o caminho da realização do ser humano. Não é bom que esteja só. Deus não nos criou para a solidão. Entre todas as criaturas, o homem não encontrou uma “auxiliar” que lhe correspondesse. Enquanto sozinho se sente inferior aos animais.
Os autores procuram explicar como foram criados o homem e a mulher, interpretando a realidade que perpassa a existência humana.
A linguagem revela que estão inseridos num contexto patriarcal. A palavra “auxiliar” não deve ser interpretada como ajudante submissa. Há igualdade na diferença. É do lado do coração do homem que nasce a mulher. Tornam--se companheiros e extensão um do outro.
Revelam-se um ao outro na transparência.
Necessitam-se, admiram-se e atraem-se mutuamente, unem-se e formam uma só carne.
São duas pessoas livres e conscientes que vivem em comunhão e se realizam mutuamente sem anular-se em sua individualidade. O “sono profundo” no qual Deus faz cair o homem “é um sinal do mistério que cerca a relação homem-mulher. Um foi criado para o outro e, quando se unem na relação matrimonial, estão obedecendo ao projeto de Deus, que emerge do mais fundo de cada um, a fim de formar uma nova unidade para os dois, para os próprios filhos e para a sociedade” (Como ler o Livro de Gênesis, de Ivo Storniolo e Euclides Balancin, p. 17).
Conforme podemos perceber no conjunto desse segundo relato da criação, estabelece-se uma íntima ligação não só entre o homem e a mulher, mas também com todas as demais criaturas. A relação de companheirismo e de comunhão entre ambos se estende para a relação com toda a natureza. Os seres humanos, a terra, a água, as árvores, os animais e todas as demais criaturas vieram da mesma fonte e necessitam-se mutuamente. O artífice divino tudo fez com muita arte e criatividade. E tudo entregou ao nosso cuidado.
Evangelho (Mc. 10,2-16): A família como expressão do amor
Os fariseus se aproximam de Jesus para pô-lo à prova. Eles pertencem ao grupo de intérpretes da Sagrada Escritura, participantes de escolas rabínicas onde se debatia a respeito dos motivos que justificavam o divórcio, uma vez que era permitido pela lei judaica. De fato, no livro do Deuteronômio (24,1) lê-se: “Quando um homem tiver tomado uma mulher e consumado o matrimônio, mas esta, logo depois, não encontra mais graça a seus olhos, porque viu nela algo de inconveniente, ele lhe escreverá uma ata de divórcio e a entregará, deixando-a sair de sua casa em liberdade”.
Com base nessa orientação, podia-se encontrar motivos para o divórcio com muita facilidade.
Bastava o marido desejar a separação.
É somente ele quem pode tomar a iniciativa, pois, segundo a mentalidade dominante, ele exerce o domínio sobre a mulher considerada como sua propriedade. Deduz-se daí que tanto no ambiente doméstico como em outros níveis sociais a opressão masculina era exercida com normalidade, legitimada pela interpretação oficial da lei judaica elaborada e interpretada somente por alguns homens.
Os ensinamentos e a prática de Jesus revelam que a lei deve estar a serviço da vida do ser humano e não o contrário. Para os fariseus, porém, a lei mosaica devia ser cumprida como condição para o homem ser justo diante de Deus. Jesus não nega a lei judaica, mas a coloca em seu devido lugar. “Foi por causa da dureza dos vossos corações que Moisés escreveu esse mandamento.” O texto da Sagrada Escritura não pode ser retirado de seu contexto.
Também não pode ser interpretado de forma fundamentalista. O critério para a verdadeira interpretação é a vida digna sem exclusão e não os interesses pessoais ou corporativos.
Esse grupo de fariseus propositalmente não levava em conta outros textos que permitiam orientações diferentes para a questão do casamento e do divórcio. Jesus, porém, argumenta a partir de um outro ponto de vista. Ele resgata o plano inicial do Criador: “Desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher... E os dois serão uma só carne”.
O casamento, portanto, deve basear-se no plano criador de Deus. Ele estabelece a igualdade fundamental entre o homem e a mulher.
Nenhuma lei pode contradizer esse desígnio divino. Jesus condena a atitude de dominação do homem sobre a mulher e restabelece o direito igual para ambos de tomar decisões. Os dois se tornam uma só carne e, portanto, “o que Deus uniu o homem não separe”. Em outras palavras: se Deus criou a mulher e o homem com a mesma dignidade e a mesma liberdade, o homem não pode quebrar essa relação que fundamenta o amor verdadeiro entre ambos.
Assim, a separação não se dará por qualquer motivo. E se houver motivos sérios para isso, o discernimento e a decisão não podem ser tomados de forma unilateral.
A sequência da leitura mostra que a casa/comunidade onde se encontram os discípulos de Jesus é o espaço do diálogo e do discernimento.
É também o lugar da acolhida, do abraço e da bênção, com prioridade às crianças, que são as mais afetadas pelas atitudes egoístas ou insensatas dos adultos representados pelos discípulos que repreendem as crianças.
Essa atitude agressiva dos adultos contradiz o modo terno e acolhedor de Jesus, cuja vida é pautada pela não violência, pelo respeito ao outro, pelo perdão... Enfim, Jesus promove o projeto de inclusão familiar e social, de modo que todos usufruam das condições materiais e afetivas para uma vida feliz.
2ª leitura (Hb. 2,9-11): Jesus se fez nosso irmão
Esse texto da carta aos Hebreus trata da opção solidária de Jesus para com toda a humanidade, assumindo o sofrimento e a morte.
Paradoxalmente, a honra e a glória de Jesus manifestam-se em sua morte em favor de toda a humanidade. A cruz, então, tornou-se para todos os que creem em Jesus o caminho da vitória sobre toda a maldade que procura impedir o plano de amor e de salvação de Deus.
Ao assumir a condição humana com seus limites e dores, nos torna também participantes de sua morte redentora. Ao identificar-se plenamente com o ser humano, possibilitou que o ser humano se identificasse com a sua divindade. Por isso, Jesus não se envergonha de nos chamar de irmãos.
A grandiosidade de Jesus manifesta-se em sua radical humildade e obediência ao plano de Deus. É nosso modelo e caminho. Foi assumindo os sofrimentos e a morte, na fidelidade à sua missão, que Jesus nos redimiu e nos levou à perfeição. Como humanos, fazemos a experiência cotidiana dos limites e sofrimentos.
Tornando-se um de nós, Jesus conhece perfeitamente todos os problemas que enfrentamos.
Não fomos criados para o sofrimento, e sim para a perfeição e a glória. No seguimento de Jesus, assumimos a realidade de nossa condição humana com a missão a que fomos chamados, deixando-nos conduzir pela graça de Deus, na certeza de seu amor sem limites. Aprendemos a reconhecer a sua vontade e nos esforçamos para sermos fiéis. A fidelidade a Deus exige rompimento com as facilidades enganosas que nos desviam do caminho da perfeição. A plena realização somente se dá na obediência a Deus que acontece no amor solidário. Na cruz de Jesus, morremos para o egoísmo e passamos a viver na condição divina. Aí reside nossa honra e glória de irmãos de Jesus.
Pistas para reflexão
– Deus não criou o ser humano para a solidão.
Homens e mulheres foram criados para viverem lado a lado, com a mesma dignidade e igualdade de direitos. Necessitam um do outro. Em nossos dias, a questão de gênero está em debate. O plano original de Deus no que diz respeito à relação entre mulheres e homens ainda não se concretizou. A visão dominante manifesta ainda preconceitos e discriminações ligados à condição feminina.
Prova-se inclusive que a relação histórica de dominação do homem sobre a mulher reflete-se na sua atitude de exploração da natureza e destruição do meio ambiente. Podem-se levantar fatos, atitudes e linguagens que revelam a visão a esse respeito que ainda predomina em nossos dias...
– Somos discípulos missionários do Senhor a partir da família. O casamento é uma instituição divina. Exige séria preparação a fim de que seja assumido com consciência e liberdade.
Homem e mulher tornam-se uma só carne: concretiza-se a unidade na diferença. O amor entre marido e mulher é caminho de mútua santificação. Estende-se para os filhos. Jesus corrige a mentalidade farisaica que permitia a separação por qualquer motivo. Ele resgata o plano original de Deus e restabelece a igualdade de direitos da mulher. É oportuno refletir sobre a importância da família para a vida de cada um de nós e sobre as consequências doloridas e até desastrosas de um ambiente familiar onde reina o machismo, a violência, o desrespeito...
– Jesus fez-se plenamente solidário com o ser humano, assumindo os sofrimentos e a morte. Ele é o nosso irmão maior. Conhece perfeitamente os limites e problemas que enfrentamos em nosso dia a dia. Seguindo a Jesus, não desanimamos no caminho da perfeição.
Todas as situações, mesmo as difíceis (crises no casamento, separações, doenças, mortes) podem ser assumidas como momentos propícios para acolher a graça de Deus, rico em misericórdia...
Celso Loraschi



Ser discípulo: o matrimônio segundo o projeto de Deus
O tema de hoje é o matrimônio, porém, não sob o ângulo da casuística, mas sob o ângulo da vontade de Deus. Pois Jesus veio trazer presente o Reino de Deus, também quanto ao matrimônio: é preciso que seja restaurado no sentido que Deus mesmo lhe deu, desde o início. Este sentido se encontra descrito em Gn. 2 (1ª leitura): preocupado com a felicidade de Adão, “o Homem”, Deus lhe procura uma companhia, mas como entre os outros seres vivos não a encontra, faz a mulher, da “metade” do homem. Esta narração significa a complementaridade de homem e mulher, que se transforma numa unidade de vida (“uma só carne”), quando o homem opta por uma mulher e, por causa desta opção, deixa sua família de origem e a segurança que lhe oferecia. Pois casar é um risco e um compromisso.
Na história da humanidade e de Israel, a vontade inicial de Deus nem sempre se realizou, e tal deficiência não é curada pelo progresso ou pela evolução. Estamos hoje tão longe do ideal de Deus quanto as civilizações antigas. O problema é que o plano de Deus só se realiza no amor, e este ficará sempre igualmente difícil para a humanidade. Sempre houve muito desamor. Chefes de família patriarcal que achavam que precisavam de outra esposa. Casamentos interesseiros, que não deram certo. E muitas outras razões pelas quais os homens achavam legítimo despedir suas mulheres. Para pelo menos lhes dar uma proteção legal, a legislação deuteronomística previu que as mulheres repudiadas recebessem um certificado (Dt. 24, 1). Os escribas, sabendo que Jesus não gostava da prática do divórcio (como antes dele Ml. 2,14-16), quiseram experimentar se ele também rejeitava a Lei a respeito do certificado de divórcio (evangelho). A resposta de Jesus é astuta e adequada ao mesmo tempo. A legislação do divórcio é legislação feita para enfrentar a maldade humana (como a grande maioria das leis). Mas o plano de Deus a respeito do matrimônio se situa num outro nível, o da vontade de Deus, que é amor. Jesus não veio fazer casuística, ensinar qual é o mal menor. Ele veio trazer presente o Reino de Deus, o fim do mal. Para praticar o divórcio, a humanidade não precisa de uma palavra de Jesus, de uma mensagem de Deus. Já o faz por conta própria. Mas para voltar ao sonho de Deus referente ao amor humano, sim, precisa do evangelho.
(Na leitura completa do evangelho, segue agora um trecho sobre ser como crian­ças para receber o Reino de Deus. A mensagem reforça a anterior: para aceitar a vonta­de originária do Pai, é preciso ser simples e humilde.)
Começa hoje, na 2a leitura, uma sequência da Carta aos Hebreus. A mensagem é um tanto difícil. Exige uma explicação especial, para colocar os ouvintes a par dos princípios da “cristologia sacerdotal” que marca esta carta. Para o autor de Hb, Jesus é sacerdote, “santificador”, por excelência, por serem sua humanidade e despojamento os instrumentos pelos quais ele santifica toda a condição humana. Santificou-nos por sua fraternidade conosco.
Chamam nossa atenção as belas orações. Enquanto a oração do dia testemunha uma ilimitada confiança filial, a oração final condensa toda uma teologia eucarística: o sinal produz o que ele significa, a transformação do homem naquilo que ele recebe no sacramento: em Cristo mesmo.
Johan Konings "Liturgia dominical"



Neste domingo, a Palavra de Deus trata do matrimônio e de sua indissolubilidade. Eis aqui um tema que se tornou tabu nos tempos atuais e, por isso mesmo, precisa ser tratado com toda clareza pelos cristãos... Afinal, se o Evangelho não for sal e luz, para que serve?
Comecemos com o plano de Deus, descrito no Gênesis de modo figurado, como as parábolas que Jesus contava. São textos que não devem ser tomados ao pé da letra! Se lermos com atenção, perceberemos algo muito belo: Deus, à medida que vai criando, vê que tudo é bom... Ao criar o ser humano, vê que “era muito bom” (Gn. 1,31). Mas, há algo na criação que o Senhor Deus viu que não era bom: “Não é bom que o homem esteja só”. Se o ser humano é imagem do Deus-Trindade, ele não foi criado para a solidão, mas deve viver em relação com outros: “Vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja semelhante”. Notemos os detalhes tão belos da criação da mulher:
(1) “O Senhor Deus fez cair um sono profundo sobre Adão”. Por quê? Para ficar claro que o homem não participou da criação da mulher; esta é tão obra de Deus quanto aquele.
(2) “Tirou-lhe uma das costelas e fechou o lugar com carne. Da costela tirada de Adão, o Senhor Deus formou a mulher”. A imagem é bela: tirada do lado do homem, como companheira e igual!
(3) “E Adão exclamou: ‘Desta  vez sim, é osso de meus ossos e carne da minha carne!’” É a primeira vez que o homem falou, na Bíblia! E sua palavra foi uma declaração de amor... não a Deus, mas à mulher que o Senhor Deus lhe dera de presente: osso de meus ossos, carne de minha carne... parte de mim, cara metade, outro lado do meu coração! E, finalmente, o preceito de Deus, inscrito no íntimo do coração humano pelo próprio Criador: “O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”. Pronto! Esta é o sonho de Deus para o amor humano!
Já aqui há três observações a serem feitas:
(a) o laço de amor entre o homem e a mulher é superior a qualquer outro laço, inclusive aquele que liga pais e filhos: o homem e a mulher deixarão pai e mãe para ir ao encontro de sua esposa, de seu esposo.
(b) Esta união, no sonho original de Deus, envolve a pessoa toda, corpo e alma: “serão uma só carne”! É uma união completa, abrangente, total: serão um só coração, um só sonho, uma só conta bancária, uma só casa, um só futuro, um só destino!
(c) A relação matrimonial, no sonho de Deus, é uma relação entre um homem e uma mulher. Por isso mesmo, jamais os cristãos poderão equiparar a união entre homossexuais ao matrimônio! O respeito às pessoas homossexuais é dever de todos nós; o respeito pela consciência dessas pessoas, que têm o direito de dar o rumo que acharem justo às suas vidas, é obrigação nossa, é gesto de amor que Jesus espera de seus discípulos. Mas, equiparar a relação matrimonial a qualquer outra relação afetiva, sobretudo homossexual, nunca! Por fidelidade a Cristo, nunca! Por respeito ao plano de Deus, jamais! Hoje, no Direito, há uma forte corrente aqui no Brasil, que considera como sendo família qualquer união simplesmente afetiva: não importa se a união é entre marido e mulher, entre amigos ou entre duas pessoas do mesmo sexo. Para nós cristãos, tal concepção é inaceitável! A família, para nós, não é uma realidade simplesmente natural, mas tem sua raiz no próprio plano de Deus. A família é uma realidade também teológica! É preciso escutar o que Deus tem a dizer sobre a família! O problema é que nossa sociedade já não é cristã; é pagã e pensa e age como pagã; é atéia e age como se Deus não existisse... Nossa sociedade acha que o homem é a medida de todas as coisas, o senhor do bem e do mal, do certo e do errado. Isso é absolutamente inaceitável para o cristão!
Agora podemos compreender a palavra de Jesus no Evangelho! Naquele tempo havia o divórcio... E Jesus, que é tão misericordioso, condena sua prática: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés” permitiu o divórcio! “No entanto, no princípio da criação Deus os fez homem e mulher... Já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!” É uma palavra que parece dura, e os próprios discípulos tiveram dificuldades em compreender... como muitíssimos a têm hoje em dia. Compreendamos! Jesus veio para reconduzir este mundo ferido pelo pecado ao plano original de Deus. Ora, o sonho de Deus para o amor conjugal é que ele seja uma entrega total e plena, no amor indissolúvel, fiel e fecundo. Este é o ideal que Jesus aponta aos seus discípulos! Na perspectiva de Jesus, o divórcio é contrário ao plano de Deus para o amor humano! Por isso mesmo, o matrimônio abraçado por um cristão e uma cristã, no Senhor Jesus, é indissolúvel! Aqui é preciso deixar claro que a Igreja não tem autoridade para ensinar ou fazer diferente! Seria trair o Senhor! Surgem, no entanto, algumas questões sérias e graves:
(1) Como prometer amor por toda a vida, se nosso coração é inconstante? Primeiramente é necessário recordar que o matrimônio cristão somente pode ser abraçado na fé, sabendo os esposos que jamais a graça de Cristo lhes faltará. Com toda certeza, o Senhor haverá de conduzir os esposos no caminho do amor. Isto, no entanto, de modo algum, dispensa os esposos de cultivarem esse amor, com o diálogo, os gestos de carinho e de perdão, de compreensão e de atenção. Amor não é só sentimento: o amor não nasce de repente, não é fatal, não é cego, nem morre de repente. O amor pode e deve ser cultivado, cuidado. Como dizia são João da Cruz: “Onde não há amor, semeia amor e colherás amor”. A grande ilusão do mundo atual é pensar que o amor se reduz a sentimento, que não precisa ser cuidado nem cultivado! Confunde-se amor com paixão!
(2) Como fazer uma aliança para sempre, se esta depende não só de mim, mas também da outra pessoa? A questão é séria e, para nós, cristãos, deve ser pensada na fé. O matrimônio entre cristãos é sinal, é sacramento, do amor entre Cristo e a Igreja. São Paulo explica este mistério de modo belíssimo no capítulo quinto da Carta aos Efésios: marido e mulher devem se amar como Cristo e a Igreja (cf. Ef. 5,21-32). Ora, este amor foi selado na cruz e na ressurreição; é amor pascal, amor que envolve morte e vida! A indissolubilidade não deveria ser vista como um fardo, mas como uma proposta de um Deus que crê no homem que criou; um Deus que nunca brinca com o amor, um Deus que aposta na nossa capacidade, quando aberta à sua graça! Ora, este amor-doação matrimonial, imagem daquele outro, entre Cristo e a Igreja, certamente terá a marca da cruz. As dificuldades conjugais, para o cristão, têm o nome de cruz, cruz que, assumida com amor e por amor, é transformada em alegria e plenitude de ressurreição. Aqui não se trata somente de palavras bonitas, mas de uma realidade impressionante: quem capitula, quem desiste ante as dificuldades, nunca plantará um amor no sentido cristão! A presença de Cristo na união conjugal não exclui as crises, as dificuldades, a incompatibilidade de temperamentos e até mesmo os erros na escolha do cônjuge! Mas tudo isso, por quanto doloroso possa ser, pode se tornar, em Cristo, um modo libertador e eficaz de participar com generosidade e desapego da cruz do Senhor e caminho de felicidade! “Loucura! Insanidade! Demência!” – dirá o mundo! Mas, a linguagem da cruz é loucura para o mundo! A sabedoria da cruz é tolice para o mundo! Nunca esqueçamos isso! Mas, para quem crê, é poder de Deus e sabedoria de Deus! (cf. 1Cor. 1,18; 3,18-20). O problema é que as pessoas casam como os cristãos, mas não crêem nem vivem como os cristãos! Que fique bem assentado: o sonho de Deus em Cristo para o matrimônio é a indissolubilidade!
(3) E os nossos irmãos e irmãs que fracassaram na aliança conjugal e estão numa nova união? É uma situação dolorosa. Se são cristãos de verdade, a coisa é primeiramente difícil para eles. Não nos compete julgar suas intenções e sua história! Compete-nos respeitá-los e acolhê-los com espírito fraterno, ajudando-os a viver esta nova união do melhor modo possível. Isto, no entanto, não significa aprovação da separação nem da nova união. Mas, simplesmente, respeito pela história, pela consciência e pelo mistério da vida e das opções de cada irmão e de cada irmã. Mesmo porque, quem estiver sem pecado, que atire a primeira pedra. Cuidado, irmãos: não coloquemos fardos na vida dos outros!
Que o Senhor socorra as famílias e fortaleça no amor os esposos cristãos, fazendo-os simples como as crianças, capazes de acolher a proposta do Cristo para o matrimônio e que, nas dificuldades, recordem-se que Cristo, autor da nossa salvação, também foi levado à consumação passando pelos sofrimentos. Que nossos sofrimentos, unidos aos dele, sejam semente e penhor de vida eterna.



OUTRA HOMILIA


Quem de nós estará pronto para escutar o que o Senhor diz, mesmo quando nos contraria? Quem de nós hoje terá a coragem de dizer de todo coração: “Fala, Senhor, que o teu servo escuta”? (1Sm 3,10) Ou, como o Salmista, exclamar: “Meu coração se inclina a fazer vossa vontade para sempre e até o fim”? (Sl. 118) – Sim, caríssimos em Cristo, porque as palavras do Senhor neste hoje são duras para nossos mundanos ouvidos desses tempos atuais! Acompanhemos o nosso Salvador no Evangelho que ouvimos. 
Os fariseus perguntam a Jesus sobre o divórcio. Moisés, na Lei, no Antigo Testamento, o permitia. “E tu, Jesus, que dizes?” Pois bem, caríssimos, para nossa surpresa, o nosso Jesus, tão bom, tão suave, tão misericordioso, não permite tal prática. Sua sentença é sem apelo: “O que Deus uniu, o homem não separe! Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério conta a primeira. E se a mulher se divorciar de seu marido casar com outro, cometerá adultério”. São palavras quase insuportáveis hoje em dia, mesmo entre cristãos, não é verdade, caríssimos?
Mas, por que Jesus é tão radical? Por que fechou o que a Lei do Antigo Testamento já havia aberto? Eis o motivo: Cristo é aquele que vem para tirar o pecado do mundo e fazer novas todas as coisas. Sua missão é implantar o Reino de Deus, destruindo o reino de Satanás, reconduzindo tudo ao plano original de Deus para a sua criação. E esse plano tem muito a dizer sobre o homem, sobre sua vida afetiva, sexual e social. Escutamos o Senhor ao responder aos fariseus: “No princípio não era assim...” – eis a chave para compreender o pensamento de Cristo! Ele não faz acordo com o pecado, ele não faz concessões à malandragem humana. Misericórdia, sim; compaixão, sim também; traição ao plano original de Deus, nunca!
E qual era esse plano? Primeiro: “Não é bom que o homem esteja só.” Fomos criados para a comunhão, para amar e sermos amados. É claro que isso se realiza de um modo excelente no matrimônio; mas não só. Toda forma de abertura de coração, todo amor sincero, todo serviço desinteressado dá alegria à vida, refrigera o coração e nos faz transparência da imagem de Deus que é amor infinito. O “não é bom que o homem esteja só” não se refere somente ao casamento – tanto que o próprio Senhor Jesus, depois de falar sobre o casamento, no Evangelho de são Mateus (cf. 19,10-12), fala sobre o celibato daqueles que se fazem eunucos por amor do Reino dos Céus, como ele próprio se fez... Mas, que fique bem assentado: o plano de Deus é que vivamos abertos para os outros e para a criação, que vivamos em comunhão, nesse jogo maravilhoso de dar e receber afeto, dar e receber amor... Quem não sabe amar e não sabe se deixar amar, adoece, desumaniza-se e macula a imagem de Deus em si mesmo: “Quem não ama não conhece a Deus porque Deus é amor” (1Jo. 4,8).
Há um segundo aspecto do plano de Deus para o amor humano: na sua dimensão conjugal-sexual, ele deve ser necessariamente um amor heterossexual. Aqui é necessário dizer claramente, sem deixar margem alguma para dúvidas: a divina revelação afirma com firmeza e Jesus reafirma sem titubeios que “Desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher”. Isto significa que não faz parte do plano de Deus a relação homossexual. É algo absolutamente estranho ao plano do Criador, tanto que na própria geografia do corpo humano está inscrita essa mensagem: o homem é para a mulher e a mulher é para o homem. O que passa disso, é fruto da realidade pecaminosa e quebradiça em que a humanidade se encontra. Certamente, os homossexuais merecem nosso profundo respeito e não se pode culpar alguém por ter tendência homoerótica. Mas, isso não significa justificar moralmente uma realidade que o Senhor claramente reprova. A prática homossexual não é condizente com o plano de Deus para o amor humano e é contra a reta razão! Por isso, o “não” decidido e irrevogável da Igreja ao casamento homossexual. Este somente embolaria o sentido do que é uma família e do que é a norma natural. As exceções que devem ser toleradas por respeito pelas pessoas nunca devem ser louvadas e aprovadas! Cristão, diante do lobby pró-gay, nunca deves esquecer: “Desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. Homem e mulher ele os criou, à sua imagem ele os criou!” Portanto, respeito pelos outros, sim; mascaramento da verdade de Cristo e da reta ordem moral, nunca!
O que mais? Recordando o Gênesis, “no princípio”, Jesus endossa a belíssima convicção de que homem e mulher têm a mesma dignidade: ambos vivem do mesmo sopro divino; a mulher foi tirada do lado do homem, como alguém que deve estar ao seu lado, como companheira de igual dignidade e valor. Nem machismo brutamontes, nem feminismo alucinado! Não deve existir contraposição entre os sexos, mas sim complementaridade. Este é o plano de Deus.
Ainda um outro aspecto. Notem, amados em Cristo, como Deus institui a família: o homem e a mulher, num amor aberto à vida: “O homem deixará seu pai e sua mãe e s dois serão uma só carne”. Que coisa: um deixar, um encontrar, um unir-se, um gerar vida! “Crescei e multiplicai! Dominai a terra!” (Gn. 1,28) Compreendeis, caríssimos? Não se pode destruir a família, não se pode mudar o conceito de família! Família á aquilo que Deus sonhou como sendo família e o Cristo nosso Senhor confirmou, elevando o matrimônio à dignidade de sacramento, santificando-o com a sua graça! Que tristeza a dessacralização, a banalização da família atualmente! Que miséria reduzir-se o matrimônio a um mero contrato humano! Que desfiguração da dignidade familiar reduzir o lar a gente vivendo junto, sem respeito, sem oração, sem diálogo, sem obediência, sem amor, sem Deus! No plano de Deus, toda família é santa, todo lar é sagrado!
Por último: o matrimônio, base da família, alicerce da sociedade, é indissolúvel. Assim Deus sonhou, assim Cristo-Deus confirmou: “Não separe o homem o que Deus uniu!” Palavras duras - pensamos nós... Não! Corações duros – deveríamos dizer! Que ninguém se iluda (e há muitos cristãos que gostam de se iludir!): o matrimônio entre dois cristãos, uma vez consumado na união sexual, é indissolúvel diante de Deus! O problema, caríssimos, é que o amor não se mantém e não cresce se não o cultivarmos pelo diálogo, a admiração mútua, a convivência amorosa, o perdão, os sonhos sonhados juntos, a entrega cotidiana, nas grandes e pequenas ocasiões. O mundo atual quer colher amor onde amor não plantou!
Palavras difíceis, não são, caríssimos? E, no entanto, a elas devemos a obediência da fé, porque são palavras do nosso Salvador, nosso único Mestre! Quem pode acolher tais palavras? Jesus diz no Evangelho de hoje: quem tiver um coração de criança. “Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele!” Ter coração de criança é deixar-se conduzir pelo Senhor, é acolher confiantemente a sua palavra a nosso respeito, mesmo quando esta nos é difícil. Mas, não o conseguiremos sem a disposição para sofrer com Cristo, para nos deixar a nós mesmo. A Carta aos Hebreus, na segunda leitura de hoje, nos apresenta Jesus “coroado de glória e honra, por ter sofrido a morte” e afirma que “pela graça de Deus em favor de todos, ele provou a morte” e foi levado “à consumação por meio dos sofrimentos”. Caríssimos, não nos iludamos: jamais compreenderemos as exigências do Evangelho, jamais teremos a força de abraçá-las, se não estivermos dispostos a participar do sofrimento e das renúncias do Cristo Jesus; aquelas mesmas que o fizeram estar agora coroado de glória. Ele que vive e reina pelos séculos.
dom Henrique Soares da Costa



As leituras do 27º domingo do tempo comum apresentam, como tema principal, o projeto ideal de Deus para o homem e para a mulher: formar uma comunidade de amor, estável e indissolúvel, que os ajude mutuamente a realizarem-se e a serem felizes. Esse amor, feito doação e entrega, será para o mundo um reflexo do amor de Deus.
A primeira leitura diz-nos que Deus criou o homem e a mulher para se completarem, para se ajudarem, para se amarem. Unidos pelo amor, o homem e a mulher formarão “uma só carne”. Ser “uma só carne” implica viverem em comunhão total um com o outro, dando-se um ao outro, partilhando a vida um com o outro, unidos por um amor que é mais forte do que qualquer outro vínculo.
No Evangelho, Jesus, confrontado com a Lei judaica do divórcio, reafirma o projeto ideal de Deus para o homem e para a mulher: eles foram chamados a formar uma comunidade estável e indissolúvel de amor, de partilha e de doação. A separação não está prevista no projeto ideal de Deus, pois Deus não considera um amor que não seja total e duradouro. Só o amor eterno, expresso num compromisso indissolúvel, respeita o projeto primordial de Deus para o homem e para a mulher.
A segunda leitura lembra-nos a “qualidade” do amor de Deus pelos homens… Deus amou de tal forma os homens que enviou ao mundo o seu Filho único “em proveito de todos”. Jesus, o Filho, solidarizou-Se com os homens, partilhou a debilidade dos homens e, cumprindo o projeto do Pai, aceitou morrer na cruz para dizer aos homens que a vida verdadeira está no amor que se dá até às últimas consequências. Ligando o texto da Carta aos Hebreus com o tema principal da liturgia deste domingo, podemos dizer que o casal cristão deve testemunhar, com a sua doação sem limites e com a sua entrega total, o amor de Deus pela humanidade.
1ª leitura: Gn. 2,18-24 - AMBIENTE
O texto de Gn. 2,4b-3,24 – conhecido como relato jahwista da criação – é, de acordo com a maioria dos comentadores, um texto do séc. X a.C., que deve ter aparecido em Judá na época do rei Salomão. Apresenta-se num estilo exuberante, colorido, pitoresco. Parece ser obra de um catequista popular, que ensina recorrendo a imagens sugestivas, coloridas e fortes. Não podemos, de forma nenhuma, ver neste texto uma reportagem jornalística de acontecimentos passados na aurora da humanidade. A finalidade do autor não é científica ou histórica, mas teológica: mais do que ensinar como o mundo e o homem apareceram, ele quer dizer-nos que na origem da vida e do homem está Jahwéh. Trata-se, portanto, de uma página de catequese e não de um tratado destinado a explicar cientificamente as origens do mundo e da vida.
Para apresentar essa catequese aos homens do séc. X a.C., os teólogos jahwistas utilizaram elementos simbólicos e literários das cosmogonias mesopotâmicas (por exemplo, a formação do homem “do pó da terra” é um elemento que aparece sempre nos mitos de origem mesopotâmicos); no entanto, transformaram e adaptaram os símbolos retirados das narrações lendárias de outros povos, dando-lhes um novo enquadramento, uma nova interpretação e pondo-os ao serviço da catequese e da fé de Israel. Ou seja: a linguagem e a apresentação literária das narrações bíblicas da criação apresentam paralelos significativos com os mitos de origem dos povos da zona do Crescente Fértil; mas as conclusões teológicas – sobretudo o ensinamento sobre Deus e sobre o lugar que o homem ocupa no projeto de Deus – são muito diferentes.
O texto que nos é hoje proposto como primeira leitura situa-nos no “jardim do Éden”, um espaço ideal onde Deus colocou o homem que criou, um ambiente de felicidade material onde todas as exigências da vida humana estavam satisfeitas. É um lugar de água abundante e com muitas árvores (para quem sentia pesar sobre si a ameaça do deserto árido, o idéia de felicidade seria um lugar com muita água, um clima de frescura, um ambiente de árvores e de verdura abundante). O homem tinha, então, tudo para ser feliz? Ainda não. Na perspectiva do catequista jahwista, o homem não estava plenamente realizado, pois faltava-lhe alguém com quem compartilhar a vida e a felicidade. O homem não foi criado para viver sozinho, mas para viver em relação. É esse problema que Deus, com solicitude e amor, vai resolver…
MENSAGEM
Depois de criar o homem e de o colocar no “jardim” da felicidade, Deus constatou a solidão do homem e quis dar-lhe solução. Como?
Num primeiro momento, Deus fez desfilar diante do homem “todos os animais do campo e todas as aves do céu”, a fim de que o homem os chamasse “pelos seus nomes” (v. 19). Segundo as idéias vigentes no Médio Oriente antigo, o fato de “dar um nome” era, antes de mais, um ato de domínio e de posse. Por outro lado, o fato de Deus ter trazido os animais para que o homem lhes desse um nome era, na perspectiva do catequista jahwista, o reconhecimento por parte de Deus da autonomia do homem e a associação do homem à obra criadora e ordenadora de Deus. A autoridade sobre os outros seres criados e a associação do homem à obra criadora de Deus responderá ao desejo de felicidade completa que o homem sente e resolverá o problema da sua solidão? Não. O homem não encontrou, nesse mundo animal que Deus lhe confiou, “uma auxiliar semelhante a ele” (v. 20). Por muito rico e desafiador que fosse esse mundo novo que lhe foi apresentado, o homem não encontrou aí a ajuda e o complemento que esperava. Para que o homem se realize completamente, Deus vai intervir de novo.
A nova ação de Deus começa com um “sono profundo” do homem. Depois, Deus, atuando como um hábil cirurgião, tirou parte do corpo do homem (o texto fala da “zela'“, que se tem traduzido como “costela”; contudo, a palavra pode significar “lado” ou “costado”) e com ela fez a mulher (vs. 21-22). Porquê o “sono profundo” do homem”? Porque, de acordo com a concepção do autor jahwista, criar era segredo de Deus e o homem não podia testemunhar esse momento solene e misterioso; restava-lhe admirar a criação de Deus e adorá-l’O pelas suas obras admiráveis… Depois de ter “construído” a mulher, Jahwéh acompanha-a à presença do homem. A mulher é aqui apresentada como uma noiva conduzida à presença do noivo e Deus como o “padrinho” desse noivado. O homem, desperto do “sono profundo”, acolhe a mulher com um grito de alegria e reconhece-a como a companhia que lhe fazia falta, o seu complemento, o seu outro eu: “Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne” (v. 23a). O homem (v. 23b) dá à sua companheira o nome de “mulher” (em hebraico: 'ishah) porque foi tirada do homem (em hebraico: 'ish). A proximidade das duas palavras sugere a proximidade entre o homem e a mulher, a sua igualdade fundamental em dignidade, a sua complementaridade, o seu parentesco.
O nosso texto termina com um comentário que não é de Deus, nem do homem, nem da mulher, mas do catequista jahwista: “por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne” (v. 24). Este comentário pretende ser a resposta a uma questão bem concreta: de onde vem essa força poderosa que é o amor e que é mais forte do que o vínculo que nos liga aos próprios pais? Para o catequista jahwista, o amor vem de Deus, que fez o homem e a mulher de uma só carne; por isso, homem e mulher buscam essa unidade e estão destinados, fatalmente, a viver em comunhão um com o outro.
ATUALIZAÇÃO
• “Não é bom que o homem esteja só”. Estas palavras, postas pelo autor jahwista na boca de Deus, sugerem que a realização plena do homem acontece na relação e não na solidão. O homem que vive fechado em si próprio, que escolhe percorrer caminhos de egoísmo e de auto-suficiência, que recusa o diálogo e a comunhão com aqueles que caminham a seu lado, que tem o coração fechado ao amor e à partilha, é um homem profundamente infeliz, que nunca conhecerá a felicidade plena. Por vezes a preocupação com o dinheiro, com a realização profissional, com o estatuto social, com o êxito levam os homens a prescindir do amor, a renunciar à família, a não ter tempo para os amigos… E um dia, depois de terem acumulado muito dinheiro ou de terem chegado à presidência da empresa, constatam que estão sozinhos e que a sua vida é estéril e vazia. A Palavra de Deus que nos é hoje proposta deixa um aviso claro: a vocação do homem é o amor; a solidão, mesmo quando compensada pela abundância de bens materiais, é um caminho de infelicidade.
• Por vezes, certos círculos religiosos mais fechados desvalorizam o amor humano, consideram o casamento como um estado inferior de realização da vocação cristã e vêem na sexualidade algo de pecaminoso. Não é esta a perspectiva que a Palavra de Deus nos apresenta… No nosso texto, o amor aparece como algo que está, desde sempre, inscrito no projeto de Deus e que é querido por Deus. Deus criou o homem e a mulher para se ajudarem mutuamente e para partilharem, no amor, as suas vidas. É no amor e não na solidão que o homem encontra a sua realização plena e o sentido para a sua existência.
• Homem e mulher são, de acordo com o nosso texto, iguais em dignidade. Eles são “da mesma carne”, em igualdade de ser, partícipes do mesmo destino; completam-se um ao outro e ajudam-se mutuamente a atingir a realização. São, portanto, iguais em dignidade. Esta realidade exige que homem e mulher se respeitem absolutamente um ao outro; e exclui, naturalmente, qualquer atitude que signifique dominação, escravidão, prepotência, uso egoísta do outro.
2ª leitura: Hb. 2,9-11 - AMBIENTE
A carta aos Hebreus é um sermão de um autor cristão anônimo, provavelmente elaborado nos anos que antecederam a destruição do Templo de Jerusalém (ano 70). Destina-se a comunidades cristãs não identificadas (o título “aos hebreus” foi-lhe colado posteriormente e provém das múltiplas referências ao Antigo Testamento e ao ritual dos “sacrifícios” que a obra apresenta). Trata-se, em qualquer caso, de comunidades cristãs em situação difícil, expostas a perseguições e que vivem num ambiente hostil à fé… Os membros dessas comunidades perderam já o fervor inicial pelo Evangelho, deixaram-se contaminar pelo desânimo e começam a ceder à sedução de certas doutrinas não muito coerentes com a fé recebida dos apóstolos… O objetivo do autor deste “discurso” é estimular a vivência do compromisso cristão e levar os crentes a crescer na fé.
A Carta aos Hebreus apresenta – recorrendo à linguagem da teologia judaica – o mistério de Cristo, o sacerdote por excelência – através de quem os homens têm acesso livre a Deus e são inseridos na comunhão real e definitiva com Deus. O autor aproveita, na sequência, para refletir nas implicações desse fato: postos em relação com o Pai por Cristo/sacerdote, os crentes são inseridos nesse Povo sacerdotal que é a comunidade cristã e devem fazer da sua vida um contínuo sacrifício de louvor, de entrega e de amor. Desta forma, o autor oferece aos cristãos um aprofundamento e uma ampliação da fé primitiva, capaz de revitalizar a sua experiência de fé, enfraquecida pela acomodação e pela perseguição.
O texto que nos é proposto está incluído na primeira parte da Carta (cf. Hb. 1,5-2,18). Aí, o autor recolhe e repete aquilo que a catequese primitiva afirmava sobre o mistério de Cristo: a sua encarnação, a sua paixão e morte, a sua glorificação pela ressurreição. Ao longo destes dois capítulos, o autor vai afirmando a superioridade de Jesus em relação a todas as criaturas, nomeadamente em relação aos anjos.
MENSAGEM
Jesus aceitou despojar-se das suas prerrogativas divinas e fazer-se “por um pouco, inferior aos anjos” a fim de que, pelo dom da sua vida até à morte, se cumprisse o projeto salvador do Pai para os homens (v. 9).
Depois desta afirmação de princípio, o autor da Carta aos Hebreus vai aprofundar a sua reflexão e explicar porque é que Jesus teve que passar pela humilhação da cruz (a explicação é bem mais longa do que a leitura que nos é proposta e vai do versículo 10 ao versículo 18).
A questão da paixão e morte de Cristo era uma “conveniência” do projeto de salvação que Deus tinha para o homem (“convinha” – v. 10). O que é que isso significa? O objetivo de Deus é que o homem cresça até chegar à vida plena. Ora, para fazer com que a humanidade atinja esse fim, Deus deu-lhe um guia – Jesus Cristo. Ele devia mostrar, com a sua vida e o seu exemplo, que se chega à plenitude da vida cumprindo integralmente a vontade do Pai e fazendo da existência um dom de amor aos irmãos. A cruz foi a expressão máxima e total dessa vida de entrega aos desígnios de Deus e de doação aos irmãos. Morrendo por amor, Jesus ensinou aos homens como é que eles devem viver, qual o caminho que eles devem percorrer, a fim de chegarem à plenitude da vida, à felicidade sem fim; morrendo por amor e ressuscitando logo a seguir para a vida plena, Jesus libertou os homens do medo paralisante da morte e mostrou-lhes que a morte não é o fim da linha para quem vive na entrega a Deus e na doação aos irmãos.
Ao assumir a natureza humana, ao fazer-Se solidário com os homens, ao fazer-Se irmão dos homens, Cristo (Aquele que santifica) inseriu os homens (os que são santificados) na órbita de Deus e mostrou-lhes o caminho a seguir para integrar a família de Deus (v. 11).
ATUALIZAÇÃO
• A encarnação, paixão e morte de Jesus atestam, antes de mais, o incrível amor de Deus pelos homens. É o amor de alguém que enviou o próprio Filho para fazer da sua vida um dom, até à morte na cruz, a fim de mostrar aos homens o caminho da vida plena e definitiva. Trata-se de uma realidade que a Palavra de Deus nos recorda cada domingo; e trata-se de uma realidade que não deve cessar de nos espantar e de nos levar à gratidão e ao amor.
• A atitude de aceitação incondicional do projeto do Pai assumida por Cristo contrasta com o egoísmo e a auto-suficiência de Adão face às propostas de Deus. A obediência de Cristo trouxe vida plena ao homem; a desobediência de Adão trouxe sofrimento e morte à humanidade. O exemplo de Cristo convida-nos a viver na escuta atenta e na obediência radical às propostas de Deus: esse caminho é gerador de vida verdadeira. Quando o homem prescinde de Deus e das suas propostas e decide que é ele quem define o caminho a seguir, fatalmente resvala para projetos de ambição, de orgulho, de injustiça, de morte; quando o homem escuta e acolhe os desafios de Deus, aprende a amar, a partilhar, a servir, a perdoar e torna-se uma fonte de bênção para todos aqueles que caminham ao seu lado.
• Jesus fez-Se homem, enfrentou a condição de debilidade dos homens e morreu na cruz. No entanto, a sua glorificação mostrou que a morte não é o final do caminho para quem faz da vida uma escuta atenta dos planos de Deus e uma doação de amor aos irmãos. Dessa forma, Ele libertou os homens do medo da morte. Agora, podemos enfrentar a injustiça, a opressão, as forças do mal que oprimem os homens, sem medo de morrer: sabemos que quem vive como Jesus não fica prisioneiro da morte, mas está destinado à vida verdadeira e eterna.
Evangelho: Mc. 10,2-16 - AMBIENTE
Despedindo-se definitivamente da Galileia, Jesus continua o seu caminho para Jerusalém, ao encontro do seu destino final. O episódio de hoje situa-nos “na região da Judéia, para além do Jordão” (v. 1) – isto é, no território transjordânico da Pereia, território governado por Herodes Antipas, o mesmo que havia assassinado João Batista quando este o criticou por haver abandonado a sua esposa legítima. Aí, Jesus volta a confrontar-Se com as multidões e a dirigir-lhes os seus ensinamentos. Os discípulos, contudo, continuam a rodear Jesus e a beneficiar de uma instrução especial.
Entram de novo em cena os fariseus, não para escutar as suas propostas, mas para O experimentar e para Lhe apanhar uma declaração comprometedora. São esses fanáticos da Lei que vão proporcionar a Jesus a oportunidade de Se pronunciar sobre uma questão delicada e comprometedora: o matrimônio e o divórcio.
Tratava-se, na realidade, de uma questão “quente” e não totalmente consensual nas discussões dos “mestres” de Israel. A Lei de Israel permitia o divórcio (“quando um homem tomar uma mulher e a desposar, se depois ela deixar de lhe agradar, por ter descoberto nela algo de inconveniente, escrever-lhe-á um documento de divórcio, entregar-lho-á em mão e despedi-la-á de sua casa” Dt. 24,1); mas não era totalmente clara acerca das razões que poderiam fundamentar a rejeição da mulher pelo marido. Na época de Jesus, as duas grandes escolas teológicas do tempo divergiam na interpretação da Lei do divórcio. A escola de Hillel ensinava que qualquer motivo, mesmo o mais fútil (porque a esposa cozinhava mal ou porque o marido gostava mais de outra), servia para o homem despedir a mulher; a escola de Shammai, mais rigorosa, defendia que só uma razão muito grave (o adultério ou a má conduta da mulher) dava ao marido o direito de repudiar a sua esposa. A mulher, por sua vez, era autorizada a obter o divórcio em tribunal somente no caso de o marido estar afetado pela lepra ou exercer um ofício repugnante.
É nesta discussão de contornos pouco claros que os fariseus procuram envolver Jesus. Uma resposta negativa por parte de Jesus seria, certamente, interpretada como uma condenação do matrimônio de Herodes Antipas com Herodíades, a sua cunhada. A pergunta dos fariseus insere-se, provavelmente, na tentativa de encontrar razões para eliminar Jesus.
MENSAGEM
Diante da questão posta pelos fariseus (“pode um homem repudiar a sua mulher?” v. 2) Jesus começa por recordar-lhes o estado da questão na perspectiva da Lei (“que vos ordenou Moisés?” v. 3)
Tal não significa, contudo, que Jesus Se identifique com o posicionamento da Lei a propósito da questão do divórcio.
Efetivamente, a Lei permite o divórcio (“Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio para se repudiar a mulher” v. 4); contudo, essa condescendência da Lei não resulta do projeto de Deus para o homem e para a mulher, mas é o resultado da “dureza do coração” dos homens. As prescrições de Moisés não definem o quadro ideal do amor do homem e da mulher, mas apenas regulam o compromisso matrimonial, tendo em conta a mediocridade humana.
Em contraste com a permissividade da Lei, Jesus vai apresentar o projeto primordial de Deus para o amor do homem e da mulher. Citando livremente Gn. 1,27 e Gn. 2,24, Jesus explica que, no projeto original de Deus, o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se completarem, para se ajudarem, para se amarem. Unidos pelo amor, o homem e a mulher formarão “uma só carne”. Ser “uma só carne” implica viverem em comunhão total um com o outro, dando-se um ao outro, partilhando a vida um com o outro, unidos por um amor que é mais forte do que qualquer outro vínculo. A separação será sempre o fracasso do amor; não está prevista no projeto ideal de Deus, pois Deus não considera um amor que não seja total e duradouro. Só o amor eterno, expresso num compromisso indissolúvel, respeita o projeto primordial de Deus para o homem e para a mulher.
A perspectiva de Jesus acerca da questão é a seguinte: nessa nova realidade que Deus quer propor ao homem (o Reino de Deus), chegou o momento de abandonar a facilidade, a mesquinhez, as meias-tintas e de apontar para um patamar mais alto. Ora, no que diz respeito ao matrimônio, o patamar mais alto é o projeto inicial de Deus para o homem e para a mulher, que previa um compromisso de amor estável, duradouro, indissolúvel.
Para os discípulos (que anteriormente, em diversas situações, tiveram dificuldade em passar da lógica do mundo para a lógica de Deus), contudo, o discurso de Jesus é difícil de entender; por isso, quando chegam a casa, pedem a Jesus explicações suplementares (v. 10). Jesus reitera que a relação entre o homem e a mulher se deve enquadrar no projeto inicial de Deus e não nas facilidades concedidas pela Lei de Moisés. A perspectiva de Deus é que marido e mulher, unidos pelo amor, formem uma comunidade de vida estável e indissolúvel. O divórcio não entra nesse projeto. Marido e esposa, em igualdade de circunstâncias, são responsáveis pela edificação da comunidade familiar e por evitar o fracasso do amor (vs. 11-12).
O texto que nos é proposto termina com uma cena em que Jesus acolhe as crianças, defende-as e abençoa-as (vs. 13-16). As crianças são, aqui, uma espécie de contraponto ao orgulho e arrogância com que os fariseus se apresentam a Jesus, bem como à dificuldade que os discípulos revelaram, nas cenas precedentes, para acolher a lógica do Reino… As crianças são simples, transparentes, sem calculismos; não têm prestígio ou privilégios a defender; entregam-se confiadamente nos braços do pai e dele esperam tudo, com amor. Por isso, as crianças são o modelo do discípulo. O Reino de Deus é daqueles que, como as crianças, vivem com sinceridade e verdade, sem se preocuparem com a defesa dos seus interesses egoístas ou dos seus privilégios, acolhendo as propostas de Deus com simplicidade e amor. Quem não é “criança”, isto é, quem percorre caminhos tortuosos e calculistas, quem não renuncia ao orgulho e auto-suficiência, quem despreza a lógica de Deus e só conta com a lógica do mundo (também na questão do casamento e do divórcio), quem conduz a própria vida ao sabor de interesses e valores efêmeros, quem não aceita questionar os próprios raciocínios e preconceitos, não pode integrar a comunidade do Reino.
ATUALIZAÇÃO
• O Evangelho deste domingo apresenta-nos o projeto ideal de Deus para o homem e para a mulher que se amam: eles são convidados a viverem em comunhão total um com o outro, dando-se um ao outro, partilhando a vida um com o outro, unidos por um amor que é mais forte do que qualquer outro vínculo. O fracasso dessa relação não está previsto nesse projeto ideal de Deus. O amor de um homem e de uma mulher que se comprometem diante de Deus e da sociedade deve ser um amor eterno e indestrutível, que é reflexo desse amor que Deus tem pelos homens. Este projeto de Deus não é uma realidade inatingível e impossível: há muitos casais que, dia a dia, no meio das dificuldades, lutam pelo seu amor e dão testemunho de um amor eterno e que nada consegue abalar.
• As telenovelas, os valores da moda, a opinião pública, têm-se esforçado por apresentar o fracasso do amor como uma realidade normal, banal, que pode acontecer a qualquer instante e que resolve facilmente as dificuldades que duas pessoas têm em partilhar o seu projeto de amor. Para os casais cristãos, o fracasso do amor não é uma normalidade, mas uma situação extrema, uma realidade excepcional. Para os casais cristãos, o divórcio não deve ser um remédio simples e sempre à mão para resolver as pequenas dificuldades que a vida todos os dias apresenta. À partida, o compromisso de amor não deve ser uma realidade efêmera, sujeito a projetos egoístas e a planos superficiais, que terminam quando surgem dificuldades ou quando um dos dois é confrontado com outras propostas. Para o casal que quer viver na dinâmica do Reino, a separação não deve ser uma proposta sempre em cima da mesa. Marido e esposa têm que esforçar-se por realizar a sua vocação de amor, apesar das dificuldades, das crises, das divergências e dos problemas que, dia a dia, a vida lhes vai colocando. A Igreja é chamada a ser no mundo, mesmo contra a corrente, testemunha do projeto ideal de Deus.
• Apesar de tudo, a vida dos homens e das mulheres é marcada pela debilidade própria da condição humana. Nem sempre as pessoas, apesar do seu esforço e da sua boa vontade, conseguem ser fiéis aos ideais que Deus propõe. A vida de todos nós está cheia de fracassos, de infidelidades, de falhas. Nessas circunstâncias, a comunidade cristã deve usar de muita compreensão para aqueles que falharam (muitas vezes sem culpa) na vivência do seu projeto de amor. Em nenhuma circunstância as pessoas divorciadas devem ser marginalizadas ou afastadas da vida da comunidade cristã. A comunidade deve, em todos os instantes, acolher, integrar, compreender, ajudar aqueles a quem as circunstâncias da vida impediram de viver o tal projeto ideal de Deus. Não se trata de renunciar ao “ideal” que Deus propõe; trata-se de testemunhar a bondade e a misericórdia de Deus para com todos aqueles a quem a partilha de um projeto comum fez sofrer e que, por diversas razões, não puderam realizar esse ideal que um dia, diante de Deus e da comunidade, se comprometeram a viver.
• As crianças que Jesus nos apresenta no Evangelho deste domingo como modelos do discípulo convidam-nos à simplicidade, à humildade, à sinceridade, ao acolhimento humilde dos dons de Deus. De acordo com as palavras de Jesus, não pode integrar o Reino quem se coloca numa atitude de orgulho, de auto-suficiência, de autoritarismo, de superioridade sobre os irmãos. A dinâmica do Reino exige pessoas dispostas a acolher e a escutar as propostas de Deus e dispostas a servir os irmãos com humildade e simplicidade.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho



A santidade do matrimônio
I. Jesus encontrava-se na Judéia, na outra margem do Jordão, rodeado por uma grande multidão que escutava atentamente os seus ensinamentos (1). Então – lemos no Evangelho da missa (2) – aproximaram-se uns fariseus e, para o tentarem, para o fazerem entrar em conflito com a lei de Moisés, perguntaram-lhe se era lícito ao marido repudiar a sua mulher. Moisés tinha permitido o divórcio condescendendo com a dureza do povo antigo. A condição da mulher era então ignominiosa, pois na prática podia ser abandonada por qualquer causa, sem deixar de continuar ligada ao marido. Moisés estabeleceu que, nesses casos, o marido desse à mulher uma carta de repúdio, testificando que a despedia; assim ficava ela livre para casar-se com quem quisesse3. Os Profetas já tinham censurado o divórcio quando do regresso do exílio4.
Jesus declara nesta ocasião a indissolubilidade original do matrimônio, conforme fora instituído por Deus no princípio da criação. Para isso cita expressamente as palavras do Gênesis que se lêem na primeira Leitura5. Porém, no princípio, quando Deus os criou, formou um homem e uma mulher. Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe, e se juntará à sua mulher; e os dois serão uma só carne. E assim já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu. Assim o Senhor declarava a unidade e a indissolubilidade do matrimônio tal e como tinha sido estabelecido no princípio.
Esta doutrina foi tão surpreendente para os próprios discípulos que, uma vez em casa, voltaram a interrogá-lo. E o Mestre confirmou mais expressamente o que já tinha ensinado. E disse-lhes: Qualquer que repudiar a sua mulher e se casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e se casar com outro, comete adultério. Dificilmente se pode falar com maior nitidez. As palavras do Senhor são de uma clareza deslumbrante. Como é possível que um cristão questione essas propriedades naturais do matrimônio e continue a declarar que imita e acompanha Cristo?
Seguindo o Mestre, a Igreja reafirma com segurança e firmeza “a doutrina da indissolubilidade do matrimônio; a quantos, nos nossos dias, consideram difícil ou mesmo impossível vincular-se a uma pessoa por toda a vida e a quantos são subvertidos por uma cultura que rejeita a indissolubilidade matrimonial e que ridiculariza abertamente o empenho e a fidelidade dos esposos, é necessário reafirmar o alegre anúncio da perenidade do amor conjugal que tem em Jesus Cristo o seu fundamento e vigor.
“Radicada na doação pessoal e total dos cônjuges e exigida pelo bem dos filhos, a indissolubilidade do matrimônio encontra a sua verdade última no desígnio que Deus manifestou na Revelação: Deus quer e concede a indissolubilidade matrimonial como fruto, sinal e exigência do amor absolutamente fiel que Ele manifesta pelo homem e que Cristo vive para com a Igreja”6. Esse vínculo, que só a morte pode desfazer, é imagem daquele que existe entre Cristo e o seu Corpo Místico.
A dignidade do matrimônio e a sua estabilidade – pela sua transcendência nas famílias, nos filhos e na própria sociedade – é um dos temas que mais importa defender e fazer com que muitos compreendam. A saúde moral dos povos – tem-se repetido muitas vezes – está ligada ao bom estado do matrimônio. Quando este se corrompe, podemos afirmar que a sociedade está doente, talvez gravemente doente (7).
Por isso, todos temos de rezar e velar pelas famílias com tanta urgência. Os próprios escândalos que, infelizmente, se produzem e se divulgam, podem ser ocasião para dar boa doutrina e afogar o mal em abundância de bem8. “Há dois pontos capitais na vida dos povos: as leis sobre o matrimônio e as leis sobre o ensino. E aí os filhos de Deus têm de permanecer firmes, lutar bem e com nobreza, por amor a todas as criaturas” (9).
II. Jesus Cristo, ao elevar o matrimônio à dignidade de sacramento, introduziu no mundo algo completamente novo. A transformação que realizou na instituição meramente natural foi de tal importância que a converteu – como a água nas bodas de Caná – em algo inimaginável até esse momento. Eis que eu renovo todas as coisas (10), diz o Senhor. Desde então, desde o nascimento do matrimônio cristão, este suplanta a ordem das coisas naturais e introduz-se na ordem das coisas divinas. O matrimônio natural entre os não-cristãos está também cheio de grandeza e dignidade, “mas o ideal proposto por Cristo aos casados está infinitamente acima de uma meta de perfeição humana e apresenta-se em relação ao matrimônio natural como algo rigorosamente novo. Com efeito, através do matrimônio, é a própria vida divina que é comunicada aos esposos, que os sustenta na sua obra de aperfeiçoamento mútuo e que anima a alma dos filhos desde o momento do Batismo”11.
Os que se casam iniciam juntos uma vida nova que devem percorrer em companhia de Deus. É o próprio Senhor que os chama para que cheguem a Ele por esse caminho, pois o matrimônio “é uma autêntica vocação sobrenatural. Sacramento grande em Cristo e na Igreja, diz São Paulo (Ef 5, 32) [...], sinal sagrado que santifica, ação de Jesus que se apossa da alma dos que se casam e os convida a segui-lo, transformando toda a vida matrimonial num caminhar divino sobre a terra” (12).
O papa João Paulo I, falando da grandeza do matrimônio a um grupo de recém-casados, contava-lhes um pequeno episódio ocorrido na França. No século passado, um professor insigne que ensinava na Sorbonne, Frederico Ozanam, era um homem de prestígio e um bom católico. Lacordaire, seu amigo, costumava dizer dele: “Este homem é tão bom e tão maravilhoso que se ordenará como sacerdote e chegará até a ser um bom bispo!” Mas Ozanam casou-se. Então Lacordaire, um pouco aborrecido, exclamou: “Pobre Ozanam! Também ele caiu na trapaça!” Estas palavras chegaram aos ouvidos do papa Pio IX, que não as esqueceu. Quando Lacordaire o visitou uns anos mais tarde, disse-lhe o papa com bom-humor: “Eu sempre ouvi dizer que Jesus instituiu sete sacramentos. Agora vem o senhor, embaralha as cartas na mesa e diz que instituiu seis sacramentos e uma trapaça. Não, padre, o matrimônio não é uma trapaça; é um grande sacramento!” (13) Não esqueçamos que a primeira coisa que o Messias quis santificar foi um lar. E que é precisamente nas famílias alegres, generosas, cristãmente sóbrias, que nascem as vocações para a entrega plena a Deus na virgindade ou no celibato, essas que constituem a coroa da Igreja e a alegria de Deus no mundo. Todas elas representam um dom que Deus concede muitas vezes aos pais que rezam pelos filhos de todo o coração e com constância. São um dom que brilhará nas mãos paternas com um fulgor especial quando um dia se apresentarem diante do Senhor e prestarem contas dos bens que lhes foram dados para os guardarem e administrarem.
III. Deus preparou cuidadosamente a família em que o seu Filho iria nascer: José, da casa e da família de Davi (14), que desempenharia o ofício de pai na terra, e igualmente Maria, sua Mãe virginal. O Senhor quis refletir na sua própria família o modo como os seus filhos haveriam de nascer e crescer: no seio de uma família estavelmente constituída e rodeados pela sua proteção e carinho.
Toda a família, que é a “célula vital da sociedade”15 e de certo modo da própria Igreja16, tem uma natureza sagrada e merece a veneração e a solicitude dos seus membros, da sociedade civil e de toda a Igreja. São Tomás chega a comparar a missão dos pais à dos sacerdotes, pois enquanto estes contribuem para o crescimento sobrenatural do Povo de Deus mediante a administração dos sacramentos, a família cristã provê simultaneamente à vida corporal e à espiritual, “o que se realiza no sacramento do matrimônio, onde a mulher e o homem se unem para gerar a prole e educá-la no culto a Deus” (17). Mediante a colaboração generosa dos pais, o próprio Deus “aumenta e enriquece a sua própria família”18, multiplicando os membros da sua Igreja e a glória que dela recebe.
A família, tal e como Deus a quis, é o lugar idôneo para tornar-se, com o amor e o bom exemplo dos pais, dos irmãos e dos outros membros do círculo familiar, uma verdadeira “escola de virtudes”19 em que os filhos se formem para serem bons cidadãos e bons filhos de Deus. É no meio da família firmemente voltada para Deus que cada um pode encontrar a sua própria vocação, aquela a que Deus o chama. “Admira a bondade do nosso Pai-Deus: não te enche de alegria a certeza de que o teu lar, a tua família, o teu país, que amas com loucura, são matéria de santidade?” (20)
Francisco Fernández-Carvajal


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