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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

30º DOMINGO TEMPO COMUM-C

30º DOMINGO TEMPO COMUM
23 de Outubro de 2016-Ano C

1ª Leitura - Eclo 35,15b-17.20-22ª

Salmo - Sl 33

2ª Leitura - 2Tm 4,6-8.16-18

Evangelho - Lc 18,9-14



O fariseu reza como se estivesse exigindo de Deus, uma recompensa por sua vida de obediência à Lei, por uma vida de santidade.  Continuar lendo

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“QUEM SE ELEVA SERÁ HUMILHADO E QUEM SE HUMILHA SERÁ EXALTADO.” - Olivia Coutinho.

30º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 23 de Outubro de 2016

Evangelho de Lc18, 9-14

Neste dia mundial das missões, somos convidados a fortalecer o nosso ideal de discípulo missionário. Anunciar o evangelho é um anseio de todo àquele que deseja viver e transmitir a sua fé!
Como anunciadores da Boa nova do Reino de Deus, que caminha dentro do espírito da fé e do compromisso com a igreja missionária, somos convocados a dar continuidade a missão de Jesus, reafirmando com o nosso testemunho, a nossa adesão ao projeto de Deus! 
É o amor a Deus, que motiva milhões de missionários e missionárias, a fazerem as vezes de Jesus no coração do mundo, levando a sua proposta de vida nova, possibilitando a tantos irmãos  a conhecerem a verdade que liberta!
No evangelho do Domingo anterior, Jesus ressalta a necessidade de rezar sempre, no evangelho de hoje, Ele vem nos alertar, através de uma pequena parábola, que nem toda oração chega a Deus!
 Com esta  parábola, Jesus não questiona a nossa forma de rezar, e sim, a nossa  forma de viver, pois a nossa vida tem que ser uma oração, deve ser a expressão do que somos interiormente. Não são com palavras, que vamos mostrar a Deus quem somos, e sim, com  o nosso modo de viver, que deve ser coerente com o evangelho. 
Se alguém nos perguntar: Com qual  dos dois personagens da parábola nos identificamos, certamente,  muitos de nós, responderíamos que era com o melhor da história, ou seja, com o  que fora justificado por Deus por causa da sua humildade, o publicano. Se assim respondermos, estaremos tendo a mesma postura do fariseu, que se colocou diante de Deus como o melhor, uma sinal, de que ainda conservamos  um pouco de farisaísmo em nós.  
(O farisaísmo é um mal ainda presente no nosso  meio. A postura farisaica, é um entrave em nossas comunidades, quem mantém esta postura, é moralista, permanece  fixado nas práticas antigas, não se abre ao novo.)
 Voltando a parábola: Nenhum dos dois personagens desta parábola, serve de  modelo para nós, pois  tanto o fariseu, quanto o publicano, não eram justos.
O fariseu, vestia o  manto da bondade, mas na prática não vivia essa bondade, Jesus, já  chamava  os fariseus de sepulcros caiados.(Mt23,27) 
Por outro lado, o publicano também não era um homem correto, não por ser um cobrador de imposto, até porque,  esta profissão lhes era imposta pelos romanos, a injustiça que o publicano, como todos os cobradores de impostos praticavam, era cobrar o imposto além do devido, isto é, eles  cobravam a mais e embolsavam a diferença.  
 O que diferenciou os dois,  foi a postura de cada um, diante de Deus. O fariseu, não colocou Deus como o centro de sua oração, colocou ele mesmo, o que ele fez, foi vangloriar-se, em momento algum, ele  demonstrou  necessitado de Deus. Enquanto que  o publicano foi humilde, envergonhado de suas atitudes, ele reconheceu-se pecador, necessitado da misericórdia de Deus, por isto foi justificado.
Para que a nossa oração chegue a Deus, não precisamos usar muitas palavras,  descrever quem somos, o que fazemos de bom, como fez o fariseu, pois Deus conhece o nosso coração, Ele sabe quais são as nossas intenções.   
A nossa oração deve ser sincera, deve estar sincronizada com  nosso modo de viver, ter um vínculo profundo com o nosso desejo de conversão, de buscar uma vida nova em Jesus! Uma oração que não nos leve à conversão, é uma oração vazia que jamais chegará  a Deus! 
A nossa vida, deve ser  marcada pela vida de comunhão e acima de tudo, de humildade, pois a humildade é a virtude que mais nos aproxima  de Deus.  
 Uma pessoa não é humilde de nascença, ela vai se  tornando humilde à medida em que ela vai reconhecendo as suas  fragilidades, a  sua necessidade da misericórdia de Deus.
Jesus, com a sua vida, nos ensina o caminho que nos leva a salvação, que é o caminho da humildade, caminho que Ele mesmo  percorreu,  ora se misturando com os pobres  e marginalizados, ora sentando à mesa da refeição com os seus adversários.
“Quem é   humilde, não presume que o é, pois  dentre todas as virtudes, somente a humildade  ignora a si mesma.” 

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Duas histórias, duas posturas
Não podemos nos enganar. Temos uma vida só, uma só vida de seguimento de Cristo e de acolhimento do Senhor e de seu amor em nossos corações.  Andamos o tempo todo buscando o Senhor. Ao menos assim deveria ser.  Não podemos  caminhar longe de sua presença. Ele sempre nos vê e espera que nos voltemos para ele. E ele somente poderá agir em corações se deliberadamente atribuirmos a ele todo o louvor, todo mérito e toda grandeza.
Dois homens subiram ao templo para rezar. Os dois se colocam diante do mistério de Deus. Um está convencido de sua bondade e de seus méritos. Não pode esconder de Deus a satisfação que tem consigo mesmo, com o que faz, com o que realiza e opera.  Além disso ele não pode ser colocado ao lado de pecadores, de criaturas que não realizam os ritos de purificação depois de terem ido ao mercado, que não pagam dízimo.  Não pode ser considerado como os outros.  “Não sou como os outros homens, ladrões, adúlteros, corruptos, negligentes em suas obrigações religiosas.” Olhando para o cobrador de impostos que estava no templo teve uma das palavras mais infelizes que podia dizer: “... nem como esse cobrador de impostos”. Total auto-suficiência, incapacidade de compreender que o Deus de amor também olha pelos que cometem faltas e pecados, posicionamento falso e perigoso diante de Deus porque poderia comprometer todo seu projeto religioso. Como tantos cristãos de ontem e de hoje que confiam nas belas palavras que proferem, nas obras que executam, nos próprios méritos. Pessoas essas estão atestando que, na realidade, não precisam de Deus. Bastam-se a si mesmas. O fariseu contempla narcisisticamente sua perfeição e no gozo de si despreza os outros.
O outro, o pecador e publicano, nem mesmo se atreve a levantar os olhos, pede perdão, reconhece que precisa da misericórdia de Deus, apresenta ao Senhor uma oração de contrição, de dor por não ter sido fiel ao amor de Deus. Vive um arrependimento que certamente o impulsiona a rever sua vida e mudar de conduta.
Na Igreja e no mundo aqueles que se reconhecem frágeis e pecadores, que se lançam aos pés de Deus e suplicam o sacramento da reconciliação à Mãe Igreja  empurram as portas do coração de Deus.  A Igreja se renova com os simples e pobres de coração, com os que não contam  apenas com meia dúzia de gestos e de feitos colocados em prol da paróquia, mas pessoas simples e reconhecidamente humildes.
O discípulo se torna simples e pobre de coração através de uma ascese, de um trabalho pessoal de mudança que exige persistência. Fundamental será que a pessoa se desaproprie de si mesma.  Ela pertence a Deus. Ele é o mais importante. Os que assim fazem não têm o dedo em riste na direção do Senhor fazendo-lhe cobranças por sobre seus méritos. Trata-se de uma atitude de conversão permanente.
São Paulo, em seu belíssimo hino da caridade, afirma que para além do sucesso na pastoral, do conhecimento das línguas e de todos os dons exteriores, a única coisa que conta  é o amor: “Se eu repartir todos os meus bens e entre os pobres e entregar meu corpo ao fogo, mas não tiver amor, nada disse me aproveita” (1Cor. 13,3).
frei Almir Ribeiro Guimarães




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A oração humilde penetra as nuvens
Hoje, a liturgia dominical vem nos mostrar duas posições que podemos ter em nosso cotidiano. O fariseu e o publicano, ou melhor, o orgulhoso e o humilde. O humilde é aquele que clama a Deus, o Justo Juiz, que não abandonará àqueles que elevam suas preces a Ele. Deus se mostra como Pai que se inclina dos altos Céus para escutar os clamores de seus filhos. É com esta fé que Paulo, na segunda epístola a Timóteo, vendo próximo seu martírio, tem a convicção de que Deus, o Justo Juiz, dará não apenas a ele, mas sim a todos, a coroa da justiça. Que belo testemunho de vida São Paulo vem nos mostrar hoje: o exemplo do total abandono nas mãos de Deus que conduz toda a nossa história. A Liturgia quer nos levar a um questionamento; coloca-nos diante de Deus e dos outros como um fariseu que se faz satisfeito de suas ações e que se mostra orgulhoso.
O publicano, por sua vez, colocando-se como pecador, reconhece seu erro, e por isso, acha que não é digno de levantar os olhos ao alto. Sendo pecador, torna-se servo e nos ensina que o arrependimento e a confissão são formas sublimes de humildade. Cristo nos chama a ser como o publicano que eleva suas preces até que alcance as nuvens na esperança de que Deus o ouvirá; espera confiante na justiça de Deus, por isso, clama com São Paulo o hino dos justos: “Combati o bom combate, terminei a corrida, mantive a fé. Só me espera a coroa da justiça, que o Senhor o Justo Juiz me entregará naquele dia”.
Reflexão feita pelos Noviços deste ano



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Deus justifica os humildes e pecadores
A 1ª leitura (que poderia ser estendida um pouco para que melhor aparecesse seu sentido) fala de que Deus não conhece acepção de pessoas e faz justiça aos pequenos (pobres, órfãos, viúvas, aflitos, necessitados). Isso é dito em oposição à maneira dos poderosos, que querem agradar a Deus por meio de sacrifícios perversos (Eclo. 35,14-15ª [11]. Deus não se deixa comprar pelas coisas que lhe oferecemos, pois não necessita de tudo isso. Mas nos considera jutos, amigos dele, quando lhe oferecemos um coração contrito e humilde (Sl. 51 [50], 18-19).
Neste sentido, engana-se completamente o fariseu de quem Jesus fala no evangelho: acha que pode impressionar Deus com suas qualidades aparentes, seus sacrifícios e boas obras puramente formais, sem extirpar de seu coração o orgulho e o desprezo pelos outros. A atitude contrária é que encontra ouvidos junto a Deus: a humilde confissão de ser pecador (cf. Sl. 51 [50], 3). O publicano, que reza de coração contrito, volta para casa justificado. Lucas acrescenta uma lição moral: quem se enaltece, será humilhado; quem se humilha, será enaltecido. Mais profunda ainda é a lição propriamente teológica, repetida por Paulo: quem se declara justo a si mesmo - como faziam os fariseus, convencidos de que a observância da Lei lhes dava “direitos” perante Deus - já não pode ser declarado justo por Deus; e isso é grave, porque, diante de Deus, todos ficamos devendo; cf. Sl. 51 [50],7). Além de serem orgulhosos, os que se justificam a si mesmos são pouco lúcidos! Portanto, melhor fazer como o publicano: apresentarmo-nos a Deus conscientes de lhe estar devendo e pedir que ele nos perdoe e nos dê novas chances de viver diante de sua face, pois sabemos que Deus não quer a morte do pecador e sim que ele se converta e viva (Ez. 18,23).
A mensagem de hoje tem duplo efeito. Deve extirpar a mania de se achar o tal e de condenar os outros: a auto-suficiência. Mas, para que isso seja possível, deve produzir primeiro um outro efeito: a certeza de sermos pecadores. Ora, isso se toma cada vez mais difícil numa civilização da sem-vergonhice. O ambiente em que vivemos trata de esconder a culpabilidade e, inclusive, condena-a como desvio psicológico. Que a culpabilidade neurótica passe do confessionário para o divã do psicanalista é coisa boa. Mas não se pode encobrir o pecado real. Tal encobrimento do pecado acontece tanto no nível do indivíduo quanto no da sociedade: oficialização de práticas opressoras e exploradoras nas próprias estruturas da sociedade, leis feitas em função de uns poucos etc. A autojustificação, entre nós, já não acontece ao modo do fariseu que se gabava da observância da Lei e das boas obras. Acontece ao modo do executivo eficiente que tem justificativa para tudo: para as trapaças financeiras, a necessidade da indústria e do desenvolvimento nacional; e para as trapaças na vida pessoal, o perigo de “estresse” e a necessidade de “variação”... Hoje, já não são os fariseus que se autojustificam, mas os “publicanos”. Só algum antiquado ainda se autojustifica “fazendo alguma coisa para Deus” no meio de uma vida cheia de egoísmo...
Saber-se pecador é o início da salvação. Isso vale para todos, ricos e pobres. Os pobres estão com tantas coisas em dívida, que se dão mais facilmente conta disso. Os ricos é que são o problema. Pecador não é apenas o que transgride expressamente a Lei, mas todo aquele que não realiza o bem que Deus lhe confia. Sabendo isso, é fácil reconhecer-se pecador. Por isso, cada liturgia começa como ato penitencial. Hoje, pode ser acentuado um pouco mais.
Paulo sabia-se pecador, mas pecador salvo pela graça de Deus (1Tm. 1,13; cf. Gl. 1,11-16a; 1Cor. 15,8-10). Na base desta experiência, anela pelo momento de se encontrar com aquele que, por mera graça, o tornou justo, o “Justo Juiz”, que o justificará para sempre, enquanto diante do tribunal dos homens ninguém tomou sua defesa (2Tm. 4,16 - 2ª leitura).
Johan Konings "Liturgia dominical"



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O fariseu e o publicano
O Evangelho de hoje revela duas mensagens: por um lado, desmascara a falsa religiosidade dos fariseus, que convencidos de serem os mais justos, desprezam o próximo, e acreditam que, por fazerem parte do povo escolhido por Deus, não possuem pecados; por outro lado, o evangelho ensina o verdadeiro relacionamento com Deus, pois Ele olha unicamente o coração de quem O recorre com humildade, confiança e convicção de que não têm direito aos favores divinos e muito menos de ser superior ao seu irmão por praticar boas obras.
Nessa parábola, Jesus compara a oração do soberbo fariseu com a oração do humilde publicano, pois ambos subiram ao Templo com a intenção de entrar em comunhão com Deus, mas com comportamentos diferentes.
O fariseu considera-se justo perante Deus, tem rigor na observância da aplicação das leis de Moisés e despreza quem não as conhece. Sua oração é só um pretexto para se vangloriar, pois ele se julga superior aos outros e, cheio de orgulho, sente-se digno da graça de Deus e exige recompensas! Ele exibe sua “generosidade” jejuando duas vezes por semana, enquanto a Lei prescrevia só um jejum por ano.
O publicano, sendo cobrador de impostos, é impopular e visto como uma pessoa de moral duvidosa, pois é acusado de corrupção. Esse por sua vez, confessa-se pecador, com razão, pois sua conduta não segue a lei de Deus. Reconhece sua miséria moral, consciente de ser indigno de favor divino e pede piedade.
Sabe-se devedor de Deus e das pessoas.
A mensagem de Jesus é que Deus não prefere o pecador ao homem honesto, cumpridor da lei, mas sim, a humildade do pecador arrependido ao orgulho de quem se considera justo.
O importante na avaliação da vida de um cristão não é a quantidade ou o tamanho de seus pecados, mas a sua amizade com Deus mantendo o costume de conversar com Ele durante as orações, pois Ele escuta seus pedidos e clamores, agradecimentos e louvores.
É importante anunciar isso a todos aqueles que estão afastados de Deus por diversas razões, porque estas pessoas podem estar plenamente integradas na comunidade como todos. Anunciar, sobretudo ao povo simples, marcado por séculos de desprezo e discriminação, falta de instrução, missas ouvidas nas portas do templo, pois suas preces do fundo da Igreja, assim como a do publicano, certamente serão atendidas!
Pequeninos do Senhor


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A piedade correta
A parábola do fariseu e do publicano aponta para dois diferentes tipos de piedade, representando posições extremas. O discípulo do Reino deve decidir-se pela maneira correta de agradar a Deus, evitando os caminhos enganosos.
A piedade farisaica, baseada na prática cotidiana da Lei, em seus mínimos detalhes, tinha seus defeitos: era cheia de orgulho, uma vez que levava a pessoa a olhar com desprezo para os considerados pecadores e incapazes de perfeição; pregava a segregação das outras pessoas, por temor de contaminação. Os fariseus julgavam-se com direito de exigir de Deus a salvação, em vista dos méritos adquiridos com sua vida piedosa.
A piedade do povo simples e desprezado, como o cobrador de impostos, tem outros fundamentos: a humildade e a consciência das próprias limitações e da necessidade de Deus para salvá-lo, a certeza de que a salvação resulta da misericórdia divina, sem méritos humanos, o espírito solidário com os demais pecadores que esperam a manifestação da bondade de Deus.
A oração do fariseu prepotente e egoísta dificilmente será atendida. É uma oração formal, da boca para fora. Já a oração do publicano é totalmente humilde, porque ele reconhece que sua salvação vem de Deus. Só a oração sem estardalhaço é ouvida!

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Soberba e humildade
Jesus não suportava a soberba de quem se gabava de ser justo, olhando os outros com desdém. Este comportamento o irritava por revelar uma falsa imagem de Deus, completamente contrária àquela ensinada por ele. O deus dos soberbos e orgulhosos é preconceituoso, deixa-se impressionar por exterioridades, é injusto para com os fracos, é facilmente enganável. A um deus assim, dirige-se o fariseu da parábola contada por Jesus. Assumindo uma postura de evidente arrogância, dirige-se a seu deus, prestando-lhe contas de suas práticas religiosas, como que a exigir uma recompensa generosa.
O Deus anunciado por Jesus é, radicalmente, diferente: é o Pai atento a seus filhos, de modo especial, aos fracos e pequeninos. Valoriza qualquer esforço humano de superar o pecado, para colocar-se, com humildade, no caminho da conversão. Vê o mais íntimo do ser humano, onde percebe seus sentimentos e intenções. Portanto, não é um Deus a quem se possa enganar.
Diante da atitude dos soberbos, Jesus não tinha dúvidas quanto ao fim que os esperava. Eles serão humilhados ao se encontrarem na presença do Pai. Recomenda-lhes, então, a humildade, porque só ela é capaz de sensibilizar a Deus, para a pessoa obter dele a justificação. Portanto, quem se vanglória de ser justo, está preparando sua própria condenação.
padre Jaldemir Vitório



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A salvação é dom de Deus.
Os destinatários da parábola deste domingo são “aqueles que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros” (v. 9). A “própria justiça”, aqui, diz respeito à prática da Lei. A teologia da retribuição reitera que o homem que cumpre de modo irrepreensível todos os mandamentos é salvo (ver Dt. 28,1ss). Ora, a salvação é dom de Deus. O empenho de pôr em prática os mandamentos é reflexo da consciência de ter sido salvo. O reconhecimento do dom recebido, em Jesus, tem implicações para a vida prática de quem quer que seja. No tempo do Messias, nós não estamos mais sob o regime da Lei, mas da graça: “Ninguém é justificado diante dele pelas obras da lei […]. Agora, independente da Lei, a justiça de Deus foi manifestada; a Lei e os Profetas lhe dão testemunho. É a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos os que creem” (Rm 3,20-22).
Os personagens da parábola são um fariseu e um publicano. O publicano é considerado um pecador público (cf. Lc. 19,7); estava a serviço dos romanos, e sua função era odiosa: cobrar os impostos. Eram considerados ladrões e exploradores. Zaqueu, que era chefe dos cobradores de impostos, dirá a Jesus: “Senhor, se defraudei alguém…”; trata-se de um condicional de realidade, isto é, ele efetivamente havia defraudado as pessoas. Apresenta-se diante de Deus na sua verdade: “Meu Deus, tem compaixão de mim, que sou pecador!” (v. 13). Na sua imensa bondade e misericórdia, é Deus quem o salva, pois “A oração do humilde penetra as nuvens e não se consolará enquanto não se aproximar de Deus” (Eclo. 35,21). Reconhecer-se na sua miséria diante de Deus, eis a verdadeira oração!
O fariseu, ao contrário, é considerado um homem justo que cumpre de maneira irrepreensível todos os mandamentos da Lei. Na sua oração, recita a própria justiça: “Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de toda a minha renda” (vv. 11-12). O fariseu certamente não mente; pratica a lista de prescrições que recita diante de Deus. A referência de sua oração é ele mesmo; ele se basta, não pede nada, não necessita de coisa alguma. A sua oração é uma volta sobre si mesmo e sobre a sua própria obra. A salvação para ele não é dom, é merecimento. A última frase do texto é muito ampla e convida a Igreja a tirar as consequências: “... quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (v. 14). Isto significa que diante de Deus ninguém pode se orgulhar do quer que seja, pois tudo é dom (cf. 1Cor. 1,29-30).
Carlos Alberto Contieri,sj

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No domingo passado, a Palavra de Deus nos falava da oração. Vimos, naquela ocasião, que rezar nos coloca diante de Deus com toda a nossa vida: a oração é a atitude fundamental do homem de fé. Quem não reza é ateu, fechado em si, na sua auto-suficiência. Para quem não reza – ou não reza de verdade, com espírito de orante -, Deus na passa de um objeto. Neste sentido, santo Agostinho dizia que "a fé não é para os soberbos, mas para os humildes". Somente aquele que se sabe pequeno e frágil, imperfeito e limitado diante de Deus reza de verdade. Por isso o Eclesiástico afirma que "a prece do humilde atravessa as nuvens". E aqui não se trata simplesmente de uma oração de momento, mas de uma atitude de vida: atravessa as nuvens os desejos do coração daquele que vive a vida diante de Deus e não fechado em si mesmo: "Bendirei o Senhor Deus em todo tempo, seu louvor estará sempre em minha boca!" - Vejam: é este o verdadeiro orante, porque é este o verdadeiro crente: aquele que sabe bendizer a Deus em todo o tempo – seja no tempo bom, seja no mau. "Seu louvor estará sempre em minha boca!"
Pensando nisso, meditemos na parábola de Jesus, sobre a atitude dos dois homens que sobem ao Templo para rezar... Por que Jesus a contou? Contou-a"para alguns que confiavam na sua própria justiça, isto é, na sua própria retidão, nos seus próprios méritos, na sua própria santidade e desprezavam os outros".Como reza o fariseu? Santo Agostinho explica que ele nem sequer reza: "Procura nas suas palavras o que ele pediu. Não encontras nada! Foi para rezar, mas não rezou a Deus; só louvou a si próprio! Mais ainda: não lhe bastou não rezar, não lhe bastou louvar a si próprio e ainda insultou aquele que rezava de verdade!" O fariseu, na verdade, é incapaz de uma verdadeira comunhão com Deus: ele somente tem a si próprio ante seus olhos, ele é o seu próprio Deus, a sua própria satisfação e, quando se mede com os outros, é para insultar e desprezar interiormente... Bem diferente de Jesus, que tinha tudo para nos acusar e, no entanto, quando nos olha, é para ter compaixão, para perdoar, para nos estender a mão.
E o publicano? Qual a sua atitude? "Ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!''' De modo poético, diz Santo Agostinho que "o remorso o afastava, mas a piedade o aproximava; o remorso o rebaixava; mas a esperança o elevava". Eis a atitude do homem aberto para Deus, daquele que se vê na luz do Senhor: tem consciência do seu nada, da sua miséria, do seu pecado, mas sabe que é amado por Deus; sabe que o que de bom possui e faz é dom da graça do Senhor! E porque assim vive e assim procede, esse pobre pecador experimenta a misericórdia de Deus, daquele que, como diz o Salmo, "volta sua face contra os maus, para da terra apagar sua lembrança. Do coração atribulado ele está perto e conforta os de espírito abatido" . Como termina a parábola? Deixem-me ainda citar Santo Agostinho: "Escutaste o contraste entre o fariseu e o publicano; escuta agora a sentença. Escutaste o soberbo acusador e o réu humilde. Escuta, agora, o Juiz: 'Em verdade eu vos digo: aquele publicano saiu do templo justificado, não o fariseu'. Senhor, dize-nos o motivo! Perguntas o por quê? Eis: “Porque quem se exalta, será humilhado, e quem se humilha, será exaltado”. Ouviste a sentença; guarda-te bem de caíres no motivo; ouviste a sentença; preserva-te da soberba!"
Meus caros, não é esta a nossa grande tentação? Achar que somos bons, que somos justos diante de Deus, que mereceríamos um prêmio de honra ao mérito. E, ainda mais: do alto da nossa auto-suficiência, quantas e quantas vezes julgamos, condenamos e executamos os outros! No entanto, se nos recordássemos os nossos pecados com sinceridade, como o publicano, não nos acharíamos grandes diante de Deus e não julgaríamos nem condenaríamos, como o fariseu. Pensemos nos tantos benefícios que do Senhor recebemos, pensemos nos nossos pecados e na nossa preguiça para amá-lo como ele deve ser amado, pensemos nas nossas incoerências e infidelidades, pensemos nas nossas fraquezas... Se assim o fizermos, não teremos a pretensão de merecer nada diante de Deus, seremos humildes e também mais compreensivos com as fraquezas dos irmãos. Nunca percamos de vista o seguinte: aquele que se acha merecedor diante do Senhor, merece, na verdade somente a sua repreensão, pois ainda não compreendeu de fato que Deus nos amou primeiro e não só nos chamou à vida, como também deu-nos o seu Filho quando ainda estávamos nos nossos pecados! Estejamos atentos ao exemplo de São Paulo, na segunda leitura de hoje. Ele, que tinha tanto de se gloriar, porque combateu o bom combate, com toda humildade esperou do Senhor o prêmio da coroa da justiça. Que diferença do fariseu! Este, confiava na sua própria justiça; o Apóstolo esperou na justiça do Senhor. Por isso, na fraqueza experimentou a força do Senhor e, na tribulação, experimentou que o Senhor lutou por ele...
Que este mesmo Senhor nos dê a graça de um coração humilde, que coloque somente nele a confiança, o repouso e a esperança da salvação. Assim, seremos livres da soberba e justos diante de Deus.
dom Henrique Soares da Costa



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A liturgia deste domingo ensina-nos que Deus tem um “fraco” pelos humildes e pelos pobres, pelos marginalizados; e que são estes, no seu despojamento, na sua humildade, na sua finitude (e até no seu pecado), que estão mais perto da salvação, pois são os mais disponíveis para acolher o dom de Deus.
A primeira leitura define Deus como um “juiz justo”, que não se deixa subornar pelas ofertas desses poderosos que praticam injustiças na comunidade; em contrapartida, esse Deus justo ama os humildes e escuta as suas súplicas.
O Evangelho define a atitude correta que o crente deve assumir diante de Deus.
Recusa a atitude dos orgulhosos e auto-suficientes, convencidos de que a salvação é o resultado natural dos seus méritos; e propõe a atitude humilde de um pecador, que se apresenta diante de Deus de mãos vazias, mas disposto a acolher o dom de Deus.
É essa atitude de “pobre” que Lucas propõe aos crentes do seu tempo e de todos os tempos.
Na segunda leitura, temos um convite a viver o caminho cristão com entusiasmo, com entrega, com ânimo – a exemplo de Paulo. A leitura foge, um pouco, ao tema geral deste domingo; contudo, podemos dizer que Paulo foi um bom exemplo dessa atitude que o Evangelho propõe: ele confiou, não nos seus méritos, mas na misericórdia de Deus, que justifica e salva todos os homens que a acolhem.
1º leitura – Sir 35,15b-17.20-22ª - AMBIENTE
O livro de Ben Sira foi escrito nos inícios do séc. II a.C. (entre 195 e 171 a.C.), numa altura em que os selêucidas dominavam a Palestina e a cultura helênica – cada vez mais onipresente – colocava em risco a cultura, a fé e os valores judaicos. O autor do livro (Jesus Ben Sira), preocupado porque muitos dos seus concidadãos se deixavam seduzir pelos valores estrangeiros e negavam as raízes do seu Povo, escreve para defender o patrimônio cultural e religioso do judaísmo, a sua concepção de Deus, do mundo, da eleição e da aliança. Procura convencer os seus compatriotas de que Israel possui na sua “Torah”, revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” – uma “sabedoria” muito superior à “sabedoria” grega.
O texto que nos é proposto insere-se num pacote de sentenças em que Jesus Bem Sira procura apontar aos seus concidadãos o caminho da verdadeira “sabedoria” (cf. Ben Sira 34,21-35,26). Esse “caminho” passa pela prática de uma “religião verdadeira”, isto é, pelo cumprimento rigoroso dos mandamentos da “Torah”, nomeadamente no que diz respeito à vivência da justiça comunitária e ao respeito pelos direitos dos mais pobres… Nestas sentenças, Jesus Ben Sira avisa que Deus não pode ser comprado com atos de culto, por parte daqueles que praticam a injustiça e que escravizam os irmãos. O apelo do autor vai, portanto, no sentido de que sejam cumpridos os mandamentos da Lei e sejam respeitados os direitos dos pobres e dos débeis. É essa a verdadeira religião que Deus exige do homem. Aqueles que pretendem ser sábios não podem cometer injustiças de manhã e à tarde aparecer no Templo a afirmar a sua fé e a sua comunhão com Deus, através da oferta de vultuosos sacrifícios de animais. Isso seria, praticamente, comprar Deus e fazer dele cúmplice da injustiça… E Deus não aceita esse esquema.
MENSAGEM
Deus é, então, um juiz justo (é daqui que parte o nosso texto), que não faz acepção de pessoas, que não aceita ser cúmplice dos opressores, que não se deixa subornar pelos presentes dos ricos e não desiste de fazer justiça aos pobres (são explicitamente nomeados os órfãos e as viúvas – as duas figuras paradigmáticas dos desprotegidos, que só tinham Deus para os defender da prepotência dos grandes).
Por outro lado, Jesus Ben Sira insiste em que Deus escuta sempre as preces dos débeis e que está atento aos gritos de revolta daqueles que são vítimas da injustiça.
Assim, os humildes que sofrem a opressão e a prepotência dos poderosos são convidados a apresentar a Deus as suas queixas, até que Ele restabeleça o direito e a justiça.
ATUALIZAÇÃO
¨ Este texto põe, antes de mais, o problema do que é fundamental na experiência religiosa… Sugere que a “verdadeira religião” não passa pelos ritos, mas por uma vida verdadeiramente comprometida com os mandamentos, nomeadamente com o mandamento do amor aos irmãos… Não é verdadeira a religião daqueles que pagam as festas da paróquia, mas não pagam justamente aos seus operários; não é verdadeira a religião daqueles que ao domingo depositam na bandeja do
peditório algumas notas gordas, mas não respeitam a dignidade e a liberdade dos outros; não é verdadeira a religião daqueles que fazem “promessas”, para que Deus os ajude a concluir com êxito um negócio duvidoso em que alguém vai sair prejudicado… Uma religião desligada da vida é uma religião falsa, incoerente, hipócrita, com a qual Deus não quer ter nada a ver…
¨ O texto revela também, uma vez mais, que o nosso Deus tem um fraco pelos pobres, pelos débeis, pelos oprimidos, por aqueles que o mundo considera “vencidos” e sem peso. Atenção: Deus ama-os e não deixa passar em claro qualquer injustiça cometida contra eles ou qualquer comportamento que viole a sua dignidade. E os crentes, “filhos de Deus”, são convidados a atuar com a mesma lógica de Deus… Sou, como Deus, sensível ao apelo dos pobres, vítimas da injustiça, da segregação, da exclusão? Luto, com coerência, contra tudo o que gera morte, infelicidade, exploração, injustiça, miséria? Aqueles que não encontram lugar na mesa dos privilegiados deste mundo encontram, através de mim, o rosto misericordioso e bondoso do Deus que os ama?
¨ A oração do pobre e do desvalido chega sempre aos ouvidos de Deus… Deus não vira, nunca, as costas a quem chama por Ele e vê n’Ele a esperança e a salvação.
Isto é algo que eu devo ter sempre presente, nomeadamente nos momentos mais dramáticos da minha existência, quando tudo cai à minha volta. A Palavra de Deus que hoje nos é oferecida garante-nos: Deus escuta a oração do pobre (e, no contexto bíblico, dizer que “escuta” significa dizer que Ele se prepara para intervir e para trazer àquele que sofre a libertação e a vida).
2º leitura – 2Tim. 4,6-8.16-18 - AMBIENTE
Mais uma vez a liturgia traz-nos um texto da Segunda Carta a Timóteo. Embora atribuída a Paulo, trata-se (como, aliás, já vimos nos domingos anteriores) de uma carta escrita por um autor desconhecido, em finais do séc. I ou princípios do séc. II.
Para os crentes da segunda geração cristã, é uma época de perseguições, de divisões, de heresias e, portanto, de confusão e de desânimo. Nesse contexto, um cristão anônimo, usando o nome de Paulo, escreveu a pedir aos seus irmãos na fé que se mantivessem fiéis à missão que Deus lhes confiou. O seu objetivo era revitalizar a fé e o entusiasmo dos crentes.
MENSAGEM
O autor da carta apresenta-se na pele de Paulo, prisioneiro em Roma; e nessa pele, faz um balanço final da sua vida e da sua entrega ao serviço do Evangelho.
A vida de Paulo foi, desde o seu encontro com Cristo ressuscitado na estrada de Damasco, uma resposta generosa ao chamamento e um compromisso total com o Evangelho. Por Cristo e pelo Evangelho, Paulo lutou, sofreu, gastou e desgastou a sua vida, num dom total, para que a salvação de Deus chegasse a todos os povos da terra. No final, ele sente-se como um atleta que lutou até ao fim para vencer e está satisfeito com a sua prestação. Resta-lhe receber essa coroa de glória, reservada aos atletas vencedores (e que Paulo sabe não estar reservada apenas a ele, mas também a todos aqueles que lutam com o mesmo denodo e o mesmo entusiasmo pela causa do “Reino”).
Para definir a sua vida como dom total a Deus e aos irmãos, Paulo utiliza aqui uma imagem bem sugestiva: a imagem da vítima imolada em sacrifício. Paulo fez da sua vida um dom total, ao serviço do Evangelho; a sua entrega foi um sacrifício cultual a Deus. Agora, para que o sacrifício seja total, só resta coroar a sua entrega com o dom
do seu sangue… A referência à oferta “em libação” faz referência aos sacrifícios em que se vertia o vinho sobre o altar, imediatamente antes de ser imolada a vítima sacrificial.
Há duas maneiras de dar a vida por Cristo: uma é gastá-la dia a dia na tarefa de levar a libertação que Cristo veio propor a todos os povos da terra; outra é derramar, de uma vez, o sangue por causa da fé e do testemunho de Cristo… Paulo conheceu as duas modalidades; imitar Paulo é um desafio que o autor da Carta a Timóteo faz aos discípulos do seu tempo e de todos os tempos.
Na segunda parte do nosso texto (vs. 16-18), o autor desta carta põe na boca de Paulo o lamento desiludido de um homem cansado que, apesar de ter oferecido a sua vida como dom aos irmãos se sente, no final, votado ao abandono e à solidão… Mas, apesar de tudo, Paulo tem consciência de que Deus esteve a seu lado ao longo da sua caminhada, lhe deu a força de enfrentar as dificuldades, o livrou de todo o mal e lhe dará, no final da caminhada, a vida definitiva. Daí o louvor com que Paulo termina: “glória a Ele pelos séculos sem fim. Amen”. É esta a atitude que o autor da carta pede aos seus irmãos: apesar do desânimo, do sofrimento, da tribulação, descubram a presença de Deus, confiem na sua força, mantenham-se fiéis ao Evangelho: assim recebereis, sem dúvida, a salvação definitiva que Deus reserva a quem combateu o bom combate da fé.
ATUALIZAÇÃO
¨ Paulo foi uma das figuras que marcou, de forma decisiva, a história do
cristianismo. Ao olharmos para o seu exemplo, impressiona-nos como o encontro com Cristo marcou a sua vida de forma tão decisiva; espanta-nos como ele se identificou totalmente com Cristo; interpela-nos a forma entusiasmada e convicta como ele anunciou o Evangelho em todo o mundo antigo, sem nunca vacilar perante as dificuldades, os perigos, a tortura, a prisão, a morte; questiona-nos a forma como ele quis viver ao jeito de Cristo, num dom total aos irmãos, ao serviço da libertação de todos os homens. Paulo é, verdadeiramente, um modelo e um testemunho que deve interpelar, desafiar e inspirar cada crente.
¨ O caminho que Paulo percorreu continua a não ser um caminho fácil. Hoje, como ontem, descobrir Jesus e viver de forma coerente o compromisso cristão implica percorrer um caminho de renúncia a valores a que os homens dos nossos dias dão uma importância fundamental; implica ser incompreendido e, algumas vezes, maltratado; implica ser olhado com desconfiança e, algumas vezes, com comiseração… Contudo, à luz do testemunho de Paulo, o caminho cristão vivido com radicalidade é um caminho que vale a pena, pois conduz à vida plena.
Concordo? É este o caminho que eu me esforço por percorrer?
¨ Convém ter sempre presente esse dado fundamental que deu sentido às apostas de Paulo: aquele que escolhe Cristo não está só, ainda que tenha sido abandonado e traído por amigos e conhecidos; o Senhor está a seu lado, dá-lhe força, anima-o e livra-o de todo o mal. Animados por esta certeza, temos medo de quê?
Evangelho – Lc. 18,9-14 - AMBIENTE
Mais uma vez, Lucas coloca-nos no “caminho de Jerusalém”, para nos deixar uma lição sobre o “Reino”. Desta vez, Jesus propõe uma parábola “para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros”. Os protagonistas da história são um fariseu e um publicano.
Os “fariseus” formavam um dos grupos mais interessantes e com mais impacto na sociedade palestina do tempo de Jesus. Descendentes desses “piedosos” (“hassidim”) que apoiaram o heróico Matatias na luta contra Antíoco IV Epifanes e a helenização forçada, eram os defensores intransigentes da “Torah” (quer da “Torah” escrita, quer da “Torah” oral – isto é, dos preceitos não escritos, mas que os fariseus tinham deduzido da “Torah” escrita); no dia a dia, procuravam cumprir escrupulosamente a Lei e esforçavam-se por ensinar a Lei ao Povo: só assim – pensavam eles – o Povo chegaria a ser santo e o Messias poderia vir trazer a salvação a Israel. Tratava-se de um grupo sério, verdadeiramente empenhado na santificação do Povo de Deus. No entanto, o seu fundamentalismo em relação à “Torah” será, várias vezes, criticado por Jesus: ao afirmarem a superioridade da Lei, desprezavam muitas vezes o homem e criavam no Povo um sentimento latente de pecado e de indignidade que oprimia as consciências.
Os “publicanos” estavam ligados à cobrança dos impostos, ao serviço das forças romanas de ocupação. Tinham fama de utilizar o seu cargo para enriquecer de modo imoral; e é preciso dizer que, na generalidade, essa fama era bem merecida. De acordo com a Mishna, estavam afetados permanentemente de impureza e não podiam sequer fazer penitência, pois eram incapazes de conhecer todos aqueles a quem tinham defraudado e a quem deviam uma reparação. Se um publicano, antes de aceitar o cargo, fazia parte de uma comunidade farisaica, era imediatamente expulso dela e não podia ser reabilitado, a não ser depois de abandonar esse cargo. Quem exercia tal ofício, estava privado de certos direitos cívicos, políticos e religiosos; por exemplo, não podia ser juiz nem prestar testemunho em tribunal, sendo equiparado ao escravo.
MENSAGEM
No fariseu e no publicano da parábola, Lucas põe em confronto dois tipos de atitude face a Deus.
O fariseu é o modelo de um homem irrepreensível face à Lei, que cumpre todas as regras e leva uma vida íntegra. Ele está consciente de que ninguém o pode acusar de cometer ações injustas, nem contra Deus, nem contra os irmãos (e, aparentemente, é verdade, pois a parábola não nos diz que ele estivesse a mentir). Evidentemente, está contente (e tinha razões para isso) por não ser como esse publicano que também está no Templo: os fariseus tinham consciência da sua superioridade moral e religiosa, sobretudo em relação aos pecadores notórios (como é o caso deste publicano).
O publicano é o modelo do pecador. Explora os pobres, pratica injustiças, trafica com a miséria e não cumpre as obras da Lei. Ele tem, aliás, consciência da sua indignidade, pois a sua oração consiste apenas em pedir: “meu Deus, tende compaixão de mim que sou pecador”.
O comentário final de Jesus sugere que o publicano se reconciliou com Deus (a expressão utilizada é “desceu justificado para sua casa” – o que nos leva à doutrina paulina da justificação: apesar de o homem viver mergulhado no pecado, Deus, na sua misericórdia infinita e sem que o homem tenha méritos, salva-o). Porquê?
O problema do fariseu é que pensa ganhar a salvação com o seu próprio esforço. Para ele, a salvação não é um dom de Deus, mas uma conquista do homem; se o homem levar uma vida irrepreensível, Deus não terá outro remédio senão salvá-lo. Ele está convencido de que Deus lhe deve a salvação pelo seu bom comportamento, como se Deus fosse apenas um contabilista que toma nota das ações do homem e, no fim, lhe paga em consequência. Ele está cheio de auto-suficiência: não espera nada de Deus, pois – pensa ele – os seus créditos são suficientes para se salvar. Por outro lado, essa auto-suficiência leva-o, também, ao desprezo por aqueles que não são como ele; considera-se “à parte”, “separado”, como se entre ele e o pecador existisse uma barreira… É meio caminho andado para, em nome de Deus, criar segregação e exclusão: é aí que leva a religião dos “méritos”.
O publicano, ao contrário, apoia-se apenas em Deus e não nos seus méritos (que, aliás, não existem). Ele apresenta-se diante de Deus de mãos vazias e sem quaisquer pretensões; entrega-se apenas nas mãos de Deus e pede-lhe compaixão… E Deus “justifica-o” – isto é, derrama sobre ele a sua graça e salva-o – precisamente porque ele não tem o coração cheio de auto-suficiência e está disposto a aceitar a salvação que Deus quer oferecer a todos os homens.
Esta parábola, destinada a “alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros”, sugere que esses que se presumem de justos estão, às vezes, muito longe de Deus e da salvação.
ATUALIZAÇÃO
Este texto coloca, fundamentalmente, o problema da atitude do homem face a Deus. Desautoriza completamente aqueles que se apresentam diante de Deus carregados de auto-suficiência, convencidos da sua “bondade”, muito certos dos seus méritos, como se pudessem ser eles a exigir algo de Deus e a ditar-lhe as suas condições; propõe, em contrapartida, uma atitude de reconhecimento humilde dos próprios limites, uma confiança absoluta na misericórdia de Deus e uma entrega confiada nas mãos de Deus. É esta segunda atitude que somos convidados a assumir.
Este texto coloca, também, a questão da imagem de Deus… Diz-nos que Deus não é um contabilista, uma simples máquina de recompensas e de castigos, mas que é o Deus da bondade, do amor, da misericórdia, sempre disposto a derramar sobre o homem a salvação (mesmo que o homem não mereça) como puro dom. A única condição para “ser justificado” é aceitar humildemente a oferta de salvação que Ele faz.
A atitude de orgulho e de auto-suficiência, a certeza de possuir qualidades e méritos em abundância, acaba por gerar o desprezo pelos  irmãos. Então, criam-se barreiras de separação (de um lado os “bons”, de outro os “maus”), que provocam segregação e exclusão… Isto acontece com alguma frequência nas nossas comunidades cristãs (e até em muitas comunidades religiosas). Como entender isto, à luz da parábola que Jesus hoje nos propõe?
Nos últimos séculos os homens desenvolveram, a par de uma consciência muito profunda da sua dignidade, uma consciência muito viva das suas capacidades. Isto levou-os, com frequência, à presunção da sua auto-suficiência… O desenvolvimento da tecnologia, da medicina, da química, dos sistemas políticos convenceram o homem de que podia prescindir de Deus pois, por si só, podia ser feliz. Onde nos tem conduzido esta presunção? Podemos chegar à salvação, à felicidade plena, apenas pelos nossos próprios meios?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho



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