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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

TODOS OS SANTOS-Ano C


TODOS OS SANTOS - SOLENIDADE

1 de Novembro de 2015
Ano  B

Evangelho - Mt 5,1-12ª


Caríssimos. Hoje é dia de todos os santos. Todos, mesmo. Não só os santos da Igreja, mas também os santos de igrejas outras, os santos sem igrejas... Continua
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"ALEGRAI-VOS E EXULTAI, PORQUE SERÁ GRANDE A VOSSA RECOMPENSA NO CÉU.” – Olivia Coutinho

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS.

Dia 1º de Novembro de 2015

Evangelho de Mt 5,1-12a

Na festa de todos os Santos, somos convidados a erguer o nosso olhar para o alto e contemplar uma multidão de Santos que deixaram marcas profundas do seu amor a Deus aqui na terra e que agora participam da Sua glória no céu!
Jesus nos convida a ser santo, a darmos um sentido novo a nossa existência, uma única e fundamental direção  idêntica para todos: a santidade como meta para chegarmos à vida eterna! Para isso, precisamos sair do círculo vicioso do egoísmo, sair do nosso eu, deixando de projetar a nossa vida em nós mesmos, para nos envolver no projeto de Deus, que tem como referencia unicamente Jesus! 
É sonho de Deus que todos nós sejamos felizes e ser feliz, é também o que mais almejamos na vida, pena que muitos de nós, busca a felicidade fora dos planos de Deus. Falta-nos compreender, que a felicidade não é algo comprável, que ela  não está nas coisas matérias e nem significa ausência de dificuldades!
No evangelho de hoje, Jesus faz uma consolação a todos aqueles que caminham na contramão  do mundo!
As bem aventuranças, não são mandamentos, podemos dizer que elas  são caminhos de santidade, um abandonar-se em Deus, um não estar preso as coisas do mundo!
O conceito de felicidade que o mundo prega, é completamente diferente da felicidade que Deus planejou para  nós. Jesus nos deixa claro que para sermos felizes, precisamos experimentar a dependência de Deus e assim Ele proclama: “Bem aventurados os pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça os misericordiosos, os puros de coração os perseguidos e injuriados por causa do reino”! Estes, são felizes, por que se colocam na dependência de Deus!
Ao esvaziarmos de nós mesmos, tornamos pobres, totalmente dependentes de Deus e tudo que mais queremos, é fazer a sua vontade, as dificuldades, as perseguições, ao invés de nos aborrecer, nos alegram, pois sabemos que toda situação que nos leva ao sofrimento, Deus transforma em  bem para nós!
Ser perseguido, odiado, injuriados, são situações que não agradam a Deus, mas para quem é submetido a esta situação e mesmo assim permanece firme no propósito de realizar a vontade de Deus, toda  situação adversa, Deus reverte em bem para ele!

Alegremo-nos por confiar na realização das promessas de Deus,  o próprio Jesus nos garante: “Alegrai-vos e exultai, pois será grande a vossa recompensa no céu”.
Assim como foram os Santos, sejamos também fieis ao Evangelho sem medo de ser de Deus, de dar testemunho de Jesus em qualquer circunstância!
Ser Santo é o grande desafio de buscar a perfeição em meio às imperfeições do mundo, sem esquecer: o mais Santo de todos os Santos da terra, será sempre um pecador perdoado. 
Ninguém busca o sofrimento, mas ele é inevitável em nossa vida, saber aproveitá-lo como trampolim para a nossa ascensão, é estar no caminho da Santidade!
FIQUE NA PAZ DE JESUS – Olívia Coutinho
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Bem-aventurados vós, pobres. Mas, ai de vós, ricos-Padre Antonio Queiroz


 Evangelho - Lc 6,20-26

Neste Evangelho, Jesus proclama as bem-aventuranças, na versão de Lucas. Primeiro ele “levantando os olhos para os seus discípulos”. Sinal que as bem-aventuranças acontecem especialmente com os discípulos.
As bem-aventuranças são Evangelho, alegre notícia dirigida aos pobres de Deus. Elas vêm confirmar a transformação social anunciada no magnificat.
De fato, os pobres são os preferidos de Deus em toda a revelação bíblica, e são os primeiros destinatários da Boa Nova trazida por Jesus (Cf Lc 4,18-19).
Mt 5,1-12 traz oito bem-aventuranças. Lucas traz apenas quatro, mas acrescenta quatro ameaças: “Ai de vós...” Essas ameaças esclarecem o sentido das bem-aventuranças, tanto de Mateus como de Lucas. Porque muitos, ao explicar esta passagem bíblica, dizem que a palavra “pobre”, para Jesus, significa “desapegado”; e “rico” significa “ganancioso”. Na prática, isso é torcer a Bíblia para que ela não me questione. Pobre aqui é pobre mesmo, e rico e rico mesmo.
A felicidade messiânica dos pobres, dos famintos, dos que choram e dos perseguidos por causa da fé cristã comprometida, contrapõe-se à situação perigosa dos ricos, dos que têm fartura, dos que riem e dos que são aplaudidos por todos.
As Bem-aventuranças são um caminho de felicidade diametralmente oposto ao apresentado pelo mundo pecador. Os cristãos são felizes exatamente naquelas situações que, segundo o mundo, trazem a infelicidade. Veja o contraste: para o cristão, felizes os pobres; para o mundo, felizes os ricos. Para o cristão, felizes os que agora choram; para o mundo, felizes os que agora riem... Por aí vemos que dois milênios se passaram e a humanidade ainda não entendeu nem vive o Evangelho de Jesus.
As Bem-aventuranças estão baseadas em duas grandes verdades: 1) A vida cristã autêntica, devido à oposição do mundo pecador, leva à pobreza, à aflição etc. 2) Deus assiste os seus filhos e filhas queridos, a ponto de inverter a situação, transformando em felicidade o que seria infelicidade, em alegria o que seria tristeza. Portanto, a felicidade dos cristãos não está nesses tropeços (pobreza, perseguição...), mas na intervenção de Deus em favor dos seus filhos queridos.
“Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos. Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai” (1Jo 3,1-3).
(Irmãos), os que tiram proveito deste mundo, (vivam) como se não aproveitassem. Pois a figura deste mundo passa” (1Cor 7,31).
Ao contrário dos dez mandamentos, as bem-aventuranças não são leis, nem mandamentos, nem sequer conselhos. São simplesmente a constatação e a descrição de um fato que acontece todos os dias em nossas Comunidades e em nossas famílias. A vida cristã no meio do mundo pecador gera tristezas, que Deus, em seu poder, transforma em alegrias.
Jesus não está também dizendo que ser pobre e ser odiado é bom. Nem que esses tropeços da nossa vida são valores. Também não quis dizer que a felicidade está em ser pobre, ser insultado etc. A felicidade está em ser filho de Deus.
Portanto, não devemos procurar esses infortúnios (pobreza, ser odiado, insultado...). O que devemos é ter paz em meio a todos esses contra tempos, vendo neles um sinal de predileção de Deus e um sinal de que estamos no caminho certo, no seguimento do Evangelho.
As Bem-aventuranças são uma realidade que vemos todos os dias estampada no rosto das Comunidades cristãs. Os cristãos enfrentam as maiores dificuldades, até o martírio e, em meio a tudo isso, trazem no rosto um sorriso que ninguém consegue imitar, e que é identificado até numa fotografia.
S. Francisco de Assis, no final de sua vida, vivia angustiado com a seguinte pergunta: “Será que Deus está contente comigo, com o que eu fiz?” Em suas orações ele pedia todos os dias a Deus: “Senhor, dê-me um sinal, mostrando se tudo o que eu fiz foi ou não do seu agrado!” De fato, o único desejo de Francisco era agradar a Deus.
Numa noite, quando ele acordou, percebeu que estava com as chagas. Parou a angústia, porque ele viu nas chagas um sinal de amor de Deus por ele, unindo-o com o seu Filho amado, Jesus Cristo. E daí para frente Francisco ria até às orelhas.
E foram cinco feridas dolorosas: uma em cada mão, uma em cada pé, e uma no peito. Elas deram trabalho para Francisco. Ele tinha de fazer curativos e um longo tratamento. Inclusive, elas limitaram um pouco as suas atividades.
Que paradoxo, não? Ver como presente de Deus e como sinal do seu amor, cinco dolorosas feridas! Encontrar a felicidade em chagas! E isso que Deus fez com Francisco, faz também conosco. Nós não procuramos a cruz, mas, quando ela vem, justamente pelo fato de estarmos seguindo a Jesus, nós a vemos como um presente de Deus. A festa de S. Francisco das Chagas é dia dezessete de setembro. “Bem-aventurados vós que agora chorais, porque havereis de rir!”
Existe uma Bem-aventurança que não está, nem neste texto de Lucas nem no capítulo quinto de Mateus. Ela está em Lc 1,45, foi dita por Isabel e se refere à Mãe de Jesus: “Bem-aventurada aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido”. Que Maria nos ensine a amar e viver as Bem-aventuranças.
Bem-aventurados vós, pobres. Mas, ai de vós, ricos.


A felicidade dos pobres (Mt. 5,1-12a)
As bem-aventuranças marcam, no Evangelho de Mateus, o início do Sermão da Montanha (Mt. 5,1-7,28), a nova constituição do povo de Deus.
O v. 1 mostra a quem se destina essa boa notícia: às multidões vindas da Síria, da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e do outro lado do Jordão (cf. 4,24-25). Há gente vinda de todos os lugares. Isso denota que a mensagem de Jesus não tem fronteiras (Mateus pôs, como destinatários das bem-aventuranças, os cristãos das comunidades às quais escreveu seu evangelho). Vendo as multidões, Jesus sobe à montanha, que, simbolicamente, é o lugar de Deus e do encontro com ele. A montanha recorda o Sinai, o monte onde foi selada a aliança com o povo hebreu que saiu da escravidão egípcia. Foi aí que Moisés recebeu as tábuas da Lei (Decálogo), a constituição do povo de Deus.
Jesus, portanto, está para promulgar a nova constituição do povo de Deus, um povo sem fronteiras e sem discriminações; ele vai inaugurar a nova aliança com os pobres e marginalizados do mundo inteiro, revelando que Deus se solidarizou com eles a ponto de confiar-lhes o Reino. O clima dessa nova aliança é o da confiança ilimitada que circula entre Deus e seu povo. De fato, no tempo do deserto, o povo hebreu devia permanecer longe do monte Sinai, sem se aproximar. E Deus falava ao povo por meio de Moisés. Aqui, os discípulos se aproximam do Mestre na montanha, e Deus lhes fala em Jesus – o Emanuel –, que, sentado, ensina como Mestre que tem autoridade.
As bem-aventuranças são propostas de felicidade. A constituição do povo de Deus não impõe leis. Jesus simplesmente constata a situação do povo que o segue (pobres, afligidos, despossuídos [= mansos], famintos); percebe o esforço que fazem para mudar a situação (misericórdia/solidariedade, pureza de coração, promoção da paz); conhece as dificuldades e perseguições que enfrentam para criar a nova sociedade e os proclama felizes, herdeiros do projeto de Deus. A constituição que Jesus promulga no Sermão da Montanha nasce da constatação das lutas do povo sofrido. Deus se solidarizou com ele, confiando-lhe o Reino.
a. A felicidade dos pobres (vv. 3,10)
A primeira bem-aventurança: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino do céu” (v. 3), juntamente com a oitava: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino do céu” (v. 10), são a síntese de todas as bem-aventuranças. As demais (vv. 4 - 9) esclarecem alguns aspectos dessas duas. A primeira e oitava possuem promessa idêntica: “porque deles é o reino do céu”. Não se trata propriamente de uma promessa, mas de constatação do que está acontecendo: o reino do céu já é dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça! Esses dois grupos (pobres em espírito e perseguidos por causa da justiça) constituem, na verdade, um único grupo. As demais bem-aventuranças trazem uma promessa futura: serão consolados, possuirão a terra etc. Contudo, não é para esperar a realização dessa promessa no além. Ela é decorrência da opção que Deus fez pelos pobres e oprimidos, confiando-lhes o Reino, portador da plenitude dos bens: liberdade, vida, fraternidade, partilha, paz. Quando será realizado tudo o que aparece como promessa? Quando a nova prática da justiça fizer germinar e crescer o Reino.
A primeira bem-aventurança proclama felizes os “pobres em espírito”. Frequentemente se tenta pôr panos quentes na força dessa expressão, como se os pobres em espírito fossem pessoas humildes, independentemente de sua condição social. A palavra pobre recorda os ‘anawim do Antigo Testamento, da época de Jesus e das comunidades de Mateus: são os que depositaram sua confiança em Deus enquanto última instância, porque a sociedade lhes negava justiça. São pobres em espírito, ou seja, escolheram a pobreza (cf. 6,24) não porque a miséria os fizesse felizes, mas porque nessa condição participam do projeto de Deus, que é a construção da nova sociedade, baseada na justiça e igualdade. Por isso Jesus afirma que o reino do céu é deles! Deus é o rei dos pobres (poeticamente, R. Tagore afirma que “Deus cada vez mais se cansa dos grandes reinos, porém jamais das pequeninas flores”) e com eles formará o novo povo; sendo pobres, saberão concretizar o Reino na partilha e solidariedade (cf. 14,13 - 23; 15,32-39). O Reino é deles porque, vivendo assim, realizam o pedido de Jesus (cf. 4,17: “Convertam-se, porque o reino do céu está próximo”). A melhor definição dos “pobres em espírito” que descobri é a que foi apresentada por uma mulher do povo: “O pobre em espírito é como o peixe no mar: tem toda a água à sua disposição, mas não a guarda para si; deixa-a para todos os peixes”.
A sociedade estabelecida, ambiciosa de poder, glória e riqueza (cf. 4,9), não suporta uma sociedade alternativa que se forma com base na partilha e comunhão dos bens. Não suportando os pobres que aprenderam a partilha e a promovem como forma de realizar o Reino, persegue-os, procurando eliminá-los (v. 10). Ser perseguido por causa disso constitui desgraça? Não. Para Jesus, e na ótica do Reino, é sinônimo de felicidade, pois a perseguição da sociedade estabelecida mostra que o caminho dos pobres que lutam pela justiça é autêntico: deles é o reino do céu! Contudo, é bom lembrar que não se trata de perseguição por qualquer motivo, mas por causa da justiça do Reino, e esta se traduz na solidariedade, igualdade e fraternidade. Aliás, a justiça é a chave que abre todas as portas do Evangelho de Mateus. Temos, assim, um critério claro para discernir se alguém é ou não pobre em espírito: basta examinar seu compromisso com a justiça do Reino e ver se está sendo, de alguma forma, perseguido por causa dela.
b. A situação dos pobres que buscam a libertação (vv. 4-6)
Os vv. 4-6 descrevem a situação dos pobres que buscam a libertação. Eles são afligidos. Essa bem-aventurança se inspira no Antigo Testamento (cf. Is. 61,1). Lá, os aflitos são pessoas cativas e aprisionadas, vítimas de sociedade cruel e opressora. Afirmando que os aflitos serão consolados, Jesus lhes garante que o Reino tem força e capacidade de libertá-los das opressões a que foram submetidos. E por isso são felizes! Concretamente, nos capítulos 8-9, Mateus mostra como e quando isso acontece: a cura do leproso, do servo do centurião etc.
Os mansos são os que foram subjugados pelos poderosos. Também essa bem-aventurança se inspira no Antigo Testamento, exatamente no Sl. 37,10-11. Afirma-se aí que “mais um pouco e não haverá mais injusto; você buscará o lugar deles, e não existirá. Mas os pobres vão possuir a terra e deleitar-se com paz abundante”. Portanto, os mansos são os que foram “amansados” pelo poder tirano, que os privou da terra, impossibilitando-os até de reivindicar seus direitos (o estudioso Alonso Schökel traduzia “mansos” por “despossuídos”). Olhando para a promessa que lhes é feita, é possível identificá-los com os sem-terra do tempo de Jesus, das comunidades de Mateus e de todos os tempos. Fazendo parte do Reino, eles possuirão a terra (com artigo!), isto é, não só receberão de volta seus terrenos roubados pelos poderosos latifundiários, mas serão senhores do mundo, porque a partilha fará com que os bens da criação sejam de todos. Lida à luz de nossa realidade, essa bem-aventurança soa mais ou menos assim: “Felizes os sem-terra que lutam pela justiça, porque a realeza de Deus sobre eles lhes garante que a terra é de todos”.
Jesus proclama a felicidade dos que lutam pela justiça, dos que dela sentem necessidade como alimento vital e diário (ter fome e sede), porque na utopia do Reino não há um sinal sequer de injustiça.
c. Opções e práxis dos pobres: construir a nova sociedade (vv. 7-9)
Os pobres, que entraram na dinâmica do Reino, são misericordiosos, isto é, solidários. Partilha e comunhão impedem que alguém retenha qualquer coisa para si. Nesse clima de solidariedade, ninguém passa necessidade. Quem dá recebe, não só das pessoas, mas do próprio Deus, que entregou o Reino nas mãos dos que aprenderam a repartir. É a primeira opção dos que entraram na dinâmica do Reino: pôr tudo em comum. E por isso são felizes!
A segunda opção é a pureza de coração. Para os semitas, coração é a sede das opções profundas que marcam a vida inteira. Para eles, pensa-se com o coração (Mt. 15,19 mostra que do coração das pessoas nasce toda espécie de opção que contrasta com o projeto de Deus). Ser puro de coração é ter conduta única, em perfeita sintonia com o Reino. Essa bem-aventurança se inspira no Sl 24,4, em que pureza de coração está associada a “mãos inocentes”. Mãos inocentes são resultado de um “coração puro”: sem violência, sem corrupção, sem exploração etc. Os pobres do Reino são puros de coração porque não se apropriam da vida do próximo, como os poderosos. Sua conduta é íntegra. São felizes porque, agindo assim, veem a Deus, ou seja, experimentam-no concretamente na vida. Deus está presente em todo clamor ou sinal de vida. Quem possui essa “pureza de coração” o vê e o encontra a cada passo.
No Antigo Testamento, a pureza dependia de uma série de ritos mediante os quais as pessoas tinham acesso a Deus, que se manifestava no Templo. Na nova aliança – e na linha do Sl 24 – pureza é sinônimo de opção pela justiça do Reino e respeito pela integridade das pessoas. Deus não se manifesta mais no Templo (quando Mateus escreve o evangelho, o templo de Jerusalém já não existe). As pessoas o experimentam de forma direta no dia a dia e no relacionamento fraterno. Essa opção gera felicidade: felizes os puros de coração!
Jesus proclama felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. A promoção da paz (shalom = plenitude dos bens) é fruto da solidariedade e pureza de coração. Paz é bem-estar que exclui toda injustiça, opressão e violação de direitos. Não se trata de paz em nível pessoal, mas sobretudo em nível social. Na dinâmica do Reino, uma pessoa só é verdadeiramente feliz quando todas o são. A luta pelo bem-estar de todos, como o requer o projeto divino, torna os seres humanos filhos de Deus. Há, portanto, estreita colaboração entre o Criador e as criaturas. O que o Pai faz, os filhos também fazem. Os pobres que optaram pelo Reino são capazes dessa práxis. Jesus garante que disso depende a felicidade deles!
d. A comunidade cristã em meio aos conflitos (vv. 11-12a)
A última bem-aventurança (vv. 11-12) revela as tensões e conflitos enfrentados pelas comunidades migrantes na Síria, no meio das quais nasceu o Evangelho de Mateus. No tempo em que o evangelho foi escrito, essas comunidades passavam por crise de identidade, com perigo de abandono do projeto de Deus. Os conflitos vinham do império romano e do judaísmo oficial, representado pelos doutores da Lei e fariseus: a sociedade estabelecida começou a difamar os cristãos, caluniando-os e perseguindo-os. Tornava-se difícil resistir diante das pressões e tribulações de toda espécie. O evangelho lhes lembra que ser discípulo de Jesus é ser como os profetas do Antigo Testamento: “Desse modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês” (v. 12b).
2º leitura (1Jo 3,1-3)
A esperança que anima e purifica
A primeira carta de João foi “dirigida às comunidades cristãs da Ásia Menor, que passavam por séria crise, provocada por um grupo de dissidentes carismáticos. Estes propunham uma doutrina gnóstica, que afirmava que o homem se salva graças a um conhecimento religioso especial e pessoal. Eles negavam que Jesus era o Messias e se gloriavam de conhecer a Deus, de amá-lo e de estar em íntima comunhão com ele; afirmavam ser iluminados, livres do pecado e da baixeza do mundo: não davam importância ao amor ao próximo e talvez até odiassem e hostilizassem a comunidade… A carta mostra que é vazio e sem valor qualquer espiritualismo que não se traduz em comportamento prático. Não é possível amar a Deus sem amar o próximo e sem formar comunidade: se Deus é Pai, os homens são filhos e família de Deus, e consequentemente todos devem amar-se como irmãos” (Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, Paulus, São Paulo, p. 1.578).
Os versículos escolhidos como segunda leitura deste domingo pertencem a uma seção que vai de 2,29 a 4,6, cujo tema é viver como filhos de Deus. Como realizar isso? Os dissidentes carismáticos afirmavam que era mediante um conhecimento religioso especial e pessoal. O autor da carta prova o contrário: viver como filhos de Deus implica a prática da justiça: “todo aquele que pratica a justiça nasceu de Deus” (2,29). A prática da justiça mostra que Deus é justo e nos torna seus filhos. Portanto, ser filho de Deus é estar em sintonia com o projeto do Pai (cf. evangelho: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”).
O texto salienta que o amor do Pai é a grande força que sustenta a caminhada da comunidade cristã, apoiando e encorajando a luta pela implantação do projeto de Deus. O conflito está bem presente no texto. João o exprime, empregando a expressão “o mundo” (os que não aderiram ao projeto de Deus): o “mundo”, descompromissado com a vontade divina, não reconhece, isto é, hostiliza, calunia, difama e persegue os que desejam implantar na terra a justiça (cf. 3,1). Os cristãos, porém, têm condições de superar as dificuldades e conflitos da caminhada. Sua força está em serem filhos de Deus. Por ora não é possível ver claro o que vamos ser, porque a manifestação de Cristo ainda não é plena. Mas, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque nós o veremos como ele é (3,2).
Enquanto não chega a plena manifestação, cabe à comunidade cristã, na esperança, lutar para ser pura como Jesus é puro (v. 3). Em outras palavras, faz-se necessário resistir e implantar a justiça, de modo que nossa prática traduza as palavras e gestos de Jesus. Ser filhos de Deus, portanto, é ser filhos no Filho, que mostrou ao mundo a justiça do Pai. Essa é a esperança que anima e purifica.
1º leitura (Ap. 7,2-4.9-14)
A vitória dos oprimidos
O capítulo 7 do Apocalipse funciona como uma espécie de pausa para reflexão dentro da “seção dos selos” (6,1-7,17). A seção se caracteriza pela abertura progressiva, por parte do Cordeiro, dos sete selos. Os primeiros quatro (6,1-8) nos apresentam crua fotografia da humanidade arrastada pela ganância, pela violência, pela exploração e pela morte. Diante dessa situação desastrosa, abre-se o quinto selo (vv. 9-12). O clamor dos mártires provoca a reversão dos fatos e a intervenção de Deus e do Cordeiro, pois chegou o grande dia de sua ira: quem poderá ficar de pé? (sexto selo). O capítulo 6 termina com grande expectativa. Quem poderá ser considerado inocente (é este o sentido dessa expressão) diante da intervenção do Deus que julga a humanidade?
O capítulo 7, ao qual pertencem os versículos da leitura de hoje, procura responder a essa expectativa em dois momentos sucessivos. Num primeiro momento, abre-se uma janela em direção ao passado (vv. 4-8). O autor do Apocalipse se inspira no recenseamento dos hebreus saídos do Egito (Nm. 1,20-43) para mostrar que Deus preserva do julgamento (os Anjos que seguram os quatro ventos, 7,1) os que lhe são fiéis (chamados de servos, ou seja, profetas) e os salva (o sinal que os eleitos recebem na fronte é sinônimo de salvação, v. 3; cf. Ez 9,4). Segue-se, então, o recenseamento dos eleitos: 144 mil. O autor, utilizando o simbolismo dos números, mostra que os que lutam e resistem são muitos e formam uma totalidade perfeita (144 mil é o resultado da multiplicação de números perfeitos: 12 x 12 x 1000).
A segunda janela se abre para o presente/futuro da comunidade cristã (vv. 9-17). Se, no passado, Israel foi salvo da escravidão egípcia, com maior razão agora o Cordeiro salvará, conduzirá os que permanecem fiéis, enxugando-lhes as lágrimas (enxugar as lágrimas é sinônimo de “fazer justiça”). Por isso o autor vê uma multidão que ninguém podia contar: gente de todas as nações, tribos, povos e línguas (isto é, do mundo inteiro, v. 9a). É aqui que se responde à pergunta angustiante com que se encerrava o capítulo 6: “Estavam todos de pé diante do trono e do Cordeiro” (v. 9b). E não só podem ficar de pé (isto é, são declarados inocentes), como também participam da própria vida divina: vestem-se de branco (cor que, no Apocalipse, remete à vitória de Cristo sobre a morte) e são vitoriosos (trazem palmas na mão, v. 9c). Essa multidão reconhece que a salvação vem de Deus e do Cordeiro (v. 10) e sua aclamação é seguida pela dos Anjos, Anciãos e Seres vivos, que tributam a Deus tudo o que lhe é devido (v. 12).
A comunidade cristã, na escuta do texto do Apocalipse, em clima de celebração e discernimento, é convidada, na pessoa do autor, a identificar quem são os que estão vestidos de branco e de onde vieram (v. 13). Diante da incapacidade em desvendar o mistério (v. 14a), um dos vinte e quatro Anciãos dá a chave de leitura: “São os que vêm chegando da grande tribulação. Eles lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro” (v. 14b). A partir disso, a comunidade cristã está em condições de descobrir, no meio dessa imensa multidão, seus mártires e santos, que resistiram até o sangue. A memória deles anima a difícil caminhada dos que agora estão lutando para implantar o projeto de Deus na história.
O Apocalipse foi escrito para animar comunidades perseguidas até a morte pela opressão e repressão do império romano. A vitória do Cristo sobre as forças do mal e a memória dos mártires das comunidades devolveram aos cristãos a força própria de sua vocação: a capacidade de denunciar e resistir a todo poder absolutizado que oprime e mata. Os mártires são vitoriosos e estão com Cristo: cabe a nós resistir e lutar.
Pistas para reflexão
A festa de Todos os Santos é momento oportuno para uma revisão da caminhada da comunidade. Olhando para os que nos precederam, santos e mártires, a comunidade é convidada a se questionar sobre seu caminho de santidade. Somos filhos de Deus. Nossa filiação, porém, se traduz na prática da justiça (II leitura). A prática da justiça se traduz na vivência das bem-aventuranças (evangelho). Ao tentar vivê-las, os cristãos deparam com conflitos, calúnias, perseguições e morte patrocinados pela sociedade estabelecida que não aderiu ao projeto de Deus. O que isso significa para nós: desgraça ou felicidade? A memória dos mártires da caminhada é esperança e conforto: Jesus tem a última palavra sobre os conflitos e as forças do mal. Urge à comunidade denunciar e resistir em meio às tribulações (I leitura). Não há outro caminho de santidade!


SEGUNDA HOMILIA

Santidade: o jeito humano de ser
Nascemos de Deus. Fomos criados à sua imagem e semelhança. Deus é bom. Deus é santo. Podemos ser bons e santos, realizando a vontade de Deus. Nosso modelo é Jesus Cristo: ele nos ensinou o caminho. Na proclamação das bem-aventuranças, Jesus indica como viver na santidade: com pobreza, mansidão, justiça, misericórdia, pureza de coração e empenho pela paz (Evangelho). Desde as primeiras comunidades cristãs, temos o exemplo de uma multidão incontável de mulheres e homens que seguiram radicalmente a Jesus Cristo. Muitos foram cruelmente perseguidos e martirizados por causa de sua fidelidade ao evangelho (I leitura). Somos filhos e filhas de Deus. Por isso, o nosso jeito de ser deve estar de acordo com a dignidade conferida pela filiação divina. Podemos viver no mesmo amor com que o Pai nos ama, de modo perseverante, até a plenitude (II leitura). O tempo transitório em que estamos neste mundo é a oportunidade de manifestar a glória de Deus por meio de uma vida santa.
Evangelho (Mt. 5,1-12a)
Quem são os bem-aventurados?
A proclamação das bem-aventuranças, no Evangelho de Mateus, dá a abertura ao “Sermão da Montanha”, no qual Jesus apresenta a nova justiça. Segundo o ensinamento oficial do judaísmo no tempo de Jesus, a justiça baseava-se no cumprimento da Lei. Mateus, que escreve para os cristãos provindos do judaísmo, indica novo caminho: a justiça agora é praticar os ensinamentos de Jesus.
Assim como a lei antiga veio por meio de Moisés no monte Sinai, a nova lei vem por meio de Jesus. Assim como se deu com Moisés, a nova justiça é proclamada por Jesus sobre uma montanha, para os judeus lugar de manifestação da vontade divina. A posição de Jesus (sentado) revela que possui a autoridade de um mestre, conforme o costume entre os rabinos judaicos. É um discurso solene, de importância especial para as comunidades cristãs.
O primeiro aspecto a ser ressaltado é o olhar de Jesus sobre a multidão. É de dentro dela que Jesus vai tirar os princípios que devem orientar os seus seguidores. Não é por acaso que os discípulos se aproximam de Jesus. O sermão dirige-se prioritariamente a eles. As lições são tiradas da Sagrada Escritura e, especialmente, da vida das pessoas do povo. Nela, Jesus encontra os valores que fundamentam o seu evangelho, a boa notícia de vida para todos.
A multidão que segue a Jesus é formada de pobres em espírito. Trata-se de pessoas vítimas do sistema dos poderosos, vergadas sob o peso do legalismo religioso e da opressão política e econômica. São pessoas indefesas que vivem da esperança de dias melhores. A essa gente Jesus vem trazer a libertação. O horizonte é o reino de Deus, onde não haverá exclusão. Os pobres são os protagonistas do reino. Jesus conta com eles, pois clamam por mudança social e, por isso, se mostram abertos à nova proposta.
São pessoas mansas que rejeitam a violência como caminho de solução de seus problemas; possuem a consciência de sua pequenez e confiam na bondade e grandeza de Deus, superando a amargura e o desejo de vingança. Como os oprimidos na origem de Israel, anseiam por uma terra de liberdade e de vida digna.
São pessoas aflitas devido à penúria e à instabilidade em que vivem; choram marcadas pelo tratamento desumano, pelo abandono social, pelas dívidas, doenças, acusações injustas... São pessoas que têm fome e sede de justiça, pois sentem na pele os efeitos de uma sociedade baseada no poder do mais forte. A fome e a sede eram uma realidade cotidiana da maioria das pessoas que seguiam a Jesus em suas jornadas missionárias e também das que pertenciam às comunidades cristãs primitivas.
São pessoas que, apesar de oprimidas, são misericordiosas. Elas se mantêm abertas e acolhedoras; amam incondicionalmente, reconhecem-se pecadoras e esperam a salvação que vem de Deus... São pessoas puras de coração: mesmo excluídas do sistema religioso oficial por serem consideradas impuras (doentes, estrangeiras, pecadoras...), não se deixam contaminar pelos interesses dos dominantes, mas cultivam a confiança em Deus e buscam viver na transparência e na autenticidade.
São pessoas que promovem a paz num contexto de conflitos e guerras. Não são “pacíficas” no sentido de evitarem envolver-se em questões sociais conflituosas, mas são militantes por um mundo de paz. Suas atitudes são marcadas pela “não violência ativa”, desdobramento do amor que caracteriza os filhos e filhas de Deus... São pessoas, enfim, perseguidas por causa da justiça, que sofrem as consequências de ser fiéis à proposta do reino de Deus.
As bem-aventuranças não são expressão de pena ou de consolo oportunista para as pessoas sofredoras; pelo contrário, são a convocação de Jesus para o compromisso dos pobres em vista de sua libertação. Elas sintetizam o caminho de santidade que pode ser seguido por todas as pessoas de boa vontade.
1ª leitura (Ap. 7,2-4.9-14)
Uma multidão de santos
O Apocalipse foi escrito para encorajar as comunidades cristãs a perseverar no meio de grande sofrimento. O texto deste domingo reflete o testemunho dado por uma multidão de cristãos diante da violenta perseguição desencadeada pelo imperador Nero ao redor do ano 65. A visão é um recurso próprio do gênero apocalíptico para revelar o que os olhos da fé captam por trás dos acontecimentos.
As comunidades perseguidas, mergulhadas em profunda dor, gritam por justiça. Deus intervém a seu favor. Os anjos são seus justiceiros. Devem, no entanto, respeitar todos os que são assinalados. A cena lembra a saída do povo do Egito, quando as casas dos escravos hebreus foram marcadas com o sangue do cordeiro para serem protegidas da vingança divina.
As 144 mil pessoas assinaladas (12 x 12 x 1.000) representam a totalidade dos servos e servas de Deus, tanto da primeira aliança como da segunda. São todas as que não se contaminam com a ideologia dos poderosos. São as que permanecem fiéis ao plano de Deus a ponto de entregar a própria vida, como fez Jesus, o Cordeiro imolado. Esse é o sentido das vestes brancas.
Deus é o protetor e salvador dos pequeninos, dos indefesos e dos perseguidos por causa da justiça. São milhares de “todas as nações, tribos, povos e línguas”. Pertencem a todas as tradições religiosas. Com coragem e perseverança, seguem o caminho do bem e lutam por um mundo de fraternidade. Nós, cristãos, recebemos a marca do batismo, que nos torna servos e servas de Deus. Somos convocados a perseverar no seguimento de Jesus; somos chamados a ser santos, vivendo e anunciando os valores evangélicos da misericórdia, da mansidão, da justiça, da paz...
2ª leitura (1Jo 3,1-3)
Somos filhos e filhas de Deus
O amor de Deus não tem limites. Ele fez de nós participantes de sua própria natureza divina. Somos seus filhos e filhas já neste tempo transitório e o seremos plenamente na ressurreição. Essa verdade tão bela nos enche de dignidade e nos impulsiona a viver de acordo com a vocação divina.
O jeito divino de viver não se conforma com os sistemas baseados no domínio de uns sobre os outros e sobre a criação. Como fez Jesus, os cristãos devem posicionar-se de forma clara a favor de uma sociedade onde reine o amor fraterno, pois “quem diz que ama a Deus e odeia o seu irmão é um mentiroso” (1Jo 4,20).
As pessoas que vivem de modo coerente com o evangelho se confrontam com os interesses egoístas dos que dominam este mundo. Jesus preveniu seus discípulos de que seriam perseguidos, presos e até mortos. Os que sofrem por causa da fidelidade aos valores evangélicos fazem parte dos bem-aventurados...
Pistas para reflexão
- As bem-aventuranças indicam o caminho da santidade. Ser santo não significa ser uma pessoa fora do comum. Jesus viveu como uma pessoa normal junto à sua família, comunidade e sociedade. Praticou a vontade do Pai nas pequenas coisas e aprendeu, junto com o seu povo e meditando a Sagrada Escritura, a reconhecer os valores que caracterizam uma vida de santidade. Nas bem-aventuranças, ele sintetiza esses valores, encorajando as pessoas simples e pequeninas a se empenhar por um mundo novo, o reino de Deus. Hoje, de que maneira podemos viver as bem-aventuranças? Quais são os valores a que não podemos renunciar como seguidores de Jesus? Quem são os bem-aventurados na família, na comunidade, na política...?
- Somos marcados com o sinal de Deus. As comunidades cristãs primitivas enfrentaram situações de grande crise por causa das perseguições. Muitas pessoas foram martirizadas. Por meio dos encontros comunitários, pelas orações e pela reflexão sobre a palavra de Deus, elas encontraram sabedoria e coragem para superar o medo e confiar na proteção divina. Sentiam-se marcadas pelo amor misericordioso de Deus. Hoje, como enfrentamos os sofrimentos e as crises? Quais meios nos fazem crescer na fé em Deus e perseverar no caminho do bem? Temos a marca divina em nós pelo batismo: o que isso significa na prática? Podemos lembrar o testemunho de alguns mártires e santos...
- Somos filhos e filhas de Deus! Somos de natureza divina, nascidos do amor gratuito de Deus. Podemos cultivar, de forma sempre renovada, o jeito divino de ser, que é igual ao jeito verdadeiramente humano: honestidade, respeito mútuo, diálogo, carinho, atenção a quem sofre, acolhida, perdão, cuidado com a natureza...
Celso Loraschi




Dos que acendem em nós o desejo de Deus
São incontáveis aqueles e aquelas que, terminados os dias de sua peregrinação terrestre, foram levados à mansão da paz e da contemplação da face do Altíssimo. Nós os chamados de santos, de bem-aventurados.  Não ocupam um lugar geográfico, mas vivem em Deus no que se convencionou chamar de eternidade. Comprazem-se eternamente em viver diante  daquele que é santo, três vezes santo.  Os santos, santificados pelo Santo.
São Bernardo se pergunta: “Para que louvar os santos, para que glorificá-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes importam as honras terrenas, a eles que, segundo as promessas do Filho, o mesmo Pai celeste glorifica De que lhes servem nossos elogios?   Os santos não precisam de nossas homenagens, nem lhes vale nossa devoção.  Se veneramos os Santos, sem dúvida alguma, o interesse é nosso, não deles. Eu por mim, confesso, ao recordar-me deles, sinto acender-se um desejo veemente”.
Hebreus: “Vós vos aproximastes do monte Sião e da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste; da reunião festiva de milhões de anjos; da assembléia dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus; de Deus, o  Juiz de todos;  dos espíritos dos juntos, que chegaram à perfeição; de Jesus, o mediador da nova aliança, e da aspersão do sangue  mais eloqüente do que o de Abel” (Hb. 12,22-24).
Eles são homens e mulheres, religiosos e papas, solteiros e viúvos, jovens e idosos, de todas as raças e de todos os cantos da terra. Todos lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro. Revelaram um coração sem pretensões de serem donos da face da terra. Andaram sempre se dobrando sobre a miséria dos outros. Cheios de sede, de fome das coisas do alto. Espalharam aqui e ali o perfume da paz. Foram artesãos de um mundo de fraternidade.
O prefacio da solenidade: Festejamos hoje a cidade de Deus, a Jerusalém do alto, nossa mãe, onde nossos irmãos os santos vos cercam e cantam eternamente o vosso louvor.  Para essa cidade caminhamos pressurosos, peregrinando na penumbra da fé. Contemplamos alegres, na vossa luz,todos os membros da Igreja que nos dais como exemplo e intercessão.
Terminando com Bernardo: “Com inteira segurança e ambição cobicemos esta glória. Contudo, para que nos seja licito esperá-la e aspirar a tão grande felicidade, cumpre-nos desejar com muito empenho, a intercessão dos santos. Assim aquilo que não podemos obter por nós mesmos, seja-nos dado por sua intercessão”.
Com efeito, a solenidade dos santos todos que moram na casa de Deus faz nascer dentro de nós o desejo daquele que nosso coração anda catando com imenso ardor. A solenidade dos santos faz nascer em nós o desejo da santidade.


SEGUNDA HOMILIA

Os santos nos esperam na glória
Mais uma vez estamos diante da multidão dos santos e santas de Deus, aqueles e aquelas que lavaram suas vestes no sangue do cordeiro, os filhos adotivos de Deus que, na glória, aparecem em toda sua nobreza e magnificência, ao lado do Cristo, os pobres, mansos e aqueles que sofreram tribulação por causa do Amado.
São Bernardo de Claraval vai nos ajudar a refletir sobre o tema dos santos: para que louvar os santos, para que glorifica-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes importam as honras terrenas, a eles que, segundo a promessa do Filho, o mesmo Pai celeste glorifica?  De que lhes servem os nossos elogios? Os santos não precisam de nossas homenagens, nem lhes vale a nossa devoção. Se veneramos os santos, sem dúvida nenhuma, o interesse é nosso, não deles.  Eu, por mim, confesso, ao recordar-me deles, sinto acender-se um desejo veemente.
Em primeiro lugar, o desejo que sua lembrança mais estimula e incita é o de gozarmos de sua tão amável companhia e de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem-aventurados, de unir-nos ao grupo dos patriarcas, às fileiras dos profetas, ao senado dos apóstolos, ao numeroso exército dos mártires, ao grêmio dos confessores, aos coros das virgens, de associar-nos, enfim, à comunhão de todos os santos e com todos nos alegrarmos. A assembléia dos primogênitos  aguarda-nos e nós parecemos indiferentes! Os santos desejam-nos e não fazemos caso; os justos esperam-nos e nos esquivamos.
Animemo-nos, enfim, irmãos. Ressuscitemos com Cristo. Busquemos  as realidades celestes. Tenhamos gosto pelas coisas do alto.  Desejemos aqueles que nos desejam. Apressemo-nos ao encontro dos que nos aguardam. Antecipemo-nos pelos votos do coração  aos que nos esperam. Seja-nos um incentivo não só a companhia dos santos, mas também a sua felicidade. Cobicemos com fervoroso empenho também a glória daqueles cuja presença desejamos. Não é má esta ambição nem de nenhum modo é perigosa a paixão pela glória deles.
O segundo desejo que brota em nós pela comemoração dos santos  consiste em que Cristo, nossa vida, tal como eles, também apareça a nós e nós juntamente com ele apareçamos na glória. Enquanto isso não sucede nossa Cabeça, não como é, mas como se fez por nós, se nos apresenta. Isto é, não coroada de glória, mas com os espinhos de nossos pecados. É uma vergonha fazer-se membro regalado, sob uma cabeça coroada de espinhos.  Por enquanto a púrpura não lhe é sinal de honra, mas de zombaria. Será sinal de honra quando Cristo  vier e não mais se proclamará sua morte, e saberemos que nós estamos mortos com ele, e com ele escondida nossa vida. Aparecerá a Cabeça gloriosa e com ela refulgirão os membros glorificados quando transformar nosso corpo humilhado, configurando-o à glória da Cabeça que é ele mesmo.
Com inteira e segura ambição cobicemos esta glória. Contudo para que nos seja lícito espera-la e aspirar a tão grande felicidade, cumpre-nos desejar com muito empenho a intercessão dos santos. Assim, aquilo que não podemos obter por nós mesmos, seja-nos dado por sua intercessão. Liturgia das Horas IV, p. 1421-1422



TERCEIRA HOMILIA

Quem são esses todos vestidos com roupas brancas?
Novembro, mês dos finados e tempo de pensar nos santos da glória. Desde a nossa mais tenra infância quando chegava novembro os jardins e parques ficavam cheios de agapantos azuis e brancos. Finados e todos os santos: duas comemorações entrelaças enfeitadas pelos esguios agapantos.
Quando se fala em santos lembramo-nos da imagens de gesso ou de madeira representando Antônio de Pádua, Rita de Cássia ou Teresa de Lisieux. Quando crianças gostávamos de contemplar todas essas imagens e também suas representações nos vitrais. As imagens nos lembram que muitos de nossos irmãos na fé estão hoje na glória dos céus. Eles nos precedem. À frente desse cortejo está uma mulher que foi santificada desde o momento de seu nascimento chamada Maria, aquela que deveria trazer em seio o Santo. Ela é a rainha dos santos e anjos e Senhora da Glória.
Os cristãos são santificados pela sua participação na paixão, morte e ressurreição do Senhor. O santo não é um “halterofilista”  da fé. O cristão é alguém que se tornou santo nas águas do batismo e que foi fazendo lugar em si para a ação do amor de Deus. Os santos, com efeito, são obras de arte do amor de Deus. Na medida em que pessoas e comunidades esvaziam-se de si, não se colocam com centro de tudo mas se abrem a Deus, começa a obra de arte que as mãos do Senhor executa. A santidade é dom de Deus  acolhido pelos corações pobres, por aqueles que são sedentos de Deus, desejosos de Deus, aqueles que choram por não corresponderem ainda ao amor de Deus, que são mansos e misericordiosos, que sofrem perseguição por causa de seu testemunho de vida.
Há esses santos que se retiraram das cidades e viveram  no deserto e na contemplação. Outros se casaram. Procuraram  colocar-se como marido e mulher diante de Deus, acolhendo os filhos, trabalhando, lutando, na fidelidade de todos os momentos, carregando as cruzes inerentes à vida. Há essas mães de moços que morreram na guerra e de filhos e filhas que  terminam os dias com overdose de drogas. Mães que sofreram baixinho e que souberam unir seus sofrimentos à paixão e morte de Cristo. Há esses que deram a vida por um inocente e outros que morreram para não negar a fé. Há esses bispos que assumiram efetivamente a missão de serem pastores e guias do povo, noite e dia, sempre. Há essas pessoas que a vida toda cuidaram de uma capela, na simplicidade e na fidelidade. Há esses homens de mãos rudes que não foram acolhidos de coração por suas esposas, que eram tratados de imprestáveis. Há essas pessoas que foram para as praças do mundo, na Bahia ou em Calcutá para cuidar dos mais abandonados.
Hoje comemoramos esses e essas que passaram pelo mundo com os olhos na Beleza, na Bondade e no Amor. Gente de carne e osso, com seu entusiasmo, mas também com seu pecado. Gente que precisou cantar dolentemente o Miserere como Agostinho de Hipona ou Margarida de Cortona. Pessoas que foram lavadas no sangue do Cordeiro e que hoje participam do banquete da eternidade, que alvejaram suas vestes  no sangue do Cordeiro.
frei Almir Ribeiro Guimarães



Somos santos já, na medida em que pertencemos a Deus no presente.
A festa de todos os santos abrange os três momentos do tempo, além da dimensão universal do espaço. De fato, celebramos os justos do passado, celebramos a vocação à santidade futura (o “céu”), e celebramos a santidade como dom (graça) presente. Como esta dimensão presente é a em que menos se pensa quando se fala de santidade, achamos que ela merece uma atenção especial: é a mensagem das Bem-Aventuranças, no evangelho de hoje (Mt. 5,1-12) As Bem-Aventuranças devem ser entendidas como uma proclamação da chegada do Reino de Deus para as pessoas que vão ficar felizes com isso (Lc. 6,24-26 acrescenta também aqueles que vão ficar infelizes...).
São, ao mesmo tempo, a proclamação da amizade de Deus para aqueles que participam do espírito que é evocado por oito exemplificações, e (sobretudo na versão de Mateus) um programa de vida para todos os que escutam a palavra do Cristo.
Este programa de vida já entra em ação desde que alguém se torna discípulo de Jesus: os que estão realizando este programa já são “santos”. Por isso, este evangelho foi escolhido para a festa de hoje. Jesus proclama a bem-aventurança (a felicidade, o “bom encaminhamento”, a “boa ventura”) dos “pobres no espírito” (= semitismo: os diminuídos até no alento da vida; não se trata da questionável “pobreza espiritual”), porque deles é o Reino dos Céus, ele não quer dizer o além da morte - uma recompensa futura pela carência na terra - mas a realidade presente. “Reino dos Céus” é maneira semítica de dizer “Reino de Deus” (por respeito, Deus é chamado “os Céus”). E o Reino de Deus começa onde se faz a vontade de Deus, como aprendemos do Pai-nosso, que Jesus ensina em seguida (Mt. 6,9-13). Se entendêssemos as Bem-Aventuranças somente como uma compensação para depois da morte, elas seriam “ópio do povo”. Mas o contrário é verdade: elas são um incentivo para realizar, desde já, o novo espírito, que traz presente o Reino. O sentido das Bem-Aventuranças é, exatamente, relacionar o dom escatológico (expresso nos termos: “serão consolados, serão saciados” etc.) com a realidade de hoje. O dom escatológico não cai do céu, mediante a atuação de algum mágico, mas é o que, da parte de Deus, corresponde à atitude do justo, do servo, do “pobre do Senhor”. Corresponde à atitude de não procurar a mera afirmação pessoal no poder e na riqueza, mas de dispor-se inteiramente para a obra de Deus, pelo esvaziamento, a mansidão, a paciência no sofrer, a sede de justiça divina, o empenho pela paz... Em outros termos, somos santos já, na medida em que pertencemos a Deus no presente. Então, também o futuro de Deus nos pertence.
A mesma mensagem proclama a 2ª leitura (1Jo 3): nossa atual santidade, por sermos filhos de Deus, embora ainda não seja manifesto “o que seremos” (= a nossa glorificação). Portanto, quem é celebrado hoje é, em primeiro lugar, os “filhos de Deus” neste mundo.
A isto se une a visão antecipada do autor do Apocalipse sobre a plenitude dos que aderiram a Cristo, seguiram o Cordeiro (1ª leitura). É o número perfeito das tribos (12 x 12.000), os eleitos de Israel (o autor é judeu-cristão), mas também um número inumerável de todas as nações (universalismo – mas ainda assim há quem ensine que no céu só tem 144.000 lugares....)
Ora, tanto na mensagem das Bem-Aventuranças quanto na visão do Apocalipse ganham um destaque especial os mártires, os que são perseguidos por causa do evangelho, os que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro e vêm da grande tribulação. Testemunhar de Cristo com seu sangue é a marca mais segura da santidade. Mas, com ou sem sangue, todos deverão fazer de sua vida um pertencer a Cristo, para que possam ser chamados “santos”, isto é, consagrados a Deus.
As orações insistem muito na intercessão dos santos. É um aspecto deste dia, que atinge muito a sensibilidade popular. É preciso fazer aqui um delicado trabalho de interpretação. Confiar em alguém como intercessor supõe sentir-se solidário (familiar) com ele. Será que vivemos como familiares destes intercessores? Será que cabemos na sua companhia?
Johan Konings "Liturgia dominical"



Hoje, a Igreja volta seu olhar e seu coração para o céu e enche-se de alegria ao contemplar uma multidão que participa da glória e da plenitude do Deus Santo.
A nossa fé nos ensina que somente Deus é Santo. Na Bíblia, "santo" significa, literalmente, "separado". Deus é aquele que é separado, absolutamente diferente de tudo quanto exista no céu e na terra: Ele é único, Ele é absoluto, Ele sozinho se basta, sozinho é pleno, sozinho é infinitamente feliz. Ele é Deus! Por isso, Santo, em sentido absoluto, é somente o Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo. A Jesus, o Filho eterno feito homem, nós proclamamos em cada missa: "Só vós sois o Santo"; ao Pai nós dizemos: "Na verdade, ó Pai, vós sois Santo e fonte de toda santidade"; ao Espírito nós chamamos de Santo.
Mas, a nossa fé também nos ensina que este Deus santo e pleno, dobra-se carinhosamente sobre a humanidade – sobre cada um de nós - para nos dar a sua própria vida, para nos fazer participantes de sua própria plenitude, sua própria santidade. Foi assim que o Pai, cheio de imenso amor, enviou-nos seu Filho único até nós, e este, morto e ressuscitado, infundiu no mais íntimo de nós e de toda a Igreja o seu Espírito de santidade. Eis, quanta misericórdia: Deus, o único Santo, nos santifica pelo Filho no Espírito: "Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!" É isto a santidade para nós: participar da vida do próprio Deus, sermos separados, consagrados por ele e para ele desde o nosso Batismo, para vivermos sua própria vida, vida de filhos no Filho Jesus! É assim que todo cristão é um santificado, um separado para Deus. Mas, esta santidade que já possuímos deve, contudo, aparecer no nosso modo de viver, nas nossas ações e atitudes. E o modelo de toda santidade é Jesus, o Bem-aventurado. Ele, o Filho, foi totalmente aberto para o Pai no Espírito Santo e, por isso, foi totalmente pobre, totalmente manso, totalmente puro e abandonado a Deus no pranto, na fome de justiça e na misericórdia. Então, ser santo, é ser como Jesus, deixando-se guiar e transformar pelo seu Espírito em direção ao Pai. Esta santidade é um processo que dura a vida toda e somente será pleno na glória. São João nos fala disso na segunda leitura de hoje: "Quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é".
Nesta perspectiva, podemos contemplar a estupenda leitura do Apocalipse que escutamos como primeira leitura. O que se vê aí? Uma multidão. Primeiro, cento e quarenta e quatro mil de todas as tribos de Israel. Isto simboliza todo o Israel. Recordemos: 12 é o número do Povo do Antigo Testamento. Pois bem, cento e quarenta e quatro mil equivale a 12 x 12 x 1000, isto é, à totalidade de Israel. Deus não se cansou de chamar o povo da antiga aliança: Israel haverá de ser salvo pelo sangue de Cristo. Mas, há ainda mais: "Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro". Essa multidão são todos os povos da terra, chamados por Cristo, na Igreja, para a salvação, para a santificação que Deus nos oferece. Notemos bem: "uma multidão que ninguém podia contar". A salvação é para todos, a santidade não é para um grupinho de eleitos, para uma elite espiritual. Todos são chamados a essa vida divina que Deus quer partilhar conosco, todos são chamados à santidade! "Trajavam vestes brancas e traziam palmas nas mãos. São os que vieram da grande tribulação e lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro". Eis quem são os santos: aqueles que atravessaram as lutas desta vida, as tribulações desta nossa pobre existência, unidos a Cristo; são os que venceram em Cristo – por isso trazem a palma da vitória; são os que não tiveram medo de viver e, se caíram, se erraram, foram, humildemente, lavando e alvejando suas vestes no sangue precioso de Cristo: são santos não com sua própria santidade, mas com a santidade do Cristo-Deus. Nunca esqueçamos: ninguém é santo com suas forças, ninguém é santo por sua própria santidade: só em Cristo somos santificados, pois somente Cristo derrama sobre nós o Espírito de santidade. O nosso único trabalho é lutar para acolher esse Espírito, deixando-nos guiar por ele e por ele sermos transfigurados em Cristo!
Olhemos para o céu: lá estão Pedro e Paulo, lá estão os doze, lá estão os mártires de Cristo, os santos pastores e doutores, lá estão as santas virgens e os santos homens, lá estão tantos e tantos – uns, conhecidos e reconhecidos pela Igreja publicamente, outros, cujo nome somente Deus conhece; lá está a Santíssima e Bem-aventurada sempre Virgem Maria, Mãe e discípula perfeita do Cristo, toda plena do Espírito, toda obediente ao Pai. Eles chegaram lá, eles intercedem por nós, eles são nossos modelos, eles nos esperam.
Num mundo que vive estressado, que corre sem saber para onde... num mundo que já não crê nos verdadeiros valores, porque já não crê em Deus, contemplar hoje todos os santos é recordar para onde vamos e qual é o sentido da nossa vida! Não tenhamos medo de ser de Deus, não tenhamos medo de testemunhar o Evangelho, não tenhamos medo de alimentar nossa visa com o Cristo, na sua Palavra e na sua Eucaristia para sermos inebriados da vida do próprio Deus.
Infelizmente, muitos hoje têm como heróis os atletas, os atores, os cantores e tantos outros que não têm muito e até nada para ensinar. Quanto a nós, que nossos heróis e modelos sejam os santos e santas de Cristo, que foram heróis porque se venceram e correram para o Cristo! Que eles roguem por nós, pois o que eles foram, nós somos e o que eles são, todos nós somos chamados a ser.
Todos os santos e santas de Deus, rogai por nós!
dom Henrique Soares da Costa



2º leitura: 1Jo. 3,1-3
Segunda mensagem de esperança. Ela responde às nossas interrogações sobre o destino dos defuntos. Que vieram a ser? Como sabê-lo, pois desapareceram dos nossos olhos? E nós próprios, que viremos a ser?
A resposta é uma dedução absolutamente lógica: se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus filhos, não nos pode abandonar. Ora, em Jesus, vemos já a que futuro nos conduz a pertença à família divina: seremos semelhantes a Ele.
Evangelho: Mt. 5,1-12 - AMBIENTE
Depois de dizer quem é Jesus (cf. Mt. 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt. 3,1- 4,16), Mateus vai apresentar a concretização dessa missão: com palavras e com gestos, Jesus propõe aos discípulos e às multidões o “Reino”. Neste enquadramento, Mateus propõe-nos hoje um discurso de Jesus sobre o “Reino” e a sua lógica.
Uma característica importante do Evangelho segundo Mateus reside na importância dada pelo evangelista aos “ditos” de Jesus. Ao longo do Evangelho segundo Mateus aparecem cinco longos discursos (cf. Mt. 5-7; 10; 13; 18; 24-25), nos quais Mateus junta “ditos” e ensinamentos provavelmente proferidos por Jesus em várias ocasiões e contextos. É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada ao Povo por meio de Moisés e escrita nos cinco livros do Pentateuco.
O primeiro discurso de Jesus – do qual o Evangelho que nos é hoje proposto é a primeira parte – é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt. 5-7). Agrupa um conjunto de palavras de Jesus, que Mateus colecionou com a evidente intenção de proporcionar à sua comunidade uma série de ensinamentos básicos para a vida cristã.
O evangelista procurava, assim, oferecer à comunidade cristã um novo código ético, uma nova Lei, que superasse a antiga Lei que guiava o Povo de Deus.
Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus Se revelou e deu ao seu Povo a antiga Lei. Agora é Jesus, que, numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao “Reino”.
As “bem-aventuranças” que, neste primeiro discurso, Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das “bem-aventuranças” propostas por Lucas (cf. Lc. 6,20-26). Mateus tem nove “bem-aventuranças”, enquanto que Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano; outras notas características da versão de Mateus são a espiritualização (os “pobres” de Lucas são, para Mateus, os “pobres em espírito”) e a aplicação dos “ditos” originais de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É muito provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido mais trabalhado.
MENSAGEM
As “bem-aventuranças” são fórmulas relativamente frequentes na tradição bíblica e judaica. Aparecem, quer nos anúncios proféticos de alegria futura (cf. Is. 30,18; 32,20; Dn. 12,12), quer nas ações de graças pela alegria presente (cf. Sl. 32,1-2; 33,12; 84,5.6.13), quer nas exortações a uma vida sábia, refletida e prudente (cf. Pv. 3,13; 8,32.34; Sir. 14,1-2.20; 25,8-9; Sl. 1,1; 2,12; 34,9). Contudo, elas definem sempre uma alegria oferecida por Deus.
As “bem-aventuranças” evangélicas devem ser entendidas no contexto da pregação sobre o “Reino”. Jesus proclama “bem-aventurados” aqueles que estão numa situação de debilidade, de pobreza, porque Deus está a ponto de instaurar o “Reino” e a situação destes “pobres” vai mudar radicalmente; além disso, são “bem-aventurados” porque, na sua fragilidade, debilidade e dependência, estão de espírito aberto e coração disponível para acolher a proposta de salvação e libertação que Deus lhes oferece em Jesus (a proposta do “Reino”).
As quatro primeiras “bem-aventuranças” referidas por Mateus (vs. 3-6) estão relacionadas entre si. Dirigem-se aos “pobres” (as segunda, terceira e quarta “bem-aventuranças” são apenas desenvolvimentos da primeira, que proclama: “bem-aventurados os pobres em espírito”). Saúdam a felicidade daqueles que se entregam confiadamente nas mãos de Deus e procuram fazer sempre a sua vontade; daqueles que, de forma consciente, deixam de colocar a sua confiança e a sua esperança nos bens, no poder, no êxito, nos homens, para esperar e confiar em Deus; daqueles que aceitam renunciar ao egoísmo, que aceitam despojar-se de si próprios e estar disponíveis para Deus e para os outros.
Os “pobres em espírito” são aqueles que aceitam renunciar, livremente, aos bens, ao próprio orgulho e auto-suficiência, para se colocarem, incondicionalmente, nas mãos de Deus, para servirem os irmãos e partilharem tudo com eles.
Os “mansos” não são os fracos, os que suportam passivamente as injustiças, os que se conformam com as violências orquestradas pelos poderosos; mas são aqueles que recusam a violência, que são tolerantes e pacíficos, embora sejam, muitas vezes, vítimas dos abusos e prepotências dos injustos… A sua atitude pacífica e tolerante torná-los-á membros de pleno direito do “Reino”.
Os “que choram” são aqueles que vivem na aflição, na dor, no sofrimento provocados pela injustiça, pela miséria, pelo egoísmo; a chegada do “Reino” vai fazer com que a sua triste situação se mude em consolação e alegria…
A quarta bem-aventurança proclama felizes “os que têm fome e sede de justiça”.
Provavelmente, a justiça deve entender-se, aqui, em sentido bíblico – isto é, no sentido da fidelidade total aos compromissos assumidos para com Deus e para com os irmãos. Jesus dá-lhes a esperança de verem essa sede de fidelidade saciada, no Reino que vai chegar.
O segundo grupo de “bem-aventuranças” (vs. 7-11) está mais orientado para definir o comportamento cristão. Enquanto que no primeiro grupo se constatam situações, neste segundo grupo propõem-se atitudes que os discípulos devem assumir.
Os “misericordiosos” são aqueles que têm um coração capaz de compadecer-se, de amar sem limites, que se deixam tocar pelos sofrimentos e alegrias dos outros homens e mulheres, que são capazes de ir ao encontro dos irmãos e estender-lhes a mão, mesmo quando eles falharam.
Os “puros de coração” são aqueles que têm um coração honesto e leal, que não pactua com a duplicidade e o engano.
Os “que constroem a paz” são aqueles que se recusam a aceitar que a violência e a lei do mais forte rejam as relações humanas; e são aqueles que procuram ser – às vezes com o risco da própria vida – instrumentos de reconciliação entre os homens.
Os “que são perseguidos por causa da justiça” são aqueles que lutam pela instauração do “Reino” e são desautorizados, humilhados, agredidos, marginalizados por parte daqueles que praticam a injustiça, que fomentam a opressão, que constroem a morte… Jesus garante-lhes: o mal não vos poderá vencer; e, no final do caminho, espera-vos o triunfo, a vida plena.
Na última “bem-aventurança” (v. 11), o evangelista dirige-se, em jeito de exortação, aos membros da sua comunidade que têm a experiência de ser perseguidos por causa de Jesus e convida-os a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava “bem-aventurança”.
No seu conjunto, as “bem-aventuranças” deixam uma mensagem de esperança e de alento para os pobres e débeis. Anunciam que Deus os ama e que está do lado deles; confirmam que a libertação está a chegar e que a sua situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica desse “Reino” onde vão encontrar a felicidade e a vida plena.
ATUALIZAÇÃO
♦ Jesus diz: “felizes os pobres em espírito”; o mundo diz: “felizes vós os que tendes dinheiro – muito dinheiro – e sabeis usá-lo para comprar influências, comodidade, poder, segurança, bem-estar, pois é o dinheiro que faz andar o mundo e nos torna mais poderosos, mais livres e mais felizes”. Quem é, realmente, feliz?
♦ Jesus diz: “felizes os mansos”; o mundo diz: “felizes vós os que respondeis na mesma moeda quando vos provocam, que respondeis à violência com uma violência ainda maior, pois só a linguagem da força é eficaz para lidar com a violência e a injustiça”. Quem tem razão?
♦ Jesus diz: “felizes os que choram”; o mundo diz: “felizes vós os que não tendes motivos para chorar, porque a vossa vida é sempre uma festa, porque vos moveis nas altas esferas da sociedade e tendes tudo para serdes felizes: casa com piscina, carro com telefone e ar condicionado, amigos poderosos, uma conta bancária interessante e um bom emprego arranjado pelo vosso amigo ministro”.
Onde está a verdadeira felicidade?
♦ Jesus diz: “felizes os que têm ânsia de cumprir a vontade de Deus”; o mundo diz: “felizes vós os que não dependeis de preconceitos ultrapassados e não acreditais num deus que vos diz o que deveis e não deveis fazer, porque assim sois mais livres”. Onde está a verdadeira liberdade, que enche de felicidade o coração?
♦ Jesus diz: “felizes os que tratam os outros com misericórdia”; o mundo diz: “felizes vós quando desempenhais o vosso papel sem vos deixardes comover pela miséria e pelo sofrimento dos outros, pois quem se comove e tem misericórdia acabará por nunca ser eficaz neste mundo tão competitivo”. Qual é o verdadeiro fundamento de uma sociedade mais justa e mais fraterna?
♦ Jesus diz: “felizes os sinceros de coração”; o mundo diz: “felizes vós quando sabeis mentir e fingir para levar a água ao vosso moinho, pois a verdade e a sinceridade destroem muitas carreiras e esperanças de sucesso”. Onde está a verdade?
♦ Jesus diz: “felizes os que procuram construir a paz entre os homens”; o mundo diz: “felizes vós os que não tendes medo da guerra, da competição, que sois duros e insensíveis, que não tendes medo de lutar contra os outros e sois capazes de os vencer, pois só assim podereis ser homens e mulheres de sucesso”. O que é que torna o mundo melhor: a paz ou a guerra?
♦ Jesus diz: “felizes os que são perseguidos por cumprirem a vontade de Deus”; o mundo diz: “felizes vós os que já entendestes como é mais seguro e mais fácil fazer o jogo dos poderosos e estar sempre de acordo com eles, pois só assim podeis subir na vida e ter êxito na vossa carreira”. O que é que nos eleva à vida plena?
Algumas palavras de Bento XVI em Portugal sobre o dinamismo da santidade
Ÿ O horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade. Não era isso também o objetivo último da indulgência jubilar, enquanto graça especial oferecida por Cristo para que a vida de cada batizado pudesse purificar-se e renovar-se profundamente? […]
Na verdade, colocar a programação pastoral sob o signo da santidade é uma opção carregada de consequências. Significa exprimir a convicção de que, se o batismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contra-senso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial.
Perguntar a um catecúmeno: «Queres receber o Batismo?» significa ao mesmo tempo pedir-lhe: «Queres fazer-te santo?» Significa colocar na sua estrada o radicalismo do Sermão da Montanha: «Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste» (Mt. 5,48). [João Paulo II, Novo Millennio Ineunte 30-31]
Ÿ Decisivo é conseguir inculcar em todos os agentes evangelizadores um verdadeiro ardor de santidade, cientes de que o resultado provém sobretudo da união com Cristo e da ação do seu Espírito. […]
A Igreja tem necessidade sobretudo de grandes correntes, movimentos e testemunhos de santidade entre os fiéis, porque é da santidade que nasce toda a autêntica renovação da Igreja, todo o enriquecimento da fé e do seguimento cristão, uma re-atualização vital e fecunda do cristianismo com as necessidades dos homens, uma renovada forma de presença no coração da existência humana e da cultura das nações. [Bento XVI, discurso aos bispos em Fátima, 13 de maio de 2010]
Ÿ “É nos Santos que a Igreja reconhece os seus traços característicos e, precisamente neles, saboreia a sua alegria mais profunda. Irmana-os, a todos, a vontade de encarnar na sua existência o Evangelho, sob o impulso do eterno animador do Povo de Deus que é o Espírito Santo. […]
É preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. A ressurreição de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja. Portanto a nossa fé tem fundamento, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós. […]
Queridos Irmãos e jovens amigos, Cristo está sempre conosco e caminha sempre com a sua Igreja, acompanha-a e guarda-a, como Ele nos disse: «Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt. 28, 20). Nunca duvideis da sua presença! Procurai sempre o Senhor Jesus, crescei na amizade com Ele, comungai-O. Aprendei a ouvir e a conhecer a sua palavra e também a reconhecê- Lo nos pobres. Vivei a vossa vida com alegria e entusiasmo, certos da sua presença e da sua amizade gratuita, generosa, fiel até à morte de cruz.
Testemunhai a alegria desta sua presença forte e suave a todos, a começar pelos da vossa idade. Dizei-lhes que é belo ser amigo de Jesus e que vale a pena segui-Lo. Com o vosso entusiasmo, mostrai que, entre tantos modos de viver que hoje o mundo parece oferecer-nos – todos aparentemente do mesmo nível –, só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura.
Buscai diariamente a proteção de Maria, a Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. Ela, a Toda Santa, ajudar-vos-á a ser fiéis discípulos do seu Filho Jesus Cristo. [Bento XVI, homilia em Lisboa, 11 de maio de 2010]
Ÿ A relação com Deus é constitutiva do ser humano: foi criado e ordenado para Deus, procura a verdade na sua estrutura cognitiva, tende ao bem na esfera volitiva, é atraído pela beleza na dimensão estética. A consciência é cristã na medida em que se abre à plenitude da vida e da sabedoria, que temos em Jesus Cristo. A visita, que agora inicio sob o signo da esperança, pretende ser uma proposta de sabedoria e de missão. […] Viver na pluralidade de sistemas de valores e de quadros éticos exige uma viagem ao centro de si mesmo e ao cerne do cristianismo para reforçar a qualidade do testemunho até à santidade, inventar caminhos de missão até à radicalidade do martírio. [Bento XVI, discurso na chegada a Lisboa, 11 de maio de 2010]
Ÿ “Sim! O Senhor, a nossa grande esperança, está conosco; no seu amor misericordioso, oferece um futuro ao seu povo: um futuro de comunhão consigo.
[…] A nossa esperança tem fundamento real, apoia-se num acontecimento que se coloca na história e ao mesmo tempo excede-a: é Jesus de Nazaré. […] Mas quem tem tempo para escutar a sua palavra e deixar-se fascinar pelo seu amor? Quem vela, na noite da dúvida e da incerteza, com o coração acordado em oração?
Quem espera a aurora do dia novo, tendo acesa a chama da fé? A fé em Deus abre ao homem o horizonte de uma esperança certa que não desilude; indica um sólido fundamento sobre o qual apoiar, sem medo, a própria vida; pede o abandono, cheio de confiança, nas mãos do Amor que sustenta o mundo. [Bento XVI, homilia em Fátima, 13 de maio de 2010]

Francisco Fernández-Carvajal







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