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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

32º DOMINGO TEMPO COMUM-B

32º DOMINGO TEMPO COMUM
8 de Novembro de 2015- B


Evangelho - Mc 12,38-44


Jesus hoje nos questiona sobre as intenções com as quais fazemos as coisas. A intenção daquela viúva era reta e pura... Por isso foi a que valeu mais aos olhos de Jesus. Leia mais


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O OLHAR DE JESUS ULTRAPASSA AS APARÊNCIAS! – Olívia Coutinho

32º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 08 de Novembro de 2015

Evangelho Mc 12, 38-44

 Vivemos numa cultura onde tudo gira em torno das coisas materiais, com isso, muitos de nós  vamos  perdendo o senso  do amor, do valor da fé, desprezando os valores que deveriam nortear a nossa vida!
Atraídos pelo visual, não damos tempo para que uma pessoa se revele interiormente, vamos  avaliando-a  segundo os critérios do mundo, a partir da aparência, do elemento  quantitativo, ou seja, pelo o  quanto que ela tem, pelo o quanto ela pode nos oferecer! Ainda não aprendemos a valorizar a pessoa na sua essência!
 No evangelho de hoje, Jesus mais vez, critica a postura dos doutores da lei, eles faziam questão de serem elogiados,  se  mostravam  generosos,  quando na prática,  agiam de forma contrária. Atrás de uma aparente  generosidade, eles escondiam a dureza dos seus corações explorando os pobres e as viúvas.
 Como podemos observar no texto, o olhar de Jesus ultrapassa as aparências, vai além do visual humano! Como grande observador, Jesus vê  que os olhos humanos não alcançam!  E assim, Ele aproveita pequenos gestos em grandes ensinamentos!
Só Jesus, percebe o gesto acanhado da pobre viúva, uma mulher anônima que segundo o relato, depositou  no cofre das ofertas do templo, tudo que  possuía, apenas duas moedas! Com este seu gesto abnegado, ela deixa transparecer a grandeza do seu coração, nos dando um grande exemplo de desapego, de partilha  e de  total confiança na providencia divina!
Ao doar tudo que tinha para o seu sustento, aquela mulher, certamente  recebeu um tesouro no  céu!
O exemplo  de quem se abre  à partilha, em contraposição com o mal exemplo dos doutores da lei, caiu como uma luva para que Jesus pudesse alertar os discípulos sobre o perigo de se deixarem iludir pelas aparências. Para Deus, o  que vale,  é o que vem do coração!
A viúva, na sua humildade, fez tudo para não ser notada, enquanto que os doutores da lei, ao depositarem  altas quantias no cofre das ofertas  fizeram  tudo para serem notados, se passando como generosos diante do povo, não, para  Jesus, que conhece o coração de cada um, a Ele, ninguém engana!
É importante estarmos atentos  quanto ao perigo de nos deixar levar por uma religiosidade externa que não nos leve a um comprometimento com a construção do Reino, uma religião que  não esteja vinculada ao coração, que é a fonte de onde brotam os verdadeiros gestos de amor!
O que vale para Deus não é o tamanho daquilo que se faz, ou se dá, o que vale para Ele é a intenção, as gotinhas de amor escondida atrás de  pequenos gestos!
Aos olhos de Deus, a prática exterior, só encontra  sentido, quando é uma expressão do que realmente se crê e se vive, do contrário,  não passa de  práticas vazias que nada significam, pois mostram  o que na verdade não se é e não se vive!
De nada adianta os nossos atos externos se eles não retratam o que na verdade somos interiormente.
O texto nos sugere um questionamento: Existe coerência entre o que falamos e o que vivemos? Estamos dispostos a partilhar o que somos e o que temos?

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Duas cenas comoventes, de gente pobre, sem valor nem importância, histórias de gentinha sem nome, ocupam hoje nossa atenção. Ah, meus irmãos, que Deus gosta de se ocupar com quem não vale nada!
Primeiro, a Viúva de Sarepta. Qual o nome dela? Qual o enredo da sua vida? Qual o nome do seu filho? Que idade tinha? Nada! Silêncio! A Escritura se cala. Vai direto ao ponto: no tempo do profeta Elias uma seca mortal varreu a Terra Santa e sua vizinhança. O livro dos Reis explica que isso se deveu à idolatria de Israel e à impiedade de Acab, seu rei. Até o profeta Elias, que anunciou o castigo, teve que sofrer as conseqüências: primeiro ficou sendo alimentado por um corvo na torrente de Carit; mas, depois, a torrente secou. Também os profetas de Deus sofrem, também eles participam da sorte do seu povo... Deus não super-protege seus amigos numa redoma... Também os amigos do Senhor devem combater os combates da vida... Mas, secada a torrente de Carit, Elias deixou a Terra Santa como flagelado de seca... Conhecemos essa história de tantos nordestinos que fogem da sequidão, deixando para trás sua terra e indo para o Sudeste do País. Pois bem: Elias, um dos maiores amigos de Deus, foi retirante, como um coitado flagelado nordestino! E chega no estrangeiro, na fronteira de Israel com o Líbano. Vê uma viúva cananéia, pagã, portanto, apanhando uns gravetos para fazer fogo. Pois bem, o homem pede-lhe um pouco d’água e também um pedacinho de pão. Devia estar morto de fome, o Elias retirante, flagelado, como os “severinos” da vida... E, ante o pedido do Homem de Deus, a resposta da viúva pobre e sem nome, uma maria-ninguém, é de fazer chorar de dor: “Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão. Só tenho um punhado de farinha e um pouco de azeite. Eu estava apanhado dois pedaços de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho, para comermos e depois esperar a morte”. É um fim da pouca comida na casa daquela coitada, daquela pobre. E observem que ele não amaldiçoa Deus; pelo contrário: “Pela vida do Senhor, teu Deus!” – ela diz, com respeito por Deus e por seu profeta, apesar de ser uma pagã! E Elias manda que ela prepare o pão primeiro para ele; e garante: “Assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘A vasilha de farinha não acabará e a jarra de azeite não diminuirá, até ao dia em que o Senhor enviar a chuva sobre a face da terra’”. A viúva fez assim, e aconteceu como o profeta de Deus dissera...
Uma segunda cena. A de uma viúva também sem nome, sem importância, outra maria-ninguém; Maria Nadinha de Nada – poderia ser esse o seu nome... Chega junto ao cofre do tesouro do Templo. Ali joga duas moedinhas. Dinheiro de nada. Não dá para comprar nem o azeite de um dia para manter o candelabro do Senhor aceso! Mas, era “tudo aquilo que possuía para viver!” E o Senhor viu, e comoveu-se com sua generosidade, pois conhecia seu coração e sabia da sua penúria miserável! – Esta segunda história nós conhecemos bem das nossas igrejas; a mão aberta, generosa, dos pobres para com a Casa de Deus e a parcimônia mesquinha e desdenhosa dos que muito possuem... Pois bem: esta viúva, indigente, quase esmoler, dá tudo ao Senhor, não reserva nada para si! Talvez nós pensemos, do alto da nossa prudência: “Mulher imprudente, mulher tola, mulher irresponsável...” Mas, o Senhor Jesus, que desmascara nossos pensamentos miseráveis e mundanos, tem opinião diferente: Ama aquela viúva, elogia aquela mulher, comove-se com ela.
Caríssimos, agora procuremos responder: Como essas duas mulheres tiveram coragem de agir assim? Como foram capazes de tal desapego? Eis a resposta: As duas acreditavam de verdade no Deus de Israel. Para elas, Deus não era uma teoria, uma hipótese, uma idéia vaga, fria e distante! Para elas, Deus era concreto, presente, atuante. Ainda hoje é assim para os pobres. Vão, meus caro! Vão às nossas comunidades de periferia e vocês ficarão impressionados com a generosidade e a fé da gente pobre! Para essas duas mulheres e para os pobres de Deus, as palavras do salmo da Missa de hoje não são uma brincadeira, não são palavras vazias: O Senhor é fiel para sempre,/ faz justiça aos que são oprimidos;/ ele dá alimento aos famintos./ É o Senhor quem protege o estrangeiro,/ quem ampara a viúva e o órfão./ O Senhor reinará para sempre!” Só quem crê de verdade, de verdade se abandona, de verdade doa, de verdade não procura segurança fora de Deus! Só quem crê de verdade faz como essas viúvas sem juízo: dão tudo, porque dão para o Senhor! Caríssimos, aquelas mulheres pobres acreditavam nisso, aquelas duas coitadas sabiam abandonar-se nas mãos benditas do Deus de Israel: uma dá tudo quanto tinha para comer a uma estranho simplesmente porque ele era um homem de Deus; a outra, não hesita em jogar tudo no tesouro da Casa do Senhor... Elas são como o Cristo Jesus, “que sendo rico se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza” (2Cor. 8,9). Elas são tão diferentes de nós, apegados, desconfiados, iludidos com o pensamento que podemos garantir nossa vida com nosso egoísmo e que somos senhores dos nossos dias. – Senhor, dá-nos um coração de pobre! Senhor, fonte de riqueza, dá-nos um coração confiante!
E agora, para terminar, agora olhemos Jesus. A segunda leitura de hoje no-lo apresenta no céu, diante do Pai, em nosso favor. O Autor sagrado explica que ele se fez homem uma só vez, entregando-se todo, a vida toda, por nós, até morrer para apagar os pecados da multidão! Ele fez como aquelas viúvas: Ele não se poupou, não poupou nada; tudo entregou ao Pai por nós. E agora, ele estará para sempre diante do Pai, com o seu sacrifício, como Cordeiro glorioso e imolado (cf. Ap. 5,6), até que apareça nos final dos tempos “para salvar aqueles que o esperam”. Eis caríssimos, o mistério: sem saberem, aquelas duas mulheres participavam da entrega de Cristo, da generosidade de Cristo, dos sentimentos de Cristo! Sem nem imaginarem, aquelas mulheres colocaram a esperança em Cristo!
Por favor, voltemos agora o olhar do coração para o Céu, para junto do Pai! Lá está o nosso Salvador, eternamente vitorioso e eternamente imolado de amor! Lá está Jesus, com seu sacrifício eterno, único, perfeito irrepetível, totalmente suficiente e eficaz! Ele nos deu tudo! Mais ainda: ele se deu todo... Todo a nós, todo por nós! Agora, olhemos para este Altar, em torno do qual nos reunimos. Daqui a pouco, esse sacrifício único e santíssimo, essa sacrifício que está para sempre diante de Deus, estará aqui, sobre este Altar sagrado, para ser nossa oferta e para que nós dele participemos! Daqui a pouco, a Hóstia santa – isto é, a Vítima do Sacrifício – estará aqui, do céu para nós, do céu entre nós, para ser nossa oferta e nosso alimento! É muito dom, é muito mistério, é muito piedade, é muita misericórdia de Deus para conosco!
Não sejamos mesquinhos, não sejamos incrédulos, não sejamos duros de coração: aprendamos a ver Deus agindo na nossa vida, aprendamos a confiar, e coloquemos nossa vida e nossa pobreza nas mãos de Deus!
dom Henrique Soares da Costa


Dar não só o supérfluo, mas mesmo do necessário
O tema predominante na liturgia deste domingo é dado pela correspondência entre o episódio da viúva pobre no templo (Evangelho) e o da viúva de Sarepta (1ª leitura). A partir daí, pode-se compreender a crítica que Jesus faz aos escribas e a dimensão do sacrifício de Cristo tematizado na carta aos Hebreus.
1ª leitura (1Rs. 17,10-16)
O texto de 1Rs. 17,10-16 faz parte do início das narrativas acerca do profeta Elias (cf. 1Rs. 17-19; 21; 2Rs. 1-2). O contexto da cena é a grande seca enviada pelo Senhor (v. 1). O rei Acab promovia o culto ao deus cananeu Baal, ao qual era atribuída a chuva e a fertilidade dos campos. Com a seca, o Senhor mostrava a inoperância do deus cananeu e a potência de sua palavra, que fechava os céus. Elias recebe a ordem de habitar em território fenício, na região de Sarepta (v. 9), a cerca de 15 km ao sul da cidade de Sidônia. Tratava-se de um território pertencente ao sogro do rei. Apesar de não ser do domínio de Israel, as realizações de Elias naquela região demonstravam o grande poder do Senhor, que ultrapassava as fronteiras israelitas.
Elias é um profeta chamado individualmente por Deus, não ligado à corte ou a um grupo de profetas e, por isso, quando não se encontra em sua própria morada, depende da hospitalidade e da caridade de outrem. Deus o adverte de que uma viúva lhe virá em auxílio (v. 9). É exatamente alguém naturalmente desprotegido na sociedade israelita e, nas circunstâncias da grande seca, particularmente em situação de necessidade, o instrumento de Deus para vir em socorro de seu profeta.
Deus se serve dos frágeis, mas generosos, para melhor manifestar a sua força. É a viúva quem dará sustento ao grande Elias. Ela possui, em sua indigência, muito pouco. Mas esse pouco será o princípio a partir do qual ela tirará sustento para si, para seu filho e para o profeta, e por um longo tempo (v. 15).
Julgando segundo razões bem plausíveis, a mulher expõe sua quase impossibilidade de atender ao pedido do profeta por um pouco de pão. Elias, porém, mantém-se firme em sua solicitação e dela exige o pouco que ainda lhe resta. Mas apóia essa exigência na confiança de que o Senhor cuidará da situação (“Não temas, não te preocupes!”, v. 13) e garantirá a sobrevivência dos três durante o tempo da seca (v. 14). Crendo na Palavra de Deus, transmitida pelo profeta, a viúva obedece e vê sua generosidade recompensada pela manutenção dos víveres mais necessários à vida e que, no momento de seu encontro com Elias, estavam prestes a acabar (v. 15). Deus garante o alimento; Ele é quem dá o sustento necessário à vida. E o dá para ser partilhado.
Evangelho (Mc. 12,38-44)
O texto do Evangelho são as últimas palavras de Jesus antes do discurso escatológico, último de sua vida pública (cf. Mc. 13), e antes da paixão. É como uma última indicação das disposições que deve ter seu discípulo. O texto da liturgia possui duas partes: nos v. 38-40, Jesus admoesta os discípulos quanto ao comportamento dos escribas; os v. 41-44 trazem a cena da viúva pobre que deposita seu donativo no templo. Aproximando os dois temas, o evangelista quis colocar em contraste os escribas e a pobre viúva, colocando essa última como modelo. Na primeira parte (v. 38-40), Jesus começa com uma advertência: “Guardai-vos dos escribas... cuidado com os escribas” – chamando a atenção para a necessidade de se estar atento e não se deixar influenciar pelo comportamento dos mesmos. Em seguida, aponta duas atitudes dignas de crítica. Primeiramente, a procura de reconhecimento e elogios, através do uso de túnicas usadas para sair, vistosas e eventualmente ricas (o termo grego stolé indica por vezes a veste do rei ou do sacerdote: cf. 2Cr. 18,9; Est. 6,8; Ex. 28,2); do gosto de serem saudados por primeiro, o que demonstrava sua importância; da satisfação em ocupar os primeiros postos na sinagoga, reservados a personalidades importantes (ou ao menos seus próprios lugares, já que os escribas não se sentavam junto com o povo, nas sinagogas, mas em lugares especialmente reservados), e os lugares ao lado de quem oferecia um banquete (cf. Lc. 14,18ss). Em segundo lugar, o desejo de possuir bens, mesmo daqueles que eram objeto de proteção especial de Deus (viúvas e órfãos: cf. Ex. 22,21-22). “Devorar as casas” significa
apropriar-se ilicitamente, talvez através dos altos preços exigidos por consultas jurídicas.
Tal atitude é agravada por ser levada a efeito por pessoas que “ostentam longas orações”.
Jesus critica, assim, os escribas por sua pretensão de ter, na comunidade, uma posição de destaque em virtude do conhecimento da Lei. O que deveria ser um serviço à comunidade torna-se motivo de autopromoção e de dominação. Sua crítica termina com uma condenação, que equivale a um juízo divino escatológico (assim o expressa o termo grego kríma, sentença, julgamento). Os escribas receberão um julgamento mais severo, porque eram conhecedores da vontade de Deus e porque serviam-se de pessoas frágeis para seus propósitos escusos.
A segunda parte do Evangelho de hoje (v. 41-44) se passa na sala do tesouro do templo, no átrio das mulheres, onde havia três cofres destinados a receber as ofertas dos fiéis. Os doadores diziam em voz alta o valor que depositavam e o entregavam a um sacerdote.
Desse modo, Jesus podia conhecer o que era oferecido. O evangelista apresenta duas contraposições: muitos ricos – uma só viúva; ofereciam muito – ofereceu duas moedinhas.
Essa contraposição faz ressaltar a pobreza da viúva e a sua posição desfavorável. Ela oferece duas “lepta” ou um “quadrante”, respectivamente, as menores dentre as moedas gregas e romanas.
O ensinamento de Jesus aos seus discípulos é solene: “Em verdade vos digo” – ele dará uma sentença verídica sobre o fato. A oferta da pobre viúva supera a dos ricos, porque é seu tudo. Os ricos nada têm de prejuízo com o que dão, pois dão do seu supérfluo. A viúva dá tudo o que tem. Ela poderia ter dado só uma moeda, mas deu as duas que tinha e, por isso, seu sacrifício é maior e mais autêntico, mais generoso.
Quem dá o que lhe sobra não vê tocada sua própria existência, que continua segura.
Doando tudo o que tinha para viver, a viúva professou concretamente seu amor e total adoração a Deus, a entrega a Ele de sua vida e, simultaneamente, a confiança na sua providência.
Não basta dar a Deus o supérfluo; Deus não quer de nós alguma coisa, mas, sim, Ele nos quer. Jesus não fez à pobre viúva do templo uma promessa de sustento, como o fez o profeta Elias em Sarepta. A viúva do templo tem sua recompensa a partir de seu próprio ato. Se ela assim se dá a Deus... Que não dará Deus a ela?
De outro lado, se ela assim se doa a Deus, este deve ser também o modelo de sua doação aos outros. Nossa solidariedade com todos não se pode expressar só em dar o nosso supérfluo, mas também o que nos é necessário, não só materialmente, mas também nosso tempo, nossa atenção, nossa compreensão, nossa paciência... Enfim, nós mesmos. A viúva é, assim, colocada como exemplo, embora na sociedade de então não ocupasse nenhum destaque (por ser mulher, e sem marido, sem proteção; e por ser pobre). Ela é exemplo que resume em si, de certa forma, a atitude do ser humano diante de Deus.
2ª leitura (Hb. 9,24-28)
O texto da carta aos Hebreus de hoje faz parte do trecho 8,1–9,28, que traça a contraposição entre o modo de garantir o acesso a Deus nos sacerdotes do Antigo Testamento e em Jesus. Jesus realiza um novo sacrifício, que supera infinitamente os do Antigo Testamento.
Porque não foi feito num templo humano, em Jerusalém, mas chegou ao céu e abriu a face de Deus em nosso favor (v. 24). E porque não precisa ser realizado muitas vezes, mas uma só (v. 25-26). Por que não precisa ser repetido?
Primeiramente, porque cumpriu em si todas as exigências da oferta, da adoração a Deus. Não pode haver nada de maior. Seu mistério pascal supõe o mistério da encarnação da Segunda Pessoa Divina; por ser o sacrifício de Deus encarnado, esse sacrifício é absolutamente único. Em segundo lugar, porque tal doação a Deus é capaz de realizar plena e  incomparavelmente a comunhão do ser humano com Deus. Ele realizou a salvação de modo pleno, cabal (v. 28).
Aqui se abre a dimensão cristológica do discipulado exposto no Evangelho. Se a viúva é modelo do discípulo por dar-se totalmente a Deus (e, daí derivando, também seu amor ao próximo), a carta aos Hebreus, lida nesse contexto, mostra que Jesus é o modelo do discípulo, também porque ofereceu a Deus todo o seu ser, sem nada reter, incluindo sua vida e sua morte. Ele deu realmente tudo o que tinha (cf. Mc. 12,44).
Dicas para reflexão
– Estou atento ao fato de que Deus pode manifestar-se não só no que é mais vistoso, mas também nos mais frágeis, nos indigentes, nos sem-nome?
– Como é meu serviço na comunidade eclesial?
É realmente um serviço a Deus e a meus irmãos, ou a mim mesmo?
– Sei estar diante de Deus em atitude de adoração, para oferecer-lhe toda a minha vida,
todo o meu ser? Sei que essa oferta tem como modelo último o próprio Senhor, que deu a sua vida por nós?
Maria de Lourdes Corrêa Lima



Jesus ensina a autêntica generosidade
Os simples “se salvam pela ignorância”. Para os escribas vale o contrário: já que sabem, porém escondem sua cobiça de honra, banquetes e dinheiro atrás de longas orações, “esses receberão sentença mais severa”. Os escribas não são os fariseus. Estes eram judeus fervorosos, dados à observância da Lei até os mínimos detalhes. Para isso precisavam de assistência teológica, que lhes era fornecida pelos teólogos, os escribas. Os escribas geralmente aderiam à tendência farisaica, que lhes garantia freguesia e fama de santidade, mas nem por isso eram tão santos assim. Aconselhando “boas obras” às viúvas, proviam-se dos pobres recursos delas. Gostavam de todo tipo de precedência, até na boa comida. Nem todos, é claro (cf. ev. Dom. pass), mas muitos. Também hoje conhecemos os que explicam a Lei e os que a aplicam. O evangelho de hoje faz uma oposição entre a falsa piedade dos escribas (a hipocrisia) e a verdadeira piedade de suas vítimas, as viúvas, sinônimo de pessoas desprotegidas. Cita o exemplo de uma viúva que, depositando algumas moedinhas no templo, coloca “todo o seu viver”(literalmente cf. o texto grego) nas mãos de Deus, enquanto as pessoas abastadas, embora com muita ostentação, só dão de seu supérfluo.
A índole da viúva é confiar em Deus, já que vive à mercê das pessoas. A 1ª leitura nos narra um episódio para ilustrar isso. Elias está fugindo do ódio mortal que lhe dedica a rainha Jezabel, filha do rei da Fenícia. A fuga o leva à pátria dessa rainha. A fome o obriga a recorrer à casa de uma pobre viúva, antípoda da rainha. Ela está no fim de seus viveres. Vai cozinhar sua última farinha para si e seu filho, prevendo para depois a morte pela fome. Mas mesmo assim, dá preferência ao “homem de Deus” e lhe entrega seu último “viver”. E Deus recompensa sua entrega total: sua despensa nunca mais ficará vazia.
A mensagem global destes textos é que certos “homens da religião” estão muito longe do mistério da generosidade que se realizou no encontro do “homem de Deus” (Elias) e a viúva de Sarepta – uma pagã. Muitos homens da religião correm às casas das viúvas para se enriquecer, não para encher as despensas delas. Entretanto fazem ostentação de uma piedade que é a negação mesma da piedade da pobre viúva. Será que isso só existia em Israel, no tempo de Jesus?
“Esses terão uma sentença mais severa” fica soando em nossos ouvidos. A liturgia aponta para o tempo final. Está na hora de um exame de consciência. Onde estamos: na singela generosidade das viúvas, ou na “hipocrisia” dos teólogos? Para ser como as viúvas, é preciso ter a verdadeira fé, a certeza de estar na mão de Deus. A oração do dia nos incentiva para recorrermos a Deus em todos os perigos e lhe ficarmos completamente disponíveis. Pelo outro lado, a religião dos teólogos e legistas é apenas letra no papel (além de exploração dos simples e desprotegidos), não é entrega da vida. Os cantos (salmo responsorial, aclamação ao evangelho) vêm ajudar-nos para escolher o lado certo.
Um aparte para a 2ª leitura. É o texto fundamental de toda a teologia sacramental, especialmente a que se refere ao sacrifício eucarístico. Cristo significa o fim de todos os sacrifícios. Não estou falando das mortificações pedagógicas nem das dificuldades reais que as pessoas devem enfrentar em sua vida, para serem fiéis à sua vocação. Mas sacrifício mesmo, no sentido de destruição de um objeto ou uma vida, para apaziguar Deus – isso já não tem vez, depois de Cristo. Cristo é o sacerdote que entrou no Santuário santificado por seu próprio sangue, no qual todos são santificados. Sendo homem verdadeiro (Hb. 4,15!), vivendo a fidelidade à sua missão até o fim, mostrando que Deus é fidelidade e amor, Jesus aboliu todas as maneiras de aplacar Deus por sacrifícios violentos e sangrentos. Deus “se realiza” num escravo do amor até o fim, e desde que ele resumiu o culto a Deus nesta atitude, esta se toma para seus seguidores o único caminho de restauração e paz. Por isso, a cruz não pode mais ser repetida uma segunda vez. Nem se pode inventar outros meios para aplacar Deus, como, por exemplo, as obras da Lei: se estas salvassem, Cristo teria morrido em vão (Gl. 2,21). O sacrifício de Cristo não se repete; só pode ser comemorado, atualizado sempre de novo em cada existência cristã, em cada celebração de sua eterna atualidade. Também a vida cristã, consagrada ao testemunho do amor e da doação, não é uma repetição da morte de Cristo, mas a participação na sua presença. E surge aqui a perspectiva da consumação final: Jesus voltará para completar a salvação dos que depositaram nele sua esperança.
Johan Konings "Liturgia dominical"



A oferta dos pobres
Nos evangelhos a crítica à classe dirigente das sinagogas, do Templo e da Judeia, os escribas, os fariseus, os sacerdotes e os latifundiários, é muito contundente. Essa crítica atinge tanto a sua doutrina como a sua prática. A sua doutrina tem um sólido caráter ideológico em vista de consolidar seu prestígio e poder, religioso e político. A sua prática prioriza a acumulação de riqueza. Lucas caracteriza os fariseus como amigos do dinheiro (Lc. 16,14).
Nesta narrativa de Marcos, estando em Jerusalém e tendo expulsado os comerciantes do Templo, Jesus, ao ensinar aí, faz uma contundente advertência contra a prática dos escribas e o sistema deste Templo. Os evangelhos de Mateus (cap. 23) e Lucas (11,37-12,1) apresentam, cada um, um bloco com várias destas agressivas advertências, com vários "ais". Marcos restringe-se apenas a esta.
Os escribas, enquanto, de maneira hipócrita, fazem questão de ostentar piedade e prestígio, devoram as casas das viúvas. Em continuidade a esta denúncia, segue a narrativa da oferta da pobre viúva. O Templo de Jerusalém, como os templos dos impérios do Oriente, tinha um anexo, o Tesouro ou Gazofilácio (do grego gazophilakion), onde eram guardadas as riquezas acumuladas, que cresciam com os depósitos das ofertas feitos através de algumas pequenas aberturas externas, os "cofres".
Jesus, ostensivamente, senta-se diante do Tesouro e se põe a observar. A pobre viúva, como as multidões de empobrecidos que faziam sua peregrinação religiosa a Jerusalém e depositavam suas ofertas, sacrificava-se dando do necessário para viver, sendo assim explorada por aqueles que usufruíam das riquezas acumuladas no Tesouro do Templo. Esta multidão de excluídos (ochlós) lançava pequenas moedas, que somadas davam grande valor. Alguns ricos depositavam muito, o que não lhes pesava, pois eles próprios se beneficiavam do sistema do Templo.
Jesus chama a atenção sobre a viúva pobre que deu duas moedinhas, que era tudo o que tinha para viver. Com isso Jesus denuncia o próprio sistema do Templo. Com as exigências das estritas observâncias de suas leis, de seus dízimos e ofertas, os chefes do Templo exploram os pobres.
Na segunda leitura, a exaltação da autoimolação de Cristo, como sacerdote e vítima, é característica da controversa epístola aos Hebreus. Este enfoque, típico da doutrina sacrifical do Antigo Testamento, inspirou a espiritualidade do autossacrifício como agradável a Deus. De certo modo ela está presente no episódio da viúva de Sarepta (primeira leitura), que se sacrifica para alimentar o profeta, sendo recompensada por Deus. Tal espiritualidade, que favorece a opressão sobre o povo explorado e sofrido, não corresponde ao Deus de Jesus, Deus do amor e da libertação, que, de maneira paterna e materna, com carinho quer a vida plena de seus filhos.
José Raimundo Oliva


A liturgia do 32º domingo do tempo comum fala-nos do verdadeiro culto, do culto que devemos prestar a Deus. A Deus não interessam grandes manifestações religiosas ou ritos externos mais ou menos suntuosos, mas uma atitude permanente de entrega nas suas mãos, de disponibilidade para os seus projetos, de acolhimento generoso dos seus desafios, de generosidade para doarmos a nossa vida em benefício dos nossos irmãos.
A primeira leitura apresenta-nos o exemplo de uma mulher pobre de Sarepta, que, apesar da sua pobreza e necessidade, está disponível para acolher os apelos, os desafios e os dons de Deus. A história dessa viúva que reparte com o profeta os poucos alimentos que tem, garante-nos que a generosidade, a partilha e a solidariedade não empobrecem, mas são geradoras de vida e de vida em abundância.
O Evangelho diz, através do exemplo de outra mulher pobre, de outra viúva, qual é o verdadeiro culto que Deus quer dos seus filhos: que eles sejam capazes de Lhe oferecer tudo, numa completa doação, numa pobreza humilde e generosa (que é sempre fecunda), num despojamento de si que brota de um amor sem limites e sem condições. Só os pobres, isto é, aqueles que não têm o coração cheio de si próprios, são capazes de oferecer a Deus o culto verdadeiro que Ele espera.
A segunda leitura oferece-nos o exemplo de Cristo, o sumo-sacerdote que entregou a sua vida em favor dos homens. Ele mostrou-nos, com o seu sacrifício, qual é o dom perfeito que Deus quer e que espera de cada um dos seus filhos. Mais do que dinheiro ou outros bens materiais, Deus espera de nós o dom da nossa vida, ao serviço desse projeto de salvação que Ele tem para os homens e para o mundo.
1ª leitura: 1Re. 17,10-16 - AMBIENTE
Encontramos no Livro dos Reis um conjunto de tradições ligadas à vida e à ação de uma figura central do profetismo bíblico: o profeta Elias. Essas tradições aparecem, de forma intermitente, entre 1Re. 17,1 e 2Re. 2,12.
Elias (cujo nome significa “o meu Deus é o Senhor” – o que, por si só, constitui logo um programa de vida) atua no Reino do Norte (Israel) durante o século IX a.C., num tempo em que a fé jahwista é posta em causa pela preponderância que os deuses estrangeiros (especialmente Baal) assumem na cultura religiosa de Israel. Provavelmente, estamos diante de uma tentativa de abrir Israel a outras culturas, a fim de facilitar o intercâmbio cultural e comercial… Mas essas razões políticas não são entendidas nem aceites pelos círculos religiosos de Israel. O ministério profético de Elias desenvolve-se sobretudo durante o reinado de Acab (873-853 a.C.), embora a sua voz também se tenha feito ouvir no reinado de Ocozias (853-852 a.C.).
Elias é o grande defensor da fidelidade a Jahwéh. Ele aparece como o representante dos israelitas fiéis que recusavam a coexistência de Jahwéh e de Baal no horizonte da fé de Israel. Num episódio dramático, o próprio profeta chegou a desafiar os profetas de Baal para um duelo religioso que terminou com um massacre de quatrocentos profetas de Baal no monte Carmelo (cf. 1 Re. 18). Esse episódio é, certamente, uma apresentação teológica dessa luta sem tréguas que se trava entre os fiéis a Jahwéh e os que abrem o coração às influências culturais e religiosas de outros povos.
Para além da questão do culto, Elias defende a Lei em todas as suas vertentes (veja-se, por exemplo, a sua defesa intransigente das leis da propriedade em 1Re. 21, no célebre episódio da usurpação das vinhas de Nabot): ele representa os pobres de Israel, na sua luta sem tréguas contra uma aristocracia e uns comerciantes todo-poderosos que subvertiam a seu bel-prazer as leis e os mandamentos de Jahwéh.
O ciclo de Elias começa com o anúncio, diante do rei Acab, de uma seca que irá atingir Israel (cf. 1Re. 17,1). Essa seca é apresentada, não tanto como um castigo pelos pecados do rei, mas sobretudo como uma forma de mostrar que é Jahwéh (e não Baal, o deus cananeu das colheitas e da fertilidade, cujo culto era favorecido por Jezabel, a esposa fenícia de Acab) o verdadeiro senhor da vida que brota, cada ano, nos campos e nos rebanhos. A implacável seca leva, contudo, Elias para a cidade de Sarepta (hoje Sarafand), uma pequena cidade da costa fenícia, a cerca de 15 quilómetros a sul de Sídon. É aí que o nosso texto nos situa.
MENSAGEM
Elias chega a Sarepta e, correspondendo à indicação de Jahwéh, dirige-se a uma viúva da cidade. Pede-lhe água para beber e um pedaço de pão para comer. Nesse tempo dramático de fome e de seca, a mulher apenas tem um punhado de farinha e um pouco de azeite, que se prepara para comer com o filho, antes de se deitar à espera da morte; mas prepara o pão para Elias… E, por ação de Deus, durante todo o tempo que Elias aí permaneceu, nem a farinha se acabou na panela, nem o azeite faltou na almotolia.
Trata-se de uma história de cariz popular que, contudo, apresenta interessantes ensinamentos…
1. Com ela, o autor deuteronomista sugere que nessa luta entre Jahwéh e Baal pela supremacia, o Deus de Israel é o vencedor, pois é Ele que dá o trigo e o azeite de que o Povo se alimenta; mais, Jahwéh atua até em casa do seu “adversário” e entre os seus súbditos (Baal era o deus mais popular na Fenícia).
2. O fato de os beneficiários da ação de Jahwéh serem uma viúva e um órfão (os exemplos clássicos, na Bíblia, dos pobres, dos débeis, dos desfavorecidos, dos marginalizados) sugere que Jahwéh tem uma especial predileção pelos fracos, pelos pobres, por aqueles que nada têm, por aqueles que necessitam especialmente da proteção, da bondade e da misericórdia de Deus.
3. O pão e o azeite que a mulher reparte com o profeta multiplicam-se milagrosamente. O fato mostra que, quando alguém é capaz de sair do seu egoísmo e tem disponibilidade para partilhar os dons recebidos de Deus, esses dons chegam para todos e ainda sobram. A generosidade, a partilha e a solidariedade não empobrecem, mas são geradoras de vida e de vida em abundância.
4. A história sugere, ainda, que a graça de Deus é universal e se destina a todos os povos, sem distinção de raças, de fronteiras ou de crenças religiosas.
ATUALIZAÇÃO
A nossa história – como tantas outras histórias bíblicas – fala-nos da predilecção de Deus pelos desfavorecidos, pelos débeis, pelos pobres, pelos explorados, por aqueles que são colocados à margem da vida. Porquê? Porque Deus vê a história humana na perspectiva da luta de classes e escolhe um lado em detrimento do outro? Obviamente, não. No entanto, Deus opta preferencialmente pelos pobres porque, em primeiro lugar, eles vivem numa situação dramática de necessidade e precisam especialmente da bondade, da misericórdia e da ajuda de Deus; e, em segundo lugar, porque os pobres – sem bens materiais que os distraiam do essencial – estão sempre mais atentos e disponíveis para acolher os apelos, os desafios e os dons de Deus. Os “ricos”, ao contrário, estão sempre preocupados com os seus bens, com os seus interesses egoístas, com os seus projectos e preconceitos e não têm espaço para acolher as propostas que Deus lhes faz. Isto deve lembrar-nos, permanentemente, a necessidade de sermos “pobres”, de nos despirmos de tudo aquilo que pode atravancar o nosso coração e que pode impedir-nos de acolher os desafios e as propostas de Deus.
A mulher de Sarepta tinha, apenas, uma quantidade mínima de alimento, que queria guardar para si e para o seu filho; mas, desafiada a partilhar, viu esse escasso alimento ser multiplicado uma infinidade de vezes… A história convida-nos a não nos fecharmos em esquemas egoístas de acumulação e de lucro, esquecendo os apelos de Deus à partilha e à solidariedade com os nossos irmãos necessitados. Quando repartimos, com generosidade e amor, aquilo que Deus colocou à nossa disposição, não ficamos mais pobres; os bens repartidos tornam-se fonte de vida e de bênção para nós e para todos aqueles que deles beneficiam.
•A nossa história prova que só Jahwéh dá ao homem vida em abundância. É um aviso que não podemos ignorar… Todos os dias somos confrontados com propostas de felicidade e de vida plena que, quase sempre, nos conduzem por caminhos de escravidão, de dependência, de desilusão. Não é à volta do dinheiro, do carro, da casa, do cargo que temos na empresa, dos títulos acadêmicos que ostentamos, das honras que nos são atribuídas que devemos construir a nossa existência. Só Deus nos dá a vida plena e verdadeira; todos os outros “deuses” são elementos acessórios, que não devem afastar-nos do essencial.
2ª leitura: Hb. 9,24-28 - AMBIENTE
No passado domingo, o autor da Carta aos Hebreus apresentava Cristo como o sumo-sacerdote por excelência, não na linha do sacerdócio levítico, mas na linha do sacerdócio de Melquisedec… Hoje, passamos a outra secção (cf. Hb. 8,1-9,28), na qual o autor apresenta Cristo como o sacerdote perfeito e explica em que consiste essa perfeição e quais as suas consequências para a vida dos fiéis.
Depois de refletir sobre a imperfeição do culto antigo (cf. Hb. 8,1-6), a imperfeição da antiga Aliança (cf. Hb. 8,7-13) e a ineficácia dos sacrifícios oferecidos no Templo de Jerusalém (cf. Hb 9,1-10), o autor passa a explicar aos cristãos a quem a Carta se destina porque é que o sacrifício oferecido por Cristo é perfeito (cf. Hb. 9,11-14) e como é que, por esse sacrifício, Cristo se torna o mediador da Nova Aliança (cf. Hb. 9,15-22). No último parágrafo desta secção (cf. Hb. 9,23-28), o autor tira, para a vida dos fiéis, as consequências de tudo o que disse atrás, a propósito do sacerdócio perfeito de Cristo.
Dirigindo-se a cristãos em dificuldade, que já perderam o entusiasmo inicial e que, diante das dificuldades, correm o risco de renunciar ao compromisso assumido no dia do Batismo, o autor da Carta procura animá-los e revitalizar a sua experiência de fé.
MENSAGEM
No final da sua caminhada terrena com os homens, Cristo, o sacerdote perfeito, entrou no verdadeiro santuário que é o céu – a própria realidade de Deus, a comunhão com Deus. Vivendo em comunhão com o Pai, Ele continua a interceder pelos homens e a dispor o coração do Pai em favor dos homens (v. 24).
Mais: enquanto que o sumo-sacerdote da antiga Aliança tinha que entrar no santuário todos os anos (o autor refere-se ao Dia da Expiação – o “Yom Kippur” – o único dia do ano em que o sumo-sacerdote entrava no “Santo dos Santos” do Templo de Jerusalém, a fim de aspergir o “propiciatório” com o sangue de um animal imolado e obter, assim, o perdão de Deus para os pecados do Povo), Cristo entrou uma só vez no santuário perfeito, levando o seu próprio sangue, e obteve a redenção de toda a humanidade – desde a fundação do mundo, até ao final dos tempos. A entrega de Cristo, o seu sacrifício consumado no dom da vida, teve uma eficácia total e universal; com ela, Cristo conseguiu a destruição da condição pecadora do homem. A humanidade fica, a partir desse instante, definitivamente salva.
Quando Cristo voltar a manifestar-Se, no final dos tempos (parusia), não será nem para oferecer um novo sacrifício, nem para condenar o homem; mas será para oferecer a salvação definitiva àqueles que Ele, com o seu sacrifício, libertou do pecado.
ATUALIZAÇÃO
A idéia de que Cristo nos libertou do pecado com o seu sacrifício domina este texto. O que é que o autor da Carta aos Hebreus quer dizer com isto? Cristo veio a este mundo para libertar o homem das cadeias de egoísmo e de pecado que o prendiam. Nesse sentido, Cristo pediu uma “metanoia” (transformação radical) do coração, da mente, dos valores, das atitudes do homem e propôs, com a sua palavra, com o seu exemplo, com a sua vida, que o homem passasse a percorrer o caminho do amor, da partilha, do serviço, do perdão, do dom da vida. A sua entrega na cruz é a lição suprema que Ele quis deixar-nos – a lição do amor que renuncia ao egoísmo e que se faz dom total aos irmãos, até às últimas consequências. Mais, a sua luta contra o pecado levou-O a confrontar-Se com as estruturas políticas, sociais ou religiosas geradoras de injustiça e de opressão; a sua morte, arquitetada pelos detentores do poder (as autoridades políticas e religiosas do país), foi, também, a consequência da sua luta contra as estruturas que oprimiam o homem e que geravam egoísmo e morte. Ele ofereceu, de facto, a sua vida em sacrifício para nos libertar do pecado. A sua ressurreição revelou que Deus aceitou o seu sacrifício e que não deixará mais que o pecado roube ao homem a vida. Aderir a Jesus, ser cristão, é procurar viver, dia a dia, no seguimento de Jesus e fazer da própria vida um dom de amor aos irmãos; é, também, lutar contra todas as estruturas que geram injustiça e pecado. Gastar a vida dessa forma é participar da missão de Jesus, é colaborar com Ele para eliminar o pecado.
As outras leituras deste domingo falam-nos de desapego, de partilha, de capacidade para “dar tudo”. Cristo, com a entrega total da sua vida a Deus e aos homens, realizou plenamente esta dimensão. Ele mostrou-nos, com o seu sacrifício, qual é o dom perfeito que Deus quer e que espera de cada um dos seus filhos. Mais do que dinheiro ou outros bens materiais, Deus espera de nós o dom da nossa vida, ao serviço desse projeto de salvação que Ele tem para os homens e para o mundo.
A certeza de que Jesus Cristo, o sacerdote perfeito, venceu o pecado e está agora junto de Deus, intercedendo por nós e esperando o momento de nos oferecer a vida eterna, deve dar-nos confiança e esperança, ao longo da nossa caminhada diária pela vida. A Palavra de Deus que hoje nos é oferecida garante-nos que as nossas fragilidades e debilidades não podem afastar-nos da comunhão com Deus, da vida eterna; e, no final do nosso caminho, Jesus, o nosso libertador, lá estará à nossa espera para nos oferecer a vida definitiva.
Evangelho: Mc. 12,38-44 - AMBIENTE
O nosso texto situa-nos em Jerusalém, nos dias que antecedem a prisão, julgamento e morte de Jesus. Por esta altura, adensam-se as polêmicas de Jesus com os representantes do Judaísmo oficial. A cada passo fica mais claro que o projeto do Reino (proposto por Jesus) é incompatível com a visão religiosa dos líderes judaicos. Num ambiente carregado de dramatismo, adivinha-se o inevitável choque decisivo entre Jesus e a instituição judaica e prepara-se o cenário da cruz.
Jesus tem consciência de que os líderes da comunidade judaica tinham transformado a religião de Moisés – com os seus ritos, exigências legais, proibições e obrigações – numa proposta vazia e estéril. Mal-servida e manipulada pelos seus líderes religiosos, a comunidade judaica tinha-se transformado numa figueira seca (cf. Mc. 11,12-14. 20-26), onde Deus não encontrava os frutos que esperava (o culto verdadeiro e sincero, o amor, a justiça, a misericórdia). O próprio Templo – o espaço onde se desenrolavam abundantes ritos cultuais e suntuosas cerimônias litúrgicas – tinha deixado de ser o lugar do encontro de Deus com a comunidade israelita e tinha-se tornado um lugar de exploração e de injustiça, “um covil de ladrões” (cf. Mc. 11,15-19)
Jesus tem presente tudo isto quando ensina nos átrios do Templo, rodeado pelos discípulos. À sua volta desenrola-se esse folclore religioso, feito de ritos externos, de grandes gestos teatrais, frequentemente vazios de conteúdo. Os “doutores da Lei” (geralmente, do partido dos fariseus; estudavam e memorizavam as Escrituras e ensinavam aos seus discípulos as regras – ou “halakot” – que deviam dirigir cada passo da vida dos fiéis israelitas), com as suas vestes especiais e os traços característicos de quem se julgava com direito a todas as deferências, honras e privilégios, são mais um elemento no quadro desse culto de mentira que Jesus tem diante dos olhos.
Em contraponto, Jesus repara no “átrio das mulheres”, onde uma viúva deposita, no tesouro do Templo, a sua humilde oferta (dons voluntários eram feitos com frequência, tendo por finalidade, por exemplo, cumprir votos). As viúvas, no ambiente palestino de então (sobretudo quando não tinham filhos que as protegessem e alimentassem), eram o modelo clássico do pobre, do explorado, do débil.
MENSAGEM
O nosso texto  compõe-se, portanto, de duas partes. Na primeira  parte (vs. 38-40), Jesus faz incidir a atenção dos seus discípulos sobre o grupo dos doutores da Lei. Aparentemente, os doutores da Lei são figuras intocáveis da comunidade, com uma atitude religiosa irrepreensível. São estimados, admirados e adulados pelo povo, que os tem em alto conceito. Contudo, o olhar avaliador de Jesus não se detém nas aparências, mas penetra na realidade das coisas… Uma análise mais cuidada mostra que esses doutores da Lei são hipócritas e incoerentes: fazem as coisas, não por convicção, mas para serem considerados e admirados pelo povo; procuram os primeiros lugares, preocupam-se em afirmar a sua superioridade diante dos outros, exibem uma devoção de fachada, fazem do cumprimento dos ritos e regras da Lei um espetáculo para os outros aplaudirem… A sua vida é, portanto, um imenso repertório de mentira, de incoerência, de hipocrisia… Como se isso não bastasse, estes doutores da Lei aproveitam-se, frequentemente, da sua posição e da confiança que inspiram – como intérpretes autorizados da Lei de Deus – para explorar os mais pobres (aqueles que são os preferidos de Deus); servem-se da religião para satisfazer a sua avareza, não têm escrúpulos em aproveitar-se boa-fé das pessoas para aumentar os seus proveitos; exploram as viúvas, que lhes confiam a administração dos próprios bens, alinham em esquemas de corrupção e de exploração…
Os doutores da Lei, com os seus comportamentos hipócritas, mostram que os ritos externos, os gestos teatrais, o cumprimento das regras religiosamente correctas não chegam para aproximar os homens de Deus e da santidade de Deus. Ao olhar para a atitude dos doutores da Lei, os discípulos de Jesus têm de estar conscientes de que este não é o comportamento que Deus pede àqueles que querem fazer parte da sua família.
Na segunda parte (vs. 41-44), Jesus convida os discípulos a perceber a essência do verdadeiro culto, da verdadeira atitude religiosa. Em profundo contraste com o quadro dos doutores da Lei, Jesus aponta aos discípulos a figura de uma pobre viúva, que se aproxima de um dos treze recipientes situados no átrio do Templo, onde se depositavam as ofertas para o tesouro do Templo. A mulher deposita aí duas simples moedas (dois “leptá”, diz o texto grego. O “leptá” era uma moeda de cobre, a mais pequena e insignificante das moedas judaicas); contudo, aquela quantia insignificante era tudo o que a mulher possuía. Ninguém, exceto Jesus, repara nela ou manifesta admiração pelo seu gesto. Apenas Jesus – que lê os fatos com os olhos de Deus e sabe ver para além das aparências – percebe naquelas duas insignificantes moedas oferecidas a marca de um dom total, de um completo despojamento, de uma entrega radical e sem medida. O encontro com Deus, o culto que Deus quer passa por gestos simples e humildes, que podem passar completamente despercebidos, mas que são sinceros, verdadeiros, e expressam a entrega generosa e o compromisso total. O verdadeiro crente não é o que cultiva gestos teatrais e espampanantes, que impressionam as multidões e que são aplaudidos pelos homens; mas é o que aceita despojar-se de tudo, prescindir dos seus interesses e projetos pessoais, para se entregar completa e gratuitamente nas mãos de Deus, com humildade, generosidade, total confiança, amor verdadeiro. É este o exemplo que os discípulos de Jesus devem imitar; é esse o culto verdadeiro que eles devem prestar a Deus.
ATUALIZAÇÃO
Qual é o verdadeiro culto que Deus espera de nós? Qual deve ser a nossa resposta à sua oferta de salvação? A forma como Jesus aprecia o gesto daquela pobre viúva não deixa lugar a qualquer dúvida: Deus não valoriza os gestos espectaculares, cuidadosamente encenados e preparados, mas que não saem do coração; Deus não se deixa impressionar por grandes manifestações cultuais, por grandes e impressionantes manifestações religiosas, cuidadosamente preparadas, mas hipócritas, vazias e estéreis… O que Deus pede é que sejamos capazes de Lhe oferecer tudo, que aceitemos despojar-nos das nossas certezas, das nossas manifestações de orgulho e de vaidade, dos nossos projetos pessoais e preconceitos, a fim de nos entregarmos confiadamente nas suas mãos, com total confiança, numa completa doação, numa pobreza humilde e fecunda, num amor sem limites e sem condições. Esse é o verdadeiro culto, que nos aproxima de Deus e que nos torna membros da família de Deus. O verdadeiro crente é aquele que não guarda nada para si, mas que, dia a dia, no silêncio e na simplicidade dos gestos mais banais, aceita sair do seu egoísmo e da sua auto-suficiência e colocar a totalidade da sua existência nas mãos de Deus.
Como na primeira leitura, também no Evangelho temos um exemplo de uma mulher pobre (ainda mais, uma viúva, que pertence à classe dos abandonados, dos débeis, dos mais pobres de entre os pobres), que é capaz de partilhar o pouco que tem. Na reflexão bíblica, os pobres, pela sua situação de carência, debilidade e necessidade, são considerados os preferidos de Deus, aqueles que são objeto de uma especial proteção e ternura por parte de Deus. Por isso, eles são olhados com simpatia e até, numa visão simplista e idealizada, são retratados como pessoas pacíficas, humildes, simples, piedosas, cheias de “temor de Deus” (isto é, que se colocam diante de Deus com serena confiança, em total obediência e entrega). Este retrato, naturalmente um pouco estereotipado, não deixa de ter um sólido fundo de verdade: só quem não vive para as riquezas, só quem não tem o coração obcecado com a posse dos bens (falamos, naturalmente, do dinheiro, da conta bancária; mas falamos, igualmente, do orgulho, da auto-suficiência, da vontade de triunfar a todo o custo, do desejo de poder e de autoridade, do desejo de ser aplaudido e admirado) é capaz de estar disponível para acolher os desafios de Deus e para aceitar, com humildade e simplicidade, os valores do Reino. Esses são os preferidos de Deus. O exemplo desta mulher garante-nos que só quem é “pobre” – isto é, quem não tem o coração demasiado cheio de si próprio – é capaz de viver para Deus e de acolher os desafios e os valores do Reino.
A figura dos doutores da Lei está em total contraste com a figura desta mulher pobre. Eles têm o coração completamente cheio de si; estão dominados por sentimentos de egoísmo, de ambição e de vaidade, apostam tudo nos bens materiais, mesmo que isso implique explorar e roubar as viúvas e os pobres… Na verdade, no seu coração não há lugar para Deus e para os outros irmãos; só há lá lugar para os seus interesses mesquinhos e egoístas. Eles são a antítese daquilo que os discípulos de Jesus devem ser; não apreciam os valores do Reino e, dessa forma, não podem integrar a comunidade do Reino. Podem ter atitudes que, na aparência, são religiosamente corretas, ou podem mesmo ser vistos como autênticos pilares da comunidade do Povo de Deus; mas, na verdade, eles não fazem parte da família de Deus. Nunca é demais refletirmos sobre este ponto: quem vive para si e é incapaz de viver para Deus e para os irmãos, com verdade e generosidade, não pode integrar a família de Jesus, a comunidade do Reino.
•Jesus ensina-nos, neste episódio, a não julgarmos as pessoas pelas aparências. Muitas vezes é precisamente aquilo que consideramos insignificante, desprezível, pouco edificante, que é verdadeiramente importante e significativo. Muitas vezes Deus chega até nós na humildade, na simplicidade, na debilidade, nos gestos silenciosos e simples de alguém em quem nem reparamos. Temos de aprender a ir ao fundo das coisas e a olhar para o mundo, para as situações, para a história e, sobretudo, para os homens e mulheres que caminham ao nosso lado, com o olhar de Deus. É precisamente isso que Jesus faz.
Uma das críticas que Jesus faz aos doutores da Lei é que eles se servem da religião, da sua posição de intérpretes oficiais e autorizados da Lei, para obter honras e privilégios. Trata-se de uma tentação sempre presente, ontem como hoje… Em nenhum caso a nossa fé, o nosso lugar na comunidade, a consideração que as pessoas possam ter por nós ou pelas funções que desempenhamos podem ser utilizadas, de forma abusiva, para “levar a água ao nosso moinho” e para conseguir privilégios particulares ou honras que não nos são devidas. Utilizar a religião para fins egoístas é um comércio ilícito e abominável, e constitui um enorme contra-testemunho para os irmãos que nos rodeiam.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho



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