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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

22º DOMINGO TEMPO COMUM-C

22º DOMINGO TEMPO COMUM


28 de Agosto de 2016 – Ano C

1ª Leitura - Eclo 3,19-21.30-31 (gr. 17 -18.20.28-29)

Salmo 67

2ª Leitura - Hb 12,18-19.22-24a


Evangelho - Lc 14,1.7-14




Jesus nos ensina a modéstia, a humildade, a adotar uma postura de acolhimento e não de autossuficiência diante dos demais.    Continuar a ler



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“QUEM SE ELEVA SERÁ HUMILHADO, QUEM SE HUMILHA, SERÁ ELEVADO.” – Olivia Coutinho

22º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 28 de Agosto de 2016

Evangelho de Lc14,1.7-14

 Numa sociedade onde impera o individualismo, a competitividade, o povo vai se distanciando cada vez mais do projeto de Deus, deixando de lado os valores do evangelho, da ética e da moral.
Enquanto caminhou por este chão, Jesus nos ensinou com a própria vida, que a grandeza de uma pessoa,  não está em títulos, em ser o primeiro e sim, em estar  a serviço do Reino, no lugar onde Deus o plantou,  para produzir frutos!
Como Mestre de toda a história, Jesus serviu-se de meios humanos bem simples, para nos ensinar, que é na gratuidade e  na humildade, que  seremos classificados por Deus, como  primeiros no Reino dos céus.
O evangelho que a liturgia deste domingo coloca diante de nós, nos convida a pautar a nossa vida no exemplo de Jesus, que mesmo sendo Deus, não quis ocupar  o primeiro lugar aqui na terra, deixando-o para os pequenos!
 “Sendo Ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo” (Fl 2, 6-7).
O texto começa dizendo, que Jesus, num dia de sábado, foi comer na casa de um dos chefes  dos fariseus. Percebendo  que os convidados escolhiam   os primeiros lugares, Jesus conta uma parábola, no sentido de chamar a atenção das pessoas, sobre a importância da humildade, não, uma humildade de fachada, mas uma humildade de sentirmos verdadeiramente  pequenos, necessitados de Deus.
Quando nos colocamos diante  Deus, vazios do nosso “eu,” Deus toma o nosso “nada” e nos eleva, preenchendo o nosso coração da sua divindade! Divinizados, tornamos mais humanos, mais humanos, tornamos mais  próximos do outro e simultaneamente mais próximos de Deus!
 Com esta parábola, Jesus tenta mudar a mentalidade de muitas pessoas, que ainda hoje, gostam de ser incensados pelo o povo, de serem notadas admiradas, bajuladas...
 São muitos, os que  escondem  atrás do manto da bondade,  se mostrando  pessoas honradas quando na verdade não o são. Estes,  querem sempre ocupar os primeiros lugares, lugares denominados pelo mundo como lugar de honra!
Para o mundo, ser  humilde, é ser bobo, para Deus, ser humilde, é ser grande!  
 “O primeiro no reino dos Céus é aquele que serve.”  Estas palavras de Jesus, nos  leva a um questionamento: O que é mais importante: sermos aplaudidos pelo o mundo, ou abraçados por Deus na eternidade?
No conceito dos homens, ser grande, é possuir bens, é ter poder, fama, enquanto que para  Deus, ser  grande, é  ser o último, é ser àquele  que serve!
Com o seu testemunho, Jesus  nos ensina, que o caminho que nos leva a salvação,  perpassa pelo o caminho da humildade, caminho que Ele mesmo  percorreu,  ora se misturando com os pobres  e marginalizados, ora sentando à mesa da refeição com os seus adversários.
A nossa vida cristã, deve ser  marcada sim, mas não por títulos,  e sim, pela vida de comunhão e acima de tudo, de humildade!
 A humildade é  a característica marcante  de um  verdadeiro seguidor de Jesus, é a virtude que mais nos aproxima da perfeição, que nos torna parecidos com Jesus!  
 Uma pessoa não é humilde de nascença, ela vai tornando humilde à medida que em que ela vai reconhecendo a suas imperfeições, a sua pequenez diante do Senhor!
No final do evangelho, Jesus nos recomenda: “... quando deres um banquete, convide os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois eles não te podem  retribuir!”
Façamos o que Jesus nos recomenda,  mas não fiquemos somente no Banquete lá  da nossa casa,  façamos a diferença, nos   misturando com os excluídos, dentro do espírito da  igualdade no  banquete  da partilha.  

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Deus se revela aos pequenos
Num sábado, dia festivo para os judeus, Jesus foi convidado para almoçar na casa de um ilustre fariseu.
Jesus, cuja fama o precedia, era o convidado de honra e, sendo assim, esperavam que ele se manifestasse de alguma maneira.
Nos banquetes, davam-se aos convidados os lugares à mesa, segundo a dignidade e o prestígio. Notando Jesus que os convidados disputavam os primeiros lugares (v. 7), procurou através de uma parábola expressar uma verdade sobre o Reino de Deus.
No banquete da vida, ensinou Jesus, o homem deve ocupar seu devido lugar. Deve evitar que a ambição o leve a buscar os primeiros lugares, numa espécie de ansiedade de sucesso, querendo chegar lá a qualquer preço, mesmo sem ter as devidas qualificações.
Mas, para entrar no Reino de Deus, o caminho da salvação passa pelo “ser pequeno”, reconhecendo-se pobre diante da grandeza infinita de Deus, isto é, pela vivência da simplicidade, humildade e serviço.
Simplicidade: aquele que busca a Deus deve ter uma conduta transparente, sincera, sem subterfúgios em seu modo de agir e falar, evitando toda duplicidade.
Humildade: a ansiedade em ocupar os primeiros lugares parece fazer parte da própria natureza humana, seja na família, na sociedade, no mundo da política, no trabalho, nos esportes, enfim, em todos os níveis da atuação humana. A humildade leva o homem a conhecer-se a si mesmo, dependente em tudo de Deus. Liberta da angústia de querer ser sempre o primeiro, levando a abrir o coração para Deus e para o irmão. A atitude à mesa, à qual se refere Jesus (v. 8-11), não envolve apenas uma simples cortesia, regras de boas maneiras, mas abrange o mistério do Reino de Deus, do banquete divino.
Deus é o centro de tudo e nada lhe deve ser subtraído. “Ser pequeno” é uma dimensão espiritual de grandeza que o mundo atual pouco valoriza (cf. Lc. 6,20). É a primeira condição para alguém entrar no Reino dos Céus.
Serviço: na Última Ceia Jesus deu uma profunda lição de humildade e serviço: “Qual é o maior? O que está à mesa ou aquele que serve? É o que está à mesa? Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (cf. Lc. 22). “Pois o Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos” (Mc. 10,45).
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Em que consiste a verdadeira humildade? Sigo o exemplo de Jesus no serviço aos irmãos? Deixo-me levar por uma falsa humildade quanto aos dons recebidos? Procuro sempre os primeiros lugares? Sirvo ao próximo com amor abnegado dando sem nada esperar em troca? Meu modo de agir é autêntico, sincero e transparente? Meu coração está aberto para o irmão necessitado?
frei Floriano Surian, ofm

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Jesus é um destes hóspedes que não ficam reféns de seus anfitriões. Já o mostrou a Marta; mostra-o também hoje (evangelho).
O anfitrião é um chefe dos fariseus. A casa está cheia de seus correligionários, não muito bem-intencionados (14,2). Para começar, Jesus aborda o litigioso assunto do repouso sabático, defendendo uma opinião bastante liberal (14,3-6). Depois, numa parábola, critica a atitude dos fariseus, que gostam de ser publicamente honrados por sua virtude, também nos banquetes, onde gostam de ocupar os primeiros lugares.
Alguém que ocupa logo o primeiro lugar num banquete não pode mais ser convidado pelo anfitrião para subir a um lugar melhor; só pode ser rebaixado, se aparecer alguma pessoa mais importante. É melhor ocupar o último lugar, para poder receber o convite de subir mais. Alguém pode achar que isso é esperteza. Mas o que Jesus quer dizer é que, no Reino de Deus, a gente deve estar numa posição de receptividade, não de auto-suficiência.
A segunda parábola relaciona-se também com o banquete: não convidar os que nos podem convidar de volta, mas os que não têm condições para isso. Só assim nos mostraremos verdadeiros filhos do Pai, que nos deu tudo de graça. Claro que esta gratuidade pressupõe a primeira atitude: o saber receber.
Portanto, a mensagem de hoje é: saber receber de graça (humildade) e saber dar a graça (gratuidade). A 1ª leitura sublinha a necessidade da humildade, oposta à auto-suficiência. A 2ª leitura não demonstra muito parentesco temático com a 1ª e o evangelho. Contudo, complementa o tema da gratuidade, mostrando como Deus se tornou, gratuitamente, acessível para nós, em Jesus Cristo. O tom da leitura é de gratidão por este mistério.
Graça, gratidão e gratuidade são os três momentos do mistério da benevolência que nos une com Deus. Recebemos sua “graça”, sua amizade e bem-querer. Por isso nos mostramos agradecidos, conservando seu dom em íntima alegria, que abre nosso coração. E deste coração aberto mana uma generosa gratuidade, consciente de que há mais felicidade em dar do que em receber (cf. At. 20,35). O que não quer dizer que a gente não pode gostar daquilo que recebe. Significa que só atingirá a verdadeira felicidade quem souber dar gratuitamente. Quem só procura receber, será um eterno frustrado.
Com vistas à comunicação na magnanimidade, a humildade não é a prudência do tímido ou do incapaz, nem o medo de se expor, que não passa de egoísmo. A verdadeira humildade é a consciência de ser pequeno e de ter que receber, para poder comunicar. Humildade não é tacanhice, mas o primeiro passo da magnanimidade. Quem é humildade não tem medo de ser generoso, pois é capaz de receber. Gostará de repartir, porque sabe receber; e de receber, para poder repartir. Repartirá, porém, não para chamar a atenção para si, como o orgulhoso que distribui ricos presentes, e sim, porque, agradecido, gosta de deixar seus irmãos participar dos dons que recebeu.
Podemos também focalizar o tema de hoje com uma lente sociológica. Torna-se relevante, então, a exortação ao convite gratuito. Jesus manda convidar pessoas bem diferentes daquelas que geralmente se convidam: em vez de amigos, irmãos, parentes e vizinhos ricos, convidem-se pobres, estropiados, coxos e cegos – ou seja, em vez do círculo social da gente, os marginalizados. E na parábola seguinte, do grande banquete, o “senhor” convida, finalmente, exatamente as quatro categorias mencionadas (Lc. 14,21).
O amor gratuito é limitação do amor de Deus. A autenticidade do amor gratuito se mede pela pouca importância dos beneficiados: crianças, inimigos, marginalizados, enfermos (cf. tb. Mt. 25,31-46). Jesus não proíbe gostar de parentes e vizinhos. Mas realmente imitar o amor gratuito, a hésed de Deus, a gente só o faz na “opção preferencial” pelos que são menos importantes.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Jesus é convidado pela terceira vez à casa de um fariseu. Eles não o convidavam pelo prazer de sua companhia ou por acreditar em suas palavras, o fazem para armar ciladas tentando com isso pegá-lo de surpresa, mas Jesus comparece todas as vezes que é convidado e aproveita para ensinar-lhes o que é realmente importante diante do Pai.
Ao mesmo tempo em que os fariseus observam Jesus para questioná-lo sobre alguma atitude que eles acham impróprias, Jesus também os observa e percebe duas situações importantes, na primeira a preocupação de cada um em sentar-se no melhor lugar à mesa, e dá uma importante lição de humildade, pois quem não se acha o melhor pode ser exaltado, mas quem já se acha melhor que todos, quando aparecer alguém que seja melhor que ele, este será rebaixado.
Na segunda situação Jesus se dirige diretamente ao fariseu que o convidou, e orienta-o a convidar para sua casa os mais humildes, aqueles que não têm como retribuir o convite, pois nesse caso, sim, o convite é de doação e não de barganha.
Esse texto remete a Lc. 6,32-53 onde Jesus convida o povo a um relacionamento de doação, e não ao amor baseado na troca, pois qual o grande mérito de ser amado por quem ama? Até os criminosos mais cruéis têm esse vínculo de afeto. O mérito está em amar com doação a quem não retribui, e esta é a mesma comparação que Jesus faz neste evangelho.
Pequeninos do Senhor

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A primazia dos excluídos
Os excluídos e deserdados estiveram sempre no centro das atenções de Jesus. Este aproveitava todas as oportunidades para dispor os discípulos a acolhê-los e mostrar-se solícitos para com eles, diferentemente do comportamento típico da época.
A refeição na casa do fariseu ofereceu-lhe uma ocasião favorável para isto. Em geral, convida-se para uma ceia, em família, os próprios familiares, as pessoas às quais se quer bem, ou alguém de uma certa importância. Existe quem se preocupa em convidar os ricos, com o intuito de receber também um convite, em contrapartida.
Quiçá fosse esta a mentalidade do chefe dos fariseus, pois é a ele que Jesus dirige a advertência de romper com este esquema. Como? Chamando para o banquete os pobres, estropeados, coxos e cegos. Em suma, os desprezados deste mundo, dos quais seria impossível esperar algo como recompensa. Isto sim, seria a expressão da mais absoluta pureza de coração, característica de quem o tem centrado em Deus. Seria um ato de amor misericordioso, próprio de quem não se deixa escravizar pelo egoísmo.
Tal gesto de bondade não passa despercebido aos olhos do Pai. Por ocasião da ressurreição, quem agiu assim receberá a recompensa devida. Diz o provérbio bíblico: "Quem dá aos pobres, empresta a Deus". Pois bem, quem se mostra generoso com os excluídos deste mundo, pode estar seguro de estar atraindo sobre si a misericórdia divina.
padre Jaldemir Vitório


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“Jesus ocupou de tal forma o último lugar que ninguém lho pode tirar.” Este pensamento foi desenvolvido por um padre na igreja de santo Agostinho, em Paris, na França. padre Huvelin, assim ele se chamava, e era um homem santo e um grande pregador. Meditando o Evangelho, ele via como Jesus procurava sempre o último lugar. O Bem-aventurado Irmão Carlos de Jesus ouviu uma das pregações desse padre sobre o último lugar. Mais tarde, meditando sobre a encarnação do Filho de Deus, o Irmão Carlos escreveu: “A encarnação tem sua fonte na bondade de Deus, mas uma coisa aparece logo tão maravilhosa, reluzente e espantosa, a brilhar como um sinal ofuscante: é a humildade infinita que tal mistério contém. Deus, o ser, o infinito, o perfeito, o criador todo-poderoso, imenso, soberano mestre de tudo, fazendo-se homem, unindo-se a uma alma e a um corpo humanos, aparecendo na terra como um homem, e como o último dos homens.... Eu devo procurar sempre o último dos últimos lugares, para ser tão pequeno quanto meu mestre, para estar com ele, para caminhar atrás dele, passo a passo, como um servo fiel, fiel discípulo... para viver com meu Deus que assim viveu toda a sua vida e me dá o exemplo em seu nascimento...”.
Em outra oportunidade, Irmão Carlos escreveu: “Ele desceu com ele e foi a Nazaré. Toda sua vida ele só fez descer, descer ao se encarnar, descer fazendo-se criança, descer obedecendo, descer tornando-se pobre, abandonado, exilado, perseguido, supliciado, pondo-se sempre no último lugar”.
O último lugar é o lugar de Jesus. Ele mesmo nos ensina a não procurar o primeiro lugar, porque quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado. Em consequência, nossas atitudes terão a marca da gratuidade: nada fazer em vista de recompensa e reconhecimento. As ações gratuitas se fazem por puro amor. O exemplo da festa para a qual se convidam os pobres, os coxos e os aleijados, e não parentes, amigos, ou vizinhos ricos, é um exemplo, não um preceito, mas um exemplo claro e forte de atitude gratuita.
O livro do Eclesiástico exalta a sabedoria da humildade. O último lugar e a gratuidade são próprios de pessoas sábias e simples, capazes de se situarem em qualquer lugar e relacionarem-se com qualquer pessoa. O que sabem e o que têm estão a serviço dos demais, por isso sua atitude despretenciosa. Do último lugar elas veem o conjunto e podem tornar-se sempre mais prestativas. Como não pretendem nada, a não ser a glória de Deus e o bem do próximo, sua presença é humilde e agradável, gratuita e significativa. A gratuidade de sua amizade as tornam sinceras e verdadeiras. Do último lugar é possível ver o conjunto, o monte Sião e a cidade de Deus, a reunião festiva de milhões de anjos, a assembleia dos que têm seu nome escrito nos céus. Esta visão dá segurança e desfaz qualquer ilusão, reanimando a esperança. No último lugar cessam as ilusões e se ressalta a esperança. Cada coisa adquire o seu valor, e um novo valor, real, verdadeiro. O último lugar deixa de ser numérico ou geográfico. É um estado de vida, uma maneira de ser, e será o lugar mais importante porque você o ocupa.
cônego Celso Pedro da Silva



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Um convite à generosidade
Jesus continua sua subida para Jerusalém. À medida que faz seu caminho para o Pai, ele vai instruindo os seus discípulos. Um israelita de verdade mantém os ouvidos sempre abertos, pois ele sabe que toda sabedoria vem de Deus, e se deixa instruir por Deus: “O homem sensato medita as máximas em sua oração, ouvido atento, eis o que o sábio deseja” (Eclo 3,29).
O episódio do evangelho deste domingo se dá durante uma refeição, “na casa de um dos chefes fariseus” (v. 1). Duas outras vezes Jesus foi, segundo Lucas, a uma refeição na casa de fariseus (7,36; 11,37). Há entre Jesus e os fariseus uma mescla de simpatia e resistência. Os fariseus, efetivamente, desejam viver fielmente sua religião e creem servir a Deus através de suas práticas, sobretudo, uma determinada prática da Lei.
Mas a rigidez quase obsessiva os cega, liga-os de modo estreito à letra do texto; a Lei de Deus é para eles um conjunto de regras e preceitos. Esse modo de cumprir a Lei, que eles julgavam ser o correto, fazia com que se esquecessem do essencial da Lei: o amor a Deus e o amor fraterno. Tal modo de interpretar a Lei os impedia de olhar para os outros com misericórdia e pôr em prática a palavra do Senhor: “É misericórdia que eu quero, e não sacrifícios” (Os. 6,6).
A refeição na casa de um dos chefes dos fariseus acontece num sábado, dia dado pelo Senhor para celebrar o dom da vida, através da obra da criação, e a libertação do país da escravidão.
Mesmo que em nosso relato os interlocutores sejam os que estavam na casa dos fariseus, são os discípulos os instruídos; é a comunidade cristã que deve aprender como se comportar no novo tempo. A instrução é motivada pela observação de “como os convidados escolhiam os primeiros lugares” (v. 7). A parábola utiliza a imagem do casamento, em que os lugares já eram predeterminados.
Há duas lições: o lugar é recebido de quem convidou para a festa (cf. v. 8-11). Certamente é outro modo de dizer: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles” (Mt. 6,1; ver também: Pr. 25,6-7). A segunda é um convite à generosidade: “... quando deres um banquete, convida os [que] não têm como te retribuir!” (cf. vv. 12-14). É preciso renunciar ao anseio de recompensa ou retribuição: “Se amais os que vos amam, que graça alcançais? Até mesmo os pecadores agem assim. Se fazeis o bem aos que no-lo fazem, que graça alcançais? Até mesmo os pecadores agem assim… E se emprestais àqueles de quem esperais receber, que graça alcançais?... Fazei o bem e empresteis sem esperar coisa alguma em troca” (Lc. 6,32-35).
Carlos Alberto Contieri,sj


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Engana-se quem pensa que o Evangelho de hoje é um guia de etiqueta e de boas maneiras em banquetes e recepções. Nada disso! Jesus pensa, aqui, no banquete do Reino, que é preparado pelo banquete da vida; sim, porque somente participará do banquete do Reino quem souber portar-se no banquete da vida!
E neste banquete, no daqui, no desta vida, o Senhor hoje nos estimula a duas atitudes, dois comportamentos profundamente evangélicos. Primeiramente, a humildade: “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento (Tu foste: a festa das Núpcias de Cristo com a Igreja, festa da Nova Aliança do Reino), não ocupes o primeiro lugar... Vai sentar-te no último... Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’”. O que é ser humilde? Humildade deriva de humus, pó, lama, barro... Ser humilde é reconhecer-se dependente diante de Deus, é saber-se pobre, limitado diante do Senhor. Quem é assim, sabe avaliar-se na justa medida porque sabe ver-se à luz do Senhor! O humilde tem diante de si a sua própria verdade: é pobre, é indigente, mas infinitamente agraciado e amado por Deus. Por isso, o humilde é livre e, porque livre, manso. Tinha razão Santa Teresa de Jesus quando afirmava que a humildade é a verdade. O humilde vê-se na sua verdade porque vê-se como Deus o vê, vê-se com os olhos de Deus! Então, o humilde é aberto para o Senhor, dele reconhece que é dependente, e a ele se confia. Podemos, assim, compreender as palavras do Eclesiástico: "Filho, realiza teus trabalhos com mansidão; na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor. O Senhor é glorificado nos humildes”. É assim, porque somente o humilde, que reconhece que depende de Deus, pode ser aberto, e acolher como uma criança o Reino que Jesus veio trazer.
A segunda atitude que o Cristo hoje nos ensina é a gratuidade: “Quando deres uma festa (Tu dás: a festa da vida que o Senhor te concedeu e, mais ainda da vida nova em Cristo, recebida no Batismo e celebrada na Eucaristia), convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”. A gratuidade é a virtude que dar sem esperar nada em troca, dar e sentir-se feliz, sentir-se realizada no próprio dar. Se prestarmos bem atenção, a gratuidade é filha da humildade. Só quem sabe de coração que em tudo depende de Deus e de Deus tudo recebeu gratuitamente (humilde), também sente-se impelido a imitar a atitude de Deus: dar gratuitamente! “De graça recebestes, de graça dai!” (Mt 10,8) ou, como dizia Santa Teresinha do Menino Jesus: “Viver de amor é dar sem medida, sem nesta terra salário reclamar; sem fazer conta eu dou, pois convencida de que quem ama já não sabe calcular!” Pois bem, quem faz crescer em si a humildade e cultiva a gratuidade, experimenta a Deus e seu Reino, pois aprende a sentir o coração do próprio Deus, que tudo nos deu gratuitamente. Quem cultiva a humildade e a gratuidade, deixa o Reino ir entrando em si e entrará, um dia, no Reino de Deus!
Mas, se pensarmos bem, nada disso é fácil, pois vivemos no mundo da auto-suficiência e dos resultados. O homem já não mais se sente dependente de Deus; deseja ele mesmo fazer a vida do seu modo. Assim, se fecha para Deus e, para ele se fechando, já não mais reconhece no outro um irmão e, não experimentando a misericórdia gratuita de Deus, já não sabe mais dar gratuitamente: tudo tem que ter retorno, tudo tem que apresentar contrapartida, tudo tem que, cedo ou tarde, dá lucro, tudo é pensado na lógica do custo-benefício. Como é triste a vida, quando é vivida assim... Mas, não será o nosso caso? Pensemos bem, porque se assim o for, jamais experimentaremos Deus de verdade, jamais conhecê-lo-emos de verdade. Nunca é demais recordar a advertência da Escritura: “Quem não ama não conhece a Deus!” (1Jo 4,8)
Aproximemo-nos de “Jesus, mediador da nova aliança”, e supliquemos a graça de um coração renovado, um coração convertido, um coração de pensamentos novos e novas atitudes! Que durante toda esta semana tenhamos a coragem de analisar e revisar nossas atitudes em casa, com os amigos e próximos, com os companheiros de trabalho e de estudo... e examinemo-nos diante do Cristo nosso Deus, no que diz respeito à humildade e à gratuidade. Recordemos que se tratam de duas atitudes de farão nosso coração pulsar em sintonia com o coração de Deus. Recordemos, como dizia São Bento, que pela humildade se sobe e pela soberba se desce! Para onde se sobe? Para o banquete do Reino de Deus. Para onde se desce? Para a penúria do anti-Reino, do reino de Satanás! Peçamos, suplicando, ao Senhor, a graça da conversão, que somente com nossas forças somos incapazes e impotentes para encetar! Que Deus no-la conceda.
dom Henrique Soares da Costa


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A liturgia deste domingo propõe-nos uma reflexão sobre alguns valores que acompanham o desafio do “Reino”: a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado.
O Evangelho coloca-nos no ambiente de um banquete em casa de um fariseu. O enquadramento é o pretexto para Jesus falar do “banquete do Reino”. A todos os que quiserem participar desse “banquete”, Ele recomenda a humildade; ao mesmo tempo, denuncia a atitude daqueles que conduzem as suas vidas numa lógica de ambição, de luta pelo poder e pelo reconhecimento, de superioridade em relação aos outros…
Jesus sugere, também, que para o “banquete do Reino” todos os homens são convidados; e que a gratuidade e o amor desinteressado devem caracterizar as relações estabelecidas entre todos os participantes do “banquete”.
Na primeira leitura, um sábio dos inícios do séc. II a.C. aconselha a humildade como caminho para ser agradável a Deus e aos homens, para ter êxito e ser feliz. É a reiteração da mensagem fundamental que a Palavra de Deus hoje nos apresenta.
A segunda leitura convida os crentes instalados numa fé cômoda e sem grandes exigências, a redescobrir a novidade e a exigência do cristianismo; insiste em que o encontro com Deus é uma experiência de comunhão, de proximidade, de amor, de intimidade, que dá sentido à caminhada do cristão. Aparentemente, esta questão não tem muito a ver com o tema principal da liturgia deste domingo; no entanto, podemos ligar a reflexão desta leitura com o tema central da liturgia de hoje – a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado – através do tema da exigência: a  vida cristã – essa vida que brota do encontro com o amor de Deus – é uma vida que exige de nós
determinados valores e atitudes, entre os quais avultam a humildade, a simplicidade, o amor que se faz dom.
1º leitura: Sir. 3,19-21.30-31
Jesus Ben Sira é, no entanto, um judeu tradicional, orgulhoso da sua fé e dos valores israelitas. Consciente de que o helenismo ameaçava as raízes do seu Povo, vai escrever para defender o patrimônio religioso e cultural do judaísmo. Procura convencer os seus compatriotas de que Israel possui, na sua “Torah” revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” – uma “sabedoria” muito superior à “sabedoria” grega.
Aos israelitas seduzidos pela cultura grega, Jesus Ben Sira lembra a herança comum, procurando sublinhar a grandeza dos valores judaicos e demonstrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega.
O texto que nos é proposto pertence à primeira parte do livro (cf. Ben Sira 1,1-23,38).
Aí fala-se da “sabedoria”, criada por Deus e oferecida a todos os homens. Nesta parte, dominam os “ditos” e “provérbios” que ensinam a arte de bem viver e de ser feliz.
MENSAGEM
O texto apresenta-se como uma “instrução” que um pai dá ao seu filho. O tema fundamental desta “instrução” é o da humildade.
Para Jesus Ben Sira, a humildade é uma das qualidades fundamentais que o homem deve cultivar. Garantir-lhe-á estima perante os homens e “graça diante do Senhor”.
Não se trata de uma forma de estar e de se apresentar reservada aos mais pobres e menos preparados; mas trata-se de algo que deve ser cultivado por todos os homens, a começar por aqueles que são considerados mais importantes. O autor não entra em grandes pormenores; limita-se a afirmar a importância da humildade e a propô-la, sem grandes desenvolvimentos nem explicações. O “sábio” autor destas “máximas” não tem dúvida de que é na humildade e na simplicidade que reside o segredo da “sabedoria”, do êxito, da felicidade.
ATUALIZAÇÃO
Para a reflexão e partilha, considerar os seguintes dados:
♦ Ser humilde significa assumir com simplicidade o nosso lugar, pôr a render os nossos talentos, mas sem nunca humilhar os outros ou esmagá-los com a nossa superioridade. Significa pôr os próprios dons ao serviço de todos, com simplicidade e com amor. Quando somos capazes de assumir, com simplicidade e desprendimento, o nosso papel, todos reconhecem o nosso contribuição, aceitam-nos, talvez nos admirem e nos amem… É aí que está a “sabedoria”, quer dizer, o segredo do êxito e da felicidade.
♦ Ser soberbo significa que “a árvore da maldade criou raízes” no homem. O homem que se deixa dominar pelo orgulho torna-se egoísta, injusto, auto-suficiente e despreza os outros. Deixa de precisar de Deus e dos outros homens; olha todos com superioridade e pratica, com frequência, gestos de prepotência que o tornam temido, mas nunca admirado ou amado. Vive à parte, num egoísmo vazio e estéril.
Embora seja conhecido e apareça nas colunas sociais, está condenado ao fracasso. É o “anti-sábio”.
♦ É preciso que os dons que possuímos não nos subam à cabeça, não nos levem a poses ridículas de orgulho, de superioridade, de desprezo pelos nossos irmãos. É preciso reconhecer, com simplicidade, que tudo o que somos e temos é um dom de Deus e que as nossas qualidades não dependem dos nossos méritos, mas do amor de Deus.
2º leitura: Hb. 12,18-19.22-24ª - AMBIENTE
Estamos na quinta parte da Carta aos Hebreus (cf. 12,14-13,19). Depois de pedir a perseverança e a constância nas provas (cf. Heb 12,1-13), o autor vai pedir uma conduta consequente com a fé cristã: os crentes são exortados a manter e cultivar relações harmoniosas, adequadas, justas, para com os homens e para com Deus.
Neste texto, em concreto, o autor convida os destinatários da carta à fidelidade à vocação cristã. Para isso, estabelece um paralelo entre a antiga religião (que os destinatários da carta conheciam bem) e a nova proposta de salvação que Cristo veio apresentar. Os crentes são, assim, convidados a redescobrir a novidade do cristianismo – essa novidade que, um dia, os atraiu e motivou – e a aderir a ela com entusiasmo… Recordemos – para que as coisas façam sentido – que o escrito se destina a uma comunidade instalada, preguiçosa, que precisa descobrir os fundamentos reais da sua fé e do seu compromisso, a fim de enfrentar – com coragem e com êxito – os tempos difíceis de perseguição e de martírio que se aproximam.
MENSAGEM
O autor estabelece um profundo contraste entre a experiência de comunhão com Deus que Israel fez no Sinai e a experiência cristã.
A experiência do Sinai é descrita como uma experiência religiosa que gerou medo, opressão, mas não relação pessoal, proximidade, amor, comunhão, intimidade, confiança – nem com Deus, nem com os outros membros da comunidade do Povo de Deus. O quadro da revelação do Sinai é um quadro terrífico, que não fez muito para aproximar os homens de Deus, num verdadeiro encontro alicerçado no amor e na confiança. Por isso, não há que lamentar o desaparecimento de um tal sistema.
Na experiência cristã, em contrapartida, não há nada de assustador, de terrível, de opressivo. Pelo batismo, os cristãos aproximaram-se do próprio Deus, numa experiência de proximidade, de comunhão, de intimidade, de amor verdadeiro… A experiência cristã é, portanto, uma experiência festiva, de verdadeira alegria. Por essa experiência, os cristãos associaram-se a Deus, o santo, o juiz do universo, mas também o Deus da bondade e do amor; foram incorporados em Cristo, o mediador da nova aliança, irmanados com Ele, tornados co-herdeiros da vida eterna; associaram-se aos anjos, numa existência de festa, de louvor, de ação de graças, de adoração, de contemplação; associaram-se aos outros justos que atingiram a vida plena, numa comunhão fraterna de vida e de amor.
A questão que fica no ar – mesmo se não é formulada explicitamente – é: não vale a pena apostar incondicionalmente nesta experiência e vivê-la com entusiasmo?
ATUALIZAÇÃO
A reflexão e a atualização podem fazer-se a partir das seguintes linhas:
♦ A questão fundamental deste texto e do ambiente que o enquadra é propor-nos uma redescoberta da nossa fé e do sentido das nossas opções, a fim de superarmos a instalação, o comodismo e a preguiça que nos levam, tantas vezes, a uma caminhada cristã morna, sem exigências, sem compromissos, que facilmente cede e recua quando aparecem as dificuldades e os desafios…
♦ Jesus intimou-nos a superar a perspectiva de um Deus terrível, opressor, vingativo, de Quem o homem se aproxima com medo; em seu lugar, Ele apresentou-nos a religião de um Deus que é Pai, que nos ama, que nos convoca para a comunhão com Ele e com os irmãos e que insiste em associar-nos como “filhos” à sua família. Tenho consciência de que este é o verdadeiro rosto de Deus e que o Deus terrível, de quem o homem não se pode aproximar, é uma invenção dos homens?
Evangelho: Lc. 14,1.7-14 - AMBIENTE
Esta etapa do “caminho de Jerusalém” põe Jesus à mesa, em dia de sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus. Deve tratar-se da refeição solene de sábado, que se tomava por volta do meio-dia, ao voltar da sinagoga. Para ela deviam convidar-se os hóspedes; durante a refeição, continuava-se a discussão sobre as leituras escutadas durante o ofício sinagogal.
Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus tão próximos de Jesus que até o convidam para casa e se sentam à mesa com Ele (cf. Lc. 7,36; 11,37). É provável que se trate de uma realidade histórica, embora Marcos e Mateus apresentem os fariseus como os adversários por excelência de Jesus (Mateus apresenta tal quadro influenciado, sem dúvida, pelas polêmicas da Igreja primitiva com os fariseus).
Os fariseus formavam um dos principais grupos religioso-políticos da sociedade palestina desta época. Dominavam os ofícios sinagogais e estavam presentes em todos os passos religiosos dos israelitas. A sua preocupação fundamental era transmitir a todos o amor pela Torah, quer escrita, quer oral. Tratava-se de um grupo sério, verdadeiramente empenhado na santificação do Povo de Deus; mas, ao absolutizarem a Lei, esqueciam as pessoas e passavam por cima do amor e da misericórdia. Ao considerarem-se a si próprios como “puros” (porque viviam de acordo com a Lei), desprezavam o “am aretz” (o “povo do país”) que, por causa da ignorância e da vida dura que levava, não podia cumprir integralmente os preceitos da Lei.
Conscientes das suas capacidades, da sua integridade, da sua superioridade, não eram propriamente modelos de humildade. Isso talvez explique o ambiente de luta pelos lugares de honra que o Evangelho refere.
Convém, também, ter em conta que estamos no contexto de um “banquete”. O “banquete” é, no mundo semita, o espaço do encontro fraterno, onde os convivas partilham do mesmo alimento e estabelecem laços de comunhão, de proximidade, de familiaridade, de irmandade. Jesus aparece, muitas vezes, envolvido em banquetes, não porque fosse “comilão e bêbedo” (cf. Mt. 11,19), mas porque, ao ser sinal de comunhão, de encontro, de familiaridade, o banquete anuncia a realidade do “reino”.
MENSAGEM
O texto apresenta duas partes. A primeira (vs. 7-11) aborda a questão da humildade; a segunda (vs. 12-14) trata da gratuidade e do amor desinteressado. Ambas estão unidas pelo tema do “Reino”: são atitudes fundamentais para quem quiser participar no banquete do “Reino”.
As palavras que Jesus dirigiu aos convidados que disputavam os lugares de honra não são novidade, pois já o Antigo Testamento aconselhava a não ocupar os primeiros lugares (cf. Pr. 25,6-7); mas o que aí era uma exortação moral, nas palavras de Jesus converte-se numa apresentação do “Reino” e da lógica do “Reino”: o “Reino” é um espaço de irmandade, de fraternidade, de comunhão, de partilha e de serviço, que exclui qualquer atitude de superioridade, de orgulho, de ambição, de domínio sobre os outros; quem quiser entrar nele, tem de fazer-se pequeno, simples, humilde e não ter pretensões de ser melhor, mais justo, ou mais importante que os outros. Esta é, aliás, a lógica que Jesus sempre propôs aos seus discípulos: Ele próprio, na “ceia de despedida”, comida com os discípulos na véspera da sua morte, lavou os pés aos discípulos e constituiu-os em comunidade de amor e de serviço – avisando que, na comunidade do “Reino”, os primeiros serão os servos de todos (cf. Jo 13,1-17).
Na segunda parte, Jesus põe em causa – em nome da lógica do “Reino” – a prática de convidar para o banquete apenas os amigos, os irmãos, os parentes, os vizinhos ricos.
Os fariseus escolhiam cuidadosamente os seus convidados para a mesa. Nas suas refeições, não convinha haver alguém de nível menos elevado, pois a “comunidade de mesa” vinculava os convivas e não convinha estabelecer obrigatoriamente laços com gente desclassificada e pecadora (por exemplo, nenhum fariseu se sentava à mesa com alguém pertencente ao “am aretz”, ao “povo da terra”, desclassificado e pecador).
Por outro lado, também os fariseus tinham a tendência – própria de todas as pessoas, de todas as épocas e culturas – de convidar aqueles que podiam retribuir da mesma forma… A questão é que, dessa forma, tudo se tornava um intercâmbio de favores e não gratuidade e amor desinteressado.
Jesus denuncia – em nome do “Reino” – esta prática; mas vai mais além e apresenta uma proposta verdadeiramente subversiva… Segundo Ele, é preciso convidar “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”. Os cegos, coxos e aleijados eram considerados pecadores notórios, amaldiçoados por Deus, e por isso estavam proibidos de entrar no Templo (cf. 2Sm. 5,8) para não profanar esse lugar sagrado (cf. Lv. 21,18-23). No entanto, são esses que devem ser os convidados para o “banquete”.
Já percebemos que, aqui, Jesus já não está simplesmente a falar dessa refeição comida em casa de um fariseu, na companhia de gente distinta; mas está já a falar daquilo que esse “banquete” anuncia e prefigura: o banquete do “Reino”.
Jesus traça aqui, portanto, os contornos do “Reino”. Ele é apresentado como um “banquete”, onde os convidados estão unidos por laços de familiaridade, de irmandade, de comunhão. Para esse “banquete”, todos – sem exceção – são convidados (inclusive àqueles que a cultura social e religiosa tantas vezes exclui e marginaliza). As relações entre os que aderem ao banquete do “Reino” não serão marcadas pelos jogos de interesses, mas pela gratuidade e pelo amor desinteressado; e os participantes do “banquete” devem despir-se de qualquer atitude de superioridade, de orgulho, de ambição, para se colocarem numa atitude de humildade, de simplicidade, de serviço.
ATUALIZAÇÃO
♦ Na nossa sociedade, agressiva e competitiva, o valor da pessoa mede-se pela sua capacidade de se impor, de ter êxito, de triunfar, de ser o melhor… Quem tem valor é quem consegue ser presidente do conselho de administração da empresa
aos trinta e cinco anos, ou o empregado com mais índices de venda, ou o condutor que, na estrada, põe em risco a sua vida, mas chega uns segundos à frente dos outros… Todos os outros são vencidos, incapazes, fracos, olhados com comiseração. Vale a pena gastar a vida assim? Estes podem ser os objetivos supremos, que dão sentido verdadeiro à vida do homem?
♦ A Igreja, fruto do “Reino”, deve ser essa comunidade onde se torna realidade a lógica do “Reino” e onde se cultivam a humildade, a simplicidade, o amor gratuito e desinteressado. É-o, de fato?
♦ Assistimos, por vezes, a uma corrida desenfreada na comunidade cristã pelos primeiros lugares. É uma luta – para alguns de vida ou de morte – em que se recorre a todos os meios: a intriga, a exibição, a defesa feroz do lugar conquistado, a humilhação de quem faz sombra ou incomoda… Para Jesus, as coisas são bastante claras: esta lógica não tem nada a ver com a lógica do “Reino”; quem prefere esquemas de superioridade, de prepotência, de humilhação dos outros, de ambição, de orgulho, está a impedir a chegada do “Reino”. Atenção: isto talvez não se aplique só àquela pessoa da nossa comunidade que detestamos e cujo nome nos apetece dizer sempre que ouvimos falar em gente que só gosta de mandar e se considera superior aos outros; isto talvez se aplique também em maior ou menor grau, a mim próprio.
♦ Também há, na comunidade cristã, pessoas cuja ambição se sobrepõe à vontade de servir… Aquilo que os motiva e estimula são os títulos honoríficos, as honras, as homenagens, os lugares privilegiados, as “púrpuras”, e não o serviço humilde e o amor desinteressado. Esta será uma atitude consentânea com a pertença ao “Reino”?
♦ Fica claro, na catequese que Lucas hoje nos propõe, que o tipo de relações que unem os membros da comunidade de Jesus não se baseia em “critérios comerciais” (interesses, negociatas, intercâmbio de favores), mas sim no amor gratuito e desinteressado. Só dessa forma todos – inclusive os pobres, os humildes, aqueles que não têm poder nem dinheiro para retribuir os favores – aí terão lugar, numa verdadeira comunidade de amor e de fraternidade.
♦ Os cegos e coxos representam, no Evangelho que hoje nos é proposto, todos aqueles que a religião oficial excluía da comunidade da salvação; apesar disso, Jesus diz que esses devem ser os primeiros convidados do “banquete do Reino”.
Como é que os pecadores notórios, os marginais, os divorciados, os homossexuais, as prostitutas são acolhidos na Igreja de Jesus?

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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