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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

29º DOMINGO TEMPO COMUM-B

29º DOMINGO TEMPO COMUM
18 de Outubro de 2015
Ano B

1ª Leitura - Is 53,10-11
Salmo 32

2ª Leitura - Hb 4,14-16

-TIAGO E JOÃO QUERIAM SENTAR-SE AO LADO DE JESUS-José Salviano


Evangelho - Mc 10,35-45
Tiago e João se acharam no direito de serem destacados dos demais, e suplicaram a Jesus que lhes concedessem a honra de sentar um a direita e outro a esquerda de Jesus em seu trono de glória eterna. Um verdadeiro absurdo! Foi o que pensaram os demais discípulos, os quais imediatamente ficaram indignados com a atitude daquele  dois. Leia mais
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“VOCÊS PODEM BEBER DO CÁLICE QUE EU VOU BEBER”? – Olívia Coutinho

29º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 18 de Outubro de 20015


Evangelho Mc 10,35- 45

Neste dia mundial das missões, somos convidados a fortalecer  o nosso ideal de discípulo missionário!
Como anunciadores da Boa nova do Reino de Deus, que caminha dentro do espírito da fé e do compromisso com a  igreja missionária, somos convocados a dar continuidade a missão de Jesus, reafirmando com o nosso testemunho, a nossa adesão ao projeto de Deus!  
É o amor a Deus que motiva milhões de missionários e missionárias a fazerem às vezes de Jesus no coração do mundo, levando a sua proposta de vida nova, possibilitando à tantas pessoas a conhecer a verdade que liberta!
O mundo está cheio de conflitos, necessitando urgentemente de mais diálogo, de pessoas corajosas que assim como Jesus, não desiste do humano, pessoas que não se curvam diante dos desafios, porque acredita na ação libertadora de Jesus!
É a presença do Espírito Santo que fortalece que encoraja o missionário, que o impulsiona a fazer a difícil viagem de sair de si mesmo para ir ao encontro do outro, do diferente, do marginalizado, daqueles que ainda não tiveram a chance de conhecer Jesus,  de experimentar o aconchego do coração do misericordioso do Pai.
Assumir o nosso compromisso missionário, é estar  disposto a dividir o tempo, a vida com o outro, principalmente com os esquecidos as margens do caminho!
Deus quer salvar a humanidade por inteira, por isto Ele quer contar com a nossa disposição, com o nosso  serviço na construção  de um mundo melhor, de um mundo mais justo e mais fraterno, ser indiferente a esta convocação, é rejeitar  o projeto de Deus. 
 O evangelho que a liturgia de hoje nos apresenta, nos provoca  um questionamento: que direção estamos dando a nossa existência? Estamos de fato servindo ao reino de Deus, ou estamos querendo nos servir dele para nos promover?
O texto nos convida a pautarmos a nossa vida no exemplo de Jesus, o grande missionário do Pai, que mesmo sendo Deus, se pôs a serviço do outro, curvando-se para lavar os pés dos discípulos, numa atitude de humildade e de  serviço.
 “Sendo Ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo” (Fl 2, 6-7).
 “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos” (Mc 10,45).
Pela lógica dos homens, ser grande, é possuir bens, é ter poder fama, enquanto que para  Deus,  grande, é  aquele que serve, que vive na simplicidade e na humildade, que se coloca na dependência de Deus.
As palavras de Jesus nos advertem sobre o risco que corremos quando estamos voltados somente para os nossos  interesses pessoais. Quando deixamos nos levar pelos nossos interesses pessoais, cresce em nós a vaidade,  a ganância, grandes inimigos que nos distanciam dos verdadeiros valores!  Fechados no nosso “eu”, não  enxergamos a necessidade do outro,  não nos  abrirmos à partilha, portanto, não vivemos   o mandamento Maior que é o mandamento do amor!
Ao contrário dos filhos de Zebedeu,  devemos assumir a nossa missão, sem querer algo em troca. A nossa missão, deve se desenvolver em clima de gratuidade, de humildade e de serviço. O próprio Jesus nos deu um grande exemplo de humildade e de serviço  ao  inclinar-se para lavar os pés dos apóstolos!
Beber o cálice que Jesus bebeu, é não temer a cruz, é passar pelo sofrimento sem perder a fé. Podemos dizer que este é o grande desafio de um seguidor de Jesus!
Será que nós, comunidade de fé, bebemos o mesmo cálice de Jesus, ou será que bebemos o cálice individual?
A vida de um seguidor de Jesus deve ser marcada sim, mas não por títulos, e sim, pelo seu testemunho de fidelidade a Deus, pela sua  vida de comunhão com Deus e com os irmãos.
Descobrimos o verdadeiro sentido do nosso existir, quando tomamos gosto de nos entregar ao amor serviço sem esperar algo em troca, afinal, não se busca recompensa daquilo que se faz por amor!
A grande recompensa que devemos esperar pelos serviços prestados ao Reino de Deus, é a esperança  de um dia sermos acolhidos na glória do céu.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

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A eterna busca pelos primeiros lugares
Os contemporâneos de Jesus tinham a convicção de que o Messias haveria de se manifestar com poder e força. Mesmo os apóstolos pensavam assim. Em muitos momentos da trajetória do Mestre eles experimentavam estranheza, sobretudo quando ele anunciava sua paixão dolorida. Aliás, Jesus simplesmente retomava passagens do Testamento Antigo como essa de Isaías hoje proclamada: “Por esta vida de sofrimento, alcançará a luz e uma ciência perfeita. Meu servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre si as suas culpas”. Jesus constata seus discípulos mais chegados estão ávidos de glórias.
Os filhos de Zebedeu, com efeito, manifestam o desejo que têm: querem sentar-se um à direita e o outro à esquerda no seu reino de glória. Querem garantir as honras para o amanhã.  Jesus não lhes faz promessa alguma. Aproveita o  ensejo para perguntar se estão eles dispostos a beber o cálice que Jesus tem que beber, de aceitar o negativo de uma condenação. Os dois não hesitam em responder que são capazes de beber o cálice que o Senhor haverá  de beber.
Poder… O poder sempre atraiu os seres humanos: poder que vem dos prestígio,  do dinheiro, das obras. Poder de quem deseja ocupar os primeiros lugares na vida.
Jesus e seu evangelho apontam para um outro horizonte: ocupar o espaço daqueles que servem.  Jesus aproveitou-se do momento para dizer palavras que até hoje ressoam aos nossos ouvidos: ”Vós sabeis que os chefes as oprimem e os grandes a tiranizam.  Mas, entre vós não deve ser assim, quem quiser ser grande seja vosso servo, e quem quiser ser o primeiro, seja escravo de todos. Porque o Filho do homem não veio para ser servido mas para servir e dar a sua vida por muitos”.
Os verdadeiros discípulos de Jesus compreenderam esta lição. Há esses esposos cristãos que se servem mutuamente. Quantas mulheres conseguiram, com sua pertinácia, fazem com que seus  esposos tivessem sede de Deus. Quantos cristãos, leigos ou religiosos nas escolas, nas periferias miseráveis  deram aos poucos suas vidas para a vida de tantos. Quantos sacerdotes fizeram e continuam fazendo de suas vidas um hino de serviço delicado a famílias, a jovens e aos necessitados. O grande hino que a Igreja sabe cantar é o do serviço. Os cristãos sempre contemplam o Mestre que lava os pés dos seus.
Neste domingo ocorre o Dia das missões. Ora, os missionários em nossa terra e em terra de missões são pessoas se decentralizaram. Resolveram ser para os outros.
frei Almir Ribeiro Guimarães





Jesus veio para servir e dar sua vida
Podemos gostar de crucifixos de marfim, com gotas de sangue em rubis, como era a moda nas mansões coloniais do século XVIII. Mas não gostamos de um homem diminuído, quebrado, mutilado, ofensa à humanidade. Ora, Deus gosta – não por sadismo (como se precisasse de castigar alguém), mas por verdadeiro amor, que é comunhão, pois se reconhece no justo que foi esmagado por causa da justiça. Num só justo assim, Deus mesmo assume a dívida de muitos, de todos. Os judeus aprenderam isso no exílio babilônico. Não se sabe quem foi o justo torturado pelos ímpios, do qual fala Is. 52,13-53,12 (1ª leitura), mas sabemos o que Israel dele aprendeu: enquanto diante dele cobriam o rosto, aprenderam que ele carregou os pecados do povo e morreu por eles.
Como é possível isso? “Chorarão sobre aquele que traspassaram” (Zc. 12,10). Parece que a humanidade precisa ver em alguém o resultado de sua malícia, para dela se arrepender. As reivindicações sociais só são concedidas depois de algumas (ou muitas) mortes. Os movimentos de emancipação só vencem quando há mártires. Infeliz humanidade, que só aprende de suas vítimas. Por isso é que Deus ama os que são vitimados. Não porque goste de vingança e sangue, mas porque eles são os seus melhores profetas, seus porta-vozes. Ele se identifica com eles, exalta-os, inclusive, na própria veneração do povo, que, venerando-os, se arrepende de suas faltas e por eles é perdoado e verdadeiramente libertado. Deus ama duplamente o justo sacrificado: a primeira vez, por ser justo e testemunhar a justiça; a segunda, porque seu sangue leva os outros à justiça.
O justo padecente é o modelo conforme o qual Jesus concebe sua missão (evangelho). Entretanto, os seus melhores discípulos pretendem reservar-se os lugares de honra no Reino (Mt.19,16ss abranda a situação, dizendo que foi a mãe deles que o pediu … ). Jesus então lhes ensina que tais pretensões cabem aos poderosos deste mundo, mas não têm vez no Reino de Deus. No Reino de Deus se deve beber o cálice de Jesus, receber o batismo que ele recebe – e os discípulos, sem entender o que Jesus quer dizer, confirmam que eles farão isso. Como, de fato, o fizeram, depois que o exemplo de Jesus lhes ensinara o que estas figuras significavam.
O “poder” no Reino de Deus consiste no servir. O amor só tem poder enquanto ele é doado e se coloca a serviço. Para atingir o coração (e a Deus interessa só isso) é preciso penetrar até o nível da liberdade da pessoa. Ninguém ama por constrangimento. A liberdade surge quando alguém pode tomar ou não tomar determinada decisão. Diante da força que se impõe, não há liberdade. Diante do serviço de alguém que se toma submisso a mim, posso decidir alguma coisa. Por isso, Jesus quer estar a serviço, para que se possa livremente decidir que “reino” se prefere.
Servir é ser pequeno. Ministro (servo) tem a ver com mínimo. Frente ao pequeno, o homem revela o que tem no seu coração: bondade ou sede de poder. Jesus quis ser pequeno, para que os corações se revelassem, não tanto a ele e Deus, que os conhece, mas a si mesmos, pois o maior desconhecido para mim é meu próprio coração. Assumindo o caminho do paciente testemunho da verdade, divergente das conveniências da sociedade dominante, Jesus se tomou servo e fraco, sempre exposto e sem defesa. Tornou-se cordeiro (cf. Is. 53,7). O resultado só podia ser o que de fato aconteceu. Foi eliminado, e até seus discípulos tiveram vergonha dele. Mas, muito mais do que no caso do justo de Is 53, Jesus tomou-se “pedra de toque” dos corações e da sociedade toda, com suas estruturas e tudo.
Esta é a mensagem que Mc nos deixa entrever a partir do 3° anúncio da Paixão (Mc. 10,32-34; estes versículos poderiam ser incluídos na leitura, para mostrar melhor que as palavras sobre o servir não são apenas uma crítica aos filhos de Zebedeu, mas uma interpretação do caminho do Cristo).
A 2ª leitura cabe bem neste contexto litúrgico. Embora a figura do sacerdote não seja exatamente a do Servo, entendemos perfeitamente que é o Cristo-Servo que, pela fidelidade à sua missão, se torna o verdadeiro “santificador”. Hb acentua que exatamente a participação de Jesus nos mais profundos abismos da condição humana – exceto o pecado – o qualifica para ser o melhor sacerdote imaginável. Um sacerdote que não está do outro lado da barra, mas que participa conosco. E, num seguinte passo, dirá ainda que este sacerdote não precisa de sacrifícios alheios à nossa condição humana (portanto, meramente simbólicos), mas torna sua própria vida instrumento de salvação.
Johan Konings "Liturgia dominical"



Os filhos de Zebedeu
Este Evangelho é o fim da instrução sobre a Paixão de Jesus escrita por Marcos, e parece que os discípulos mais aplicados ainda não aprenderam nada! Ainda não compreendem os ensinamentos e a realidade que Jesus ensina através do serviço e não do poder. Mas isso, de fato, só aprenderão após a morte e ressurreição de Jesus.
Tiago e João, filhos de Zebedeu, fazem um pedido ambicioso, pois querem uma posição de autoridade e de poder no Reino dos Céus. Esses eram os dois discípulos mais íntimos de Jesus, seus melhores alunos e que estavam com Ele no momento da transfiguração, e este fato se destaca de modo provocador, principalmente pela posição de liderança que eles tinham, pois Jesus pede uma liderança de serviço e eles solicitam algo totalmente contrário ao que Ele ensinou.
A diaconia significa serviço, ministro é sinônimo de mínimo, e Jesus sendo o Mestre se fez pequeno, o Cordeiro de Deus, exemplo de oferecimento de Si mesmo e servidor de todos, modelo para os discípulos e todos os cristãos.
Sentar à direita e à esquerda significa estar o mais próximo possível de um cargo de alto escalão e Jesus destaca a ingenuidade e ignorância deles dizendo que não sabem o que estão pedindo, e lhes ensina que esse desejo cabe aos poderosos deste mundo, mas não têm vez no Reino de Deus.
Explica que, para estar onde eles pedem, é preciso obedecer a vontade de Deus e não aos impulsos humanos, e que para ser grande e o primeiro aos olhos de Deus é preciso ser o servo de todos. É por meio do serviço que o homem alcança a sua glória e a sua salvação.
Quando Jesus lhes pergunta se beberão do mesmo cálice, eles respondem positivamente como uma resposta de profecia, como de fato, cumpriram.
Nos ensinamentos de Cristo não existe lugar para competições de orgulho, ambições de sucesso e glória sobre outras pessoas. Quem se deixa levar por estes sentimentos não se comporta como cristão, mas sim como pagão. Ninguém se coloca no caminho de Jesus para angariar para si lugar de honra ou facilidades, ao contrário, ser discípulo de Jesus é ter a mesma sorte do Mestre, e isso não significa honra ou privilégio, pois o cálice é símbolo de perseguição, sofrimento e morte e o batismo é sinônimo de mergulho na missão de se doar e dar a vida por muitos.
Os outros discípulos ficam indignados, revoltados porque os dois foram mais corajosos em pedir. Eles também buscam o poder e julgam Tiago e João como egoístas. Jesus os reúne dizendo que entre eles não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja o servo dos outros, e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos.



A grandeza de servir
O Reino de Deus introduziu nova ordem de relações entre as pessoas, muito diferente da mentalidade do mundo. Para quem é mundano, a grandeza consiste em exercer o domínio sobre as pessoas, e mostrar-se cheio de poder, porque a submissão lhe parece fruto do medo. O serviço prestado ao tirano não resulta de um ato amoroso, mas revela-se uma pesada obrigação.
O Reino, pelo contrário, segue na direção oposta. O domínio transforma-se em serviço. O dominado assume a feição do irmão a quem se deve amar e servir. O poder não é utilizado para oprimir, antes, para libertar. A relação de escravidão transforma-se em relação de fraternidade. A grandeza, portanto, para o discípulo do Reino não consiste em ser servido, mas em servir e oferecer a própria vida para que o outro possa crescer.
Foi por esta razão que Jesus convidou Tiago e João a mudarem de mentalidade e pensarem segundo os critérios do Reino. O pedido que fizeram ao Mestre talvez escondesse o desejo de exercerem poder sobre os demais companheiros de discipulado, numa espécie de dominação. Pretendiam ocupar um lugar de destaque junto de Jesus, para usufruir do poder. Jesus denunciou esta maneira errada de pensar.
O discípulo deve espelhar-se nele, enviado pelo Pai para colocar-se a serviço da humanidade e dar a vida pela salvação de todos. Esta é a sua grandeza!
padre Jaldemir Vitório



Conta o livro dos Juízes, no capítulo 9, que depois da morte de Gedeão, também chamado de Jerobaal, um de seus filhos, Abimelec, contratou por dinheiro aventureiros vadios para matarem todos os seus irmãos, que, com ele, somavam 70 homens. Ele assim procedeu por ambições políticas. Para ganhar o povo, ele já tinha perguntado o que seria melhor, ser dominado por 70 governantes ou ser dominado por um só, o próprio Abimelec. Ambições políticas, aventureiros sem caráter, fratricídio.
No Evangelho, Jesus diz o que todos sabemos, que no mundo os que governam dominam com opressão e tirania. Hoje, diríamos que são opressores astutos e corruptos. Mas, o que Jesus diz e ainda não sabíamos – e talvez ainda não saibamos – é que “entre vocês não deve ser assim”. Jesus deve ter gritado essa frase nos ouvidos dos seus apóstolos e discípulos. “Entre vocês o poder não será um exercício de dominação corrupta.” O poder se mostra no serviço e o primeiro é o servidor de todos.
Jesus colocou a sua Igreja no mundo como sinal de que é possível viver a perfeição das relações da Santíssima Trindade, na qual os Três, sem serem idênticos, são Um só na mesma dignidade. A Igreja, reflexo da Trindade e modelo da vontade de Deus criador, vive as diferenças na fraternidade. A Igreja de Jesus é uma comunidade sem dominações, na qual quem preside ocupa o último lugar e é o servidor de todos.
Bonito de dizer, difícil de viver. Nada disso se faz sem dor e sacrifício, sem renúncia e cruz. Jesus é capaz de nos compreender em nossas fraquezas “porque Ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado”. Ele viveu o mundo do pecado sem ser Ele mesmo pecador. Jesus não se aliou ao dominador deste mundo, o demônio.
Que Deus não deixe sua Igreja cair na tentação de imitar os donos deste mundo, que controlam tudo sem aparecer e sem moradia fixa. Vendem armas, petróleo, remédios, sabem lavar dinheiro em quantidade. Compram e patrocinam aliados, subalternos dependentes e amarrados pelos benefícios que recebem. Dominam de verdade, pois são capazes de criar guerras e pagar vilões que testemunham falsamente. Os que dominam criam um sistema no qual tudo o que é produzido já vem contaminado. Surgem então os agentes públicos, “agentes do caos”. Não contestam as determinações de quem domina. Vendem suas almas para manterem a posição adquirida, embora subalterna. Sabem usar máscaras. São espertos, inteligentes, produtivos, criativos. Não têm medo de se tornarem dependentes químicos de alto nível se puderem apresentar boas ideias nas reuniões de executivos.
“Entre vocês não será assim.” Será o quê? Centenas de milhares que aceitam passivamente a situação de dominados à espera da redenção final? Que dão graças a Deus pela bondade dos dominantes que ajudam a Igreja paroquial, dão cestas básicas e garantem algum rendimento mensal? Num mundo inteligentemente dominado pelo poder demoníaco, não basta repetir as palavras de Jesus encontradas no Evangelho. É preciso repeti-las e transformá-las em realidade vivida, o que não acontece sem esforço, sem renúncia, sem cruz e sem firme vontade de servir a partir do último lugar. A Igreja precisa de missionários que ofereçam sua vida e carreguem sobre si o pecado do mundo para tornarem “justos inúmeros homens”.
cônego Celso Pedro da Silva



Comecemos observando o evangelho. Notemos como os dois irmãos, Tiago e João, se dirigem a Jesus: “Queremos que faças o que vamos pedir”. Isto não é modo de pedir nada ao Senhor, isto não é modo de rezar! Aqui não há humildade, não há abertura para procurar a vontade do Senhor a nosso respeito, mas somente o interesse cego de realizar nossa vontade! Quanta loucura e presunção! Muitas vezes, é assim também que rezamos, com esse tom, com essa atitude! Recordemos a palavra do Apóstolo: “Não sabemos o que pedir como convém” (Rm. 8,26). Somos tão frágeis, tão incapazes de compreender os desígnios de Deus, que nossos pedidos muitas e muitas vezes não são segundo o coração do Senhor e, portanto, não são para o nosso bem!
Como, então, pedir de acordo com a vontade do Senhor? Escutemos ainda São Paulo: “O Espírito socorre a nossa fraqueza. O próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm. 8,26). Eis! É somente quando nos deixamos guiar pelo Santo Espírito do Cristo, que compreendemos as coisas de Deus e pediremos segundo Deus! Nunca compreenderá o desígnio de Deus, quem não pede segundo Deus... e nunca pedirá segundo Deus, quem não se deixa guiar pelo Espírito de Deus! Aqueles dois não pediam segundo Deus, não suplicavam segundo o Reino, mas segundo seus interesses: queriam glória, queriam honra, queriam os primeiros lugares, queriam seus interesses, de acordo com sua lógica e modo de pensar!
A resposta de Jesus demonstra o seu desgosto: “Vós não sabeis o que pedis!” E o Senhor completa com um desafio – que é para os dois irmãos e para todos nós, caros irmãos e irmãs: “Podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?” De que cálice, de que batismo Jesus está falando? Do seu sofrimento, do seu caminho de dor e humilhação, pelo qual ele entrará no Reino e o Reino virá a nós: “O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor. Por esta vida de sofrimento, alcançará a luz e uma ciência perfeita. Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre si suas culpas”. Este é o caminho de Jesus: fazer-se servo humilde e causa de nossa salvação. Isso os discípulos não compreendiam... nem nós compreendemos! Também a nós o Senhor convida a participar do seu batismo e do seu cálice. Escutemos mais uma vez, são Paulo: “Não sabeis que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, é na sua morte que fomos batizados? Pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova. Porque se nos tornamos uma só coisa com ele por uma morte semelhante à sua, seremos uma coisa só com ele também por uma ressurreição semelhante à sua” (Rm. 6,3-5). Podeis ser batizados no meu batismo? Estais dispostos a mergulhar vossa vida no meu caminho de morte e ressurreição, morrendo para vós mesmos e buscando a vontade do Pai de todo o coração? Eis o que é ser batizado em Cristo! E nós o fomos! O desafio agora é viver o batismo no qual fomos batizados, tornando-nos, em Cristo, criaturas novas, abertas para a vontade do Pai, como Jesus. E, não somente ser batizado no batismo de Jesus, mas também beber o cálice de Jesus: “Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor. 11,26); “O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo?” (1Cor. 10,16). Vejam só: comungar na eucaristia é aprofundar aquilo que já começamos a viver no batismo: fazer da vida uma vida em comunhão com o Senhor na sua morte e ressurreição! Não se pode nem sonhar em ser cristão pensando num caminho diferente, num modo diverso de viver! Tiago e João não tinham compreendido isso; os Doze também não compreenderam; nós, tampouco, compreendemos!
Observem ainda como os dois irmãos são presunçosos: quando Jesus pergunta: “Podeis beber o cálice? Podeis ser batizados?” Eles respondem: “Podemos!” Na ânsia pelos primeiros lugares, no desejo de obterem o que pedem, prometem aquilo que somente com a graça de Deus seriam capazes de prometer! A mesma lógica nossa, nosso mesmo procedimento, tantas vezes! Como Pedro, que, mais tarde dirá: “Darei a minha vida por ti” (Jo. 13,37); e de modo tão presunçoso quanto o dos dois irmãos, exclamará: “Ainda que todos se escandalizem, eu não o farei!” (Mc. 14,29). Pobre Pedro, pobres Tiago e João, pobres de nós! Sem a graça de Deus em Cristo, que poderemos? Vamos nos escandalizar, vamos fugir da cruz, vamos descrer no Senhor, vamos abandonar o caminho! Como não compreendemos a estrada de Jesus! Tudo é graça. Por isso Jesus diz que, ainda que eles bebam o seu cálice e sejam mergulhados no seu batismo, ainda assim, será graça de Deus conceder os primeiros lugares... Não podemos cobrar nada de Deus: “É para aqueles a quem foi reservado!”.
Finalmente, a atitude dos outros Doze, que também buscavam o primeiro lugar e se revoltam contra os dois irmãos! E Jesus chama os Doze e nos chama também a nós, e fala-nos do mundo, com seus jogos de poder, sua ganância, sua hipocrisia e sua mentira... e nos diz: “Entre vós, não deverá ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”. Aqui está o modelo do caminho cristão: o Cristo, totalmente abandonado à vontade do Pai, totalmente disponível, totalmente pobre... Ele é o modelo de como devemos viver entre nós e em relação ao Pai: no serviço mútuo, na disponibilidade, na confiança no Pai, no abandono ao seu desígnio a nosso respeito. Somente Jesus poderia rezar com toda a liberdade: “Pai, não o que eu quero, mas o que tu queres!” (Mc. 14,36).
Olhando nossa fraqueza, nossa pouca disponibilidade, olhando quanto na vida buscamos nossos interesses e nossas vantagens, não desanimemos! Sigamos o conselho do Autor da Carta aos Hebreus: “Temos um Sumo-sacerdote eminente, que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus. Por isso, permaneçamos firmes na fé que professamos! Temos um Sumo-sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pis ele mesmo foi provado em tudo como nós!” Confiemos no Senhor e supliquemos que ele converta o nosso coração, dando-nos seus sentimentos, suas atitudes de doação, serviço e humildade, sua confiança no Pai e, finalmente, a graça de participar daquela glória que no céu ele tem com o Pai e o Espírito Santo. Amém.



Comecemos nossa meditação escutando como Jesus apresenta sua missão: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”. Aqui Nosso Senhor sintetiza de modo impressionante tudo quanto veio fazer por nós. Ele é o Filho do Homem, Ben-Adam, isto é, aquele que se fez simples homem frágil, feito um de nós, “capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado”. No misterioso plano do Pai do céu, a nossa salvação tinha de passar pela vinda do Filho, feito pobre homem entre nós, pobres mortais. E não só: toda a humana existência do Filho foi um serviço, um serviço só: “dar a sua vida como resgate para muitos”. Podemos imaginar toda a vida de Jesus, desde a humildade dos nove meses no ventre da Virgem, passando pelos trinta anos de escondido silêncio em Nazaré, pelas andanças, pregações, cansaços, incompreensões, momentos de solidão e de provação... Nada disso foi por acaso, nada disso sem sentido, nada disso sem significado. Era o Senhor dando a vida, era o Senhor nos servindo por uma vida amorosamente entregue ao Pai por nós, humildemente gasta como uma vela que se consome por amor ao mundo. Sua paixão e morte de cruz nada mais foram que a conclusão de uma existência feita toda amor e sacrifício em louvor ao Pai e em benefício dos irmãos!
Com este pensamento, escutemos novamente as impressionantes palavras do Profeta Isaías, falando de Jesus, o Servo Sofredor: “O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor”. Vede, meus caros, que a vontade do Pai incluía, de modo misterioso, que nos escapa, essa pobreza, que entrega toda a vida para o perdão dos nossos pecados. Num mundo que por auto-suficiência, por orgulho e cega paixão procura viver a vida do seu modo, pisando no amor de Deus e desprezando seu convite a buscá-lo, o Filho Jesus fez um caminho totalmente inverso: de abaixamento, de amor, de doação, de entrega em nosso favor: “Por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita e justificará a muitos”. Foi assim, na obediência, no desapego de si próprio, que Jesus se tornou nosso Sumo-sacerdote, nosso Advogado, nosso Salvador, aquele que nos justifica diante de Deus. É ele quem, nos céus, se compadece de nossas fraquezas e nos dá seu divino auxílio. Ele, com seu sangue, isto é, com sua vida derramada a vida toda, intercede amorosamente por nós e é a garantia da nossa salvação!
Mas, todo este caminho do nosso Salvador, caríssimos, indica-nos a nós um caminho, um modo de viver, um critério de discernimento. Se o nosso olhar se dirige a Jesus, é como ele que devemos caminhar; devemos andar como ele andou, saindo de nós, de nossos projetos de inspiração tão mundana, para abraçar o pensamento e os modos do nosso Mestre e Salvador.
Pensai bem: Qual é a nossa tendência? Qual o nosso primeiro impulso? Aquele dos discípulos: buscar o que nos agrada, procurar os primeiros lugares, ir ao encalço da nossa própria conveniência e comodidade, dar vazão aos nossos prazeres, fazer sempre a nossa vontade... Qual o caminho que o Senhor propõe? Vede que a primeira coisa que ele faz é nos convidar a segui-lo, bebendo na vida o seu cálice e sendo mergulhado cada dia no seu batismo. Em outras palavras: o cristão deve estar disposto a viver sua vida com os mesmos sentimentos de Jesus, isto é, fazer da existência um serviço de amor adorante ao Pai e de entrega aos irmãos. Meus caros, como isso é difícil! É o contrário das nossas tendências, é o inverso do que aprendemos do mundo: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não será assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo, e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos”. São palavras que, se levarmos a sério, nos chocam, porque mudam totalmente o nosso modo de pensar e a lógica do nosso coração! E, no entanto, este é o caminho – o único caminho – de Jesus! Na nossa relação com Deus e nas nossas relações com os outros, não pode existir outro modelo, outra medida, outra lógica, que não aquela que o Senhor mesmo nos apresenta com sua existência entregue por nós.
É por isso, meus caros, que ser cristão exige um perene caminho de conversão, de sair de nós do nosso jeito para chegar a nós do jeito de Jesus. Aí, sim, seremos realmente livres, seremos realmente discípulos e encontraremos o gosto verdadeiro da vida! Infelizmente o mundo nos tenta seduzir com o prazer sem limite, com a ânsia do poder, com a ilusão do sucesso, com a ganância do ter, do consumir, do supérfluo... Como ser felizes, meus caros, vivendo na superficialidade? Como encontrar a vida verdadeira, colocando o afeto em bobagens? Como ser livres de verdade sendo escravos de tantas trivialidades? Vede que o Senhor nos indica um caminho não fácil, não comum, trivial, óbvio... Ele nos indica o seu caminho, o único que conduz à vida! E nos promete seu socorro, sua ajuda, como diz a segunda leitura de hoje: Ele é “capaz de s e compadecer de nossas fraquezas”, nele podemos conseguir misericórdia e alcançar um auxílio no momento oportuno...
Coloquemos nossa esperança em Jesus, agarremo-nos a ele, agasalhemo-nos no seu coração pela oração, a escuta da sua Palavra, a contemplação da sua adorável pessoa, a participação nos seus sacramentos! Deixemos de lado a preguiça, a descrença, a pasmaceira espiritual e corramos com ânimo e alegria seguindo o Senhor! E que ele nos faça sentir, desde agora, a felicidade de viver o seu amor e fazer da vida um cântico de amor a ele, que é bendito pelos séculos dos séculos.
dom Henrique Soares da Costa



A liturgia do 29º domingo do tempo comum lembra-nos, mais uma vez, que a lógica de Deus é diferente da lógica do mundo. Convida-nos a prescindir dos nossos projetos pessoais de poder e de grandeza e a fazer da nossa vida um serviço aos irmãos. É no amor e na entrega de quem serve humildemente os irmãos que Deus oferece aos homens a vida eterna e verdadeira.
A primeira leitura apresenta-nos a figura de um “Servo de Deus”, insignificante e desprezado pelos homens, mas através do qual se revela a vida e a salvação de Deus. Lembra-nos que uma vida vivida na simplicidade, na humildade, no sacrifício, na entrega e no dom de si mesmo não é, aos olhos de Deus, uma vida maldita, perdida, fracassada; mas é uma vida fecunda e plenamente realizada, que trará libertação e esperança ao mundo e aos homens.
No Evangelho, Jesus convida os discípulos a não se deixarem manipular por sonhos pessoais de ambição, de grandeza, de poder e de domínio, mas a fazerem da sua vida um dom de amor e de serviço. Chamados a seguir o Filho do Homem “que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida”, os discípulos devem dar testemunho de uma nova ordem e propor, com o seu exemplo, um mundo livre do poder que escraviza.
Na segunda leitura, o autor da Carta aos Hebreus fala-nos de um Deus que ama o homem com um amor sem limites e que, por isso, está disposto a assumir a fragilidade dos homens, a descer ao seu nível, a partilhar a sua condição. Ele não Se esconde atrás do seu poder e da sua onipotência, mas aceita descer ao encontro homens para lhes oferecer o seu amor.
1º leitura: Is. 53,10-11 - Ambiente
O nosso texto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is. 40-55). “Deutero-Isaías” é um nome convencional com que os biblistas designam um profeta anônimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética na Babilônia, entre os exilados judeus. Estamos na fase final do Exílio, entre 550 e 539 a.C.
A missão do Deutero-Isaías é consolar os exilados judeus. Nesse sentido, ele começa por anunciar a iminência da libertação e por comparar a saída da Babilônia ao antigo êxodo, quando Deus libertou o seu Povo da escravidão do Egito (cf. Is. 40-48); depois, anuncia a reconstrução de Jerusalém, essa cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz sem fim (cf. Is. 49-55).
No meio desta proposta “consoladora” aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is. 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que falam de uma personagem misteriosa e enigmática, que os biblistas designam como o “Servo de Jahwéh”: ele é um predileto de Jahwéh, a quem Deus chamou, a quem confiou uma missão profética e a quem enviou aos homens de todo o mundo; a sua missão cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra; o sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo; Deus aprecia o sacrifício deste “Servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.
Quem é este profeta? É Jeremias, o paradigma do profeta que sofre por causa da Palavra? É o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho da Palavra no ambiente hostil do Exílio? É um profeta desconhecido? É uma figura coletiva, que representa o Povo exilado, humilhado, esmagado, mas que continua a dar testemunho de Deus no meio das outras nações? É uma figura representativa, que une a recordação de personagens históricas (patriarcas, Moisés, David, profetas) com figuras míticas, de forma a representar o Povo de Deus na sua totalidade? Não sabemos; no entanto, a figura apresentada nesses poemas vai receber uma outra iluminação à luz de Jesus Cristo, da sua vida, do seu destino.
O texto que nos é proposto é parte do quarto cântico do “servo de Jahwéh”. Nele, porém, o “Servo” não fala; quem proclama este “cântico” parece ser um coro, que percebeu, no aparente sem sentido da vida do “Servo”, um profundo significado à luz da lógica de Deus.
Mensagem
A primeira parte do nosso texto (vs. 2-3) apresenta-nos o “Servo de Jahwéh”. Não se diz quem é ele, quais são os seus pais, qual é a sua terra. É uma figura anônima, sem história, obscura, ignorada, insignificante à luz dos critérios humanos. Recorrendo à imagem vegetal, o profeta compara-o a uma raiz crescida no deserto, marcada pela aridez do ambiente circundante, sem beleza e sem características que atraiam o olhar ou a atenção dos homens (v. 2). Mais: é uma figura desprezada e abandonada pelos homens, que vêem o seu sofrimento como um castigo de Deus e que tapam o rosto diante dele para não se contaminarem (vers. 3). Numa época em que o sofrimento é sempre visto como castigo pelo pecado, o notório sofrimento desse “Servo” devia aparecer, aos olhos dos seus concidadãos, como o castigo de Deus para faltas particularmente graves…
À luz dos critérios de avaliação usados pelos homens, o “Servo” é um fracassado, um vencido, um ser trágico, abandonado por Deus e desprezado pelos homens. Seguramente, ele nunca será contado entre os grandes, os vencedores, aqueles que têm um papel preponderante na construção do mundo e da história.
À luz da lógica de Deus, porém, a existência do “Servo” não é uma existência insignificante, perdida, sem sentido… O sofrimento que o atingiu ao longo de toda a existência não é num castigo de Deus por causa dos seus pecados pessoais, mas um sacrifício de reparação que justificará os pecados de muitos. A palavra “reparação” aqui utilizada pelo Deutero-Isaías é um termo cúltico por excelência. Refere-se a um ritual sacrificial através do qual o crente vétero-testamentário oferecia um animal em sacrifício e, por essa oferta, alcançava de Deus o perdão para os seus pecados. Ao dizer que o sofrimento do “Servo” é um sacrifício de reparação, o profeta está a dizer que esse sofrimento não é, nem um castigo, nem uma inutilidade; mas é um sofrimento que servirá para eliminar o pecado e para gerar vida nova para toda a comunidade do Povo de Deus (os muitos de que fala o texto). Ao abençoar o seu “Servo”, ao dar-lhe “uma posteridade duradoura”, uma “vida longa” (v. 10) e a possibilidade de “ver a luz” (v. 11), Deus garante a verdade e a autenticidade da vida do “Servo”.
Dito por outras palavras: o autor deste texto está convencido de que uma vida vivida na simplicidade, na humildade, no sacrifício, na entrega e no dom de si mesmo não é, aos olhos de Deus, uma vida maldita, perdida, fracassada; mas é uma vida fecunda e plenamente realizada, que trará libertação, verdade, esperança e amor ao mundo e aos homens.
Os primeiros cristãos, impressionados pela beleza e pela profundidade deste texto, utilizaram-no frequentemente para procurar compreender a figura de Jesus, que “morreu pela salvação do povo”. Em Jesus, esta enigmática figura do “Servo de Jahwéh” alcançou o seu pleno significado.
Atualização
•O nosso texto mostra, uma vez mais, como os valores de Deus e os valores dos homens são diferentes. Na lógica dos homens, os vencedores são aqueles que tomam o mundo de assalto com o seu poder, com o seu dinheiro, com a sua ânsia de triunfo e de domínio, com a sua capacidade de impor as suas idéias ou a sua visão do mundo; são aqueles impressionam pela forma como vestem, pela sua beleza, pela sua inteligência, pelas suas brilhantes qualidades humanas… Na lógica de Deus, os vencedores são aqueles que, embora vivendo no esquecimento, na humildade, na simplicidade, sabem fazer da própria vida um dom de amor aos irmãos; são aqueles que, com as suas atitudes de serviço e de entrega, trazem ao mundo uma mais valia de vida, de libertação e de esperança. Qual destes dois modelos faz mais sentido para mim? Quando, no dia a dia, tenho de estabelecer as minhas prioridades e de fazer as minhas escolhas, deixo-me conduzir pela lógica de Deus ou pela lógica dos homens? Quem são as pessoas que eu admiro, que eu tenho como modelos, que me impressionam?
• Onde está Deus? Onde podemos encontrar o seu rosto, as suas propostas, os seus apelos e desafios? Apresentando-nos a figura desse “Servo” insignificante e desprezado pelos homens, mas através do qual se revela a vida e a salvação de Deus, o nosso texto lembra-nos que Deus, seguindo a sua lógica muito própria vem, tantas vezes, ao nosso encontro na pobreza, na pequenez, na simplicidade, na fragilidade, na debilidade… Conscientes desta realidade, poderemos perceber a presença de Deus a nosso lado nos pequenos gestos que todos os dias testemunhamos e que nos dão esperança, nas coisas simples e banais que nos enchem o coração de paz, nas pessoas humildes que o mundo despreza e marginaliza, mas que são capazes de gestos impressionantes de serviço, de partilha, de doação, de entrega… Não nos deixemos enganar: Deus não está naquilo que é brilhante, sedutor, majestoso, espampanante; Deus está na simplicidade do amor que se faz dom, serviço, entrega humilde aos irmãos.
• Qual o sentido do sofrimento? Porque é que há tantas pessoas boas, honestas, justas, generosas, que atravessam a vida mergulhadas na dor e no sofrimento? Trata-se de uma pergunta que fazemos frequentemente e que o autor do quarto cântico do “Servo” também punha a si próprio. A resposta que ele encontra é a seguinte: o sofrimento do justo não se perde; através dele, os pecados da comunidade são expiados e Deus dará vida e salvação ao seu Povo. Trata-se, sem dúvida, de uma resposta incompleta, parcial, não totalmente satisfatória; mas encontra-se já nesta resposta a convicção de que, nos misteriosos caminhos de Deus, o sofrimento pode ser uma dinâmica geradora de vida nova. Jesus Cristo demonstrará, com a sua paixão, morte e ressurreição, a verdade desta afirmação.
2º leitura: Hb. 4,14-16 - Ambiente
Já vimos, nos domingos precedentes, que a Carta aos Hebreus se destina a comunidades cristãs em situação difícil, expostas a tribulações várias e que, por isso mesmo, estão fragilizadas, cansadas e desalentadas. Os crentes que compõem essas comunidades necessitam urgentemente de redescobrir o seu entusiasmo inicial, de revitalizar o seu compromisso com Cristo e de apostar numa fé mais coerente e mais empenhada.
Nesse sentido, o autor da “carta” apresenta-lhes o mistério de Cristo, o sacerdote por excelência, cuja missão é pôr os crentes em relação com o Pai e inseri-los nesse Povo sacerdotal que é a comunidade cristã. Uma vez comprometidos com Cristo, os crentes devem fazer da sua vida um contínuo sacrifício de louvor, de entrega e de amor. Desta forma, o autor oferece aos cristãos um aprofundamento e uma ampliação da fé primitiva, capaz de revitalizar a sua experiência de fé, enfraquecida pela hostilidade do ambiente, pela acomodação, pela monotonia e pelo arrefecimento do entusiasmo inicial.
O texto que nos é proposto está incluído na segunda parte da Carta aos Hebreus (cf. Heb. 3,1-5,10). Aí, o autor apresenta Jesus como o sacerdote fiel e misericordioso que o Pai enviou ao mundo para mudar os corações dos homens e para os aproximar de Deus. Aos crentes pede-se que “acreditem” em Jesus – isto é, que escutem atentamente as propostas que Cristo veio fazer, que as acolham no coração e que as transformem em gestos concretos de vida.
Mensagem
Jesus é, para todos os crentes, o grande sumo-sacerdote que “atravessou os céus” para alcançar misericórdia para todos os crentes (v. 14). A expressão “atravessou os céus” refere-se, naturalmente, à realidade da encarnação: Jesus, o Filho de Deus, veio ao encontro dos homens como sumo-sacerdote, a fim de eliminar o pecado que impedia a comunhão entre os homens e Deus e levar os homens ao encontro de Deus. Aqui evoca-se o esforço de Deus, através do seu Filho, no sentido de refazer uma comunidade de vida com os homens e de os reconduzir ao encontro da vida eterna e verdadeira.
Diante dessa ação incrível de Deus, fruto do seu amor pelo homem, os crentes devem responder com a fé – isto é, com a aceitação incondicional da proposta de Jesus (“conservemos firme a fé que professamos”). Aderir à proposta de Jesus é reentrar na comunhão com Deus, assumir-se como família de Deus, receber de Deus vida em abundância.
Apesar de ser Filho de Deus, Jesus, o sumo-sacerdote, não é, no entanto, um ser celestial estranho, incapaz de perceber os crentes na sua dramática luta de todos os dias, na sua fragilidade face à perseguição, na sua dificuldade em vencer o confronto com o egoísmo, a acomodação, a preguiça, a monotonia… Ele próprio foi submetido à mesma prova, conheceu a mordedura das mesmas tentações, experimentou as mesmas dificuldades. No entanto, Ele soube sempre manter-Se fiel a Deus e aos seus projetos, mostrando-nos que também nós podemos viver na fidelidade a Deus e às suas propostas (vers. 15).
Nós, os seguidores de Jesus, não estamos numa situação desesperada, apesar das nossas falhas e incoerências. Podemos e devemos aceitar a proposta de Jesus e dirigir-nos a Deus, na certeza de que seremos acolhidos por Ele como filhos muito amados. Graças a Jesus, o sumo-sacerdote que veio ao nosso encontro, que experimentou e entendeu a nossa fragilidade, que restabeleceu a comunhão entre nós e Deus, que nos leva ao encontro de Deus e que nos garante a sua misericórdia, estamos agora numa nova situação de graça e de liberdade. Podemos, com tranquilidade e confiança, sem qualquer medo, aproximar-nos desse “trono da graça” de onde brota a vida eterna e verdadeira. Esta certeza deve ajudar-nos e dar-nos esperança nos momentos mais dramáticos da nossa caminhada pela história (vers. 16).
Atualização
• Em total consonância com as outras leituras deste domingo, o autor da Carta aos Hebreus fala-nos de um Deus que ama o homem com um amor sem limites e que, por isso, está disposto a assumir a fragilidade dos homens, a descer ao seu nível, a partilhar a sua condição. Ele não se esconde atrás do seu poder, da sua autoridade, da sua importância, da sua onipotência; Ele não tem medo de perder a sua dignidade ou as suas prerrogativas divinas quando assume a pobreza, a fragilidade, a debilidade dos homens… Na lógica de Deus, o que é mais importante não é aquele que protege a sua autoridade e a sua importância através de barreiras intransponíveis, mas é aquele que é capaz de descer ao encontro dos últimos, dos desclassificados, dos marginalizados, dos sofredores, para lhes oferecer o seu amor. É esta a lógica de Deus – lógica que somos chamados a compreender, a assumir e a testemunhar.
• Os seguidores de Cristo são, naturalmente, convidados, a assumir o seu exemplo… Assim como Cristo, por amor, vestiu a nossa fragilidade e veio ao nosso encontro, também nós devemos – despindo-nos do nosso egoísmo, da nossa acomodação, da nossa preguiça, da nossa indiferença – ir ao encontro dos nossos irmãos, vestir as suas dores e fragilidades, fazer-nos solidários com eles, partilhar os seus dramas, lágrimas, sofrimentos, alegrias e esperanças. Não podemos, do alto da nossa situação cômoda, limpa, arrumada, decidir que não temos nada a ver com o sofrimento do mundo ou com a carência que aflige a vida de um nosso irmão. Somos sempre responsáveis pelos irmãos que conosco partilham os caminhos deste mundo, mesmo quando não os conhecemos pessoalmente ou mesmo que deles estejamos separados por fronteiras geográficas, históricas, étnicas ou outras.
• Ao assegurar-nos que nada temos a temer pois Deus ama-nos, quer integrar-nos na sua família e oferecer-nos vida em abundância, o nosso texto convida-nos a encarar a vida e os seus caminhos com serenidade e confiança. Os cristãos são pessoas serenas e com o coração em paz. Estão conscientes de que as suas fragilidades e debilidades não os afastam, nunca, de Deus e do seu amor.
Evangelho: Mc. 10,35-45 - Ambiente
Continuamos a percorrer, com Jesus e com os discípulos, o caminho para Jerusalém. Marcos observa que, nesta fase, Jesus vai à frente e os discípulos seguem-n’O “cheios de temor” (cf. Mc. 10,32). Haverá aqui alguma má vontade dos discípulos, por causa das últimas polemicas e das exigências radicais de Jesus? Este “temor” resultará do fato de Jesus se aproximar do seu destino final, em Jerusalém, destino que o grupo não aprova? Seja como for, Jesus continua a sua catequese e, mais uma vez (é a terceira, no curto espaço de poucos dias), lembra aos discípulos que, em Jerusalém, vai ser entregue nas mãos dos líderes judaicos e vai cumprir o seu destino de cruz (cf. Mc. 10,33-34). Desta vez, não há qualquer reação dos discípulos.
Já observamos, no passado domingo, que o caminho percorrido por Jesus e pelos discípulos é, além de um caminho geográfico, também um caminho espiritual. Durante esse caminho, Jesus vai completando a sua catequese aos discípulos sobre as exigências do Reino e as condições para integrar a comunidade messiânica. A resposta dos discípulos às propostas que Jesus lhes vai fazendo nunca é demasiado entusiasta.
O texto que nos é proposto desta vez demonstra que os discípulos continuam sem perceber – ou sem querer perceber – a lógica do Reino. Eles ainda continuam a raciocinar em termos de poder, de autoridade, de grandeza e vêem na proposta do Reino apenas uma oportunidade de realizar os seus sonhos humanos.
Mensagem
Na primeira parte do nosso texto (vs. 35-40), apresenta-se a pretensão de Tiago e de João, os filhos de Zebedeu, no sentido de se sentarem, no Reino que vai ser instaurado, “um à direita e outro à esquerda” de Jesus. A questão nem sequer é apresentada como um pedido respeitoso; mas parece mais uma reivindicação de quem se sente com direito inquestionável a um privilégio. Certamente Tiago e João imaginam o Reino que Jesus veio propor de acordo com Dn. 7,13-14 e querem assegurar nesse Reino poderoso e glorioso, desde logo, lugares de honra ao lado de Jesus. O fato mostra como Tiago e João, mesmo depois de toda a catequese que receberam durante o caminho para Jerusalém, ainda não entenderam nada da lógica do Reino e ainda continuam a refletir e a sentir de acordo com a lógica do mundo. Para eles, o que é importante é a realização dos seus sonhos pessoais de autoridade, de poder e de grandeza.
Uma vez mais Jesus vê-se obrigado a esclarecer as coisas. Em primeiro lugar, Jesus avisa os discípulos de que, para se sentarem à mesa do Reino, devem estar dispostos a “beber o cálice” que Ele vai beber e a “receber o batismo” que Ele vai receber. O “cálice” indica, no contexto bíblico, o destino de uma pessoa; ora, “beber o mesmo cálice” de Jesus significa partilhar esse destino de entrega e de dom da vida que Jesus vai cumprir. O “receber o mesmo batismo” evoca a participação e imersão na paixão e morte de Jesus (cf. Rm. 6,3-4; Cl. 2,12). Para fazer parte da comunidade do Reino é preciso, portanto, que os discípulos estejam dispostos a percorrer, com Jesus, o caminho do sofrimento, da entrega, do dom da vida até à morte. Apesar de Tiago e João manifestarem, com toda a sinceridade, a sua disponibilidade para percorrer o caminho do dom da vida, Jesus não lhes garante uma resposta positiva à sua pretensão… Jesus evita associar o cumprimento da missão e a recompensa, pois o discípulo não pode seguir determinado caminho ou embarcar em determinado projeto por cálculo ou por interesse; de acordo com a lógica do Reino, o discípulo é chamado a seguir Jesus com total gratuidade, sem esperar nada em troca, acolhendo sempre como graças não merecidas os dons de Deus.
Na segunda parte do nosso texto (vs. 41-45), temos a reação dos discípulos à pretensão dos dois irmãos e uma catequese de Jesus sobre o serviço.
A reação indignada dos outros discípulos ao pedido de Tiago e de João indica que todos eles tinham as mesmas pretensões. O pedido de Tiago e de João a Jesus aparece-lhes, portanto, como uma “jogada de antecipação” que ameaça as secretas ambições que todos eles guardavam no coração.
Jesus aproveita a circunstância para reiterar o seu ensinamento e para reafirmar a lógica do Reino. Começa por recordar-lhes o modelo dos “governantes das nações” e dos grandes do mundo (v. 42): eles afirmam a sua autoridade absoluta, dominam os povos pela força e submetem-nos, exigem honras, privilégios e títulos, promovem-se à custa da comunidade, exercem o poder de uma forma arbitrária… Ora, este esquema não pode servir de modelo para a comunidade do Reino. A comunidade do Reino assenta sobre a lei do amor e do serviço. Os seus membros devem sentir-se “servos” dos irmãos, apostados em servir com humildade e simplicidade, sem qualquer pretensão de mandar ou de dominar. Mesmo aqueles que são designados para presidir à comunidade devem exercer a sua autoridade num verdadeiro espírito de serviço, sentindo-se servos de todos. Excluindo do seu universo qualquer ambição de poder e de domínio, os membros da comunidade do Reino darão testemunho de um mundo novo, regido por novos valores; e ensinarão os homens que com eles se cruzarem nos caminhos da vida a serem verdadeiramente livres e felizes.
Como modelo desta nova atitude, Jesus propõe-Se a Si próprio: Ele apresenta-Se como “o Filho do Homem que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos” (v. 45). De fato, toda a vida de Jesus pode ser entendida em chave de amor e serviço. Desde o primeiro instante da encarnação, até ao último momento da sua caminhada nesta terra, Ele pôs-se ao serviço do projeto do Pai e fez da sua vida um dom de amor aos homens. Ele nunca Se deixou seduzir por projetos pessoais de ambição, de poder, de domínio; mas apenas quis entregar toda a sua vida ao serviço dos homens, a fim de que os homens pudessem encontrar a vida plena e verdadeira.
O fruto da entrega de Jesus é o “resgate” (“lytron”) da humanidade. A palavra aqui usada indica o “preço” pago para resgatar um escravo ou um prisioneiro. Atendendo ao contexto, devemos pensar que o resgate diz respeito à situação de escravidão e de opressão a que a humanidade está submetida. Ao dar a sua vida (até à última gota de sangue) para propor um mundo livre da ambição, do egoísmo, do poder que escraviza, Jesus pagou o “preço” da nossa libertação. Com Ele e por Ele nasce, portanto, uma comunidade de “servos”, que são testemunhas no mundo de uma ordem nova – a ordem do Reino.
Atualização
• No centro deste episódio está Jesus e o modelo que Ele propõe, com o exemplo da sua vida. A frase “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos” (Mc. 10,45) resume admiravelmente a existência humana de Jesus… Desde o primeiro instante, Ele recusou as tentações da ambição, do poder, da grandeza, dos aplausos das multidões; desde o primeiro instante, Ele fez da sua vida um serviço aos pobres, aos desclassificados, aos pecadores, aos marginalizados, aos últimos. O ponto culminante dessa vida de doação e de serviço foi a morte na cruz – expressão máxima e total do seu amor aos homens. É preciso que tenhamos a consciência de que este valor do serviço não é um elemento acidental ou acessório, mas um elemento essencial na vida e na proposta de Jesus… Ele veio ao mundo para servir e colocou o serviço simples e humilde no centro da sua vida e do seu projeto. Trata-se de algo que não pode ser ignorado e que tem de estar no centro da experiência cristã. Nós, seguidores de Jesus, devemos estar plenamente conscientes desta realidade.
• O episódio que nos é hoje proposto como Evangelho mostra, contudo, a dificuldade que os discípulos têm em entender e acolher a proposta de Jesus. Para Tiago, para João e para os outros discípulos, o que parece contar é a satisfação dos próprios sonhos pessoais de grandeza, de ambição, de poder, de domínio. Não os preocupa fazer da vida um serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos; preocupa-os ocupar os primeiros lugares, os lugares de honra… Jesus, de forma simples e direta, avisa-os de que a comunidade do Reino não pode funcionar segundo os modelos do mundo. Aqui não há meio-termo: quem não for capaz de renunciar aos esquemas de egoísmo, de ambição, de domínio, para fazer da própria vida um serviço e um dom de amor, não pode ser discípulo desse Jesus que veio para servir e para dar a vida.
• Ao apresentar as coisas desta forma, o nosso texto convida-nos a repensar a nossa forma de nos situarmos, quer na família, quer na escola, quer no trabalho, quer na sociedade. A instrução de Jesus aos discípulos que o Evangelho deste domingo nos apresenta é uma denúncia dos jogos de poder, das tentativas de domínio sobre aqueles que vivem e caminham a nosso lado, dos sonhos de grandeza, das manobras patéticas para conquistar honras e privilégios, da ânsia de protagonismo, da busca desenfreada de títulos, da caça às posições de prestígio… O cristão tem, absolutamente, de dar testemunho de uma ordem nova no seu espaço familiar, colocando-se numa atitude de serviço e não numa atitude de imposição e de exigência; o cristão tem de dar testemunho de uma nova ordem no seu espaço laboral, evitando qualquer atitude de injustiça ou de prepotência sobre aqueles que dirige e coordena; o cristão tem sempre de encarar a autoridade que lhe é confiada como um serviço, cumprido na busca atenta e coerente do bem comum…
• Na comunidade cristã encontramos também, com muita frequência, a tentação de nos organizarmos de acordo com princípios de poder, de autoridade, de predomínio, à boa maneira do mundo. Sabemos, pela história, que sempre que a Igreja tentou esses caminhos, afastou-se da sua missão, deu um testemunho pouco credível e tornou-se escândalo para tantos homens e mulheres bem intencionados… Por outro lado, testemunhamos todos os dias, nas nossas comunidades cristãs, como os comportamentos prepotentes criam divisões, rancores, invejas, afastamentos… Que não restem dúvidas: a autoridade que não é amor e serviço é incompatível com a dinâmica do Reino. Nós, os seguidores de Jesus, não podemos, de forma alguma, pactuar com a lógica do mundo; e uma Igreja que se organiza e estrutura tendo em conta os esquemas do mundo não é a Igreja de Jesus.
• Na nossa sociedade, os primeiros são os que têm dinheiro, os que têm poder, os que frequentam as festas badaladas nas revistas da sociedade, os que vestem segundo as exigências da moda, os que têm sucesso profissional, os que sabem colar-se aos valores politicamente corretos… E na comunidade cristã? Quem são os primeiros? As palavras de Jesus não deixam qualquer dúvida: “quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos”. Na comunidade cristã, a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço aos irmãos. Na comunidade cristã não há donos, nem grupos privilegiados, nem pessoas mais importantes do que as outras, nem distinções baseadas no dinheiro, na beleza, na cultura, na posição social… Na comunidade cristã há irmãos iguais, a quem a comunidade confia serviços diversos em vista do bem de todos. Aquilo que nos deve mover é a vontade de servir, de partilhar com os irmãos os dons que Deus nos concedeu.
• A atitude de serviço que Jesus pede aos seus discípulos deve manifestar-se, de forma especial, no acolhimento dos pobres, dos débeis, dos humildes, dos marginalizados, dos sem direitos, daqueles que não nos trazem o reconhecimento público, daqueles que não podem retribuir-nos… Seremos capazes de acolher e de amar os que levam uma vida pouco exemplar, os marginalizados, os estrangeiros, os doentes incuráveis, os idosos, os difíceis, os que ninguém quer e ninguém ama?

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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