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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

2º DOMINGO QUARESMA-C

2º DOMINGO QUARESMA
21 de Fevereiro de 2016 – Ano   C

1ª Leitura - Gn 15,5-12 17-18


Salmo - Sl 26,1.7-8.9abc.13.14 (R. 1a)

2ª Leitura - Fl 3,17-4,1

Evangelho - Lc 9,28b-36


A transfiguração de Jesus foi uma amostra de como Ele iria ficar depois da ressurreição, após sofrer o martírio de cruz. Leia mais


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“ESTE É O MEU FILHO, O ESCOLHIDO. ESCUTAI O QUE ELE DIZ!”- Olívia Coutinho

 

2º DOMINGO DA QUARESMA

 

Dia 21 de Fevereiro de 2016

 

Evangelho Lc 9,28b-36

 

Estamos no segundo domingo da quaresma, nos preparando para vivermos de maneira  intensa  a Páscoa do Senhor Jesus!

Este tempo reflexivo, nos sugere um retiro interior, um aprofundamento no mistério do amor do Pai, bebendo da água viva que jorra do coração misericordioso de Jesus! 

Se estamos enxertados em Jesus, não vamos ter dificuldades em viver a nossa realidade dentro do plano de Deus, no respeito e no cuidado com o que lhe é de mais precioso: a vida humana!

Junto com a Quaresma, a Igreja nos apresenta a Campanha da Fraternidade, com suas preocupações e desafios: “CASA COMUM, NOSSA RESPONSABILIDADE”. Lema: “QUERO VER O DIREITO BROTAR COMO FONTE E CORRER A JUSTIÇA QUAL RIACHO QUE NÃO SECA.”(Am5,24) É a Igreja, mais uma  vez,  nos convidando a seguir o exemplo de Jesus no cuidado  com a vida!

Como seguidores de Jesus, não podemos cruzar os braços diante as necessidades de tantos irmãos  que ainda não tem elementos básicos para viverem com dignidade, como água tratada, saneamento básico...

Como atitude concreta, devemos não somente  reivindicar o seus direitos,  como também, cuidar do nosso planeta: NOSSA CASA COMUM!   

Na liturgia deste tempo da Quaresma há sempre um apelo de conversão, a conversão nos abre à luz de Cristo, nos tira da escuridão das trevas, nos faz enxergar e a desmascarar os projetos que mantém o povo à sombra da injustiça.

Quando deixamos nos iluminar  pela Luz de Cristo, tornamos uma luz peregrina, a iluminar e a resgatar aqueles que são forçados a viver nas trevas, que são impedidos de usufruir da liberdade conquistada pelo o  sangue de Jesus!

Em muitas situações, ser luz, pode implicar grandes riscos, porém, o pior de todos os riscos, é de não aceitarmos o desafio de ser luz, o que pode nos condenar à pior de todas as trevas: estar longe de Jesus!

Aproveitemos, pois, este tempo precioso para revisar o quanto há de luz e o quanto há de sombras em nossa vida!

Somos filhos amados de Deus, que mais uma vez deseja percorrer o caminho que Jesus percorreu, atualizando esta caminhada no contexto do mundo de hoje.

O Evangelho que a liturgia deste domingo coloca diante de nós, nos mostra a belíssima cena da transfiguração de Jesus!

“Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. Enquanto reza, sua roupa ficou branca e brilhante.” 

A transfiguração de Jesus, foi o prenúncio do seu retorno glorioso ao Pai, momento em que Ele apresenta a estes três  discípulos uma pequena amostra do céu! 

Naquela cena, Jesus revela-lhes a sua intimidade com o Pai, assegurando-os da sua ressurreição após sua morte de cruz!

Na transfiguração, os discípulos Pedro, João e Tiago, puderam visualizar o encontro de Jesus com o Pai, a partir de então, eles, que andavam tristes, desapontados com as últimas revelações de Jesus sobre a proximidade de sua morte, se encheram de alegria, pois tiveram a certeza de que  a ação de Jesus não terminaria com a sua morte!

Jesus não se transfigurou diante de todos os discípulos, Ele escolheu apenas três deles, estes, seriam as testemunhas da sua gloria junto ao Pai, um testemunho que só poderia ser revelado aos outros discípulos, após a sua ressurreição.

Assim como Pedro desejou construir três tendas para que eles pudessem ficar no alto da montanha com Jesus, longe dos perigos e sem ser preciso batalhar a vida, nós também, certamente desejaríamos o mesmo, essa,  pode ser a nossa grande tentação nos dias de hoje: buscar a nossa comodidade sem pensar no outro! 

Ir a missa, rezar, é muito importante, agrada a Deus, mas precisamos descer do alto da “montanha”, andar com os nossos pés neste chão duro com olhar sempre voltado para as margens do caminho, pois é lá, que estão os rostos desfigurados de tantos irmãos, que contam conosco para se transfigurarem!

Precisamos sair de nossas tendas, do nosso comodismo, descruzar os nossos braços, desvendar os nossos olhos e nos por à caminho, pois há muito o que fazer em favor  do outro!

O episódio da transfiguração deve nos animar ao longo de toda a nossa vida, especialmente quando esta transfiguração nos mostra o lado positivo da cruz!

Com a própria vida, Jesus nos ensina a não temermos a cruz, Ele nos trouxe a certeza de que a cruz é apenas uma passagem, ela não é definitiva em nossa vida, como não foi definitiva na vida Dele! 

Guardemos dentro de nós, o brilho do rosto transfigurado de Jesus, este brilho, nos servirá de farol, para iluminar os túneis escuros de nossa vida.

 

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia
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No segundo domingo da Quaresma também se encontra, todos os anos, o episódio da transfiguração, cada vez à luz de um dos evangelhos sinópticos. Ainda no início, é bom olhar um pouco melhor para o caminho e para a chegada. Para quem se prepara para o batismo ou para renovar os compromissos do seu batismo e vivê-lo melhor, será bom também ver o que se pode aprender do episódio.
Este ano a versão é a de Lucas, que nem fala de transfiguração, mas apenas do rosto de Jesus transformado pela oração e da brancura e brilho de suas roupas.
Fala da morte de Jesus como um êxodo, uma saída semelhante à dos hebreus da escravidão do Egito. Jerusalém é o ponto central para Lucas, tanto no evangelho quanto no livro dos Atos dos Apóstolos. Se a rede de comunidades cristãs fundadas por Paulo era acusada de negar sua origem judaica, Lucas contesta, colocando Jerusalém sempre no centro. O êxodo ou saída de Jesus que se dá em Jerusalém pode ter, então, vários significados.
Jerusalém e tudo o que ela significa ter-se-ão transformado em outro Egito, nova “casa da escravidão”? A saída de Jesus da cidade explica-se pela necessidade de ele ser crucificado fora dela – o que era normal e exigido pela Lei, pois a crucifixão torna impuro o lugar – ou também significa uma saída que ele abriu para a humanidade? A morte de cruz é um êxodo, uma saída, porque escapa totalmente a uma leitura e interpretação de Dt 21,23 (quem morre pendurado é maldito por Deus)?
1º leitura (Gn. 15,5-12.17-18)
Abrão está velho e sem filhos. Deus dá-lhe a esperança de tornar-se pai de enorme multidão. O fogo que passa entre as metades de animais sacrificados simboliza que Deus está firmando um compromisso com Abrão.
Abrão é modelo do patriarca ou pai grandioso, lembrado por inúmeras gerações. Ele, porém, não é pai grandioso (o significado do seu nome) por causa de seu vigor físico – já estava velho e debilitado quando Javé lhe prometeu grande descendência. Deus é que fez dele o pai da multidão (significado do nome Abraão). Para tanto, bastou-lhe acreditar na promessa de Deus. Sua fé fê-lo merecer, fez que o cumprimento da promessa lhe fosse de justiça.
Javé prometeu-lhe também que seria proprietário da terra onde estava. Para garantir isso a Abraão, fez com ele uma aliança.
As alianças ou contratos antigos eram firmados com um rito de sangue. O mais comum era as partes contratantes passarem entre metades de animais sacrificados, pronunciando imprecações ou “rogando pragas”, como se dissessem: “Aconteça-me o mesmo que a estes animais se eu não cumprir o que foi contratado!”.
A promessa de Deus adquire, então, o caráter de uma aliança. Ao cair da tarde, no claro-escuro, fumaça e tocha passam por entre as metades dos animais sacrificados. Fumaça e tocha, o obscuro e a luz, simbolizam o Deus Javé. Ele é, ao mesmo tempo, o totalmente outro, que se encontra na obscuridade da fumaça, e o luzeiro, tocha que clareia e mostra o caminho.
Javé se compromete com Abrão, pai grandioso, que se tornará Abraão, pai da multidão, a dar-lhe um chão, a propriedade de uma terra.
2º leitura (Fl. 3,17 – 4,1)
Paulo alerta a comunidade contra os que querem exigir que os cristãos não judeus também se circuncidem e se submetam às normas da antiga religião. Reduziam, além disso, a religião a controle de alimentos. Será que Deus está no estômago? Nós pomos fé em Jesus morto e ressuscitado. A salvação para nós passa pela cruz.
Paulo foi fariseu e fiel observante de todas aquelas normas. Perseguiu os cristãos por julgar absurda a afirmação de que um crucificado era a salvação que Deus havia mandado ao mundo, pois um crucificado é, segundo Dt. 21,23, maldito por Deus.
Quando entendeu, entretanto, que Jesus era mesmo o Messias, o Cristo, deixou de lado tudo o que para si era o único caminho de salvação, a observância de todas aquelas leis, e passou a seguir Jesus crucificado. Por isso, pede que os filipenses o imitem, sigam o exemplo seu e de outros e não se deixem iludir.
Os que querem se apoiar somente na observância da Lei são inimigos da cruz de Cristo, tiram-lhe toda a importância. Isso faz Paulo chorar. O destino desses é a destruição, enquanto cabe aos cristãos aguardarmos a transformação da nossa humilde pessoa à imagem do Cristo ressuscitado e glorioso.
Com a importância tão grande que dão às prescrições alimentares, parecem dizer que seu Deus está no estômago. Sua glória é a circuncisão, que se encontra naquilo que o homem busca esconder, porque sente vergonha. Em tudo são contraditórios.
Evangelho (Lc. 9,28b-36)
Jesus já falou e voltará a falar da sua paixão. É nesse meio que Lucas situa a transfiguração. A morte humilhante de Jesus não é o fim, é a saída. Tudo está na Bíblia, a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias). Os discípulos não escutam.
Marcos e Mateus situam o episódio no sexto dia, e Lucas, no oitavo. Não o fazem porque tiveram informações diferentes, mas porque olham de maneira diversa o significado do episódio. O sexto dia lembra o dia da criação do homem: é certamente no contexto da criação de nova humanidade que Marcos quer entender a transfiguração. O “mais ou menos” oitavo dia de Lucas mostra que ele conhecia o texto de Marcos, mas queria lembrar o oitavo dia, o começo da nova criação do universo. Depois do descanso do sétimo, é novamente o primeiro dia, o dia da ressurreição de Jesus com seu significado cósmico e até ecológico.
Jesus leva à montanha Pedro, Tiago e João. Pedro é aquele que, logo após afirmar ser Jesus o Messias, não admitiu que pudesse ser um Messias sofredor, humilhado pelos poderosos. Tiago e João, em Mc. 10,35 - 38 (em Mt é a mãe deles, e Lucas só fala de uma discussão sobre quem seria o maior), pediram a Jesus os primeiros lugares na sua glória ou poder e provocaram a discussão sobre qual o maior entre os doze. Os três precisam de boa lição e por isso são levados à montanha, sozinhos, à parte (Mc e Mt), ao encontro com Deus (Lc).
Só Marcos e Mateus usam o verbo transfigurar, metamorfosear. Lucas diz apenas que o rosto de Jesus mudou de aparência enquanto ele orava.
Só Lucas explicita o teor da conversa de Jesus com Moisés e o profeta Elias, representantes das Escrituras do Primeiro Testamento, então divididas em Lei de Moisés e Profetas. Conversavam sobre a paixão de Jesus que deveria ocorrer em Jerusalém.
O Primeiro Testamento fala de um Messias sofredor. O ponto mais alto disso se encontra nos quatro poemas do livro de Isaías chamados de Cânticos do Servo de Javé (Is. 42,1-7; 49,1-8; 52,13-53,12). O projeto de Deus é esse mesmo, mas aos três discípulos ele interessa pouco. Lucas diz que, enquanto Jesus conversava com Moisés e Elias, eles caem no sono.
Lucas fala da morte humilhante de Jesus em Jerusalém – para onde em seguida vão começar a subir (os três discípulos não querem entender isso) – como o êxodo de Jesus. Ele foi morto fora da cidade. Jerusalém era o centro da terra onde correm leite e mel. A terra da liberdade agora se tornou outro Egito, “a fornalha da escravidão”, e não aceita Jesus.
Jesus sai de lá como Moisés saiu do Egito, liderando um povo que buscava a terra da fartura e da liberdade. Assumir a cruz é difícil, é complicado, é humilhação e morte, mas é a saída, é o novo êxodo.
A voz de Deus é fundamental. “O meu filho, o eleito” corresponde exatamente ao começo do primeiro poema do Servo de Javé, que na tradução dos Setenta está “o meu menino, o escolhido”. A cruz será a realização plena daquilo que dizem esses poemas. Os principais discípulos não estão querendo ouvir isso da boca de Jesus, mas Deus diz: “Escutai-o!”.
A nuvem, a sombra e também o medo de ver Deus lembram a presença divina na manifestação do Sinai. Quem eles agora devem ouvir é Jesus, a voz da nova aliança, que eles não eram capazes nem tinham o desejo de ouvir quando anunciava a própria morte.
Pedro parece querer pôr Jesus em pé de igualdade com os representantes do Primeiro Testamento. Nada de novo, Jesus é apenas mais um, igual a Moisés e a Elias. Propõe fazer uma tenda para cada um (pensava numa festa das Tendas?), a fim de que os três se estabeleçam e fiquem ali. Por outro lado, fala por falar, sem saber o que diz ou o que dizer.
Depois de a voz de Deus se fazer ouvir, Jesus se encontra só: ele sozinho resume toda a Escritura. Ele está a sós com eles, mas, com eles, parece que continua sozinho para enfrentar os inimigos em Jerusalém.
Pistas para reflexão
Jesus estará ainda hoje enfrentando sozinho o caminho da cruz? A cruz terá deixado mesmo de ser um escândalo, algo absurdo e incompreensível? Não é preferível falar da glória, do poder, do prestígio? Falar de cruz hoje dá sono; cruz, sacrifício em favor do outro, são coisas fora de moda!
A ressurreição não se explica sem a cruz. A ressurreição vem justificar a cruz, dar a aprovação de Deus a esse caminho tão estranho. A chegada dá razão ao caminho, a ressurreição dá razão à cruz.
Pedro, Tiago e João terão entendido tão mal a caminhada de Jesus? Sem dúvida, os evangelistas estavam pensando sobretudo nos dirigentes e fiéis de suas comunidades: eram eles certamente que não estavam entendendo bem o caminho de Jesus e começavam a se envolver mais com disputas de poder e prestígio. Como diz o pessoal da roça, o evangelista “está batendo na carroça para o burro entender”. Esses que têm dificuldade de entender não seremos nós, hoje?
Haverá outra saída para a humanidade, para seus problemas sociais, políticos, ecológicos, que não seja a cruz, a coragem de se sacrificar pelo outro, por todos, pelo todo?
Outro dia uma criança disse: “Para a gente viver em comunidade, é preciso passar pela cruz!”.
Paulus
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Uma claridade que aponta para a claridade
No segundo domingo da Quaresma somos convidados a subir a montanha com Pedro, Tiago e João e a contemplar o rosto iluminado do Senhor Jesus. Os apóstolos fizeram uma experiência única que nunca haveriam de esquecer: experiência de luminosidade que apontava para a claridade da ressurreição do Senhor. Hoje é o domingo da Transfiguração. Mas, atenção ainda não é páscoa. O que se tornara claridade na montanha ainda atravessarias as trevas da paixão e da morte.
O relato da transfiguração proclamado na liturgia deste domingo é de Lucas. A experiência da claridade de Deus em Jesus se passa num contexto de oração. “Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João e subiu à montanha para rezar”. Jesus entra em contato íntimo com o Pai. Deixa-se possuir inteiramente pelo olhar do Pai. E a intimidade é tão forte que, naquele momento, aparece no rosto de Jesus a sua mais íntima identidade:  ele é a luz que nasce da luz. Ele é Deus de Deus, luz da luz.  “Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante”.
Lucas, no capítulo nove de seu texto, faz Jesus começar sua caminhada para Jerusalém, palco final e definitivo de sua missão e vida. No momento da luminosidade “dois homens estavam conversando com  Jesus: eram Moisés e Elias”. Lucas afirma: “Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Misturam-se luz e sombra. Há claridade ofuscante e a sombra da morte. Pedro e seus companheiros estão com sono. De repente, acordam e fazem a experiência da glória de Deus. Parece que o céu tinha descido sobre a terra. Luz, glória, presença do céu na terra!
Pedro deseja perpetuar aquele momento. Propõe que sejam fincadas tendas para que o céu não deixe a terra! Os apóstolos entram na nuvem de Deus, na “nuvem” da presença do Altíssimo. Têm medo. Há um espanto. Nunca esquecerão esse momento. Quando nos aproximamos do Deus vivo temos que tirar as sandálias dos pés e pedir que um anjo nos purifique os lábios com uma brasa ardente. No meio de toda essa experiência há uma voz que vem do alto: “Este é o meu Filho, o escolhido. Escutai o que ele diz!” Somos cidadãos do mundo da claridade quando nos dispomos a escutar o Filho amado do Pai.  Paulo escreve aos filipenses: “Nós somos cidadãos do céu. De lá aguardamos o nosso salvador, o Senhor Jesus Cristo.  Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso  com o poder que tem de sujeitar a si todas as coisas”.
Esse Jesus que tem o corpo transfigurado transfigurará nosso corpo, nosso irmão corpo, por meio do qual encontramos a Deus e os irmãos. Esse corpo que não está fadado à destruição mas à glorificação. Os que participam do mistério pascal de Cristo, os que descem às trevas do túmulo e sobem ressuscitados com Cristo somos pessoas transfiguradas.
frei Almir Ribeiro Guimarães

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Jesus transfigurado: perspectiva da vitória
O caminho de Jesus e a antecipação de seu termo em Jerusalém formam, dentro da teologia de Lc., o quadro de referência para a interpretação do evangelho de hoje. Um pouco antes de tomar resolutamente o caminho de Jerusalém (Lc. 9,51), Jesus, ”em oração” (em Lucas, Jesus é o modelo do orante), tem uma entrevista com Moisés e Elias, representantes da “Lei e dos Profetas”, precursores escatológicos (cf. Ml. 3,22-24). Eles falam com ele sobre o “êxodo” que ele há de “cumprir” em Jerusalém (Jesus repete a história do povo: cf. domingo passado). Este “êxodo” é a passagem para sua glorificação, como insinua 9,51 (“os dias de seu arrebatamento”). Jesus está para completar seu êxodo, o caminho que o Pai lhe planejou. O Pai está presente, na “nuvem” (como Deus no deserto). Com mais clareza do que nos sinais corriqueiros de Jesus, o Pai quer revelar aos discípulos que ele é seu Filho amado, a quem devemos obedecer, isto é, de quem nos devemos tomar discípulos e seguidores. No seu caminho para a glória, caminho que passa pela cruz (Jerusalém), Jesus é mostrado na forma “consumada”, gloriosa, para que os seus seguidores sejam confortados na fé e na confiança.
Deus dá sinais para que acreditemos. Contudo, estes sinais não são a plena visão, pois, se fossem, já não precisaríamos acreditar. Assim fez Deus também com Abraão. Este tinha assumido sua caminhada na obediência da fé (Gn. 12), mas não tinha descendência. Deus lhe jurou que lhe daria descendência, e Abraão acreditou, o que lhe foi imputado como justiça (15,6) (1ª leitura). O sinal da promessa é um sacrifício, mas o “trabalho” não é nada fácil: os urubus estão aparentemente mais interessados nas carnes recortadas do que Deus, e Abraão tem que esperar, cansado, o pôr-do-sol e a escuridão, para ver Deus passar como um fogo devorador entre os pedaços da vítima. Neste momento, Deus faz aliança com Abraão.
Aliança e promessa no caminho. Será necessário começar a caminhar, para ter esta experiência? O que transparece na glorificação de Cristo não é apenas a sua própria vitória em Jerusalém, mas o nosso destino final. Os apóstolos não entenderam isso; queriam construir no monte Tabor três tendas para permanecer com Jesus na sua glória. Ainda não sabiam que o caminho da ressurreição passava pela paixão (cf. Lc. 24,46). E também não sabiam que eles mesmos deveriam seguir este caminho até o fim, para chegar à sua vitória e consumação na glória. “Nossa pátria está no céu”, responde Paulo àqueles que se fixam em questões materiais, cujo deus é sua barriga (2ª leitura)! Nossa pátria está no céu: daí esperamos a nova vida de Cristo, para, com ele, sermos transfigurados na glória de seu corpo transformado. A linguagem de Paulo deixa transparecer uma polêmica com um conceito transviado da corporeidade. Não o corpo de nossa barriga ou vergonha, mas o corpo glorioso de Cristo, que com poder transforma o nosso: eis nosso destino, nossa honra.
Neste conjunto enquadra-se maravilhosamente o salmo responsorial: procurarei a face do Senhor (cf. canto da entrada). Porém, só o olho puro pode contemplar Deus (cf. Mt. 5,8; 6,22-23). Que Deus purifique “nosso olhar espiritual”, para que possamos contemplar sua glória (oração do dia): este é nosso grande pedido no momento em que somos convidados para, no meio do caminho, contemplar a destinação gloriosa e retomar com renovado ânimo a caminhada.
Teilhard de Chardin, sacerdote e paleontólogo, pretendia dirigir nosso olhar para a plenificação do Universo em Cristo (cf. Cl. 1,15-20). Os teólogos da práxis política nos despertam para as utopias socioeconômicas, para nos dar uma perspectiva de esperança e uma razão de fé. Tudo isso pode ser útil, assim como Deus quis dar um sinal a Abraão, e Jesus, uma intuição da glória a seus discípulos. Porém, não façamos disso aí nossas “três tendas”: são apenas visões para nos animar no caminho da fé que é esperança.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Transfiguração
Esta passagem da transfiguração de Jesus acontece no monte Tabor, com três de seus discípulos, uma semana depois de Ele anunciar aos apóstolos o que aconteceria ao chegar a Jerusalém, por ocasião da festa da Páscoa dos judeus, onde sofreria rejeição, dor, sofrimento, e morte.
O local do acontecimento é semelhante à experiência de Moisés com Deus no monte Sinai: o topo da montanha e a presença da nuvem.
Em todos os momentos importantes da vida de Jesus, Ele se apresenta rezando, em sinal de preparação para cumprir a missão que o Pai lhe confiou, o que acontece também no momento da Transfiguração, em que Ele estava rezando e, momentaneamente, se apresenta como na sua glória nos céus, e o seu rosto e as suas vestes tornam-se cheios de luz, representando a Ressurreição do Filho de Deus, que contrasta com o sofrimento e a humilhação do Filho do Homem na sua Paixão, momento em que derrama seu sangue como aliança entre Deus e os homens, pois assim é Jesus: divino e humano. Na nossa humanidade também somos chamados à transformação para chegarmos a glória de Deus, através do nosso próprio êxodo (caminhada de fé, caridade e amor). 
Moisés e Elias, importantes figuras do 1º Testamento (Antigo Testamento) e que haviam visto a glória de Deus sobre a montanha, aparecem conversando com Jesus sobre a morte e o sofrimento Dele. Uma nuvem, símbolo do Espírito Santo, aparece e os cobre, e se ouve uma voz do céu dizendo: ”Este é o Meu Filho, o Escolhido, ouvi-O.”
Moisés representa o legislador, aquele que leva as Leis até o povo, e Elias é o Profeta que denuncia o comportamento do povo, anunciando o seu futuro com base naquilo que estão vivendo no presente. Deus falou ao povo por meio deles.
Os discípulos que dormiam profundamente tal qual acontecerá na agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras, na sexta-feira da Paixão, acordam, vêem a presença dos dois homens conversando, ouvem a voz dos céus, e se tornam testemunhas do que vai acontecer a Jesus.
A expressão ‘ouvi-O’ mostra a importância de ouvirem, darem atenção devida ao que Jesus vinha conversando com os apóstolos sobre a sua paixão, morte e ressurreição, além da importância da missão e compromisso daqueles que O seguem.
Segundo santo Tomás de Aquino "A Trindade inteira apareceu nesta passagem: o Pai, na voz; o Filho, no homem; o Espírito na nuvem clara."
Pequeninos do Senhor

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santidade revelada
Os discípulos estavam longe de conhecer o Mestre, com quem partilhavam a vida e a missão. Nada de extraordinário havia em Jesus, que o distinguisse dos demais seres humanos. Com certeza, alguns traços de sua personalidade faziam dele uma pessoa especial. Contudo, nada que o fizesse impor-se às pessoas, obrigando-as a confessarem sua condição de Filho de Deus.
A transfiguração revelou aos três discípulos escolhidos o que, em Jesus, está além das aparências: sua santidade. Tudo, na cena, aponta para isto. Jesus transfigurou-se, enquanto estava em oração, em profunda intimidade com o Pai. Seu rosto assumiu uma nova fisionomia. A candura fulgurante de suas vestes, e tudo o mais, apontavam para a riqueza interior do Mestre. O ápice da experiência dá-se quando o Pai proclama-o com sendo seu Filho amado. Não resta lugar à dúvida: a humanidade de Jesus encobria sua santidade, que o colocava na esfera divina.
A proposta dos discípulos, encantados com o que viram, não convenceu a Jesus. Querer ficar no alto do monte, contemplando a glória do Mestre, não era um desejo viável. Era preciso descer a montanha e, com ele, caminhar até a cruz. Só então, para sempre, o fulgor de sua glória despontaria na ressurreição.
padre Jaldemir Vitório
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A economia destrói a vida quando os detentores do poder econômico não são capazes de ver a beleza do ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus. No deserto pudemos ver em Jesus a fragilidade, e até mesmo a feiúra, do ser humano humilhado. Esvaziando-se de sua glória, Jesus assimilou em si mesmo a situação do homem decaído. Nossa natureza é “rachada” e Jesus aceitou participar dela para revelar a miséria do homem decaído e o que Deus queria que o ser humano fosse quando o criou. É nesse sentido que Jesus é o novo Adão, por ser o Adão que Deus pensou ao criar o ser humano, homem e mulher.
Neste precioso tempo da Quaresma, depois de termos estado com Jesus no deserto, somos agora levados por Ele ao Monte Tabor, o monte da transfiguração. Os apóstolos Pedro, Tiago e João puderam ver o Cristo transfigurado. A figura de Jesus mudou diante dos apóstolos. Seu corpo, suas vestes, tudo se tornou muito bonito, brilhante, esplendoroso. Sem dúvida, Jesus preparava os seus para o momento da paixão e morte na cruz. Será a hora do grande deserto da tentação.
Os discípulos terão dificuldade de compreender o sofrimento de Jesus, por isso a transfiguração os prepara para aquela hora crucial. Por detrás das aparências do homem humilhado e massacrado está a beleza do homem criado à imagem e semelhança de Deus. Jesus se transfigura em seu corpo humano para nos dar a certeza do que Paulo escreve aos filipenses: “Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso, com o poder que tem de sujeitar a si todas as coisas”.
Ao fazer aliança com Abraão, Deus lhe prometeu uma terra, para ele mesmo e para os seus descendentes. Podemos ler as Escrituras como um conjunto de imagens bonitas, de figuras do futuro, de promessas para a eternidade. Deus, porém, é o Deus dos vivos e não nos colocou nesta terra apenas como numa antes-sala da eternidade; e Ele mesmo não veio até nós na encarnação para nada. Deus nos colocou neste mundo para vivermos plenamente a vida que Ele nos deu. Para isso precisamos de espaço, de terra, de sustento da nossamaterialidade. Teremos um corpo na ressurreição. Seríamos hereges se afirmássemos o contrário. Na transfiguração podemos ver a beleza do ser humano também em seu corpo glorificado.
Sem uma vão de fé que ultrapasse os limites da nossa própria encarnação, o ser humano pode se tornar objeto de exploração dos mais fortes. Se a fé não for teológica, dom de Deus iluminada pela revelação, deve ser ao menos antropológica, em nível humano.
Ninguém aceita correr riscos se não acreditar em alguma coisa, mas há um caminho a percorrer para chega até lá. Os donos da economia necessitam deum impacto forte que lhes dê uma nova visão do valor do ser humano. Teorias e doutrinas religiosas não os converterão.
Será uma experiência humana, de dor e de alegria, que poderá fazê-los começar a pensar e a agir de forma diferente. Talvez a dor humana não os toque, mas poderá tocá-los a visão da alegria e da felicidade, na simplicidade da vida, daqueles que não vivem na abundância.
cônego Celso Pedro da Silva

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Promessa de Ressurreição
Esse relato da transfiguração está presente, com pequenas variantes, nos três primeiros evangelhos. O modelo para o relato de Lucas é o de Marcos. Do ponto de vista literário, o relato é uma prolepse dos acontecimentos de Jerusalém: "conversavam sobre a saída deste mundo que Jesus iria consumar em Jerusalém" (v. 31), isto é, a paixão, morte e ressurreição.
Na montanha, lugar de encontro com Deus, Pedro, Tiago e João são admitidos na oração de Jesus e podem contemplar, na glória, Jesus juntamente com Moisés e Elias; ambos aparecem "revestidos de glória" (v. 31), o que sugere a promessa da ressurreição. O que faz com que o rosto de Jesus seja transfigurado, na sua oração, é que ele mantém a sua face voltada para o Pai. É a comunhão com o Pai que transfigura e revela o mistério do Filho. A visão da glória de Jesus (cf. v. 32) faz com que Pedro tome a iniciativa de fazer a proposta de construir três tendas (cf. v. 33). Mas a sua sugestão cai no vazio, pois é Deus que os envolve na nuvem, ou seja, os faz participar da intimidade divina. O medo que eles sentem corresponde à entrada na presença de Deus; eles sabem que ver  Deus é morrer (Jz. 6,23; 13,22; Ex. 33,20). Na verdade, diz o evangelista, Pedro "nem sabia o que estava dizendo" (v. 33). O que Pedro não compreende é que a verdadeira tenda, o lugar da presença de Deus, é Jesus. Aos discípulos cabe, então, descer da montanha e acompanhar Jesus na sua subida para Jerusalém.
O leitor do evangelho, prevenido pelo relato para não sucumbir ante o "escândalo" da paixão e morte de Jesus, é convidado a percorrer o mesmo caminho, encorajado pela antecipação da experiência pascal. A voz que sai da nuvem e interpreta o acontecimento (v. 35) retoma a voz por ocasião do batismo (3,22; Is 42,1); a diferença que dessa vez a declaração do Pai se abre aos discípulos: Jesus é um profeta poderoso em gestos e palavras - trata-se de escutá-lo. A transfiguração não se oferece à visão, mas à fé que faz ver. Pedro, Tiago e João foram testemunhas oculares (Lc. 1,1-4), mas "ficaram calados e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto" (v. 36). Será preciso esperar a realização de tudo o que foi sugerido pelo relato para, então, eles poderem, impulsionados pelo Espírito do Ressuscitado, dar o seu testemunho, pois será impossível deixar de falar sobre o que viram e ouviram (cf. At. 4,20).
Carlos Alberto Contieri,sj

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Antes de tudo, duas observações:
1) A Palavra de Deus, neste domingo, apresenta-nos um contraste muito forte entre escuridão e luz: escuridão da noite do Pai Abraão e luz do Cristo transfigurado;
2) chama atenção, num tempo tão austero como a Quaresma um evangelho tão esfuziante como o da Transfiguração. Não cairia melhor na Páscoa, este texto? Por que a Igreja o coloca aqui, no início do tempo quaresmal?
Comecemos pela primeira leitura. Aí, Abraão nos é apresentado numa profunda crise; Deus tinha lhe prometido uma descendência e uma terra e, quase vinte e cinco anos após sua saída de seu pátria e de sua família, o Senhor ainda não lhe dera nada, absolutamente nada! Numa noite escura, noite da alma, Abraão, não mais se conteve e perguntou: “Meu Senhor Deus, que me darás?” (Gn. 15,2) Deus, então, “conduziu Abrão para fora e disse-lhe: ‘Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência!” Deus tira Abraão do seu mundozinho, de seu modo de ver estreito, da sua angústia, e convida-o a ver e sentir com os olhos e o coração do próprio Deus. “Abrão teve fé no Senhor”. Abraão esperou contra toda esperança, creu contra toda probabilidade, apostando tudo no Senhor, apoiando nele todo seu futuro, todo o sentido de sua existência! Abraão creu! Por isso Deus o considerou seu amigo, “considerou isso como justiça!” E, como recompensa Deus selou uma aliança com nosso Pai na fé: “’Traze-me uma novilha, uma cabra, um carneiro, além de uma rola e uma pombinha’. Abrão trouxe tudo e dividiu os animais ao meio. Aves de rapina se precipitaram sobre os cadáveres, mas Abrão as enxotou. Quando o sol ia se pondo, caiu um sono profundo sobre Abrão e ele foi tomado de grande e misterioso terror”. Abrão entra em crise: no meio da noite – noite cronológica, atmosférica; noite no coração de Abrão – no meio da noite, as aves de rapina ameaçam, e o sono provocado pelo desânimo e a tristeza, rondam nosso Pai na fé... Deus demora, Deus parece ausente, Deus parece brincar com Abraão! Tudo é noite, como muitas vezes na nossa vida e na vida do mundo! Mas, ele persevera, vigia, luta contra as aves rapineiras e o torpor... E, no meio da noite e da desolação, Deus passa, como uma tocha luminosa: “quando o sol se pôs e escureceu, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo... Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão”. Observemos o mistério: Deus passou, iluminou a noite; a noite fez-se dia: “Naquele dia, Deus fez aliança com Abrão!” Abraão, nosso Pai, esperou, creu, combateu, vigiou e a escuridão fez-se luz, profecia da luz que é Cristo, cumprimento da aliança prometido pelo Senhor! “O Senhor é minha luz e salvação; de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida; perante quem tremerei?” Eis o cumprimento da Aliança com Abraão: Cristo, que é luz, Cristo que hoje aparece transfigurado sobre o Tabor!
Fixemos a atenção no evangelho, sejamos atentos aos detalhes: Jesus estava rezando – “subiu à montanha para rezar” - e, portanto, aberto para o Pai, disponível, todo orientado para o Senhor Deus: Cristo subiu para encontrar seu Deus e Pai! E o Pai o transfigura. Sim, o Pai! Recordemos que é a voz do Pai que sai da nuvem e apresenta Aquele que brilha em luz puríssima: “Este é o meu Filho, o Escolhido!” E a Nuvem que o envolve é sinal do Espírito de Deus, aquela mesma glória de Deus que desceu sobre a Montanha do Sinai (cf. Ex. 19,16), sobre a Tenda de Reunião no deserto (cf. Ex. 40,34-38), sobre o Templo, quando foi consagrado (cf. 1Rs. 8,10-13) e sobre Maria, a Virgem (cf. Lc. 1,35). É no Espírito Santo que o Pai transfigura o Filho! Na voz, temos o Pai; no Transfigurado, o Filho; na Nuvem luminosa, o Espírito! E aparecem Moisés e Elias, simbolizando a Lei e os Profetas. Aqui, não nos percamos em loucas divagações e ignóbeis conclusões, como os espíritas, que de modo louco, querem provar com este texto que os mortos se comunicam com os vivos! Trata-se, aqui, de uma visão sobrenatural, não de uma aparição fantasmagórica e natural! Moisés e Elias, que “estavam conversando com Jesus... sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Aqui é preciso compreender! Um pouco antes – Lucas diz que oito dias antes (cf. 9,28) – Jesus tinha avisado que iria sofrer muito e morrer; os discípulos não compreendiam tal linguagem! Agora, sobre o monte, eles vêem que a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) davam testemunho da morte de Jesus, de sua Páscoa! Sua paixão e morte vão conduzi-lo à glória da Ressurreição, glória que Jesus revela agora, de modo maravilhoso! Assim, a fé dos discípulos, que dormiam como Abraão, é fortalecida, como o foi a de Abraão, ao passar a glória do Senhor na tocha de fogo! A verdadeira tocha, a verdadeira luz que ilumina nossas noites sombrias e nossa dúvidas tão persistentes é Jesus!
Mas, por que este evangelho logo no início da Quaresma? Precisamente porque estamos caminhando para a Páscoa: a de 2010 e a da eternidade. Atravessando a noite desta vida e o combate quaresmal, estamos em tempo de oração, vigilância e penitência! A Igreja, como Mãe, carinhosa e sábia, nos anima, revelando-nos qual o nosso objetivo, qual a nossa meta, o nosso destino: trazer em nós a imagem viva do Cristo ressuscitado, transfigurado pelo Espírito Santo do Pai. Escutemos são Paulo: “Nós somos cidadãos do céu. De lá esperamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso. Assim, meus irmãos, continuai firmes no Senhor!” Compreendem? Se mantivermos o olhar firme naquilo que nos aguarda – a glória de Cristo –, teremos força para atravessar a noite desta vida e o combate da Quaresma. Somos convidados à perseverança de Abraão, ao seu combate na noite, à vigilância e à esperança, somos convidados a não sermos “inimigos da cruz de Cristo, que só pensam nas coisas terrenas”, somos convidados a viver de fé, a combater na fé! Este é o combate da Quaresma, este é o combate da vida: passar da imagem do homem velho, com seus velhos raciocínios e sentimentos, ao homem novo, imagem do Cristo glorioso! Se formos fiéis, poderemos celebrar a Páscoa deste ano mais assemelhados ao Cristo transfigurado pela glória da Ressurreição e, um dia, seremos totalmente transfigurados à imagem bendita do Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina na glória imperecível.
dom Henrique Soares da Costa

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Amados irmãos em Cristo, para compreendermos o que Senhor nos quer dizer hoje, com estas leituras da sua santa Palavra, é necessário recordar que estamos no caminho quaresmal e que este caminho, que nos leva à luz da celebração pascal, é imagem do próprio caminhar nosso neste mundo: caminho por entre trevas e luzes, crises e bonanças, momentos de profunda dor e de grande consolação. No caminho da Quaresma, como naquele outro, da vida, o Senhor nos educa, nos prova, nos consola, nos conforma à sua cruz e nos prepara para participar da sua gloriosa ressurreição.
Tomemos, pois, com um coração de discípulos, as leituras deste hoje. Por que a Igreja coloca a luz do Tabor na sobriedade quaresmal? Não assentaria mais este texto no tempo pascal? Tudo é luz no Tabor, tudo é glória de Cristo! Mas, observemos:
(1) Jesus sobe ao monte para rezar, para buscar a vontade do Pai. Já aqui temos uma bela lição quaresmal. Se o nosso Salvador rezou durante toda a sua vida, como nós poderíamos não rezar? Como poderíamos nos dar ao luxo de pensar poder ser verdadeiramente cristãos sem buscar sintonizar nosso coração com o coração de Cristo, que é imagem do coração do Pai? Rezando, Jesus é transfigurado na glória do Pai, que é o próprio Espírito Santo, representado pela nuvem luminosa. Também nós, caríssimos, perseverando na oração, traremos certamente em nós o reflexo da glória de Deus que resplandece na face de Cristo – e este é o objetivo da Quaresma: fazer-nos participantes da alegria pascal, plena da glória do Ressuscitado.
(2) Pensai agora naqueles que aparecem sobre o Tabor: Moisés, que representa a Lei, e Elias, que representa os profetas de Israel. Eis a mensagem clara: a Lei e os profetas dão testemunho da paixão do Senhor, que irá consumar-se em Jerusalém. A cruz não é um absurdo, mas parte de um desígnio de Deus, desígnio de salvação e de vida, de modo que seria uma tristeza, uma miséria, um cristão desejar ser discípulo de Cristo Jesus fugindo da cruz, comportando-se como inimigo da cruz do Senhor! Será o próprio Senhor ressuscitado quem recordará aos discípulos de Emaús que era necessário que o Cristo sofresse para que entrasse na glória; será o próprio Senhor quem mostrará que tudo isto fora anunciado na Lei e nos profetas, representados hoje por Moisés e Elias (cf. Lc 24,26-27). Quando, pois, a cruz – misteriosa cruz! – bater à porta de nossa vida, não pensemos que tudo é sem sentido, não duvidemos da presença e do amor do Senhor. Também ali, na nossa cruz, na nossa hora, ele está presente e nos convida a participar do seu sofrimento, que conduz à ressurreição! Não nos comportemos como inimigos da cruz de Cristo, buscando uma fé de comodismo, de falta de compromisso, de concessão ao pecado e ao relaxamento na vida espiritual! Na Quaresma o Senhor nos convida a tomarmos com ele nossa cruz, lutando contra o nosso pecado e nossos vícios para participarmos na sinceridade e na verdade da sua vitória pascal!
(3) Pensemos nestes Moisés e Elias: como Abraão, que na primeira leitura aprendeu a crer mesmo na noite e na angústia, vigiando e esperando o Senhor, também esses dois que veem a glória de Cristo no Tabor, tiveram que caminhar na oração e no jejum para chegar a contemplar a glória de Deus: Moisés jejuou quarenta dia no cimo do Sinai antes de ver a glória do Senhor; Elias caminhou quarenta dias até o Horeb (que é o mesmo Sinai) para encontrar a Deus. E agora, esses dois, aparecem no brilho da glória de Jesus, o Deus perfeito, Santo de Israel! Eis a mensagem clara: como Abraão, que somente viu a glória de Deus no meio da noite depois da vigília e da provação, como Moisés e Elias, que somente viram o resplendor da glória do Senhor após o combate e a penitência, assim também nós, se quisermos de verdade ser inundados da glória pascal, devemos combater o combate quaresmal!
Assim, vivamos conforme o que aprendemos dos Apóstolos e dos santos cristãos que nos precederam na fé! Vivamos como quem sabe que aqui estamos de passagem, a caminho: “somos cidadãos do céu. De lá aguardamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso”, esse mesmo corpo de glória que hoje refulge no Tabor. Como nosso pai Abraão, combatamos na fé, na esperança, na obediência amorosa ao Senhor, para que no meio da noite de nossa vida, vejamos o fulgor do Senhor, que é fiel e não nos abandona jamais! Como hoje nos exorta São Paulo, “continuai firmes no Senhor”, pois ele é fiel, ele jamais nos deixará e, após o caminho desta vida dar-nos-á a graça incomparável de participar de sua glória eterna pelos séculos dos séculos. Amém.
dom Henrique Soares da Costa

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As leituras deste domingo convidam-nos a refletir sobre a nossa “transfiguração”, a nossa conversão à vida nova de Deus; nesse sentido, são-nos apresentadas algumas pistas.
A primeira leitura apresenta-nos Abraão, o modelo do crente. Com Abraão, somos convidados a “acreditar”, isto é, a uma atitude de confiança total, de aceitação radical, de entrega plena aos desígnios desse Deus que não falha e é sempre fiel às promessas.
A segunda leitura convida-nos a renunciar a essa atitude de orgulho, de auto-suficiência e de triunfalismo, resultantes do cumprimento de ritos externos; a nossa transfiguração resulta de uma verdadeira conversão do coração, construída dia a dia sob o signo da cruz, isto é, do amor e da entrega da vida.
O Evangelho apresenta-nos Jesus, o Filho amado do Pai, cujo êxodo (a morte na cruz) concretiza a nossa libertação. O projeto libertador de Deus em Jesus não se realiza através de esquemas de poder e de triunfo, mas através da entrega da vida e do amor que se dá até à morte. É esse o caminho que nos conduz, a nós também, à transfiguração em Homens Novos.

1ª leitura: Gn. 15,5-12.17-18 - AMBIENTE

A primeira leitura de hoje faz parte das chamadas “tradições patriarcais” (Gn. 12-36). São “tradições” que misturam “mitos de origem” (descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca do clã), “lendas cultuais” (narravam como um deus tinha aparecido nesse lugar ao patriarca do clã), indicações mais ou menos concretas sobre a vida dos clãs nômades que circularam pela Palestina e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.
Os clãs referenciados nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac e Jacob – tinham os seus sonhos e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. O deus aceite pelo grupo era o potencial concretizador desse ideal.
É neste “ambiente” que este texto nos coloca. Diante de Deus, Abraão lamenta-se (cf. Gn. 15,2-3) porque a sua vida está a chegar ao fim e o seu herdeiro será um servo – Eliezer (conhecemos contratos do séc. XV a. C. onde se estipula, em caso de falta de filhos, a adoção de escravos que, por sua vez, se comprometiam a dar ao seu senhor uma sepultura conveniente. Parece ser a esse costume que o texto alude). Qual será a resposta de Deus ao lamento de Abraão?
MENSAGEM
A primeira parte deste texto começa com Deus a responder a Abraão e a garantir-lhe uma descendência numerosa “como as estrelas do céu” (v. 5). Na sequência, o narrador deixa Abraão a contemplar em silêncio o céu estrelado e volta-se para o leitor, comunicando-lhe os seus próprios juízos teológicos (v. 6): Abraão acreditou em Jahwéh e, por isso, o Senhor considerou-o como justo. A (usa-se o verbo “‘aman”, que significa “estar firme”, “ser leal”, “acreditar plenamente”) de que aqui se fala traduz uma atitude de confiança total, de aceitação radical, de entrega plena aos desígnios de Deus; a justiça é um conceito relacional, que exprime um comportamento correto no que diz respeito a uma relação comunitária existente: aqui, significa o reconhecimento de que Abraão teve um comportamento correto na sua relação com Jahwéh, ao confiar totalmente em Deus e ao aceitar os seus planos sem qualquer dúvida ou discussão.
Há ainda o complemento habitual da promessa: a garantia de uma terra (v. 7). Os dois temas – descendência e posse da terra – andam associados, nestes casos.
A segunda parte do texto apresenta Deus a fazer os preparativos de um misterioso cerimonial. Trata-se de um rito de conclusão de uma aliança, conhecido sob esta ou outra forma semelhante em numerosos povos antigos: cortavam-se os animais em dois e colocavam-se as duas metades frente a frente; quem subscrevia a aliança passava entre as duas metades de animais e pronunciava contra si próprio uma espécie de maldição, para o caso de ser responsável pela quebra do pacto.
Seguindo o modo como entre os homens se garantia a máxima firmeza contratual, o catequista bíblico acentua a ideia de um compromisso solene e irrevogável que Deus assume com Abraão. A promessa de Deus fica assim totalmente garantida.
Repare-se, ainda, num outro pormenor: Deus não exigiu nada a Abraão, em troca, nem Abraão teve que passar no meio dos animais mortos (só Deus passou, no “fogo ardente”). A promessa de Deus a Abraão é, pois, totalmente gratuita e incondicional.
ATUALIZAÇÃO
Apesar da contínua reafirmação das promessas, Abraão está velho, sem filhos, sem a terra sonhada e a sua vida parece condenada ao fracasso. Seria natural que Abraão manifestasse o seu desapontamento e a sua frustração diante de Deus; no entanto, a resposta de Abraão é confiar totalmente em Deus, aceitar os seus projetos e pôr-se ao serviço dos desígnios de Jahwéh. É esta mesma confiança total que marca a minha relação com Deus? Estou sempre disposto – mesmo em situações que eu não compreendo – a entregar-me nas mãos de Deus e a confiar nos seus desígnios?
O Deus que se revela a Abraão é um Deus que se compromete com o homem e cujas promessas são garantidas, gratuitas e incondicionais. Diante disto, somos convidados a construir a nossa existência com serenidade e confiança, sabendo que no meio das tempestades que agitam a nossa vida Ele está lá, acompanhando-nos, amando-nos e sendo a rocha segura a que nos podemos agarrar quando tudo o resto falhou.

2ª leitura: Fl. 3,17 - 4,1 - AMBIENTE

Na prisão (em Éfeso?), Paulo agradece aos Filipenses a preocupação manifestada (eles até enviaram dinheiro e um membro da comunidade para ajudar Paulo no cativeiro), dá notícias, exorta-os à fidelidade e põe-nos de sobreaviso em relação aos falsos pregadores do Evangelho de Jesus. Estamos no ano 56/57, provavelmente.
O texto que nos é proposto como segunda leitura faz parte de um longo desenvolvimento (cf. Fl. 3,1 - 4,1), no qual Paulo avisa os Filipenses para que tenham cuidado com “os cães”, os “maus obreiros”, os “falsos circuncidados” (cf. Fl. 3,2).
Quem são estes, a quem Paulo se refere de uma forma tão pouco delicada? Muito provavelmente, são esses cristãos de origem judaica (”judaizantes”) que se consideravam os únicos perfeitos e detentores da verdade, que exigiam aos cristãos o cumprimento da Lei de Moisés e que, dessa forma, lançavam a confusão nas comunidades cristãs do mundo helênico. As duras palavras de Paulo resultam da sua revolta diante daqueles que, com a sua intolerância, com o seu orgulho e auto-suficiência, confundiam os cristãos e punham em causa o essencial da fé (o Evangelho não é o cumprimento de ritos externos, mas a adesão à proposta gratuita de salvação que Deus nos faz em Jesus).
MENSAGEM
Os Filipenses têm diante de si dois possíveis e muito diferentes exemplos a seguir.
Um é o de Paulo, que se considera um atleta de fundo, que já começou a sua corrida, mas tem consciência de que ainda não atingiu a meta; outro é o desses pregadores “judaizantes” que alardeiam participar já, de forma plena e definitiva, no triunfo de Cristo. Paulo recusa este triunfalismo e não duvida em pedir aos Filipenses que não imitem o exemplo de orgulho desses pregadores, mas o exemplo do próprio Paulo.
Aos Filipenses e a todos os cristãos, Paulo avisa que em nenhum caso devem considerar-se como atletas já vitoriosos e coroados de glória, mas como atletas em plena competição, esperando alcançar a meta e a vitória. A salvação não está consumada; encontra-se ainda em processo de gestação. É um processo em que o cristão vai amadurecendo progressivamente, sob o signo da cruz de Cristo.
Quanto a esses, “cujo deus é o ventre” (Paulo visa aqui, com alguma ironia, as observâncias alimentares dos “judaizantes”), que põem o “orgulho na sua vergonha” (sem dúvida, a circuncisão, sinal da pertença ao “povo eleito”) e “colocam o seu coração nas coisas terrenas” (alguns pensam que Paulo se refere, aqui, a certas práticas libertinas), esses esqueceram o essencial e estão condenados à perdição (v. 19).
O nosso destino definitivo, segundo Paulo, não é um corpo corruptível e mortal, mas um corpo transfigurado pela ressurreição. Como garantia de que será assim, temos Jesus Cristo, Senhor e Salvador.
ATUALIZAÇÃO
Neste tempo de transformação e renovação, somos convidados pela Palavra de Deus a ter consciência de que a nossa caminhada em direção ao Homem Novo não está concluída; trata-se de um processo construído dia a dia sob o signo da cruz, isto é, numa entrega total por amor que subverte os nossos esquemas egoístas e comodistas.
Considerar-se (como os “judaizantes” de que Paulo fala) como alguém que já atingiu a meta da perfeição pela prática de alguns ritos externos (as normas alimentares e a circuncisão, para os “judaizantes”, ou as práticas de jejum e abstinência, para os cristãos) é orgulho e auto-suficiência: significa que ainda não percebemos onde está o essencial – na mudança do coração. Só a transformação radical do coração nos conduzirá a essa vida nova, transfigurada pela ressurreição.

EVANGELHO: Lc. 9,28b-36 - AMBIENTE

Estamos no final da “etapa da Galileia”; durante essa etapa, Jesus anunciou a salvação aos pobres, proclamou a libertação aos cativos, fez os cegos recobrar a vista, mandou em liberdade os oprimidos, proclamou o tempo da graça do Senhor (cf. Lc. 4,16-30). À volta de Jesus já se formou esse grupo dos que acolheram a oferta da salvação (os discípulos). Testemunhas das palavras e dos gestos libertadores de Jesus, eles já descobriram que Jesus é o Messias de Deus (cf. Lc. 9,18-20). Também já ouviram dizer que o messianismo de Jesus passa pela cruz (cf. Lc. 9,21-22) e que os discípulos de Jesus devem seguir o mesmo caminho de amor e de entrega da vida (cf. Lc. 9,23-26); mas, antes de subirem a Jerusalém para testemunhar a erupção total da salvação, recebem a revelação do Pai que, no alto de um monte, atesta que Jesus é o Filho bem amado. Os acontecimentos que se aproximam ganham, assim, novo sentido.
Para o homem bíblico, o “monte” era o lugar sagrado por excelência: a meio caminho entre a terra e o céu, era o lugar ideal para o encontro do homem com o mundo divino.
É, portanto, no monte que Deus Se revela ao homem e lhe apresenta os seus projetos.
MENSAGEM
O relato da transfiguração de Jesus, mais do que uma crônica fotográfica de acontecimentos, é uma página de teologia; aí, apresenta-se uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que através da cruz concretiza um projeto de vida.
O episódio está cheio de referências ao Antigo Testamento. O “monte” situa-nos num contexto de revelação (é “no monte” que Deus Se revela e que faz aliança com o seu Povo); a “mudança” do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex. 34,29); a nuvem indica a presença de Deus conduzindo o seu Povo através do deserto (cf. Ex. 40,35; Nm. 9,18.22;10,34).
Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt. 18,15-18; Mal. 3,22-23). Eles falam com Jesus sobre a sua “morte” (”exodon” – “partida”) que ia dar-se em Jerusalém. A palavra usada por Lucas situa-nos no contexto do “êxodo”: a morte próxima de Jesus é, pois, vista por Lucas como uma morte libertadora, que trará o Povo de Deus da terra da escravidão para a terra da liberdade.
A mensagem fundamental é, portanto, esta: Jesus é o Filho amado de Deus, através de quem o Pai oferece aos homens uma proposta de aliança e de libertação. O Antigo Testamento (Lei e profetas) e as figuras de Moisés e Elias apontam para Jesus e anunciam a salvação definitiva que, n’Ele, irá acontecer. Essa libertação definitiva dar-se-á na cruz, quando Jesus cumprir integralmente o seu destino de entrega, de dom, de amor total. É esse o “novo êxodo”, o dia da libertação definitiva do Povo de Deus.
E o “sono” dos discípulos e as “tendas”? O “sono” é simbólico: os discípulos “dormem” porque não querem entender que a “glória” do Messias tenha de passar pela experiência da cruz e da entrega da vida; a construção das “tendas” (alusão à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas, no deserto?) parece significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, de festa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus.
ATUALIZAÇÃO
O fato fundamental deste episódio reside na revelação de Jesus como o Filho amado de Deus, que vai concretizar o plano salvador e libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de Si próprio por amor. É dessa forma que se realiza a nossa passagem da escravidão do egoísmo para a liberdade do amor. A “transfiguração” anuncia a vida nova que daí nasce, a ressurreição.
Os três discípulos que partilham a experiência da transfiguração recusam-se a aceitar que o triunfo do projeto libertador do Pai passe pelo sofrimento e pela cruz. Eles só concebem um Deus que Se manifesta no poder, nas honras, nos triunfos; e não entendem um Deus que Se manifesta no serviço, no amor que se dá. Qual é o caminho da Igreja de Jesus (e de cada um de nós, em particular): um caminho de busca de honras, de busca de influências, de promiscuidade com o poder, ou um caminho de serviço aos mais pobres, de luta pela justiça e pela verdade, de amor que se faz dom? É no amor e no dom da vida que buscamos a vida nova aqui anunciada?
Os discípulos, testemunhas da transfiguração, parecem também não ter muita vontade de “descer à terra” e enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Representam todos aqueles que vivem de olhos postos no céu, mas alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, a experiência de Jesus obriga a continuar a obra que Ele começou e a “regressar ao mundo” para fazer da vida um dom e uma entrega aos homens nossos irmãos. A religião não é um “ópio” que nos adormece, mas um compromisso com Deus que Se faz compromisso de amor com o mundo e com os homens.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho




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