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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

4º DOMINGO COMUM- Ano C

4º DOMINGO COMUM
Ano C
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31 de Janeiro

Evangelho Lc 4,21-30



Logo após Jesus ter dito que o Espírito de Deus estava com Ele, Ele afirmou que :Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura  que acabastes de ouvir.”  E a maioria ali presente ficou entusiasmados com suas palavras bonitas e cheias de magia celestial. Eles ficaram admirados com as palavras cheias de encanto  que saíram de sua boca.  Continua
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JESUS O PROFETA DE ONTEM DE HOJE E DE SEMPRE! – Olívia Coutinho

4º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 31 de Janeiro  de 2014

Evangelho de Lc  4,21-30

O caminho do profeta, é um caminho marcado pela perseguição, pela rejeição e até mesmo pela a incompreensão dos que fazem parte do seu convívio.
Jesus, o profeta de ontem, de hoje e de sempre, passou por esta  experiência, além de rejeitado pelas autoridades políticas e religiosas,  foi  rejeitado também,  pelos seus conterrâneos.
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, nos traz uma amostra dos desafios enfrentados pelos profetas de ontem e que os profetas de hoje continuam enfrentando! Como podemos observar no relato, no caminho do profeta, está presente  a cruz, já que são muitos  os que tentam  calar a sua voz, o que é impossível, pois nem a morte é capaz de calar a voz do profeta, é justamente  depois de sua morte, que a sua  voz  passa a ressoar com mais intensidade ainda nos ouvidos da humanidade, chegando a todos os confins da terra, assim como aconteceu com Jesus!
O texto que nos é apresentado nos  fala do retorno de Jesus  a sua cidade de origem, quando Ele experimenta no corpo e na alma a dor da rejeição que certamente doeu mais forte ainda, por partir dos seus próprios conterrâneos, aqueles  que deveriam ser os primeiros a acolhê-Lo.   
A admiração pelas palavras de Jesus, manifestada a princípio, por aquele  povo, cai  por terra quando a identidade do Messias, anunciado pelos profetas do antigo testamento vai sendo revelada em Jesus.  Em resumo, os conterrâneos de Jesus, que julgavam conhecê-Lo, ficaram somente  no superficial,  na sua condição social, o mais importante, estava longe de ser percebido por eles: o Rosto humano do  Pai, se revelando no filho de um simples carpinteiro!
Certamente, os habitantes de Nazaré,  esperava por um  Messias, extraordinário, milagreiro, que realizasse as suas vontades, por isto não aceitaram um Messias de aparência  simples, que tinha um olhar voltado para os pequenos, os pobres, os marginalizados, os oprimidos.
Os compatriotas de Jesus, tiveram  nas mãos a chave da felicidade, mas não se deram conta desta preciosidade, por isto desperdiçaram a graça de Deus e como conseqüência, não alcançaram as primícias da fé! Ali, Jesus não realizou muitos milagres, não, por retaliação, mas pela falta de fé daquele povo.     
Será  que nós  também, não temos atitudes semelhantes ao do  povo de Nazaré? Será  que aceitamos o recado de  Deus, que sempre chega até a nós, por meio das pessoas simples?  Dificilmente  reconhecemos a sabedoria presente nas  pessoas simples,  temos uma forte tendência de  acreditar somente  nas palavras retóricas das pessoas  de alto "nível intelectual", com isso, deixamos escapar as mensagens que Deus quer nos passar através dos “pequenos”,  esquecendo  de que Jesus, o  Mestre de todos os mestres, o profeta Maior de todos os tempos, serviu-se de meios humanos bem simples, para anunciar o reino de Deus!
 Infelizmente a humanidade continua divida, uns acolhe a voz do profeta e se dispõe a mudar de vida, outros, ignoram a sua  fala, preferindo continuar  no caminho  do pecado.
A rejeição contra Jesus, narrada no evangelho, não interrompeu o anúncio do Reino, que continua ainda  hoje, através dos incansáveis profetas de hoje: homens e mulheres que se embrenham pelo caminho da cruz, dispostos a dar a vida se preciso for, pela causa do Reino.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! Olivia Coutinho
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A virtude da caridade
I. A segunda leitura da missa recorda-nos o chamado hino da caridade, uma das mais belas páginas das epístolas de são Paulo (1).
O Espírito Santo fala-nos hoje, por intermédio do Apóstolo, de umas relações entre os homens completamente desconhecidas do mundo pagão, pois têm um fundamento totalmente novo: o amor a Cristo. Todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes2. Com a ajuda da graça, o cristão descobre Deus no seu próximo; sabe que todos somos filhos do mesmo Pai e irmãos de Jesus Cristo.
A virtude sobrenatural da caridade não é um mero humanitarismo. “O nosso amor não se confunde com a atitude sentimental, nem com a simples camaradagem, nem com o propósito pouco claro de ajudar os outros para provarmos a nós mesmos que somos superiores. É conviver com o próximo, venerar [...] a imagem de Deus que há em cada homem, procurando que também ele a contemple, para que saiba dirigir-se a Cristo” (3).
O Senhor deu um conteúdo inédito e incomparavelmente mais alto ao amor ao próximo, destacando-o como mandamento novo e verdadeiro distintivo dos cristãos4. A medida do amor que devemos ter pelos outros é o próprio amor divino: como eu vos amei; trata-se, portanto, de um amor sobrenatural, que o próprio Deus põe em nossos corações. É ao mesmo tempo um amor profundamente humano, enriquecido e fortalecido pela graça.
Sem caridade, a vida ficaria vazia... A eloqüência mais sublime e todas as boas obras – se pudessem dar-se – seriam como o som de um sino ou de um címbalo, que dura um instante e desaparece. Sem caridade, diz-nos o Apóstolo, de pouco servem os dons mais preciosos: Se não tiver caridade, nada sou. Muitos doutores e escribas sabiam mais de Deus, imensamente mais, que a maioria daqueles que acompanhavam Jesus – gente que ignora a lei (5) –, mas a sua ciência ficou sem fruto. Não entenderam o fundamental: a presença do Messias entre eles e a sua mensagem de compreensão, de respeito, de amor.
A falta de caridade embota a inteligência para o conhecimento de Deus e da dignidade do homem. O amor, pelo contrário, desperta, afina e aguça as potências. Somente a caridade – amor a Deus e ao próximo por Deus – nos prepara e dispõe para entender Deus e o que a Deus se refere, até onde uma criatura pode fazê-lo. Quem não ama não conhece a Deus – ensina são João –, porque Deus é amor (6). A virtude da esperança também se torna estéril sem a caridade, “pois é impossível alcançar aquilo que não se ama” (7); e todas as obras são vãs sem a caridade, mesmo as mais custosas e as que comportam sacrifícios: Se eu repartir todos os meus bens e entregar o meu corpo ao fogo, mas não tiver caridade, isso de nada me aproveita. A caridade não pode ser substituída por nada.
II. São Paulo aponta as qualidades que adornam a caridade e diz em primeiro lugar que a caridade é paciente. Para fazer o bem, deve-se antes de mais nada saber suportar o mal.
A paciência denota uma grande fortaleza. É necessária para nos fazer aceitar com serenidade os possíveis defeitos, as suscetibilidades ou o mau-humor das pessoas com quem convivemos. É uma virtude que nos levará a esperar o momento adequado para corrigir; a dar uma resposta afável, que muitas vezes será o único meio de conseguir que as nossas palavras calem fundo no coração da pessoa a quem nos dirigimos. É uma grande virtude para a convivência. Por meio dela imitamos a Deus, que é paciente com os nossos inúmeros erros e sempre tardo em irar-se8; imitamos Jesus Cristo que, conhecendo bem a malícia dos fariseus, “condescendeu com eles para ganhá-los, à semelhança dos bons médicos, que dão os melhores remédios aos doentes mais graves”9.
A caridade é benigna, isto é, está disposta de antemão a acolher a todos com benevolência. A benignidade só se enraíza num coração grande e generoso; o melhor de nós mesmos deve ser para os outros.
A caridade não é invejosa. Da inveja nascem inúmeros pecados contra a caridade: a murmuração, a detração, a satisfação perante a adversidade do próximo e a tristeza perante a sua prosperidade. A inveja é freqüentemente a causa de que se abale a confiança entre amigos e a fraternidade entre irmãos. É como um câncer que corrói a convivência e a paz. São Tomás de Aquino chama-a “mãe do ódio”.
A caridade não é jactanciosa, não se ensoberbece. Sem humildade, não pode haver nenhuma outra virtude, e particularmente não pode haver amor. Em muitas faltas de caridade houve previamente outras de vaidade e orgulho, de egoísmo, de vontade de aparecer. “O horizonte do orgulhoso é terrivelmente limitado: esgota-se em si mesmo. O orgulhoso não consegue olhar para além da sua pessoa, das suas qualidades, das suas virtudes, do seu talento. É um horizonte sem Deus. E neste panorama tão mesquinho, nunca aparecem os outros, não há lugar para eles” (10).
A caridade não é interesseira. Não pede nada para a própria pessoa; dá sem calcular o que pode receber de volta. Sabe que ama a Jesus nos outros e isso lhe basta. Não só não é interesseira, mas nem sequer anda à busca do que lhe é devido: busca Jesus.
A caridade não guarda rancor, não conserva listas de agravos pessoais; tudo desculpa. Não somente nos leva a pedir ajuda ao Senhor para desculpar a palha que possa haver no olho alheio, mas nos faz sentir o peso da trave no nosso, as nossas muitas infidelidades.
A caridade tudo crê, tudo espera, tudo tolera. Tudo, sem nenhuma exceção.
Podemos dar muito aos outros: fé, alegria, um pequeno elogio, carinho... Nunca esperemos nada em troca, nem sequer um olhar de agradecimento. Não nos incomodemos se não somos correspondidos: a caridade não busca o seu, aquilo que, considerado humanamente, poderia parecer que lhe é devido. Não busquemos nada e teremos encontrado Jesus.
III. A caridade não termina nunca. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência findará [...]. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a mais excelente delas é a caridade11.
Estas três virtudes são as mais importantes da vida cristã porque têm o próprio Deus por objeto e fim. Mas a fé e a esperança não subsistem no Céu: a fé é substituída pela visão beatífica; a esperança, pela posse de Deus. A caridade, no entanto, perdura eternamente; é, já aqui na terra, um começo do Céu, e a vida eterna consistirá num ato ininterrupto de caridade (12).
Esforçai-vos por alcançar a caridade (13), urge-nos o Apóstolo São Paulo. É o maior dom e o principal mandamento do Senhor. Será o distintivo pelo qual se reconhecerá que somos discípulos de Cristo14; é uma virtude que, para bem ou para mal, estaremos pondo à prova em cada instante da nossa vida.
Porque a qualquer hora podemos prestar ajuda numa necessidade, ter uma palavra amável, evitar uma murmuração, dirigir uma palavra de alento, fechar os olhos a uma desconsideração, interceder junto de Deus por alguém, dar um bom conselho, sorrir, ajudar a criar um clima mais descontraído e risonho na família ou no trabalho... Podemos fazer o bem ou omiti-lo; ou então, além das omissões, causar um mal direto aos outros, magoá-los e talvez, em casos extremos, contribuir para a sua destruição. E a caridade insta-nos continuamente a ser ativos no amor, com obras de serviço, com oração e também com penitência.
Quando crescemos na caridade, todas as virtudes se enriquecem e se tornam mais fortes. E nenhuma delas é verdadeira virtude se não estiver impregnada de caridade: “Tens tanto de virtude quanto de amor, e não mais” (15).
Se recorrermos freqüentemente à Virgem, Ela nos ensinará a relacionar-nos com os outros e a amá-los, pois é Mestra de caridade. “A imensa caridade de Maria pela humanidade faz com que também nEla se cumpra a afirmação de Cristo: Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15,13)” (16). A nossa Mãe Santa Maria também se entregou por nós.
Francisco Fernández-Carvajal
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Se procurarmos uma idéia que dê unidade as leituras da Missa de hoje, encontraremos a fé. Comecemos pelo Evangelho. Após ler o trecho do rolo de Isaías, “O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu... para levar a Boa Nova aos pobres e proclamar o Ano da graça do Senhor”, Jesus afirma, cheio de autoridade: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. É uma afirmação ousada. Somente quando o Messias viesse tal Escritura seria cumprida. Jesus, portanto, apresenta-se como o Messias. E o encanto de seu ensinamento dá testemunho de que ele é verdadeiro... Mas, infelizmente, crer não é fácil... sobretudo quando Deus nos visita de modo humildade, corriqueiro, nas coisas pequenas e banais. E, assim, os nazarenos se escandalizam com Jesus: “Não é este o filho de José?” Como pode alguém nosso, alguém tão do nosso meio ser o Messias? Como pode Deus se manifestar por este, que cresceu e viveu entre nós? Santo de casa não faz milagre! Gostamos do excepcional, da novidade, do exótico! O quanto é necessário sermos abertos para discernir a Palavra e o apelo do Senhor naqueles que nos são enviados e convivem conosco! O quanto precisamos aprender que Deus não é somente Deus de longe, mas também Deus de perto! A mesma experiência o profeta Jeremias fizera antes de Jesus. E o Senhor ordena que seu profeta fale e que não tenha medo, ainda que seja incompreendido e rejeitado pelo seu povo e seus parentes: “Não tenhas medo, senão eu te farei tremer na presença deles. Eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze... Eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque estou contigo para defender-te!”
Por um lado, o Senhor exige fé e confiança absoluta daqueles que ele envia, de seus profetas; por outro lado, espera daqueles aos quais o profeta é enviado, espera do seu povo, a capacidade de discernir, de acolher, de crer! E quantas vezes não cremos: pensamos que Deus se calou, que não mais se manifesta, não mais nos dirige a Palavra. E, no entanto, o Senhor nos interpela por seus profetas, por aqueles que , tantas vezes, são na Comunidade e na vida uma palavra de Deus para nós! Caso não sejamos abertos à Palavra, corremos o risco de perdê-la. É o que Jesus recorda aos nazarenos: a viúva pagã de Sarepta e o leproso Naamã, também ele pagão, foram mais abençoados que as viúvas e os leprosos de Israel, porque foram abertos... Os nazarenos sentiram-se ofendidos porque Jesus insinuou que eles não tinham fé e não sabiam discernir nele Aquele que o Pai enviara... e terminam por expulsar Jesus de sua cidade. É dramático: a falta de fé fez os nazarenos expulsarem o Messias, o Enviado de Deus. A falta de fé e discernimento, a cegueira do coração, a dureza e o fechamento para as novidades de Deus, podem fazer o mesmo conosco: expulsar do coração e da vida aqueles que nos trazem a Palavra do Senhor e sua vontade a nosso respeito.
Mas, por sua vez, aqueles que são testemunhas do Senhor e ministros do Evangelho, devem estar preparados para a possibilidade de serem rejeitados. Somente os falsos pregadores, os malditos vendedores do Evangelho, os missionários de televisão, é que pregam uma adesão a Jesus fácil e que resolve nossos problemas. Na verdade, seguir o Cristo nos amadurece e nos faz, muitas vezes, enfrentar problemas e contradições. Qualquer um que queira colocar-se a serviço do Senhor, deve preparar-se para tal contradição: “Meu filho, se te ofereceres para servir o Senhor, prepara-te para a prova. Endireita teu coração e sê constante... Tudo o que te acontecer, aceita-o, e nas vicissitudes que te humilharem, sê paciente” (Eclo 2,1.4). Como Jesus e os profetas que vieram antes dele, o serviço e a fidelidade ao Evangelho nos colocam em dificuldades e provações! É a dor do Reino de Deus!
A mesma visão de fé que faz distinguir os profetas do Senhor, também nos abre os olhos para reconhecer nos outros irmãos de verdade, irmãos no Senhor, e amá-los de todo o coração. É este o verdadeiro dom, o maior carisma de que fala São Paulo na segunda leitura. Aí, o Apóstolo não fala de um amor-sentimento, amor-simpatia, amor-amizade, mas do amor-caridade, o amor de Deus, que é o Espírito Santo derramado em nossos corações, amor que é capaz de dar a vida... amor como aquele do Cristo que nos amou primeiro e amou-nos até o fim! É este amor, que nasce da raiz do amor a Deus, da abertura para Deus, da intimidade com Deus, que dá sentido a todas as coisas. E sem ele, nada tem sentido para o Reino de Deus... nem a fé! Em última análise, quem salva não é a fé, mas o amor que dá vida e sabor à fé! E o amor a Deus, que desabrocha no amor aos irmãos, é concreto, tem que ser concreto: pode ser visto na paciência, na benignidade, na generosidade, na humildade, na gratuidade, na mansidão, na retidão, na verdade... E São Paulo recorda que um amor assim é coisa de adultos na fé. Quem não ama é imaturo na fé, é criança que pensa e age como criança! Só o amor nos amadurece, só o amor nos faz ver os outros e a vida com os olhos de Deus
Eis, então, de modo resumido, o desafio, o convite da Palavra de Deus hoje:
(1) uma fé, uma capacidade de acolher o Senhor, de tal modo que reconheçamos que ele vem a nós na palavra e no testemunho de tantos irmãos e irmãs que conosco convivem;
(2) uma fé capaz de suportar com paciência e alegria os reveses da missão que Deus nos confiou e
(3) uma fé capaz de desabrochar em amor aos irmãos; amor provado e revelado em atitudes concretas.
Creiamos: somos a Igreja, Comunidade do Senhor Jesus, continuamente vivificada e orientada pelo seu Espírito de amor! Arrisquemos crer; arrisquemos viver de amor... e experimentaremos a doçura do Senhor e a alegria de viver como irmãos.

SEGUNDA HOMILIA

Caríssimos irmãos, comecemos nossa meditação da santa Palavra de Deus com os olhos fixos em Jesus: na sinagoga de Nazaré ele exerce sua missão de Messias de Israel e sofre as conseqüências de tal missão; conseqüências que o levarão à cruz...
Jesus anuncia que o Reino do Pai chegou: ele o Filho veio trazer o “Ano da graça do Senhor” – basta recordar o evangelho do Domingo passado...
O nosso bendito Salvador, meus caros, não veio por si mesmo. Como Jeremias, na primeira leitura deste hoje, Jesus foi enviado e desde o seio materno marcado para a missão de salvar a humanidade. Ele bem poderia rezar ao seu Pai do céu com as palavras do Salmista hoje: “Sois meu apoio desde antes que eu nascesse, desde o seio maternal, o meu amparo. Vós me ensinastes desde a minha juventude e até hoje canto as vossas maravilhas”. Assim viveu Jesus, meus irmãos, assim pregou, assim se portou: unicamente comprometido com a vontade do Pai, colocando nele seu amor refúgio e confiança. Quantas vezes não terá ele, o nosso Senhor, rezado estas palavras que rezamos na Missa deste Domingo: “Eu procuro meu refúgio em vós, Senhor: que eu não seja envergonhado para sempre! Sede uma rocha protetora para mim, um abrigo bem seguro que me salve!” Se olharmos bem, o nosso Jesus nunca buscou sua própria vontade ou sua glória, mas somente a vontade e a glória do Pai e, cheio de coragem, foi fiel em dizer o que tinha que dizer e anunciar o que tinha que anunciar. Nele, cumpriram-se perfeitamente as palavras dirigidas a Jeremias profeta: “Vamos, levanta-te! Comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer! Não tenhas medo! Eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze. Eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo!”
Caríssimos em Cristo, o nosso caminho e o nosso modo de viver não podem ser diferentes daquele do nosso Mestre e Senhor! Também nós, hoje, somos chamados a viver plenamente – como ele viveu – na vontade do nosso Deus e Senhor; somos chamados a dizer ao mundo, sem medo nem meias palavras, o pensamento do Deus único e verdadeiro, como Jesus o fez! E seremos muita vez incompreendidos como ele foi, mas experimentaremos sua força, seu consolo, sua presença. Eis a nossa missão profética, como batizados. Tal missão não é ser crítico e mal-educados, mas ser dóceis à voz do Senhor e anunciar ao mundo a doçura e alegria da salvação, mas sem esconder suas exigências e rupturas que ela provoca!
E o modo de temperar nossa vida e nossa missão com a sabedoria de Cristo é, precisamente, aquele que São Paulo nos indica na segunda leitura: o amor-caridade. Este amor não é um sentimento qualquer, mas o próprio amor de Deus derramado em nosso coração pelo Espírito (cf. Rm 5,5). É este amor de Deus em nós, amados em Cristo, que dá o valor a tudo quanto digamos e façamos, é este amor que nos fará compreender tudo com o coração de Cristo, é este amor que nos dá a justa medida; finalmente, este amor nos une a Deus que é amor e nos faz participar daquele amor com que Cristo nos amou e se entregou por nós até a morte, como hoje, na sinagoga de Nazaré. Incompreendido, ele não desanimou, ultrajado, não revidou, expulso da sinagoga, continuou em paz o seu caminho, mesmo já compreendendo que ele terminaria na cruz.
Assim, amados irmãos, aprendamos do Senhor este amor ou, melhor ainda, supliquemos ao Senhor tal amor, recordando que esse amor é fruto da presença do próprio Espírito de amor em nós. Assim, arrisquemos ainda neste terceiro milênio, a viver o amor e, por amor, dar Jesus ao mundo. Só nele experimentaremos a presença do Senhor, como aquela viúva de Sarepta, e seremos curados de nossas lepras, como o sírio Naamã. Nunca esqueçamos: só o amor revela o sentido e o valor a todas as coisas. Este amor é de Deus, nos aparece em Cristo, e nos é derramado pelo Santo Espírito. Viver nele é viver o céu na terra e iluminar as trevas do mundo. Que o Senhor no-lo conceda. Amém.
dom Henrique Soares da Costa
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O tema da liturgia deste domingo convida a refletir sobre o “caminho do profeta”: caminho de sofrimento, de solidão, de risco, mas também caminho de paz e de esperança, porque é um caminho onde Deus está. A liturgia de hoje assegura ao “profeta” que a última palavra será sempre de Deus: “não temas, porque Eu estou contigo para te salvar”.
A primeira leitura apresenta a figura do profeta Jeremias. Escolhido, consagrado e constituído profeta por Jahwéh, Jeremias vai arrostar com todo o tipo de dificuldades; mas não desistirá de concretizar a sua missão e de tornar uma realidade viva no meio dos homens a Palavra de Deus.
O Evangelho apresenta-nos o profeta Jesus, desprezado pelos habitantes de Nazaré (eles esperavam um Messias espetacular e não entenderam a proposta profética de Jesus). O episódio anuncia a rejeição de Jesus pelos judeus e o anúncio da Boa Nova a todos os que estiverem dispostos a acolhê-la – sejam pagãos ou judeus.
A segunda leitura parece um tanto desenquadrada desta temática: fala do amor – o amor desinteressado e gratuito – apresentando-o como a essência da vida cristã. Pode, no entanto, ser entendido como um aviso ao “profeta” no sentido de se deixar guiar pelo amor e nunca pelo próprio interesse… Só assim a sua missão fará sentido.
1ª leitura: Jr. 1,4-5.17-19 - AMBIENTE
A atividade profética de Jeremias começa por volta de 627/626 a.C. (quando o profeta teria pouco mais de vinte anos) e prolonga-se até depois da queda de Jerusalém nas mãos dos Babilônios (586 a.C.). O cenário dessa atividade é, em geral, o reino de Judá (e, sobretudo, a cidade de Jerusalém).
É uma época muito conturbada, quer a nível político, quer a nível religioso. Judá acabou de sair dos reinados de Manassés (698-643 a.C.) e de Amon (643-640 a.C.), reis ímpios que multiplicaram no país os altares aos deuses estrangeiros e levaram o Povo a afastar-se de Jahwéh. Na época em que Jeremias começa o seu ministério profético, o rei de Judá é Josias (640-609 a.C.): trata-se de um rei bom, que procura eliminar o culto aos deuses estrangeiros e concentrar a vida litúrgica de Judá num único lugar – o Templo de Jerusalém. No entanto, a reforma religiosa levada a cabo por Josias levanta algumas resistências; por outro lado, é uma reforma que é mais aparente do que real: não se pode, por decreto e de repente, corrigir o coração do Povo e eliminar hábitos religiosos cultivados ao longo de algumas dezenas de anos.
É neste ambiente que Jeremias é chamado por Deus e enviado em missão.
MENSAGEM
O texto que nos é proposto apresenta o relato que Jeremias faz do seu chamamento por Deus. Mais do que uma reportagem do “momento” em que Deus chamou o profeta, trata-se de uma reflexão e de uma catequese sobre esse mistério sempre antigo e sempre novo a que chamamos “vocação”.
A vocação profética, na perspectiva de Jeremias, é, em primeiro lugar, um encontro com Deus e com a sua Palavra (“a Palavra do Senhor foi-me dirigida…” – v. 4). A Palavra marca, a partir daí, a vida do profeta e passa a ser, para ele, a única coisa decisiva.
Em segundo lugar, a vocação é um desígnio divino: foi Deus que escolheu, consagrou e constituiu Jeremias como profeta. Dizer que Deus “escolheu” o profeta (literalmente, “conheceu” – do verbo “yada‘”) é dizer que Deus, por sua iniciativa, estabeleceu desde sempre com ele uma relação estreita e íntima, de forma que o profeta, vivendo na órbita de Deus, aprendesse a discernir os planos de Deus para os homens e para o mundo. Dizer que Deus “consagrou” o profeta significa que Deus o “reservou”, que o “pôs à parte” para o seu serviço. Dizer que Deus “constituiu” o profeta “para as nações” significa que Deus lhe confiou uma missão, missão que tem um alcance universal. Tudo isto, no entanto, resulta da ação e da escolha de Deus, é iniciativa de Deus e não escolha do homem.
Na segunda parte do texto, temos o envio formal do profeta. Ele deve ir “dizer o que o Senhor ordenar”, sem medo nem servilismo, enfrentando os grandes da terra, armado apenas com a força de Deus. É a definição do “caminho profético”, percorrido no sofrimento, no risco, na solidão, no conflito com todos os que se opõem à proposta de Deus. A leitura de hoje termina com um convite à confiança: “não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar” – vers. 19).
A vida de Jeremias realizou, integralmente, o projeto de Deus. A propósito e a despropósito, Jeremias denunciou, criticou, demoliu e destruiu, edificou e plantou. Não teve muito êxito: a família, os amigos, o povo de Jerusalém, as autoridades, os sacerdotes, viraram-lhe as costas, marginalizaram-no, perseguiram-no e maltrataram-no. No entanto, Jeremias nunca renunciou: Deus invadiu-lhe de tal forma a vida, e a paixão pela Palavra de Deus “apanhou-o” de tal forma, que o profeta viveu até ao fim, com a máxima intensidade, a sua missão.
ATUALIZAÇÃO
• Os “profetas” não são uma classe de animais extintos há muitos séculos, mas são uma realidade com que Deus continua a contar para intervir no mundo e para recriar a história. Quem são, hoje, os profetas? Onde estão eles?
• No Batismo, fomos ungidos como profetas, à imagem de Cristo. Estamos conscientes dessa vocação a que Deus a todos nos convocou? Temos a noção de que somos a “boca” através da qual a Palavra de Deus se dirige aos homens?
• O profeta é o homem que vive de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo (numa mão a Bíblia, na outra o jornal diário). Vivendo em comunhão com Deus e intuindo o projeto que Ele tem para o mundo, e confrontando esse projeto com a realidade humana, o profeta percebe a distância que vai do sonho de Deus à realidade dos homens. É aí que ele intervém, em nome de Deus, para denunciar, para avisar, para corrigir. Somos estas pessoas, simultaneamente em comunhão com Deus e atentas às realidades que desfeiam o nosso mundo?
• A denúncia profética implica, tantas vezes, a perseguição, o sofrimento, a marginalização e, em tantos casos, a própria morte (Óscar Romero, Luther King, Gandhi…). Como lidamos com a injustiça e com tudo aquilo que rouba a dignidade dos homens? O medo, o comodismo, a preguiça, alguma vez nos impediram de ser profetas?
• Em concreto, em que situações sou chamado, no dia a dia, a exercer a minha vocação profética?
2ª leitura: 1Cor. 12,31-13,13 - AMBIENTE
Há quem chame a este texto “o Cântico dos Cânticos da nova aliança”. Também se lhe chama, habitualmente, o “hino ao amor”.
À primeira vista, este “elogio do amor” poderia parecer uma página completamente desligada do contexto anterior (a discussão acerca dos carismas). Na realidade, este texto apresenta afinidades claras, tanto a nível literário como a nível temático, com os capítulos precedentes, bem como com os capítulos seguintes. Ainda que possamos retirar este hino do seu contexto, sem que ele perca o sentido, a verdade é que Paulo quer aqui dizer, sem meias palavras e de forma clara e contundente, que só há um carisma absoluto: o amor.
MENSAGEM
Antes de mais, convém dizer que o amor de que Paulo fala aqui é o amor (em grego, “agape”) tal como ele é entendido pelos cristãos: não é o amor egoísta, que procura o próprio bem, mas o amor gratuito, desinteressado, sincero, fraterno, que se preocupa com o outro, que sofre pelo outro, que procura o bem do outro sem esperar nada em troca. Desse tipo de relacionamento, nasce a Igreja – a comunidade dos que vivem o “agape”.
O nosso texto desenvolve-se em três estrofes. Na primeira (13,1-3), Paulo sustenta que, sem amor, até as melhores coisas (a fé, a ciência, a profecia, a distribuição de esmolas pelos pobres) são vazias e sem sentido. Só o amor dá sentido a toda a vida e a toda a experiência cristã.
Na segunda estrofe (13,4-7), Paulo apresenta literariamente o amor como uma pessoa e sugere que ele é a fonte e a origem de todos os bens e qualidades. A propósito, Paulo enumera quinze características ou qualidades do verdadeiro amor: sete destas qualidades são formuladas positivamente e as outras oito de forma negativa; mas todas elas se referem a coisas simples e quotidianas, que experimentamos e vivemos a todos os instantes, a fim de que ninguém pense que este “amor” é algo que só diz respeito aos santos, aos sábios, aos especialistas.
A terceira estrofe (13,8-13) estabelece uma comparação entre o amor e o resto dos carismas. A questão é: este amor de que se disseram coisas tão bonitas é algo imperfeito, temporal e caduco como o resto dos carismas? Este amor – responde Paulo – não desaparecerá nunca, não mudará jamais. Ele é a única coisa perfeita; por isso permanecerá sempre. Fica, assim, confirmada a superioridade incontestável do amor frente a qualquer outro carisma – por muito que seja apreciado pelos coríntios ou por qualquer comunidade cristã, no futuro.
ATUALIZAÇÃO
• O amor cristão – isto é, o amor desinteressado que leva, por pura gratuidade, a procurar o bem do outro – é, de acordo com Paulo, a essência da experiência cristã. É esse o amor que me move? Quando faço algo, partilho algo, presto algum serviço, é com essa atitude desinteressada, de puro dom?
• Desse amor partilhado nasce a comunidade de irmãos a que chamamos Igreja. O amor que une os vários membros da nossa comunidade cristã é esse amor generoso e desinteressado de que Paulo fala? Quando a comunidade cristã é palco de lutas de interesses, de ciúmes, de rivalidades egoístas, que testemunho de amor está a dar?
Evangelho: Lc. 4,21-30 - MENSAGEM
O episódio da sinagoga de Nazaré é, já o dissemos atrás, um episódio “programático”: a Lucas não interessa descrever de forma coerente e lógica um episódio em concreto acontecido em Nazaré por altura de uma visita de Jesus, mas enunciar as linhas gerais do programa que o Messias vai cumprir – linhas que o resto do Evangelho vai revelar.
O programa de Jesus é, como vimos a semana passada (o texto de Is. 61,1-2 e o comentário posterior de Jesus demonstram-no claramente), a apresentação de uma proposta de libertação aos pobres, marginalizados e oprimidos. No entanto, esse “caminho” não vai ser entendido e aceite pelo povo judeu (isto é, os “da sua terra”), que estão mais interessados num Messias milagreiro e espetacular. Os “seus” rejeitarão a proposta de Jesus e tentarão eliminá-l’O (anúncio da morte na cruz); mas a liberdade de Jesus vence os inimigos (alusão à ressurreição) e a evangelização segue o seu caminho (“passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”), até atingir os que estão verdadeiramente dispostos a acolher a salvação/libertação (alusão a Elias e Eliseu que se dirigiram aos pagãos porque o seu próprio povo não estava disponível para escutar a Palavra de Deus).
Neste texto programático – já o dissemos, também, a semana passada – Lucas anuncia o caminho da Igreja: a comunidade crente toma consciência de que, em continuidade com o caminho de Jesus, a sua missão é levar a Boa Nova aos pobres e marginalizados – como Elias fez com uma viúva de Sarepta ou como Eliseu fez com um leproso sírio. Se percorrer esse caminho, a Igreja viverá na fidelidade a Cristo.
ATUALIZAÇÃO
• “Nenhum profeta é bem recebido na sua terra”. Os habitantes de Nazaré julgam conhecer Jesus, viram-n’O crescer, sabem identificar a sua família e os seus amigos mas, na realidade, não perceberam a profundidade do seu mistério. Trata-se de um conhecimento superficial, teórico, que não leva a uma verdadeira adesão à proposta de Jesus. Na realidade, é uma situação que pode não nos ser totalmente estranha: lidamos todos os dias com Jesus, somos capazes de falar algumas horas sobre Ele; mas a sua proposta tem impacto em nós e transforma a nossa existência?
• “Faz também aqui na terra o que ouvimos dizer que fizestes em Cafarnaum” – pedem os habitantes de Nazaré. Esta é a atitude de quem procura Jesus para ver o seu espetáculo ou para resolver os seus problemazinhos pessoais. Supõe a perspectiva de um Deus comerciante, de quem nos aproximamos para fazer negócio. Qual é o nosso Deus? O Deus de quem esperamos espetáculo em nosso favor, ou o Deus que em Jesus nos apresenta uma proposta séria de salvação que é preciso concretizar na vida do dia a dia?
• Como na primeira leitura, o Evangelho propõe-nos uma reflexão sobre o “caminho do profeta”: é um caminho onde se lida, permanentemente, com a incompreensão, com a solidão, com o risco… É, no entanto, um caminho que Deus nos chama a percorrer, na fidelidade à sua Palavra. Temos a coragem de seguir este caminho? As “bocas” dos outros, as críticas que magoam, a solidão e o abandono, alguma vez nos impediram de cumprir a missão que o nosso Deus nos confiou?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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O profeta não repete o que todos deveriam estar cansados de ouvir. O profeta vê o que outros não veem, testemunha o que Deus vê e como Deus vê a realidade. Não fala em seu nome, e sim em nome de Deus – por isso é profeta. Mas o Mercado não admite contestação, não admite que se fuja do pensamento único. Não quer testemunho de outra verdade que não seja a sua. O profeta, além disso, está sempre em sua terra, qualquer lugar é sua pátria, porque a verdade de Deus não tem pátria.
Na tarde do dia 18 de março do ano passado, na Guatemala, o padre Lourenço Rosebaugh e mais quatro padres viajavam para uma reunião. Foram cercados por homens mascarados e armados que, em seguida, abriram fogo, matando o pe. Lourenço. Americano, nascido em 1935, entrou para a Congregação dos Oblatos de Maria Imaculada em 1955 e foi ordenado padre em 1963. Por ter, em protesto contra a Guerra do Vietnã, promovido a queima de documentos de alistamento militar, ficou preso por dois anos. Em 1975 veio para o Brasil e passou a viver com moradores de rua no Recife. Foi preso e torturado. Nosso regime militar não lhe deu um fim por pressão diplomática dos EUA, e só foi libertado por interferência direta da esposa do então presidente americano, Jimmy Carter. Doente, voltou aos Estados Unidos em 1980. Aí foi preso novamente por divulgar clandestinamente a última homilia de dom Oscar Romero. Mais tarde foi para El Salvador, a fim de viver entre os pobres. Teve de se afastar para um retiro e por problemas familiares. Em seguida voltou à América Latina, para a Guatemala, onde foi morto.
O profeta não é bem recebido em sua pátria e em lugar nenhum, porque qualquer lugar é pátria sua.
1º leitura: Jr. 1,4-5.17-19
O jovem Jeremias sente o chamado de Deus e as dificuldades da missão de profeta, mas também o apoio e a segurança que lhe vêm do mesmo Deus.
O texto selecionado para a leitura de hoje não inclui a manifestação de insegurança de quem se sentia jovem demais, a confirmação, o alcance de sua missão e dois símbolos da tarefa do profeta e do momento histórico em que vai agir. Ele deverá enfrentar sem medo as autoridades e anunciar o pensamento de Deus diante da iminente invasão do império babilônico (vv. 6-16).
O texto de hoje, nos primeiros versículos (4-5), lembra que desde sempre Javé queria Jeremias profeta; antes que nascesse, já o consagrava e o fazia seu profeta. Ninguém é profeta por acaso; o profeta é querido por Deus antes mesmo de sua existência.
Ele é consagrado, separado para a função, a qual é mais importante que a do sacerdote e a do rei. Tem autoridade para denunciar, em nome de Deus, tanto a má administração e as intrigas políticas como a falsidade do culto. E essa função não se restringe ao seu povo: será profeta para as nações. O profeta tem voz universal.
Na segunda parte do texto de hoje, Deus dá força ao profeta, que não deve deixar de dizer nada do que Deus lhe diz, nada do que percebe ser o pensamento de Deus. Não deve ter medo, sempre o pior conselheiro. Se a cidade de Jerusalém poderá ser invadida, suas muralhas demolidas e suas colunas derrubadas, o profeta será mais resistente, será muralha de bronze e coluna de ferro. Não fica sem perseguição, mas Deus estará com ele para defendê-lo.
2º leitura: 1Cor. 12,31-13,13
Depois de comentar o valor, o significado e as dificuldades dos dons carismáticos, Paulo fala agora do caminho sem defeitos e superior a todos.
Os capítulos 12, 13 e 14 da primeira carta aos Coríntios estão interligados pelo que tecnicamente se chama paralelismo quiástico ou cruzado, correspondendo-se assim: (12) A- Os dons carismáticos; (13) B- O caminho superior; e (14) A’- Os dons carismáticos. Seria como um sanduíche de pão com carne ou recheio: as duas fatias de pão seriam os capítulos 12 e 14, em que Paulo fala dos carismas; a carne ou recheio seria o capítulo l3, em que Paulo fala do caminho superior a tudo o mais. É o texto da 2ª leitura de hoje.
O caminho superior a tudo é o que se chama caridade ou amor. Nenhuma das duas palavras, contudo, satisfaz plenamente.
A língua grega tem a palavra filía, que significa a simples amizade, a palavra eros, que significa o amor de ordem sexual, e a palavra agape, que era pouco utilizada. Foi esta que Paulo escolheu para indicar o amor cristão, que não se identifica com a simples amizade nem traz a marca egoísta do desejo sexual.
O amor cristão é, acima de tudo, solidariedade, superação do sistema do império de dependência e clientelismo. Nós nos amamos, somos solidários, somos iguais, somos irmãos, e não dependentes uns dos outros.
Podemos notar como o texto de hoje faz alusões diretas ou indiretas aos dons tão valorizados no movimento carismático de Corinto. Assim, sem o amor, falar em línguas seria como um bronze que vibra ou címbalos (instrumentos semelhantes aos pratos de uma banda de música) barulhentos. Lembra o dito popular: “Lata vazia é que faz barulho”.
Até quando Paulo fala das características do amor cristão, a solidariedade, podemos perceber alusões indiretas aos perigos que ele via no movimento em Corinto: o amor não é isso, não é aquilo etc.
Mesmo entre as três virtudes principais, chamadas de teologais, a caridade ou amor tem a primazia. A fé termina quando nossos olhos se abrem para Deus definitivamente (lembrar que o espelho daquele tempo não era como o de hoje, mas apenas uma peça de bronze bem polido). A esperança termina quando alcançamos o esperado, maior do que aquilo que esperávamos. Só o amor permanece e chega à plenitude na eternidade.
Evangelho: Lc. 4,21-30
Jesus, na sua terra, fala com clareza do seu programa e da falta de fé dos conterrâneos. Querem matá-lo, mas, passando pelo meio deles, ele segue em frente.
Na leitura que fez na sinagoga, Jesus interrompeu o texto de Isaías antes da frase: “o dia da desforra do nosso Deus”. Essa frase se desenvolve no texto de Isaías, afirmando que as nações que tinham escravizado Israel viriam a ser suas escravas. Jesus omitiu tudo isso, e os ouvintes, familiarizados com os textos bíblicos, certamente perceberam. A salvação que ele hoje realiza é universal, não é nacional nem particularista.
A reação dos conterrâneos começa com admiração pelas palavras agradáveis que saíam da boca de Jesus. Acharam linda a fala de Jesus comentando o ano do agrado de Deus anunciado por Isaías.
Logo em seguida, vem o espanto: “Esse aí não é o filho de José?”. Lucas, que começou seu evangelho falando do nascimento virginal de Jesus e, depois, disse que ele “era considerado filho de José”, aqui não faz questão desse porém. Os conterrâneos continuam enganados quanto à verdadeira identidade de Jesus.
Jesus se antecipa e, antes que o questionem, retoma a fala, comparando Nazaré e Cafarnaum. Há aí uma incoerência: Lucas ainda não narrou a atuação de Jesus em Cafarnaum; como vai compará-la com o que acontece em Nazaré? Marcos e Mateus, por seu turno, situam a visita de Jesus a Nazaré depois de ele ter centralizado sua atividade em Cafarnaum. A incoerência não importa; Lucas quis situar a visita de Jesus a Nazaré no início da sua atividade missionária para fazer dessa visita um manifesto do programa de Jesus.
Cafarnaum era considerada uma cidade impura porque ali viviam muitos gentios; continuava, no entanto, sendo cidade israelita. Mas Jesus ainda vai além: fala de milagres feitos pelos famosos profetas Elias e Eliseu em favor de não israelitas. Ele também veio para os não israelitas.
Do espanto, os conterrâneos de Jesus passam à indignação. Entendem o significado universal da missão que Jesus se atribui e pretendem precipitá-lo do alto da colina, uma alternativa para o apedrejamento. “Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu seu caminho.”
PISTAS PARA REFLEXÃO
A fé costuma ser muito bem-aceita enquanto não toca na vida cômoda e nos interesses pessoais ou de grupo. Já dizia alguém: “O povo gosta de rezar porque rezar não lembra os pecados, e reunião lembra!”.
No trecho do evangelho de hoje os que querem matar Jesus não têm sucesso, pois “passando pelo meio deles, Jesus seguiu seu caminho”. Os que se consideravam donos de Jesus, bons conhecedores dele, quando o veem se mostrando aberto a todos, já não o aceitam e querem dar-lhe um fim.
Corremos o risco de nos considerar donos de Jesus e de sua mensagem. Somos capazes de dizer tudo o que se pode ou não se pode fazer em nome da fé em Jesus e na sua Igreja.
A preocupação muitas vezes é apenas manter e conservar as estruturas. Mas o profeta é livre desses condicionamentos: está ligado apenas a Deus, que o sustenta, e ao que Deus quer que ele diga.
O profeta é um eterno suspeito, um eterno perseguido. Quem prefere se dar muito bem com as estruturas, sentir-se confortável e tranquilo diante de tudo o que manda neste mundo, jamais será capaz de assumir a missão profética.
Os profetas estão em extinção; sua voz é calada e todas as portas se fecham para eles. Se Deus os chama, há os homens que os impedem de se manifestar ou de ser ouvidos. O peso das estruturas e dos interesses é tão grande, que ninguém mais se arvora em profeta ou, então, sua voz não encontra eco, porque o eco também está proibido. Quem não se arrisca a ser precipitado morro abaixo jamais será profeta.
Na eucaristia celebramos o gesto profético supremo da coerência até a morte e morte de cruz, única capaz de abrir caminho para a mesa comum.

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Jesus rejeitado em sua própria terra
Hoje encontramos a resposta de várias perguntas que ficaram abertas no domingo anterior. Será mesmo que Jesus veio para instaurar o ano de remissão das dívidas (Lc. 4,19)? Jesus teria desejado realizar materialmente a utopia? Parece que Lc. o único evangelista que aborda este tema, quer dizer algo mais. Na sua descrição, ele reúne diversos elementos. A citação de Is. 61,1-3, na boca de Jesus (Lc. 4,16-19), tem por quadro uma combinação de Mc. 1,21 (ensino na sinagoga) e 6,1-6 (rejeição em Nazaré). Percebemos uma correspondência de teor teológico entre o v. 19, “um ano ‘agradável’ (dektón) da parte do Senhor”, e o v. 24: “nenhum profeta é ‘agradável’ (dektós) em sua terra”. A citação do “ano de graça” não é relacionada, por Lc, com uma mera reforma social, mas com a pessoa de Jesus mesmo. Jesus anuncia o “ano agradável da parte do Senhor”, a encarnação dos dons de Deus para seu povo, especialmente para os pobres e humildes (cf. Dt. 15). Mas o povo de Nazaré não recebe com agrado o profeta que o anuncia … Nazaré aplaude a mensagem do ano de remissão, mas rejeita aquilo que o profeta em pessoa representa: a salvação universal. A restauração dos empobrecidos é a porta de entrada da salvação universal, pois o que é para todos tem de começar com os últimos, os excluídos.
A rejeição acontece de mansinho, e devemos admirar novamente a arte narrativa de Lc. Primeiro, o povo admira Jesus e suas palavras. Mas sua admiração é a negação daquilo que Jesus quer. Desconhecendo o “Filho de Deus” (cf. 3,22-23), tropeçam na sua origem por demais comum: “Não é este o filho de José” (4,22). Jesus toma a dianteira. Prevendo que eles apenas quererão ver suas façanhas, como as fez em Cafarnaum (Lc pressupõe aqui Mc. 1,21ss), Jesus lança um desafio: ele não é um médico para uso caseiro. Como nenhum profeta é agradável à sua própria gente (cf. 1ª leitura), sua missão ultrapassa os morros de Nazaré. E insiste: Elias, expulso de Israel, ajudou a viúva de Sarepta, na Fenícia, e Eliseu curou o sírio Naamã … Os nazarenses, ciosos, não agüentam essas palavras e querem jogar Jesus no precipício (uma variante do apedrejamento). Mas Jesus, com a autoridade do Espírito que repousa sobre ele, passa no meio deles e vai adiante … Nazaré perdeu sua oportunidade, prefigurando assim a sorte da “pátria” do judaísmo: “Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados, quantas vezes quis eu reunir teus filhos … ” (Lc. 13,34-35) – “Ah, se neste dia conhecesses a mensagem da paz … Não reconheceste o dia em que foste visitado!” (19,41-44). Trata-se da visita de Deus a seu povo e ao santuário (cf. Ml. 3,1), que não foi “agradável”, “bem recebida”.
A 2ª  leitura é o hino do amor-caridade (1Cor. 13). Do amor efetivo e afetivo, pois seria errado entender a “caridade” num sentido insípido, inumano, como frio cumprimento de deveres caritativos. Amor é essencialmente afeição, uma questão de engajamento da personalidade toda, uma certa paixão (por isso, faz sofrer). Amor é sempre afetuosa doação, perder-se para o bem do outro. Não há um amor para a vida normal e uma “caridade” para fins religiosos. A gente só tem um coração.
Na homilia, este tema do amor poderia preceder o tema do evangelho, a rejeição da “afetuosa” oferta de salvação de Deus em Jesus Cristo. Com vistas à atualidade, pode-se sublinhar que Nazaré faz valer prerrogativas que nada têm a ver com o plano de Deus, pois este é para todos; ironicamente, rejeitando seu “santo de casa”, Nazaré rejeita também o plano de Deus que ele encarna: levar a boa-nova aos pobres (14,18). Pois tal plano é incompreensível para uma mentalidade auto-suficiente, preocupada com prerrogativas próprias e precedências particulares.
Mensagem
A Boa Nova para todos e o profeta rejeitado
Depois de todos os esforços para integrarmos em nossas comunidades ricos e pobres, brancos e negros, homens e mulheres, constatamos que as discriminações, as panelinhas, os particularismos continuam. Quem mora mais perto da igreja matriz deve ser melhor atendido … Quem tem algum primo padre tem direito a cerimônias melhores… Muitos pensam que Deus está ai só para eles! A Igreja é realmente para todos, ou somente para gente de bem, “gente da casa”?
Os antigos israelitas achavam que a aliança de Deus pertencia exclusivamente a eles. Também achavam que bastava ser israelita para ter a salvação garantida. Não aguentavam que os seus profetas os criticassem. Por isso, quando Deus manda o profeta Jeremias,já o prepara desde o início para enfrentar a resistência de seu povo (1ª  leitura). Semelhante resistência também a encontra Jesus, especialmente na sua própria terra, Nazaré. Ele anuncia que o Reino de Deus e a libertação se destinam também aos pagãos, e mesmo com prioridade (evangelho). Aos que ciosamente esperam dele milagres para sua própria cidadezinha, Jesus lembra que os milagres de Elias e Eliseu favoreceram estrangeiros. Por isso, seus conterrâneos querem precipitá-lo da colina de sua cidade. Mas Deus o toma firme e inabalável – como o tinha prometido a Jeremias. Com autoridade assombrosa, Jesus atravessa o corredor polonês formado pelos que ameaçam sua vida.
A Igreja, corpo e presença de Cristo, deve anunciar ao mundo a salvação para todos, sem discriminação ou privilégio. Ser “gente da casa” (católico de tradição) não tem peso algum. A boa-nova é para todos quantos quiserem converter-se. A primeira exigência do ser cristão é não ser egoísta, não querer as coisas só para si – nem as materiais, nem as espirituais. O evangelho é privilégio nenhum. Excluir quem quer que seja, por pertencer a outra classe, ideologia ou ambiente, está em contradição direta com o evangelho e a prática de Jesus. O evangelho é para todos. Se alguém, por força de sua cabeça fechada, tapa os ouvidos, problema dele. Portanto, que “os da casa” não rejeitem o profeta que se dirige a outros …
Para anunciar a boa-nova a todos, a Igreja “toda profética” não deve ser escrava de privilégios e influências alheias. Deve falar com a desinibição que caracteriza os profetas. Os que nela possuem o carisma profético devem destacar-se por sua autenticidade, sua coragem de: mártir, sua simplicidade, que deixa transparecer o Reino de Deus em sua vida.
Johan Konings "Liturgia dominical"


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