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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 10 de junho de 2016

11º DOMINGO TEMPO COMUM-C

11º DOMINGO TEMPO COMUM


12 de Junho de 2016
1ª Leitura - 2Sm 12,7-10.13

Salmo - Sl 31

2ª Leitura - Gl 2,16.19-21

Evangelho - Lc 7,36-8,3


 

A liturgia deste domingo nos conduz a refletir sobre o perdão. Jesus perdoou Davi por meio do profeta Natã, e hoje Deus nos perdoa através do sacerdote. Mas para que o perdão tenha seu valor, é necessário que haja arrependimento de nossa parte. Continua

 



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“TUA FÉ TE SALVOU. VÁ EM PAZ. !”- Olivia Coutinho

 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 12 de Junho de 2016

Evangelho de Lc7,36-8,3

 Deus tem um projeto de vida plena  para todos! É Jesus quem nos apresenta este projeto! 
Aderir à esta proposta de vida nova, anunciada por Jesus, é estar disposto a caminhar na contramão do mundo!
Quando não aderimos  ao projeto de Deus,  ficamos somente com o lado fácil da fé, numa fé separada da vida, uma fé sem compromisso que não nos  leva ao outro!
 E assim, não  avançarmos para águas mais profundas, ficamos na superfície como expectadores, observando as falhas do outro!  Ao invés de nos tornarmos caminho de salvação para o nosso irmão, tomamos uma postura de juiz,  condenando-o, sem dar-lhe uma oportunidade de rever a sua vida, de experimentar uma vida nova em Jesus!
Um cristão verdadeiro, nunca vê o outro como caso perdido, como alguém irrecuperável, pelo contrário, assim como Jesus, ele acredita no seu retorno à vida!
É o que Jesus nos mostra no evangelho de hoje,  ao acolher com amor, uma mulher de vida errante, que até então, não tivera a oportunidade de experimentar o aconchego do coração misericordioso de Jesus!
A narrativa nos mostra um belíssimo testemunho de amor e de fé, de uma mulher que vence todas as barreiras do preconceito para chegar até Jesus!
Talvez, tenha lhe faltado coragem para olhar Jesus de frente, o que não a impediu de demonstrar o seu amor e a sua confiança na misericórdia do grande Mestre! Num gesto de ternura e de humildade, aquela mulher discriminada pelo o povo, banha os pés de Jesus com suas lágrimas, enxuga-os com os seus cabelos, cobri-os de beijos e ungi-os com perfume!
Tudo nos leva a crer, que neste episodio, nenhuma palavra fora dirigida à Jesus, por parte daquela mulher,  tudo, decorrera no mais profundo silencio, afinal, a cena por si só, falava tudo, falava de amor e de fé, de um amor e de uma fé que tocou Jesus, mostrando-nos mais uma vez a grandiosidade do seu coração! 
O nome desta mulher, sequer fora revelado, como muitas, era uma mulher sem nome, rotulada pela sociedade como  “pecadora.” Rótulo que a tornava desonrada aos olhos de todos, menos aos olhos misericordiosos de Jesus!
O fariseu se escandaliza com a audácia daquela mulher anônima que invade a sua casa para encontrar-se com Jesus! Cheio de si mesmo, ele lança sobre ela um olhar de condenação, enquanto que Jesus a olha com o olhar de misericórdia! Jesus vê o amor transbordar no seu  coração e a liberta da pior de todas as escravidões: a escravidão do pecado: ”Teus pecados estão perdoados.”
É com este mesmo olhar de misericórdia, que Jesus olha para cada um de nós! Aprendamos com Ele, a olhar o outro com um olhar de misericórdia  e não, de condenação!
A conclusão do fariseu, diante de tal cena, foi de que Jesus não era um profeta, de acordo com a mente dele, se Jesus fosse de fato um profeta, Ele não acolheria aquela mulher “pecadora”.  Escandalizado, o fariseu sequer pronuncia o nome de Jesus, se referindo a Ele como: “este homem”.
Este encontro transformador se deu na casa de um fariseu que convidou Jesus para uma refeição em sua casa. Jesus entrou na casa do fariseu como uma luz, mas este, preferiu continuar na escuridão, não se abriu a esta luz, quem acolheu esta luz, foi uma mulher marginalizada que a partir de então, teve a sua vida transformada, passando das trevas para a luz! 
Hoje, Jesus quer entrar na nossa casa, no nosso coração, estejamos  abertos para acolhe-Lo  
Deixemo-nos conduzir pela luz de Cristo, sem nunca esquecer: o mais Santo de todos os Santos será sempre um pecador perdoado!
Tenhamos o coração largo para amar os braços abertos para acolher aquele que deseja voltar à vida!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia 
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As delicadezas do coração de uma mulher arrependida
Jesus impressionou a muitos que o ouviam. Havia, certamente os que o observavam à distância e nada mais. Outros queriam vê-lo mais de perto, espreitar suas reações ao que lhe era dito. Lucas nos fala de um fariseu que convidou Jesus para uma refeição.
Certamente tudo tinha sido cuidadosamente preparado. O encontro era para “funcionar” bem. Uma pessoa estranha ao círculo do fariseu, sabendo que Jesus estaria naquela casa, para lá se dirigiu. Tratava-se de uma mulher conhecida na cidade como quem levava um vida má, indecente.  Ela veio preparada para homenagear esse Jesus do qual queria mais uma vez se acercar. Mas sobretudo  dizer de sua gratidão através do presente de um perfume. Afinal de contas ele tinha tocado profundamente seu interior.
Para esse encontro ela havia trazido um frasco de alabastro com perfume; molhava os pés de Jesus com suas lágrimas e enxugava-os com os cabelos, cobria de beijos e os ungia com perfume. E o fariseu observava a tudo. A partir do fato ficou convencido de que esse homem não podia ser um profeta. Se o fosse ele saberia quem era aquela mulher… uma perdida. Lá estava acolhendo com agrado aquelas homenagens que se situavam no limite da decência.
Jesus chamou, então, o fariseu num canto  e tentou esclarecer  as coisas. Tratava-se de uma pobre criatura que precisava refazer sua vida… uma devedora de milhões que precisava ser perdoada para que sua vida fosse uma vida de verdade. Os justos não precisam ver suas contas de dividas rasgadas… E nesse momento Jesus fala das delicadeza do coração da mulher arrependida. Ao lado do fariseu, Jesus aponta para a mulher: “Estás vendo esta mulher? Quando entrei em tua casa não tiveste a delicadeza de me oferecer água para lavar as mãos. Ela banhou meus pés com as lágrimas do carinho e do arrependimento e os enxugou com seus cabelos… Por que queres ver malícia e maldade onde existe  delicadeza e gratidão. Tu foste seco comigo… não me deste o beijo de saudação e ela… bem viste o que fez… Não me deste óleo perfumado e ela   ungiu meus pés… Por isso, com tanta delicadeza e coração  ela merece ser perdoada, mesmo que sua dívida seja enorme. Mostra muito amor a quem se perdoa largamente”.
Jesus se se volta para a mulher e declara seus pecados perdoados. “Tua fé te salvou… vai em paz…”. Belo desfecho!
frei Almir Ribeiro Guimarães

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O amor da pecadora e o perdão de seu pecado
Ao ler o evangelho de hoje, a gente se pergunta o que foi primeiro: o amor ou o perdão. Jesus diz: “Têm-lhe sido perdoados seus muitos pecados, porque muito amou”, e: “Têm sido perdoados teus pecados… tua fé te salvou” (Lc. 7,47-50). Será que os pecados foram perdoados porque mostrou muito amor, ou o contrário? A narração não permite distinguir claramente, mas também não importa, pois o mistério do perdão é que se trata de um encontro entre o homem contrito e Deus que deseja reconciliação. A contrição é o amor que busca perdão e o perdão é a resposta de Deus a este amor. A contrição é o amor do pecador, que se encontra com o amor de Deus, que é: perdão.
Jesus ilustra este mistério com uma dessas parábolas chocantes bem ao gosto de Lucas: dois devedores, um com pouca e outro com muita dívida, são absolvidos. Quem é que gostará mais do homem que os absolveu? Quem tinha a dívida maior. É o caso desta meretriz, que lhe demonstrou efusivamente gestos de carinho e afeição. Mas o outro está aí também: o anfitrião de Jesus, que demonstrou pouco calor na acolhida de seu hóspede. Será que ele tinha poucas dívidas, portanto, recebeu pouco perdão e por isso só pôde amar um pouquinho? Então, seria bom “pecar firmemente e amar mais firmemente ainda”? A realidade talvez seja diferente. Pode ser que alguém não reconhece quanta dívida tem e, por isso, recebe pouca absolvição e mostra pouco amor. Já começa por aí: porque tem pouco amor, não é capaz de reconhecer a grande dívida que tem para com Deus, pois não percebe quão pouco ele corresponde ao amor infinito…
Medido com o critério de Deus, ninguém é justo. Todos são pecadores. Porém, os que fazem pecados “notáveis” tomam mais facilmente consciência de sua pecaminosidade. É o caso da meretriz, no evangelho, e de Davi, na 1ª leitura. Os que fazem pecados mais difíceis de avaliar e acusar, como sejam o orgulho, a auto-suficiência, a inveja e coisas assim, mais dificilmente são lembrados de sua injustiça. Talvez observem perfeitamente as regras do bom comportamento. Os judaizantes da 2ª leitura, que querem impor aos pobres pagãos da Galácia as “obras da Lei” como meio de salvação, transformariam os gálatas em seres auto-suficientes iguais a si. “Não, diz Paulo, isso não posso permitir. Se fossem estas obras da Lei que salvassem, Jesus não precisava ter morrido” (Gl. 2,2l).
Quem nos livra de nossa dívida é Deus. Só ele, que criou nossa vida, é capaz de restaurá-la na sua integridade. Quando perdoa pecados, Jesus revela que Deus está com ele (o que os comensais perceberam: Lc 7,49). Pedir perdão é dar a Deus uma chance para refazer em nós a obra de seu amor criador. Mas quem pouco o ama, não lhe dá essa chance …
A liturgia de hoje nos ensina outra coisa ainda. Davi foi lembrado de seu pecado por um porta-voz de Deus, o profeta Natã. Quando Natã lhe conta uma história bem semelhante à sua própria, Davi exclama: “Tal homem deve morrer” (2Sm. 12,5; seria bom incluir na 1ª  leitura o trecho imediatamente anterior, a parábola de Natã). Mas para que reconheça seu próprio caso, é preciso que Natã lhe diga: “Esse homem és tu!” Nós temos em nós mesmos um porta-voz de Deus, que nos diz: “Esse homem és tu!”: nossa consciência. É preciso escutá-la. Então saberemos quão pouco correspondemos ao amor de Deus que fundou nossa via e a dos nossos irmãos. Então também entrarão em ação o amor do pecador, que se chama “contrição”, e o amor de Deus, que se chama “perdão”.
O salmo responsorial medita essa realidade. Ter seu pecado a descoberto diante de Deus e dos homens e apesar disso ser acolhido no amor de Deus e da comunidade é a maior felicidade (e a razão fundamental por que existe o sacramento da penitência).
Segundo a oração do dia, nada podemos sem a graça de Deus. Por isso, pedimos essa graça, para em nossos projetos e sua execução estarmos de acordo com o que Deus ama.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Ao longo das histórias bíblicas, podemos perceber que, oferecer água a um convidado para que este lave os pés, era um sinal de hospitalidade. No livro do Gênesis, o versículo 4 do capítulo 18, por exemplo, descreve Abraão recebendo desta forma três visitantes.
O evangelho de hoje coloca Jesus diante de um fariseu e de uma pecadora. O fariseu (palavra que significa separado), de nome Simão, era uma pessoa influente na cidade e adquiriu estatus de piedoso e cumpridor das leis. Em circunstâncias normais, ele jamais receberia uma prostituta em sua casa, pois ela era uma pessoa impura, e portanto, uma hóspede indesejada. O hóspede desejado era Jesus, e Simão ao recebê-Lo, por esquecimento ou pretensão, não segue as tradições orientais de boas vindas. Porém, ao ver uma mulher considerada de má fama por seus pecados entrar, lavar os pés de Jesus com suas lágrimas, secar com seus cabelos e perfumá-los como uma forma de arrependimento de seus erros, Simão faz um julgamento preconceituoso, imaginando que, sendo um profeta, Jesus devia saber estar diante de uma pecadora e que, ao deixar-se tocar por ela conforme as tradições, isso O deixaria impuro.
Jesus, ao perceber a indignação de seu anfitrião, conta-lhe uma parábola que o faz comparar suas atitudes com as da pecadora, para que perceba que, toda falha por maior que seja é digna de perdão e, quanto maior o perdão, maior a gratidão.
É difícil definir se o grande amor e o verdadeiro arrependimento daquela mulher fizeram com que Jesus perdoasse seus pecados, ou se o perdão dado a ela por Jesus fez com que ela se arrependesse e O amasse verdadeiramente.
Por viver segundo as leis da época, o fariseu considera-se livre de pecado e, por isso, sem necessidade de perdão, o que lhe torna arrogante e preconceituoso. Ele se julga piedoso, mas sua piedade não condiz com a proposta de Jesus, pois ele acredita não precisar do perdão de Deus.
Na sociedade de hoje pode-se encontrar ainda muitos “fariseus”, pessoas que querem mostrar à sociedade uma conduta considerada correta, mas que não percebem o quanto são hipócritas ao esconder seus erros e apontar os erros dos outros. Não é preciso cometer grandes erros para obter um grande perdão e, sim, reconhecer-se pecador procurando o perdão e amando ao próximo sem julgar seus erros, pois este é o caminho para encontrar a misericórdia de Deus e o perdão de seus pecados.

Pequeninos do Senhor

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Quem amou mais?
O contraste entre o comportamento do fariseu Simão e o da pecadora anônima ficou evidenciado na censura de Jesus. Durante um banquete em que este homem convidara o Mestre para uma refeição, fez um julgamento errado a respeito dessa mulher. Seguro de sua santidade, o fariseu olhou com desprezo para a pecadora que se pusera a lavar os pés do hóspede Jesus, com suas lágrimas, e a enxugá-los com seus cabelos, beijá-los e ungi-los com óleo perfumado.
O mau juízo de Simão atingiu também a pessoa de Jesus. Se fosse um profeta verdadeiro, saberia que se tratava de uma mulher de má-fama, e recusaria deixar-se tocar por ela. A conivência com o gesto da mulher nivelava-o com ela. Conclusão: Jesus não podia ser o Messias verdadeiro.
A reação do Mestre desmascarou o fariseu. Este, além de pensar mal da mulher e de Jesus, não se comportara como exigiam os bons costumes: não ofereceu ao hóspede água para lavar os pés, nem lhe deu o ósculo de acolhida, como sinal de hospitalidade. Essa mulher, no entanto, fizera tudo isso, com o mais profundo amor e humildade. Enfim, sempre movida por amor, a mulher fizera o papel de verdadeira anfitriã. Ela, sim, havia aberto as portas de sua casa - o coração - para acolher Jesus, e tornou-se digna de participar da salvação oferecida pelo Messias Jesus. O fariseu, porém, ficou de fora!
padre Jaldemir Vitório


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Uma mulher pecadora vai procurar Jesus. Ela não o encontra por acaso. Ela vai até onde Ele está. E não vai de qualquer jeito. Ela se prepara e sabe por que está indo, por isso leva consigo um vaso de perfume. Ela tinha uma intenção concreta e sabia por que estava levando um vaso de perfume.
Jesus estava na casa de um fariseu chamado Simão, pois havia sido convidado para uma refeição. O fariseu o convidou, mas, de fato, não o acolheu. O costume mandava que se oferecesse ao convidado água para lavar os pés, óleo para perfumar os cabelos e que fosse recebido com um beijo de saudação.
O fariseu não fez nada disso para Jesus. Por que então o convidou, se não o recebeu como devia ter feito? Jesus reclamará dizendo claramente a Simão o que ele não fez, mas não reclama só por reclamar, exigindo alguma coisa para si, mostrando-se ofendido pela atitude de Simão. Nada disso. Jesus é capaz de entender por que Simão procedeu dessa maneira, mas aproveita a ocasião para mostrar a todos quem naquela casa o estava acolhendo de verdade, quem, no meio de todos os convidados, era a pessoa que merecia um destaque.
Na casa de Simão estava alguém que não tinha sido convidado, que entrou por decisão própria, porque queria se encontrar com Jesus. Era uma mulher, que nem nome tinha nessa história.
A mulher anônima não tinha sido convidada e, no entanto, fez todos os gestos de acolhida para Jesus. Os convidados estavam reclinados num tipo de divã.
Quem entrasse no local tinha diante de si, num primeiro nível, os pés dos que estavam reclinados. A mulher que se aproxima vai de encontro aos pés de Jesus e os molha com suas lágrimas e os unge com o óleo perfumado. Ela sabe por que está fazendo isso. Suas lágrimas o dizem. Se na sociedade em que vivia ela só era útil se não aparecesse nem se desse a conhecer, junto de Jesus ela era alguém com novas possibilidades de vida. Jesus perdoa seus pecados e a envia em paz. Era tudo o que ela buscava. Ela não teve receio de mostrar publicamente que sabia amar, assim como Jesus não teve receio de mostrar a todos que podia se relacionar abertamente com aquela mulher.
Não foi assim com Simão, o fariseu dono da casa. Ele sabia quem era aquela mulher, mas não quis se revelar. Apenas pensou, não falou, não se expressou. Onde foi que Simão conheceu a mulher anônima? Por que não fez como Jesus e se relacionou publicamente com ela? Isso teria prejudicado sua boa fama? Aquela mulher era muito interessante, desde que não aparecesse. Aparecendo, tornava-se um perigo. Era melhor mantê-la oculta.
Jesus ao contrário conversa com a mulher abertamente, valoriza-a, renova suas esperanças, dá-lhe novo alento, anima-a a continuar vivendo e a buscar uma vida nova. Ao mencionar algumas mulheres que colaboravam com os apóstolos na obra da evangelização, o autor sagrado nos mostra como todos, homens e mulheres, podemos ser diferentes, mudar nossas atitudes, recomeçar a vida e seguir adiante. Ninguém será sempre necessariamente aquilo que é neste momento. Se lhe forem dadas oportunidades e meios, e a pessoa quiser, seja ela quem for, terá sempre chance de se renovar.
cônego Celso Pedro da Silva


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A identidade de Jesus, profeta
O texto do evangelho está situado na primeira parte do evangelho segundo Lucas, onde a questão é a identidade de Jesus. Especificamente, nesta parte de ele ser profeta. Jesus é convidado para um jantar na casa de um fariseu de nome Simão. Uma pecadora da cidade entra na casa e lava os pés de Jesus com as suas lágrimas, enxuga-os com seus cabelos e os unge com perfume (vv. 37-38). Aqui em nosso texto, esta sua identidade de profeta é posta em questão pelos fariseus: “Se este homem fosse profeta, saberia quem é a mulher que está tocando nele: é uma pecadora!” (v. 39). O que significam os gestos da mulher? Quem perdoa os pecados, Jesus ou Deus?
Nos vv. 41-42, Jesus, para responder à objeção do fariseu, conta uma parábola que não se aplica adequadamente ao contexto imediato. A parábola visa ressaltar a gratuidade do credor – é ele quem perdoa, não importa qual seja a dívida. No v. 47, lemos: “Teus pecados estão perdoados”. O passivo divino empregado indica que é Deus quem perdoa, e Jesus é quem anuncia este perdão. Deus perdoou a mulher por sua fé em Jesus. Os gestos da mulher não são simplesmente um sinal de arrependimento, mas profunda fé naquele para quem ela oferece tais gestos. Ela crê em Jesus, o médico, que chama os pecadores à conversão (cf. 5,31-32). Isto não significa que o perdão é devido à fé, mas que a fé é necessária para acolher o dom do perdão. A fé purifica. A resposta à gratuidade do perdão recebido será o amor por Jesus, expresso no seguimento e na ajuda dada a Jesus e seus discípulos (cf. 8,1-3).
Carlos Alberto Contieri,sj

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Convém iniciar a meditação sobre a Palavra do Senhor deste domingo recordando a primeira e principal das Bem-aventuranças; aquela que resume todas as demais: “Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus” (Mt. 5,3).
O Evangelho de hoje afirma que “Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa-nova do Reino de Deus”. Que Boa-nova é esta, que Jesus pregava? Que nele, Deus se revelava como Pai cheio de amor e misericórdia, que se volta para o homem, inclina-se em direção a ele, para acolhê-lo, perdoá-lo, e caminhar com ele. Este anúncio requer uma decisão nossa: a conversão, isto é, um coração aberto à Boa-nova de Jesus; um coração capaz de acolher a presença salvífica de Deus e, cheio do amor do Senhor, abrir-se também para os outros, sobretudo para os pobres sejam de que pobrezas forem. E por que Jesus afirma que é dos pobres o Reino dos Céus? Esta pergunta é a chave para compreender as leituras de hoje. Vejamos.
Quem é o pobre na Bíblia? De que pobre Jesus está falando? Pobre é todo aquele que se encontra numa situação extrema, situação de fraqueza e impotência; pobre é todo aquele que se encontra numa situação limite na vida. O gravemente doente é um pobre, o que não tem casa e comida é um pobre, o discriminado e perseguido é um pobre, o que se sente só e sem amor é um pobre, o aidético, o que foi derrotado, o que foi incompreendido, o que foi pisado pelo peso da existência… Notemos que a pobreza em si não é um bem. E por que Jesus proclama os pobres bem-aventurados, dizendo ser deles o Reino dos Céus? Porque o pobre, na sua pobreza, toca o que a vida humana é realmente: precária, débil, incerta, dependente de Deus. Normalmente, nossa tendência é esquecer essa realidade, procurando mil muletas, mil apoios, mil ilusões: bens materiais, saúde, prestígio, amigos, ninho afetivo, poder… e julgamo-nos auto-suficientes, senhores de nós mesmos, perdendo a atitude de criança simples e confiante diante de Deus. Assim, auto-suficiente, ricos para nós mesmos, não nos achamos necessitados de um Salvador, fechamo-nos para o Reino que Jesus veio anunciar. Só o pobre pode, com toda verdade, tocar a debilidade da vida com toda crueza e verdade e, assim, os pobres têm muito mais possibilidades de abrir-se para o Reino.
As leituras deste Domingo ilustram-nos esta realidade. Primeiro, a pobreza de Davi que, apesar de forte militarmente e rei de Israel, não hesita em reconhecer seu pecado com toda humildade diante do profeta do Senhor: “Pequei contra o Senhor” – diz o rei. Davi não usa máscara, não procura justificar-se com desculpas esfarrapadas. Reconhece-se pequeno, frágil, limitado… humilha-se ante o Senhor. A resposta do Senhor é imediata: “De sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás”. Depois, as duas figuras contrapostas do Evangelho: de um lado Simão, cheio de si, de sua própria justiça, seguro de si próprio, julgando-se em dia com Deus e com seus preceitos e, por isso mesmo, fechado para a misericórdia e a delicadeza para com os outros. Jesus o desmascara: “Quando entrei na tua casa, tu não me ofereceste água para lavar os pés… Tu não me deste o beijo de saudação… Tu não derramaste óleo na minha cabeça”. Simão, cheio de si, nunca pensou de verdade que precisasse de um Salvador e, por isso, não foi aberto para Jesus e para o Reino. Recebeu Jesus exteriormente, mas não aderiu a ele interiormente, de todo coração! Por outro lado, a mulher pecadora, adúltera pública, derrama as lágrimas e o coração aos pés de Jesus, com toda simplicidade, com toda sinceridade, do fundo de sua miséria… Reconhece-se pecadora, quebrada, infiel; sem máscara nenhuma, mostra-se ao Senhor e suplica sua misericórdia. Por isso, pode ouvir: “Teus pecados estão  perdoados. Vai e paz!”
Somente quando experimentamos, de fato, esta pobreza, podemos verdadeiramente acolher Deus que nos vem em Jesus como Salvador. Caso contrário, diremos que cremos nele, mas somente creremos de fato em nós e em nossas mil riquezas econômicas, afetivas, sociais, psicológicas, espirituais… Assim, do alto da nossa auto-suficiência, tornamo-nos incapazes de acolher de verdade o Reino. Não é este o drama do mundo? Com nossa ciência, com nosso divertimento, com nossa liberação total, com nossos bens de consumo… quem precisa de um Salvador? Temos tudo, somos ricos, estamos bem assim e, sozinhos, nos bastamos!
Pois bem: faz parte do núcleo da convicção cristã que não nos bastamos, que somos pobres e, sozinhos, jamais nos realizaremos plenamente. É o que são Paulo exprime na segunda leitura da Missa: aos cristãos de origem judaica, ele recordava que a salvação não vem das obras da Lei de Moisés, de nossa própria bondade, mas unicamente da fé em Jesus, presente de Deus, misericórdia de Deus para nós. É esta, muitas vezes, a nossa dificuldade: compreender que somos todos pobres diante de Deus; precisamos dele, a ele devemos abrir nossa mente, nosso coração, nossa vida. Aí, sim, o Reino de Deus começará a acontecer e Deus em Cristo reinará de verdade na nossa vida e, através de nós, na vida do mundo.
Que nos perguntemos: sou pobre ou sou rico? Reconheço devedor e dependente de Deus, realmente? Tenho-o como meu Salvador e minha riqueza? Aposto nele a minha vida? Tenho consciência que a vida não é minha de modo absoluto, mas é um do qual deverei prestar contas ao doador? O Senhor nos ajude e ilumine nosso coração e nossa mente!
dom Henrique Soares da Costa

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A liturgia deste domingo apresenta-nos um Deus de bondade e de misericórdia, que detesta o pecado, mas ama o pecador; por isso, Ele multiplica “a fundo perdido” a oferta da salvação. Da descoberta de um Deus assim, brota o amor e a vontade de vivermos uma vida nova, integrados na sua família.
A primeira leitura apresenta-nos, através da história do pecador David, um Deus que não pactua com o pecado; mas que também não abandona esse pecador que reconhece a sua falta e aceita o dom da misericórdia.
Na segunda leitura, Paulo garante-nos que a salvação é um dom gratuito que Deus oferece, não uma conquista humana. Para ter acesso a esse dom, não é fundamental cumprir ritos e viver na observância escrupulosa das leis; mas é preciso aderir a Jesus e identificar-se com o Cristo do amor e da entrega: é isso que conduz à vida plena.
O Evangelho coloca diante dos nossos olhos a figura de uma “mulher da cidade que era pecadora” e que vem chorar aos pés de Jesus. Lucas dá a entender que o amor da mulher resulta de haver experimentado a misericórdia de Deus. O dom gratuito do perdão gera amor e vida nova. Deus sabe isso; é por isso que age assim.
1º leitura: 2Sm. 12,7-10.13 - AMBIENTE
O “Livro de Samuel” (dividido em duas partes) é um livro que nos apresenta os primórdios da monarquia, em Israel. Não é, contudo, um livro escrito por políticos, por historiadores ou por sociólogos; é um livro escrito por teólogos, empenhados em fazer catequese e em ler a história passada à luz da fé. Não lhes interessa demasiado que a sua perspectiva seja uma leitura rigidamente objetiva dos acontecimentos; interessa-lhes, sobretudo, que a sua leitura ajude os crentes a tirar conclusões acerca de Deus e da forma de Deus atuar.
O texto que hoje nos é proposto faz parte de um conjunto de tradições sobre o reinado de David (cf. 2Sm. 7-20). Depois de descrever o pecado de David (que cometeu adultério com Betsabé e mandou que o marido desta – Urias, soldado do exército de David – fosse colocado num lugar arriscado, no combate contra os amonitas, a fim de que corresse riscos e morresse – cf. 2Sm. 11,1-27), o autor deuteronomista apresenta – pela voz do profeta Nathan – a reação de Deus diante do pecado do rei. Estamos em Jerusalém – nesta altura, capital do Israel unificado – nos primeiros anos do séc. X a.C.
MENSAGEM
Deus poderá pactuar com esta atitude egoísta e prepotente do rei? De forma nenhuma. Pela boca do profeta Nathan, o autor deuteronomista anuncia que Deus não fica indiferente diante da injustiça cometida e que pede contas ao agressor. Daí os castigos anunciados contra David e a sua casa.
O autor deuteronomista escreve muitos anos depois destes acontecimentos. Ele conhecia uma série de desgraças que, entretanto, se tinham abatido sobre a família de David (morte violenta de três filhos de David: Amon – cf. 2 Sm. 13,23-39; Absalão – cf. 2 Sm. 18,9-15; e Adonias – cf. 1 Re. 2,24-25). Naturalmente, não foram castigos de Deus, mas acontecimentos históricos normais, típicos de uma época violenta, em que a luta pelo poder terminava, tantas vezes, em tragédias pessoais e familiares; mas esses acontecimentos foram lidos pelo teólogo como sinais claros de que Jahwéh não estava disposto a pactuar com as injustiças e as arbitrariedades cometidas pelo rei. A mensagem do nosso “catequista” é evidente: Deus não deixa passar em claro a atitude daqueles que se aproveitam do poder para fins egoístas e desfazem a vida dos irmãos.
A última palavra do texto é, no entanto, de esperança. Confrontado com o seu crime, David reconhece, com humildade, o seu comportamento errado e pede perdão; e Deus acaba por perdoar a sua falta. Desta forma, o deuteronomista resume a lógica de Deus, que condena o pecado, mas que não abandona o pecador. Assim, o nosso catequista está a enviar uma mensagem aos homens do seu tempo: apesar das nossas falhas, a misericórdia de Deus não nos abandona e dá-nos sempre a hipótese de recomeçar.
ATUALIZAÇÃO
A reflexão fundamental que este texto nos apresenta é à volta da “lógica” de Deus: Ele não pactua com o pecado, mas manifesta uma misericórdia infinita para com o pecador. É esta a nossa “lógica” quando alguém nos magoa ou ofende?
O exercício do poder é, tantas vezes, uma forma de “levar a água ao seu moinho”. O nosso tempo é fértil em figuras que, para proteger os seus interesses pessoais ou os interesses dos seus partidos e ideologias, arrastam populações inteiras por caminhos de morte e de sofrimento. Que sentido é que isto faz? Nós cristãos, filhos de um Deus que não suporta o egoísmo e a injustiça, podemos pactuar com estas situações? Podemos, tranquilamente, votar naqueles que cometem injustiças gritantes? A atitude de David, ao reconhecer humildemente a sua falta, é uma atitude que nos questiona pela sua sinceridade, honestidade e coerência. Contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos “assassinos do volante”, que nunca têm culpa de nada; contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos cinzentos gestores das sociedades anónimas, que provocam catástrofes ambientais e não têm culpa; contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos governantes que deixam ruir pontes e morrer pessoas, mas nunca têm qualquer culpa… O exemplo de David convida-nos a assumir, com coerência, as nossas responsabilidades e a ter vontade de remediar as nossas ações erradas; convida-nos, também, ao arrependimento e à conversão – condições essenciais para que o pecado desapareça das nossas vidas.
2º leitura: Gl. 2,16.19-21 - AMBIENTE
As comunidades cristãs da Galácia (centro da Ásia Menor) conheceram, pelos anos 56/57, um ambiente de alguma instabilidade. A culpa era de certos pregadores cristãos de origem judaica que, chegados à zona, procuravam impor aos gálatas a prática da Lei de Moisés (cf. Gal. 3,2; 4,21; 5,4) e, em particular, a circuncisão (cf. Gal. 2,3-4; 5,2; 6,12). São, ainda, esses “judaizantes” que, nas primeiras décadas do cristianismo, tanta confusão trouxeram às comunidades cristãs de origem pagã.
Paulo não está disposto a pactuar com estas exigências. Para ele, esta questão não é secundária, mas algo que toca no essencial da fé: se as obras da Lei são fundamentais, é porque Cristo, por si só, não pode salvar. Isto será verdadeiro? Quanto a esta questão, Paulo tem ideias claras: Cristo basta; a Lei de Moisés não é importante para a salvação.
É neste ambiente que Paulo escreve aos gálatas. Diz-lhes que os ritos judaizantes apenas os prenderão numa escravatura da qual Cristo já os tinha libertado. O tom geral da carta é firme e veemente: era o essencial da fé que estava em causa.
Depois de analisar a situação (cf. Gal. 1,6-10), de dizer que tem um mandato de Cristo para anunciar o Evangelho aos pagãos (cf. Gal. 1,11-24) e de se defender da acusação de pregar um evangelho próprio, diferente do pregado pelos outros apóstolos (cf. Gal 2,1-10), Paulo vai anunciar o “seu” Evangelho (que é o Evangelho da Igreja, o mesmo que é anunciado pelos outros apóstolos): não é a Lei e as obras que salvam, mas a fé.
MENSAGEM
Neste texto que nos é proposto, Paulo apresenta uma espécie de síntese daquilo que ele considera o autêntico Evangelho.
Na primeira parte (vs. 16), Paulo sustenta que a salvação vem, única e exclusivamente, por Cristo. É por Cristo que somos “justificados” e não pelas obras da Lei. “Justificação” é, aqui, sinônimo de “salvação”. Significa que a “justiça de Deus” (que não é a estrita aplicação das leis, como no tribunal, mas é a fidelidade de Deus aos compromissos que Ele assumiu para com o seu Povo, no sentido de salvá-lo) derrama gratuitamente sobre o homem o amor e a misericórdia, mesmo quando o homem pecador não merece. Ora, Deus “salva” o homem pecador, não por ele cumprir a Lei de Moisés, mas por crer em Jesus (“crer” significa aderir a Ele, seguil’O).
Na segunda parte (vs. 19-21), a reflexão de Paulo gira à volta da ação de Cristo e da ação da Lei, no sentido de “salvar” o homem. A Lei salva? Não. Ao crucificar Jesus, a Lei demonstrou que não gerava vida, mas morte; desqualificou-se, assim, e demonstrou a sua falência no sentido de conduzir à vida plena o homem que estava sob a sua jurisdição. Depois de ser responsável pela morte de Cristo, a Lei não terá qualquer legitimidade para se impor e já não será vista por ninguém como geradora de vida.
Cristo, por seu lado, com a sua vida e, sobretudo, com a sua morte (provocada pela Lei) mostrou a todos a falência da Lei e libertou os homens de um regime que apenas criava escravatura e morte.
Quanto a si, Paulo identifica-se plenamente com Cristo. Sendo um com Cristo, Paulo também foi crucificado pela Lei e descobriu, com Cristo, que a Lei não gerava vida, mas morte. Assim, ele aprendeu que só Cristo dá vida e que só Cristo liberta. É na identificação com esse Cristo do amor e da entrega total (“que me amou e Se entregou por mim”) e não na Lei, que Paulo descobre a vida plena, a vida do Homem Novo.
Conclusão: a Lei gera morte; só Cristo salva. Esta é a convicção profunda que Paulo procura passar aos gálatas.
ATUALIZAÇÃO
O texto põe em relevo, em primeiro lugar, a atitude de Deus para com o homem. O nosso Deus não é o Deus que aplica rigorosamente as leis (nesse caso o homem pecador não teria acesso à salvação), mas é o Deus que, de forma gratuita, “justifica” o homem. O acesso à vida em plenitude não é uma conquista humana, mas um dom gratuito, que brota da bondade de Deus. De Deus não podemos exigir nada, mesmo que nos tenhamos “portado bem” e cumprido as regras: de Deus, podemos apenas esperar a graça da salvação como dom gratuito e incondicional. Isto retira-nos qualquer legitimidade para assumir atitudes de arrogância e auto-suficiência, quer em relação a Deus, quer em relação aos nossos irmãos.
É preciso ter consciência de que “Cristo basta”. Muitas vezes a nossa caminhada religiosa alicerça-se em aspectos folclóricos, que são absolutizados e considerados essenciais. Inventamos comportamentos “religiosamente corretos” e procuramos impô-los, discutimos leis, magoamos as pessoas por causa de preceitos legais, marginalizamos e catalogamos por causa dos princípios de um código legal e esquecemos que Cristo é o único essencial. A comunidade cristã deixa de ser verdadeiramente a comunidade dos que aderem a Cristo. Que sentido é que isto faz, à luz da catequese de Paulo?
Paulo chama, ainda, a atenção para a nossa identificação com Cristo. O cristão é aquele que se identifica com Cristo no seu amor e na sua entrega e que, nesse caminho, encontra a verdadeira vida, a vida em plenitude. É esse o caminho que eu procuro seguir? A minha vida desenrola-se de tal forma que eu posso dizer – como Paulo – “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”? A vida de Cristo circula em mim e aparece, aos olhos dos meus irmãos, nos meus gestos, nas minhas palavras, no meu amor?
Evangelho: Lc. 7,36 – 8,3 - AMBIENTE
O texto situa-nos na primeira parte do Evangelho segundo Lucas. Convém recordar que esta primeira parte se desenrola na Galileia, sobretudo à volta do lago de Tiberíades. Durante essa fase, Jesus vai concretizando o seu programa: trazer aos homens – sobretudo aos pobres e marginalizados – a liberdade e a salvação de Deus. Toda esta primeira parte é, aliás, dominada pelo anúncio programático da sinagoga de Nazaré, onde Jesus define a sua missão como “anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e mandar em liberdade os oprimidos” (cf. Lc. 4,16-30). Este episódio põe em evidência um tema caro a Lucas: a misericórdia de Jesus frente àqueles que necessitam de libertação. O episódio anterior terminou com uma descrição de Jesus como amigo dos pecadores (cf. Lc. 7,34); agora, este princípio vai ser ilustrado com um fato real.
O episódio situa-nos no ambiente de um banquete, em casa de um fariseu chamado Simão (o “banquete” é, neste contexto, o espaço da familiaridade, da irmandade, onde os laços entre as pessoas se estabelecem e se consolidam). Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus tão próximos de Jesus que até aceitam sentar-se à mesa com Ele (cf. Lc. 11,37;14,1) e preveni-l’O em relação à ameaça de Herodes (cf. Lc. 13,31). Lucas está, no que diz respeito a esta questão, bem mais perto da realidade histórica do que Marcos e, sobretudo, do que Mateus (que, influenciado pelas polemica da Igreja primitiva com os fariseus, apresenta sistematicamente os fariseus como adversários de Jesus).
MENSAGEM
A perspectiva fundamental deste episódio tem a ver com a definição da atitude de Jesus (e, portanto, de Deus) para com os pecadores.
A personagem central é a mulher a quem Lucas apresenta como “uma mulher da cidade que era pecadora”. Não há qualquer indicação acerca de anteriores contactos entre Jesus e esta mulher, embora possamos supor que a mulher já se tinha encontrado com Jesus e tinha percebido n’Ele uma atitude diferente dos mestres da época, sempre preocupados em evitar os pecadores notórios e em condená-los.
A ação da mulher (o choro, as lágrimas derramadas sobre os pés de Jesus, o enxugar os pés com os cabelos, o beijar os pés e ungi-los com perfume) é descrita como uma resposta de gratidão, como consequência do perdão recebido (vs. 47). A parábola que Jesus conta, a este propósito (vs. 41-42), parece significar, não que o perdão resulta do muito amor manifestado pela mulher, mas que o muito amor da mulher é o resultado da atitude de misericórdia de Jesus: o amor manifestado pela mulher nasce de um coração agradecido de alguém que não se sentiu excluído nem marginalizado, mas que, nos gestos de Jesus, tomou consciência da bondade e da misericórdia de Deus.
A outra figura central deste episódio é Simão, o fariseu. Ele representa aqueles zelosos defensores da Lei que evitavam qualquer contacto com os pecadores e que achavam que o próprio Deus não podia acolher nem deixar-se tocar pelos transgressores notórios da Lei e da moral. Jesus procura fazê-lo entender que só a lógica de Deus – uma lógica de amor e de misericórdia – pode gerar o amor e, portanto, a conversão e a vida nova. Jesus empenha-se em mostrar a Simão que não é marginalizando e segregando que se pode obter uma nova atitude do pecador; mas que é amando e acolhendo que se pode transformar os corações e despertar neles o amor: essa é a perspectiva de Deus. O perdão não se dá a troco de amor, mas dá-se, simplesmente, sem esperar nada em troca. A reação de Jesus não é um caso isolado, mas resulta da missão de que Ele se sente investido por Deus – atitude que Ele procurará manifestar em tantas situações semelhantes: dizer aos proscritos, aos moralmente fracassados, que Deus não os condena nem marginaliza, mas vem ao seu encontro para os libertar, para dar-lhes dignidade, para os convocar para o banquete escatológico do Reino. É esta atitude de Deus que gera o amor e a vontade de começar vida nova, inserida na lógica do Reino.
O texto que nos é proposto termina com uma referência ao grupo que acompanha Jesus: os Doze e algumas mulheres. O fato de o “mestre” se fazer acompanhar por mulheres (Lucas é o único evangelista que refere a incorporação de mulheres no grupo itinerante dos discípulos) era algo insólito, numa sociedade em que a mulher desempenhava um papel social e religioso marginal. No entanto, manifesta a lógica de Deus que não exclui ninguém, mas integra todos – sem exceção – na comunidade do Reino. As mulheres – grupo com um estatuto de subalternidade, cujos direitos sociais e religiosos eram limitados pela organização social da época – também são integradas nessa comunidade de irmãos que é a comunidade do Reino: Deus não exclui nem marginaliza ninguém, mas a todos chama a fazer parte da sua família.
ATUALIZAÇÃO
Em primeiro lugar, o nosso texto põe em relevo a atitude de Deus, que ama sempre (mesmo antes da conversão e do arrependimento) e que não Se sente conspurcado por ser tocado pelos pecadores e pelos marginais. É o Deus da bondade e da misericórdia, que ama todos como filhos e que a todos convida a integrar a sua família. É esse Deus que temos de propor aos nossos irmãos e que, de forma especial, temos de apresentar àqueles que a sociedade trata como marginais.
A figura de Simão, o fariseu, representa aqueles que, instalados nas suas certezas e numa prática religiosa feita de ritos e obrigações bem definidos e rigorosamente cumpridos, se acham em regra com Deus e com os outros. Consideram-se no direito de exigir de Deus a salvação e desprezam aqueles que não cumprem escrupulosamente as regras e que não têm comportamentos social e religiosamente corretos. É possível que nenhum de nós se identifique totalmente com esta figura; mas, não teremos, de quando em quando, “tiques” de orgulho e de auto-suficiência que nos levam a considerar-nos mais ou menos “perfeitos” e a desprezar aqueles que nos parecem pecadores, imperfeitos, marginais?
A exclusão e a marginalização não geram vida nova; só o amor e a misericórdia interpelam o coração e provocam uma resposta de amor. Frequentemente fala-se, entre nós, no agravamento das penas previstas para quem infringe as regras sociais, como se estivesse aí a solução mágica para a mudança de comportamentos… A lógica de Deus garante-nos que só o amor e a misericórdia conduzem à vida nova.
Na linha do que a Palavra de Deus nos propõe hoje, como tratar esses excluídos, que todos os dias batem à porta da “fortaleza Europa” à procura de condições mínimas para viver com dignidade? E os moralmente fracassados, que testemunho de amor e de misericórdia encontram nas nossas comunidades?
Ultimamente, fala-se muito do papel e do estatuto das mulheres na comunidade cristã. Este texto diz-nos que, ao contrário do que era costume na época, as mulheres faziam parte do grupo de Jesus. Que significa isso: que elas devem ter acesso aos ministérios na comunidade cristã? Seja qual for a resposta, o que é importante é que não façamos disto uma luta pelo poder, ou uma reivindicação de direitos, mas uma questão de amor e de serviço.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho


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