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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

23º DOMINGO TEMPO COMUM-C

23º DOMINGO TEMPO COMUM

4 de Setembro de 2016-Ano C

1ª Leitura - Sb 9,13-18

Salmo - Sl 89


2ª Leitura - Fm 9b-10.12-17


Evangelho - Lc 14,25-33



Por onde Jesus nadava, Ele era seguido, acompanhado por muita gente. Pessoas que buscavam principalmente o alívio dos seus sofrimentos através da cura. E depois de curados, muitos continuavam seguindo Jesus para ouvir suas belas palavras de conforto, e de esperança de vida. Jesus era manso e humilde, e se dirigia a todos com carinho e atenção.  Continua

PRIMEIRA LEITURA



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“QUEM NÃO CARREGA SUA CRUZ E NÃO CAMINHA  ATRÁS DE MIM, NÃO PODE SER MEU DISCÍPULO.” – Olivia Coutinho.

23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 04 de Setembro de 2016

Evangelho de Lc14,25-33

Estamos no Mês da Bíblia, tempo em que a Igreja nos convida a abrirmos mais vezes, este livro sagrado, a fim de que possamos nos aprofundar mais na palavra de Deus, palavra que orienta, que liberta, que nos aponta o caminho da vida!
Numa comunidade cristã, que alimenta a sua intimidade com a Bíblia, sempre haverá  mudanças significativas, tanto na catequese, quanto na liturgia como também no cotidiano das pessoas, pois através da leitura profunda da Bíblia, todos vão se inteirando do querer de Deus e se colocando a seu dispor!
Cada dia é uma oportunidade que Deus nos concede para que possamos rever a  nossa vida e  nos reorganizar interiormente, esvaziando  do nosso “eu”  para dar espaço ao que é de Deus!  É assim, que vamos assentando os nossos passos, nos passos de Jesus!
A cada amanhecer de um novo dia, Deus coloca em nossas mãos, uma página em branco, na qual, devemos  escrever mais um capítulo da nossa história! O que vamos escrever, vai depender das nossas escolhas, uma coisa é certa: quem coloca Jesus como centralidade da sua vida, com certeza escreverá uma bela história!
As palavras de Jesus, no evangelho que a liturgia de hoje coloca diante de nós, podem nos deixar um tanto apreensivos, pois são palavras bastante  exigentes!
O texto nos diz, que grandes multidões acompanhavam Jesus, é evidente,  que Jesus sabia que nem todos os que o acompanhavam, estavam dispostos a enfrentar os desafios do seguimento a Ele! A grande maioria não tinha sequer noção do que implicaria este seguimento! Voltando-se para a multidão, Jesus é taxativo em dizer, que o seguimento Ele, é exigente, implica em mudança radical de vida, exige muito mais do que boa vontade, do que entusiasmo exige compromisso, fidelidade, disposição de deixar muitas coisas para trás!
O seguimento à Jesus, exige também, consciência do rumo a ser tomado, exige despojamento, em assumir a cruz de cada dia! O caminho do Senhor perpassa pela prática da justiça, do compromisso com a vida em toda a sua dimensão. Para triá-lo, é preciso planejamento,  fazer cálculos sim, para não corrermos o risco de iniciar  uma caminhada e não concluí-la, isto é: abandoná-la no meio do percurso, não chegar ao nosso destino, que é o coração do Pai, ponto de chegada desta caminhada!
Antes de tomarmos a decisão de seguir Jesus, precisamos nos inteirar bem do que envolve este seguimento, afinal, se trata de investir a própria existência na proposta de Jesus! Não podemos correr o risco de entrar no barco de Jesus, e desistir ao primeiro obstáculo, o que seria um grande fracasso em nossa vida! Precisamos estar seguros do que queremos, pois nossa opção por Jesus tem que ser radical, devemos nos entregar a  Ele por inteiros, Ele não nos quer pela metade!
Se estamos dispostos a nos entregarmos  a  Jesus, não podemos estar presos a nada, nada e ninguém deve ser mais importante do que o seguimento a Ele!
O desapego deve ser o primeiro passo de quem quer seguir Jesus,  desapego, tanto das coisas materiais, como  da família e até mesmo da própria vida! Estas exigências de Jesus, à princípio podem nos assustar, mas se meditarmos um pouco mais as suas palavras, vamos compreender que o que Jesus quer, é que nós, coloquemos o seguimento a Ele como prioridade em nossa vida, o que não significa abandonar a nossa família! 
Colocar o seguimento à Jesus na frente de tudo, até da própria vida,  é a certeza de vivermos bem todos os nossos relacionamentos, pois espelhando em Jesus, vamos aprendendo a  sermos  mais flexíveis, a conviver com as diferenças, a respeitar o outro, a amar de forma ordenada, sem aprisionar e sem se deixar  aprisionar! Eis aí, os grandes benefícios de colocarmos Jesus como prioridade em nossa vida!
Não basta ser cristão,  é preciso ser discípulo, caminhar com Jesus, aprender com Ele!
Ser apenas um cristão, é muito fácil,  difícil mesmo, é ser discípulo! Ser discípulo, implica em comprometimento com a causa de Jesus, é estar com Ele para o que der e vier!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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“Quem não carrega a sua cruz e não vem após mim, não pode ser o meu discípulo” (Lc. 14,27). Essa emblemática frase dita por Jesus, conservada pela comunidade lucana, nos coloca na condição do seguimento, do caminho. Caminho, em hebraico derek, é o que nos lembra o texto das bem-aventuranças (Mt. 5,1-12 e Lc. 6,20-23). Ser um bem-aventurado é pôr-se em marcha, estar a caminho. É como se Jesus dissesse: “Em marcha os que têm sede e fome de justiça – continuem nessa luta, nesse caminho, porque vocês serão saciados” (Mt. 5,6). Quem está em marcha é um bem-aventurado, pois está a caminho. E o caminho é dinâmico e exige estar de pé, disposto a não parar nunca. O bem-aventurado é aquele que caminha em Deus.
As leituras de hoje nos colocam, inevitavelmente, nesse caminho do seguimento de Jesus, o qual exige: sabedoria, amor ao excluído, reflexão e cruz. O que significa para nós seguir Jesus, tendo a cruz como caminho? O sofrimento salva? Como ser sábio no seguimento de Jesus? Eis algumas questões para a homilia deste domingo.
1º leitura (Sb. 9,13-19): o caminho da sabedoria
A primeira leitura deve ser compreendida a partir dos capítulos anteriores e, sobretudo, de Sb. 9,1-12, a oração do rei Salomão, na qual ele pede sabedoria para governar Israel. O seu contexto é a comunidade judaica radicada em Alexandria, no Egito. Salomão descreve a sua vida, igual à de todos os mortais, desde o nascimento, mas diferente, porque ele pediu a Deus e dele recebeu, como dom, a sabedoria. Sabedor de que a sabedoria é divina, ele diz que a prefere aos cetros e tronos, considerados bens terrenos preciosos. “Amei-a mais que a saúde e a beleza e me propus tê-la como luz” (Sb. 7,10), afirma Salomão. E ele ainda acrescenta que todos os seus bens materiais – uma riqueza incalculável, provêm da sabedoria (7,11).
Para o povo da Bíblia, a sabedoria vem de Deus. Ela se personifica, torna-se visível, na Torá, na Palavra de Deus. Os judeus cristãos dirão, mais tarde, que Jesus é a Sabedoria de Deus (1Cor. 1,24). Viver a Palavra de Deus em profundidade é ser sábio. Salomão incorporou a sabedoria no seu reino. Instituiu homens como sábios para recolher a sabedoria popular. A sua sabedoria foi notória entre todos os reinos da época. Verdade ou não, essa corrente de pensamento bíblico celebrizou Salomão como o grande sábio de Israel. Por isso, ele nem precisava perguntar a Deus o que deveria fazer para se salvar, pois sabia o caminho e o ensinava a todos.
A terceira parte da oração de Salomão, que constitui a nossa primeira leitura de hoje, constata que ao ser humano não compete conhecer o desígnio de Deus. Como criaturas, somos limitados. Temos um corpo corruptível que pesa sobre a alma. O corpo é uma tenda de argila que oprime a mente. Em outras palavras: o corpo impede o caminho da alma para o espiritual, o imortal e o celestial. Outros textos do Primeiro e do Segundo Testamentos – usamos as terminologias Primeiro e Segundo Testamentos, antes da Era Comum (a.E.C.) e Era Comum (E.C.) por razões ecumênicas com os judeus, que tratam dessas três questões – são: Rm 7,23; Gl. 7,17; Is. 38,22; Jó 4,19; 2Cor. 4,7; 5,1.4; 2Pd. 1,13; 1Pd. 1,13. Também a filosofia da época, Platão, Cícero, Sêneca e Horácio, tem afinidade com esse texto do livro da Sabedoria.
Qual é, então, a diferença do pensamento judeu, expresso no livro da Sabedoria, para essas filosofias? A resposta é: para o autor de Sabedoria, alma e corpo são sinônimos de uma mesma realidade. Elas não têm dois caminhos diversos e uma não é prisão da outra. E o que é mais evidente: os caminhos de Deus somente podem ser conhecidos com o dom da sabedoria dada ao ser humano e vinda dos céus como santo espírito (17). Aqui está a essência da oração de Salomão. A salvação do ser humano do Primeiro Testamento consiste em proteção divina diante dos perigos naturais e iminentes. Um caminho perfeito no seguimento da Torá (Lei/conduta) só será possível com o dom da sabedoria, que Deus envia do céu pelo seu espírito (v. 17). Salomão sabia disso. Será que os nossos governantes modernos têm consciência desse fato? Estamos próximos ao período eleitoral. Entre nossos políticos, encontramos pessoas sábias para nos governar?
Em relação aos judeus de Alexandria, o livro da Sabedoria aponta o caminho a partir da oração de Salomão, da qual eles haviam se apropriado, para resistir com fé diante do mundão pagão das filosofias gregas. Os cristãos, mais tarde, irão questionar e rejeitar a filosofia grega – Tertuliano dirá: “O que tem Atenas a ver com Jerusalém?”, mas acabarão assimilando seus valores no cristianismo.
Evangelho (Lc. 14,25-33): condições para seguir o Mestre Jesus
Só quem se coloca na dinâmica do mestre, daquele que ensina, é que pode manter-se no caminho. O caminho se faz caminhando, dizem os poetas. O caminho é sempre uma marcha que não para nunca.
O evangelho de hoje faz parte da famosa viagem lucana de Jesus rumo a Jerusalém (9,51-19,27). Jerusalém é a meta final do Salvador, pois ali ele iria realizar plenamente, com sua morte e ressurreição, a sua missão salvífica. A lógica do caminho de Jesus soa um tanto absurda: é preciso odiar pai, mãe, esposa, filhos, irmãos, irmãs e a própria vida; carregar a própria cruz; renunciar a tudo que possui. E, além de tudo isso, ele dá um sábio conselho: sentar-se e preparar a caminhada, calculando, ponderando despesas etc. Em outras palavras: refletir antes de começar.
Jesus se dirige às grandes multidões que o acompanham de forma proselitista. Todos, no entanto, teriam que fazer opção: rejeitar ou aderir à sua proposta. E é o que ocorre. Jesus busca adeptos, discípulos, para a sua proposta de Reino. Ser discípulo de Jesus é o mesmo que entrar no Reino de Deus. Seguindo a lógica do Shemá Israel – Ouve, ó Israel, que estabelece três condições para viver a fé judaica: amar com o coração, a alma (ser) e as posses (Dt 6,4-5), Jesus usa três vezes a expressão “ser meu discípulo” (vv. 26, 27 e 33). O odiar pai, mãe etc., por se tratar do sentimento, representa o coração; o carregar a cruz a ponto de martírio representa o ser; e o renunciar aos bens, as posses. O discípulo preparado é o que segue o Shemá (Jacir de Freitas Faria, A releitura da Torá em Jesus. RIBLA, 40. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 18).
Renunciar a tudo e carregar a própria cruz (vv. 25-26). Essa é a primeira condição do novo discípulo. As comunidades de Mateus e de Marcos também haviam se lembrado desses ensinamentos de Jesus (Mt. 10,37; 19,29; Mc. 8,34), mas a de Lucas foi mais radical. Ela acrescentou deixar mulher, renunciar a própria vida e odiar. O verbo odiar jamais poderá ser entendido como rejeição aos pais, mulher e filhos. Um judeu nunca ensinaria ódio aos familiares, base de sua vida e de sua fé. Ódio aqui significa ter quer demonstrar mais dedicação a um, em detrimento do outro. O discípulo terá que fazer opção no seguimento, ser desapegado de tudo, por causa de Jesus. A comunidade de Mateus explicou isso muito bem, quando usou o comparativo “amar mais” (Mt. 10,37). Nessa mesma linha de pensamento está o carregar a própria cruz, que pode significar martírio e os sofrimentos advindos da cruz, a cruz pesada da vida. Até nisso, o discípulo tem que ter clareza no seguimento.
Planejar a caminhada. Tenho condições de ser discípulo? (vv. 28-32). As duas parábolas que seguem, a da torre e a do rei, querem dizer a mesma coisa: é preciso ter um planejamento, antes de iniciar a caminhada. Quem começar a construção de uma torre sem condições de terminá-la será motivo de chacota para os seus vizinhos. O mesmo ocorre com rei que não tem forças para enfrentar o inimigo, melhor seria negociar a paz.
O objetivo deve ser calculado conforme as nossas possibilidades. Se quero ser discípulo, devo ter consciência das minhas limitações. Para Jesus, quem não tivesse o martírio como possibilidade de consequência da opção pelo Reino não seria capaz de segui-lo. E Jesus diz isso para uma multidão. E termina enfaticamente: “quem não renunciar a tudo o que possui não pode ser o meu discípulo” (v. 33).
2ª leitura (Fm. 9b-10.12-17)
Paulo, o discípulo perfeito, prega a compaixão
O escravo Onésimo, que em grego significa útil, é o centro da ação de benevolência que Paulo solicita ao amigo Filêmon, um convertido por Paulo, na prisão de Éfeso, dono desse escravo fugitivo. Paulo se apresenta como um velho e prisioneiro, que pede e não manda, como poderia fazê-lo (vv. 8-9). Paulo é aqui o sábio seguidor de Jesus. A sua caminhada, desde a conversão, muito lhe ensinou. Agora, prisioneiro de Cristo, ele implora compaixão pelo escravo Onésimo, que deveria, segundo as leis, ser ferrado na testa, lançado às feras ou crucificado. Paulo pede que esse escravo, seu filho na fé e gerado por ele para Deus, fosse tratado como irmão no Senhor. Paulo diz a Filêmon que o escravo deve ser recebido como ele mesmo, rompendo, em Cristo, as barreiras entre escravos e livres. Com esse gesto, Paulo colocou em prática o ensinamento do seguimento de Jesus. Ele deixou tudo, estava prisioneiro da cruz de Cristo, e dava mostras de um novo tempo para os seguidores do Mestre.
Onésimo é útil para a demonstração de fé do amigo Filêmon. Ele perde um escravo, mas ganha um irmão. Onésimo é útil, a escravidão é inútil. Onésimo é útil para nos indicar um caminho de fé sem diferenças sociais, conforme nos testemunhou o apóstolo Paulo.
PISTAS PARA REFLEXÃO
A interpretação dos textos acima levou muitas comunidades de fé a interpretar a cruz como os sofrimentos da vida: dificuldades financeiras, drogas na família, traições etc. Seria aconselhável distinguir o sentido real da cruz de Cristo, como consequência de sua vida e não como fatalidade, do sentido popular de carregar a cruz – sofrimento passivo, simplesmente porque Jesus morreu na cruz.
Deus não quer o sofrimento. O sofrimento não é caminho de salvação. Muitos cristãos assim agiram ao longo da história, numa tremenda acomodação e aceitação do seu sofrimento, sem reagir diante das dificuldades, causando miséria humana e social. O cristão é um ser humano sempre a caminho. Sofrimento não salva. O que salva é o seguimento.
Aqueles que detêm o poder, seja econômico ou político, fazem uso dessa premissa para manter ou acobertar as injustiças. Como atuamos para evidenciar esse fato, sobretudo em relação àqueles que o fazem em nome da fé? Escravidão não é sinônimo de cidadania.
A vida de cada um de nós é marcada sempre pelas opções que fazemos. Já dizia a poetisa Cecília Meireles: “ou isso ou aquilo”. Temos que optar sempre. E toda opção exige renuncia, planejamento e dedicação à missão escolhida. Deus nos chama e nos oferece o dom da sabedoria. “E feliz de quem a encontra. Ganhá-la vale mais do que a prata, e o seu lucro mais do que o ouro... Felizes são os que a retêm” (Pr. 3,13-18).
padre Johan Konings, sj.

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“Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e de sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo”.
Assim debuta o evangelho proclamado neste domingo. Ser discípulo de Jesus é tarefa que nunca está terminada. É exigente empreitada.  Uma coisa é ser adepto de uma religião, seguidor de doutrinas, cumpridor de ritos.  Uma coisa é mesmo fazer votos e dizer-se do Senhor. Outra coisa é experimentar essa inquietação salutar de saber se somos do Senhor Jesus, se colocamos nossos passos nos seus passos.  Só assim poderemos explodir de alegria por sermos discípulos daquele que nos cativou.
Os que colocam qualquer coisa antes de Jesus, de preferência a Jesus, não podem ser seus discípulos.  Não se trata de deixar de amar pai e mãe, filhos e parentes.  O amor é  universal. A radicalidade da linguagem de Jesus e dos evangelhos aponta para a prioridade Jesus na vida do discípulo. Os vínculos familiares são importantes, mas o fascínio por Jesus vem antes.
Os que seguem a Jesus conhecem contradições.   Que expressão dura esta: quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo.
Conhecemos pessoas retas nas comunidades cristãs, em espaços de vida consagrada que não foram compreendidas, mas perseguidas, humilhadas e  achincalhadas. Tais pessoas costumam incomodar o status quo, a mesmice das coisas que se repetem.  Elas, devido à coerência interior, se unem à cruz de Cristo.  Não há dúvida quanto a isso.
Por isso, os discípulos serão vigilantes.  Não podem querer construir o discipulado sem atenção.  Não podem construir uma torre e deixá-la pela metade.  Precisam saber quantos soldados chegam para nos atacar. Os discípulos não cochilam, são atentos e vigilantes.
Felizes os catecúmenos, os jovens,  os postulantes, os noviços que encontram mestres e comunidades exemplares  que colocam diante de seus olhos o ideal do discipulado com toda a sua beleza e exigência.  Uma coisa é ser seguidor de uma religião, outra, bem diferente, ser discípulo de Cristo. Ninguém arranca de nosso coração o júbilo de, desde a nossa juventude, termos sido discípulos fiéis do Senhor belo e amoroso.
frei Almir Ribeiro Guimaeães

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Ponderar o custo do reino
A sabedoria nunca é conquistada para sempre. Sb. 9 (1ª leitura) é a prece da Salomão pela sabedoria; a segunda parte (v. 13-19) explica quanto ela é indispensável. Mas o mundo de hoje parece carecer dela mais do que Salomão. Nem mesmo respeita suas próprias fontes de subsistência, sacrificando tudo à manutenção de obscuros poderes e lucros, com a cumplicidade de praticamente todos, deixando-se envolver no jogo da competição e do consumo...
A sabedoria ensina a dar a tudo seu devido lugar, a ponderar o que é mais e o que é menos importante. Isso pode conduzir a conclusões que, aos olhos de pessoas superficiais, parecem loucura. As exigências do seguimento de Jesus parecem loucura:“Odiar (= não preferir) pai e mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs” (Lc. 14,26), por causa de Cristo e seu evangelho, não é isso uma loucura? Não, diz Lucas (evangelho). É a conseqüência da sabedoria cristã, da ponderação a respeito do investimento necessário para o Reino de Deus. Começar a construir a torre sem o necessário capital é que é loucura, pois todo mundo ficará gozando da gente porque não conseguiu concluir a obra! A alusão à torre de Babel, símbolo da vaidade e confusão humana, é evidente. O homem sábio faz seu orçamento: decide quanto ele vai investir. No caso do cristão, o único orçamento adequado é o do investimento total, já que se trata do supremo bem, sem o qual os outros ficam sem sentido. Ainda bem que os recursos são inesgotáveis.
A sabedoria cristã consiste em ousar optar radicalmente pelo valor fundamental, mesmo se isso exige uma escolha dolorosa contra pessoas muito queridas, realidade que se repetia diariamente na Igreja do tempo de Lc. Estas palavras foram dirigidas às “grandes multidões” que seguiam Jesus (Lc. 14,25), e não só a monges e ascetas. Além disso, formam a seqüência de exortação ao convite gratuito e à parábola do grande banquete, em que Jesus ensina a dar a preferência às pessoas “não gratificantes” em vez dos familiares e amigos (cf. dom. pass.). Assim, “não preferir” seus familiares se pode referir, concretamente, a duas realidades: a perseguição, que obriga o cristão a preferir o Cristo acima dos laços de parentesco e até acima da própria vida (sentido primeiro); mas também a preferência, por causa do Evangelho, por categorias de pessoas pouco estimadas, excluídas, às custas do círculo social costumeiro.
Ouve-se, em nosso ambiente, muitas vezes, a observação de que é preciso ter “bom senso” em questões de justiça e direito. Será que não se chama de bom senso o que é apenas medo? Quando é claro que o amor de Cristo está em jogo, a sabedoria cristã exige um investimento radical e estratégias para lhe abrir espaço. Porém, radicalidade não é imprudência. É liberdade frente àquilo que nos pode desviar do que é prioritário. A sabedoria cristã nos ajuda a estabelecer as opções preferenciais certas. Ora, para não perder tudo, é preciso realizar as opções sabiamente feitas. Quem acha que seguir Cristo é fundamental, deve fazê-lo, custe o que custar. Portanto, o sábio cristão não é o sofista brilhante, que explica tudo, sem jamais se comprometer. É o homem que, ao mesmo tempo lúcido e convicto, investe tudo no que julga ser o sentido último da existência e da História, à luz na fé em Cristo Jesus. O sábio não é aquele que hesita, quando se trata de saltar, mas aquele que salta; o que hesita é que cai...
Para Filêmon, o homem de bem da cidade de Éfeso, amigo pessoal de Paulo, o bilhete que seu escravo Onésimo trouxe consigo, ao voltar de uma escapada até a prisão de Paulo, deve ter parecido loucura (2ª leitura). Porém, é a mais pura sabedoria cristã. Onésimo fugiu de Filêmon, para assistir a Paulo na prisão. Paulo o batizou. Agora não mais precisando dele, o devolve a Filêmon, porque comercialmente falando, é sua propriedade (Paulo ainda não pensava numa sociedade sem escravidão; ou não achava muito importante, por causa do curto prazo da Parusia: cf. 1Cor 7,20-23). Mas, espiritualmente falando, “em Cristo”, ambos, Onésimo e Filêmon, pertencem a uma nova realidade, em que não há mais senhor nem escravo, mas somente irmãos em Cristo e filhos do Pai (cf. Gl 3,28); e filhos também de Paulo, que a ambos gerou na fé (batizou-os). Portanto, Filêmon acolhe seu escravo não mais como escravo, mas como irmão, como se acolhesse o próprio Paulo.
Os cristãos e as estruturas sociais
"Se Deus só serve para deixar tudo como está, não precisamos dele”; palavra de uma agente de educação popular. O Deus que é apenas o arquiteto do universo, mas fica impassível diante da injustiça dos habitantes de sua arquitetura, não tem relevância alguma. O cristianismo serve ou não para mudar as estruturas da sociedade?
São Paulo tinha um amigo, Filêmon.
Este – como todos os ricos de seu tempo – tinha escravos, que eram como se fossem as máquinas de hoje. Um dos escravos, sabendo que Paulo tinha sido preso, fugiu de Filêmon para ajudar Paulo na prisão. Paulo o batizou (“o fez nascer para Cristo”).
Depois mandou-o de volta a Filêmon, recomendando que este o acolhesse, não como escravo, mas como irmão... Mais: como se ele fosse o próprio Paulo (2ª leitura).
Essa história é emocionante, mas nos deixa insatisfeitos. Por que Paulo não exigiu que o escravo fosse libertado, em vez de acolhido como irmão, continuando como escravo? Aliás, a mesma pergunta surge ao ler outros textos do Novo Testamento (1Cor. 7,21; 1Pd. 2,18). Por que o Novo Testamento não condena a escravidão?
A humanidade leva tempo para tomar consciência de certas incoerências, e mais tempo ainda para encontrar-lhes remédio. A escravidão, naquele tempo, era uma forma de compensação de dívidas contraídas ou de uma guerra perdida. Imagine que se resolvesse desse jeito a dívida externa do Brasil! Seríamos todos vendidos (se já não é o caso...) Antigamente (?), a escravidão fazia parte da estrutura econômica. Na Idade Média, com os numerosos raptos praticados pelos piratas mouros, surgiram ordens religiosas para resgatar os escravos, até tomando o lugar deles. Mas ainda na época moderna, a Igreja foi conivente com a escravidão dos negros. A consciência moral cresce devagar, e mudar alguma coisa nas estruturas é mais demorado ainda, porque depende da consciência e das possibilidades históricas. As estruturas manifestam só aos poucos sua injustiça, e então leva séculos para transformá-las.
Porém, a lição de Paulo é que, não obstante essa lentidão histórica, devemos viver já como irmãos, vivenciando um espírito novo, que vai muito além das estruturas vigentes e que – como uma bomba-relógio – fará explodir, cedo ou tarde, a estrutura injusta. Novas formas de convivência social, voluntariados dos mais diversos tipos, organismos não-governamentais, pastorais junto aos excluídos – a criatividade cristã pode inventar mil maneiras para viver aquilo que as estruturas só irão assimilar muito depois.
Johan Konings - "Liturgia dominical"



“Grandes multidões acompanhavam Jesus” no seu caminhar rumo a Jerusalém, onde seria consumada a obra da salvação (cf. v. 25).
Muitos eram motivados por sentimentos naturais e, até mesmo, interesseiros: admirar suas palavras, presenciar milagres, obter graças e favores.
Ainda hoje acontece a mesma coisa, muitos procuram Jesus na ânsia de obter milagres, curas, emprego, enfim, procuram apenas fortes emoções, interesses pessoais e bens terrenos.
“Voltando-se para a multidão, Jesus disse: “Se alguém vem a mim e não me dedica mais amor do que a seu pai, à sua mãe, à sua esposa, a seus filhos, a seus irmãos e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (v. 26).
Este versículo do Evangelho deve ser entendido na dimensão do Reino e das exigências de Jesus. Jesus não quer que odiemos a ninguém nem que deixemos de amar nossos entes queridos. Mas Deus sempre deve ter a prioridade em nossas vidas, conforme ele ensina: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento, e com todas as tuas forças e amarás o teu próximo como ti mesmo” (Mc 12,30). Em caso de conflito, Deus deve ter sempre a prioridade, acima de qualquer outro vínculo.
“Aquele que não carrega sua cruz e me segue não pode ser meu discípulo”, diz Jesus (v. 27). Cruz não é algo que buscamos; cruz são as situações adversas que sobrevêm no decorrer da vida: doenças, dores, problemas, enfim, tudo o que traumatiza nosso eu.
A cruz encerra em si o mistério do sofrimento e da dor. Não deve ser olhada como uma tragédia, mas como um caminho que leva à Glória. A cruz é o meio que Deus usa para nos educar e fazer crescer na fé, na esperança e no amor. A cruz nos identifica com Cristo que, em seu amor, abraçou a cruz e nos amou até o fim (cf. Jo  13,!)
E Jesus narra duas parábolas: a parábola da edificação da torre e a parábola do rei em guerra ( v. 28-32), alertando sobre a necessidade de bem refletir sobre o modo de corresponder ao seu chamado.
Deus é amor! (1Jo 4-16). Seu amor é um amor exigente e supõe desapego e renúncia a tudo que possa afastar desse amor.
* Seguir Jesus significa dar e consagrar a vida a Jesus. É deixar-se possuir pelo espírito do Senhor, na escuta e na observância de seus mandamentos, configurando sua vida com a dele, no seu modo de pensar e de agir, rompendo com tudo aquilo que possa afastar dele.
* * *
Deus tem sempre prioridade em minha vida? O que significa para mim seguir Jesus? Creio que nem a todos Jesus pede que renunciem a tudo o que possuem, mas a todos pede o desapego aos bens terrenos? Estou pronto a carregar a minha cruz por amor a Jesus? Ajudo meu irmão a carregar sua cruz? Vejo na cruz o caminho para a Glória? O que vem a ser o discípulo perfeito?
Frei Floriano Surian, ofm

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Esse texto relata o maior dilema do cristão, o desprendimento total das coisas do mundo para seguir a Deus com verdade e compromisso. Jesus deixa claro que a tarefa não é fácil e que a cruz é pesada, e que o reconhecimento desse sacrifício não será nesse mundo, mas junto ao Pai.
O que significa amar a Jesus mais que a sua família, mais que a si mesmo? Quais são as condições para segui-Lo? Esses são questionamentos que cada um deve fazer antes de se colocar diante de Cristo oferecendo-se para segui-lo. Um amor incondicional exige desprendimento das coisas do mundo, humildade para reconhecer as fraquezas e os limites, e coragem para enfrentar os desafios como Simão de Cirene enfrentou, ajudando Jesus a carregar a cruz.
Jesus adverte a todos que querem segui-lo para que pesem bem sua decisão, suas conseqüências, pois começar o alicerce e não erguer a torre de nada adiantará, pelo contrário ficará a vergonha da obra inacabada. A construção não é impossível, é apenas difícil, exige dedicação, planejamento, compromisso, portanto não se deve desistir da construção, mas preparar-se bem para iniciá-la.
É preciso, também, ter a certeza de que o elemento mais importante estará presente: a Graça que Deus Pai dá àquele que quer ser fiel a Cristo, pois quando Deus chama alguém para segui-Lo, Ele dá a Graça correspondente para te força e não desistir no caminho. Porém, fazer a opção de seguir a Jesus não é uma decisão única, mas deve ser renovada a cada dia.


Pequeninos do Senhor



Opção e renúncia
A observação feita por Jesus visava levar a multidão que o seguia a deixar de lado a exaltação ingênua e colocar os pés no chão, para evitar possíveis frustrações. A empolgação do momento podia desviar as pessoas do verdadeiro significado do gesto de colocar-se no seguimento do Mestre. Quem quisesse segui-lo, deveria estar consciente das implicações de sua opção.
A primeira exigência consistia em romper com os laços familiares, por causa do Reino, colocando, em segundo plano, o amor aos entes mais queridos. O texto bíblico fala em "odiar pai, mãe etc.". Evidentemente, a palavra "odiar" não tem o mesmo sentido que nós lhe damos, hoje. Na boca de Jesus, ela quer dizer "dar preferência ao pai, à mãe"; colocá-los acima do Reino e de suas exigências.
A segunda exigência aponta para a predisposição de aceitar todas as conseqüências decorrentes da opção pelo Reino. Isto significa "tomar a própria cruz". Não é apto para seguir Jesus quem se intimida diante das perseguições, da indiferença, das calúnias sofridas por causa de seu testemunho de vida. Só quem é suficientemente forte para enfrentá-las, está em condições de se tornar seguidor de Jesus.
Portanto, a opção por se tornar seu discípulo funda-se numa dupla disposição para a liberdade: diante dos laços de parentesco e diante da cruz que se há de encontrar nesse seguimento.
padre Jaldemir Vitório




Atitude radical
Quais são as condições exigidas para seguir Jesus? O texto do evangelho deste domingo começa pela informação de que grandes multidões acompanhavam Jesus (cf. v. 25).
O que estas multidões buscavam? O que eles encontraram? Todos tinham a mesma intenção? Admiravam-se das palavras cheias de sabedoria, de sua autoridade, da sua compaixão, a ponto de alguns declararem se tratar da visita salvífica de Deus; outros tantos, porém, não eram capazes de ultrapassar o que os olhos contemplavam e reconhecer a verdadeira procedência de Jesus. Tudo isso, e muito mais, é suficiente para seguir Jesus Cristo?
A resposta do evangelho é negativa. É preciso, para segui-lo, uma atitude radical: “... renunciar a tudo o que tem” (v. 32) – esta é condição para ser discípulo de Cristo.
Entre os vv. 25 e 33 há uma inclusão, isto é, o tema que será desenvolvido entre estes dois versículos através das duas parábolas (vv. 28-30; 31-32). Nas parábolas, trata-se de prever, de medir forças, de saber calcular os riscos. Trata-se, noutras palavras, de sabedoria, de adequar as ambições aos meios de que se dispõe.
Para seguir Jesus é preciso fazer uma escolha. Em primeiro lugar estar disposto ao desapego. Sem desprezar a quem se ama, os familiares, é preciso não permitir que eles se constituam em obstáculo para o seguimento de Cristo. Se assim o fosse, não seria amor verdadeiro, mas possessão.
Mas o desapego tem de ser da própria vida. A defesa de interesses, privilégios e seguranças pessoais é incompatível com o seguimento de Cristo. Em segundo lugar é preciso aceitar o risco do seguimento de Cristo, a saber, a perseguição, o sofrimento. É exatamente isto que significa “carregar a cruz” (v. 27). Em terceiro lugar é preciso renunciar aos bens (v. 33). Trata-se, então, de renunciar, como exigência do seguimento de Jesus Cristo, às seguranças afetivas e materiais.
A quem se dispõe a seguir Jesus, desde o início, é exigido dele renunciar a tudo que possa ser um obstáculo para se colocar livremente a serviço do Reino de Deus. A segurança do discípulo é, antes de tudo, seu Senhor.
Como Santo Inácio de Loyola, podemos suplicar: “Dá-me o teu amor e a tua graça, e isto me basta. Nada mais quero pedir”.
Carlos Alberto Contieri,sj




O “naquele tempo” do Evangelho que escutamos, prolonga-se neste tempo que se chama hoje. “Naquele tempo, grandes multidões acompanhavam Jesus”. Eram muitos os que o admiravam, muitos os que o escutavam... como hoje. Mas, Jesus voltando-se, lhes disse – e diz aos que o querem acompanhar hoje -, com toda franqueza, quais as condições para serem aceitos como seus discípulos: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega e seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo”. É impressionante a sinceridade do Senhor nosso! Olhemos bem que não são todos os que podem ser seus discípulos! É certo que todos são chamados, pois “o desejo de Deus é que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm. 2,4), mas também é certo que nem todos estão dispostos a escutar de verdade o convite do Senhor e a aceitar suas exigências. E Jesus é claríssimo: ele somente aceita como discípulo – somente pode ser seu discípulo – quem se dispõe, com sinceridade, a caminhar atrás dele, seguindo seus passos no caminho! É ele quem dá as cartas, é ele quem dita as normas, é ele quem mostra o caminho e quem diz o que é certo e o que é errado! Que palavra tão difícil para cada um de nós, para o mundo atual, que se julga maduro e sábio o bastante para fazer seu próprio caminho e até para julgar os caminhos de Deus! Quem assim age, permanecendo fechado em si mesmo - diz Jesus -, “não pode ser meu discípulo!”
E o que é ser discípulo? É colocar-se no caminho dele, é renunciar a decidir por si mesmo que rumo dar à sua vida, para seguir o caminho do Mestre, colocando os pés nos seus passos; ser discípulo é se renunciar para ser em Jesus, pensando como ele, vivendo como ele, agindo como ele... Ser discípulo é fazer de Jesus o tudo, o fundamento da própria existência: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo que tem, a tudo que é, à sua própria segurança, ao seu próprio modo de pensar, não pode ser meu discípulo!”
É preciso que compreendamos que esta exigência tão radical do Senhor não é por capricho, não é arbitrária, não é humilhante ou desumana para nós. O Senhor é tão exigente porque nos quer libertar de nós mesmos, de nosso horizonte fechado e limitado à nossa própria razão, ao nosso próprio modo de ver e pensar as coisas e o mundo. O Senhor nos quer libertar da ilusão de que somos auto-suficientes e sábios, de que somos deuses! Como têm razão, as palavras do livro da Sabedoria: “Qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Ou quem pode imaginar o desígnio do Senhor? Quem, portanto, investigará o que há nos céus?” O homem, sozinho, é incapaz de compreender o mistério da vida, que somente é conhecido pelo coração de Deus! Isto valia para ontem, e continua valendo para hoje e valerá ainda para amanhã, mesmo com todo o desenvolvimento da ciência e com toda a ilusão de que nos bastamos a nós mesmos e podemos por nós mesmos decidir o que é certo e o que é errado. O homem, fechado em si mesmo, jamais poderá compreender de verdade o mistério de sua existência e o sentido profundo da realidade. É preciso ter a coragem de abrir-se, de ser discípulo, de seguir aquele que veio do Pai para ser nosso Caminho, nossa Verdade e nossa Vida! “Na verdade, os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões, incertas. Mal podemos conhecer o que há na terra e, com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos”. É por isso que o salmista hoje nos faz pedir com humildade: “Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria!”
Só quando nos renunciarmos, só quando colocarmos o Senhor como o centro de nossa vida, do nosso modo de pensar e de agir, somente quando ele for realmente o nosso Tudo, seremos discípulos de verdade. Então mudaremos de vida, de valores, de modo de agir. É o que São Paulo propõe a Filêmon, cristão, proprietário do escravo Onésimo. O Apóstolo recorda ao rico Filêmon que ser discípulo de Cristo comporta exigências e mudança de mentalidade: o escravo deve agora ser tratado como irmão no Senhor. Não podemos ser cristãos, apegados à nossa lógica e às coisas próprias do homem velho! Não podemos ser cristãos fazendo política como o mundo faz, tendo uma vida sexual como o mundo tem, pensando em questões como o divórcio, o aborto, o adultério como o mundo pensa, não podemos ser cristãos comportando-nos como o mundo se comporta e fazendo o que o mundo faz! Querer seguir o Senhor sem deixar-se, sem colocá-lo como eixo e prumo da vida, é como construir uma torre sem dinheiro: não se chegará ao fim; é como ir para uma guerra sem exército suficiente: seremos derrotados! “Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo que tem, não pode ser meu discípulo!”
Que o mundo não compreenda esta linguagem, é de se esperar... Afinal, o homem psíquico – homem entregue somente à sua própria razão – não pode mesmo compreender as coisas do Espírito de Deus (cf. 1Cor. 2,14). O triste mesmo é que os cristãos, isto é, nós, tenhamos a pretensão de ser discípulos sem procurar sinceramente nos renunciar, mortificando nossas tendências desordenadas, educando nossos instintos desatinados e deixando que a luz do Evangelho ilumine nossa razão e nosso modo de pensar...
Cuidemos bem, para que, no fim de tudo, o nosso cristianismo não seja inacabado, tão inútil quanto uma torre deixada pela metade ou uma guerra na qual a derrota é certa. Que nos valha a misericórdia de nosso Senhor e nos ajude a viver da sua Palavra, porque, como disse hoje o Autor sagrado, dirigindo-se a Deus, “só assim se tornaram retos os caminhos dos que estão na terra e os homens aprenderam o que te agrada, e pela Sabedoria foram salvos”. Que nos salve o Cristo, Sabedoria de Deus.







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