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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

28º DOMINGO TEMPO COMUM-C

28º DOMINGO TEMPO COMUM

9 de Outubro de 2016-Ano C

1ª Leitura - 2Rs 5,14-17

Salmo 97

2ª Leitura - 2Tm 2,8-13

 



Evangelho - Lc 17,11-19




Jesus ia com seus discípulos em direção a Jerusalém, e perto do povoado da Samaria, surgiram dez leprosos e pararam a uma certa distância, para não contaminá-lo.
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"JESUS, MESTRE, TEM COMPAIXÃO DE NÓS!" - Olívia Coutinho

28º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 09 de Outubro de 2016

Evangelho de Lc 17,11-19

A todo instante, Jesus nos convida a sermos propagadores do amor de Deus, não somente com palavras, mas principalmente com as nossas ações do dia a dia! Com o nosso testemunho de vida em Deus, motivamos o outro a  fazer a experiência deste amor no  encontro com Jesus!
Como seguidores de Jesus, comprometidos com o anuncio do evangelho, não podemos ficar indiferentes  às inúmeras graças que recebemos de  Deus  e nem deixar que irmãos nossos, desconheçam a verdade que liberta!
 Muitas vezes, o que aflige o nosso irmão, não são os problemas em si, e sim, a falta de disposição para enfrentá-los por não verem nenhuma perspectiva pela frente!  São muitos, os que não conseguem sair de situações difíceis, por  falta  de motivação, por falta de alguém  que  lhes mostre o Deus da vida, o Deus que é maior do que o seu problema!
Podemos ter fé, mas se não aplicarmos na nossa vida, os ditos e feitos de Jesus, não daremos testemunho do seu amor,  portanto, o reino de Deus não irá acontecer através de nós. O Reino de Deus só acontece através de nós, quando assim como Jesus, nos tornamos fonte de libertação para o outro, eliminando as trevas de sua vida!
A narrativa do evangelho deste Domingo, nos mostra, o quanto é importante propagar o amor de Deus no mundo!  Foi graças a esta propagação, que dez leprosos se  libertaram de um mal que lhes causava, além das feridas no corpo, feridas profundas na alma.  Condenados pela sociedade, a viverem excluídos do convívio social, sem o  contato  com a  família, estes dez homens,  sobreviviam nas periferias, num total abandono. É neste abandono, que Jesus, caminhando para Jerusalém, os  encontra! Certamente, aqueles leprosos, já tinham ouvido falar do poder de Deus na pessoa de Jesus, isto é,  o amor e  a  misericórdia de Jesus, já havia sido propagados pelo o povo naquelas redondezas, o que despertou neles, a esperança de serem curados por Jesus!
Cientes de suas limitações, eles não ousaram  em aproximar de Jesus, mas de longe gritaram: “Jesus, Mestre, tem piedade de nós!”. Jesus é muito breve neste encontro, apenas ordena-os a irem até os sacerdotes, pois só eles, poderiam liberá-los para o convívio  social, após constatar a sua cura, cura, que Jesus sabia que iria acontecer ao longo do caminho!  
(A lepra, hoje conhecida com  hanseníase,  era uma doença incurável, quem a contraia  era considerado impuro, condenado ao isolamento, a viver fora do convívio social, religioso e familiar e quando alguém se livrava deste mal, a sua cura era considerada como obra exclusiva de Deus.)
Em obediência a Jesus, os leprosos, cheios de esperança,   tomam o caminho indicado por Jesus e durante o percurso, percebem que estão curados!  Um deles, logo que se viu livre da lepra, retorna  ao encontro do Sacerdote, o sacerdote Maior, aquele que lhe concedera a cura: Jesus! Prostrado a seus pés, ele recebe também a cura interior, ou seja a sua Salvação. Este, era um samaritano, considerado inimigo dos judeus, foi o único  que ao sentir tocado pela intervenção de Deus em seu corpo, quis também experimentá-la no seu interior! Uma atitude que podemos constatar  com a sua decisão de  retornar à Jesus
Antes de receber a cura, aquele  samaritano,  grita Jesus de longe, curado, ele toca em Jesus, numa atitude de reconhecimento de que Jesus era o próprio Deus! É este reconhecimento que o  levou a ficar totalmente livre de tudo o que lhe escravizava: doença, preconceito, abandono e principalmente o pecado...
É por isso, que este samaritano, vindo de um povo que não honrava a Deus, recebeu a cura física e interior e simultaneamente a salvação entrou na vida dele,  enquanto que os outros nove, que eram judeus, se contentaram somente com a cura física, não quiseram voltar para receber a cura interior!
Jesus questiona: “e os outros nove, onde estão?” Este  questionamento de Jesus,  não significa que Ele queria um agradecimento verbal, o  que  entristeceu Jesus,  foi o fato deles não se interessarem pela cura interior, negando a salvação.  Os nove,  perderam  a oportunidade  de experimentarem  a ação de Deus em suas vidas, numa cura total, ou seja, a cura do corpo e da alma, como alcançou o samaritano!
A salvação é um presente que Deus concede a todo aquele que crê em Jesus e que se dispõe a  segui-lo.
Mais importante do que ser curado fisicamente por Jesus, é  permanecer com Ele, como fez o samaritano!
E nós, com quem identificamos: com o Samaritano? Ou com os nove leprosos  que se contentaram somente com a cura física?

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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O estrangeiro
Estranho, estrangeiro, estranheza são palavras que, até certo ponto, nos apontam para realidades que nos causam apreensão. Estamos diante do diferente. Estranhos chegam ao país para buscar trabalho. Os estrangeiros nos colocam  diante do diferente. Nem sempre conseguimos nos aproximar de ideais diferentes e de pessoas estrangeiras.
Caminhando para Jerusalém, Jesus atravessa a  Samaria. Sabemos que judeus e samaritanos não se entendiam e  havia mesmo entre eles manifestações de hostilidade. Jesus é estrangeiro naquelas terras e estrangeiros a Jesus dele se aproximam.
Dez leprosos acorrem ao encontro de Jesus.  Jesus, sem delongas, pede que eles se apresentem ao sacerdote. Não diz imediatamente que fiquem curados. Dá-lhes um pequeno espaço de tempo para contemplarem suas carnes que haveriam se tornar sadias. Não seriam mais fétidos e indesejáveis. No caminho ficam curados. “Um deles, ao perceber que estava curado voltou glorificando a Deus em alta voz; atirou-se aos pés de Jesus com o rosto por terra e lhe agradeceu. E este era um samaritano”.
Quem volta é o estrangeiro. Os da casa, não se lembram disso.  Há pormenores muito significativos: o samaritano  volta, não se deixa prender por suas ocupações e tarefas, volta glorificando a Deus. Nesse Jesus ele vê a presença daquele que é o inominável.  Louva a Deus. Atitude dos corações grandes e retos.   Faz isto em alta voz, como que a querer que outros saibam e que Jesus se dê conta que ele, o que foi curado, está invadido de um entusiasmo tal que até sua voz o exprime. Outro detalhe importante: o homem coloca o rosto por terra, junta-se ao húmus, ao que é de baixo. Tem uma postura correta diante do dom de Deus. Agradece.  Lucas faz questão de assinalar: “ E este era um samaritano”.
Um comentarista bíblico, Alois Stöger, assim comenta a passagem: “ O samaritano, que como estrangeiro, não pertence aos filhos de Israel não ousa fazer exigências a Deus. O que ele recebe, o aceita como dádiva graciosa de Deus a agradece. Os judeus não agradecem porque são judeus e porque consideram os dons de Deus como algo que lhes é devido. Recebem do enviado de Deus o que – como pensam – lhes pertence. Falta-lhes a atitude básica para aceitação da salvação. No estrangeiro encontram-se atitudes que o preparam para a salvação: gratidão , louvor, consciente pobreza perante Deus. O caminho para a salvação está aberto a todos, também aos “estrangeiros”, aos pecadores e aos gentios. O que salva é a fé, a decisão, o abandono à palavra de Jesus e à ação salvífica de  Deus por ele”.
No ambiente cristão, pode acontecer que as pessoas se creiam merecedoras disto e daquilo, das graças e dos sacramentos. Por vezes, insistem muito na expressão “tenho direito”. Pode ser que os que freqüentam pouco, os diferentes, os casados recasados impossibilitados de comum, diante dos benefícios do Senhor tenham um coração generosamente grato.
Convém que todos participemos da missa diária com a certeza de que ali fazemos a melhor ação de graças.  Dizemos a Deus, em Cristo, que somos gratos ao carinho de Deus manifestado por nós  na vida, cruz, morte e ressurreição do Senhor.
frei Almir Ribeiro Guimaeães




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A graça de Deus e nosso agradecimento
A história de Eliseu e Naamã, tema da 1ª leitura de hoje, mereceria mais carinho do que a liturgia lhe consagra. De fato, o recorte litúrgico exige pelo menos uma pequena introdução narrativa, para pôr os ouvintes a par do que precedeu à entrada de Naamã na água do Jordão: como este estrangeiro criou a idéia de consultar um profeta de Israel e, sobretudo, como ele queria montar o espetáculo, levando ricos presentes (2Rs. 5,5).
Queria que Eliseu o curasse por sua palavra, mas Eliseu o mandou banhar-se no Jordão, para que ficasse claro que não era Eliseu quem curava, e sim, o Senhor de Israel e das águas do Jordão. O general, apertado, aprendeu a obedecer. Veio a hora de agradecer: novamente, Naamã oferece um presente digno de um príncipe.
Eliseu recusa, pois quem agiu foi Deus! Então vem o comovente fim da história: curado, não só de sua lepra, mas de seu orgulho de militar, Naamã pede para levar à Síria um pouco de terra de Israel, para adorar, na Síria, o Deus de Israel no seu próprio chão. Além disso, pede antecipadamente perdão porque, como funcionário real, terá que adorar de vez em quando o deus sírio Remon; e Eliseu responde: “Pode fazer tranqüilamente”...
As lições desta história são diversas. Aparece a gratuidade do agir de Deus: nem presentes, nem ordens o movem, mas a ingênua confiança que se esconde por trás das manias militarescas de Naamã. A humildade do profeta, que só quer que Deus apareça. A comovente gratidão do sírio. A abertura de espírito do profeta quanto às obrigações religiosas do sírio. O fato de ele ser estrangeiro: Deus “não tinha obrigações” para com ele.
O evangelho lembra esta história sob vários aspectos. Trata-se de lepra. Dez leprosos são curados, não imediatamente (cf. Naamã), mas somente depois de ter mostrado uma confiança inicial, tomando o caminho para se mostrar aos sacerdotes. Porém, quanto ao tema da gratidão, somos mais chocados que comovidos: só um dos dez volta para agradecer. Por sinal, um estrangeiro, samaritano (cf. Naamã). Parece que a graça de Deus é melhor acolhida pelos estrangeiros. E é verdade, mesmo. Pois eles se sabem agraciados. Não têm privilégios. As pessoas da casa acham que tudo o que recebem é “por direito” e que, portanto, não precisam agradecer. Esquecem que tudo é graça. Acham que estão quites quando cumprem as prescrições: mostrar-se aos sacerdotes. São absorvidos por seu próprio sistema. Por isso, se diz que os piores cristãos moram o mais perto da Igreja: apropriam-se da religião e esquecem o extraordinário de tudo o que Deus faz.
Gratuidade do agir de Deus, gratidão por tudo o que Deus faz: tudo é graça. Estes seriam os temas de reflexão para hoje. E o dia indicado para ler o belo prefácio comum IV: agradecemos a Deus até o dom de O louvar! Também a oração do dia participa deste tema: a graça de Deus deve preceder e acompanhar nosso agir; devemos estar atentos ao bem que “podemos” fazer, isto é, que Deus nos dá para fazer, como um dom.
Graça, gratuidade, gratidão, agradecimento: é o momento de ensinar ao povo o parentesco, não apenas etimológico, mas vital, destas palavras. Na 2ª leitura, o testamento de Paulo chega ao mais alto grau de condensação: Paulo confia a seu cooperador, Timóteo, “seu evangelho”, o anúncio da ressurreição de
Cristo, que garante também nossa ressurreição, se ficarmos firmes na fé nesta palavra. As últimas frases formam um hino (2Tm. 2,11-13). A palavra que é verdadeira nos ensina: se morrermos com Cristo, viveremos; se formos firmes, reinaremos com ele; se o renegarmos, ele nos renegará; - e agora vem uma quebra surpreendente nos paralelismos - se formos infiéis, ele será... fiel! pois não pode negar seu próprio ser! Esta 2ª leitura, que interrompe a unidade temática da 1ª e 3ª leituras, porém rica demais para ser suprimida, poderia ser um belo texto de meditação, depois da comunhão.
Johan Konings "Liturgia dominical"



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Cura de dez leprosos
Naquele tempo de Jesus, a lepra era considerada pelo povo como um castigo de Deus e, segundo a Lei, os leprosos deviam se afastar das pessoas que se aproximassem deles. Rejeitados pela sociedade e obrigados a viver longe do convívio social, os leprosos são o modelo da marginalidade e da pobreza. Nessa passagem do Evangelho os leprosos pedem a compaixão de Jesus. É mais um apelo que eles fazem à vida do que uma denúncia à sua miséria. Jesus responde pedindo que se apresentem aos sacerdotes, pois, segundo a Lei, eles eram encarregados de inspecionar se o leproso estava ou não curado para voltar ao convívio social. Jesus exige dos dez leprosos que se apresentem, antes mesmos de serem curados, mostrando o valor da obediência à lei.
A cura acontece “enquanto caminham”. Quanto à gratidão, somos mais chocados que comovidos, pois somente um, dos dez leprosos, volta para agradecer, talvez porque os outros nove se considerem com direito aos dons de Deus, por serem membros do povo escolhido.
O detalhe é importante, aquele que volta para dar glória a Deus é um samaritano, é estrangeiro e considera-se indigno do favor de Deus, por isso agradece a cura com seu coração humildade, e reconhece que Jesus está libertando os marginalizados. A ação é para todos, mas a reação de todos não é igual.
As pessoas da casa acham que tudo o que recebem é por direito, e que, portanto não precisam agradecer. Esquecem que tudo é graça de Deus.
Muitos cristãos apropriam-se da religião e esquecem o extraordinário de tudo o que Deus faz. A graça de Deus deve preceder e acompanhar o agir de cada um que precisa estar atento ao bem que pode fazer como um dom. Graça, gratuidade, gratidão e agradecimento são palavras que estão próximas do reconhecimento do cristão no que diz respeito ao Amor de Deus.
Pequeninos do Senhor


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O pecado da ingratidão
O modo como os leprosos agem em relação ao benefício recebido de Jesus corresponde às nossas atitudes perante a misericórdia divina.
No seu desespero, os leprosos recorrem a Jesus, implorando piedade. Era insuportável a situação em que se encontravam, vítimas da doença. Mesmo para recorrer ao Mestre, deviam manter-se à distância, como mandava a Lei. Esta os obrigava a andar com as vestes rasgadas, com os cabelos desgrenhados e a barba coberta. E mais, deveriam habitar fora da cidade, e gritar: "impuro, impuro!", quando alguém se aproximasse, para evitar a contaminação. Situação dolorosa!
A súplica pungente do grupo de doentes encontra guarida no coração de Jesus. Ele os atende imediatamente, ordenando que se apresentem aos sacerdotes, como se já estivessem curados.
Só um sentiu-se motivado a voltar atrás e agradecer a quem o havia curado. Jogou-se aos pés de Jesus, dando gritos de louvor a Deus. E este era um samaritano, membro de um povo inimigo dos judeus, visto com desprezo. A gratidão brotou-lhe espontânea do coração.
Já os outros nove, judeus de origem, esqueceram-se de agradecer. Assim, deram mostras de não ter dado o passo da fé, reconhecendo a condição messiânica de Jesus. E perderam a chance de receber os benefícios da salvação.
padre Jaldemir Vitório - www.domtotal.com



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É uma palavra que comunica o Sopro de Deus e faz viver
O episódio da purificação do sírio Naamã, um pagão, pelo profeta Eliseu, já foi evocado por Jesus, no início do terceiro evangelho (4,25-27), para responder às objeções dos nazarenos do porquê Jesus não havia realizado em sua própria pátria os atos de poder realizados em Cafarnaum: “Certamente ireis me citar o provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, faze-o, também, aqui, em tua pátria” (4,23). Mas a falta de fé impedia os conterrâneos de Jesus de acolhê-lo como dom de Deus e de ver em sua pessoa a irrupção da vida de Deus em favor de toda a humanidade. O que eles pensavam saber de Deus os cegava. Desse modo, Nazaré passará a ser o protótipo de Israel, que rejeita a salvação no modo como ela é oferecida por Deus ao seu povo, na plenitude do tempo. Essa rejeição será utilizada, no Novo Testamento, como um dos argumentos para afirmar a abertura da salvação aos pagãos.
O evangelho deste domingo trata da cura por Jesus de dez leprosos, entre os quais um samaritano, um estrangeiro (cf. v. 18), o único que retorna a Jesus para agradecer (cf. v. 16). Nós já conhecemos a situação dos leprosos e como, mesmo do ponto de vista religioso, eles eram desprezados e excluídos da graça de Deus. O Levítico descreve a situação com detalhes: “O leproso portador desta enfermidade trará suas vestes rasgadas e seus cabelos sem pentear; cobrirá o bigode e clamará: Impuro! Impuro!… morará à parte: sua habitação será fora do acampamento” (Lv. 13,45-46). A lepra era tida como castigo de Deus e somente Deus podia libertar a pessoa de tal enfermidade (cf. Nm. 12,9-13). Há uma outra purificação de um leproso, em Lucas 5,12-14, com o mesmo alcance messiânico. “Dez” era o número dos leprosos que gritam implorando compaixão (cf. vv. 12-13). Não há qualquer gesto, ao contrário da história de Eliseu; somente a palavra de Jesus foi suficiente para purificá-los. É uma palavra que é e comunica o Sopro de Deus que faz viver; palavra eficaz, pois, “enquanto estavam a caminho, foram purificados” (v. 14). “Dez” é um número que simboliza a totalidade de um povo. Todo um povo é visitado pela graça de Deus. No entanto, dos dez somente um retorna para agradecer; os outros nove não souberam reconhecer o tempo da graça e da salvação. A cura da lepra é um dos sinais dos tempos messiânicos (cf. 7,22-23). A salvação da qual Jesus é portador e oferta a todos. Mas, se os dez foram beneficiados pela Palavra do Senhor, por que somente o samaritano reconheceu e retornou para agradecer? “Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão?” (v. 17). Somente o samaritano, considerado herético pelos judeus, é que retornou cumprindo a missão de Israel (cf. Sl. 96[95],1-3). O texto interpela o leitor do evangelho: quão difícil é reconhecer o Reino de Deus que se aproxima. O que é necessário fazer ou cultivar para que não percamos a oportunidade de reconhecer o tempo em que somos visitados?
Não obstante nós mesmos, “Deus permanece fiel, mesmo quando nós lhe somos infiéis, pois não pode negar-se a si mesmo” (2Tm. 2,13).
Carlos Alberto Contieri,sj



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A Palavra de Deus não está acorrentada
Durante seu ministério na Galileia e nos territórios gentílicos vizinhos, Jesus já entrara em conflito com os escribas e fariseus, chefes das sinagogas e defensores da Lei. Agora, Jesus atravessa a Samaria, a caminho de Jerusalém, onde ocorrerá o confronto com o Templo, sede da instituição religiosa judaica, com a rejeição a Jesus pelos sacerdotes e pelos grandes proprietários rurais que eram os chefes deste Templo. Em contraposição a esta rejeição, Lucas, no seu Evangelho, dá um destaque particular aos samaritanos, que eram considerados gentios e excluídos pelo Judaísmo, como sendo aqueles que acolhem Jesus. Na narrativa de hoje, os dez leprosos vêm ao encontro de Jesus e param a certa distância dele, pois, pela Lei, o leproso não podia aproximar-se das demais pessoas. Pedem pela misericórdia de Jesus. Este pede que eles se apresentem aos sacerdotes; esta apresentação devia ser feita depois da cura. Com isto, Jesus insinuava que já lhes tinha dado a cura e, assim, ao seguirem para Jerusalém, para se apresentarem aos sacerdotes do Templo, ficaram curados. Contudo, só um deles, que era samaritano, sentindo-se curado, percebe que a fonte da vida é Jesus e não o Templo, e, com esta compreensão, volta para junto de Jesus e lhe agradece. Os outros nove, embora tivessem sido curados, continuavam atrelados aos preceitos do Judaísmo, seguindo seu caminho para Jerusalém. Na perspectiva da salvação sem fronteiras e sem privilégios de etnia, a primeira leitura narra também a conversão de um leproso estrangeiro, o sírio Naamã, que teve fé na palavra do profeta Eliseu. Jesus, ao ser rejeitado em sua própria terra, lembra este episódio de Naamã: um estrangeiro, considerado excluído pelo povo eleito, que crê, enquanto estes que se consideram eleitos rejeitam Jesus (cf. 30 ago.).
A Palavra de Deus não está acorrentada (segunda leitura). Ela vem para trazer a libertação e a vida para todos. Libertados e glorificando a Deus, seguimos, unidos em comunidade, fiéis a Jesus de Nazaré, na sua missão salvífica.
José Raimundo Oliva



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Salta aos olhos a mensagem da Palavra de Deus neste domingo: a gratidão, o reconhecimento cheio de amor pela ação benéfica de Deus na nossa vida. Gratidão e ingratidão – eis o que aparece nas leituras de hoje. Primeiro, a gratidão de Naamã, um pagão, inimigo de Israel, que, no entanto, sabe ser agradecido a Deus. Curado de sua lepra, voltou para agradecer ao profeta Eliseu e, como sinal de conversão ao Deus verdadeiro, levou terra de Israel para Damasco, sua cidade, para, sobre essa terra, adorar a Deus. O reconhecimento pelo benefício de Deus fez desse pagão um amigo do Senhor e salvou a sua existência de um caminho sem sentido. Também a gratidão de outro pagão, o leproso samaritano que soube, reconhecido, voltar a Jesus “para dar glória a Deus”. Mas também, hoje, aparece a ingratidão. Nove leprosos, filhos do povo de Israel, que curados, não retornam para agradecer o dom... Dez foram curados, somente um foi salvo, o leproso pagão e estrangeiro: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou!”
Estejamos atentos! Hoje, temos tudo... Chegamos a um alto grau de desenvolvimento tecnológico e científico, compreendemos tantos dos processos e dinamismos da natureza e, num mundo ativista e auto-suficiente, temos a sensação ilusória que nos bastamos, que tudo é nosso, que tudo é fruto de nossos esforços, que tudo foi conquista nossa, simplesmente. Vamos nos tornando cegos para a presença cuidadosa, providencial e cheia de amor de um Deus que sempre vela por nós. Vamos nos tornando gravemente insensíveis para perceber a vida como dom, como graça, como presente. É impressionante como o mundo nos vai tornando dormentes, insensíveis mesmo, para Deus! Se a vida já não mais é percebida como um dom, também do nosso coração já não mais brota a ação de graças. Mas, uma vida assim é ela mesma, sem graça, ela mesma uma “desgraça”! Somente quando abrimos o coração e os olhos da fé, podemos perceber que tudo é graça, imenso dom de um Amor sem fim e, então, seremos realmente curados de uma vida sem sentido e libertos para correr livres nos caminhos da existência. Poderemos ouvir a palavra de Jesus: “Levanta-te e vai! A tua fé te salvou!  Salvou-te de uma vida mesquinha, fechada, incapaz de olhar as estrelas, incapaz de comunhão com o Pai do céu, incapaz de dizer "Pai nosso"  e de reconhecer nos outros teus irmãos..." Mas, para isso – nunca esqueçamos – é necessário um coração de pobre, um coração humilde, que reconheça que tudo quanto possuímos foi recebido de Deus.
Vale, então, para nós, no corre-corre da vida, a advertência de São Paulo, na segunda leitura de hoje: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos!” Lembrar-se de Cristo é tê-lo como palavra última e total de amor que o Pai nos pronunciou. Lembrar-se de Jesus é nunca esquecer que Deus está conosco, amando-nos, perdoando-nos e acolhendo-nos como Deus providente e misericordioso. Lembrar-se de Jesus morto e ressuscitado é nunca duvidar da misericórdia de Deus e de seu compromisso na nossa existência e na existência do mundo. “Lembra-te de Jesus Cristo ressuscitado! Merece fé esta palavra: se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele ficamos firmes, com ele reinaremos. Se nós o renegarmos, também ele nos negará. Se lhe formos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo!” Aqui está o motivo último e irrevogável de toda a nossa gratidão a Deus: Jesus Cristo, dado-nos como carinho e fidelidade do Pai! É de tal modo este dom, tão irrevogável, tão absoluto, que vale a pena morrer com ele para, nele, viver uma vida nova; vale a pena sofrer com ele para, nele, reinarmos. É interessante como o Apóstolo sublinha a fidelidade amorosa de Deus em Jesus: “Se lhe somos infiéis, ele permanece fiel!” Eis um Deus que não se escandaliza com nossas debilidades, mas é sempre disposto a recomeçar conosco. “Se nós o negamos, também ele nos negará”... Esta é a única atitude que nos faz perdê-lo para sempre: a ingratidão de negá-lo em nossa vida, de fechar-se de tal modo para ele, que já não mais o reconheçamos, que já não mais deixemos que ele seja o Senhor de nossa existência, que já não mais percebamos que tudo é graça, tudo é presente de amor.
Cuidemos, então do modo como estamos construindo a nossa existência: como um fechar-se sobre nós mesmos, na auto-suficiência, ou como uma abertura livre e filial, pronta a acolher e viver a vida como um dom do Senhor. Como cantam os focolares: “Se um dia perguntares quem sou, não direi o meu nome. Direi: “Obrigado”, por tudo e pra sempre, “obrigado, obrigado!”
dom Henrique Soares da Costa



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A liturgia deste domingo mostra-nos, com exemplos concretos, como Deus tem um projeto de salvação para oferecer a todos os homens, sem exceção; reconhecer o dom de Deus, acolhê-lo com amor e gratidão, é a condição para vencer a alienação, o sofrimento, o afastamento de Deus e dos irmãos e chegar à vida plena.
A primeira leitura apresenta-nos a história de um leproso (o sírio Naamã). O episódio revela que só Jahwéh oferece ao homem a vida e a salvação, sem limites nem exceções; ao homem resta acolher o dom de Deus, reconhecê-l’O como o único salvador e manifestar-Lhe gratidão.
O Evangelho apresenta-nos um grupo de leprosos que se encontram com Jesus e que através de Jesus descobrem a misericórdia e o amor de Deus. Eles representam toda a humanidade, envolvida pela miséria e pelo sofrimento, sobre quem Deus derrama a sua bondade, o seu amor, a sua salvação. Também aqui se chama a atenção para a resposta do homem ao dom de Deus: todos os que experimentam a salvação que Deus oferece devem reconhecer o dom, acolhê-lo e manifestar a Deus a sua gratidão.
A segunda leitura define a existência cristã como identificação com Cristo. Quem acolhe o dom de Deus torna-se discípulo: identifica-se com Cristo, vive no amor e na entrega aos irmãos e chega à vida nova da ressurreição.
1º leitura: 2 Reis 5,14-17 - AMBIENTE
A primeira leitura deste domingo situa-nos no reino do Norte (Israel), durante o reinado de Jorão (853-842 a.C.). Os reis de Israel – preocupados em fazer do seu país um estado moderno e em marcar o seu lugar no xadrez político do antigo Médio Oriente – mantêm, por esta altura, um intercâmbio muito vivo com os povos da zona. Em termos religiosos, essa política traduz-se numa invasão de deuses, de cultos e de valores estrangeiros, que ameaçam a integridade da fé jahwista. Apesar de Jorão ter tirado “as estátuas que seu pai tinha erigido a Baal” (2Re. 3,2), é uma época em que os deuses cananeus assumem um grande protagonismo e Baal substitui Jahwéh no coração e na vida de muitos israelitas.
Nesta fase, o profeta Eliseu assume-se como o grande defensor da fé jahwista continuando, aliás, a obra do seu antecessor Elias. Eliseu fazia parte de uma comunidade de “filhos dos profetas” (2 Re 2,3; 4,1)… Trata-se, provavelmente, de um círculo profético cujos membros eram os seguidores incondicionais de Jahwéh e aqueles em quem o Povo buscava apoio, face aos abusos dos poderosos.
No capítulo 5 do segundo Livro dos Reis, os autores deuteronomistas contam-nos a história do general sírio Naamã: considerado um dos heróis da Síria, era leproso; mas, informado por uma serva de que em Israel havia um profeta que podia curá-lo do seu mal, veio ao encontro de Eliseu, carregado de presentes. Eliseu mandou, apenas, que Naamã se banhasse sete vezes no rio Jordão (cf. 2 Re 5,1-13).
MENSAGEM
A leitura que nos é proposta descreve a cura do sírio Naamã e as reações das várias personagens envolvidas; mas, mais do que apresentar uma reportagem do acontecimento, os autores deuteronomistas quiseram tecer algumas considerações de caráter teológico e catequético, que ajudassem os israelitas (seduzidos pelo culto de Baal) a redescobrir os fundamentos da sua fé.
Em primeiro lugar, os catequistas de Israel quiseram deixar claro que Jahwéh é o Senhor da vida, que Ele tem um projeto de libertação para o homem e que só Ele pode salvar aquele que parece condenado à morte. Deus até Se pode servir de homens para atuar no mundo; mas é d’Ele – e apenas d’Ele – que brotam a salvação e a vida; é preciso que os israelitas reconheçam isto, como o sírio Naamã o reconheceu.
Em segundo lugar, os catequistas de Israel quiseram mostrar que a intervenção salvadora de Jahwéh não é uma ação meramente circunstancial, que apenas resolve os problemas externos, mas é uma ação que atua a um nível profundo e que transforma radicalmente a vida do homem… Naamã não ficou só curado de uma doença física que punha em risco a sua vida; mas a intervenção de Deus saldou-se numa transformação espiritual que fez do sírio Naamã um homem novo e o levou a deixar os ídolos para servir o verdadeiro e único Deus… A expressão dessa mudança radical é a afirmação de Naamã de que “não há outro Deus em toda a terra senão o de Israel” (v. 15) e que nunca mais irá “oferecer holocausto ou sacrifício a quaisquer
outros deuses, mas apenas ao Senhor, Deus de Israel” (v. 17).
Em terceiro lugar, a história deixa claro que a oferta da salvação não é um dom exclusivo, reservado a alguns privilegiados ou a uma raça especial: Naamã é sírio e, portanto, um inimigo tradicional do Povo de Deus… Mas Deus não faz distinção de pessoas e oferece a todos, sem exceção, a sua graça. O que é decisivo é o acolher o dom de Deus e aceitar deixar-se transformar por Ele.
Em quarto lugar, a catequese deuteronomista sublinha a “gratidão” de Naamã. Liberto dos males que o apoquentavam, ele quis agradecer a sua cura cumulando Eliseu de presentes; mas depressa percebeu (por ação de Eliseu, que o ajudou a ver claro) que não era a um homem que tinha de agradecer o dom da vida, mas sim a Deus… E a sua gratidão manifestou-se numa adesão total a Jahwéh. Os catequistas de Israel sugerem que é essa a resposta que Deus espera do homem.
Em quinto lugar, atente-se na atitude de Eliseu que nunca manifestou qualquer vontade de se aproveitar da intervenção de Deus em favor de Naamã para benefício próprio. Ao recusar aceitar qualquer presente das mãos de Naamã, Eliseu dá a entender que não é a ele mas a Jahwéh que o general sírio deve agradecer a cura. É provável que haja aqui uma denúncia irônica da atitude dos líderes religiosos da época, sempre preocupados em utilizar Deus em benefício dos seus esquemas egoístas…
ATUALIZAÇÃO
A leitura convida-nos, antes de mais, a tomar consciência de que é de Deus – desse Deus que tem um projeto de salvação para o homem – que recebemos a vida plena. A constatação desse fato atinge uma importância primordial, numa época em que somos diariamente convidados a colocar a nossa esperança e a nossa segurança em ídolos de pés de barro (para alguns, podem ser o “poderoso médium” ou a “vidente/taróloga/espírita” que garantem a solução para o mau olhado, a inveja, os males de amor, o insucesso nos negócios, etc.; para a maioria, são o dinheiro, o poder, a moda, o comodismo, o êxito, a casa com piscina, o Ferrari ou o último programa de televisão que faz ganhar vinte mil contos e abrir a janela da fama…). É em Deus que eu coloco a minha esperança de vida plena, ou há outros deuses que me seduzem, que dirigem a minha vida e que são a minha esperança de realização e de felicidade?
Convém também não esquecer que a proposta de salvação que Deus faz se destina a todos os homens e mulheres, sem exceção. O nosso Deus não é um Deus dos bonzinhos, dos bem comportados, dos brancos, dos politicamente corretos ou dos que têm o nome no livro de registros da paróquia… O nosso Deus é o Deus que oferece a vida a todos e que a todos ama como filhos; o que é decisivo é aceitar a sua oferta de salvação e acolher o seu dom. Daqui resultam duas coisas importantes: a primeira é que não basta ser batizado (e depois prescindir d’Ele e viver à margem das suas propostas); a segunda é que não podemos marginalizar ou excluir qualquer irmão nosso.
A história do sírio Naamã levanta, ainda, a questão da gratidão… É preciso que nos apercebamos que tudo é dom do amor de Deus e não uma conquista nossa ou a recompensa pelos nossos méritos ou pelas nossas boas obras. Estou consciente de que é de Deus que recebo tudo e manifesto-Lhe a minha gratidão pela sua presença, pelos seus dons, pelo seu amor?
Aqueles que recebem de Deus carismas para pôr ao serviço dos irmãos: sentem-se apenas instrumentos de Deus e procuram dirigir os olhares e a gratidão dos irmãos para Deus, ou estão preocupados em sublinhar os seus méritos e em concentrar em si próprios a gratidão que brota dos corações daqueles a quem servem?
2º leitura: 2Tim. 2,8-13 - AMBIENTE
Continuamos a ler a segunda carta a Timóteo… Para percebermos a mensagem que o texto nos propõe, convém recordar que esta carta (escrita por um autor desconhecido que, no entanto, se identifica com o apóstolo Paulo) nos coloca, provavelmente, no contexto dos finais do séc. I ou inícios do séc. II, numa altura em as comunidades cristãs sentiam arrefecido o entusiasmo dos inícios, conheciam a perseguição e estavam a ser perturbadas pelas heresias e pelas falsas doutrinas. O autor exorta Timóteo (e, na pessoa de Timóteo, todos os crentes, em geral) a perseverar na fé, a conservar a sã doutrina recebida de Jesus e a dedicar-se totalmente ao serviço do Evangelho.
MENSAGEM
Depois de exortar Timóteo a uma dedicação total ao ministério (cf. 2Tim. 2,1-7), o autor da carta apresenta o motivo supremo que justifica essa entrega: o exemplo de Cristo, que chegou à glória da ressurreição pelo caminho da cruz e do dom da vida…
O próprio Paulo seguiu esse duro caminho e é por isso que está preso; mas não está preocupado, pois o essencial é que a Palavra de Deus continue a transformar o mundo. Aliás, é preciso que alguns entreguem a própria vida para que a proposta libertadora de Jesus chegue a todos os homens… Vale a pena sofrer, a fim de que este objetivo se concretize.
O parágrafo final (vs. 11-13) corrobora e clarifica as afirmações precedentes. O cristão é chamado a identificar-se com Cristo na entrega da vida e no serviço aos irmãos; essa entrega não termina no fracasso e no sem sentido, mas – a exemplo de Cristo – na ressurreição, na vida nova. O cristão não pode é recusar fazer da sua vida um dom de amor, se quiser identificar-se com Cristo.
ATUALIZAÇÃO
O autor da Segunda Carta a Timóteo recorda, aqui, algo de central para a experiência cristã: a essência do cristianismo é a identificação de cada crente com Cristo. Isto traduz-se, concretamente, no entregar a própria vida em favor dos irmãos, se necessário até ao dom total. Identifico-me de tal forma com Cristo que sou capaz de O seguir no caminho do amor e da entrega?
A opinião pública do nosso tempo está convencida de que uma vida gasta no serviço simples e humilde em favor dos irmãos é uma vida fracassada; mas o autor da Segunda Carta a Timóteo garante que uma vida de amor e de serviço é uma vida plenamente realizada, pois no final da caminhada espera-nos a ressurreição, a vida plena (são os efeitos da nossa identificação com Cristo). O que é que, para mim, faz mais sentido? No meu dia a dia domina o egoísmo e a auto-suficiência, ou o amor, a partilha, o dom da vida?
Evangelho: Lc. 17,11-19 - AMBIENTE
Mais uma vez Lucas apresenta um episódio situado no “caminho de Jerusalém” (esse “caminho espiritual”, ao longo do qual os discípulos vão aprendendo e interiorizando os valores e a realidade do “Reino”).
No “caminho” de Jesus e dos discípulos aparecem, portanto, dez leprosos. O leproso é, no tempo de Jesus, o protótipo do marginalizado… Além de causar naturalmente repugnância pela sua aparência e de infundir medo de contágio, o leproso é um impuro ritual (cf. Lv. 13-14), a quem a teologia oficial atribuía pecados especialmente gravosos (a lepra era o castigo de Deus para esses pecados); por isso, o leproso não podia sequer entrar na cidade de Jerusalém, a fim de não despurificar a cidade santa.
Devia afastar-se de qualquer convívio humano para que não contaminasse os outros com a sua impureza física e religiosa. Em caso de cura, devia apresentar-se diante de um sacerdote, a fim de que ele comprovasse a cura e lhe permitisse a reintegração na vida normal (cf. Lv. 14). Podia, então, voltar a participar nas celebrações do culto.
Um dos leprosos (precisamente aquele que vai desempenhar o papel principal, neste episódio) é samaritano. Os samaritanos eram desprezados pelos judeus de Jerusalém, por causa do seu sincretismo religioso. A desconfiança religiosa dos judeus em relação aos samaritanos começou quando, em 721 a.C. (após a queda do reino do Norte), os colonos assírios invadiram a Samaria e começaram a misturar-se com a população local. Para os judeus, os habitantes da Samaria começaram, então, a paganizar-se… Após o regresso do exílio da Babilônia, os habitantes de Jerusalém recusaram qualquer ajuda dos samaritanos na reconstrução do Templo e evitaram os contactos com esses hereges, “raça misturada com pagãos”. A construção de um santuário samaritano no monte Garizim consumou a separação e, na perspectiva judaica, lançou definitivamente os samaritanos nos caminhos da infidelidade a Jahwéh. Algumas picardias mútuas nos séculos seguintes consolidaram a inimizade entre judeus e samaritanos. Na época de Jesus, a relação entre as duas comunidades era marcada por uma grande hostilidade.
MENSAGEM
O episódio dos dez leprosos (que é exclusivo de Lucas) insere-se perfeitamente na ótica teológica de um evangelho cujo objetivo fundamental é apresentar Jesus como o Deus que Se fez pessoa para trazer, com gestos concretos, a salvação/libertação a todos os homens, particularmente aos oprimidos e marginalizados.
É esse o ponto de partida da história que Lucas nos conta: ele mostra que Deus tem uma proposta de vida nova e de libertação para oferecer a todos os homens. O número dez tem, certamente, um significado simbólico: significa “totalidade” (o judaísmo considerava necessário que pelo menos dez homens estivessem presentes, a fim de que a oração comunitária pudesse ter lugar, porque o “dez” representa a totalidade da comunidade). A presença de um samaritano no grupo indica, contudo, que essa salvação oferecida por Deus, em Jesus, não se destina apenas à comunidade do “Povo eleito”, mas se destina a todos os homens, sem exceção, mesmo àqueles que o judaísmo oficial considerava definitivamente afastados da salvação.
Contudo, o acento do episódio de hoje é posto – mais do que no episódio da cura em si – no fato de que, dos dez leprosos curados, só um tenha voltado para trás para agradecer a Jesus e no fato de este ser um samaritano. Lucas está interessado em mostrar que quem recebe a salvação deve reconhecer o dom de Deus e deve estar agradecido… E avisa que, com freqüência, são os hereges, os marginais, os desprezados, aqueles que a teologia oficial considera à margem da salvação, que estão mais atentos aos dons de Deus. Haverá aqui, certamente, uma alusão à auto-suficiência dos judeus que, por se sentirem “Povo eleito”, achavam natural que Deus os cumulasse dos seus dons; no entanto, não reconheceram a proposta de salvação que, através de Jesus, Deus lhes ofereceu… Certamente haverá aqui, também, um apelo aos discípulos de Jesus, para que não ignorem o dom de Deus e saibam responder-Lhe com a gratidão e a fé (entendida como adesão a Jesus e à sua proposta de salvação).
ATUALIZAÇÃO
A lepra que rouba a vida a esses “dez” homens que a leitura de hoje nos apresenta representa o infortúnio que atinge a totalidade da humanidade e que gera exclusão, marginalidade, opressão, injustiça. É a condição de uma humanidade marcada pelo sofrimento, pela miséria, pelo afastamento de Deus e dos irmãos, que aqui nos é pintada… Lucas garante, no entanto, que Deus tem um projeto de salvação para todos os homens, sem exceção; e que é em Jesus e através de Jesus que esse projeto atinge todos os que se sentem “leprosos” e os faz encontrar a vida plena, a reintegração total na família de Deus e na comunidade humana.
É preciso ter uma resposta de gratidão e de adesão à proposta de salvação que Deus faz. Atenção: muitas vezes são aqueles que parecem mais fora da órbita de Deus que primeiro reconhecem o seu dom, que o acolhem e que aderem à proposta de vida nova que lhes é feita. Às vezes, aqueles que lidam diariamente com o mundo do sagrado estão demasiado cheios de auto-suficiência e de orgulho para acolherem com humildade e simplicidade os dons de Deus, para manifestarem gratidão e para aceitarem ser transformados pela graça… Convém pensar na atitude que, dia a dia, eu assumo diante de Deus: se é uma atitude de auto-suficiência, ou se é uma atitude de adesão humilde e de gratidão.
Como lidamos com aqueles que a sociedade de hoje considera leprosos e que, muitas vezes, se encontram numa situação de exclusão e de marginalidade (os sem abrigo, os drogados, os deficientes, os doentes terminais, os idosos abandonados em lares, os analfabetos, os que vivem abaixo do limiar da pobreza, os que não têm telemóvel nem internet, os que não vestem de acordo com a moda, os que não pactuam com certos valores politicamente corretos, os que não consomem produtos “light” e não têm uma silhueta moderna, os que não freqüentam as festas sociais nem aparecem nos programas televisivos de sucesso…): com desprezo, com indiferença, com medo de ficar contaminados ou como testemunhas da bondade e do amor de Deus?
Curiosamente, os dez leprosos não são curados imediatamente por Jesus, mas a lepra desaparece no caminho, quando iam mostrar-se aos sacerdotes. Isto sugere que a ação libertadora de Jesus não é uma ação mágica, caída repentinamente do céu, mas um processo progressivo (o “caminho” define, neste contexto, a caminhada cristã), no qual o crente vai descobrindo e interiorizando os valores de Jesus, até à adesão plena às suas propostas e à efetiva transformação do coração. Assim, a nossa “cura” não é um momento mágico que acontece quando somos batizados, ou fazemos a primeira comunhão ou nos crismamos; mas é uma caminhada progressiva, durante a qual descobrimos Cristo e nascemos para a vida nova.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho



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