.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 16 de junho de 2016

12º DOMINGO TEMPO COMUM-C

12º DOMINGO TEMPO COMUM


19 de Junho de 2016

1ª Leitura - Zc 12,10-11;13,1

Salmo - Sl 62,

2ª Leitura - Gl 3,26-29

Evangelho - Lc 9,18-24



Jesus é o filho de Deus feito homem, que foi anunciado pelos profetas, e saindo do Pai, veio ao mundo para nos salvar do pecado, e nos conduzir a vida eterna. Continua


============================
QUEM DIZ O POVO QUE EU SOU?” – Olivia Coutinho.

12º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 19 de Junho de 2016

Evangelho de Lc9,18-24

É pela fé, que reconhecemos Jesus como o nosso Deus e Senhor! Mas não basta reconhecer Jesus  como o nosso Deus e Senhor, e nem ser um admirador de suas palavras, é preciso comprometer com a sua causa, testemunhá-Lo no nosso dia a dia,  aderir à sua proposta!
Nossa opção por Jesus tem que ser radical, do contrário, não seremos um cristão por inteiro!
Muitos de nós, professamos a nossa fé em Jesus, e até sentimos atraídos pelas suas palavras, mas quando tomamos conhecimento de que no seguimento a Ele, a cruz se faz presente, tendemos a recuar, um sinal de que ainda não temos uma fé suficientemente madura para aceitarmos os desafios deste seguimento!
O evangelho que a liturgia deste Domingo  nos apresenta, vem nos despertar sobre a importância de conhecermos Jesus, de nos tornar discípulos Dele, seu aprendiz!
O texto nos diz, que Jesus, no desejo de saber se os seus discípulos, já haviam entendido o seu messianismo, pergunta-lhes: “Quem dizem o povo que eu sou? Para esta pergunta, surgiram várias respostas, afinal, é fácil responder em nome do outro, não compromete! Já quando esta mesma pergunta é direcionada a eles, vem o silencio, pois desta vez, a pergunta requer uma resposta pessoal, o que exige comprometimento! Pedro foi o único que respondeu, e respondeu com firmeza: “Tu és o Messias de Deus.” Esta resposta, agradou Jesus, pois Ele sabia, que esta  afirmação de Pedro, era fruto da sua convivência com Ele! 
Jesus proíbe os discípulos de revelar a sua identidade, afinal, um povo que esperava por um Messias triunfalista com poderes políticos, jamais aceitaria um Messias como Ele, na condição de servo! Jesus sabia que Ele não seria reconhecido como o Filho de Deus, sem antes passar pela cruz!
Sem aprofundarmos no conhecimento a Jesus, ficamos na superficialidade da fé, na lógica dos homens, não vamos compreender, que, para ganhar a vida, é preciso passar pela cruz como Jesus passou!
O nosso seguimento a Jesus, inclui à cruz, porque a nossa adesão a Ele, nos leva a atitudes que contrariam os opositores do projeto de Deus!
Estar disposto a assumir a cruz, não significa  buscar  sofrimento,  e sim, assumir as consequências de uma vida pautada no exemplo de Jesus, uma vida coerente com o evangelho.
Hoje, depois de ter passado pela cruz, de nos ter dado tão grande prova de amor, não precisamos esperar que Jesus nos faça perguntas, para darmos  a Ele, a nossa  resposta de amor! 
Façamos a nós mesmos, uma pergunta: “O que temos feito da nossa vida, que custou a vida de Jesus?” Com certeza, a nossa resposta chegará até Ele, não com palavras, e sim, com as nossas atitudes do dia a dia! É no nosso cotidiano, que vamos respondendo ao tão grande amor de Jesus por nós.


FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook:

============================

Reconhecer e seguir o Messias padecente
Já no ano B, a liturgia insistiu muito nas predições da Paixão de Jesus, que, em Marcos, formam a espinha dorsal da seção mais significativa do evangelho Lc introduz no meio das três predições a ”grande viagem” de Jesus (Lc. 9,51-18,14). Assim, o tema da predição da paixão aparece só uma vez na liturgia do Ano C: uma razão a mais para lhe dedicar toda a atenção (evangelho).
A situação é a seguinte: Jesus vive um dos seus momentos de intimidade com Deus (Lc. 9,18), talvez refletindo sobre o sentido dos sinais messiânicos que lhe é dado fazer (precede imediatamente, em Lc. 9,10-17, a multiplicação dos pães). Quer conscientizar seus discípulos daquilo que o Pai lhe faz ver. Pergunta quem, na opinião dos homens, ele é; e, depois de respostas “aproximativas” (João Batista, Elias), pergunta também por quem os discípulos o têm. Pedro se torna porta-voz dos seus companheiros e diz: “Tu és o messias de Deus”. Jesus lhes manda guardar esta intuição para si e explica por quê: o Filho do Homem deve sofrer e morrer, mas também ser ressuscitado. O povo ainda não entenderia isso. Só o entenderão depois de o ter traspassado, o que não deixa de ser mais um “cumprimento” das Escrituras, ou seja, da estranha lógica de Deus (cf. Zc. 12, 10-11,1ª leitura; Is 53 etc.). Pois Jesus é o ponto final e a plenitude de toda uma linhagem de profetas rejeitados, messias assassinados, e de todos os “servos” e “pobres de Deus”. A pedagogia de Deus, que consiste em converter o homem não pela força, mas pelo exemplo do amor até o fim, atinge a plenitude em Jesus de Nazaré.
O que Jesus diz “a todos” (Lc. 9,23, expressamente) é que eles devem segui-lo, assumindo sua cruz. A melhor maneira para entender Jesus é  fazer a mesma coisa que ele. Não são as teorias cristológicas que nos ajudam a conhecer e entender Jesus, mas o viver como ele viveu, morrer como ele morreu. Fazer a experiência do mundo e de Deus que ele fez, isso é que nos torna seus discípulos, dignos do nome de “cristãos”. Quando a gente compara a palavra do seguimento em Lc 9,23 com Mc 8,34, que lhe serviu de modelo, a gente descobre que Lc acrescentou algo: “cada dia”. Tornar sua cruz não acontece apenas no caminho do Gólgota, mas na vida de cada dia (Lc é o evangelista que mais pensa na situação do cristão comum). Quem não sabe assumir as pequenas cruzes de cada dia, nunca será um mártir do amor até o fim.
Lucas escreve isso com uma finalidade pedagógica, de acordo com seu espírito helenístico, que dava muita importância à “ascese”, o “exercício” (foram os gregos que inventaram o treinamento esportivo). Porém, os pequenos sacrifícios do dia-a-dia não são apenas exercícios esportivos. Eles são exercícios do amor de Cristo. São a manifestação, até nos mínimos detalhes de nossa vida, de quanto temos constantemente diante dos olhos seu amor por nós, manifestado na cruz. A cruz do dia-a-dia é nossa participação da Cruz do Calvário, da qual recebe todo o seu valor.
Temos agora também critérios para distinguir entre o verdadeiro seguimento de Jesus no caminho da Cruz e o superficial entusiasmo que, como um parasita, tira a força e sufoca o verdadeiro amor a Cristo. Muitos que andam com ostentativo crucifixo no peito não têm a mínima intenção séria de viver o que a cruz significa. Consideram Jesus talvez como um João Batista ou Elias redivivo, ou seja, um cara sensacional, mas não estão dispostos a viver no dia-a-dia o que ele viveu. Fazem de Jesus um subterfúgio, uma escusa, uma fachada que os dispensa de qualquer chamado à conversão: “Sou homem de igreja, ninguém me precisa dizer o que devo fazer!” Sobretudo, quando cheiram no ar algo que possa mexer com sua posição social, algo como a opção pelos pobres … Devem aprender a assumir sua cruz, no dia-a-dia, não com espírito revoltado (“Que é que fiz para merecer isso e aquilo, eu que rezo tanto?”), mas com o amor do Cristo, que tem compaixão dos mais sofridos. Então, reconhecerão que sua cruz não é a enxaqueca do dia depois da festa de aniversário, mas a incapacidade de criar uma sociedade justa, em que todos tenham vez.
Entre cristãos, é impossível perpetuar e aprofundar sempre mais o abismo que divide as pessoas social e culturalmente. Pelo batismo, mudamos de personalidade: somos todos “Cristo”, todos iguais aos olhos de Deus, todos seu filho querido: não há mais homem e mulher, judeu e grego, senhor e escravo (2ª leitura). Não deverá esta igualdade escatológica manifestar-se também no dia-a-dia de uma sociedade que se chama cristã?
Johan Konings "Liturgia dominical"


============================


Jesus já havia caminhado por entre as nações durante algum tempo, dando ao povo grandes provas de seu poder e do seu amor, perdoando, ensinando e curando os doentes. Porém o povo Judeu esperava um Messias que estava descrito no livro de Isaías como um rei soberano que governaria com justiça, empunhando espada para libertá-lo da exploração do Império Romano. Este povo não compreendeu que o Reino de Jesus, o qual o profeta Isaías se referia, não era deste mundo e, por isso, ele (povo judeu) não O reconhece como o Messias e, sim, acredita que é mais um profeta, e continuam esperando o Messias até os dias de hoje.
No Evangelho deste domingo, encontramos Jesus em um momento de intimidade com o Pai. Os discípulos se aproximam e Ele lhes pergunta: “Quem diz o povo que eu sou?”
Os discípulos respondem que o povo acha que Ele é João Batista, Elias ou um dos profetas que ressuscitou. Jesus, porém, quer realmente saber o que pensam os seus discípulos, e então volta a sua pergunta diretamente a eles que, na pessoa de Pedro, O reconhece como o Messias – palavra hebraica que significa ‘ungido’.
Quando Jesus faz a pergunta aos discípulos, Ele recebe uma resposta que denota que as pessoas não chegaram a descobrir a Sua identidade. Porém, a resposta de Pedro, resume o que Jesus é e faz: como Mestre, como Profeta e como revelador com plenos poderes, ou seja, o Ungido pelo Espírito de Deus. Com a sua palavra e ação Ele revela e ensina quem é Deus e qual é o seu projeto: a liberdade e a vida para todos.
Jesus proíbe os discípulos de revelar a sua verdadeira identidade, pois só depois de Seu sofrimento, morte e ressurreição, com o cumprimento das Escrituras, as pessoas poderiam compreender seus ensinamentos. Então Ele deixa bem claro as três condições para cada um segui-Lo:
- A renúncia – é preciso renunciar os próprios interesses colocando os projetos de Deus sempre em primeiro lugar;
- O sacrifício – Aceitar a cada dia os desafios da fé e estar pronto para enfrentá-los com amor e dedicação;
- Seguir Seus passos – Procurar agir em todo momento como Ele.
Ser cristão, seguir a Jesus, é bem mais que usar um crucifixo no peito, aprender algumas orações e se dizer um cristão, é preciso um comprometimento verdadeiro, um dedicar-se ao amor ao próximo como o próprio Jesus ama, e assumindo, a cada dia, a missão dada por Ele.

Pequeninos do Senhor

============================
Anunciando a paixão
A questão apresentada por Jesus aos discípulos, a respeito de sua identidade, situa-se num momento crucial de sua vida. Por um lado, as multidões não haviam compreendido bem o tipo de messianismo vivido pelo Mestre. Ele se apresentava como Messias-servo, ao passo que o povo esperava um Messias cheio de glória e majestade. Por outro lado, autoridades políticas, como Herodes, perguntavam-se: "Quem poderá ser este de quem ouço tais coisas?" O que se passava com os discípulos? Sua fé era consistente e estavam realmente preparados para subir com Jesus até Jerusalém?
A questão apresentada aos discípulos visava explicitar-lhes a fé no Messias Jesus. A resposta de Pedro, embora verdadeira, carecia de reparos. O Messias estava destinado a sofrer nas mãos dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar no terceiro dia. A causa do sofrimento estaria relacionada com seu modo de viver. Longe de buscar glórias mundanas, Jesus colocava-se ao lado dos pobres e marginalizados, vivia uma experiência de Deus muito diferente da preconizada pela religiosidade da época, anunciava um Reino de igualdade e solidariedade, muito mais exigente do que, até então, se conhecia. Sua morte decorreria de sua opção de ser solidário e servidor. Daí o Pai decidir ressuscitá-lo.
Quem quisesse segui-lo, deveria considerar atentamente este aspecto. Caso contrário, estaria nutrindo esperanças vãs.
padre Jaldemir Vitório

============================

Quem é o teu Jesus? – Voltar ao Evangelho para que Cristo viva em nós. Olhar para Jesus como foi visto e descrito por nossos primeiros irmãos na fé. Não fabricar um Jesus conforme o nosso gosto, nem seguir um Jesus que não seja Aquele que o Evangelho apresenta. O Cristo do Evangelho é Aquele que sofre muito, é rejeitado pelas autoridades, é morto, mas depois ressuscita. Quem quer segui-lo não pode ser diferente d’Ele. Renunciamos a nós mesmos, tomamos a nossa cruz, aceitamos perder a nossa vida por causa d’Ele. O povo de Jesus é um povo humilde e despretensioso. A imitação é a medida do amor. Jesus é o único modelo. É ruim ter uma ideia errada d’Ele. As afirmações: “Ele é o Cristo”, “Ele é o Senhor”, precisam de explicação. Seu significado pode não corresponder ao Cristo da cruz.
Eles olharão para mim – Todos olharão para Ele, ferido de morte, e chorarão. Mas ao olharem, verão que d’Ele jorra um espírito de graça e de oração. Ele se tornou uma fonte acessível a todos. Nela, todos podem se banhar e se purificar. Há alguém se sacrificando por todos. Por que não há perdão sem derramamento de sangue? (cf. Hb 9,22). Por que existe a dor, por que o sofrimento? Por que Jesus teve que sofrer tanto para nos salvar? Deus Pai só aceitou as desculpas pelo pecado quando viu seu Filho todo arrebentado? “Agora sim estou satisfeito”, Deus teria dito diante de Jesus na cruz? Nada disso é fácil de entender. Tudo é consequência do pecado, e nem entendemos bem toda a força desse Pecado acontecido nas origens da humanidade. O fato é que o sofrimento existe e que Jesus se mergulhou n’Ele inteiramente. A partir de então o sofrimento se tornou fonte de vida. Se temos que sofrer, pelo menos sabemos que o sofrimento pode ser redentor. Olhando para Aquele a quem transpassaram, podemos compreender o alcance e a profundidade do sofrimento humano e não ser a ele indiferente. Que nada nos torne indiferentes ao sofrimento humano.
Revestidos de Cristo – Não somente seguimos Jesus, olhamos para Ele, procuramos imitá-lo, mas fomos revestidos de Cristo. Ao sairmos das águas do Batismo, saímos revestidos de Cristo, isto é, realizou-se a perfeita sintonia, assumimos a sua forma, somos o próprio Cristo. Todos somos um n’Ele, que é a cabeça de todos. Tal identificação anula todas as diferenças. Formamos um só corpo e somos verdadeiramente irmãos, filhos do mesmo Pai. O Batismo é banho e purificação, mas também morte e ressurreição. Nas águas, ficou morta a velha criatura, e das águas saiu a nova criatura ressuscitada no Corpo da Igreja.
Nossa vida hoje – Nem tudo é claro, nem tudo se compreende, nem tudo se explica, mas tudo adquire sentido em Cristo Jesus. A fé ilumina todas as coisas com luz nova e nos faz conhecer a vontade divina sobre a vocação integral do homem, e assim orienta a inteligência para soluções plenamente humanas (cf.Gaudium a Spes 11). Sem a fé, que nos permite ver além das aparências, não encontramos verdadeiras soluções humanas para as interrogações da vida. A fé no Cristo ressuscitado não nos afasta da vida diária. Ao contrário, faz-nos vê-la com mais clareza e faz-nos entendê-la com mais profundidade.
cônego Celso Pedro da Silva

============================

A vida é ganha na entrega sem reservas
O texto do evangelho deste domingo, conhecido como “profissão de fé de Pedro”, seguido do anúncio da paixão, morte e ressurreição, é a sequência do relato da confusão de Herodes que, ouvindo falar de Jesus, não pode conhecer sua verdadeira identidade (vv. 7-9); e do relato da multiplicação dos pães em que Jesus alimenta abundantemente uma multidão de uns cinco mil homens (vv. 10-17). A dupla pergunta posta aos discípulos revela a preocupação de Jesus de que sua missão e a sua verdadeira identidade não estejam sendo compreendidas. O autor do quarto evangelho apresenta esta preocupação de modo claro: “Vós me procurais não porque vistes sinais, mas porque comestes e ficastes saciados” (Jo 6,26).
Na primeira parte do texto há uma dupla pergunta: “Quem dizem as multidões que eu sou?” (v. 18), e “quem dizeis que eu sou?” (v. 20). À resposta acerca da opinião da multidão, Jesus não faz nenhum comentário. A resposta acerca da opinião da multidão confirma a suspeita de incompreensão. Mesmo que a pessoa de Jesus suscite perguntas e provoque a opinião das pessoas, a multidão continua voltada para o passado de Israel, incapaz de perceber e reconhecer a irrupção da visita salvífica de Deus (Lc. 1,68; 7,16). É a vez de os discípulos se engajarem na resposta à pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” A resposta é mais importante para os discípulos do que para Jesus. Dela dependerá a adesão ou não ao Senhor. Pedro, como porta-voz de todos os demais, toma a iniciativa: “O Cristo de Deus” (v. 20). Isto significa: o Messias prometido e esperado, aquele que é habitado pelo Espírito Santo (cf. Lc. 3,22; 4,1.18). Jesus impede os discípulos de divulgarem o que Pedro acaba de proclamar. Isto porque será preciso esclarecer de que Messias se trata; talvez o Messias que Jesus é não seja exatamente o que os próprios discípulos pensavam ter encontrado (ver: Mc. 8,32-33). Mas também é verdade que cada um deve dar a sua resposta. É neste ponto que Jesus anuncia, pela primeira vez no evangelho segundo Lucas, sua paixão, morte e ressurreição (v. 22). Este anúncio tem consequências para os Doze como para todos os discípulos. Em primeiro lugar, eles devem se distanciar da opinião da multidão e se engajarem, na fé, na verdadeira missão de serviço, e não de poder. Em segundo lugar, o caminho de Jesus passa a ser o caminho necessário de todos os que aderem, pela fé, e livremente, à sua pessoa: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo…” (v. 23). A cruz passa a fazer parte da vida do discípulo. É a forma de superar todo egoísmo que fecha a pessoa sobre si mesma. Paradoxalmente, a vida é ganha na entrega sem reservas: “... quem quiser salvar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a salvará” (v. 24).
Carlos Alberto Contieri,sj

============================

A Palavra que hoje escutamos coloca-nos diante da questão fundamental de nossa fé: quem é Jesus de Nazaré? Sejamos espertos; estejamos atentos a um detalhe importantíssimo: Jesus distingue a pergunta sobre a opinião do mundo daquela outra, sobre a fé dos discípulos. “Quem diz o povo que eu sou?” E as opiniões são humanas e, portanto, incompletas, parciais, superficiais: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou”. Ainda hoje é assim: o mundo não poderá jamais compreender Jesus em sua profundidade e verdade última. Uns acham-no um sábio; outros, um iluminado, ou um filósofo, ou um humanista, ou um revolucionário romântico, do tipo Che Guevara; outros acham-no, sinceramente um alienado ou um falso profeta... Em geral, o mundo atual, vê-lo quase como um mito, bonzinho, romântico, mas sem muita serventia prática...
Mas, Jesus, pergunta aos discípulos, pergunta a nós: “E vós, quem dizeis que eu sou?” A resposta de Pedro é perfeita, é completa: “Tu és o Cristo, o Ungido, o Messias de Deus”. Esta resposta não veio da lógica humana, da inteligência ou da esperteza de Pedro. Em Mateus, Jesus afirma-o claramente: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está no céu” (Mt. 16,17). A afirmação do Senhor é clara, direta e gravíssima: carne e sangue, isto é, a só inteligência humana, não pode alcançar quem é Jesus! Somente na revelação do Pai, isto é, somente na experiência da fé da Igreja, nós podemos ter acesso ao mistério de Cristo, à sua realidade profunda. Portanto, não nos deve surpreender se o mundo tem dificuldade de crer realmente, de aceitar seriamente o Cristo e as exigências do seu Evangelho! Não devemos nos importar muito com o que as revistas e as ciências (história, sociologia, antropologia...) dizem a respeito de Jesus. Elas não conseguem penetrar no núcleo do seu mistério; ficam sempre no limiar, na soleira. Então, é na escuta fiel e devota da Palavra, na oração pessoal, na vida da comunidade eclesial, no empenho sincero e sacrificado de viver o Evangelho com suas exigências e, sobretudo, na celebração dos santos mistérios que podemos fazer uma experiência autêntica de quem é Jesus. Não cremos simplesmente no Jesus que a ciência ou a história podem apreender; cremos no Cristo crido, adorado, experimentado e anunciado pela Igreja, a partir do testemunho dos apóstolos!
Mas, tem mais! O núcleo do mistério de Cristo é o mistério de sua cruz. Observe-se bem: assim que Pedro afirma que Jesus é o Messias, ele precisa, esclarece que tipo de Messias ele é: "O Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado... deve ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”. Somente na cruz o discípulo pode reconhecer em profundidade o seu Senhor. Mas, a cruz não é um teoria; é uma realidade em nossa vida e na vida do mundo: a cruz da solidão, do fracasso, da doença, das lágrimas, da pobreza, da morte... Somente quando abraçamos na nossa cruz a cruz de Cristo, podemos, então, compreendê-lo: “Se alguém me quer seguir, quer ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me!” Fora da cruz, fora do seguimento de Cristo até o fim, não há verdadeiro conhecimento do Senhor, não há a mínima possibilidade de uma verdadeira comunhão com ele. São Paulo nos emociona, quando afirmou: “O que era para mim lucro eu o tive como perda, por amor de Cristo. Mais ainda: tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele.. para conhecê-lo, conhecer o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição” (Fl. 3,7-11). É preciso que rejeitemos claramente um cristianismo bonzinho, almofadinha, burguês, bem comportadinho, que agrade ao mundo! O cristianismo é radical, é escandaloso, na sua essência, é incompreensível ao mundo “A linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem!” (1Cor. 1,18) – Será que não andamos meio esquecidos disso? E, no entanto, “para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus” (1Cor. 1,19). Na fé, contemplamos a cruz do Senhor, tão dura para ele e para nós, e vemos nela a fonte de purificação e de vida de que fala a primeira leitura da missa de hoje. Do coração amoroso e ferido do Cristo, brota a vida do mundo e o sentido último da nossa existência. As palavras são impressionantes: “Derramarei um Espírito de graça e de oração... Eles olharão para mim. Quanto ao que traspassaram, haverão de chorá-lo, como se chora a perda de um filho único, e hão de sentir por ele o que se sente pela morte de um primogênito. Naquele dia, haverá uma fonte acessível para a ablução e a purificação”.
Eis o escândalo: não cremos na tocha olímpica, não cremos que a globalização trará a salvação, não cremos que a ciência salve o ser humano dos demônios e monstros do seu coração, não cremos que a tecnologia nos faça mais felizes, não cremos que o esporte traga a paz universal, não esperamos que o prazer e o poder nos saciem o coração! Não somos idólatras para a perdição! Cremos que Jesus é o Cristo; cremos que pela sua encarnação, cruz e ressurreição ele nos deu uma vida nova, uma torrente de vida na potência do seu Espírito Santo. Cremos que Jesus é a nossa verdade, o nosso caminho e o sentido último da realidade. Por isso nele fomos batizados, dele nos alimentamos e nele queremos viver.
Quando levarmos isso a sério, seremos cristãos e iluminaremos o mundo. Que o Senhor no-lo conceda por sua misericórdia.
dom Henrique Soares da Costa

============================

A liturgia deste domingo coloca no centro da nossa reflexão a figura de Jesus: quem é Ele e qual o impacto que a sua proposta de vida tem em nós? A Palavra de Deus que nos é proposta impele-nos a descobrir em Jesus o “messias” de Deus, que realiza a libertação dos homens através do amor e do dom da vida; e convida cada “cristão” à identificação com Cristo – isto é, a “tomar a cruz”, a fazer da própria vida um dom generoso aos outros.
O Evangelho confronta-nos com a pergunta de Jesus: “e vós, quem dizeis que Eu sou?” Paralelamente, apresenta o caminho messiânico de Jesus, não como um caminho de glória e de triunfos humanos, mas como um caminho de amor e de cruz. “Conhecer Jesus” é aderir a Ele e segui-l’O nesse caminho de entrega, de doação, de amor total.
A primeira leitura apresenta-nos um misterioso profeta “trespassado”, cuja entrega trouxe conversão e purificação para os seus concidadãos. Revela, pois, que o caminho da entrega não é um caminho de fracasso, mas um caminho que gera vida nova para nós e para os outros. João, o autor do Quarto Evangelho, identificará essa misteriosa figura profética com o próprio Cristo.
A segunda leitura reforça a mensagem geral da liturgia deste domingo, insistindo que o cristão deve “revestir-se” de Jesus, renunciar ao egoísmo e ao orgulho e percorrer o caminho do amor e do dom da vida. Esse caminho faz dos crentes uma única família de irmãos, iguais em dignidade e herdeiros da vida em plenitude.
1ª leitura: Za. 12,10-11;13,1 - AMBIENTE
Como o livro de Isaías, o livro de Zacarias não pode ser atribuído a um só e mesmo profeta. Só os capítulos 1-8 podem ser atribuídos a esse Zacarias, filho de Baraquias (cf. Za. 1,1.7), que atuou em Jerusalém no pós-exílio e teve um papel preponderante na reconstrução do Templo (estamos à volta de 520 a.C.).
Os capítulos 9-14 parecem ser uma outra coleção de textos, que provêm de um, ou mais provavelmente de vários autores tardios; costuma falar-se deste conjunto de textos usando a designação “Deutero-Zacarias”.
A época em que os textos do Deutero-Zacarias apareceram também é muito discutida (a partir das referências históricas do livro, é possível deduzir todas as épocas, desde o séc. VIII até ao séc. II a.C.). No entanto, a opinião mais difundida atualmente é a que situa a redação destes capítulos em finais do séc. IV e durante o séc. III a.C. (o ambiente parece revelar a época posterior às vitórias de Alexandre da Macedônia).
O texto que nos é proposto integra uma coleção que vai de 12,1 a 14,21. Essa coleção apresenta-nos um mosaico de temas diversos, embora unidos por uma certa expectativa messiânica. Depois do anúncio da intervenção definitiva de Deus na pessoa de um rei/messias que, na humildade, procurará instaurar o reino ideal (cf. Za. 9,9-10) e da referência a um “pastor” enigmático que virá apascentar o rebanho de Deus (cf. Za. 11,4-17), os textos apresentam-nos um conjunto de oráculos que se referem à salvação e glória de Jerusalém. É nesse enquadramento que podemos situar o nosso texto.
MENSAGEM
O profeta começa por anunciar a efusão de um espírito de piedade e de súplica sobre a casa de David e os habitantes de Jerusalém: esse espírito irá provocar uma transformação interior que colocará toda a gente na órbita de Deus, numa atitude de confiança e de abertura a Deus.
Tal acção resultará da atividade profética de um misterioso “trespassado”. Primeiro, o autor identifica-o com Deus (“olharão para mim”, a quem trespassaram”); mas, logo a seguir, a frase distingue de novo Deus e o misterioso personagem evocado. O “’ly” (“para mim”) significa, provavelmente, que o próprio Deus Se sente atingido pela morte infligida ao seu enviado.
Quem é este personagem? Há quem o identifique com o rei Josias, morto em Meggido em combate contra os egípcios (cf. 2Re. 23,29-30); há, também, quem diga que esta figura se inspira no sumo sacerdote Onias III (cf. 2 Mac 4,34) ou em Simão Macabeu (cf. 1 Mac 16,11-17; se este personagem fosse Simão Macabeu, teríamos de colocar a redação deste texto na segunda metade do séc. II a.C.). Pode, ainda, ser um qualquer profeta cujo nome desconhecemos… De qualquer forma, trata-se de um mártir inocente e anônimo, por cuja morte os habitantes de Jerusalém se tornaram responsáveis. A figura que melhor ilumina esta passagem ainda é a do “servo sofredor” de Is 53, mesmo se os termos utilizados são bastante diferentes. Como acontece com o “servo de Jahwéh”, o sacrifício deste mártir inocente é fonte de transformação dos corações (cf. Za. 12,10) e de purificação (cf. Za. 13,1): a contemplação dessa vítima inocente iniciará no Povo um processo de arrependimento e de purificação.
A repetida evocação de David neste contexto (cf. Za. 12,7-8.10.12; 13,1) liga este personagem com a promessa messiânica.
João, o autor do Quarto Evangelho, verá em Jesus, morto na cruz e com o coração trespassado pela lança do soldado, a concretização da figura aqui evocada (cf. Jo 19,37).
ATUALIZAÇÃO
¨ Esta figura do “trespassado” faz-nos pensar em todos os “profetas” que lutam pela justiça e pela verdade e que são torturados, vilipendiados, massacrados por causa do seu testemunho incômodo. A identificação do “trespassado” com o próprio Deus diz-nos que o profeta nunca está só e perdido face ao ódio do mundo, mas que Deus está sempre do seu lado; diz-nos, também, que é de Deus que brota a missão profética, mesmo quando ela incomoda e questiona os homens.
¨ Fomos constituídos profetas no momento da nossa opção por Cristo (batismo). Como se tem “cumprido” a nossa missão profética? Na fidelidade e no empenho, ou na preguiça e no comodismo? No medo que paralisa, ou na inquebrantável confiança no Deus que está ao nosso lado?
¨ Como acolhemos a interpelação e o questionamento dos outros profetas que Deus envia ao nosso encontro? Com desprezo e arrogância, com frieza e indiferença? Ou com a convicção de que é o próprio Deus que, através deles, nos interpela?
¨ Este texto garante-nos que o sofrimento por causa do testemunho profético não é em vão. Do testemunho profético – mesmo quando “cumprido” na dor, na dificuldade, no fracasso aos olhos do mundo – resultará sempre a transformação dos corações, a conversão e, portanto, o nascimento de um mundo novo.
2ª leitura: Gl. 3,26-29 - AMBIENTE
Continuamos a ler essa carta enviada aos habitantes da região central da Ásia Menor (Galácia), onde se discute se Cristo basta para chegar à salvação ou são precisas também as obras da Lei. Já sabemos que, para Paulo, só Cristo salva; por isso, os gálatas são convidados a fazer “ouvidos de mercador” às exigências dos “judaizantes” e a não se preocuparem com a circuncisão, nem com outras exigências da Lei de Moisés.
Este texto, em concreto, aparece na segunda parte da carta aos Gálatas (cf. Gl. 3,1-6,18), em que Paulo apresenta uma reflexão sobre o cristão e a liberdade. Nos versículos anteriores, Paulo comparara a Lei a um “carcereiro” (cf. Gl. 3,23) e a um “pedagogo” greco-romano (cf. Gl. 3,24). Estas duas imagens são bem elucidativas: o carcereiro da época era, com muita frequência, exemplo de crueldade; e o pedagogo (geralmente um escravo pouco instruído que acompanhava a criança à escola e a mantinha disciplinada) também não era muito apreciado e evocava a imagem de reprimendas e castigos. É verdade, considera Paulo (cf. Gl. 3,25), que é melhor ser conduzido pela mão do que perder-se no caminho; mas seria uma estupidez aspirar a viver sempre no cárcere ou considerar como um ideal ser sempre conduzido pela mão, sem experimentar a liberdade.
MENSAGEM
Aos gálatas, tentados a voltar à escravidão da Lei, Paulo recorda a experiência libertadora que resultou da sua adesão a Cristo.
Pelo batismo, os crentes foram “revestidos de Cristo” e tornaram-se “filhos de Deus”. Dizer que os crentes foram “revestidos de Cristo” significa que entre os batizados e Cristo se estabeleceu uma relação que não é apenas exterior, mas que toca o âmago da existência: pelo batismo, os cristãos assumiram a existência do próprio Cristo e tornaram-se, como Ele, pessoas que renunciaram à vida velha do egoísmo e do pecado, para viverem a vida nova da entrega a Deus e do amor aos irmãos. Em todos os crentes circula, agora, a vida do próprio Cristo; essa vida veste-os completamente, da cabeça aos pés.
A primeira consequência que daqui resulta é que os cristãos são livres: eles receberam de Cristo uma vida nova e não estão mais sujeitos à escravatura do egoísmo, do pecado e da morte.
A segunda consequência que daqui resulta é que os cristãos são iguais. Identificados com Cristo (porque todos – judeus e não judeus, homens e mulheres – foram revestidos da mesma vida), não há qualquer diferença ou discriminação quanto à raça, ou ao sexo; todos são “filhos”, com igual direito quanto à herança (todos são filhos do mesmo Pai e todos têm acesso, em Cristo, à mesma vida plena). A “salvação” que Cristo trouxe significa a igualdade fundamental de todos.
A questão é esta: depois de experimentar isto, os gálatas estarão dispostos a ser, outra vez, escravos?
ATUALIZAÇÃO
¨ O cristão é, fundamentalmente, aquele que se “revestiu de Cristo”. Que significa isto, em concreto? Que assinamos um documento no qual nos comprometemos a viver como batizados? Que respeitamos apenas as leis e orientações da hierarquia? Que nos comprometemos somente a ir à missa ao domingo, a ir a Fátima uma vez por ano e a rezar o terço de vez em quando? Ou significa que assumimos o compromisso de viver como Cristo, de assumir os seus valores, de fazer da nossa vida um dom de amor, de nos entregarmos até à morte para construir um mundo de justiça e de paz para todos?
¨ Para os judeus, contemporâneos de Jesus e de Paulo de Tarso, os pagãos e as mulheres eram gente discriminada. “Dou-te graças, Deus altíssimo – diz uma célebre oração rabínica – porque não me fizeste pagão, escravo ou mulher”. Paulo proclama, neste texto, que, a partir da nossa identificação com Cristo, toda a discriminação entre os homens e, sobretudo entre os cristãos, carece de sentido. A Igreja soube tirar as consequências deste fato? Como acolhemos os estrangeiros, os discriminados, os divorciados, os homossexuais, os drogados, as mulheres? Como filhos iguais do mesmo Deus, ou como irmãos “coitados”, que é preciso tolerar e tratar com caridade mas que não são iguais nem têm a mesma dignidade dos outros?
Evangelho: Lc. 9,18-24 - AMBIENTE
Estamos na fase final da etapa da Galileia. Jesus passou algum tempo a apresentar o seu programa e a levar a Boa Nova aos pobres, aos marginalizados, aos oprimidos (cf. Lc. 4,16-21). À volta d’Ele, foi-se formando um grupo de “testemunhas”, que apreciaram a sua atuação e que se juntaram a esse sonho de criar um mundo novo, de justiça, de liberdade e de paz para todos. Agora, antes de começar a etapa decisiva da sua caminhada nesta terra (o “caminho” para Jerusalém, onde Jesus vai concretizar a sua entrega de amor), os discípulos são convidados a tirar as suas conclusões acerca do que viram, ouviram e testemunharam. Quem é este Jesus, que se prepara para cumprir a etapa final de uma vida de entrega, de dom, de amor partilhado? E os discípulos estarão dispostos a seguir esse mesmo caminho de doação e de entrega da vida ao “Reino”?
MENSAGEM
A cena de hoje começa com a indicação da oração de Jesus (v. 18). É um dado típico de Lucas que põe sempre Jesus a rezar antes de um momento fundamental (cf. Lc. 5,16; 6,12; 9,28-29; 10,21; 11,1; 22,32.40-46; 23,34). A oração é o lugar do reencontro de Jesus com o Pai; depois de rezar, Jesus tem sempre uma mensagem importante – uma mensagem que vem do Pai – para comunicar aos discípulos. A questão importante que, no contexto do episódio de hoje, Jesus tem a comunicar, tem a ver com a questão: “quem é Jesus?”
A época de Jesus foi uma época de crise profunda para o Povo de Deus; foi, portanto, uma época em que o sofrimento gerou uma enorme expectativa messiânica. Asfixiado pela dor que a opressão trazia, o Povo de Deus sonhava com a chegada desse libertador anunciado pelos profetas – um grande chefe militar que, com a força das armas, iria restaurar o império de seu pai David e obrigar os romanos opressores a levantar o jugo de servidão que pesava sobre a nação. Na época apareceram, aliás, várias figuras que se assumiram como “enviados de Deus”, criaram à sua volta um clima de ebulição, arrastaram atrás de si grupos de discípulos exaltados e acabaram, invariavelmente, chacinados pelas tropas romanas. Jesus é também um destes demagogos, em quem o Povo vê cristalizada a sua ânsia de libertação?
Aparentemente, Jesus não é considerado pelas multidões “o messias”: o Povo identifica-o, preferentemente, com Elias, o profeta que as lendas judaicas consideravam estar junto de Deus, reservado para o anúncio do grande momento da libertação do Povo de Deus (v. 19); talvez a sua postura e a sua mensagem não correspondessem àquilo que se esperava de um rei forte e vencedor.
Os discípulos, no entanto, companheiros de “caminho” de Jesus, deviam ter uma perspectiva mais elaborada e amadurecida. De fato, é isso que acontece; por isso, Pedro não tem dúvidas em afirmar: “Tu és o messias de Deus” (v. 20). Pedro representa aqui a comunidade dos discípulos – essa comunidade que acompanhou Jesus, testemunhou os seus gestos e descobriu a sua ligação com Deus. Dizer que Jesus é o “messias” significa reconhecer nele esse “enviado” de Deus, da linha davídica, que havia de traduzir em realidade essas esperanças de libertação que enchiam o coração de todos.
Jesus não discorda da afirmação de Pedro. Ele sabe, no entanto, que os discípulos sonhavam com um “messias” político, poderoso e vitorioso e apressa-se a desfazer possíveis equívocos e a esclarecer as coisas: Ele é o enviado de Deus para libertar os homens; no entanto, não vai realizar essa libertação pelo poder das armas, mas pelo amor e pelo dom da vida (v. 22). No seu horizonte próximo não está um trono, mas a cruz: é aí, na entrega da vida por amor, que Ele realizará as antigas promessas de salvação feitas por Deus ao seu Povo.
A última parte do texto (vs. 23-24) contém palavras destinadas aos discípulos: aos de ontem, de hoje e de amanhã. Todos são convidados a seguir Jesus, isto é, a tomar – como Ele – a cruz do amor e da entrega, a derrubar os muros do egoísmo e do orgulho, a renunciar a si mesmo e a fazer da vida um dom. Isto não deve acontecer em circunstâncias excepcionais, mas na vida quotidiana (“tome a sua cruz todos os dias”). Desta forma fica definida a existência cristã.
ATUALIZAÇÃO
¨ O Evangelho de hoje define a existência cristã como um “tomar a cruz” do amor, da doação, da entrega aos irmãos. Supõe uma existência vivida na simplicidade, no serviço humilde, na generosidade, no esquecimento de si para se fazer dom aos outros. É esse o “caminho” que eu procuro percorrer?
¨ Na sociedade em geral e na Igreja em particular, encontramos muitos cristãos para quem o prestígio, as honras, os postos elevados, os tronos, os títulos são uma espécie de droga de que não prescindem e a que não podem fugir. Frequentemente, servem-se dos carismas e usam as tarefas que lhe são confiadas para se auto-promover, gerando conflitos, rivalidades, ciúmes e mal-estar. À luz do “tomar a cruz e seguir Jesus”, que sentido é que isto fará? Como podemos, pessoal e comunitariamente, lidar com estas situações? Podemos tolerá-las – em nós ou nos outros? Como é possível usar bem os talentos que nos são confiados, sem nos deixarmos tentar pelo prestígio, pelo poder, pelas honras? Tem alguma importância, à luz do que Jesus aqui ensina, que a Igreja apareça em lugar proeminente nos acontecimentos sociais e mundanos e que exija tratamentos de privilégio?
¨ Quem é Jesus, para nós? É alguém que conhecemos das fórmulas do catecismo ou dos livros de teologia, sobre quem sabemos dizer coisas que aprendemos nos livros? Ou é alguém que está no centro da nossa existência, cujo “caminho” tem um real impacto no nosso dia a dia, cuja vida circula em nós e nos transforma, com quem dialogamos, com quem nos identificamos e a quem amamos?
¨ É na oração que eu procuro perceber a vontade de Deus e encontrar o caminho do amor e do dom da vida? Nos momentos das decisões importantes da minha vida, sinto a necessidade de dialogar com Deus e de escutar o que Ele tem para me dizer?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho




"E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Lc. 9, 20
“Quem dizeis…?”
Todos os caminhos que fazemos com alguém têm  sempre encruzilhadas. São momentos e situações de escolha, que comprometem a ir juntos mais além, ou deixam cada um seguir vias diferentes. Em Cesárea de Filipe Jesus provoca um desses momentos. Com a aparência de um inquérito interpela os discípulos sobre a sua identidade. Gosto de imaginar este momento com a densidade dos apaixonados que se perguntam: “quem sou eu para ti?” Se foi importante saber as opiniões diversas que circulavam sobre Jesus, creio que foi essencial, para Ele, saber o que pensavam os seus amigos. E a resposta de Pedro tem um sabor doce e amargo: doce pois reconhece n’Ele o salvador, mas amargo, porque as idéias de salvação eram (e às vezes ainda são) muito distorcidas. 
As perguntas de Jesus foram duas mas uma terceira poderia ser colocada: quem dizem hoje as multidões que são os discípulos e amigos de Jesus? Quem não conhece o evangelho, e não tem nenhuma base religiosa, acaba por saber de Jesus apenas aquilo que transmitimos. E não são as diferentes opiniões à cerca de Jesus que originam as maiores confusões: são as atitudes que podem ser tão diferentes e, às vezes, pouco evangélicas. Pois o confronto com o evangelho será sempre o maior critério de autenticidade, e se até entre os discípulos, logo na igreja nascente, surgiram opiniões diversas à cerca de Jesus e da missão, o que ninguém punha em dúvida era o essencial do mandamento do amor, a centralidade dos pobres e a adoração a Deus em espírito e verdade.
Após a resposta de Pedro Jesus faz o primeiro anúncio da sua paixão. Os evangelhos sinópticos referem-no e Lucas concretiza ainda mais este seguimento de Jesus: “tome a sua cruz todos os dias e siga-me”. É verdade que não é aliciante esta linguagem da cruz, quantas vezes revestida de um dolorismo e de uma apologia do sofrimento, que têm tão pouco a ver com a libertação que Jesus traz. A cruz relaciona-se diretamente com a autenticidade, com a vida dada por amor e dada até ao fim. Significa abraçar a totalidade do nosso ser, a fragilidade de criaturas e a grandeza de ser amados. Jesus não convida ao sofrimento mas a ultrapassá-lo pelo amor e a vencer as suas causas no empenho pela justiça, na coragem da verdade e da paz    
 Vivemos dias difíceis em Portugal e no mundo: guerra na Síria, manifestações na Turquia e no Brasil, greves e conflitos na educação no nosso país. Explicações? Muitas, e talvez em todas a mesma pergunta feita pelas populações aos governantes e que os governantes deviam fazer aos seus concidadãos: “Quem dizeis vós que nós somos?” Por aqui, ainda que muito de errado precise ser corrigido em direitos e benefícios extravagantes, também no campo da educação, desgosta-me o desprezo generalizado a quem abraçou o serviço de ensinar e é avaliado como mero parafuso de uma engrenagem. Afinal, talvez Jesus nos pergunte: “quem dizemos nós o que somos uns para os outros?”
padre Vitor Gonçalves


Nenhum comentário:

Postar um comentário