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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 7 de julho de 2016

15º DOMINGO - TEMPO COMUM-C

15º DOMINGO - TEMPO COMUM

1ª Leitura - Dt 30,10-14

Segunda Leitura - Cl 1,15-20

Evangelho - Lc 10,25-37



Aquele mestre da Lei fez a mesma pergunta daquele jovem a Jesus. Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?
Depois da explicação de Jesus, o seu interlocutor perguntou: E quem é o meu próximo?  Continua
“AMARÁS O SENHOR TEU DEUS DE TODO O TEU CORAÇÃO...”- Olivia Coutinho.
15º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 10 de Julho de 2016

Evangelho de Lc10,25-37

Vivemos num mundo onde tudo gira em torno das coisas materiais, com isso, muitos de nós, vamos perdendo o senso  do amor, do valor da fé, da solidariedade...
Voltados para os nossos interesses, pessoais, não enxergamos as necessidades dos nossos irmãos, dos que estão esquecidos às margens do caminho, ignorados por uma sociedade materialista que ignora o “ser”  que tem como parâmetro o “ter”, uma sociedade fixada na ideia da competitividade,  que tenta nos desvirtuar dos bens eternos. 
Em meio a tantos adversários do projeto de Deus, Jesus vem nos trazer uma proposta de vida nova, que ao contrário do mundo, tem como parâmetro o “ser”!
No evangelho que a liturgia deste domingo nos convida a refletir, um mestre da lei, interroga Jesus, não, para obter algum aprendizado, mas  na intensão  de colocar Jesus em dificuldade: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” Jesus lhe responde com outra  pergunta: “O que está escrito na lei?” Ele responde corretamente e Jesus completa: “Faze isso e viverás.”  Não satisfeito, o mestre da lei, pergunta: “E quem é o meu próximo?”  Jesus, sabia qual era a intenção dele, mas mesmo assim,  responde mais esta pergunta de fundo maldoso, desta vez, com uma  parábola, a parábola do Bom Samaritano.
 Com esta parábola, Jesus não só desmascara o mestre da lei, que se mostrava conhecedor da palavra de Deus mas não a colocava em prática, como  também nos  adverte, quanto ao perigo de ficarmos somente no conhecimento da palavra  e não ive-la no nosso dia a dia!
O mestre da lei, tinha o conhecimento das  leis, mas não vivia a lei principal, que é a lei do amor!  Já, o samaritano, que não tinha o conhecimento das leis, deu um grande testemunho de amor ao próximo, socorrendo alguém que era considerado  inimigo.
Ao contrário do sacerdote e do levita, que ficaram somente no sentimento de pena diante de alguém necessitado de ajuda,  o amor do Samaritano pelo o próximo, foi concreto, falou mais alto do que as divergências que havia entre eles!
Quem ama desta forma, ama com o coração de Deus, abraçando neste amor, até mesmo o inimigo! É este, o amor que Deus quer que todos nós, cultivemos no coração, um amor que supere toda e qualquer diferença, que não fique somente no sentimento de pena,  na intenção,  e sim, um amor transformado em ações!
Não somos verdadeiros, quando dizemos que amamos a Deus, mas não temos atitudes de amor para com o próximo, como o sacerdote e o levita da parábola,  pois é o nosso amor ao próximo, que confirma o nosso amor a Deus!
Fala-se muito sobre o amor ao próximo, mas vive-se pouco este amor!

Jesus está sempre nos apontando o caminho que devemos percorrer para  chegar ao coração do Pai, que é o caminho do amor,  um caminho, que às vezes,  pode nos  parecer difícil, mas ele nunca é intransponível, pois o próprio amor abre caminhos!
Não pode haver sintonia entre o homem e Deus sem a vivência do amor, pois Deus é amor, Ele nunca separa do homem, apesar das suas  ingratidões, é a falta de amor, que separa o homem  de Deus! Daí, a insistência de Jesus, em querer que todos nós, filhos e filhas de Deus, vivamos no amor!
O amor, quando vivido na prática, gera vida, nos torna testemunhas vivas do amor de Deus no mundo, nos possibilitando viver a nossa humanidade de forma divina!

A nossa identidade, o que nos distingue como cristão, é a nossa vivencia no amor!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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A Palavra de Deus proposta neste domingo é surpreendente. Tudo começa com uma pergunta que, apesar de mal intencionada, é válida, necessária, sempre urgente; pergunta que brota do mais profundo da nossa angústia: “Que devo fazer para receber a vida? Como devo viver para viver de verdade, para que minha vida valha a pena e não seja uma paixão inútil?” Apesar de um mundo que procura nos distrair dessa pergunta, não há como sufocá-la, como fazer de conta que ela não perturba nosso coração! Pelo amor de Deus, responda o mundo tão animado e cheio de distrações: onde está a felicidade duradoura? Onde está a vida, a realização da existência? Que caminho seguir, para ser feliz de verdade?
Jesus indica o caminho: “O que está escrito na Torah? Como lês?” – Aqui, há algo importantíssimo. Jesus está falando com um escriba judeu; por isso, manda-o à Lei de Moisés. Uma coisa ele quer deixar clara: a vida não está no homem, mas na vontade de Deus! O homem somente será feliz, somente encontrará a vida se procurar lealmente a vontade de Deus. Por isso, no salmo 118, o Salmista pede, de modo comovente: “Sou apenas peregrino sobre a terra; de mim não oculteis vossos preceitos!” Perder de vista o projeto de Deus para nós, é perder de vista a própria vida, o sentido da existência! Não esqueçamos, para não sermos enganados: fechados para a vontade do Senhor, não encontraremos a realização verdadeira! E este é o drama do mundo atual, que se julga maior de idade e, portanto, independente de Deus. Na verdade, é um mundo ateu, porque é um mundo auto-suficiente, que só confia de verdade na sua filosofia, na sua tecnologia, na sua racionalidade pagã e na sua moral fechada para o Infinito!
Ao invés, Jesus nos força a abrir o coração para o Alto, para o Altíssimo; convida-nos a respirar fundo o ar novo e puro, que brota das narinas de Deus e dá novo alento ao ser humano cansado e envelhecido pelo pecado! “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência”. Esta abertura para Deus dilata e realiza o coração humano, que foi criado para dar e receber amor, amor na relação com Deus, que desemboca, generoso, no amor em relação aos outros: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. – “Faze isto e viverás!” Os filósofos ateus dos séculos XIX e XX – de Feuerbach a Sartre - gostavam de insistir que Deus escraviza o homem, desumaniza a humanidade, impedindo-a de ser ela própria, de ser feliz. É mentira! É um triste mal-entendido! A verdadeira abertura para Deus nos faz crescer, nos faz superar nossos estreitos limites, nos lança de verdade em relação a Deus e nos compromete com os outros! Os mandamentos de Deus realizam o mais profundo anseio do nosso coração, que é a vida:“Converte-te ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma! Na verdade, o mandamento que hoje te dou não é difícil demais, nem está fora do teu alcance!” O próprio Deus – acreditem – nos deu o desejo e a capacidade de amar ao nos criar à sua imagem!
Jesus insiste ainda em algo muito importante: nossa relação com Deus, se é verdadeira, deve abrir-nos aos irmãos: “Quem é o meu próximo?” – A resposta de Jesus é clara: nosso próximo são aqueles que a vida fez próximos de nós. Nosso próximo são os próximos! Ou os amamos de verdade, ou não há próximo para amar. O próximo viraria uma idéia abstrata e sem valor algum. Não esqueçamos: o próximo tem rosto, tem cheiro, tem problemas e, às vezes, nos incomoda, nos atrapalha, nos desafia, nos causa raiva e contradição. É a este próximo, concreto como uma rocha, que eu devo amar! Mas, atenção: um judeu deve amar o próximo como a si mesmo: é isto que está escrito na Lei. Um cristão, não! Ele deve amar o próximo como Jesus: até dar a vida: “Amai-vos como eu vos amei. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, façais vós também!” (Jo 13,34.15).
 Recordemos que o próprio Senhor nos deu o exemplo; ele mesmo se fez próximo de nós: sendo Deus se fez homem, veio viver a nossa aventura, partilhar a nossa sorte, para nos dar a sua vida: “Cristo é a imagem do Deus invisível... porque Deus quis habitar nele com toda a sua plenitude”. Ele não viu nossa miséria de longe, não nos amou à distância: desceu e veio viver a nossa vida, fazendo-se Deus-conosco! Por isso, ele é o verdadeiro Bom Samaritano, o verdadeiro modelo daquele que "se faz próximo" do próximo: viu-nos à margem do caminho da vida; viu-nos roubados e despojados de nossa dignidade de imagem de Deus; viu-nos totalmente perdidos... Ele se compadeceu de nós, desceu à nossa miséria, fez-se homem, para nos curar e elevar. Nele, se revela a plenitude do amor a Deus e aos outros: “Deus quis por ele reconciliar consigo todos os seres que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz”. Então, somente em Cristo, encontramos a vida verdadeira e a realização pela qual tanto almejamos. Só ele nos reconcilia com Deus e no abre uns para os outros, aproximando-nos no seu amor!
Quando os cristãos não conseguem viver isso, quando não conseguem deixar que essa realidade maravilhosa transpareça, é porque estão sendo infiéis, estão sendo uma caricatura de discípulos do Senhor Jesus. Que responsabilidade a nossa! Saiamos daqui, hoje, com essa pergunta: quem são os meus próximos? Que tenho feito com eles? Pensemos em Jesus que veio ser próximo, e ainda se faz próximo hoje, em cada Eucaristia. Pensemos nele: “Vai, tu também, e faze o mesmo!”
dom Henrique Soares da Costa


O mandamento que conduz à vida eterna
A liturgia deste domingo nos confronta com o ensinamento de Jesus sobre o amor fraterno, supremo mandamento da vida cristã. Trata-se do ponto fulcral da prática cristã. As leituras apresentam dois aspectos principais: o que é amar e a quem se dirige nosso amor? As duas perguntas fundem-se numa só compreensão: quem ama descobre logo a quem amar. Como lema, que pode ser repetido na homilia e nos comentários, sugerimos: “Torne-se próximo de seu irmão necessitado”, ou a sabedoria popular: “A melhor maneira de ter amigos é ser amigo”.
1º leitura (Dt. 30,10-14)
A primeira leitura funciona como verdadeira abertura solene para a liturgia da Palavra. O livro mais imponente da Torá, o Deuteronômio, ensina-nos que o mandamento de Deus não está fora de nosso alcance. Deus fez de Israel seu povo, não por este ser importante, mas por amor e fidelidade à sua promessa (Dt. 7,7-8). O amor de Deus por Israel não tem explicação, mas tem consequências: Israel deve amar a Deus com todas as suas forças (Dt. 6,4-5). Deve escutar sua voz e não se afastar de suas orientações; e, quando se afasta, deve “voltar”, converter-se (30,10). E, se o povo diz que a Lei é difícil, Deus responde que não: não é coisa de outro mundo. Está perto, ao alcance de quem o ama (30,11-14; cf. Jr. 31,33; Br. 3,15-29; Rm. 10,6-8).
Hoje importa redescobrir que lei e mandamentos não são coisas do passado, inimigas da liberdade moderna. O termo que traduzimos por lei (torah) deveria, na realidade, ser traduzido como ensinamento, instrução. É uma sabedoria (cf. Sl 19 e Sl 119). Ora, um bom conselho vale mais do que ouro. Para os teólogos que redigiram o livro do Deuteronômio (no século VIII-VI a.C.), a Lei de Moisés era inigualável tesouro de sabedoria, um rumo seguro para a vida, em todas as circunstâncias. Para tê-la sempre diante dos olhos, deviam colocá-la numa faixa amarrada na testa (Dt 6,8; cf. Ex 13,9 etc.). Os “deuteronomistas” enfrentavam um tempo de afrouxamento em Israel, mais ou menos como nós, hoje. A quem achava difíceis as orientações de Deus, respondiam: “Não é verdade. A Lei não é coisa do outro mundo, ninguém a precisa procurar no céu ou no inferno, ela está perto de ti”. Dificilmente poderia estar mais perto do que naquela faixa na testa. Mas não é só por meio dessa faixa que ela pode estar perto. Ela é uma palavra viva, lembrada continuamente pelos próprios profetas, que viviam no meio do povo. E em Cristo ela se torna mais perto do que nunca.
Evangelho (Lc. 10,25-37)
No evangelho, ouvimos o ensinamento do grande mandamento do amor e a parábola do bom samaritano. O trecho faz parte de um conjunto do Evangelho de Lucas (Lc. 10,26-11,13) que apresenta três exigências fundamentais do ser cristão:
1) o “grande mandamento” do amor a Deus e ao próximo (10,25-37);
2) o “único necessário” (10,38-42);
3) a “oração por excelência” (11,1-13). O “grande mandamento” responde à pergunta pelo caminho da vida eterna: amar a Deus e o próximo. Defrontamo-nos com um especialista da Lei que procurava, em meio à multidão de prescrições, saber o que devia fazer para “herdar a vida eterna”, a vida da era vindoura, do reino que Deus estabeleceria no mundo para sempre (pois era assim que se concebia a vida eterna) (Lc. 10,25-28; cf. Mt. 22,35-40; Mc. 12,28-31). Jesus o remete à Lei ensinada por Moisés. Pergunta o que aí se encontra. O escriba responde: amar a Deus acima de tudo (cf. Dt. 6,5) e o próximo como a si mesmo (cf. Lv. 19,18). “É isso mesmo que deves fazer”, responde Jesus. Novamente: não é coisa de outro mundo!
Depois, porém, o escriba pergunta quem é seu próximo. A resposta de Jesus revoluciona suas categorias: o próximo não é um arbitrário “objeto de caridade”; é todo homem, desde que eu me torne próximo dele. Todos nós estamos de acordo em que devemos amar nosso próximo. Mas quem é ele? Minha velha tia rica, prestes a ceder sua herança, ou meu empregado, com cuja família nada tenho que ver? Visto que argumentar não adianta, Jesus conta uma história. Um homem cai nas mãos de ladrões. Passa um sacerdote, mas não tem tempo para parar, pois deve celebrar um sacrifício. Passa um especialista das leis de pureza (um levita): este tem medo de sujar as mãos com o sangue do homem que ficou semimorto na beira da estrada. Passa, depois, um inimigo, um samaritano, talvez um comerciante concorrente do homem que foi assaltado. E esse samaritano, inimigo dos judeus, cuida do homem à sua própria custa. Nesse ponto da narrativa, Jesus pergunta não quem é o próximo a quem se devem fazer obras caritativas, mas quem é o próximo do homem que foi assaltado. A inversão da pergunta é significativa, porque o especialista da Lei é obrigado a responder que um vil samaritano é o próximo de um judeu assaltado. Para todos nós, isso significa: eu sou próximo de quem encontro no meu caminho, sou chamado a ser solidário com ele, a me tornar próximo dele.
Ao analisar o texto, aparecem detalhes mais significativos ainda. O samaritano “comiserou-se”, “aproximou-se”: uma linguagem que poderia ser aplicada ao próprio Deus. Deus comiserou-se do ser humano, tornou-se próximo dele e salvou-o à sua própria custa: custou a vida de seu Filho. O próximo, “aquele que se comiserou do homem” (Lc. 10,37), é Deus mesmo. “Vai e então faze a mesma coisa”, e já não precisarás perguntar quem é teu próximo. E terás a vida eterna, porque desde já estarás vivendo a vida de Deus mesmo.
Gostamos de escolher nossos próximos. Está errado. Somos próximos de quem encontramos. Deus nos colocou perto deles para os tratarmos com o mesmo amor gratuito que ele nos dedica.
2º leitura (Cl. 1,15-20)
A segunda leitura apresenta o belo hino cristológico da carta aos Colossenses. Essa carta dá uma resposta à introdução de doutrinas falsas na comunidade. Alguns ensinam que, além de Cristo, se devem venerar outros seres transcendentes, “espíritos” etc. É difícil ser livre! Por isso, Paulo realça o lugar central exclusivo de Cristo. Ele nos redimiu, dando a sua vida até a morte. Só compreenderemos bem isso quando formos conscientes de que Cristo é também o criador, com o Pai. Ele assume nossa vida e nosso mundo não por fora, mas por dentro. No íntimo do ser homem, ele vive a plenitude de ser Deus. Quando todos chegarem a essa plenitude, a criação estará completa.
Esse hino é uma das obras-primas do Novo Testamento. A ideia principal é a unidade da ordem da criação e da redenção, em Cristo. Ele é a cabeça da redenção, assumindo a todos na sua glória, porque é também a cabeça da criação. O hino expressa isso em termos que lembram fortemente o prólogo de João (Jo 1,1-18) e os textos que falam da Sabedoria como hipóstase unida a Deus desde antes da criação do mundo (Pr. 8,22-36; Eclo. 24; Sb. 7). O hino combina a figura da Sabedoria que preside à criação, identificada a Cristo, com aquela outra imagem paulina de Cristo, cabeça da Igreja, que é seu corpo. No pensamento bíblico, todo o corpo participa da realidade de seu princípio vital (no caso, a cabeça). No sacrifício e na glória de Cristo, assume-se todo o universo na reconciliação com Deus. A “plenitude” (termo helenístico-gnóstico, indicando o “uno”, ou seja, o ser perfeito) mora nele: a plenitude de Deus, englobando todos os seus filhos.
Esse texto pode ser interpretado como elo entre as duas outras leituras, neste sentido: o amor a Deus e a seu ensinamento (primeira leitura) encontra sua plenitude na fé que se concentra em Cristo e sua palavra, proclamada no evangelho. (Um texto que melhor combinaria com o tema da primeira leitura e do evangelho seria, por exemplo, Tg. 1,21-25, sobre ouvir e praticar a palavra.)
Pistas para reflexão
Amor ao próximo e solidariedade
Os profetas de Israel teceram os mais sublimes elogios à Lei, ou melhor, ao ensinamento (torah) de Deus. Era um caminho de vida. Mesmo assim, havia quem achasse a Lei complicada e procurasse um resumo ou pelo menos um mandamento-chave que, por assim dizer, a resumisse. Essa questão foi apresentada também a Jesus, e ele deu, sem hesitar, a resposta. Menciona o mandamento que todo judeu recita diariamente na oração do “Shemá Israel” (Dt. 6,4-5) – “Amar a Deus com todas as forças” – e acrescenta: “e ao próximo como a si mesmo” (como está em Lv. 19,18.35). Esses dois mandamentos são inseparáveis, pois o amor ao próximo é o dever número um de quem ama a Deus. Paulo (Gl. 5,13) e Tiago (Tg. 2,8) resumem toda a moral cristã nesse único mandamento. João nos diz ser impossível amar a Deus sem amar o irmão (1Jo 4,21). Não se pode amar o Pai sem amar os filhos. Mas o que é amar? E quem são nossos próximos?
Os judeus consideravam como “próximos”, isto é, como candidatos à sua solidariedade, os membros da comunidade judaica e os estrangeiros residentes que viviam em seu meio (e cooperavam com eles): a esses era preciso “amá-los como a si mesmo” (Lv. 19,18.35). No caso dos inimigos, sobretudo dos samaritanos, a esses não se devia amar, pelo contrário (cf. Mt. 5,43). Ora, exatamente um samaritano se torna solidário com um judeu jogado à beira da estrada, depois que dois ilustres “próximos” judeus, um sacerdote e um levita, deram uma volta para não se incomodar com o compatriota assaltado...
Jesus não respondeu diretamente à pergunta do mestre da Lei: “Quem é o meu próximo?”. Ele respondeu por meio de uma parábola, porque a questão não é descobrir, teoricamente, quem é e quem não é próximo. A parábola insere o ouvinte numa nova situação prática, existencial. Coração generoso se torna próximo de qualquer um que precisa; a melhor maneira de ter amigos é ser amigo; a melhor maneira de encontrar o próximo é tornar-se próximo, aproximar-se. A questão não é teórica, mas prática. Ora, nós, na prática, esquecemos a parábola de Jesus e fazemos como o sacerdote e o levita: afastamo-nos do necessitado – mesmo se pertence à nossa comunidade! – e não “nos aproximamos” dele. Tornar-se próximo é ser solidário. Será que somos solidários com os que vivem na margem da estrada de nossa sociedade? Mesmo quando damos uma esmola a um coitado, não é para nos desviarmos dele?
“Vai e faze a mesma coisa”, diz Jesus. Imitar o samaritano exige solidariedade, assumir a vida do outro, não livrar-se dele. Torná-lo um irmão, pois esse é o sentido verdadeiro da palavra “próximo”.
Como fica essa solidariedade neste tempo em que a doutrina da competição, do lucro e do proveito ilimitado solapou o tecido social, as relações de gratuidade entre as pessoas?
padre Johan Konings, sj.



Há coisas importantes, urgentes e inadiáveis
Na vida há coisas que não podem ser  agendadas para mais tarde. Há o bem que poder ser feito um pouco mais adiante.  Mas há aquele que precisa executada com toda presteza. O homem fortes sintomas de infarto, a barreia que está para cair,  o menino que está no berço da casa em chamas… Eis algumas situações em que a ajuda não pode ser postergada…
É uma história relatada por Lucas no evangelho hoje proclamado foi inventada por Jesus. A parábola de um samaritano tido como bom, especialmente bom.
Viajantes e viandantes caminhavam de um lado para o outro. Meio apressadamente. Afinal de contas todos  tinham coisas urgentes a fazer. Temos roupa para lavar,  mudas  para plantar, viagens a organizar,  cuidados a prestar aos nossos familiares… Afinal de contas, ninguém é de ferro… Um sacerdote e um levita, ocupados com as coisas do culto, não puderam dar atenção ao homem que estava jogado à beira da estrada. O pobre ser estava completamente sem condições de socorrer-se a si mesmo.  Tinha sido barbaramente atacado por ladroes. Sem auxilio imediato morreria.  O samaritano parou, avaliou as condições do homem , as feridas, o sangue perdido.   Experimenta um sentimento de compaixão, sofre com… coloca o homem em sua montaria, leva para uma hospedaria e se compromete a pagar o que for necessário gastar com ele…Usa de misericórdia.  Assim está explicado o sentido de quem é o próximo de cada um… Próximo é aquele que aqui e agora mais precisa de mim…
Há esses próximos mais próximos. Há esse amor e carinho para o cônjuge desanimado, desalentado, doente, fraco, fragilizado.  Há essas atenções a serem prestadas pelos pais aos filhos ao longo de sua vida mormente quando  os filhos são crianças ou atravessam  as plagas delicadas da adolescência, quando precisam ser recolhidos a um hospital devido a uma overdose de drogas. Há também esses próximos mais distantes.  Vejo idosos e pessoas mais jovens que estão na fila de um laboratório de análises clínicas… meio jogados a beira da estrada… esperando no frio que a porta se abra…. Há essas pobres pessoas nos presídios,  cumprindo  pena merecida , estragados como seres humanos precisando do amor de pessoas que as façam sentir-se gente.  Há  essas pessoas… essas tantas pessoas que precisam comer, curar a ressaca de uma bebedeira,  trocar uma roupa suja…Tudo nos faz  refletir sobre  esses que são nossos próximos.
E Jesus perguntou:  “Na tua opinião, meu caro mestre da lei,  então qual dos três que passaram perto do homem jogado à beira da estrada  foi próximo de um delas.  Certamente aquele que usou de misericórdia.  Tu farás o mesmo…”.
frei Almir Ribeiro Guimarães



Bom samaritano
No meio da multidão, um especialista em leis se levanta e questiona Jesus a fim de saber como conseguir a vida eterna. Ele não tem boas intenções, e a sua pergunta não tem o intuito de aprendizado e, sim, colocar Jesus em apuros, em uma armadilha. O homem julga Jesus por achar que Ele não é fiel aos seiscentos e treze mandamentos prescritos pelo judaísmo. Jesus, no entanto, sabendo que muito se discutia sobre qual seria o principal destes mandamentos que norteava todos os outros, responde à pergunta com uma outra, pois o que está em questão, não é querer saber, mas saber fazer.
A resposta dada pelo especialista é correta, ele demonstra que na teoria conhece muito bem as leis e sabe que o principal mandamento naquele tempo, assim como nos dias de hoje, é o mandamento do amor. Nota-se que o verbo amar é conjugado no mesmo tempo para o amor a Deus – “Ame o Senhor seu Deus”, e para o amor ao próximo – “Ame o seu próximo como você ama a você mesmo”, demonstrando com isso que, andam juntos, e não é possível amar verdadeiramente um sem dedicar o mesmo sentimento ao outro. E podemos perceber ainda que, o amor ao próximo tem a mesma intensidade que o amor a si mesmo, e que para isso é preciso ser misericordioso como o Pai, e a misericórdia não precisa de um código de leis para se manifestar.
O especialista em leis, então, tentando demarcar as fronteiras desse amor, levanta outra questão discutida desde aquela época até os nossos dias: “quem é o meu próximo?”. Mas, Jesus ao invés de uma resposta direta, conta-lhe uma parábola para que ele mesmo possa encontrar a resposta ao seu questionamento.
Na parábola, tudo leva a crer que o homem, vítima de assalto, seja um judeu e está quase morto. O sacerdote e o levita, amparados nas fronteiras a eles convenientes no momento, para definir seu próximo, ignoram aquele homem que precisa de ajuda. O samaritano, por sua vez, mesmo sendo inimigo tradicional dos judeus, não pergunta àquele homem qual é a sua origem, e enxerga, naquele momento, apenas alguém que precisa de ajuda. E, sem discriminação ou preconceito, se compadece da dor dele, praticando verdadeiramente o mandamento do amor. O samaritano não apenas trata-lhe as feridas, mas o leva a uma pensão onde passa a noite cuidando dele, deixando-o no dia seguinte aos cuidados do dono da pensão, e custeando todas as despesas. Ele vê, no seu pior inimigo, o próximo mais próximo e se solidariza com a sua dor. Aí, ele encontrou Deus e a verdadeira religião. Descrevendo detalhadamente a ação do samaritano, Jesus demonstra que o verdadeiro amor é responsável, e não tem limites, e depende somente da necessidade do outro.
É da natureza humana escolher seu próximo, de forma que amá-lo seja mais fácil e confortável, mas, o amor a que Jesus se refere nesta parábola é mais profundo e verdadeiro, pois é de total doação a seus ensinamentos. Deus teve compaixão da humanidade ao entregar seu próprio filho para salvá-la, e a humanidade, por sua vez, precisa praticar essa compaixão entre si. Essa é a verdadeira prática do amor ao próximo.
O parábola traduz a verdadeira caridade, que é o amor gratuito, que se encontra nas atitudes do homem samaritano, pois, para o ladrão, o que é do outro pode ser dele também; para o sacerdote e para o levita, o que é deles é somente deles mesmos; e para o samaritano, o que é dele é também do outro.

Pequeninos do Senhor



Faze tu o mesmo!
Existe uma ligação evidente entre a questão dirigida pelo mestre a Lei a Jesus e a ordem conclusiva do relato. O mestre da Lei queria conhecer os caminhos para se obter a vida eterna, e Jesus ordena-lhe que imite o gesto misericordioso do samaritano.
A preocupação com a vida eterna corresponde a reconhecer os caminhos que conduzem ao Pai, fonte da verdadeira vida. O mestre da Lei estava no bom caminho ao confessar que a via que conduz ao Pai é o caminho do amor. Consciência fenomenal, se levamos em conta a mentalidade legalista, muito difundida na época.
Faltava-lhe apenas refazer sua concepção de próximo. A parábola contada por Jesus não deixa margem para dúvidas: próximo é qualquer pessoa que, encontrada pelos caminhos da vida, carece do nosso amor misericordioso. Diante deste apelo, caem todas as barreiras sociais, culturais, religiosas, étnicas. O próximo carente é a mediação da comunhão com o Pai. Quem tem sensibilidade e é capaz de desfazer-se de seus planos para se mostrar solidário, estará no caminho da vida eterna. Quem, pelo contrário, desvia-se do próximo carente de solidariedade, desvia-se do caminho que conduz ao Pai.
Assim, a vida eterna define-se pela disposição de se tornar servidor do próximo, em quem o Pai é servido. Quem é misericordioso, está no bom caminho.
padre Jaldemir Vitório



A messe é grande se olharmos o mundo como um todo, mas poucos são os operários dispostos a trabalhar neste mundo. O mundo é, por vezes, árido, difícil, desconfortável. É sem dúvida mais agradável ficar no altar envolvido pelo perfume do incenso. A rua é penosa e perigosa. Foi na beira da estrada que o samaritano encontrou um homem semimorto atacado por salteadores. Foi também na rua que Jesus encontrou um pai aflito com um filho à beira da morte.
O discípulo missionário tem seu campo de ação na rua e nas estradas, isto é, em todos os lugares onde as pessoas se encontram de forma espontânea e natural. O primeiro lugar é o ambiente de trabalho. São Paulo iniciou a evangelização de Corinto na sua loja de confecções e consertos num shopping center da época. Lá, trabalhando, ele entrava em contato com as pessoas de forma natural. Ele não ficou esperando que as pessoas o procurassem. Enquanto missionário de Jesus Cristo, inseriu-se nos lugares onde podia encontrar pessoas na sua vida normal.
A própria escolha de Corinto obedeceu à mesma estratégia. Em Corinto se concentravam trabalhadores, comerciantes e viajantes. Quantos de nós estamos por vezes limitados a espaços geográficos carentes de pessoas e sem significado estratégico. O mundo é ágil e móvel. Nós, às vezes, somos lentos e presos em imóveis. Se esta é a sorte de ministros ordenados, não deveria ser a dos fiéis leigos. O templo pode ser um lugar de abastecimentos, mas o lugar da ação e do testemunho é o mundo no qual passam a maior parte das horas de suas vidas.
O bom samaritano não estava passeando. Deu uma parte de seu tempo e de seu dinheiro em favor de alguém maltratado, e seguiu adiante para cuidar de suas tarefas comprometendo-se a voltar. Em termos humanos, tudo isso demanda tempo, dedicação, gastos, e pede também uma pessoa que não esteja presa em estruturas, mas solta nos contatos da vida que não se programam. Segundo a expressão de são Paulo aos colossenses, Deus se encarna em seu próprio Verbo para reconciliar consigo todos os seres realizando a paz. A encarnação é a vocação primeira da Igreja de Jesus.
A encarnação se dá também em nós, quando a Palavra está em nós e se torna a nossa força propulsora de ação. Dessa forma, a presença cristã no meio do mundo e junto a pessoas concretas em suas necessidades não é apenas uma presença a mais, fraca e limitada, mas é uma presença transformadora pela energia do Ressuscitado. A presença cristã é cheia da energia do Ressuscitado, que contagia o ambiente humano em que se encontra e se revela nas ações, mesmo pequenas.
O sacerdote e o levita da parábola eram judeus, o samaritano, não. São Lucas, ao relatar o início da viagem de Jesus para Jerusalém conta como Tiago e João queriam fazer descer fogo do céu contra os samaritanos que não se dispuseram a receber Jesus. Esta etapa da viagem termina com a parábola do bom samaritano, talvez para nos dizer que é preciso olharmos com profundidade para perceber neste mundo quem de fato "observa os mandamentos e os preceitos que estão escritos na Lei". Os samaritanos podiam não saber quem era de fato Jesus, mas não teriam desculpas se não socorressem o homem da estrada.
cônego Celso Pedro da Silva



“E quem é o meu próximo”
O texto do evangelho deste domingo é próprio a Lucas e pode ser dividido em dois episódios: a) questão sobre a vida eterna (vv. 25-28); b) questão sobre o próximo e como proceder em caso de conflito entre dois mandamentos da Lei (vv. 29-37).
Os dois estão estreitamente relacionados pela observação do narrador: “… e, querendo experimentar Jesus…” e a pergunta do legista: “E quem é o meu próximo” (v. 29). A perícope tem um tom de controvérsia: “Um doutor da Lei se levantou e, querendo experimentar Jesus, perguntou...” (v. 25).
A resposta de Jesus com uma pergunta faz com que o doutor da Lei responda citando os mandamentos fundamentais da Lei mosaica (cf. Dt. 6,4-9; Lv. 19,18). A apresentação unitária destes mandamentos é uma leitura da Lei: “Que está escrito na Lei? Como lês (= interpreta)?” (v. 26). Segundo Lucas, Jesus encontra nas próprias palavras da Escritura o conselho, o mandamento fundamental para a vida do cristão: “Faze isso e viverás” (v. 28), isto é, ajudando dessa maneira poderás herdar a vida eterna. O amor é o caminho para herdar a vida eterna.
Motivado pela pergunta do legista, Jesus conta a parábola do “bom samaritano” (vv. 30-37). Tal parábola é uma discussão haláquica (precisa e legal) acerca do conflito entre a Lei da pureza (Lv. 21,1-3; 22,3-7) e o amor ao próximo (Lv. 19,18) Numa situação como a que a parábola nos apresenta, qual dos dois mandamentos tem precedência sobre o outro? Se a resposta, hoje, é evidente para nós cristãos, não o era, certamente, para os contemporâneos de Jesus.
Sem podermos nos delongar, estudando cada um dos personagens da parábola, passemos à resposta: se o ouvinte e/ou leitor julga que o sacerdote, mesmo obrigado pela Lei da pureza, deveria ter ajudado o moribundo, pois neste caso o mandamento do amor ao próximo tem precedência sobre a Lei de pureza, a consequência não é que as leis de pureza são inválidas ou podem ser ignoradas, mas que a Lei do amor ao próximo é o mandamento-chave que precisa ser escolhido entre qualquer outro mandamento, em caso de conflito. O amor ao próximo é uma exigência primordial da Torá. A presença do samaritano na parábola confirma que a questão é a da correta obediência à Lei de Moisés. O samaritano, não aceito pelos judeus, conhece a mesma Torá que o judeu, e está obrigado a obedecer todos os mandamentos. Ajudando o homem quase morto, ele está obedecendo ao mandamento. Sua compaixão não é uma alternativa ao legalismo; ela é o que o mandamento do amor ao próximo exige dele.
Ele ilustra o que significa obedecer a este mandamento, nesta situação concreta. Quem cumpre o mandamento do amor cumpre a Lei plenamente.
Carlos Alberto Contieri,sj


1º leitura: Dt. 30,10-14 – AMBIENTE
O livro do Deuteronômio é fruto da reflexão e da catequese dos teólogos do Reino do Norte (Israel), preocupados em lembrar ao Povo os compromissos assumidos no âmbito da “aliança”; mas apresenta-se, literariamente, como um conjunto de discursos de Moisés, uma espécie de testamento espiritual que Moisés teria pronunciado antes da sua morte, na planície de Moab, na altura em que os hebreus se preparavam para renovar a “aliança”, antes de entrar na “Terra Prometida”.
O texto que hoje nos é proposto é a parte final do terceiro discurso de Moisés (cf. Dt. 29-30). Na realidade, trata-se de uma homilia dos teólogos deuteronomistas, redigida na fase final do exílio da Babilônia, alertando a comunidade do Povo de Deus para as consequências da fidelidade ou da infidelidade face aos compromissos assumidos para com Jahwéh.
MENSAGEM
Fundamentalmente, estamos diante de um convite a aderir com todo o coração e com todo o ser às propostas e aos mandamentos de Deus (v. 10).
No entanto, perguntavam os exilados, como encontrar o caminho e descobrir o que Deus propõe? Como é que se descobre o que Deus quer de nós, de forma a que não voltemos, nunca mais, a cair na escravidão?
Os teólogos deuteronomistas estão convencidos de que não é necessário procurar muito longe: nem no céu (v. 12), nem no mar (v. 13), nem em qualquer outro lugar inacessível ao homem comum. O caminho que Deus propõe não é um caminho escondido, misterioso, revelado só aos iniciados ou iluminados; mas é um caminho que está claramente inscrito no coração e na consciência de cada homem (v. 14).
A mensagem aqui apresentada pelos catequistas deuteronomistas diz-nos, portanto, o seguinte: para perceber o projeto de salvação, de liberdade e de felicidade que Deus tem para os homens, basta olhar para o nosso coração e para a nossa consciência; é aí que Deus nos fala e é aí que nós escutamos as suas propostas e as suas indicações. Resta-nos estar disponíveis para escutar e para perceber – no meio das contra-indicações que as nossas paixões nos apresentam – as sugestões, os apelos, os desafios de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• O convite a aderir com todo o coração e com todo o ser às propostas de Deus leva-nos a questionar a qualidade da nossa adesão. Não pode ser uma adesão a meio-gás ou a tempo parcial – de acordo com os nossos interesses; mas tem de ser uma adesão total, completa, plenamente empenhada, a “fundo perdido”. É desta forma radical e total que aderimos aos projetos de Deus, ou a nossa adesão é “morna”, incompleta, limitada, reticente?
• Encontramos espaço e disponibilidade para interrogar o nosso coração e para escutar o Deus que fala, que Se revela, que nos desafia e questiona?
• Pode acontecer que os nossos interesses egoístas, as nossas ambições, as nossas paixões, os nossos esquemas e projetos pessoais abafem a voz de Deus e nos impeçam de escutar as suas propostas. Quais são, para mim, essas outras “vozes” que calam a voz de Deus? Que lugar ocupam elas na minha vida? Em que medida elas contribuem para definir o sentido essencial da minha existência?
2º leitura: Cl. 1,15-20 – AMBIENTE
Colossos era uma cidade da Frígia (Ásia Menor), situada a cerca de 200 quilômetros a Este de Éfeso. A comunidade cristã dessa cidade não foi fundada por Paulo mas por Epafras, discípulo de Paulo e colossense de origem (cf. Cl. 4,12).
Paulo escreveu aos Colossenses da prisão (provavelmente, de Roma). Estaríamos entre os anos 61 e 63. Epafras visitou Paulo e levou ao apóstolo notícias alarmantes… Alguns “doutores” locais (talvez membros de um movimento de índole sincretista, que misturava cristianismo com cultos mistéricos em voga no mundo helenista e com elementos religiosos de várias origens) ensinavam aos Colossenses que a fé em Cristo devia ser completada por rígidas práticas ascéticas, por ritos legalistas judaicos, por prescrições sobre os alimentos (cf. Cl. 2,16.21), pela observância de determinadas festas (cf. Cl. 2,16) e por especulações acerca dos anjos (cf. Cl. 2,18). Na opinião desses “doutores”, tudo isto devia comunicar aos crentes um conhecimento superior dos mistérios e uma maior perfeição.
Paulo desmonta toda esta confusão doutrinal e afirma que nenhum destes elementos tem qualquer importância para a salvação: Cristo basta.
O texto que hoje nos é proposto é um hino de duas estrofes, que provavelmente Paulo tomou da liturgia cristã primitiva, mas que está perfeitamente integrado no conteúdo geral da carta. Este hino cristão de inspiração sapiencial celebra a supremacia absoluta de Cristo na criação e na redenção.
MENSAGEM
A primeira estrofe deste hino (vs. 15-17) afirma e celebra a soberania e o poder de Cristo sobre toda a criação.
A primeira afirmação é a de que Cristo é a “imagem de Deus invisível”. Dizer que é “imagem” significa aqui que Ele é em tudo igual ao Pai, no ser e no agir, pois n’Ele reside a plenitude da divindade. Significa que Deus, espiritual e transcendente, Se revela aos homens e Se faz visível através da humanidade de Cristo.
A segunda afirmação é que Ele é o “primogênito de toda a criatura”. No contexto familiar judaico, o “primogênito” era o herdeiro principal, que tinha a primazia em dignidade e em autoridade sobre os seus irmãos. Aplicado a Cristo, significa a supremacia e a autoridade de Cristo sobre toda a criação.
A terceira afirmação é a de que “n’Ele, por Ele e para Ele foram criadas todas as coisas”. Tal significa que todas as coisas têm n’Ele o seu centro supremo de unidade, de coesão, de harmonia (“n’Ele”); que é Ele que comunica a vida do Pai (“por Ele”); e que Cristo é o termo e a finalidade de toda a criação (“para Ele”). Ao mencionar expressamente que os “tronos, dominações, principados e potestades” estão incluídos na soberania de Cristo, Paulo desmonta as especulações dos “doutores” Colossenses acerca dos poderes angélicos, considerados em paralelo com o poder de Cristo.
A segunda estrofe (vs. 18-20) afirma e celebra a soberania e o poder de Cristo na redenção.
A primeira afirmação é a de que Ele é a “cabeça do corpo que é a Igreja”. A expressão significa, em primeiro lugar, que Cristo tem a primazia e a soberania sobre a comunidade cristã; mas significa, também, que é Ele quem comunica a vida aos membros do corpo e que os une num conjunto vital e harmônico.
A segunda afirmação é a de que Ele é o “princípio, o primogênito de entre os mortos”. Significa que Ele, não só foi o primeiro que ressuscitou, mas também que Ele é a fonte de vida que vai provocar a nossa própria ressurreição.
A terceira afirmação é de que n’Ele reside “toda a plenitude”. Significa que n’Ele e só n’Ele habita, efetiva e essencialmente, a divindade: tudo o que Deus nos quer comunicar, a fim de nos inserir na sua família, está em Cristo. Por isso, o autor deste hino pode dizer que por Cristo foram reconciliadas com Deus todas as criaturas na terra e nos céus: por Cristo a criação inteira, marcada pelo pecado, recebeu a oferta da salvação e pôde voltar a inserir-se na família de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Um dado fundamental da vida cristã é a consciência desta centralidade de Cristo na nossa experiência e na nossa existência. No entanto, a religião de tantos dos nossos cristãos centraliza-se, tantas vezes, em coisas secundárias… Cristo é, efetivamente, a referência fundamental à volta da qual a nossa vida se articula e se constrói? Ele tem a primazia na nossa vida? É Ele que está no centro dos interesses e da vida das nossas comunidades cristãs ou religiosas? Há outros deuses, ou poderes, ou “santos” em quem centramos os nossos interesses e que nos desviam de Cristo?
• Para muitos dos nossos contemporâneos, Jesus não é uma referência fundamental. Quando muito, foi um homem bom, que deu a vida por um sonho, um visionário, um idealista, que a história se encarregou de digerir e que hoje é, apenas, uma peça de museu; por isso, não tem qualquer espaço nas suas vidas. Como podemos testemunhar a nossa convicção de que Ele é o centro da história e de que Ele está no princípio e no fim da história da salvação?
Evangelho: Lc. 10,25-37 - AMBIENTE
Continuamos “a caminho de Jerusalém” – quer dizer, continuamos a percorrer esse percurso espiritual, durante o qual Jesus prepara os discípulos para serem as testemunhas do Reino, após a sua partida deste mundo. É neste contexto “pedagógico” que vai aparecer a “parábola do bom samaritano”.
Para percebermos cabalmente o que está aqui em jogo, convém também ter presente o quadro da relação entre judeus e samaritanos. Trata-se de dois grupos que as vicissitudes históricas tinham separado e cujas relações eram, no tempo de Jesus, bastante conflituosas.
Historicamente, a divisão começou quando, em 721 a.C., a Samaria foi tomada pelos assírios e foi deportada cerca de 4% da sua população; na Samaria instalaram-se colonos assírios que se misturaram com a população local; para os judeus, os habitantes da Samaria começaram, então, a paganizar-se (cf. 2 Re. 17,29). A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso do exílio, os judeus recusaram a ajuda dos samaritanos (cf. Esd. 4,1-5) para a reconstrução do templo de Jerusalém (ano 437) e denunciaram os casamentos mistos; tiveram, então, que enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (cf. Ne. 3,33-4,17). No ano de 333 a.C., novo elemento de separação: os samaritanos construíram um templo no monte Garizim; no entanto, esse templo foi destruído em 128 a.C. por João Hircano. Mais tarde, as picardias continuaram: a mais famosa aconteceu já na época de Cristo (alguns anos depois do nascimento de Cristo), quando os samaritanos profanaram com ossos o templo de Jerusalém.
Os judeus desprezavam os samaritanos, por serem uma mistura de sangue israelita com estrangeiros e consideravam-nos hereges em relação à pureza da fé jahwista; e os samaritanos pagavam aos judeus com um desprezo semelhante.
MENSAGEM
O que está em jogo no texto que nos é proposto é uma pergunta de um mestre da Lei: “o que fazer, a fim de conseguir a vida eterna?” (Marcos apresenta a mesma cena – cf. Mc. 12,28-34 – mas, aí, a pergunta é acerca do “maior mandamento da Lei”. Lucas, talvez adaptando-se aos leitores cristãos de cultura grega, põe a questão em termos de “vida eterna”).
A resposta é previsível e evidente, de tal forma que o próprio mestre da Lei a conhece: amar a Deus, fazer de Deus o centro da vida e amar o próximo como a si mesmo. Neste “resumo” dos mandamentos, cita-se Dt 6,5 (no que diz respeito ao amor a Deus) e Lv 19,18 (no que diz respeito ao amor ao próximo). Jesus concorda: até aqui, a proposta de Jesus não acrescenta nada de novo àquilo que a própria Lei sugere.
A dúvida do mestre da Lei vai, no entanto, mais fundo: “e quem é o meu próximo?” É uma questão pertinente, neste contexto. Na época de Jesus, os mestres de Israel discutiam, precisamente, quem era o “próximo”. Naturalmente, havia opiniões mais abrangentes e opiniões mais particularistas e exclusivistas; mas havia consenso entre todos no sentido de excluir da categoria “próximo” os inimigos: de acordo com a Lei, o “próximo” era apenas o membro do Povo de Deus (cf. Ex. 20,16-17; 21,14.18.35; Lv. 19,11.13.15-18). Jesus, no entanto, tinha uma perspectiva diferente da perspectiva dos “fazedores de opinião” de Israel. É precisamente para explicar a sua perspectiva que Jesus conta a “parábola do bom samaritano”.
A parábola situa-nos nessa estrada de cerca de 30 quilômetros entre a cidade santa de Jerusalém e o oásis de Jericó. Na época de Jesus, é uma estrada perigosa, sempre infestada de bandos armados. Ora “um homem” não identificado (não se diz quem é, de que raça é, qual a sua religião, mas apenas que é “um homem”, embora, pelo contexto, possa depreender-se que é um judeu) foi assaltado pelos bandidos e deixado caído na berma da estrada. Trata-se, portanto (e isso é que é preponderante), de “um homem” ferido, abandonado, necessitado de ajuda.
Pela estrada passaram sucessivamente um sacerdote (que conhecia a Lei e que exercia funções litúrgicas no templo) e um levita (ligado à instituição religiosa judaica e que exercia, também, funções litúrgicas no templo). Ambos passaram adiante: ou o medo de enfrentar a mesma sorte, ou as preocupações com a pureza legal (que impedia contatar com um cadáver), ou a pressa, ou a indiferença diante do sofrimento alheio, impede-os de parar. Apesar dos seus conhecimentos religiosos, não têm qualquer sentimento de misericórdia por aquele homem. Eles sabem tudo sobre Deus, lidam diariamente com Deus mas, afinal, não sabem nada de Deus, pois não sabem nada de amor. A sua religião é uma religião oca, de ritos estéreis, de gestos vazios e sem sentido, de cerimônias faustosas e solenes, mas não tem nada a ver com o amor, com o coração.
Pela estrada passou, finalmente, um samaritano. Trata-se de um desses que a religião tradicional de Israel considerava um inimigo, um infiel, longe da salvação e do amor de Deus… No entanto, foi ele que parou, sem medo de correr riscos ou de adiar os seus esquemas e interesses pessoais, que cuidou do ferido e que o salvou. Apesar de ser um herege, um excomungado, mostra ser alguém atento ao irmão necessitado, com o coração cheio de amor e, portanto, cheio de Deus.
Jesus conclui a parábola dizendo ao mestre da Lei que o interrogara: “então vai e faz o mesmo”. A verdadeira religião que conduz à vida plena passa pelo amor a Deus, traduzido em gestos concretos de amor pelo irmão – por todo o irmão, sem exceção.
Recordemos que a pergunta inicial era: “o que fazer para alcançar a vida eterna”… A conclusão é óbvia: para alcançar a vida eterna é preciso amar a Deus e amar o próximo. O “próximo” é qualquer um que necessita de nós, seja amigo ou inimigo, conhecido ou desconhecido, da mesma raça ou doutra raça qualquer; o “próximo” é qualquer irmão caído nos caminhos da vida que necessita, para se levantar, da nossa ajuda e do nosso amor. Neste gesto do samaritano, a Igreja de todos os tempos (a comunidade dos que caminham ao encontro da vida plena, da salvação) reconhece um aspecto fundamental da sua missão: a de levantar todos os homens e mulheres caídos nos caminhos da vida.
ATUALIZAÇÃO
• A pergunta do mestre da Lei não é uma pergunta acadêmica; é a pergunta que os homens do nosso tempo fazem todos os dias: “o que fazer para chegar à vida plena, à felicidade? Como dar, verdadeiramente, sentido à vida?” A resposta eterna é: “faz de Deus o centro da tua vida, ama-O e ama também os outros irmãos”. Trata-se, portanto, de fazer com que o amor percorra as duas coordenadas fundamentais da nossa existência – a vertical (relação com Deus) e a horizontal (relação com os outros homens). É por aqui que passa a nossa realização plena.
• O que é isso do amor ao próximo? Até onde se deve ir? É preciso exagerar? Não se trata de exagerar. Trata-se de ver em cada pessoa – sem exceção – um irmão e de lhe dar a mão sempre que ele necessitar. Qualquer pessoa ferida com quem nos cruzamos nos caminhos da vida tem direito ao nosso amor, à nossa misericórdia, ao nosso cuidado – seja ela branca ou negra, portuguesa ou ucraniana, cristã ou muçulmana, portista, sportinguista ou benfiquista, fascista ou comunista, pobre ou rica… A verdadeira religião que conduz à salvação passa por este amor sem limites.
• Pode acontecer que o lidar todos os dias com o divino tenha endurecido o nosso coração em relação às realidades do mundo… Pode acontecer que uma vida instalada nos torne insensíveis aos gritos de sofrimento dos pobres… Pode acontecer que o nosso egoísmo fale mais alto e que evitemos meter-nos em complicações por causa das injustiças que os nossos irmãos sofrem… Mas, nesse caso, convém perguntar: deixando que a minha vida se guie por critérios de egoísmo e de comodismo, estou a caminhar em direção à minha realização plena, à vida eterna?
• As nossas comunidades são clubes fechados, “reservados a sócios”, onde é “proibida a entrada aos estranhos”, ou comunidades onde são amados e têm lugar todos aqueles que a vida atira para a berma da estrada?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho


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