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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sábado, 17 de setembro de 2016

25º DOMINGO TEMPO COMUM-C

25º DOMINGO TEMPO COMUM

18 de Setembro de 2016-Ano C

1ª Leitura - Am 8,4-7

Salmo 112

2ª Leitura - 1Tm 2,1-8

Evangelho - Lc 16,1-13


É IMPOSSÍVEL SERVIR A DEUS E AO DINHEIRO



Aquele administrador infiel, porém, muito esperto, ao saber que seria despedido, diminuiu as dívidas dos devedores do patrão, para que estes o ajudassem depois em retribuição à sua falsa generosidade. –Ncontinuar lendo


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“VÓS NÃO PODEIS SERVIR A DEUS E AO DINHEIRO.”- Olivia Coutinho

25º DOMINGO DO TEMPO COMUM


Dia 18 de Setembro de 2016

Evangelho de  Lc 16,1-13

Num mundo, onde impera o individualismo, a cultura do descarte, tudo gira em torno do dinheiro, a pessoa não é vista pelo o que é, e sim, pelo o que tem!
Se não ficarmos atentos quanto as nossas escolhas, corremos o risco de nos contaminar por esta sociedade materialista que valoriza o ter e não o ser, que assimila a falta de dinheiro como causa do seu não êxito na vida!
Em meio a tantos adversários do projeto de Deus, Jesus vem nos trazer algo inovador, uma proposta de vida nova, que ao contrário do mundo, tem como prioridade o “ser”!
O evangelho que a liturgia deste domingo nos apresenta, nos alerta sobre o perigo de nos tornar reféns do dinheiro!
O dinheiro nos induz ao consumismo que é o motor alimentador deste sistema capitalista gerador de excluídos, um sistema, que descarta aqueles que não produzem os que não dão lucro, e que penaliza aqueles que não se deixam corromper.
O ensinamento que Jesus nos passa no dia de hoje é desafiador, principalmente para muitos de nós, que não consegue libertar da escravidão do consumismo!
O texto nos apresenta a parábola do administrador desonesto. Através desta história, Jesus faz uma constatação: Os filhos do mundo, são mais espertos do que os filhos da Luz e em seguida Ele nos exorta: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos...
Jesus colocou um administrador desonesto entre os “filhos deste mundo”, em contraste com os “filhos da Luz”. Entretanto, ele apresentou a esperteza deste filho do mundo, (administrador) como modelo para nós, para que usemos também de muita astúcia para transformar este mundo em Reino de Deus!
Não podemos interpretar o texto ao pé da letra, se assim fizermos, vamos chamar Jesus de incoerente. Pensar que Jesus elogia a desonestidade, é sem dúvida, desconhecê-Lo, afinal, como explicar a justiça tão apregoada por Ele?
É importante termos a clareza de que Jesus não elogia a desonestidade, o que Ele elogia, é a astúcia, de alguém que busca meios tão rápidos, para não perder a sua vida!
A lição que fora passada para os discípulos e hoje para nós, deve nos conscientizar de que nós, filhos da Luz, não podemos viver na passividade e nem sermos morosos em nossas decisões, principalmente em se tratando da prática da justiça.
Jesus elogiou a agilidade de uma pessoa determinada a sair rapidamente de uma situação que lhes era desfavorável, é essa atitude que nós, os filhos da Luz, devemos ter, principalmente em relação ao pecado, temos que ser rápidos para sairmos de uma situação de pecado.
“Usai o dinheiro injusto para fazer amigos.”  A princípio, estas palavras de Jesus, nos assustam, mas não é difícil entende-las se meditadas dentro do contexto. 
Dinheiro injusto é aquele dinheiro que acumulamos, que vai além das nossas necessidades, ainda que ele seja adquirido com honestidade. Este dinheiro é traiçoeiro, ele nos leva ao consumismo, a colocarmos a nossa segurança nele e não em Deus!
Portanto, é um dinheiro injusto, ele nos rouba de Deus, nos escraviza, nos leva a injustiça de dar-lhe a honra que é devida somente a Deus! Quando colocamos o dinheiro, como o senhor da nossa vida, ele acaba nos tirando a vida, causando a nossa ruína.
Jesus nos ensina a darmos um destino justo a este dinheiro injusto, a aplicá-lo numa conta bem rentável, fazendo amigos com ele, colocando-o não somente ao nosso serviço, como também, a serviço do outro, especialmente dos mais empobrecidos. 
O administrador desonesto transformou, ainda que por interesse, um dinheiro injusto, num bem para o outro. Ao trocar os bens passageiros pelos bens duráveis, ele deu um passo certeiro na vida.
Fica claro, que ele agiu com esperteza, mas se olharmos por outro lado, vamos perceber que ao ser convertido pela razão, ele dá o primeiro passo para a conversão do coração! Antes, ele trocava as pessoas pelo dinheiro, depois que se vê em apuros, aquele administrador faz o inverso, troca o dinheiro pelas pessoas, por conveniência é claro! É esta rapidez de raciocínio, que Jesus gostaria que nós, como filhos da luz, tivéssemos! 
Não sejamos ingênuos de achar que Jesus condena o dinheiro, Jesus não condena o dinheiro, afinal, precisamos dele para a nossa sobrevivência. O que Jesus condena, é o mau uso do dinheiro, o lugar que o colocamos na nossa vida e a forma ilícita de adquiri-lo. 
Jesus nos convida a sermos agentes de um mundo novo, de um mundo alicerçado na justiça que é a base sólida sobre a qual construímos a nossa morada no céu!  Atendamos a este convite de Jesus, trocando os bens do mundo, pelos os bens duráveis, os bens eternos!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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O bom uso das riquezas: desapego
Ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro (cf. Lc. 16,13). Há pessoas que observam as prescrições do culto, mas interiormente estão longe de Deus (cf. Is 29,13). Observam a “lua nova” - festa religiosa tradicional no antigo Israel - e o sábado, mas interiormente pensam em como explorar os pobres e os oprimidos, com uma avareza sem fim: até o refugo do trigo sabem converter em lucro (Am. 8,6; 1ª leitura).
Não adiantam cultos e orações: Deus não o esquecerá (8,7)! E, quanto aos oprimidos, Deus os levantará (salmo responsorial).
As palavras de Amós nos advertem a respeito do vazio da riqueza procurada por si mesma. A riqueza não apenas não nos acompanha (cf. Lc. 13,16-21), ela pode tornar-se causa de nossa condenação. E que dizer de uma sociedade que coloca tudo a serviço do lucro? O evangelho narra uma destas parábolas escandalosas de Jesus: um homem que, diante da iminente demissão por causa de má administração, comete umas pequenas (?) fraudes a favor dos devedores de seu patrão, para poder contar com o apoio deles na hora em que for posto para a rua. Será um exemplo? Num certo sentido, sim: era um homem que enxergava mais longe que seu nariz. Não o devemos imitar na sua injustiça, mas na sua previdência. Ele sabia - melhor que aquele fazendeiro de Lc. 12,16-21 - que sua posição era precária, e tomou providências. Jesus observa que os “filhos das trevas” - com isso qualifica a imoralidade desse homem - são geralmente mais espertos que os filhos da luz. Ter consciência da precariedade das riquezas e utilizar as últimas chances para ganhar amigos para o futuro, eis o que Jesus quis ensinar.
O grande amigo que devemos ganhar para o futuro é Deus mesmo (“ser rico perante Deus”, Lc. 12,21). Ganhamo-lo através de pequenos amigos: seus filhos. A iminência do juízo (Lc. tomava isso bastante literalmente) nos deve levar à prática da caridade. Entenda-se bem: não fazer caridade para “comprar o céu”, mas, com os olhos fitos na realidade definitiva que é Deus, Pai de bondade, transformar nossa vida numa atitude que combine com ele, configurar-nos com ele (cf. Lc. 6,35b-36). Sabemos o que é definitivo. Ajamos em conformidade: sejamos misericordiosos como Deus.
O encontro com os amigos das “moradas eternas” inclui os de Lc. 14,12-14.15-24: coxos, cegos, estropiados, os pobres em geral, os que são convidados para o banquete eterno. Temos amplas oportunidades de usar o “vil dinheiro” para conquistar esses amigos. Será que o dinheiro é vil? Não há dúvida. Não há um dólar que não seja manchado de opressão e exploração. Através dos bancos que investem minha aplicação compulsória do imposto de renda, estou investindo em indústria bélica.., O dinheiro participa do sistema que o gera. O fato de eu poder “comer como um padre” participa de uma estrutura em que muitos não podem isso. Então, alimentado como um padre, devo pelo menos fazer tudo o que posso para que os outros possam alimentar-se assim também. Ou não mais me alimentar como um padre, pois esta não é a realidade definitiva. A caridade, pelo contrário, é definitiva e não perece nunca (cf. 1Cor. 13).
Na 2ª leitura continua a reflexão de Paulo em torno do anúncio da reconciliação, que lhe foi incumbido entre os gentios. Neste espírito, insiste na oração da comunidade, oração de agradecimento e intercessão por todos os homens. Nós devemos traduzir nossa busca de unidade e reconciliação, tornando-nos mediadores de todos, assim como Cristo reconciliou a todos, tornando-se mediador, por sua morte salvadora. A última frase (2,8) pode servir também de motivação para que a comunidade reze, por exemplo, o Pai-nosso com as mãos elevadas ao céu, “sem ira nem rancor”.
Johan Konings "Liturgia dominical




Sejamos autênticos filhos da luz
Este trecho do Evangelho nos faz refletir sobre a dura realidade do mundo, sempre imerso numa crise de valores, e nos leva a comprovar como a Palavra de Deus é sempre atual e eficaz.
Através de uma parábola Jesus ensina seus discípulos, e a nós hoje, a fazer tudo o que é necessário para viver uma vida repleta de sentido e de esperança, de fidelidade a Deus e de amor ao próximo.
Parábola do administrador infiel (v. 1-8): O administrador infiel, ante a iminência de ser despedido, age com a sabedoria do mundo, procurando granjear amigos à custa dos bens do patrão. “E o patrão louvou o administrador infiel por ter agido com sagacidade”, ao providenciar, enquanto ainda era tempo, seu bem estar futuro. O patrão admira seu empregado pela atitude ousada e decidida em face de sua situação crítica, mas condena sua infidelidade na administração.
“Pois os filhos deste mundo são mais prudentes, nas relações com os seus, do que os filhos da luz” (v. 8).
“Filhos do mundo…” Alheios a Deus, sob a influência e domínio de satanás, são mais espertos em fazer o mal do que os bons em fazer o bem. Têm em vista os bens meramente terrenos e imediatos, servindo-se das riquezas somente em benefício próprio.
“Filhos da luz…” Os cristãos são filhos da luz (cf. 1Ts. 5,5). Deixemo-nos guiar em nosso pensar e agir pela “Luz que é Deus”. Um dia, prestaremos contas a Deus do bom uso das riquezas, por isso devemos agir com tino, decisão e firmeza, com o olhar sempre voltado para Deus, para o mundo futuro, para a Vida Eterna.
“Granjeai amigos com as riquezas da iniqüidade, para que, quando estas vos faltarem, eles vos recebam nos tabernáculos eternos” (v. 9). O dono absoluto de nossos bens é Deus; somos apenas administradores desses bens. “Os amigos” são as boas obras em que empregamos esses bens, principalmente os pobres a quem socorremos. “Com as riquezas da iniqüidade”, diz Jesus, enquanto elas provêm da iniqüidade ou a ela conduzem. Jesus quer transformar as riquezas em merecimentos, para que, na hora de nossa morte, quando os bens terrenos perdem todo seu valor, as boas obras nos recebam “nos tabernáculos eternos”: no céu.
O amor de Deus e a cobiça dos bens terrenos são incompatíveis. “Nenhum servo pode servir a dois senhores: não podeis servir a Deus e as riquezas” (v. 13).  Deus é grandeza sem concorrência…
* Pai, já que é vosso tudo o que somos e temos, para vós se oriente todo o nosso viver para que haja no mundo mais justiça e amor.
* * *
Que ensinamento traz a parábola do administrador infiel?... Onde está teu coração?... No serviço a Deus, ou no serviço ao dinheiro?... O que fazer para colocar Deus no centro de meu viver, pensar e agir?... Alguma vez tive de fazer a escolha entre Deus e o dinheiro?... Procuro ser fiel a Deus na administração dos bens terrenos, bem como dos dons recebidos?
frei Floriano Surian, ofm



O reto uso da riqueza é o tema deste Evangelho, chamado “parábola do administrador infiel”. Naquela época o administrador tinha direito de conceder empréstimos com os bens do seu senhor e, como não era remunerado, ele se beneficiava aumentando o valor do empréstimo no recibo. Assim, na hora do reembolso ficava com a diferença.
Na história que Jesus contou, o administrador abriu mão de todos os seus lucros (reduzindo as dívidas dos clientes do patrão) para conquistar amigos, e caso fosse despedido, teria quem o acolhesse na própria casa. É importante notar a mudança que ele faz em sua vida! E ainda ganhou um elogio do patrão!
Jesus não pretende louvar a desonestidade do administrador, mas o que Ele quer é realçar-lhe a esperteza em garantir o futuro. Este exemplo nos ensina como o cristão deve servir-se de suas riquezas em função da vida eterna. O dinheiro, chamado por Jesus de “riqueza da iniquidade”, por que muitas vezes é fruto de lucros desonestos, deve ser usado com cuidado para que não seja obstáculo para a salvação, mas ajude a consegui-la, como acontece quando é empregado em benefício dos necessitados.
Se o homem não for desapegado do interesse do dinheiro, quer como patrão ou como administrador, poderá acabar escravo dele, que não deixa nenhuma liberdade, nem a de servir a Deus.
Segundo Lucas, a atitude do administrador é uma forma de ser discípulo e participar do Reino. Cabe aqui uma denúncia e um anúncio, que mostram as exigências de ser cristão e os leva a um posicionamento em favor do próximo: ter opção fundamental por Cristo e rejeitar a ambição do acúmulo e da ganância para criar novas relações sociais de justiça e fraternidade.
Pequeninos do Senhor


É preciso sair do comodismo; o Reino de Deus exige empenho,
inteligência, discernimento.
Esta parábola do início do capítulo 16 de Lucas dá continuidade ao capítulo precedente. Em que consiste esta conexão entre os capítulos 15 e 16? É o que podemos chamar de “elemento destoante”. O filho mais jovem admite a seu pai que ele pecou (vv. 18.21) e reconhece não ser mais digno de ser chamado “seu filho” (vv. 19.21). No entanto, sua motivação para voltar para a casa do pai é o desejo da própria preservação. Sua motivação não é estar de novo com o seu pai, mas ter o pão dos empregados do seu pai (cf. v. 17). O capítulo 16 continua o discurso do capítulo 15, mas o auditório é outro; agora se trata dos discípulos (cf. v. 1).
É outra história, a do “administrador injusto ou desonesto” (cf. v. 8). É preciso cuidado para interpretar bem o que a parábola diz, do contrário poderia induzir a erro, considerando que Jesus elogia a desonestidade do administrador. O que é louvada nesta parábola é a habilidade de uma pessoa de empregar meios para alcançar determinado fim; ele utiliza sua inteligência para encontrar o meio de assegurar sua felicidade.
O que preocupa Jesus são os meios para entrar no Reino de Deus – é exatamente isso que a parábola enfatiza. Não quaisquer meios, pois é preciso entrar pela “porta estreita”. A porta que dá acesso ao Reino de Deus é o próprio Jesus. Jesus urge para os discípulos deixarem a passividade e empreenderem tal “sabedoria” a fim de alcançar o seu objetivo, a saber, entrar no Reino de Deus. Assim como o filho mais novo da parábola do pai misericordioso escolhe os meios para salvar a própria vida, da mesma forma o administrador desonesto é louvado por ter-se aplicado em encontrar os meios pelos quais poderia ter a sua vida salva. Não é, reiteramos, elogio à desonestidade, mas ao esforço de buscar os meios para ter a vida salva. Esta é a lição dada aos discípulos e ao leitor do evangelho: é preciso sair do comodismo; o Reino de Deus exige empenho, inteligência, discernimento. A máxima de Santo Inácio de Loyola nos parece bem adequada aqui: “Fazei tudo como se tudo dependesse de nós e espera tudo como se tudo dependesse de Deus.
Carlos Alberto Contieri,sj




O sentido do Evangelho de hoje encontra-se numa constatação e num conselho de Jesus. Primeiro, a constatação: “Os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios que os filhos da luz”. Depois, o conselho, que, na verdade, é uma exortação: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”. Que significam estas palavras?
A constatação de Jesus é tristemente real: os pecadores são mais espertos e mais dispostos para o mal, que os cristãos para o bem. Pecadores entusiasmados com o pecado, apóstolos do pecado, divulgadores do pecado... Cristãos sem entusiasmo pelo Evangelho, sem ânimo para a virtude, sem criatividade para crescer no caminho de Deus! Pecadores motivados, cristãos cansados e preguiçosos! Que vergonha! Hoje, como ontem, a constatação de Jesus é verdadeira. Olhemo-nos, olhemos uns para os outros, olhemos para esta Comunidade que, dominicalmente, se reúne para escutar a Palavra e nutrir-se do Corpo do Senhor... Somos dignos da Eucaristia? Sê-lo-emos se nos tornamos testemunhas entusiasmadas e convictas daquele que aqui escutamos, daquele por quem aqui somos alimentados!
Da constatação triste do Senhor, brota sua exortação grave: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”. Palavras estranhas; à primeira vista, escandalosas... Que significam? Jesus chama o dinheiro de “injusto”. Isto porque o dinheiro, a riqueza, os bens materiais e os bens da inteligência, do sucesso, da fama, ainda que adquiridos com honestidade, são sempre traiçoeiros, sempre perigosos, sempre na iminência de escravizar nosso coração e nos fazer seus prisioneiros. Dinheiro injusto porque sempre nos tenta à injustiça de dar-lhe a honra que é devida somente a Deus e de buscar nele a segurança que somente o Senhor nos pode garantir. Por isso, Jesus chama os bens deste mundo de “dinheiro injusto”... Sempre injusto, porque sempre traiçoeiro, sempre traiçoeiro, porque sempre sedutor! Constantemente corremos o risco de nos embebedar com ele, fazendo dele o fim de nossa existência, nossa segurança e nosso deus... Mas, os bens materiais, em geral, e o dinheiro, em particular, não são maus de modo absolutos... Eles podem ser usados para o bem. Por isso Jesus nos exorta a fazer amigos com eles... Fazemos amigos com nossos bens materiais ou espirituais quando os colocamos não somente ao nosso serviço, mas também ao serviço do crescimento dos irmãos, sobretudo dos mais necessitados. Aí, o dinheiro se torna motivo de libertação, de alegria e de vida para os outros... Aí, então, tornamo-nos amigos dos pobres, que nos receberão de braços abertos na Casa do Pai! Bendito dinheiro, quando nos faz amigos dos pobres e, por meio deles, amigos de Deus! Que o digam os cristãos que foram ricos e se fizeram amigos de Deus porque foram amigos dos pobres! Que o digam santa Brígida da Suécia, santo Henrique da Baviera, são Luís de França, os santos Isabel e Estevão, reis da Hungria, santa Isabel de Portugal e tantos outros, que souberam colocar seus bens a serviço de Deus e dos irmãos! Uma coisa é certa: é impossível ser amigo de Deus não sendo amigo dos pobres. Sobre isso o Senhor nos adverte duramente na primeira leitura: ai dos que celebram as festas religiosas dos sábados e das luas novas em honra do Senhor com o pensamento de, no dia seguinte, roubar, explorar o pobre e pisar o fraco! Maldita prática religiosa, esta! A queixa do Senhor é profunda, sua sentença é terrível. Ouçamos o que ele diz, e tremamos:“Por causa da soberba de Jacó, o Senhor jurou: ‘Nunca mais esquecerei o que eles fizeram!’” A verdade é que não podemos usar nossos bens como se Deus não existisse e não nos mostrasse os irmãos necessitados, como também não podemos adorar a Deus como se não tivéssemos dinheiro e outros bens materiais ou da inteligência, bens que devem ser colocados debaixo do senhorio de Cristo! Não se pode separar nossa relação com Deus do modo como usamos os nossos bens! Ou as duas vão juntas, ou a nossa religião é falsa! Por isso, perguntemo-nos hoje: como uso os bens materiais, como uso meus talentos, como uso minha inteligência? Somente para mim? Ou sei colocar-me a serviço, fazendo de minha vida uma partilha, tornando outros felizes e o nome de Deus honrado?
Os bens deste mundo são pouco, em relação com os bens eternos que o Senhor nos promete para sempre. Pois bem, escutemos o que diz o nosso Salvador:“Quem é fiel nas pequenas coisas, também é fiel nas grandes. Se vós não sois fiéis no uso do dinheiro injusto, quem vos confiará o verdadeiro bem? E se não sois fiéis no que é dos outros, quem vos dará aquilo que é vosso?" Em outras palavras, para que ninguém tenha a desculpa de dizer que não compreendeu o que o Senhor quis dizer: Quem é fiel nas coisas pequenas deste mundo, será fiel nas coisas grandes que o Pai dará no céu. Se vós não sois fiéis no uso dos bens desta vida, como Deus vos confiará a vida eterna, que é o verdadeiro bem? E se não sois fiéis nos bens que não são vossos para sempre, como Deus vos confiará aquilo que é o verdadeiro bem, a vida eterna, que será vossa para sempre?
Olhemos nós, que o modo de nos relacionarmos com o dinheiro e demais bens diz muito do que nós somos, afinal o nosso tesouro está onde está nosso coração! Dizei-me onde anda o vosso coração, o vosso apego, a vossa preocupação, e eu vos direi qual é o tesouro da vossa vida! Tristes de nós quando o nosso tesouro não for unicamente Deus! Tristes de nós quando, por amor ao que passa, perdemos a Deus, o único Bem que não passa! Uma coisa é certa: a advertência duríssima de Jesus: “Ninguém pode servir a dois senhores. Vós não podereis servir a Deus e ao dinheiro!”
Que nos converta a misericórdia de Deus, que sendo tão bom, “quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”. A ele a glória para sempre.
dom Henrique Soares da Costa




A liturgia sugere-nos, hoje, uma reflexão sobre o lugar que o dinheiro e os outros bens materiais devem assumir na nossa vida. De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, os discípulos de Jesus devem evitar que a ganância ou o desejo imoderado do lucro manipulem as suas vidas e condicionem as suas opções; em contrapartida, são convidados a procurar os valores do “Reino”.
Na primeira leitura, o profeta Amós denuncia os comerciantes sem escrúpulos, preocupados em ampliar sempre mais as suas riquezas, que apenas pensam em explorar a miséria e o sofrimento dos pobres. Amós avisa: Deus não está do lado de quem, por causa da obsessão do lucro, escraviza os irmãos. A exploração e a injustiça não passam em claro aos olhos de Deus.
O Evangelho apresenta a parábola do administrador astuto. Nela, Jesus oferece aos discípulos o exemplo de um homem que percebeu como os bens deste mundo eram caducos e precários e que os usou para assegurar valores mais duradouros e consistentes… Jesus avisa os seus discípulos para fazerem o mesmo.
Na segunda leitura, o autor da primeira carta a Timóteo convida os crentes a fazerem do seu diálogo com Deus uma oração universal, onde caibam as preocupações e as angústias de todos os nossos irmãos, sem exceção. O tema não se liga, diretamente, com a questão da riqueza (que é o tema fundamental da liturgia deste domingo); mas o convite a não ficar fechado em si próprio e a preocupar-se com as dores e esperanças de todos os irmãos, situa-nos no mesmo campo: o discípulo é convidado a sair do seu egoísmo para assumir os valores duradouros do amor, da partilha, da fraternidade.
1º leitura: Am. 8,4-7 - AMBIENTE
Amós exerceu o seu ministério profético no reino do Norte (Israel) em meados do séc. VIII a.C., durante o reinado de Jeroboão II. É uma época de prosperidade econômica e de tranquilidade política: as conquistas de Jeroboão II alargaram consideravelmente os limites do reino e permitiram a entrada de tributos dos povos vencidos; o comércio e a indústria (mineira e têxtil) desenvolveram-se significativamente.
A prosperidade e o bem-estar das classes favorecidas contrastavam, porém, com a miséria das classes baixas. O sistema de distribuição estava nas mãos de comerciantes sem escrúpulos que, aproveitando o bem-estar econômico, especulavam com os preços. Com o aumento dos preços dos bens essenciais, as famílias de menores recursos endividavam-se e acabavam por se ver espoliadas das suas terras. A classe dirigente, rica e poderosa, dominava os tribunais e subornava os juízes, impedindo que o tribunal fizesse justiça aos mais pobres e defendesse os direitos dos menos poderosos.
É neste contexto que aparece o profeta Amós. Natural de Técua (uma pequena aldeia situada no deserto de Judá), Amós não é profeta profissional; mas, chamado por Deus, deixa a sua terra e parte para o reino vizinho para gritar a sua denúncia profética. A rudeza do seu discurso, aliada à integridade e afoiteza da sua fé, traz algo do ambiente duro do deserto e contrasta com a indolência e o luxo da sociedade israelita da época.
MENSAGEM
O oráculo que nos é proposto é uma denúncia das actividades desses que “espezinham o pobre” e querem “eliminar os humildes da terra”. Quem são, em concreto, esses que o profeta denuncia? Trata-se de comerciantes sem escrúpulos, dominados pelo espírito do lucro, em cujos olhos só brilham cifrões. Eles compram aos agricultores os produtos da terra a preços irrisórios e revendem-nos aos pobres a preços exorbitantes, especulando com as necessidades dos humildes; roubam os clientes pobres, usando pesos, medidas e balanças falsas; aldrabam a qualidade dos produtos, misturando as cascas com o trigo; nos dias de sábado e de lua nova (dias sagrados, em que as atividades lucrativas eram suspensas), em lugar de se preocuparem com o louvor de Deus, eles estão ansiosos por recomeçarem os seus negócios de especulação e de exploração do pobre, a fim de aumentarem os seus lucros.
Que é que Deus tem a ver com isto? Tudo isto configura uma violação grosseira dos mandamentos da aliança. Jahwéh não está disposto a ser cúmplice da injustiça e da exploração do pobre. Qualquer crime cometido contra os pobres é um crime contra Deus… Por isso, Amós anuncia que Deus não esquece (quer dizer, não deixa passar em claro) este comportamento; ora, dizer que Deus não esquece significa que Deus vai intervir e acabar com a exploração e a injustiça. A fórmula solene de juramento (“o Senhor jura pelo orgulho de Jacob” – v. 7) exprime o caráter irrevogável da decisão de Deus.
2º leitura: 1Tm. 2,1-8v - AMBIENTE
Continuamos a ler a primeira carta a Timóteo. Recordamos aquilo que já dissemos no passado domingo: este Timóteo, nascido em Listra, de pai grego e de mãe judeocristã, é um companheiro inseparável de Paulo, a quem Paulo confiou importantes missões e a quem encarregou da responsabilidade pastoral das Igrejas da Ásia Menor. Segundo a tradição, foi o primeiro bispo da comunidade cristã de Éfeso.
MENSAGEM
Nos versículos que hoje nos são propostos, o autor da carta dá a Timóteo normas sobre a oração litúrgica. Começa com um convite a rezar por todos os homens (v. 1), particularmente pelos que estão investidos de autoridade: deles depende o bem-estar social e a paz, condições necessárias para que os cristãos possam viver com tranquilidade, na fidelidade à sua fé (v. 2).
De resto, a oração dos cristãos deve ser universal, pois é universal a proposta da salvação que Deus oferece: todos – judeus e gregos, escravos e livres, homens e mulheres, maus e bons – são convidados por Deus a fazer parte da comunidade da salvação (vs. 3-4). Duas razões apóiam este universalismo: a unicidade de Deus, criador de todos e a mediação universal de Cristo, que derramou o seu sangue por todos… A propósito, o autor da carta insere uma fórmula (vs. 5-6a) que parece reproduzir uma confissão de fé, em uso na comunidade primitiva, e que proclama essas verdades (há um só Deus, e Cristo – o único mediador entre Deus e os homens – trouxe, pela sua morte, a redenção a todos).
Dando-Se em redenção por todos, Jesus deu testemunho do projecto de salvação que Deus tem e que se destina a todos os homens; e Paulo sente que foi escolhido por Deus para continuar a anunciar aos homens esse testemunho que Jesus deu (vs. 6b-7).
O texto termina com um apelo a que esta oração universal se faça em todo o lugar onde o Evangelho é anunciado, “erguendo para o céu as mãos santas, sem cólera nem disputa” (v. 8) – o que pode fazer referência a uma condição que, na perspectiva de Jesus, era necessária para rezar: estar em paz com todos, estar verdadeiramente reconciliado com os irmãos (“se fores apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai, primeiro, reconciliar-te com o teu irmão; depois volta, para apresentar a tua oferta” – Mt. 5,23-24).
ATUALIZAÇÃO
O autor da primeira carta a Timóteo deixa claro que a oração não pode ser a expressão de uma vida vivida em “circuito fechado”, em que o crente apresenta a Deus, exclusivamente, os seus problemas, as suas questões, os seus desejos, os seus pedidos, e em que, eventualmente, lembra a Deus aqueles que lhe são próximos; mas a oração tem de ser a expressão da comunhão e da solidariedade do crente com todos os irmãos espalhados pelo mundo inteiro – conhecidos e desconhecidos, amigos e inimigos, bons e maus, negros e brancos… Todo o crente, no seu diálogo com Deus, tem de deixar transparecer a ilimitada capacidade de amar e de ser solidário com todos os homens. É assim a nossa oração?
A oração só faz sentido se for a expressão de uma vida de comunhão – comunhão com Deus e comunhão com os irmãos. Portanto, não é impossível rezar e, ao mesmo tempo, cultivar sentimentos de ódio, de intolerância, de racismo, de divisão. Como me situo face a isto?
Também fica claro, neste texto, que a salvação não é monopólio ou privilégio de alguns, mas um dom universal que Deus oferece a todos os homens, sem excepção. Esta universalidade acentua a nossa ligação a todos os homens, a nossa solidariedade com todos. Sinto-me, verdadeiramente, irmão de todos, responsável por todos? As dores e as esperanças de todos os homens – mesmo aqueles que eu nunca vi – são as minhas dores e esperanças?
Evangelho: Lc. 16,1-13 - AMBIENTE
O Evangelho que nos é proposto apresenta-nos mais um passo do “caminho para Jerusalém”. Desta vez, Jesus não se dirige aos fariseus, mas aos discípulos e, através deles, aos crentes de todos os tempos. Com uma história que apresenta contornos de caso real, tirado da vida, Jesus instrui os discípulos acerca da forma como se hão-de situar face aos bens deste mundo.
MENSAGEM
A mensagem essencial aqui apresentada gira, portanto, à volta da sábia utilização dos bens deste mundo: eles devem servir para garantir outros bens, mais duradouros.
Na primeira parte do nosso texto (vs. 1-9) apresenta-se a parábola de um administrador sagaz. A parábola conta-nos a história de um homem que é acusado de administrar de forma incompetente (possivelmente desonesta) os bens do patrão.
Chamado a contas e despedido, este homem tem a preocupação de assegurar o futuro. Chama os devedores do patrão e reduz-lhes consideravelmente as quantias em dívida. Dessa forma – supõe ele – os devedores beneficiados não esquecerão a sua generosidade e, mais tarde, manifestar-lhe-ão a sua gratidão e acolhê-lo-ão em sua casa. Como justificar o proceder deste administrador, que assegura o futuro à custa dos bens do seu senhor? Porque é que o senhor, prejudicado nos seus interesses, não tem uma palavra de reprovação ao inteirar-se do prejuízo recebido? Como pode Jesus dar como exemplo aos discípulos as aldrabices de um tal administrador? Estas dificuldades desaparecem se entendemos esta história tendo em conta as leis e costumes da Palestina nos tempos de Jesus. O administrador de uma propriedade atuava em nome e em lugar do seu senhor; como não recebia remuneração, podia ressarcir-se dos seus gastos a expensas dos devedores.
Habitualmente, ele fornecia um determinado número de bens, mas o devedor ficava a dever muito mais; a diferença era a “comissão” do administrador. Deve ser isso que serve de base à nossa história. Dos cem “baths” de azeite (uns 3.700 litros) consignados no recibo (v. 6), só uns cinqüenta haviam sido, na realidade, emprestados; os outros cinqüenta constituíam o reembolso dos gastos do administrador e a exorbitante “comissão” que lhe devia ser paga pela operação.
Provavelmente, o que este administrador sagaz fez foi renunciar ao lucro que lhe era devido, a fim de assegurar a gratidão dos devedores: renunciou a um lucro imediato, a fim de assegurar o seu futuro. Este administrador (se ele é chamado “desonesto” – v. 8 – não o é por este gesto, mas pelos atos anteriores, que até levaram o patrão a despedi-lo) é um exemplo pela sua habilidade e sagacidade: ele sabe que o dinheiro tem um valor relativo e troca-o por outros valores mais significativos – a amizade, a gratidão. Jesus conclui a história convidando os discípulos a serem tão hábeis como este administrador (v. 9): os discípulos devem usar os bens deste mundo, não como um fim em si mesmo, mas para conseguir algo mais importante e mais duradouro (o que, na lógica de Jesus, tem a ver com os valores do “Reino”).
Na segunda parte do texto (vs. 10-13), Lucas apresenta-nos uma série de “sentenças” de Jesus sobre o uso do dinheiro (originariamente, estas “sentenças” não tinham nada a ver com o contexto desta parábola). No geral, essas “sentenças” avisam os discípulos para o bom uso dos bens materiais: se sabemos utilizá-los tendo em conta as exigências do “Reino”, seremos dignos de receber o verdadeiro bem, quando nos encontrarmos definitivamente com o Senhor ressuscitado.
ATUALIZAÇÃO
O mundo em que vivemos decidiu que o dinheiro é o deus fundamental e que tudo deixa de ter importância, desde que se possam acrescentar mais uns números à conta bancária. Para ganhar mais dinheiro, há quem trabalhe doze ou quinze horas por dia, num ritmo de escravo, e prescinda da família e dos amigos; por dinheiro, há quem sacrifique a sua dignidade e apareça a expor, diante de uma câmara de televisão, a sua intimidade e a sua privacidade; por dinheiro, há quem venda a sua consciência e renuncie a princípios em que acredita; por dinheiro, há quem não tenha escrúpulos em sacrificar a vida dos seus irmãos e venda drogas e armas que matam; por dinheiro, há quem seja injusto, explore os seus operários, se recuse a pagar o salário do mês porque o trabalhador é ilegal e não se pode queixar às autoridades. Que pensamos disto? Ser escravo dos bens é algo que só acontece aos outros? Talvez não cheguemos, nunca, a estes casos extremos; mas até onde seríamos capazes de ir por causa do dinheiro?
Jesus avisa os discípulos de que a aposta obsessiva no “deus dinheiro” não é o caminho mais seguro para construir valores duradouros, geradores de vida plena e de felicidade. É preciso – sugere Ele – que saibamos aquilo em que devemos apostar. O que é, para nós, mais importante: os valores do “Reino” ou o dinheiro? Na nossa atividade profissional, o que é que nos move: o dinheiro, ou o serviço que prestamos e a ajuda que damos aos nossos irmãos? O que é que nos torna mais livres, mais humanos e mais felizes: a escravidão dos bens ou o amor e a partilha?
Todo este discurso não significa que o dinheiro seja uma coisa desprezível e imoral, do qual devamos fugir a todo o custo. O dinheiro (é preciso ter os pés bem assentes na terra) é algo imprescindível para vivermos neste mundo e para termos uma vida com qualidade e dignidade. No entanto, Jesus recomenda que o dinheiro não se torne uma obsessão, uma escravidão, pois Ele não nos assegura (e muitas vezes até perturba) a conquista dos valores duradouros e da vida plena.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho




Os filhos da luz
I. A primeira leitura da missa (1) faz ressoar aos nossos ouvidos as fortes censuras dirigidas pelo profeta Amós aos comerciantes que se enriquecem à custa dos pobres: alteram o peso, vendem mercadorias deterioradas, fazem subir os preços aproveitando momentos de necessidade... São inúmeros os meios injustos de que se servem para fazer prosperar os seus negócios.
No Evangelho da missa (2), o Senhor serve‑se de uma parábola para falar da habilidade de um administrador que é chamado a prestar contas da sua gestão, e que é acusado de malversar os bens do seu senhor. O administrador pôs‑se a refletir sobre o que o esperava: Cavar não posso, de mendigar tenho vergonha. Já sei o que hei de fazer, para que haja quem me receba em sua casa quando for removido da administração. Chamou os devedores do seu amo e fez com eles um acordo que os favorecia. Ao primeiro que se apresentou, disse‑lhe: Quanto deves ao meu senhor? Ele respondeu: Cem medidas de azeite. Então disse‑lhe: Toma a tua obrigação, senta‑te depressa e escreve cinqüenta. Depois disse a outro: E tu quanto deves? E ele respondeu: Cem alqueires de trigo. Disse‑lhe o feitor: Toma as tuas letras e escreve oitenta.
O dono teve notícia do que o administrador tinha feito e louvou‑o pela sua sagacidade. E Jesus, talvez com um pouco de tristeza, acrescentou: Os filhos deste mundo são mais hábeis nas suas coisas do que os filhos da luz. O Senhor não louva a imoralidade desse intendente que, no pouco tempo que lhe restava, preparou uns amigos que depois o recebessem e ajudassem. “Por que o Senhor narrou esta parábola? – pergunta santo Agostinho –. Não porque aquele servo fosse um exemplo a ser imitado, mas porque foi previdente em relação ao futuro, a fim de que se envergonhe o cristão que não tenha essa determinação”3; louvou‑lhe o empenho, a decisão, a astúcia, a capacidade de sobrepor‑se e resolver uma situação difícil, sem se deixar levar pelo desânimo.
Podemos observar com freqüência como é grande o esforço e os inúmeros sacrifícios que muitas pessoas fazem para conseguir mais dinheiro, para subir na escala social... Noutros casos, ficamos espantados até com os meios que empregam para fazer o mal: imprensa, editoras, televisão, projetos de todo o tipo... E nós, cristãos, devemos pôr ao menos esse mesmo empenho em servir a Deus, multiplicando os meios humanos para fazê‑los render em favor dos mais necessitados: em atividades de ensino, de assistência, de beneficência... O interesse que os outros têm nos seus afazeres terrenos, devemos nós tê‑lo em ganhar o Céu, em lutar contra o que nos separa de Cristo.
“Que empenho põem os homens nos seus assuntos terrenos!: sonhos de honras, ambição de riquezas, preocupações de sensualidade. – Eles e elas, ricos e pobres, velhos e homens feitos e moços e até crianças; todos a mesma coisa.
“– Quando tu e eu pusermos o mesmo empenho nos assuntos da nossa alma, teremos uma fé viva e operante; e não haverá obstáculo que não vençamos nos nossos empreendimentos apostólicos” (4).
II. Os filhos do mundo parecem às vezes mais conseqüentes com a sua forma de pensar. Vivem como se só existisse este mundo e labutam nele sem freio nem medida. O Senhor deseja que ponhamos nas coisas que lhe dizem respeito – a santidade pessoal e o apostolado – ao menos o mesmo empenho que os outros põem nos seus negócios terrenos; quer que nos devotemos aos assuntos da alma e do reinado de Cristo com interesse, com alegria, com entusiasmo, e que encaminhemos todas as coisas para esse fim, que é o único que realmente vale a pena. Nenhum ideal é comparável ao de servir a Cristo, utilizando os dons recebidos como meio para um fim que ultrapassa este mundo passageiro.
Ao terminar a parábola, o Senhor recorda‑nos: Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará um e amará o outro, ou se afeiçoará àquele e desprezará este. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Temos apenas um Senhor, e devemos servi‑lo com todo o nosso coração, com os talentos que Ele mesmo nos deu, empregando nesse serviço todos os meios lícitos, a vida inteira. Temos de orientar para Deus, sem exceção, todos os atos da nossa vida: o trabalho, os negócios, o descanso... O cristão não tem um tempo para Deus e outro para os assuntos deste mundo: estes devem converter‑se em serviço a Deus pela retidão de intenção. “É uma questão de segundos... Pensa antes de começar qualquer trabalho: – Que quer Deus de mim neste assunto? – E, com a graça divina, faze‑o” (5).
Para ser bom administrador dos talentos que recebeu, dos bens de que deve prestar contas, o cristão deve saber ainda, como manifestação e contraprova do seu amor a Deus, dirigir as suas ações para a promoção do bem comum, encontrando para isso as soluções adequadas, com engenho, com “profissionalismo”, levando adiante ou colaborando em empreendimentos ou obras boas a serviço dos outros, tendo a convicção de que valem mais a pena que o negócio mais atraente. São os leigos “quem deve intervir nas grandes questões que afetam a presença direta da Igreja no mundo tais como a educação, a defesa da vida e do meio ambiente, o pleno exercício da liberdade religiosa, a presença da mensagem cristã nos meios de comunicação social. Nestas questões, devem ser os próprios leigos cristãos, enquanto cidadãos e através dos canais a que têm legítimo acesso no desenvolvimento da vida pública, quem faça ouvir a sua voz e prevalecer os seus justos direitos”6. Assim serviremos a Deus no meio do mundo.
Mobilizando todos os meios ao nosso alcance, temos de trabalhar, “com um entusiasmo e energia renovados, por refazer o que foi destruído por uma cultura materialista e hedonista, e por avivar o que existe apenas debilmente. Não se trata já de revigorar as raízes. Em não poucos casos, em não poucos ambientes, trata‑se de começar desde o princípio, quase a partir do zero. Por isso é possível falar hoje de uma nova evangelização” (7). A tarefa que o Senhor nos confia – através do seu Vigário na terra8 – é imensa. Não deixemos de empenhar nela o nosso tempo, o prestígio profissional, a ajuda material...
“Já o disse o Mestre: oxalá nós, os filhos da luz, ponhamos, em fazer o bem, pelo menos o mesmo empenho e a obstinação com que se dedicam às suas ações os filhos das trevas!
“Não te queixes: trabalha antes para afogar o mal em abundância de bem” (9).
III. Ainda que seja a graça que transforma os corações, o Senhor quer que utilizemos meios humanos na nossa ação apostólica, todos os que estiverem ao nosso alcance. São Tomás de Aquino ensina10 que seria tentar a Deus não fazer aquilo que podemos e esperar tudo dEle. Este princípio também se aplica à atividade apostólica, em que o Senhor espera dos seus discípulos uma cooperação sábia, efetiva e abnegada. Não somos instrumentos inertes. Os filhos da luz devem ser tão hábeis como os filhos deste mundo, e acrescentar aos meios sobrenaturais os talentos humanos, os dons de simpatia e comunicabilidade, a arte da persuasão, a fim de conquistarem uma alma para Cristo.
E nas obras apostólicas de formação, de ensino... serão necessários ainda os meios econômicos, como o próprio Senhor indicou: Quando eu vos mandei sem bolsa, e sem alforje, e sem sandálias, faltou‑vos porventura alguma coisa? Eles disseram: Nada. Disse‑lhes pois: Mas agora quem tem bolsa, tome‑a, e também alforje, e quem não tem espada, venda a sua túnica e compre uma (11). O próprio Jesus, para realizar a sua missão divina, quis servir‑se muitas vezes de meios terrenos: cinco pães e dois peixes, um pouco de barro, os bens de umas piedosas mulheres...
Sabemos muito bem que a missão apostólica a que o Senhor nos chama ultrapassa a capacidade dos meios humanos ao nosso dispor, e por isso nunca deixaremos de lado os sobrenaturais, como se fossem secundários. Não poremos a nossa confiança na sagacidade pessoal, no poder de persuasão da nossa palavra, nos bens que são o suporte material de um empreendimento apostólico, mas na graça divina, que fará milagres com esses meios. Esta confiança no poder divino levar‑nos‑á, entre outras coisas, a não esperar ter à mão todos os meios humanos necessários (talvez nunca cheguemos a tê‑los) para começar a agir, e menos ainda a desistir de continuar certos trabalhos ou de começar outros novos: “Começa‑se como se pode” (12). E pediremos a Jesus o que nos falta e atuaremos com a liberdade e audácia que nos dá a absoluta confiança em Deus.
“Achei graça à tua veemência. Perante a falta de meios materiais de trabalho e sem a ajuda de outros, comentavas: «Eu só tenho dois braços, mas às vezes sinto a impaciência de ser um monstro de cinqüenta, para semear e apanhar a colheita».
“Pede ao Espírito Santo essa eficácia... Ele ta concederá!” (13)
Francisco Fernández-Carvajal













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