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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

3º DOMINGO QUARESMA-C

3º DOMINGO QUARESMA


28 de Fevereiro de 2016
Ano C


1ª Leitura - Ex 3,1-8a.13-15

Salmo - Sl 102 (103)

2ª Leitura - 1Cor 10,1-6.10.12

 

Evangelho - Lc 13,1-9


A primeira coisa que pensamos diante de uma desgraça, é que estamos sendo castigados severamente pelos nossos pecados... Continua

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A CONVERSÃO NOS RECOLOCA NO CORAÇÃO DO PAI!- Olivia Coutinho

3º DOMINGO DA QUARESMA

Dia 28 de Fevereiro de 2016

Evangelho de Lc13, 1-9


Estamos no terceiro domingo da Quaresma! Neste tempo litúrgico, somos convidados a mergulhar no amor de Jesus na escuta atenta de suas palavras!
Em todos os ensinamentos de Jesus, há sempre um apelo de conversão e no tempo da Quaresma, este apelo se intensifica ainda mais, é o amor de Jesus querendo falar mais forte ao nosso coração, assegurando-nos que o Pai não desiste de nós!
Jesus não quer perder  nenhum daqueles que o Pai lhe confiara, por isto, Ele está sempre nos chamando  à conversão, a uma conversão sincera, que nos leve ao arrependimento, a reparar o mal que fizemos ao outro, como também, a perdoar o mal que nos fizeram. Não podemos esquecer, de que a nossa conversão deve ser diária, pois são muitos, os adversários do projeto  de Deus, tentando  nos desviar  do caminho.
A conversão, ou seja, uma mudança de vida, exige de nós, um exercício constante, pois recomeçar,  é sempre  um desafio!
 O Evangelho que a liturgia de hoje nos apresenta, chega até a nós como um convite a uma transformação de vida, a uma mudança de mentalidade! 
O texto que nos é apresentado, é composto de duas partes, na primeira parte, Jesus recebe a notícia da morte trágica de alguns galileus mortos a mando de Pilatos. As pessoas,  que  lhes deram esta notícia, atribuíam estas mortes como sendo  um  castigo de Deus, eles esperavam que Jesus tivesse algo a dizer sobre tal atrocidade, mas Jesus não se ocupa com aqueles que haviam partido deste mundo, e sim, com aqueles, que estavam ali, diante Dele, estes, tinham a oportunidade de terem uma sorte melhor do que a sorte dos galileus mortos que provavelmente não tiveram tempo de se converterem.
 Para facilitar ainda mais a compreensão do que Ele queria transmitir, Jesus acrescenta outro fato que aconteceu com dezoito homens que foram mortos em Jerusalém, na queda da torre de Siloé. Tanto no primeiro fato, como no segundo, Jesus adverte a todos, sobre a necessidade da conversão, pois fatalidades podem nos pegar de surpresa a qualquer momento e sem conversão, ninguém alcança a vida eterna!
Jesus, insiste em tirar  daquelas pessoas e hoje de nós, a ideia de que as tragédias sejam castigo de Deus, Ele quer abolir essa ideia erronia herdada do antigo testamento, nos mostrando, através Dele mesmo, que Deus só sabe amar, que Ele ama bons e maus com a mesma intensidade! É importante, conscientizarmos, de que Deus não castiga ninguém, que Ele não escolhe quem deve sofrer ou não, as tragédias, são de responsabilidades humana e não castigo de Deus!
Na segunda parte do evangelho, Jesus conta a parábola da figueira, uma parábola, que vem nos falar da paciência de Deus para com cada um de nós! Como podemos perceber, é mais um apelo de conversão!
Todos nós necessitamos de conversão, para a figueira, foi dada uma única chance, mas para nós, Deus dá inúmeras chances! Por isto, deixemo-nos ser cuidados pelo agricultor maior, que é Jesus, não tenhamos medo de sofrermos as podas, afinal, fomos plantados por Deus aqui na terra, para produzir frutos e são as podas, que nos possibilitam produzir frutos de boa qualidade!
O caminho que Jesus nos indica, é o caminho do amor, para Ele, não há justificativa para que nenhum de nós se perca, afinal, temos um Pai misericordioso que está sempre nos dando uma nova chance para retomarmos o caminho da vida, não desperdicemos tamanho amor!


FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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O tempo da Quaresma recorda muitas vezes o tempo da travessia do deserto por parte de Israel: tempo de peregrinação, de provação e de purificação. O livro do Deuteronômio recorda isto com palavras muito fortes: “Lembra-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto, a fim de humilhar-te, tentar-te e conhecer o que tinhas no coração. Portanto, reconhece hoje no teu coração que o Senhor teu Deus te educava, como um homem educa seu filho” (Dt. 8,2.5). No deserto, portanto, Deus usou as provas pelas quais Israel passou, para revelar ao seu povo aquilo que estava escondido no seu próprio coração, isto é, seu pecado, sua fraqueza, sua infidelidade. Mas, também no deserto, Deus cercou seu povo de carinho e proteção, alimentou-o com o maná e saciou-o com a água do rochedo, guiou-o pela nuvem luminosa de noite e protetora contra o sol de dia... Tempo de noivado e de amor entre Deus e o seu povo, foi o tempo do deserto! Por isso, pensar nessa travessia pelo deserto serve tanto para a nossa preparação para a Páscoa.
Mas, vejamos. Como começou o caminho de Israel deserto a dentro? Começou com a “descida” de Deus para juntinho do seu povo que gemia debaixo de humilhante escravidão: “Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o seu clamor por causa da dureza de seus opressores. Sim, conheço os seus sofrimentos. Desci para libertá-lo e fazê-los sair...” Que coisa impressionante: um Deus tão grande, tão santo, o Deus de Israel e, no entanto, é capaz de ver a aflição, ouvir o clamor, conhecer o sofrimento do seu povo, que era ninguém, que não passava de um punhado de escravos! “Eu desci para libertá-lo!” Nosso Deus é um Deus que desce, que vem para junto do pobre que se encontra no monturo! Nosso Deus é um Deus que liberta e salva! E quando Moisés pergunta pelo seu nome, Deus revela-o de dois modos: primeiro apresenta-se como o “o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” – isto é, o Deus fiel, o Deus que não esqueceu seus amigos do passado, Abraão, Isaac e Jacó e agora vem em socorro de seus descendentes. Depois, Deus revela o seu nome: “Eu sou aquele que será”. Segundo bons exegetas, assim deve-se traduzir o nome de Deus. Isto é, Deus não revela o seu nome a Moisés! Seu “nome”, na verdade, é um desafio, um convite; quer dizer: “Eu sou o que tu verás quando eu agir! Tu verás quem eu sou à medida que caminhares comigo! Eu sou o que estará sempre contigo!” – O Deus que foi fiel a Abraão, a Isaac e a Jacó é confiável, pode-se apostar a vida nele: Moisés e o povo de Israel haverão de ver! E viram, em tantos momentos da travessia do deserto. Na segunda leitura, São Paulo recorda vários destes acontecimentos: a nuvem e o mar (imagens do Espírito e da água do Batismo), o maná (imagem da Eucaristia), a água que brotou da rocha (imagem do Cristo, de cujo lado traspassado brotou o Espírito). Deus fora todo carinho, todo proteção, todo compaixão e paciência... E, no entanto, Israel tantas vezes duvidou, revoltou-se, murmurou, foi de cerviz dura e infiel!
São Paulo nos previne: “Esses fatos aconteceram para servir de exemplo para nós, a fim de que não desejemos coisas más, como fizeram aqueles no deserto. Não murmureis, como alguns deles murmuraram... Portanto, quem está de pé tome cuidado para não cair”. Nós somos o povo de Deus da Nova Aliança. Como Israel, atravessamos um longo deserto rumo à Terra Prometida, que é a Pátria celeste; e também nós somos sujeitos a tantas tentações, como Israel. O grande pecado do povo de Deus da Antiga Aliança era descrer e murmurar contra Deus. De cabeça dura, Israel teimava em caminhar do seu modo, em fazer do seu jeito, em contar com suas forças e sua lógica. Quantas vezes o povo fez isso! Quantas vezes nós fazemos isso!
Neste santo tempo quaresmal, somos chamados a uma sincera conversão, a mudar nossa lógica, confiando realmente no Senhor e trilhando sinceramente seus caminhos! Estejamos atentos à seríssima advertência que o Senhor Jesus nos faz no Evangelho. Primeiro ele usa dois acontecimentos daqueles dias em Jerusalém para ilustrar a necessidade de conversão urgente: os galileus que Pilatos perversamente mandara matar e misturar seu sangue com o dos animais sacrificados no Templo – um ato de profanação! – e as dezoito pessoas que morreram por conta do desabamento de uma torre em Jerusalém. Jesus pergunta: “Pensais que essas pessoas eram mais pecadoras que as outras?” Não! Os sofrimentos da vida não são castigo pelos pecados! Mas, devem servir de reflexão e de alerta para todos! Há uma desgraça muito pior que qualquer acidente: morrer para Deus, ressecar o coração para o Senhor: “Se não vos converterdes, ireis morrer do mesmo modo!” Depois Jesus ilustra o que ele quer dizer com a parábola da figueira estéril: “Há três anos venho procurando figos nesta figueira e nada encontro!” A figueira da parábola é o povo de Israel que, durante três anos, ouviu a pregação do Senhor e não o acolheu. Mas, e nós, há quantos anos escutamos o Senhor? Que frutos estamos dando? Nesta Quaresma de 2004, como vai o nosso combate espiritual, o nosso caminho de conversão?
Não abusemos da paciência de Deus, não tomemos como desculpa a sua misericórdia para retardar nossa conversão! O Eclesiástico previne severamente:“Não digas: ‘Pequei: o que me aconteceu?’ porque o Senhor é paciente. Não sejas tão seguro do perdão para acumular pecado sobre pecado. Não digas: ‘Sua misericórdia é grande para perdoar meus inúmeros pecados’, porque há nele misericórdia e cólera e sua ira pousará sobre os pecadores. Não demores em voltar para o Senhor e não adies de um dia para o outro, porque, de repente, a cólera do Senhor virá e no dia do castigo perecerás” (Eclo 5,4-7)
Caríssimos, eis o tempo de conversão, eis o dia da salvação! Deixemo-nos reconciliar com Deus em Cristo! Convertamo-nos!
dom Henrique Soares da Costa


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Deus se faz presente na história por meio de quem aceita o encargo de falar à humanidade em nome dele. O criador do mundo guiou os patriarcas, chamou Moisés para libertar os escravos do Egito e, depois de ter enviado os profetas, revelou-se como Pai de Jesus Cristo, o emissário por excelência, ressuscitado e presente nas comunidades cristãs. A constante presença divina na história nos questiona sobre a acolhida que o ser humano ofereceu a Deus através dos tempos. Crises financeiras, desastres e catástrofes da natureza não são as piores coisas que podem atingir a humanidade. O maior desastre que pode sobrevir à criação inteira é a falta de acolhida a Deus por parte da única criatura capaz de reconhecê-lo e amá-lo. Porque a criatura não tem a existência em si mesma, mas a recebe do único Eu Sou. Ao ser humano cabe responder em nome da criação inteira: aqui estou.
Evangelho (Lc. 13,1-9)
O Enviado de Deus convida à conversão
Esse texto insere-se numa série de discursos sobre a necessidade de reconhecer os sinais dos tempos. Os sinais são um convite à conversão, pois a missão histórica de Jesus marca o fim da espera e inaugura o tempo da decisão a favor ou contra o enviado de Deus. Duas desgraças públicas daquela época são citadas por Jesus com o intuito de corrigir ideias erradas sobre a ação de Deus.
Jesus mostra a necessidade de uma transformação interior e real dos ouvintes, fazendo-lhes o apelo para não se sentirem justos diante de Deus nem considerarem as vítimas de desastres como pecadores castigados. A admoestação de Jesus visa modificar a mentalidade da época, assegurando que todos são pecadores e, portanto, todos são convidados à conversão. Converter-se significa acolher a presença salvadora de Deus oferecida em Jesus. Rejeitá-la seria algo pior que um desastre.
Hoje, muitos cristãos ainda pensam que o Pai exigiu a morte do Filho como pagamento pelos pecados da humanidade. Contudo, na ressurreição de Jesus, o Pai mostra que está do lado das vítimas e que o fato de sofrer violência ou desastres não significa ser castigado pelos pecados.
O texto prossegue com a parábola da figueira, que vem confirmar esse chamamento à conversão. A imagem da figueira estéril era muito comum na época para indicar o comportamento infiel do povo (cf. Jr. 8,13; Mq. 7,1). Apesar da não produtividade da figueira, ainda há uma última tentativa: esperar mais um ano. Lembremos que a atuação de Jesus inaugura o ano jubilar (Lc. 4,18). Isso significa que, na ação e na palavra de Jesus, nos é oferecida a última oportunidade de conversão, de decisão, pois o julgamento está próximo (Lc. 13,9)
1ª leitura: Ex. 3,1-8a.13-15
“Eu Sou” me envia a vós para vos tirar da escravidão
Esse texto sobre a vocação de Moisés está dividido em três partes: Deus exigiu que Moisés demonstrasse humildade (3,1-6), informou-lhe sobre o propósito divino (3,7-10) e assegurou-lhe que a presença divina o acompanharia (vv. 13-15).
a) Tira as sandálias (3,1-7). Moisés está acomodado, apascentando os rebanhos do sogro, e chega até a Montanha de Deus. O texto mostra que Deus chama o ser humano na vida cotidiana, desde que este se disponha a ir um pouco além da rotina diária. Para tanto, o texto bíblico se utiliza de vários elementos simbólicos. A sarça ardente é representada na liturgia judaica como o candelabro de sete lâmpadas sempre aceso no tabernáculo (hoje nas sinagogas), simbolizando a presença de Deus na criação e na história. Caberia ao judeu nunca deixar faltar o óleo (a fé) para que o ser humano fosse tocado pela presença de Deus.
Moisés viu que a sarça ardia e não se consumia porque não é intenção de Deus destruir as coisas para se fazer notado. O termo hebraico para sarça (seneh) soa parecido com Sinai e quer mostrar como o temível Deus do Sinai, a quem Moisés evita olhar, é alguém que se faz humilde num arbusto do deserto e na vida de qualquer pessoa, por mais insignificante que pense ser.
Deus conhece Moisés, chama-o pelo nome e quer também se dar a conhecer, revelando seu grandioso nome. Ao chamado Moisés respondeu hinneni, que se traduz por “aqui eu estou” ou “aqui eu sou”. Porque somente estando diante de Deus o ser humano encontra a própria identidade. Tira tuas sandálias, ordena o Senhor, despoja-te de tua presunção, porque eu sou um Deus que, sendo grande, se faz pequeno. Deixa teus pés tocarem o pó de onde vieste, para que saibas que tua grandeza vem de Deus e não de ti mesmo.
Deus não se apresentou a Moisés como novo deus, mas como aquele que caminhou com os antepassados ao longo da história. Tratava-se do Deus do pacto, um Deus de amor, porque quem ama se compromete com o ser amado. Israel havia se esquecido de seu Deus – afirma a hermenêutica dos mestres judeus sobre esse texto –, mas Deus não esqueceu seu povo, não rompeu com a aliança feita com os patriarcas e não deixou de acompanhar aqueles a quem amava.
b) O propósito divino (3,7-10). O Senhor chama Moisés a uma missão. Dois são os elementos principais desse diálogo:
1) a decisão irrevogável de libertar o povo (v. 8);
2) a escolha de Moisés para ser o instrumento dessa libertação (v. 10).
Os verbos empregados indicam a presença constante de Deus junto ao povo: eu vi, eu ouvi, eu conheço as angústias dele, eu desci, eu te envio. Pela primeira vez Israel é chamado de terra onde corre leite e mel. Essa expressão simboliza tudo que pode estar em contraposição à realidade de escravidão. Mas, se a terra prometida tem donos, isso significa que o dom é também uma conquista. Deus não faz 100%, porque, se assim fosse, ele não teria feito um pacto. O Deus da aliança envolve o ser humano em sua ação salvífica.
c) Um Deus companheiro (3,13-15). Depois de saber do propósito de Deus, Moisés tem uma pergunta, que não deriva de abstrações filosóficas, mas tem cunho prático e pastoral: se o povo me perguntar qual é seu nome, o que direi? (v. 13). Nas antigas civilizações, o nome significava a própria pessoa, seu caráter, seus atributos, seu ser. A preocupação de Moisés é como é Deus, qual a atividade dele, qual é sua ação.
Deus responde a Moisés com o verbo hebraico “ser/estar”. Como se encontra em uma ação incompleta, devemos traduzi-lo por “era”, “sou”, “serei”, “estava”, “estou”, “estarei”. O Deus sempre presente e acolhedor do ser humano envia mensageiros para que sua presença possa ser efetiva nos que estão em situação de escravidão, para os que têm a dignidade negada. Deus é o existente e a fonte da existência de todos os seres. Seu nome significa que ele é um mistério e só pode ser visto por meio do ser humano, sua imagem. Por isso qualquer tipo de escravidão é uma ofensa a Deus, pois a imagem de Deus é roubada do ser humano quando a dignidade deste é negada.
O “nome” também significa que Deus será conhecido por meio daquilo que faz, ou seja, de sua ação na criação e na história. Ele já agiu em favor dos patriarcas, e seu nome enfatiza a presença ativa do Senhor no passado, no presente e no futuro. O versículo 12, que não foi lido nesta liturgia, afirma: eu estarei sempre contigo. Ele estará presente e agindo até o fim dos tempos.
2ª leitura: 1Cor. 10,1-6.10.12
A rocha que os acompanhava era Cristo
A maior parte da Igreja de Corinto era formada por não judeus. Por isso Paulo se preocupa com a qualidade da vida cristã nessa grande cidade, profundamente marcada pela libertinagem e pelas demais situações de pecado decorrentes da falta de compromisso com o seguimento de Jesus.
O texto proclamado na liturgia de hoje divide-se em duas partes:
a) resumo da narrativa bíblica sobre o período em que o povo viveu no deserto (10,1 - 6);
b) uma advertência contra a falsa segurança religiosa (10,10 - 12).
À maneira dos mestres judeus, Paulo resume e interpreta os acontecimentos da saída do Egito e da peregrinação no deserto. Os principais elementos literários e teológicos são: a nuvem, o mar, o maná e a rocha da qual saiu água (Ex. 13 - 17; Nm. 20,7 - 13). Há um vínculo entre a experiência de Deus que os cristãos têm no presente e a experiência de fé vivida pelos hebreus no passado. Os eventos do passado eram prefigurações do que viria em plenitude com Jesus Cristo. O êxodo do Egito foi o ato salvífico do Antigo Testamento, e a morte e ressurreição de Jesus são o evento salvífico por excelência. Esses acontecimentos não estão desvinculados. A obra redentora de Jesus Cristo é a obra do Pai.
Antes de entrar na terra prometida, Israel enfrentou vários desafios no deserto que mostraram a fragilidade de sua fé, e agora a Igreja deve mostrar a consistência de sua fé. Portanto, a Igreja tem muito que aprender com a história de Israel.
Usando um antigo método judaico de interpretação, Paulo afirma a respeito dos hebreus que saíram do Egito: “todos foram batizados”, “todos comeram”, “todos beberam”. “Todos foram batizados”: ou seja, por meio de Moisés, o libertador enviado por Deus, os hebreus receberam vida nova, deixaram de ser escravos e fizeram uma aliança com Deus. Alguns textos bíblicos aludem ao maná como “o pão do céu” (Sl 105,40). De igual forma, a água que brotou da rocha era um dom de Deus. O maná e a água são descritos como alimentos espirituais porque não eram produtos de Moisés, mas, sim, de Deus.
E, como a água brotada da rocha é mencionada no início (Ex. 17,1-7) e no fim (Nm. 20,2-13) da peregrinação no deserto, os mestres judeus forjaram a interpretação de uma rocha ambulante que acompanhou o povo por 40 anos. Isso não é um absurdo, mas um simbolismo profundamente teológico, visto que em várias passagens Deus é chamado de “rocha” (Dt. 32,4ss). Paulo utiliza a teologia dos mestres judeus para afirmar que a rocha era Cristo.
Os hebreus receberam os benefícios da presença divina, mas nem todos assumiram a responsabilidade com o compromisso da aliança. Seu pecado foi duplo (Nm. 13-14): 1) duvidar da presença salvadora, murmurando contra Moisés; 2) confiar nas próprias forças. Paulo usa a narrativa sobre o deserto como uma advertência aos coríntios: o mesmo pode acontecer com eles.
O fato de terem participado do “batismo” em Moisés e provado da comida e bebida espirituais no deserto não garantiu aos hebreus a entrada na terra prometida. Tampouco uma participação mecânica na Igreja, sem um seguimento genuíno de Cristo, será garantia de bem-estar nesta vida e de salvação eterna.
A presunção dos coríntios lhes fez crer que a participação regular nos sacramentos lhes era garantia de ser verdadeiros cristãos. Mas, com uma leitura acurada dos eventos do passado, Paulo procura conscientizá-los desse engano. Os sacramentos revelam a presença de Deus entre nós e nos questionam sobre o tipo de vida cristã que estamos assumindo. Eles não nos foram dados para o conformismo e para a presunção, mas como fonte, cume e critério da práxis cristã.
Reflexão
É oportuno perguntar pelo verdadeiro engajamento na Igreja, sobre a qualidade da vida cristã e sobre o significado mais profundo do seguimento de Jesus e suas implicações na vida cotidiana. Também se deve fazer um convite à acolhida da presença de Deus no outro e à conversão diária. É bom perguntar pelos sinais que mostram a veracidade de nossa fé/fidelidade ou a insensatez de nossa presunção.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj


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A paradoxal força dos profetas
Jeremias é chamado a ser profeta das nações. Jesus se apresenta  como profeta que Deus quer, a  Igreja é um povo de profetas.
O Missal Dominical da Paulus, assim descreve o profeta, esses seres que têm imensa força embora perseguidos e sofredores.
“O profeta  é a consciência crítica  do povo, uma consciência crítica não tanto em nome da  razão, quanto em nome da Palavra de Deus. Por isso, o profeta é um “ser contra”; desmascara  as astuciosas cumplicidades com o mal, onde quer que se encontrem;   denuncia com firmeza os vícios do povo, a falsidade do culto, os abusos do poder, qualquer forma de idolatria e injustiça, qualquer tentativa de “aprisionar” a Deus.  A denúncia profética é “juízo de Deus”  sobre a malícia humana e ao mesmo tempo  comunicação de sua santa vontade. É sempre um convite  à conversão do coração, pessoal e coletiva.
A denúncia profética é obra do amor, um amor apaixonado por Deus e pelos homens.
O profeta  é o defensor  dos oprimidos, dos fracos, dos marginalizados; está sempre do seu lado; é a sua voz; a voz de quem não tem voz nem vez;  é chamado a ser responsável por Deus diante dos homens e responsável pelos homens diante de Deus.
O profeta é o homem da esperança. A denúncia do mal  não o torna amargo; ele olha  para frente com confiança. Nos momentos mais duros  do povo eleito  (deportações, exílio, sofrimentos) as palavras do profeta são palavras de consolação e confiança. Denunciadas a infidelidade  do povo, o profeta anuncia a fidelidade de Deus, na qual se baseia firmemente a esperança.
O profeta é o  homem da “aliança”. É o homem que viu a Deus;  não, certamente,  Deus em si mesmo. Deus nos ultrapassa sempre, é sempre o  Deus “escondido”. O profeta vê o que Deus faz, vê o seu plano de amor, faz uma leitura divina  dos acontecimentos humanos”  (p. 1102).
Lucas, no evangelho hoje proclamado,  fala desse Jesus, profeta de Nazaré, que é rejeitado.  Nenhuma profeta, afirma Jesus, é bem recebido em sua pátria.  E Lucas conclui: “Quando ouviram essas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade.  Levaram-no até o alto do monte sobre o qual a cidade estava  construída com a intenção de  lança-lo no precipício.  Jesus, porém, passando entre eles, continuou o seu caminho”.
A Igreja é povo de profetas. Quando ela perde os profetas, perde o rumo.
frei Almir Ribeiro Guimarães

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Deus é fogo, mas tem paciência
Depois dos episódios da tentação e da transfiguração nos dois primeiros domingos da Quaresma, a liturgia nos propõe o tema da conversão. Nos anos A e B, os enfoques de domingo foram, respectivamente, a catequese batismal e o cristocentrismo. No ano C, o evangelho realça especificamente a graça. Lc é o evangelho da graça, dos pobres e dos pecadores. Para receber a graça que nos renova devemos estar conscientes de sermos pecadores (cf. os próximos domingos). Porém, ao mesmo tempo que nos conscientizamos de nosso pecado, devemos ter diante dos olhos a perspectiva da graça e do perdão de Deus, nosso Pai.
A 1ª leitura nos coloca em espírito de “temor do Senhor”. Assistimos à grandiosa revelação de Deus a Moisés, na sarça ardente. Deus está em fogo inacessível. Deus devora quem dele se aproxima. “Tira tuas sandálias: o chão em que estás é santo!” (Ex. 3,5). Deus está em ardor, porque viu a miséria de seu povo e ouviu seu clamor. Moisés será seu enviado para revelar a Israel sua libertação e ao Faraó a cólera do Senhor. E em nome de quem deverá falar? No nome de “Eu estou aí” (= “Pode contar comigo!”) (3,15).
Deus está aí, com seu poder e sua fidelidade, mas também com sua justiça: na 2ª leitura, Paulo nos ensina a “lição da história” de Israel. Eles tinham a promessa, os privilégios, a proteção de Deus. Todos os israelitas experimentaram, no deserto, a mão de Deus que os conduzia. Todos foram saciados com o alimento celestial e aliviaram-se na água do rochedo (que significa o Messias). Contudo, a maioria deles, por causa de sua dureza de coração, foram rejeitados por Deus (cf. Nm 17,14). Com vistas ao fim dos tempos e ao Juízo, Paulo avisa seus leitores para que aprendam a lição (1Cor. 10,1-6).
Lc. 13,1-5 é, se possível, mais explícito ainda. Dentro da concepção mágica de que as catástrofes são castigos de Deus, os judeus perguntaram a Jesus que mal fizeram os galileus cujo sangue Pilatos misturou com o de suas vítimas, quando foram apresentar sua oferta no templo de Jerusalém; ou as dezoito pessoas que morreram porque caiu sobre elas a torre de Siloé. Jesus responde: “A questão não é saber que mal fizeram eles; a questão é que vocês mesmos não se devem considerar isentos de castigo, por serem bons judeus; digo-lhes: se vocês não se converterem, conhecerão a mesma sorte!”
As catástrofes não são castigos, mas lembretes! E não adianta pertencer ao grupo dos “eleitos” – os judeus no deserto, os fariseus do tempo de Jesus, ou os “bons cristãos” hoje. O negócio é converter-se! Pois cada um descobre algo a endireitar, quando se coloca diante da face de Deus. Ou melhor, em tudo o que fazemos e somos, mesmo em nossas ações e atitudes mais dignas de louvor, descobrimos os traços de nosso egoísmo e falta de amor, quando nos expomos à luz da “sarça ardente”. Só Deus é santo.
Por isso, todos nós devemos converter-nos, sempre.
Se, até agora, a liturgia nos inspirou o temor do Senhor, o último trecho do evangelho nos traz a mensagem, tão característica de Lucac, da misericórdia de Deus (cf. salmo responsorial), que se mostra em forma de paciência (nos próximos domingos, em forma de perdão). A árvore infrutífera pode ficar mais um ano, pois talvez ela se converta ainda! Mas, algum ano será o último …
Johan Konings "Liturgia dominical"


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Penitência (Lc. 13,1-9)
Naquele tempo, vieram algumas pessoas trazendo notícias a Jesus a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando seu sangue com o dos sacrifícios que ofereciam. Jesus lhes respondeu: “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo. E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”.
E Jesus contou esta parábola: “Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou. Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?’ Ele, porém, respondeu:’ Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás’ “.
Comentário do Evangelho
Pilatos era conhecido por ser um homem insensível à religiosidade dos judeus e manter seu governo por demais severo.
As pessoas procuram Jesus para denunciar a injustiça ocorrida durante o sacrifício que os judeus faziam nos cultos da Páscoa, no Templo de Jerusalém, quando foram mortos, mas que pode, também, se tratar de uma rebelião dos judeus, reprimida por Pilatos.
Jesus não toca no nome de Pilatos, mas pede a conversão daqueles que acreditam no castigo ou nos desastres associados ao pecado, pois os acidentes não são castigos divinos, mas um apelo à conversão dos que sobrevivem.
A morte dos homens em Siloé foi causada por um acidente de fato, mas as pessoas achavam que era devido aos pecados cometidos pelos que morreram e, na mentalidade deles, as catástrofes eram castigos enviados por Deus aos culpados, baseada na doutrina da retribuição (olho por olho, dente por dente).
Jesus explica que os acidentes não indicam a espiritualidade das pessoas, mas que todos serão julgados no juizo final, e pede que se dediquem a uma vida honesta e sem julgamentos, de pessoas convertidas na fé. Ele mostra que não é verdadeira a idéia de que Deus quer castigar, ou seja, um deus vingador, mas que é o Deus da graça e da misericórdia.
A figueira simboliza a humanidade que é pecadora, uma das árvores mais comuns e generosas da Palestina, normalmente plantada no meio da vinha. Quem plantou a figueira e vai procurar os frutos é Deus e o agricultor é Jesus. Os três anos podem ser o período de pregação de Jesus, depois do qual se esperava “frutos abundantes”. O agricultor (Jesus) se propõe a adubar a figueira e aguardar mais um ano para que dê frutos, porém o povo daquela época sabia que figueiras não precisavam ser adubadas, e isso mostra a infinita dedicação de Jesus à conversão da humanidade.
Pequeninos do Senhor

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Pilatos era conhecido por todos, por ser um homem insensível à religiosidade dos judeus e manter seu governo por demais severo. A tragédia relatada no Evangelho por Lucas, talvez se refira ao fato de Pilatos utilizar os tesouros do Templo para construir um aqueduto (canal ou galeria, subterrâneo ou à superfície, construído com a finalidade de conduzir água). Incidente que pode também se tratar de uma rebelião dos judeus que Pilatos reprimiu.
As pessoas procuram Jesus para denunciar a injustiça ocorrida durante o sacrifício que os judeus faziam nos cultos durante a Páscoa, no Templo de Jerusalém, quando foram mortos. Ele não toca no nome de Pilatos, mas pede a conversão daqueles que acreditam no castigo ou nos desastres associados ao pecado, pois os acidentes não são castigos divinos, mas um apelo à conversão dos que sobrevivem.
A morte dos homens em Siloé foi causada por um acidente de fato, mas as pessoas achavam que era devido aos pecados cometidos pelos que morreram, e na mentalidade deles as catástrofes eram castigos enviados por Deus aos culpados, baseada na teologia da retribuição (olho por olho, dente por dente).
Jesus explica que os acidentes não indicam a espiritualidade das pessoas, mas que todos serão julgados no juízo final. E pede que se dediquem a uma vida honesta e sem julgamentos, de convertidos na fé. Ele acaba com a idéia de que Deus quer castigar e mostra que Ele não é um Deus vingador, mas o Deus da oferta graciosa.
A figueira simboliza a humanidade que é pecadora, uma das árvores mais comuns e generosas da Palestina, normalmente plantada no meio da vinha. Quem plantou a figueira e vai procurar os frutos é Deus, o agricultor é Jesus. Os três anos podem ser o período de pregação de Jesus, depois do qual se esperava "frutos abundantes". O agricultor (Jesus) se propõe a adubar a figueira e aguardar mais um ano para que dê frutos, porém o povo daquela época sabia que figueiras não precisavam ser adubadas, e isso mostra a infinita dedicação de Jesus à conversão da humanidade.




Pequeninos do Senhor
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A bondade de Deus
Jesus sobe para Jerusalém. Essa subida é ocasião de ensinamento, por isso ela é constituída de lições que Jesus dá aos seus discípulos. O texto do evangelho deste domingo não encontra paralelo nos outros dois sinóticos. Do ponto de vista histórico, nós não temos nenhuma informação, nem mesmo na literatura extrabíblica, dos fatos mencionados nos versículos 1 a 4. No entanto, o importante, aqui, é o valor de interpelação dos fatos, repetido duas vezes: "... se vós não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo" (vv. 3.5). A teoria da retribuição é ultrapassada: "Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que qualquer outro galileu...? Digo-vos que não. Mas se vós não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo? . Pensais que eram mais culpados do que qualquer outro morador de Jerusalém? Eu vos digo que não" (vv. 2-5). A morte de uns e não de outros é sinal do julgamento definitivo, sinal que precisa ser discernido: ". sabeis discernir os aspectos da terra e do céu, e por que não discernis o tempo presente?" (Lc. 12,56). São Paulo o exprime muito bem: "Esses acontecimentos se tornaram símbolos para nós, a fim de não desejarmos coisas más." (1Cor. 10,6). A morte dos galileus e dos moradores de Jerusalém são um convite à conversão e ao reconhecimento, no tempo presente, da "visita salvífica" de Deus (cf. Lc. 1,68).
Os versículos 6 a 9 ilustram os versículos precedentes. A figueira é, na tradição rabínica, símbolo da Torá. Ela está plantada na vinha (cf. v. 6). O povo de Deus tem a Lei cujo fruto deveria ser a conversão. Mas ela não produziu o fruto. Será cortada? Será arrancada do meio da vinha? A parábola acentua a bondade de Deus: a maldade humana não impede Deus de ser bom.
Carlos Alberto Contieri,sj

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Esta terceira etapa da caminhada para a Páscoa somos chamados, mais uma vez, a repensar a nossa existência. O tema fundamental da liturgia de hoje é a “conversão”.
Com este tema enlaça-se o da “libertação”: o Deus libertador propõe-nos a transformação em homens novos, livres da escravidão do egoísmo e do pecado, para que em nós se manifeste a vida em plenitude, a vida de Deus.
O Evangelho contém um convite a uma transformação radical da existência, a uma mudança de mentalidade, a um recentrar a vida de forma que Deus e os seus valores passem a ser a nossa prioridade fundamental. Se isso não acontecer, diz Jesus, a nossa vida será cada vez mais controlada pelo egoísmo que leva à morte.
A segunda leitura avisa-nos que o cumprimento de ritos externos e vazios não é importante; o que é importante é a adesão verdadeira a Deus, a vontade de aceitar a sua proposta de salvação e de viver com Ele numa comunhão íntima.
A primeira leitura fala-nos do Deus que não suporta as injustiças e as arbitrariedades e que está sempre presente naqueles que lutam pela libertação. É esse Deus libertador que exige de nós uma luta permanente contra tudo aquilo que nos escraviza e que impede a manifestação da vida plena.

1º leitura: Ex. 3,1-8a.13-15 - AMBIENTE

A primeira parte do livro do Êxodo (Ex. 1-18) apresenta-nos um conjunto de “tradições” sobre a libertação do Egito: narra-se a iniciativa de Jahwéh, que escutou os gemidos dos escravos hebreus e teve compaixão deles (cf. Ex. 2,23-24)
O texto que nos é proposto como primeira leitura apresenta-nos o chamamento de Moisés, convidado a ser o rosto visível da libertação que Jahwéh vai levar a cabo.
Algum tempo antes, Moisés deixara o Egito e encontrara abrigo no deserto do Sinai, depois de ter morto um egípcio que maltratava um hebreu (o caminho do deserto era o caminho normal dos opositores à política do faraó, como o demonstram outras histórias da época que chegaram até nós); acolhido por uma tribo de beduínos, Moisés casou e refez a sua vida, numa experiência de calma e de tranquilidade bem merecidas, após o incidente que lhe arruinara os sonhos de uma carreira no aparelho administrativo egípcio (cf. Ex. 2,11-22). Ora, é precisamente nesse oásis de paz que Jahwéh Se revela, desinquieta Moisés e envia-o em missão ao Egito.
MENSAGEM
A afirmação “Jahwéh tirou Israel do Egito” será a primitiva profissão de fé de Israel. É o fato fundamental da fé israelita. Ora, é essa descoberta que está no centro desta leitura.
O texto que nos é proposto divide-se em duas partes. Na primeira (vs. 1 - 8), temos o relato da vocação de Moisés. O contexto é o das teofanias (manifestações de Deus): o “anjo do Senhor”, o fogo (vs. 2 - 3), a onipotência, a santidade e a majestade de Deus (vs. 4 - 5), a apresentação de Deus, o sentimento de “temor” que o homem experimenta diante do divino (vs. 6); e Deus manifesta-Se para “comprometer” Moisés, enviando-o em missão (vs. 7-8) e fazendo dele o instrumento da libertação.
Fica claro que o chamamento de Moisés é uma iniciativa do Deus libertador, apostado em salvar o seu Povo. Deus age na história humana através de homens de coração generoso e disponível, que aceitam os seus desafios.
Na segunda parte (vs. 13-15), apresenta-se a revelação do nome de Deus (uma espécie de “sinal” que confirma que Moisés foi chamado por Deus e enviado por Ele em missão): “Eu sou (ou serei) ‘aquele que sou’ (ou que serei)”. Este nome acentua a presença contínua de Deus na vida do seu Povo, uma presença viva, ativa e dinâmica, no presente e no futuro, como libertação e salvação.
Os israelitas descobriram, desta forma, que Jahwéh esteve no meio daquela tentativa humana de libertação e conduziu o processo, de forma a que um povo vítima da opressão passasse a ser livre e feliz. Para a fé de Israel, Jahwéh não ficou de braços cruzados diante da opressão; mas iniciou um longo processo de intervenção na história que se traduziu em libertação e vida para um povo antes condenado à morte.
Para Israel, o Êxodo tornar-se-á, assim, o modelo e paradigma de todas as libertações. A partir desta experiência, Israel descobriu a pedagogia do Deus libertador e soube que Jahwéh está vivo e atuante na história humana, agindo no coração e na vida de todos os que lutam para tornar este mundo melhor. Israel descobriu – e procurou dizer-nos isso também a nós – que, no plano de Deus, aquilo que oprime e destrói os homens não tem lugar; e que sempre que alguém luta para ser livre e feliz, Deus está com essa pessoa e age nela. Na libertação do Egito, os israelitas – e, através deles, toda a humanidade – descobriram a realidade do Deus salvador e libertador.
ATUALIZAÇÃO
·  A humanidade geme, hoje, num violento esforço de libertação política, cultural e econômica: os povos lutam para se libertarem do colonialismo, do imperialismo, das ditaduras; os pobres lutam para se libertarem da miséria, da ignorância, da doença, das estruturas injustas; os marginalizados lutam pelo direito à integração plena na sociedade; os operários lutam pela defesa dos seus direitos e do seu trabalho; as mulheres lutam pela defesa da sua dignidade; os estudantes lutam por um sistema de ensino que os prepare para desempenhar um papel válido na sociedade… Convém termos consciência que, lá onde alguém está a lutar por um mundo mais justo e mais fraterno, aí está Deus – esse Deus que vive com paixão o sofrimento dos explorados e que não fica de braços cruzados diante das injustiças.
· Deus age na nossa vida e na nossa história através de homens de boa vontade, que se deixam desafiar por Deus e que aceitam ser seus instrumentos na libertação do mundo. Diante dos sofrimentos dos irmãos e dos desafios de Deus, como respondo: com o comodismo de quem não está para se chatear com os problemas dos outros? Com o egoísmo de quem acha que não é nada consigo? Com a passividade de quem acha que já fez alguma coisa e que agora é a vez dos outros? Ou com uma atitude de profeta, que se deixa interpelar por Deus e aceita colaborar com Ele na construção de um mundo mais justo e mais fraterno?

2º leitura: 1Cor. 10,1-6.10-12 - AMBIENTE

No mundo grego, os templos eram os principais matadouros de gado. Os animais eram oferecidos aos deuses e imolados nos templos. Uma parte do animal era queimada e outra parte pertencia aos sacerdotes. No entanto, havia sempre sobras, que o pessoal do templo comercializava. Essas sobras encontravam-se à venda nas bancas dos mercados, eram compradas pela população e entravam na cadeia alimentar. No entanto, tal situação não deixava de suscitar algumas questões aos cristãos: comprar essas carnes e comê-las – como toda a gente fazia – era, de alguma forma, comprometer-se com os cultos idolátricos. Isso era lícito? É essa questão que inquieta os cristãos de Corinto.
A esta questão, Paulo responde em 1Cor. 8-10. Concretamente, a resposta aparece em vinte versículos (cf. 1Cor. 8,1-13 e 10,22-29): dado que os ídolos não são nada, comer dessa carne é indiferente. Contudo, deve-se evitar escandalizar os mais débeis: se houver esse perigo, evite-se comer dessa carne.
Paulo aproveita este ponto de partida para um desenvolvimento que vai muito além da questão inicial: comer ou não comer carne imolada aos ídolos não é importante; o importante é não voltar a cair na idolatria e nos vícios anteriores; o importante é esforçar-se seriamente por viver em comunhão com Deus.
MENSAGEM
A título de exemplo, Paulo apresenta a história do Povo de Deus do Antigo Testamento. Os israelitas foram todos conduzidos por Deus (a nuvem), passaram todos pela água libertadora do Mar Vermelho, alimentaram-se todos do mesmo maná e da mesma água do rochedo “que era Cristo” (Paulo inspira-se numa antiga tradição rabínica segundo a qual o rochedo de Nm. 20,8 seguia Israel na sua caminhada pelo deserto; e, para Paulo, este rochedo é o símbolo de Cristo, pré-existente, já presente na caminhada para a liberdade dos hebreus do Antigo Testamento); mas isso não evitou que a maior parte deles ficasse prostrada no deserto, pois o seu coração não estava verdadeiramente com Deus e cederam à tentação dos ídolos.
Assim também os coríntios, embora tenham recebido o batismo e participado da eucaristia, não têm a salvação garantida: não bastam os ritos, não basta a letra.
Apesar do cumprimento das regras, os sacramentos não são mágicos: não significam nada e não realizam nada se não houver uma adesão verdadeira à vontade de Deus.
Aos “fortes” e “auto-suficientes” de Corinto, Paulo recorda: o fundamental, na vivência da fé, não é comer ou não carne imolada aos ídolos; mas é levar uma vida coerente com as exigências de Deus e viver em verdadeira comunhão com Deus.
ATUALIZAÇÃO
· O que é essencial na nossa vivência cristã? O cumprimento de ritos externos que nos marcam como cristãos aos olhos do mundo (ou dos nossos superiores)? Ou é uma vida de comunhão com Deus, vivida com coerência e verdade, que depois se transforma em gestos de amor e de partilha com os nossos irmãos? O que é que condiciona as minhas atitudes: o “parecer bem” ou o “ser” de verdade?
· Os sacramentos não são ritos mágicos que transformam o homem em pessoa nova, quer ele queira quer não. Eles são a manifestação dessa vida de Deus que nos é gratuitamente oferecida, que nós acolhemos como um dom, que nos transforma e que nos torna “filhos de Deus”. É nessa perspectiva que encaramos os momentos sacramentais em que participamos? É isto que procuramos transmitir quando orientamos encontros de preparação para os sacramentos?

Evangelho: Lc. 13,1-9 - AMBIENTE

O Evangelho de hoje situa-nos, já, no contexto da “viagem” de Jesus para Jerusalém (cf. Lc. 9,51 - 19,28). Mais do que um caminho geográfico, é um caminho espiritual, que Jesus percorre rodeado pelos discípulos. Durante esse percurso, Jesus prepara-os para que entendam e assumam os valores do Reino (mesmo quando as palavras de Jesus se dirigem às multidões, como é o caso do episódio de hoje, são os discípulos que rodeiam Jesus os primeiros destinatários da mensagem). Pretende-se que, terminada esta caminhada, os discípulos estejam preparados para continuar a obra de Jesus e para levar a sua proposta libertadora a toda a terra.
O texto que hoje nos é proposto apresenta um convite veemente à conversão ao Reino. Destina-se à multidão, em geral, e aos discípulos que rodeiam Jesus, em particular.
MENSAGEM
O texto apresenta duas partes distintas, embora unidas pelo tema da conversão. Na primeira parte (cf. Lc. 13,1-5), Jesus cita dois exemplos históricos que, no entanto, não conhecemos com exatidão (assassínio de alguns patriotas judeus por Pilatos e a queda de uma torre perto da piscina de Siloé). Flávio Josefo, o grande historiador judeu do séc. I, narra como Pilatos matou alguns judeus que se haviam revoltado em Jerusalém. Trata-se do exemplo citado por Jesus? Não sabemos. Também não sabemos nada sobre a queda da torre de Siloé que, segundo Jesus, matou dezoito pessoas… Apesar disso, a conclusão que Jesus tira destes dois casos é bastante clara: aqueles que morreram nestes desastres não eram piores do que os que sobreviveram. Refuta, desta forma, a doutrina judaica da retribuição segundo a qual o que era atingido por alguma desgraça era culpado por algum grave pecado. No caso presente, esta doutrina levava à seguinte conclusão: “nós somos justos, porque nos livramos da morte nas circunstâncias nomeadas”. Em contrapartida, Jesus pensa que, diante de Deus, todos os homens precisam de se converter. A última frase do vs. 5 (“se não vos arrependerdes perecereis todos do mesmo modo”) deve ser entendida como um convite à mudança de vida; se ela não ocorrer, quem vencerá é o egoísmo que conduz à morte.
Na segunda parte (cf. Lc. 13,6-9), temos a parábola da figueira. Serve para ilustrar as oportunidades que Deus concede para a conversão. O Antigo Testamento tinha utilizado a figueira como símbolo de Israel (cf. Os. 9,10), inclusive como símbolo da sua falta de resposta à aliança (cf. Jr. 8,13) (uma ideia semelhante aparece na alegoria da vinha de Is. 5,1 - 7). Deus espera, portanto, que Israel (a figueira) dê frutos, isto é, aceite converter-se à proposta de salvação que lhe é feita em Jesus; dá-lhe, até, algum tempo (e outra oportunidade), para que essa transformação ocorra. Deus revela, portanto, a sua bondade e a sua paciência; no entanto, não está disposto a esperar indefinidamente, pactuando com a recusa do seu Povo em acolher a salvação. Apesar do tom ameaçador, há no cenário de fundo desta parábola uma nota de esperança:
Jesus confia em que a resposta final de Israel à sua missão seja positiva.
ATUALIZAÇÃO
· A proposta principal que Jesus apresenta neste episódio chama-se “conversão” (“metanoia”). Não se trata de penitência externa, ou de um simples arrependimento dos pecados; trata-se de um convite à mudança radical, à reformulação total da vida, da mentalidade, das atitudes, de forma que Deus e os seus valores passem a estar em primeiro lugar. É este caminho a que somos chamados a percorrer neste tempo, a fim de renascermos, com Jesus, para a vida nova do Homem Novo. Concretamente, em que é que a minha mentalidade deve mudar? Quais são os valores a que eu dou prioridade e que me afastam de Deus e das suas propostas?
· Essa transformação da nossa existência não pode ser adiada indefinidamente. Temos à nossa disposição um tempo relativamente curto: é necessário aproveitá-lo e deixar que em nós cresça, o mais cedo possível, o Homem Novo. Está em jogo a nossa felicidade, a vida em plenitude… Porquê adiar a sua concretização?
· Uma outra proposta convida-nos a cortar definitivamente da nossa mentalidade a ligação direta entre pecado e castigo. Dizer que as coisas boas que nos acontecem são a recompensa de Deus para o nosso bom comportamento e que as coisas más são o castigo para o nosso pecado, equivale a acreditarmos num deus mercantilista e chantagista que, evidentemente, não tem nada a ver com o nosso Deus.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho






        





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