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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 23 de junho de 2016

13º DOMINGO TEMPO COMUM-C

13º DOMINGO TEMPO COMUM



26 de Junho de 2016

1ª Leitura - 1Rs 19,16b.19-21

Salmo - Sl 15

2ª Leitura - Gl 5,1.13-18

Evangelho - Lc 9,51-62



Samaritanos e judeus viviam em constantes atritos. Por isso Jesus não foi bem recebido naquele lugar. Os discípulos propuseram uma resposta de crueldade, porém foram repreendidos por Jesus, que nunca usou de violência para reprimir nenhuma injustiça.      Leia mais
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“O FILHO DO HOMEM NÃO TEM ONDE REPOUSAR A CABEÇA.” - Olivia Coutinho.

13º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 26 de Junho de 2016

Evangelho de Lc9,51-62

O Evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, é composto de duas partes. Na primeira parte, somos convidados a meditar sobre o início da caminhada de Jesus, rumo a Jerusalém! A caminho da morte, Jesus  ia  ensinando os discípulos o caminho da vida!
Como qualquer um de nós, os discípulos queriam facilidades, eles pensavam, que com Jesus, os seus caminhos estariam abertos, mas Jesus lhes diz o contrário: o caminho precisava ser feito!
Os discípulos viam em Jesus um Rei, um Rei que iria enfrentar os seus  inimigos com severidade, como faziam os  reis daquela época.  Na mente deles, os inimigos seriam  vencidos pela força física, mas Jesus lhes mostra o contrário ao repreendê-los, quando  eles, (Tiago e João) quiseram responder com violência a um desagravo por parte dos samaritanos.  Foi surpreendente para os discípulos, a forma de Jesus lidar com as ofensas, diferente deles, que eram  acostumados com o revide. A partir então, eles  começaram a entender as exigências do seguimento a Jesus, um entendimento que foi acontecendo através de um processo lento.
Com este episódio, Jesus deixou claro para os discípulos e hoje para nós, que na dinâmica do Reino não cabe vingança!
A segunda parte do evangelho,  nos apresenta três situações que nos mostram claramente, que não basta querer seguir Jesus, é preciso se enquadrar nas exigências deste seguimento! Na primeira situação, alguém manifesta seu desejo em seguir Jesus, mas não se dá conta da dimensão deste seguimento: “Eu te seguirei para  onde quer que fores.”  Na segunda situação, alguém é convidado a segui-lo, e  este, pede tempo: “Deixe-me primeiro ir enterrar meu pai.”  E na terceira situação, tudo se repete: alguém adia o seguimento a Jesus, com mais uma desculpa: “Eu te seguirei Senhor, mas deixa-me  primeiro despedir dos meu familiares.” Jesus, aproveita estas três situações, que retrata a postura de muitos mediante ao seu chamado,  para  nos deixar uma mensagem muito clara: o seguimento a  Ele, é exigente, implica em mudança radical de vida,  exige de nós muito mais do que boa vontade, do que entusiasmo, exige compromisso, fidelidade, desprendimento, disposição em  deixar muitas coisas para trás!
Estas três situações, chama a atenção de muitos de nós, que manifestamos o desejo de seguir Jesus, mas ficamos sempre adiando este seguimento,  nos escondendo atrás das mais variadas desculpas: vou aceitar o chamado de  Jesus, depois de terminar  meus estudos, depois que meus filhos crescerem, quando eu  me aposentar... E assim, vamos perdendo a oportunidade de viver  uma intimidade profunda com Jesus no serviço prestado ao Reino,  esquecendo,  de que o nosso tempo de vida terrena é curto e que às vezes, nem haja mais tempo para um novo chamado Dele!
Nossa opção por Jesus,  não pode subordinar-se a nenhuma outra, por isso, quem deseja de fato segui-Lo, deve apresentar-se a Ele completamente livre de qualquer apego.
O primeiro passo de quem quer seguir Jesus de fato, consiste em renunciar a si mesmo, em colocar o seguimento a Ele como prioridade absoluta em sua vida.
Jesus é o nosso modelo de vida, Ele é o caminho a verdade e a vida, a nossa opção por Ele tem que ser radical, do contrário, ficamos na superficialidade da fé, não adentramos na dinâmica do Reino!
Em momento algum, Jesus  iludiu os seus seguidores com facilidades, Ele sempre deixou claro que a caminhada do discípulo é desafiadora! Desafiadora, mas gratificante, pois quem o segue, terá como recompensa a vida eterna, vida eterna, que já podemos começar a usufruir no aqui e no agora, pois quem vive em Jesus e Jesus vive nele, já experimenta aqui na terra o gosto da vida em plenitude! 

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Vocação: liberdade e fidelidade
A Bíblia relata muitos episódios de vocações: de Abraão, Moisés, Samuel, dos profetas e de muitos outros. Por meio dessas pessoas, Deus comunica seu plano de amor, estabelece aliança com seu povo e ensina o caminho da fidelidade. A vocação profética, de maneira especial, nasce de uma profunda experiência de Deus no meio da realidade de sofrimento em que o povo está imerso. Elias, considerado o pai dos movimentos proféticos, vive junto às vítimas do regime monárquico de Israel, solidarizando-se com elas. Anuncia a vontade de Deus, denuncia as falcatruas dos grandes e realiza sinais de libertação em meio aos pequeninos e pobres. O profeta é portador do projeto de Deus, o qual precisa ser continuado na história. A pessoa cumpre sua missão e passa, mas o projeto de Deus não pode passar. Eis, então, que surge a vocação do profeta Eliseu (I leitura). Jesus chama os discípulos para ficar com ele, ensina-lhes e revela-lhes a vontade do Pai, realiza diante deles sinais de libertação no meio do povo necessitado e envia-os para anunciar o Evangelho e libertar as pessoas de toda espécie de mal. Em que pese a missão recebida de Jesus, os discípulos manifestam dificuldades para entendê-lo e aderir plenamente ao seu seguimento. O apego a seguranças pessoais impede a liberdade necessária para seguir verdadeiramente a Jesus (Evangelho). Dentro de nós carregamos a tendência para os instintos egoístas. Podemos vencê-los se nos deixamos guiar pelo Espírito Santo. Ele nos torna livres em Cristo para uma vida nova na graça de Deus (II leitura). A vocação, portanto, é convite de Deus para a plena realização humana, somente possível se nos desvencilharmos de tudo o que impede a ação amorosa de Deus em cada um de nós e na humanidade inteira.
1 leitura (1Rs 19,16b.19-21): A profecia precisa continuar
O profeta Elias dedicou sua vida à causa da justiça divina, em favor das pessoas desprotegidas. Seu nome significa “Javé é meu Deus”. É portador do projeto do Deus que libertou o povo da escravidão do Egito e lhe deu uma terra “onde corre leite e mel”. Nessa terra, o povo, organizado em tribos, procurou viver a proposta de um poder descentralizado e de uma economia baseada na partilha, segundo a necessidade das famílias. Tudo mudou com o regime monárquico. Elias, cuja atuação profética se dá ao redor do ano 860 a.C., especialmente durante o governo de Acab, levanta a bandeira da proposta javista como caminho de restauração do direito e da justiça. Tendo a Javé como o seu Deus, Israel poderia libertar-se da corrupção e mudar a sua história.
Elias, inspirado por Deus, preocupa-se com a continuação de sua missão profética. A pessoa tem seu tempo histórico. O projeto de Deus, porém, não pode parar. O movimento profético vai continuar agora com Eliseu. A narrativa da sua vocação é reveladora. Transmite a intenção subjacente ao texto.
Eliseu é trabalhador da roça. Com 12 juntas de bois, cultiva a terra juntamente com outros trabalhadores. Ele conduz a última junta. A ligação simbólica com as 12 tribos é provável neste relato. Assim como Elias, também Eliseu é portador do ideal de uma sociedade governada segundo o projeto de Deus. Ao colocar sobre Eliseu o seu manto, Elias lhe transmite a autoridade profética. Imediatamente Eliseu deixa sua profissão e se despede de sua família. Sacrifica a junta de bois e partilha a carne com seus companheiros, aproveitando a madeira do arado para cozinhá-la. Depois, levanta-se e segue Elias. Está em plena liberdade para exercer a missão profética.
2. Evangelho (Lc 9,51-62): Ser livre para seguir a Jesus
O texto situa o exato momento em que Jesus toma a firme resolução de ir a Jerusalém. Inicia-se o “êxodo” de Jesus, cujo principal objetivo é educar seus discípulos, abrindo-lhes os olhos a respeito das condições e consequências do seu seguimento. No texto do domingo passado (9,18-24), os discípulos, por meio de Pedro, haviam declarado a Jesus que ele era o “Messias de Deus”. Não sabiam, porém, o verdadeiro significado dessas palavras. A concepção triunfalista de messianismo predominava em sua mente. Isso já ficou evidente pelo tipo de discussão que tiveram logo depois da confissão de Pedro: quem deles seria o maior? (cf. 9,46-48). Fica evidente também pela atitude de Tiago e João diante da hostilidade dos samaritanos. Estes são inimigos ferrenhos dos judeus. Certamente os dois mensageiros que Jesus havia enviado à sua frente deviam ter preparado os ânimos dos samaritanos. Mas parece que fracassaram. O que disseram e como fizeram? O fato é que sua missão não foi eficaz… Jesus repreende a Tiago e João e dirige-se para outro lugar (cf. Lc 9,51-56).
No caminho são descritas três espécies de vocações. Nelas os discípulos devem reconhecer-se. Em cada uma delas, Jesus define quais devem ser as verdadeiras atitudes dos seus seguidores e seguidoras. O texto é elaborado de tal modo, que situa no centro um chamado feito diretamente por Jesus. A primeira e a terceira personagens desejam seguir a Jesus por iniciativa própria. As três são personagens sem nome e, portanto, representativas de todas as pessoas discípulas de Jesus. Lucas quer enfatizar as exigentes condições para o seguimento.
A primeira demonstra disposição incomum: “Eu te seguirei para onde quer que tu fores”. A expressão faz lembrar as palavras de Pedro um pouco antes de negar Jesus: “Senhor estou pronto a ir contigo à prisão e à morte” (22,33). A resposta de Jesus à primeira personagem alerta para a necessidade de ruptura com as seguranças e confortos que impedem a prontidão permanente. As “tocas” e os “ninhos” estão ligados à acomodação do poder em suas instituições. Neste sentido, não é por acaso que Jesus vai chamar Herodes de “raposa” (13,32)…
A terceira personagem também se oferece espontaneamente para seguir a Jesus, com a condição de despedir-se primeiro do pessoal de sua casa. A expressão grega denota o sentido de desvencilhar-se de uma incumbência. A personagem demonstra indecisão, própria de quem tem dificuldades de desapegar-se dos seus negócios e de quem ainda está amarrado a laços afetivos prejudiciais à liberdade e à autonomia necessárias para responder ao chamado divino.
A personagem central é convidada por Jesus. Está, porém, ligada às tradições paternas. Jesus pede-lhe que deixe o passado para entrar na nova dinâmica do reino de Deus. Lembra a dificuldade manifestada pelos discípulos de desatrelar-se da ideologia judaica.
Os três tipos de vocações sintetizam as atitudes que devem caracterizar o verdadeiro discipulado. A liberdade deve ser radical para que a opção pelo Reino seja feita com inteireza.
2 leitura (Gl 5,1.13-18): Chamados à liberdade
Um dos problemas sérios que Paulo enfrenta em sua missão é a influência dos pregadores judaizantes, que insistiam na necessidade de os cristãos cumprirem certas normas judaicas, querendo obrigá-los a circuncidar-se. Diante dessas pregações persistentes, alguns membros das comunidades ficaram um tanto abalados e cheios de dúvidas. Geravam-se discussões e intrigas entre grupos com diferentes interpretações. Para Paulo, está totalmente superada a fase da Lei como condição para a salvação. O tempo da minoridade passou. Jesus Cristo nos libertou de todo tipo de escravidão, também a da Lei. Assim, todas as pessoas, independentemente da raça, recebem o privilégio de pertencer ao povo santo de Deus.
Há pessoas na comunidade, porém, que interpretam a liberdade como caminho de satisfação de interesses pessoais. Mas não! A liberdade em Jesus Cristo não é pretexto para satisfazer os instintos egoístas. Pelo contrário, é a qualidade que fundamenta o amor mútuo. A pessoa livre em Cristo põe-se inteiramente a serviço dos outros.
Paulo, então, contrapõe os instintos egoístas (ou os “desejos da carne”) às obras que provêm do Espírito Santo. São duas maneiras de viver. Os frutos são diferentes. A vida no Espírito é o jeito característico de quem foi libertado pela morte e ressurreição de Jesus. Assim como Jesus, conduzido pelo Espírito Santo, viveu a vontade do Pai, entregando-se por inteiro para a vida do mundo, também os cristãos recebem a graça de uma vida nova que se manifesta no amor-serviço.
Pistas para reflexão
Todos nós somos chamados por Deus à vida e à santidade. A cada um Deus se revela de maneira original e convoca a viver segundo a sua vontade. Ele conta conosco para irradiar o seu plano de amor em atos e palavras. O profeta Elias é exemplo de disponibilidade e de dedicação ao projeto de Deus. Preocupa-se com a continuidade da missão profética e por isso, sob a inspiração de Deus, transmite o chamado a Eliseu. Como ele, podemos nos desapegar de todas as coisas que impedem a vivência plena da vocação que Deus nos dá.
Também o Evangelho de hoje nos alerta para a importância de cultivar as condições para seguir Jesus: não proteger-se em “tocas” nem acomodar-se nos “ninhos” dos interesses pessoais e das instituições de poder; libertar-se das amarras econômicas e afetivas para viver a necessária e saudável autonomia no compromisso vocacional; romper com as tradições passadas para abrir-se à novidade de Deus na história presente, novidade que se manifesta por meio de sinais que nos desafiam ao compromisso em torno de um mundo de fraternidade e paz.
Jesus deseja que sejamos pessoas prontas a superar o individualismo, a acomodação, a administração egoísta dos bens, a tendência a fazer somente o que nos agrada pessoalmente… São Paulo chama essas atitudes de “desejos da carne” ou de “instintos egoístas”. Sem perceber, podemos nos tornar escravos de coisas, de convenções, de aspirações que caracterizam o mundo pós-moderno… Corremos atrás do que a moda exige, mudamos constantemente de pensamento e de rumo, sob pretexto de realização pessoal… Há, porém, outro jeito de viver: sob a condução e a força do Espírito Santo. Ele nos torna livres para vivermos na simplicidade, na alegria de servir, na capacidade de amar como Jesus nos ensinou…
Podem-se lembrar as diversas vocações existentes na comunidade (e no mundo), seus serviços específicos e os frutos decorrentes da doação de tantas pessoas que respondem com generosidade ao chamado de Deus…
Celso Loraschi

Começa a caminhada de Jesus de volta a Jerusalém onde será preso, julgado e condenado. Morrerá na cruz, ressuscitará e subirá ao céu, encerrando assim a sua missão na terra. Essa é uma viagem teológica, pois todos os que estão nessa viagem com Jesus são intimados a escolher: estar com Ele, a favor da vida, ou estar contra Ele, contra a vida.
Durante toda a caminhada, da Galiléia a Jerusalém, Jesus prepara seus discípulos para enfrentar as diversidades que encontrarão quando já não estiver entre eles.
Ao longo do caminho há muitas pedras, e os discípulos terão que aprender a retirá-las como Jesus, com amor e perdão. Já no início dessa caminhada, Lucas relata a primeira missão, onde Jesus envia alguns discípulos à frente para preparar a hospedagem. Ao chegarem a um povoado, na região da Samaria, a presença de Jesus não é aceita, não por se tratar da pessoa Dele, mas pelo fato de os samaritanos serem inimigos dos Judeus. Desde seu surgimento, no sec. VIII a.C., os samaritanos viviam em conflitos de raça e religião com os judeus.
Os discípulos Tiago e João ficam indignados com a recusa da hospedagem (gesto extremamente grave naquela cultura), e pedem a Jesus que os autorize a destruir o povoado como acontecia no Antigo Testamento, onde no livro de Gêneses, por exemplo, o Senhor destrói as cidades de Sodoma e Gomorra salvando apenas a família de Ló, por ser o único fiel a Ele.
Jesus, porém, os ensina a perdoar e a ter paciência; atitudes que contrastam a intolerância religiosa dos discípulos com a Sua tolerância e Ele, ao invés de repreender os que lhe negam hospitalidade, repreende justamente os discípulos.
Mais tarde após Sua morte, a região da Samaria será uma das primeiras a ser evangelizada.
No evangelho do domingo passado Jesus convida a todos para assumirem cada um a sua cruz com renuncia, e hoje, Ele reforça esse convite. Ao longo da caminhada para Jerusalém muitos são os convidados a acompanhá-lo, mas se comparar o convite de Jesus com o de Elias a Eliseu, seu sucessor, é possível perceber que Jesus é mais exigente. Enquanto Elias mesmo fazendo fortes exigências a Eliseu permite-lhe festejar e despedir-se de sua família, Jesus exige renuncia total e imediata, não permitindo nem ao menos aos que se apresentam para segui-lo que enterrem seus mortos.
Quando um homem se apresenta a Jesus disposto a segui-Lo, mas primeiro quer despedir-se da família, Ele dá a seguinte resposta: “_ Quem começa a arar a terra, e olha para trás, não serve para o Reino de Deus.” Com estas palavras Jesus exige de seus seguidores o compromisso e a perseverança na missão, sem olhar para traz. O Reino de Deus exige coerência e dedicação, não dá para seguir a Deus verdadeiramente sem abdicar de alguns prazeres que o mundo oferece. A verdadeira alegria está em seguir a Deus, levar a sua Palavra a quem não O conhece e amar o próximo incondicionalmente. Esta é a missão que Jesus confia a cada um que se apresenta para ser seu seguidor.
Pequeninos do Senhor


Não à violência
O Reino apresenta-se, na vida das pessoas, como uma proposta a ser livremente acolhida ou rejeitada. Jamais poderá haver coerção sobre o destinatário da mensagem, sob pena de invalidar a opção que ele fez.
É tentador querer levar as pessoas a acolherem o Reino, independentemente de sua liberdade. Ou seja, impô-lo à força! Sem liberdade plena, o Reino não chegará a fincar raízes consistentes no coração humano, a ponto de transformá-lo em coração de discípulo.
A tentação de compelir as pessoas a abraçar o Reino pode levar o discípulo a recorrer à violência, caso elas o rejeitem. Foi o que aconteceu com os discípulos de Jesus em relação aos samaritanos. Porque se recusaram a acolher Jesus, de passagem para Jerusalém, Tiago e João sugeriram ao Mestre que mandasse fogo do céu para consumi-los, a exemplo do que aconteceu, no passado, com as cidades impenitentes.
Jesus censurou os dois discípulos, pois tinham uma mentalidade contrária à sua. Eles pensavam que, com a destruição dos samaritanos, pudessem dar uma lição a todos os demais impenitentes. Enganavam-se! Esse castigo mortal daria a entender que o Deus anunciado por Jesus era impaciente e incapaz de respeitar o ritmo das pessoas. Na verdade, ele é um Deus paciente e misericordioso, pronto a esperar o momento de ser livremente acolhido.


Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém. Decisão forte porque a subida vai terminar no alto da cruz. Para este ato final, a decisão precisava ser firme. Já no início da viagem aparece um obstáculo. Jesus envia mensageiros para prepararem sua chegada a uma aldeia de samaritanos, que não quiseram recebê-lo, porque sabiam que ele se dirigia a Jerusalém. Os samaritanos não se davam com os judeus. Tiago e João reagem e querem destruir aquela aldeia com fogo do céu. Houve um problema e problema se resolve com poder, pensam os dois discípulos iniciantes. Não é esse, porém, o pensamento de Jesus. Não é com poder que seus discípulos irão resolver os problemas que irão encontrando pela frente.
Os discípulos de Jesus não serão homens poderosos, que eliminam os obstáculos aniquilando as oposições. Jesus então ensina que quem quiser ser verdadeiramente seu discípulo deve saber que ele, o mestre, não tem nada, nem mesmo onde repousar a cabeça. Raposas e pássaros têm tocas e ninhos. Nem isso Jesus tem para oferecer aos que o seguem. Seus seguidores devem passar por uma conversão que se expressa em rupturas radicais. Nada de meias medidas, e sim entrega total ao Cristo e à sua causa, que é o Reino de Deus. Para exemplificar o caráter de tal ruptura, Jesus afirma que não haverá despedidas, nem do pai que morreu, nem do que está vivo em casa. Certamente não se trata de um preceito, mas de um exemplo elucidador. Elias permitiu a Eliseu que se despedisse de seus pais.
O evangelho mostra as dimensões do seguimento, até onde ele pode e deve chegar. Somos, porém, limitados e imperfeitos. Em nossas mãos, um copo transparente pode se tornar embaçado. Até mesmo as convicções e a firmeza na decisão tomada podem ser distorcidas por nós. Foi para sermos livres que Cristo nos libertou, ensina São Paulo, mas nossa liberdade deve ser vivida de forma radical. Nada nos pode prender, condicionar ou constranger, nem mesmo nossos pais ou um travesseiro para repousar a cabeça. Somos absolutamente livres. No entanto, até a radicalidade da nossa vida leva a marca da imperfeição humana. Liberdade pode se converter em libertinagem. A radicalidade pode nos tornar intransigentes e fazer de nós gente que se morde e se entredevora, assim como o elogio da simplicidade e da pobreza acariciam o nosso eu. Por nós mesmos não podemos muito, mas entregamo-nos ao Espírito, que nos conduz. Por nós mesmos podemos pouco, mas tudo será possível naquele que nos fortalece.
Cônego Celso Pedro da Silva



Não há coisa mais radical e louca que ser cristão; não há maior aventura... Pena que os cristãos estejam perdendo essa percepção e o Evangelho muitas vezes apareça como algo certinho, cômodo e domesticado. Tantas vezes considerou-se que para ser um bom cristão bastaria ser bem comportado! Ora, não é isto que a Palavra do Senhor nos ensina!
Jesus durante toda a sua vida caminhou para o Pai, teve no Pai sua única meta, pelo Pai e o seu Reino, fez loucuras. Por isso, já no capítulo nove do seu evangelho, São Lucas no-lo apresenta subindo para Jerusalém, para sua partida para o Pai: “Quando chegou o tempo de Jesus ser levado para o céu, então tomou a firme decisão de partir para Jerusalém”. Ao pé da letra, são Lucas diz: ele voltou decididamente o rosto para Jerusalém... Este é o caminho de Cristo: ir subindo até a Cidade Santa, e de Jerusalém, para o Pai, atravessando o mistério da paixão, da cruz e da morte, para chegar à ressurreição. Ele vai à frente, no caminho, o seu caminho, e nos desafia a segui-lo. Quem quiser ser seu discípulo, deve segui-lo neste caminho! Basta recordar o domingo passado: deixar tudo... renunciar-se... tomar a cruz de cada dia... e segui-lo. Hoje, no caminho, ele nos previne: “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. E exige que coloquemos tudo abaixo dele, até pai e mãe... É assim que Jesus quer seus discípulos: totalmente comprometidos com ele, absolutamente! E afirma claramente: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está pronto para o Reino de Deus”.
Jesus é tão claro! Ele exige tanto de nós porque somente ele nos pode dar tudo: o sentido da vida, o amor de Deus, a paz verdadeira e perene e a vitória sobre a morte. Ele nos revela e nos dá um Deus que é todo amor, todo carinho, todo perdão, todo piedade, um Deus que é o rochedo de nossa existência. Mas, também, um Deus exigentíssimo! Não se pode ser cristão pela metade! São Paulo, na segunda leitura de hoje, exprime muito bem esta realidade: Cristo nos libertou para a liberdade de uma vida nova, vida na graça de Deus, vida impulsionada pelo Espírito do Ressuscitado. É esta a liberdade do discípulo de Jesus; uma liberdade diversa do conceito de liberdade que o mundo apregoa. O cristão é livre não porque faz o que quer; é livre porque quer somente a vontade de Deus manifestada em Cristo Jesus: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou!” E, aí, o Apóstolo nos previne: “Não façais dessa liberdade um pretexto para servirdes à carne”. “Carne” é tudo quanto pertence ao homem velho, tudo quanto manifesta o velho egoísmo de uma vida centrada em si mesmo e não em Deus, que se dá no Cristo Jesus! “Carne” é tudo aquilo que é lógica deste mundo e não lógica do Evangelho! Pode ser a lógica da ganância, da sensualidade e da imoralidade, da religião interesseira à procura de milagres, curas e benefícios materiais... tudo isso é carne: a descrença, a impiedade, a vulgaridade e o comodismo no modo de viver...
Há, portanto, dois modos de construir nossa existência. Um, segundo a carne, isto é, segundo o homem velho, com seu modo de pensar, com sua razão entregue a si mesma, com uma lógica meramente humana e, muitas vezes, pecaminosa. O outro, a vida segundo o Espírito do Ressuscitado. É a vida do cristão que, impulsionando e sustentado pelo Espírito do Senhor, abre-se para Deus, superar-se a si mesmo e seu modo meramente humano de pensar, e caminha incessantemente para o Cristo, até alcançar a estatura do homem novo, “o estado do Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4,13)
A medida e o ideal de vida do cristão não podem ser aqueles apresentados pela moda e pelo pensamento dominante do mundo atual. Nosso caminho é Cristo, nosso critério é Cristo, nossa medida é Cristo, nosso modo de viver deve ser o de Cristo Jesus! O grande desafio dos cristãos de hoje é redescobrirem que sua vida, seu modo de ser e de agir devem ser diferentes, simplesmente porque eles são discípulos do Senhor Jesus!
Mas estejamos bem atentos: isso somente é possível quando encontramos de verdade o Senhor em nossa vida, quando por ele nos encantamos, quando somos invadidos pelo seu amor. Observemos que nos evangelho de hoje – e de sempre – o cristianismo nasce de um encontro no caminho... um encontro marcante e transformador com Jesus. Só esta experiência é capaz de nos fazer entrar no caminho e aceitar as exigências do Senhor. Em outras palavras: o cristão, ou é um amigo de Cristo ou não é cristão; ou tem uma experiência de amizade com o Senhor ou jamais vai compreendê-lo de fato. É preciso insistir nisso, mais que nunca: o cristianismo não é uma doutrina, não é uma moral, não é uma ideologia, não é uma proposta política de justiça social para o mundo! Tudo isso é secundário! O que nos faz cristãos, é ter sido encontrados por Cristo no caminho, ter sido seduzidos por ele e tê-lo seguido, dizendo, meio responsáveis, meio loucos; “Senhor, eu te seguirei para onde quer que vás”. Que o Senhor nos conceda a graça da paixão por ele, a graça de segui-lo, a graça de testemunhá-lo com a carne da nossa vida de cada dia, como nossos irmãos de há dois mil anos atrás, quando ele tomou o caminho de Jerusalém, para a cruz e a ressurreição. Amém.
dom Henrique Soares da Costa



A liturgia de hoje sugere que Deus conta connosco para intervir no mundo, para transformar e salvar o mundo; e convida-nos a responder a esse chamamento com disponibilidade e com radicalidade, no dom total de nós mesmos às exigências do “Reino”.
A primeira leitura apresenta-nos um Deus que, para atuar no mundo e na história, pede a ajuda dos homens; Eliseu (discípulo de Elias) é o homem que escuta o chamamento de Deus, corta radicalmente com o passado e parte generosamente ao encontro dos projetos que Deus tem para ele.
O Evangelho apresenta o “caminho do discípulo” como um caminho de exigência, de radicalidade, de entrega total e irrevogável ao “Reino”. Sugere, também, que esse “caminho” deve ser percorrido no amor e na entrega, mas sem fanatismos nem fundamentalismos, no respeito absoluto pelas opções dos outros.
A segunda leitura diz ao “discípulo” que o caminho do amor, da entrega, do dom da vida, é um caminho de libertação. Responder ao chamamento de Cristo, identificar-se com Ele e aceitar dar-se por amor, é nascer para a vida nova da liberdade.
LEITURA I – 1 Re 19,16b.19-21
Leitura do Primeiro Livro dos Reis
Naqueles dias,
disse o Senhor a Elias:
«Ungirás Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meola,
como profeta em teu lugar».
Elias pôs-se a caminho
e encontrou Eliseu, filho de Safat,
que andava a lavrar com doze juntas de bois
e guiava a décima segunda.
Elias passou junto dele e lançou sobre ele a sua capa.
Então Eliseu abandonou os bois,
correu atrás de Elias e disse-lhe:
«Deixa-me ir abraçar meu pai e minha mãe;
depois irei contigo».
Elias respondeu:
«Vai e volta,
porque eu já fiz o que devia».
Eliseu afastou-se,
tomou uma junta de bois e matou-a;
com a madeira do arado assou a carne,
que deu a comer à sua gente.
Depois levantou-se e seguiu Elias,
ficando ao seu serviço.

AMBIENTE
Esta passagem do Primeiro Livro dos Reis leva-nos até ao séc. IX a.C. Estamos na época dos dois reinos divididos.
Os profetas Elias e Eliseu, aqui referenciados, exerceram o seu ministério profético no reino do norte (Israel), no tempo dos reis Acab e Ocozias (Elias), Jorão e Jehú (Eliseu). É uma época de grande desnorte, em termos religiosos: a fé jahwista é posta em causa pela preponderância que os deuses estrangeiros assumem na cultura religiosa de Israel.
Uma grande parte do ministério de Elias desenrola-se durante o reinado de Acab (874-853 a.C.). O rei – influenciado por Jezabel, a sua esposa fenícia – erige altares a Baal e Astarte e prostra-se diante das estátuas desses deuses. Estamos diante de uma tentativa de abrir Israel ao intercâmbio com outras culturas; mas essas razões políticas não são entendidas nem aceites pelos círculos religiosos de Israel. Nessa época, Elias torna-se o grande campeão da fé jahwista (cf. 1 Re 18 – o episódio do “duelo” religioso entre Elias e os profetas de Baal, no monte Carmelo), defendendo a Lei em todas as suas vertentes (inclusive na vertente social – cf. 1 Re 21 – o célebre episódio da vinha de Nabot), contra uma classe dirigente que subvertia a seu bel-prazer as leis e os mandamentos de Jahwéh.
A luta de Elias no sentido de preservar os valores fundamentais da fé jahwista será continuada nos reinados seguintes por um dos seus discípulos – Eliseu. A leitura que nos é proposta apresenta-nos, precisamente, o chamamento de Eliseu.

MENSAGEM
O texto propõe-nos uma reflexão sobre o chamamento de Deus e a resposta do homem.
O quadro inicial da nossa leitura situa-nos no Horeb, a montanha da revelação de Deus ao seu Povo (cf. 1 Re 19,8). Porquê no Horeb? Porque aí, no lugar onde começou a Aliança, Deus vai definir os instrumentos do restabelecimento da Aliança: Elias é convidado a ungir Eliseu como profeta; ele será (juntamente com Jehú, futuro rei de Israel e de Hazael, futuro rei de Damasco) o instrumento de Deus na aniquilação de Acab, o rei infiel a Jahwéh e à Aliança. Trata-se da única vez que o Antigo Testamento refere a “unção” de um profeta.
Após a apresentação inicial, o autor deuteronomista desenha o quadro do chamamento de Eliseu. Ele está no campo, com os bois, a lavrar a terra quando Elias o encontra e o convida a ser profeta: o profeta não é alguém que, repentinamente, cai do céu e invade de forma anormal o mundo dos homens; também não é alguém que se torna profeta porque não serve para outra coisa; mas é sempre um homem normal, com uma vida normal, a quem Deus chama, indo ao seu encontro e falando-lhe na normalidade do trabalho diário, para lhe apresentar o seu desafio.
Elias lança sobre Eliseu o seu “manto”. Este gesto tem de ser entendido à luz da crença de que as roupas ou os objetos pertencentes a uma pessoa representavam essa pessoa e continham qualquer coisa do seu poder: dessa forma, Elias comunica a Eliseu o seu poder e o seu espírito proféticos (cf. 2 Re 2,13-14; 4,29-31; Lc 8,44; Act 19,12).
Temos, depois, a resposta de Eliseu ao desafio que Deus lhe lança através do gesto de Elias: imolou uma junta de bois, queimou o arado, assou a carne dos bois e deu-a a comer à sua família; depois, seguiu Elias e ficou ao seu serviço.
O gesto de Eliseu significa, provavelmente, o abandono da vida antiga, a renúncia à antiga profissão, a ruptura com a própria família e a entrega total à missão profética. Exprime a radicalidade da sua entrega ao serviço de Deus.

ATUALIZAÇÃO
Ter em conta, para a reflexão, os seguintes dados:
A história da salvação não é a história de um Deus que intervém no mundo e na vida dos homens de forma espalhafatosa, prepotente, dominadora; mas é uma história de um Deus que, discretamente, sem se impor nem dar espetáculo, age no mundo e concretiza os seus planos de salvação através dos homens que Ele chama. É como se Ele nos dissesse como fazer as coisas, mas respeitasse o nosso caminho e Se escondesse por detrás de nós. É necessário ter em conta que somos os instrumentos de Deus para construir a história, até que o nosso mundo chegue a ser esse “mundo bom” que Deus sonhou. Aceitamos este desafio?
O relato da “vocação” de Eliseu não é o relato de uma situação excepcional, que só acontece a alguns privilegiados, eleitos entre todos por Deus para uma missão no mundo; mas é a história de cada um de nós e dos apelos que Deus nos faz, no sentido de nos disponibilizarmos para a missão que Ele nos quer confiar, quer no mundo, quer na nossa comunidade cristã. Estou atento aos apelos de Deus? Tenho disponibilidade, generosidade e entusiasmo para me empenhar nas tarefas a que Ele me chama?
O chamamento de Deus chega a Eliseu através da acção de Elias… É preciso ter em conta que, muitas vezes, o desafio de Deus nos chega através da palavra ou da interpelação de um irmão; e que, muitas vezes, é preciso contar com o apoio de alguém para discernir o caminho e ser capaz de enfrentar os desafios da vocação.
Finalmente, somos chamados a contemplar a disponibilidade de Eliseu e a forma radical como ele acolheu o desafio de Deus. A referência à morte dos bois, ao desmantelamento do arado (cuja madeira serviu para assar a carne dos animais) e ao banquete de despedida oferecido à família significa que o profeta resolveu “cortar todas as amarras”, pois queria dar-se, radicalmente, ao projecto de Deus. É esse corte radical com o passado e essa entrega definitiva à missão que nos questiona e interpela.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16)
Refrão: O Senhor é a minha herança.
Defendei-me, Senhor: Vós sois o meu refúgio.
Diga ao Senhor: «Vós sois o meu Deus».
Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
está nas vossas mãos o meu destino.
Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,
até de noite me inspira interiormente.
O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.
Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel sofrer a corrupção.
Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
alegria plena na vossa presença,
delícias eternas à vossa direita.

LEITURA II – Gal 5,1.13-18
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas
Irmãos:
Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou.
Portanto, permanecei firmes
e não torneis a sujeitar-vos ao jugo da escravidão.
Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade.
Contudo, não abuseis da liberdade
como pretexto para viverdes segundo a carne;
mas, pela caridade,
colocai-vos ao serviço uns dos outros,
porque toda a Lei se resume nesta palavra:
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo».
Se vós, porém, vos mordeis e devorais mutuamente,
tende cuidado, que acabareis por destruir-vos uns aos outros.
Por isso vos digo:
Deixai-vos conduzir pelo Espírito
e não satisfareis os desejos da carne.
Na verdade, a carne tem desejos contrários aos do Espírito,
e o Espírito desejos contrários aos da carne.
São dois princípios antagônicos
e por isso não fazeis o que quereis.
Mas se vos deixais guiar pelo Espírito,
não estais sujeitos à Lei de Moisés.

AMBIENTE
Continuamos a ler a Carta aos Gálatas. Já sabemos qual é o problema fundamental aí abordado: os Gálatas estão a ser perturbados por esses “judaízantes” para quem os rituais da Lei de Moisés também são necessários para chegar à vida em plenitude (“salvação”); e Paulo – para quem “Cristo basta” e para quem as obras da Lei já não dizem nada – procura fazer com que os Gálatas não se sujeitem mais à escravidão, nomeadamente à escravidão dos ritos e das leis.
O texto que nos é proposto aparece na parte final da Carta. É o início de uma reflexão sobre a verdadeira liberdade, que é fruto do Espírito (cf. Gal 5,1-6,10).

MENSAGEM
As palavras de Paulo são um convite veemente à liberdade. Logo no início deste texto (vers. 1), ele avisa os Gálatas que foi para a liberdade que Cristo os libertou (a repetição – libertar para a liberdade – é, sem dúvida, um hebraísmo destinado a dar ao verbo “libertar” um sentido mais intenso) e que não convém voltar a cair no jugo da escravidão (mais à frente – vers. 2-4 – ele identifica essa escravidão com a Lei e com a circuncisão).
Os vers. 13-18 explicam em que consiste a liberdade para o cristão. Trata-se da faculdade de escolher entre duas coisas distintas e opostas? Não. Trata-se de uma espécie de independência ético-moral, em virtude da qual cada um pode fazer o que lhe apetece, sem barreiras de qualquer espécie? Também não.
Para Paulo, a verdadeira liberdade consiste em viver no amor (vers. 13-14). O que nos escraviza, nos limita e nos impede de alcançar a vida em plenitude (“salvação”) é o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência; mas superar esse fechamento em nós próprios e fazer da nossa vida um dom de amor torna-nos verdadeiramente livres. Só é autenticamente livre aquele que se libertou de si próprio e vive para se dar aos outros.
Como é que esta “liberdade” (a capacidade de amar, de dar a vida) nasce em nós? Ela nasce da vida que Cristo nos dá: pela adesão a Cristo, gera-se em cada pessoa um dinamismo interior que a identifica com Cristo e lhe dá uma capacidade infinita de amar, de superar o egoísmo, o orgulho e os limites – ou seja, com uma capacidade infinita de viver em liberdade. É o Espírito que alimenta, dia a dia, essa vida de liberdade (ou de amor) que se gerou em nós, a partir da nossa adesão a Cristo (vers. 16).
Viver na escravidão é continuar a viver uma vida centrada em si próprio (Paulo enumera, mais à frente, as obras de quem é escravo – cf. Gal 5,19-21); viver na liberdade (“segundo o Espírito”) é sair de si e fazer da sua vida um dom, uma partilha (Paulo enumera, mais à frente, as obras daquele que é livre e vive no Espírito – cf. Gal 5,22-23).

ATUALIZAÇÃO
Considerar, na reflexão, os seguintes elementos:
Os homens do nosso tempo têm em grande apreço esse valor chamado “liberdade”; no entanto têm, frequentemente, uma perspectiva demasiado egoísta deste valor fundamental. Quando a “liberdade” se define a partir do “eu”, identifica-se com “libertinagem”: é a capacidade de “eu” fazer o que quero; é a capacidade de “eu” poder escolher; é a capacidade de “eu” poder tomar as minhas decisões sem que ninguém me impeça… Esta liberdade não gera, tantas vezes, egoísmo, isolamento, orgulho, auto-suficiência e, portanto, escravidão?
Para Paulo, só se é verdadeiramente livre quando se ama. Aí, eu não me agarro a nada do que é meu, deixo de viver obcecado comigo e com os meus interesses e estou sempre disponível – totalmente disponível – para me partilhar com os meus irmãos. É esta experiência de liberdade que fazem hoje tantas pessoas que não guardam a própria vida para si próprias, mas fazem dela uma oferta de amor aos irmãos mais necessitados. Como dar este testemunho e passar esta mensagem aos homens do nosso tempo, sempre obcecados com a verdadeira liberdade? Como explicar que só o amor nos faz totalmente livres?
Falar de uma comunidade (cristã ou religiosa) formada por pessoas livres em Cristo implica falar de uma comunidade voltada para o amor, para a partilha, para as necessidades e carências dos irmãos que estão à sua volta. É isso que realmente acontece com as nossas comunidades? Damos este testemunho de liberdade no dom da vida aos irmãos que nos rodeiam? As nossas comunidades são comunidades de pessoas livres que vivem no amor e na doação, ou comunidades de escravos, presos aos seus interesses pessoais e egoístas, que se magoam e ofendem por coisas sem importância, dominados por interesses mesquinhos e capazes de gestos sem sentido de orgulho e prepotência?

ALELUIA – 1 Sam. 3,9; Jo. 6,68c
Aleluia. Aleluia.
Falai, Senhor, que o vosso servo escuta.
Vós tendes palavras de vida eterna.

EVANGELHO – Lc. 9,51-62
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo,
Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém
e mandou mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho
e entraram numa povoação de samaritanos,
a fim de Lhe prepararem hospedagem.
Mas aquela gente não O quis receber,
porque ia a caminho de Jerusalém.
Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus:
«Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?»
Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação.
Pelo caminho, alguém disse a Jesus:
«Seguir-Te-ei para onde quer que fores».
Jesus respondeu-lhe:
«As raposas têm as suas tocas
e as aves do céu os seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça».
Depois disse a outro: «Segue-Me».
Ele respondeu:
«Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai».
Disse-lhe Jesus:
«Deixa que os mortos sepultem os seus mortos;
tu, vai anunciar o reino de Deus».
Disse-Lhe ainda outro:
«Seguir-Te-ei, Senhor;
mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família».
Jesus respondeu-lhe:
«Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás
não serve para o reino de Deus».

AMBIENTE
Aqui começa, precisamente, a segunda parte do Evangelho segundo Lucas. Até agora, Lucas situou Jesus na Galileia (1ª parte); mas, a partir de 9,51, Lucas põe Jesus a caminhar decididamente para Jerusalém. A “caminhada” que Jesus aqui inicia com os discípulos é mais teológica do que geográfica: não se trata tanto de fazer um diário da viagem ou de fazer a lista dos lugares por onde Jesus vai passar até chegar a Jerusalém; trata-se, sobretudo, de apresentar um itinerário espiritual, ao longo do qual Jesus vai mostrando aos discípulos os valores do “Reino” e os vai presenteando com a plenitude da revelação de Deus. Todo este percurso que aqui se inicia converge para a cruz: ela vai trazer a revelação suprema que Jesus quer apresentar aos discípulos e nela vai irromper a salvação definitiva. Os discípulos são exortados a seguir este “caminho”, para se identificarem plenamente com Jesus… Lucas propõe aqui à sua comunidade o itinerário que os autênticos crentes devem percorrer.

MENSAGEM
Lucas começa por apresentar as “exigências” do “caminho”. O nosso texto apresenta, nitidamente, duas partes, dois desenvolvimentos.
Na primeira parte (vers. 51-56), o cenário de fundo situa-nos no contexto da hostilidade entre judeus e samaritanos. Trata-se de um dado histórico: a dificuldade de convivência entre os dois grupos era tradicional; os peregrinos que iam a Jerusalém para as grandes festas de Israel procuravam evitar a passagem pela Samaria, utilizando preferencialmente o “caminho do mar” (junto da orla costeira), ou o caminho que percorria o vale do rio Jordão, a fim de evitar “maus encontros”.
A primeira lição de Jesus ao longo desta “caminhada” vai para a atitude que os discípulos devem assumir face ao “ódio” do mundo. Que fazer quando o mundo tem uma atitude de rejeição face à proposta de Jesus? Tiago e João pretendem uma resposta agressiva, “musculada”, que retribua na mesma moeda, face à hostilidade manifestada pelos samaritanos (a referência ao “fogo do céu” leva-nos ao castigo que Elias infligiu aos seus adversários – cf. 2 Re 1,10-12); mas Jesus avisa-os que o seu “caminho” não passa nem passará nunca pela imposição da força, pela resposta violenta, pela prepotência (no seu horizonte próximo continua a estar apenas a cruz e a entrega da vida por amor: é no dom da vida e não na prepotência e na morte que se realizará a sua missão). Isto é algo que os discípulos nunca devem esquecer, se estão interessados em percorrer o “caminho” de Jesus.
Na segunda parte (vers. 57-62), Lucas apresenta – através do diálogo entre Jesus e três candidatos a discípulos – algumas das condições para percorrer, com Jesus, esse “caminho” que leva a Jerusalém, isto é, que leva ao acontecer pleno da salvação. Que condições são essas?
O primeiro diálogo sugere que o discípulo deve despojar-se totalmente das preocupações materiais: para o discípulo, o Reino tem de ser infinitamente mais importante do que as comodidades e o bem-estar material.
O segundo diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se desses deveres e obrigações que, apesar da sua relativa importância (o dever de sepultar os pais é um dever fundamental no judaísmo), impedem uma resposta imediata e radical ao Reino.
O terceiro diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se de tudo (até da própria família, se for necessário), para fazer do Reino a sua prioridade fundamental: nada – nem a própria família – deve adiar e demorar o compromisso com o Reino.
Não podemos ver estas exigências como normativas: noutras circunstâncias, Ele mandou cuidar dos pais (cf. Mt 15,3-9); e os discípulos – nomeadamente Pedro – fizeram-se acompanhar das esposas durante as viagens missionárias (cf. 1 Cor 9,5)… O que estes ensinamentos pretendem dizer é que o discípulo é convidado a eliminar da sua vida tudo aquilo que possa ser um obstáculo no seu testemunho quotidiano do Reino.

ATUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar os seguintes elementos:
A nós, discípulos de Jesus, é proposto que O sigamos no “caminho” de Jerusalém, nesse “caminho” que conduz à salvação e à vida plena. Trata-se de um “caminho” que implica a renúncia a nós mesmos, aos nossos interesses, ao nosso orgulho, e um compromisso com a cruz, com a entrega da vida, com o dom de nós próprios, com o amor até às últimas consequências. Aceitamos ser discípulos, isto é, embarcar com Jesus no “caminho de Jerusalém”?
Jesus recusa, liminarmente, responder à oposição e à hostilidade do mundo com qualquer atitude de violência, de agressividade, de vingança. No entanto, a Igreja de Jesus, na sua caminhada histórica, tem trilhado caminhos de violência, de fanatismo, de intolerância (as cruzadas, as conversões à força, os julgamentos da “santa” Inquisição, as exigências que criam em tantas consciências escravidão e sofrimento…). Diante disto, resta-nos reconhecer que, infelizmente, nem sempre vivemos na fidelidade aos caminhos de Jesus e pedir desculpa aos nossos irmãos pela nossa falta de amor. É preciso, também, continuar a anunciar o Evangelho com fidelidade, com firmeza e com coragem, mas no respeito absoluto por aqueles que querem seguir outros caminhos e fazer outras opções.
O “caminho do discípulo” é um caminho exigente, que implica um dom total ao “Reino”. Quem quiser seguir Jesus, não pode deter-se a pensar nas vantagens ou desvantagens materiais que isso lhe traz, nem nos interesses que deixou para trás, nem nas pessoas a quem tem de dizer adeus… O que é que, na nossa vida quotidiana, ainda nos impede de concretizar um compromisso total com o “Reino” e com esse caminho do dom da vida e do amor total?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho



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