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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 29 de julho de 2016

18º DOMINGO TEMPO COMUM-C

18º DOMINGO TEMPO COMUM

31 de Julho

1ª Leitura – Eclo 1,2; 2,21-23

Salmo 89

2ª Leitura – Cl 3,1-5.9-11



Evangelho – Lc 12,13-21



A riqueza em si, promove o bem comum, uma boa safra vai garantir alimento para muitos, um grande rebanho de gado, é carne que não acaba mais, e que vai sustentar muitas pessoas.
O perigo maior da riqueza, está no fato de alguém depositar todas suas esperanças nos bens materiais, e se esquecer de Deus, e desprezar o irmão e a irmã.

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“TOMAI CUIDADO COM TODO TIPO DE GANÂNCIA...” - Olivia Coutinho

18º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 31 de Julho de 2016

Evangelho de Lc12,13-21


A ausência de Deus  desvia o homem de sua verdadeira origem! A obsessão pela riqueza, cega a pessoa, tornando-a gananciosa. Quem é  ganancioso está distante de Deus, porque não enxerga o outro, não é sensível ao seu sofrimento.
Devemos ter cuidado para não cairmos na tentação da riqueza, de  querer colocar a garantia do nosso futuro nos bens materiais.
O melhor investimento que podemos fazer, é tornarmos  ricos diante de Deus preservando os  valores que devem nortear a nossa vida, como  o  amor, a fraternidade,  o perdão... Estes sim, são os bens que nos garantirão estabilidade no futuro, uma valiosa herança, que é a presença contínua de Deus nesta e na outra  vida!
No evangelho que a liturgia deste Domingo nos convida a refletir, Jesus  nos alerta, sobre o perigo de estarmos voltados para os bens terrenos e  não buscarmos os bens eternos!
Quando deixamos nos iludir pelas coisas materiais, entra em nós a ganancia, a  ganancia nos cega para as coisas de Deus.  Uma pessoa gananciosa está sempre focada nas coisas materiais, torna escrava de si mesma, nunca se satisfaz com o que têm, está sempre querendo algo mais!
O texto que nos é apresentado começa dizendo que alguém no meio da multidão, pede a Jesus para interferir numa questão relacionada a uma herança de família. Jesus não intervém, mas aproveita a oportunidade para nos passar um grande ensinamento: ”Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens.” E para esclarecer, Jesus  conta a parábola de um homem rico, que gastou a sua vida acumulando bens, e com isto perdeu a oportunidade de construir aqui na terra a sua morada no céu!
Com esta parábola, Jesus nos adverte sobre o perigo que corremos, quando depositamos a nossa segurança nos bens terrenos! O acúmulo de bens, a ostentação, nos torna pessoas frias, insensíveis, fechados no nosso mundo particular e consequentemente afastados de Deus. 
Na narrativa, confronta-se a lógica do homem com a lógica de Deus: a lógica do homem, é guardar, acumular, ter sempre mais, enquanto que a lógica de Deus, é deixar-se, é abandonar-se é desprender-se, é dar-se...
Os ensinamentos que Jesus nos passa no dia de hoje, são desafiadores, principalmente para aqueles que tem “alma de rico” isto é, que se deixa levar por atitudes egoísticas.
Jesus é a nossa maior riqueza, Ele é o sinal por excelência do amor do Pai, aderir a sua proposta de vida nova é a garantia de um dia recebermos como herança, o único bem que não perece, o bem maior, que é a vida eterna! Vida eterna, que já podemos experimentá-la aqui na terra, quando vivemos de acordo com a vontade de Deus, quando fazemos da nossa vida, uma oferta de amor e de gratuidade. 
Uma vida frutuosa, não se mede por aquilo que se tem, e sim, por aquilo que se é! Não alcançamos a plenitude pelo o que temos, e sim, pelo o que somos!
É no mais profundo do nosso ser, que cultivamos o nosso bem maior: o amor infundido por Deus em nossos corações é este amor que nos une como irmãos, que nos faz abrir à partilha. 

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Em que consiste a vida do ser humano? O que faz realmente, de modo definitivo, uma existência humana valer a pena? Como o homem pode, de verdade, ganhar a vida? – eis algumas perguntas seríssimas para quem deseja viver de verdade e não fazer da existência um tempo perdido e uma paixão inútil.
O Senhor Jesus nos adverte: “A vida do homem não consiste na abundância de bens!” Esta frase recorda-nos uma outra: “O homem não vive somente de pão!” (Mt. 4,4). Ao contrário do que o mundo nos quer colocar na cabeça e no coração, não se pode medir o valor de uma vida pelos bens materiais ou pelo sucesso de alguém.
Todos temos um desejo enorme de encontrar um porto seguro para nossa existência. Buscamos segurança: segurança econômica, segurança quanto à saúde, segurança afetiva, segurança profissional... sempre segurança. O problema é que nesta vida e neste mundo nada é seguro e toda segurança não passa de uma ilusão, que cedo ou tarde desaba. O Eclesiastes é de um realismo cortante: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Em outras palavras: pó do pó, tudo é pó; inconsistência da inconsistência, tudo é inconsistência, tudo passa, tudo é transitório e fugaz... E o salmista hoje faz coro a essa tremenda realidade: “Vós fazeis voltar ao pó todo mortal, quando dizeis: ‘Voltai ao pó, filhos de Adão!’ Pois mil anos para vós são como ontem, qual vigília de uma noite que passou. Eles passam como o sono da manhã, são iguais à erva verde pelos campos. De manhã ela floresce vicejante, mas à tarde é cortada e logo seca”. O autor do Eclesiastes coloca a questão tão dramática: será que tudo quanto construímos, será que nossos amores e sonhos, será que tudo isso caminha para o nada? “Toda a sua vida é sofrimento, sua ocupação, um tormento. Nem mesmo de noite repousa o seu coração!” São palavras duríssimas e, à primeira vista, de um pessimismo sem remédio. Mas, não é assim: o autor sagrado nos quer acordar do marasmo, nos quer fazer compreender que não podemos enterrar a cabeça e o coração no simples dia-a-dia, sem cuidar do sentido que estamos dando à nossa existência como um todo!
Então, onde apostar nossa vida, para que ela realmente tenha um sentido? Como fugir da angústia de uma vida que vai passando como o fio no tear - para usar um imagem da Escritura? É interessante observar como hoje se procura fazer a vida valer a pena... Preocupação com a estética, com a saúde, com a satisfação dos desejos... Preocupação em ser vip na sociedade, em ter prestígio e poder... em se esbaldar no divertimento, nos esportes, nos eventos, no turismo... Pois bem, a Palavra de Deus nos adverte de modo seco e solene: tudo passa, tudo é vaidade; não consiste nisso a vida de uma pessoa! Com tudo isso, podemos ser infelizes; com tudo isso, podemos danar para sempre nossa única existência.
Então, em que consiste a vida? Que caminho seguir para repousar nosso coração naquilo que não passa? Como usar as coisas que passam de modo a abraçar as que não passam? Os cristãos têm uma resposta, que para o mundo é incompreensível. Escutemos o Apóstolo: "Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”. Palavras fortes; palavras que o mundo não poderá nunca compreender! Para o cristão, a vida verdadeira é Cristo, aquele que morreu e ressuscitou, aquele que se encontra à direita do Pai. Nós cremos que tudo quanto vivamos com ele e de modo coerente com o seu Evangelho, é vida e nos faz felizes, livres e maduros. Cremos que viver de verdade a vida é apostar nele a existência, pois somente nele, no Cristo Senhor, está a vida verdadeira. Cremos que viver é viver como ele viveu. Ora, como foi a vida do Cristo? Foi total doação ao Pai e aos outros, por amor do Pai. Total despojamento, numa total liberdade – foi assim que o Cristo passou entre nós. Pois bem, é nisso que consiste a vida verdadeira; é nisto que consiste o que Jesus chama no Evangelho de ser “rico diante de Deus” e não ajuntar tesouros para si apenas.
Pensemos bem: num mundo que já não mais sabe olhar para o alto, num mundo que desaprendeu a ouvir aquele que tem palavra de vida eterna, não é fácil viver este caminho de Jesus. E, no entanto, esta é a condição para ser cristão de verdade e para encontrar a verdadeira vida. Não queiramos, portanto, reduzir o Evangelho ao tamanho da nossa mediocridade; tenhamos a coragem de dilatar nosso coração, de ampliar nossos horizontes à medida do apelo do Cristo Jesus e de viver a vida de pessoas novas, ressuscitadas para uma vida nova.
dom Henrique Soares da Costa



A liturgia deste domingo questiona-nos acerca da atitude que assumimos face aos bens deste mundo. Sugere que eles não podem ser os deuses que dirigem a nossa vida; e convida-nos a descobrir e a amar esses outros bens que dão verdadeiro sentido à nossa existência e que nos garantem a vida em plenitude.
No Evangelho, através da “parábola do rico insensato”, Jesus denuncia a falência de uma vida voltada apenas para os bens materiais: o homem que assim procede é um “louco”, que esqueceu aquilo que, verdadeiramente, dá sentido à existência.
Na primeira leitura, temos uma reflexão do “qohélet” sobre o sem sentido de uma vida voltada para o acumular bens… Embora a reflexão do “qohélet” não vá mais além, ela constitui um patamar para partirmos à descoberta de Deus e dos seus valores e para encontramos aí o sentido último da nossa existência.
A segunda leitura convida-nos à identificação com Cristo: isso significa deixarmos os “deuses” que nos escravizam e renascermos continuamente, até que em nós se manifeste o Homem Novo, que é “imagem de Deus”.
1º leitura – Co (Ecle) 1,2; 2,21-23 - AMBIENTE
O livro de Qohélet é um livro de caráter sapiencial, escrito pelos finais do séc. III a.C.. Não sabemos quem é o autor… Em 1,1, apresenta-se o livro como “palavras de qohélet”; mas “qohélet” é uma forma participial do verbo “qhl” (“reunir em assembléia”): significa, pois, “aquele que participa na assembléia” ou, numa perspectiva mais ativa, “aquele que fala na assembléia”. O nome “Eclesiastes” (com que também é designado) é a forma latinizada do grego “ekklesiastes” (nome do livro na tradução grega do Antigo Testamento): significa o mesmo que “qohélet” – “aquele que se senta ou que fala na assembléia” (“ekklesia”).
Este “caderno de anotações” de um “sábio” é um escrito estranho e enigmático, sarcástico, inconformista, polêmico, que põe em causa os dogmas mais tradicionais de Israel. A sua preocupação fundamental, mais do que apontar caminhos, parece ser a de destruir certezas e seguranças. Levanta questões e não se preocupa, minimamente, em encontrar respostas para essas questões.
O tom geral do livro é de um impressionante pessimismo. O autor parece negar qualquer possibilidade de encontrar um sentido para a vida… Defende que o homem é incapaz de ter acesso à “sabedoria”, que não há qualquer novidade e que estamos fatalmente condenados a repetir os mesmos desafios, que o esforço humano é vão e inútil, que é impossível conhecer Deus e que, aconteça o que acontecer, nada vale a pena porque a morte está sempre no horizonte e iguala-nos com os ignorantes e os animais… Não é um livro onde se vão procurar respostas; é um livro onde se denuncia o fracasso da sabedoria tradicional e onde ecoa o grito de angústia de uma humanidade ferida e perdida, que não compreende a razão de viver.
MENSAGEM
Em concreto, no texto que hoje a liturgia nos propõe, o “qohélet” proclama a inutilidade de qualquer esforço humano. A partir da sua própria experiência, ele foi capaz de concluir friamente que os esforços desenvolvidos pelo homem ao longo da sua vida não servem para nada. Que adianta trabalhar, esforçar-se, preocupar-se em construir algo se teremos, no final, de deixar tudo a outro que nada fez? E o “qohélet” resume a sua frustração e o seu desencanto nesse refrão que se repete em todo o livro (25 vezes): “tudo é vaidade”. É uma conclusão ainda mais estranha quanto a “sabedoria” tradicional “excomungava” aquele que não fazia nada e apresentava como ideal do “sábio” aquele que trabalhava e que procurava cumprir eficazmente as tarefas que lhe estavam destinadas.
A grande lição que o “qohélet” nos deixa é a demonstração da incapacidade de o homem, por si só, encontrar uma saída, um sentido para a sua vida. O pessimismo do “qohélet” leva-nos a reconhecer a nossa impotência, o sem sentido de uma vida voltada apenas para o humano e para o material. Constatando que em si próprio e apenas por si próprio o homem não pode encontrar o sentido da vida, a reflexão deste livro força-nos a olhar para o mais além. Para onde? O “qohélet” não vai tão longe; mas nós, iluminados pela fé, já podemos concluir: para Deus. Só em Deus e com Deus seremos capazes de encontrar o sentido da vida e preencher a nossa existência.
ATUALIZAÇÃO
• Quase poderíamos dizer que o “qohélet” é o precursor desses filósofos existencialistas modernos que refletem sobre o sentido da vida e constatam a futilidade da existência, a náusea que acompanha a vida do homem, a inutilidade da busca da felicidade, o fracasso que é a vida condenada à morte (Jean Paul Sartre, Albert Camus, André Malraux…). As conclusões, quer do “qohélet”, quer das filosofias existencialistas agnósticas, seriam desesperantes se não existisse a fé. Para nós, os crentes, a vida não é absurda porque ela não termina nem se encerra neste mundo… A nossa caminhada nesta terra está, na verdade, cheia de limitações, de desilusões, de imperfeições; mas nós sabemos que esta vida caminha para a sua realização plena, para a vida eterna: só aí encontraremos o sentido pleno do nosso ser e da nossa existência.
• A reflexão do “qohélet” convida-nos a não colocar a nossa esperança e a nossa segurança em coisas falíveis e passageiras. Quem vive, apenas, para trabalhar e para acumular, pode encontrar aí aquilo que dá pleno significado à vida? Quem vive obcecado com a conta bancária, com o carro novo, ou com a casa com piscina num empreendimento de luxo, encontrará aí aquilo que o realiza plenamente? Para mim, o que é que dá sentido pleno à vida? Para que é que eu vivo?
2 leitura – Col. 3,1-5.9-11 - AMBIENTE
A segunda leitura deste domingo é, mais uma vez, um trecho dessa Carta aos Colossenses, em que Paulo polemiza contra os “doutores” para quem a fé em Cristo devia ser complementada com o conhecimento dos anjos e com certas práticas legalistas e ascéticas. Paulo procura demonstrar que a fé em Cristo (entendida como adesão a Cristo e identificação com Ele) basta para chegar à salvação.
Este texto integra a parte moral da carta (cf. Col. 3,1-4,1): aí Paulo tira conclusões práticas daquilo que afirmou na primeira parte (que Cristo basta para a salvação) e convoca os Colossenses a viverem, no dia a dia, de acordo com essa vida nova que os identificou com Cristo.
MENSAGEM
O texto que nos é proposto está dividido em duas partes.
Na primeira (vs. 1-4), Paulo apresenta, como ponto de partida e como base sólida da vida cristã, a união com Cristo ressuscitado. Os cristãos, pelo batismo, identificaram-se com Cristo ressuscitado; dessa forma, morreram para o pecado e renasceram para uma vida nova. Essa vida deve crescer progressivamente, mas manifestar-se-á em plenitude, quando Cristo “aparecer” (a carta aos Colossenses ainda alimenta nos cristãos a espera da vinda gloriosa de Cristo).
Na segunda parte (vs. 5.9-11), Paulo descreve as exigências práticas dessa identificação com Cristo ressuscitado. O cristão deve fazer morrer em si a imoralidade, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cupidez, numa palavra, todos esses falsos deuses que enchem a vida do homem velho; e, por outro lado, deve revestir-se do Homem Novo – ou seja, deve renovar-se continuamente até que nele se manifeste a “imagem de Deus” (“sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai do céu” – cf. Mt. 5,48). Quando isso acontecer, desaparecerão as velhas diferenças de povo, de raça, de religião e todos serão iguais, isto é, “imagem de Deus”. Foi isso que Cristo veio fazer: criar uma comunidade de homens novos, que sejam no mundo a “imagem de Deus”.
A identificação com Cristo ressuscitado – que resulta do batismo – é, portanto, um renascimento contínuo que deve levar-nos a parecer-nos cada vez mais com Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Ser batizado é, na perspectiva de Paulo, identificar-se com Cristo e, portanto, renunciar aos mecanismos que geram egoísmo, ambição, injustiça, orgulho, morte – os mesmos que Jesus rejeitou como diabólicos; e é, em contrapartida, escolher uma vida de doação, de entrega, de serviço, de amor – os mecanismos que levaram Jesus à cruz, mas que também o levaram à ressurreição. Eu estou sendo coerente com as exigências do meu batismo? Na minha vida há uma opção clara pelas “coisas do alto”, ou essas “coisas da terra” (brilhantes, sugestivas, mas efêmeras) têm prioridade e condicionam a minha ação?
• O objetivo da nossa vida (esse objetivo que deve estar sempre presente diante dos nossos olhos e que deve constituir a meta para a qual caminhamos) é, de acordo com Paulo, a renovação contínua da nossa vida, a fim de que nos tornemos “imagem de Deus”. Aqueles que me rodeiam conseguem detectar em mim algo de Deus? Que “imagem de Deus” é que eu transmito a quem, diariamente, contata comigo?
• A comunidade cristã é essa família de irmãos onde as diferenças (de raça, de cultura, de posição social, de perspectiva política, etc.) são ilusórias, porque o fundamental é que todos caminham para ser “imagem de Deus”. Isto é realidade? Nas nossas comunidades (cristãs ou religiosas), todos os membros são tratados com igual dignidade, como “imagem de Deus”?
• Convém não esquecer que a construção do “Homem Novo” é uma tarefa que exige uma renovação constante, uma atenção constante, um compromisso constante. Enquanto estamos neste mundo, nunca podemos cruzar os braços e dar a nossa caminhada para a perfeição por terminada: cada instante apresenta-nos novos desafios, que podem ser vencidos ou que podem vencer-nos.
Evangelho – Lc. 12,13-21 - AMBIENTE
Continuamos a percorrer o “caminho de Jerusalém” e a escutar as lições que preparam os discípulos para serem as testemunhas do Reino. A catequese, que Jesus hoje apresenta, é sobre a atitude face aos bens.
A reflexão é despoletada por uma questão relacionada com partilhas… Um homem queixa-se a Jesus porque o irmão não quer repartir com ele a herança. Segundo as tradições judaicas, o filho primogênito de uma família de dois irmãos recebia dois terços das possessões paternas (cf. Dt. 21,17. É possível que só fossem repartidos os bens móveis e que, para guardar intacto o patrimônio da família, a casa e as terras fossem atribuídas ao primogênito). O homem que interpela Jesus é, provavelmente, o irmão mais novo, que ainda não tinha recebido nada. Era freqüente, no tempo de Jesus, que os “doutores da lei” assumissem o papel de juízes em casos similares… Como é que Jesus Se vai situar face a esta questão?
MENSAGEM
Jesus escusa-Se, delicadamente, a envolver-Se em questões de direito familiar e a tomar posição por um irmão contra outro (“amigo, quem me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?” – v. 14). O que estava em causa na questão era a cobiça, a luta pelos bens, o apego excessivo ao dinheiro (talvez por parte dos dois irmãos em causa). A conclusão que Jesus tira (v. 15) explica porque é que Ele não aceita meter-Se na questão: o dinheiro não é a fonte da verdadeira vida. A cobiça dos bens (o desejo insaciável de ter) é idolatria: não conduz à vida plena, não responde às aspirações mais profundas do homem, não conduz a um autêntico amadurecimento da pessoa. A lógica do “Reino” não é a lógica de quem vive para os bens materiais; quem quiser viver na dinâmica do Reino deverá ter isto presente.
A parábola que Jesus vai apresentar na sequência (vs. 16-21) ilustra a atitude do homem voltado para os bens perecíveis, mas que se esquece do essencial – aquilo que dá a vida em plenitude. Apresenta-nos um homem previdente, responsável, trabalhador (que até podíamos admirar e louvar); mas que, de forma egoísta e obsessiva, vive apenas para os bens que lhe asseguram tranquilidade e bem-estar material (e nisso, já não o podemos louvar e admirar). Esse homem representa, aqui, todos aqueles cuja vida é apenas um acumular sempre mais, esquecendo tudo o resto – inclusive Deus, a família e os outros; representa todos aqueles que vivem uma relação de “circuito fechado” com os bens materiais, que fizeram deles o seu deus pessoal e que esqueceram que não é aí que está o sentido mais fundamental da existência.
A referência à ação de Deus, que põe repentinamente um ponto final nesta existência egoísta e sem significado, não deve ser muito sublinhada: ela serve, apenas, para mostrar que uma vida vivida desse jeito não tem sentido e que quem vive para acumular mais e mais bens é, aos olhos de Deus, um “insensato”.
O que é que Jesus pretende, ao contar esta história? Convidar os seus discípulos a despojar-se de todos os bens? Ensinar aos seus seguidores que não devem preocupar-se com o futuro? Propor aos que aderem ao Reino uma existência de miséria, sem o necessário para uma vida minimamente digna e humana? Não. O que Jesus pretende é dizer-nos que não podemos viver na escravatura do dinheiro e dos bens materiais, como se eles fossem a coisa mais importante da nossa vida. A preocupação excessiva com os bens, a busca obsessiva dos bens, constitui uma experiência de egoísmo, de fechamento, de desumanização, que centra o homem em si próprio e o impede de estar disponível e de ter espaço na sua vida para os valores verdadeiramente importantes – os valores do Reino. Quando o coração está cheio de cobiça, de avareza, de egoísmo, quando a vida se torna um combate obsessivo pelo “ter”, quando o verdadeiro motor da vida é a ânsia de acumular, o homem torna-se insensível aos outros e a Deus; é capaz de explorar, de escravizar o irmão, de cometer injustiças, a fim de ampliar a sua conta bancária. Torna-se orgulhoso e auto-suficiente, incapaz de amar, de partilhar, de se preocupar com os outros… Fica, então, à margem do Reino.
Atenção: esta parábola não se destina apenas àqueles que têm muitos bens; mas destina-se a todos aqueles que (tendo muito ou pouco) vivem obcecados com os bens, orientam a sua vida no sentido do “ter” e fazem dos bens materiais os deuses que condicionam a sua vida e o seu agir.
ATUALIZAÇÃO
• A Palavra de Deus que aqui nos é servida questiona fortemente alguns dos fundamentos sobre os quais a nossa sociedade se constrói. O capitalismo selvagem que, por amor do lucro, escraviza e obriga a trabalhar até à exaustão (e por salários miseráveis) homens, mulheres e crianças, continua vivo em tantos cantos do nosso planeta… Podemos, tranquilamente, comprar e consumir produtos que são fruto da escravidão de tantos irmãos nossos? Devemos consentir, com a nossa indiferença e passividade, em aumentar os lucros imoderados desses empresários/sanguessugas que vivem do sangue dos outros?
• Entre nós, o capitalismo assume um “rosto” mais humano nas teses do liberalismo econômico; mas continua a impor a filosofia do lucro, a escravatura do trabalhador, a prioridade dos critérios de planificação, de eficiência, de produção em relação às pessoas. Podemos consentir que o mundo se construa desta forma? Podemos consentir que as leis laborais favoreçam a escravidão do trabalhador? Que podemos fazer? Nós cristãos – nós Igreja – não temos uma palavra a dizer e uma posição a tomar face a isto?
• Qualquer trabalhador – muitos de nós, provavelmente – passa a vida numa escravatura do trabalho e dos bens, que não deixa tempo nem disponibilidade para as coisas importantes – Deus, a família, os irmãos que nos rodeiam. Muitas vezes, o mercado de trabalho não nos dá outra hipótese (se não produzimos de acordo com a planificação da empresa, outro ocupará, rapidamente, o nosso lugar); outras vezes, essa escravatura do trabalho resulta de uma opção consciente… Quantas pessoas escolhem prescindir dos filhos, para poder dedicar-se a uma carreira de êxito profissional que as torne milionárias antes dos quarenta anos… Quantas pessoas esquecem as suas responsabilidades familiares, porque é mais importante assegurar o dinheiro suficiente para as férias na Tailândia ou na República Dominicana… Quantas pessoas renunciam à sua dignidade e aos seus direitos, para aumentar a conta bancária… Tornamo-nos, assim, mais felizes e mais humanos? É aí que está o verdadeiro sentido da vida?
• O que Jesus denuncia aqui não é a riqueza, mas a deificação da riqueza. Até alguém que fez “voto de pobreza” pode deixar-se tentar pelo apelo dos bens e colocar neles o seu interesse fundamental… A todos Jesus recomenda: “cuidado com os falsos deuses; não deixem que o acessório vos distraia do fundamental”.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho


Para que tanta ganância?
Que resta ao homem de todos os trabalhos e preocupações que o desgastam debaixo do sol? Toda sua vida é sofrimento, sua ocupação um tormento. Nem mesmo de noite repousa o seu coração (Ecl.  2, 22-23).
Felizes aqueles que vivem interiormente livres de toda sorte de apegos e preocupações que escravizam.  As leituras deste domingo nos alertam para o perigo de nossos fecharmos em nossos pequenos desejos  e posses.  Luta-se por tantas coisas,  por bens,  pela riqueza, pelo prestígio, pelo  poder.  Alguns se dão conta que  tudo passa, que tudo é fugaz, que tudo é vaidade.  O que se leva desta vida?
O Eclesiastes e o evangelho do dia refletem   sobre  um fato corriqueiro.  Uma pessoa luta, trabalha, ganha dinheiro, compra , vende. Começa a gozar de prestígio. Os filhos nascem, crescem, ganham asas fortes e voam do ninho. Os filhos estudam, viajam, tornam-se pessoas retas ou “tortas”.  Com a morte dos pais cabe-lhes repartir  a herança.  Os filhos disputam e brigam por causa da herança.  Os celeiros do pai eram grandes, foram desfeitos e se construíram outros.  O pai morre, os filhos brigam. O pai acumulou tesouros que a traça corroeu…
Pensamos numa outra situação.  Referimo-nos a um ator ou atriz  com sua voz sonoro, seu corpo escultural, seu porte  solene.  Aplaudido, reconhecido, requisitado  vive folgada e prestigiadamente.   O tempo, porém, é implacável.   Envelhece, seu rosto é uma ruga só, sua pele se torna flácida, sua voz enrouquece.  Os apreciadores de ontem buscam outros ídolos, os amigos o deixam. Tudo passo. O ator envelhecido  vive sozinho, numa casa de idosos, sem ser lembrado.  Tudo passa,  tudo é vaidade.
Compreende-se que o homem tenha preocupações  com sua vida, seu presente, seu   amanhã, o sustento de sua família. Normal que seja prudente e vigilante.  Mas quando preocupações exageradas tomam conta de seu interior ele passa a viver sem paz, acumulando, sempre acumulando.
“De fato, que resta ao homem de  todos os trabalhos e preocupações que o desgastam debaixo do sol?  Toda a sua vida é sofrimento, sua ocupação,  um tormento.  Nem mesmo de noite repousa o seu coração”.
Para que tanta ganância?
frei Almir Ribeiro Guimarães



Ser rico para Deus
Basta uma boa crise financeira para a gente se lembrar da precariedade dos tesouros deste mundo. Embora nem todos aprendam a lição... A cena que o evangelho conta é bem típica: briga de irmãos sobre uma herança; querem que Jesus resolva (como os cristãos de família tradicional que chamam o padre para resolver problemas de família). Jesus não se interessa: sua missão é outra.
Que adiantaria, para o Reino de Deus, impor a esses dois irmãos uma solução que, provavelmente, não os reconciliaria? Para Jesus interessa que a pessoa se converta para os valores do Reino. Narra, pois, a parábola do rico insensato, que depois de uma boa safra achou que poderia descansar para o resto de sua vida e viver daquilo que recolhera - coitado, na mesma noite Deus viria reclamar sua vida ... Jesus não quis denunciar o desejo de viver decentemente, mas a mania de colocar sua esperança nas riquezas desta vida, esquecendo reunir tesouros junto a Deus. As riquezas não são um mal em si, mas desviam nossa atenção da verdadeira riqueza, a amizade de Deus, que alcançamos pela dedicação a seus filhos (a parábola de hoje é bem complementada por aquela do avaro e Lázaro, no 26° domingo).
É difícil aceitar isso, sobretudo quando os negócios vão bem. Por isso, a liturgia insiste no vazio das riquezas materiais (não só as riquezas financeiras, mas também as culturais: o saber). Nos remete aos capítulos iniciais de Eclesiastes, obra sobremaneira cética com referência aos bens deste mundo (1ª leitura). Geralmente, o judaísmo apreciava bastante a riqueza, vendo nela uma recompensa de Deus. Eclesiastes forma uma exceção. Lucidamente, expõe a precariedade das riquezas financeiras e culturais. Somente, não propõe alternativa, outra riqueza que mereça nosso empenho. A "riqueza junto a Deus", o N.T. é que a propõe: é o amor e caridade para com nossos irmãos.
Para levar a sério a admoestação deste evangelho é preciso rever os critérios de nossa vida. Precisamos acreditar que nossa vida é diferente daquilo que o materialismo nos propõe. A 2ª leitura nos fornece uma base sólida para tal fé. Co-ressuscitados com Cristo, devemos procurar as coisas do alto: o que é de valor definitivo, junto a Deus. E isso não está muito longe de nós. Nossa verdadeira vida é Cristo, que está "escondido" junto a Deus, na glória que se há de manifestar no dia sem fim. Se essa é nossa vida verdadeira, embora escondida, ela determina nosso agir desde já. Em vez de buscar interesses próprios (Cl. 3,5.7 faz o elenco destes), devemos buscar o que é de Deus (3,12-17, continuação da leitura). Nossa vida já é dirigida por critérios diferentes, embora sua figura definitiva ainda não seja visível. Por isso, o cristão é incompreensível para o mundo. Ele mesmo, porém, deve compreender perfeitamente a precariedade dos "tesouros" deste mundo. Por ser assim "diferente", ele será rejeitado. Por isso, precisa de uma firme fé na vida que é a do Cristo ressuscitado e de todos os verdadeiros batizados.
A oração do dia parece programática para a liturgia de hoje: somos renovados por Deus; que ele nos conserve renovados. Estamos vivendo uma vida nova e definitiva. Que não voltemos àquilo que é de menor valor.
Será que isso significa desprezo do mundo? Não. Nem teríamos o direito de desprezar o que Deus criou. É apenas uma questão de realismo: saber onde está a vida verdadeira, o sentido último de nosso existir, e relativizar o resto em função dessa vida verdadeira. A vida verdadeira é a do Filho de Deus. Nós a partilhamos, se pertencemos à vontade do Pai, em tudo. E esta vontade é o amor para com nossos irmãos. Este nos engaja muito mais neste mundo, do que a busca de riquezas e saber ilustrado.
Johan Konings "Liturgia dominical"



A distribuição de heranças, desde o início do mundo, é uma questão delicada. No evangelho de hoje, um homem, que seguia Jesus, pede que Ele interfira na divisão dos bens que seu pai deixou, assim como fazia Moisés (Nm. 27,1-11). Jesus, no entanto, deixa claro que não veio para legislar sobre as leis dos homens. Sua missão é outra, e através de uma parábola, aproveita para deixar um valoroso ensinamento sobre o que é a verdadeira riqueza diante de Deus – Aquele que dá vida para todos.
Se no judaísmo os bens materiais eram considerados recompensa de Deus, dados por Ele sem a preocupação em dividi-los com quem necessitava, e a herança deixada era garantia da continuidade da história, do nome daquela família, Jesus, ao contrário, alerta através da parábola o que realmente importa diante do Pai, pois a sobra da colheita não devia ser acumulada, gerando trabalho e preocupações com o seu armazenamento, e sim, ser repartida. O acúmulo não garante a vida de ninguém. Ele nada valerá ao seu dono após a morte e, deixado de herança, poderá causar os mesmos atritos que estavam causando ao homem que estava ali, pedindo a intervenção na partilha.
Jesus não quer condenar a preocupação em viver decentemente, e sim, com o acúmulo de riquezas. O bem estar de alguns, conseguido à custa da injustiça e da exploração dos outros, não é dom de Deus e nem pode ser chamado de vida, pois esta vem de Deus e é para ser partilhada.
O que acontece muito, nos dias de hoje, é que as pessoas se preocupam tanto em ter patrimônio para garantir o futuro dos filhos, guardar economias para os imprevistos de amanhã, para uma velhice tranqüila que, quando se dão conta, a vida passou, os filhos cresceram, e elas, preocupadas com a tranquilidade financeira, se esquecem de dar valor ao que realmente importa que é a convivência fraterna com Deus e com o próximo, acumulando tesouros junto ao Reino.

Pequeninos do Senhor




Precaução contra a cobiça
O Evangelho é toda uma lição de desapego e de liberdade diante dos bens deste mundo, como também de partilha fraterna do que se possui. Esta postura decorre da maneira como se considera o Reino na vida do discípulo. O apego exagerado às riquezas denota uma forma de idolatria, que redunda no menosprezo de Deus e na opção por valores contrários aos dele. Portanto, a opção evangélica vai na contramão da cobiça e da avareza.
Com este pano de fundo, entende-se a estranheza de Jesus diante da solicitação do indivíduo, que o pedia para intervir numa questão de divisão de herança. A missão do Mestre não comportava ser mediador neste tipo de problema. Antes, sua preocupação consistia em precaver as pessoas da busca desenfreada de bens, iludidos de poderem chegar a ser felizes, à custa da abundância de riqueza. A posse de bens não é, necessariamente, fator de realização para o ser humano!
A parábola contada por Jesus pode ter-se baseado num fato conhecido de seus ouvintes. O Mestre enriqueceu-o com elementos que ajudam a interpretá-lo. O homem rico gastou toda a sua vida acumulando bens. Sua ambição não tinha limites. Quando pensou ter ajuntado o suficiente, imaginou que tinha chegado a hora de beneficiar-se de sua fortuna. Enganou-se! Foi colhido pela morte, tendo de prestar contas a Deus. É impossível enganar-se quanto à sorte eterna de quem jamais pensou em partilhar. Sendo rico para si mesmo, o homem era paupérrimo diante de Deus.
O discípulo do Reino deve precaver-se desta loucura!
padre Jaldemir Vitório



Alguém pediu a Jesus que interferisse num caso de divisão de herança, mas ele disse claramente que não fora encarregado de resolver esse tipo de assunto. Esse caso de divisão de herança dizia respeito a um reclamante que reivindicava a sua parte, pois seu irmão queria ficar com tudo. A partir desse fato, Jesus faz, então, duas advertências para que tenhamos princípios claros e ideias bem definidas: “Tomem cuidado contra todo tipo de ganância, porque a vida não consiste na abundância de bens”. É comum acharmos que precisamos ter muitas coisas, ou ter tudo e de tudo para sermos felizes e bem realizados. A posse de bens é necessária para o equilíbrio da vida, mas a ganância envenena tudo: é preciso ter, e ter sempre mais e nem se sabe para quê. Jesus nos orienta a não ajuntar tesouros para nós mesmos, mas procurar ser rico diante de Deus.
De fato, tudo é vaidade, tudo é passageiro, o que seguramos com as mãos começa a cair com o passar do tempo. Mas há um caminho de liberdade, felicidade, realização pessoal que é preciso descobrir. Jesus disse que ele é o verdadeiro caminho para a vida. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse ele.
A sabedoria está em fazer de Jesus o absoluto de nossa vida, tornando tudo o mais relativo. Isso, porém, é uma graça que não depende só de nossa boa vontade, mas, sobretudo, da vontade de Deus, que nos concede contemplar aqui na terra os valores definitivos da eternidade. O que está ao nosso alcance é aprender a contentar-nos com o que temos, a não multiplicar os desejos para não aumentar os sofrimentos, deixar para trás o que passou, sair do aconchego do pequeno ninho para descortinar um horizonte maior, em suma, despojar-se do homem velho e revestir-se do novo.
O velho homem é o ganancioso, sempre insaciável, aquele que nunca se realiza e que, ao mesmo tempo, impede a realização dos outros. Ele acumula nas próprias mãos o que a todos pertence, e termina sozinho e sem nada.
O homem novo alegra-se com o que tem e não se entristece pelo que não tem. Ele adquire conhecimentos, somando, mas torna-se sábio, renunciando. Ele sabe deixar para trás o que fica para trás, sabe se desfazer do que emperra a caminhada, administra os problemas sem multiplicá-los. Ir na contramão das tendências da ganância pode significar perder alguma coisa, mas para encontrar algo melhor.
Perca um pouco de tempo recolhendo-se em meditação. Perca o tempo da ganância e encontre o tempo da plenitude.  Fique quieto durante meia hora, feche os olhos, liberte-se de todas as necessidades, mesmo as mais prazerosas, e entre em relação com as Relações Subsistentes.
Mergulhe em Deus e entre na relação do Pai que gera eternamente o Filho, da Palavra que procede da boca de Deus, do Amor que procede do Pai e do Filho, e sinta o Amor de Deus sendo derramado em seu coração pelo Espírito Santo que lhe é dado. Mergulhe já naquilo que será o seu definitivo para sempre. E, assim, continue lutando pelo pão de cada dia, pela vestimenta, pela moradia, pelo emprego, mas como “homem novo”, cheio de sabedoria, que sabe dar a cada coisa o valor que ela tem. Tudo o mais é vaidade.
cônego Celso Pedro da Silva





A falta de diálogo
Muitas vezes, e com relativa frequência, o editor da Bíblia vernácula atribui títulos às perícopes, ou unidades literárias, que não só não ajudam como induzem o leitor a erro de interpretação. É bem o caso do trecho do evangelho deste domingo.
Geralmente, esta parábola tem sido intitulada “Parábola do rico insensato”. A palavra “insensato” só aparece no v. 20; ademais, seria empobrecer a mensagem da parábola pensar que o problema do personagem consiste unicamente na acumulação de bens e numa maneira de possuir mais, totalmente estranha à fé em Deus. A parábola tem alcance muito maior. O verbo “dizer” é repetido várias vezes (vv. 17.18.19), num monólogo do personagem único, solitário e sem próximo. Esta observação, e se é necessário, pode nos levar a intitular a parábola deste modo: “O esquecimento fatal do diálogo”.
Esquecimento do diálogo com Deus, no que concerne ao rico proprietário (vv. 16ss), e do diálogo entre os dois irmãos acerca da partilha dos bens (vv. 13-14).
O v. 15 faz a transição entre o pedido de arbitragem de um dos irmãos e a parábola.
A palavra traduzida por “ganância”, no v. 15, em grego exprime uma vontade de ter superioridade, um desejo de poder: “... pois mesmo que se tenha muitas coisas, a vida não consiste na abundância de bens” (v. 15).
Isto significa que a riqueza não impede a morte inesperada. A abundância, o ter, pode substituir Deus. Ao invés de nos fazer disponíveis, essa facilidade ou abundância é em que nós confiamos, de fato. Isto é uma ilusão: eu creio possuir, mas, de fato, eu sou possuído! O importante é a nossa maneira de possuir, isto é, o papel que tem no nosso ser profundo o que nós possuímos.
Resumidamente, a parábola nos faz perguntar: Você é por ou contra Deus? É esta a questão posta ao rico: “E para quem ficará o que acumulaste?” (v. 20). Cabe a nós, diante do Senhor, respondermos também a isto: O que é que me enriquece de bens que não se contabilizam, mas modelam meu rosto, num olhar sobre o mundo, sobre os outros e sobre mim mesmo?
Carlos Alberto Contieri,sj










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