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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

CRISTO REI DO UNIVERSO-C

34º DOMINGO - CRISTO REI DO UNIVERSO

20 de Novembro de 2016-Ano C

1ª Leitura - 2Sm 5,1-3

Salmo - 121

2ª Leitura - Cl 1,12-20

Evangelho - Lc 23,35-43



Neste domingo comemoramos Jesus, o único e legítimo Rei, o Rei do Universo inteiro! Continuar lendo



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NOSSO SENHOR JESUS CRISTO: O REI DO UNIVERSO! - Olívia Coutinho


34º DOMINGO DO TEMPO COMUM.

SOLENIDADE DE CRISTO REI.

DIA 20 de Novembro de 2016

Evangelho de Lc23,35-43

Neste penúltimo domingo do mês de novembro, a Igreja conclui o ano  litúrgico com a solenidade de Cristo Rei.
Iluminada pelo o  Espírito Santo, a igreja foi muito feliz em colocar esta solenidade no fechamento do ano litúrgico, pois é ao nosso Rei do Universo,  que devemos ofertar toda a nossa caminhada de fé realizada ao longo do ano.
O evangelho que a liturgia deste Domingo nos convida a refletir, nos mostra a consequência da maldade humana; Jesus, àquele que só soube amar, sendo colocado no mesmo destino de dois criminosos! 
O texto nos fala das provocações e humilhações sofridas por Jesus no momento derradeiro a sua morte.  
 Mesmo diante de tamanha crueldade, o sofrimento de Jesus não o impediu de  ser fiel ao compromisso assumido  com o Pai, um compromisso que Ele cumpriu até os seus últimos instantes de vida! 
A  última ação misericordiosa de Jesus enquanto humano, se deu na cruz, quando nos seus  últimos suspiros, Ele resgata um dos malfeitores  que estava  crucificado ao seu lado, garantindo-lhe: “Ainda hoje estarás comigo no paraíso.”
A princípio, podemos questionar: porque, no dia desta solenidade tão grandiosa, a liturgia coloca diante de nós um texto com passagens tão dolorosas? Se aprofundarmos um pouco mais no sentido desta festa, vamos perceber, que a escolha  deste evangelho,  tem como propósito  concentrar o tema da realeza de Jesus nesta passagem de sua vida, no sentido de esclarecer  que tipo de Rei é Jesus, e também,  reafirmar,  que os “alicerces” do “Reino” já estavam  estabelecidos quando  Ele foi apresentado como Rei, um Rei diferente de todos os outros reis, um Rei, que teve a cruz com trono!
Jesus é o único  Rei   que se apresentou aos homens, sem nenhum aparato, sem nenhuma segurança física, no  Reino que Ele veio  implantar aqui na terra,  a arma mais poderosa é o amor, a autoridade é  o serviço, o grande é aquele que serve. No seu  Reino não há lugar para a violência  e nem para o  ódio, as  operações de guerra se  concentram no serviço ao próximo, uma dessas operações, o próprio Jesus  realizou na véspera de sua morte, quando  numa atitude  de humildade e serviço, Ele curvou-se  para lavar os pés dos apóstolos.
 Embora o seu  Reino  não seja deste mundo, o reinar de Jesus não está fora mundo, em outras passagens do evangelho, o próprio Jesus  nos assegura: “O Reino de Deus já está entre vós”, o que nos  dá  a garantia de que, mesmo em meio as  turbulências deste  mundo em que vivemos, podemos vivenciar já aqui na terra, as alegrias do Reino do céu!
O modelo de rei visto pelos os  homens, em nada assemelha  a condição de rei aplicada a Jesus, pois o seu reinar independe dos esquemas deste mundo,  o  reinar de Jesus,  só depende do querer do Pai!
Da agonia de Jesus pregado na cruz, podemos tirar vários exemplos  que nos servirão de conforto nos momentos difíceis de nossa vida. Um dos pontos  que mais  deve chamar a nossa atenção, é que Deus Pai, não retirou o seu filho da cruz, o mesmo acontece conosco, Deus não nos retira do sofrimento, mas Ele nos dá a força necessária para superá-lo, assim como deu força a Jesus!
Juntamente  com a festa de Cristo Rei, é comemorado   o dia Nacional do Leigo,  vocação imprescindível, na vida da Igreja, mas que  às vezes é pouco reconhecida  devido a nossa  tendência  em acreditar que vocacionados, são somente os padres, os  bispos  e religiosos.
Ser leigo (a) no mundo de hoje, chega a ser  um grande desafio, pois não é fácil dar testemunho de Jesus, vivendo no mundo, sem pertencer ao mundo. 
“É importante tomarmos consciência de que os Leigos  ocupam importantes ministérios na Igreja,  entre tantos, assumem  a vocação particular de constituir família, o compromisso cristão de atuar com ética na vida  profissional, com dedicação e diferencial positivo, no sentido de ser uma pessoa diferente, no meio de tantas”. Enfim, leigos (as) assumem o grande desafio de serem pedras vivas da Igreja terrestre, são eles, os trabalhadores do Reino!
 Como povo de Deus, que peregrina rumo a Pátria definitiva, somos convidados a fazer parte do Reinado de Jesus, vivenciando a sua  realeza, ciente de que não estaremos  isentos da cruz.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olivia Coutinho
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Reino da Cruz, Reino da Fé
Foi genial a idéia dos compositores da renovada ordem litúrgica, de escolher a morte de Cristo na cruz como evangelho para a festa de Cristo Rei. O ensejo imediato para esta escolha formam os insultos dos soldados e do “mau ladrão”, como também a prece que o “bom ladrão” dirige ao Crucificado. Todos eles aludem à realeza (messianismo) de Jesus, os primeiros num sentido de escárnio, o último, ao contrário, com um espírito de fé, que lhe consegue a resposta: “Hoje ainda estarás comigo no paraíso”. Para Lucas, o Reino de Cristo inicia realmente na hora da cruz, e dele participa aquele que encarna o modelo do comum dos fiéis: o pecador convertido (cf. a pecadora, o publicano, o filho pródigo, Zaqueu etc.) Isso significa, entre outras coisas, que o Reino de Jesus, para Lc, é essencialmente o Reino da reconciliação do homem com Deus (cf. Paulo em Cl. 1,20; 2ª leitura). A verdadeira paz messiânica, para Lc, não é tanto o lobo e o cordeiro pastarem juntos (Is. 11,6-9), mas o homem ser reconciliado com Deus e participar da vida divina, no “paraíso”, restauração da inocência original.
Deste Reino, o homem participa pela fé, que se expressa na oração (outro tema caro a Lucas): a prece do bom ladrão não é apenas um pedido, mas também confessa Jesus como Rei (“no teu Reino”, 23,42). Como, anteriormente, à guisa de prefiguração, outras personagens receberam cura por causa de sua fé (p.ex., Lc. 18,42), o bom ladrão recebe o paraíso por causa dessa fé. Podemos, portanto, dizer que, para Lc, o Reino de Cristo é essencial mente seu poder de reconciliar com Deus os que acreditam nele. Essa reconciliação tem como centro a cruz, ato supremo de amor e serviço de Jesus para seus irmãos. No homem de Nazaré, morto por amor, Deus encontra reconciliação com a humanidade, pelo menos, se pela fé e a conversão ela se solidariza com o Filho amado.
A 2ª leitura elabora a mesma visão em termos diretamente teológicos. Deus nos assumiu no Reino de seu Filho amado (Cl. 1,13), no qual temos a salvação e a remissão dos pecados (1,14). Segue então o famoso hino cristológico Cl. 1,15-20, que canta Jesus como sendo aquele em quem mora a plenitude de Deus: Deus lhe deu tudo, e mais, “quis morar nele com toda sua plenitude” (1,19). Paulo desenvolve sua cristologia num sentido corporativo: Jesus é a Cabeça, a Igreja o Corpo. Ora, a Cabeça não é separada do Corpo. Juntos formam a “Plenitude”. Sacrificando-se Cristo por nós, em obediência, na morte da cruz, nós é que somos reconciliados. Assim - e notemos a alusão à terminologia messiânica - Cristo instaurou a “paz” pelo sangue de sua cruz (1,20).
A 1ª leitura tem função tipológica; indica o início da linhagem da qual Jesus é a plena realização, a linhagem dos reis davídicos, os “ungidos” (cristos), executivos de Deus. Mas Jesus supera de longe o modelo davídico, e seria um anacronismo conceber o reinado de Cristo em termos políticos, como um novo reino de Davi.
Convém refletir sobre o conceito do Reino de Cristo no sentido de reconciliação de Deus com o homem, neste tempo em que tão facilmente o Reino de Cristo é confundido com uma grandeza mundana, tanto na ideologia integralista quanto na revolucionária e libertadora. O Reino de Cristo, na visão da liturgia de hoje, é o acontecer da vontade do Pai na reconciliação operada pelo sacrifício de sua vida, não de modo mecânico ou mágico, mas pela participação da fé. Em outros termos, a fé reconhece a morte de Cristo como um divino gesto de amor por nós e produz conversão e adesão a este mesmo amor, superando o ódio e a divisão. Assim, o Reino no qual Cristo é investido por sua obediência até a morte, implanta-se também no mundo, mediante a fé dos que nele acreditam e seguem seu caminho.
Mensagem
Para coroar o ano litúrgico, celebramos o solene encerramento, a festa de Cristo-Rei. Jesus é apresentado como rei nosso e do universo. Mas, o que significa chamar Jesus de “rei”? Não temos em nosso meio experiência próxima daquilo que é um rei. Por isso convém prestar bem atenção à 1ª leitura, que narra a consagração de Davi como rei de Israel. Davi não é apenas chefe do Estado e tampouco um rei considerado deus como os reis do Egito e da Babilônia. Ele é “filho de Deus”, chamado a exercer o reinado em obediência a Deus, o Único Senhor.
Ora, se Davi era um rei diferente, Jesus muito mais, como poderemos perceber no evangelho. Seu governo tem alcance além da morte, além do mundo; e este domínio, que supera tudo, ele o abre para o pecador que se converte, o “bom ladrão” crucificado ao seu lado. Jesus não é rei sobre um determinado pedacinho de nosso planeta, mas submete a si a morte e o pecado (cf. 1Cor. 15,25-26). Tudo o que existe para a glória de Deus – de modo especial, a Igreja – encontra em Jesus seu chefe, sua cabeça – diz a 2ª leitura. Ele é rei por seu sangue redentor, pelo dom de sua vida, que vence o ódio, o desamor, o pecado.
Estamos aos poucos redescobrindo que o Reino de Deus, inaugurado por Jesus, deve ser implantado aqui na terra, na justiça e no amor fraterno. Mas não devemos perder de vista a dimensão eterna deste reino. Ele supera as realidades históricas, “encarnadas”. Ele atinge a relação mais profunda e invisível entre Deus e o homem. Ele é universal, não apenas no tempo e no espaço, mas sobretudo na profundidade, na radicalidade.
O projeto de Deus, que Jesus veio, definitivamente, pôr em ação, não termina no horizonte de osso olhar físico. Seu alcance não tem fim. É uma grandeza que vence todo o mal, muito além daquilo que podemos verificar aqui e agora. É um reino que não apenas conquista o mundo, mas muda a sua qualidade. Por isso dedicamo-lhes todas as nossas forças e não ficamos de braços cruzados.
Este reino supera o pecado, como Jesus mostra, acolhendo o “bom ladrão”. Pois é o reino de amor. Porém, não legitima o pecado: Zaqueu, depois que se converteu, começou vida nova (Lc. 19,1-10). Se o bom ladrão tivesse continuado com vida, deveria ter mudado radicalmente seu modo de viver... Assim, para participarmos, já agora, deste reino de amor, justiça e paz, devemos deixar acontecer em nós a transformação que Jesus iniciou e pela qual ele deu a sua vida.
Johan Konings "Liturgia dominical"


Hoje estarás comigo no paraíso
Hoje a Igreja comemora a festa do Cristo Rei e, nesse dia de “festa”, o Evangelho traz Jesus Crucificado. Seria uma contradição?
Jesus é condenado e tido como um criminoso, pois somente estes eram condenados à crucifixão. É considerado Rei tendo como trono improvisado a sua cruz e, para ser reconhecido como tal, tem como suas duas testemunhas da entronização, dois reles ladrões.
A contradição entre o Rei e o Crucificado existe apenas para quem não compreende os ensinamentos de Jesus, pois durante toda a Sua vida, Ele ensina que Seu Reino não é desse mundo. Somente com os olhos da fé é possível perceber que na morte de cruz, considerada na época a mais humilhante punição, se inicia um reinado de reconciliação da criação com o Criador.
Nesta festa do Cristo Rei estão presentes alguns personagens: o povo que, assim como hoje, é impotente diante das injustiças e sofrimentos de seus irmãos, e que também acompanhava o sofrimento de Jesus na cruz sem nada poder fazer; os poderosos e um dos ladrões, que não compreenderam a missão de Jesus, e não percebiam que era morrendo na cruz que Ele salvaria a todos; e o Bom ladrão que, com sua prece: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares em teu Reino”, reconhece Jesus como sendo O Rei, e arrependendo-se de seus erros, se reconcilia com o Pai.
Este Evangelho é um convite incessante para que as pessoas se comprometam com as propostas de Jesus. Quem vai com Ele? Quem entra com Jesus no paraíso da nova sociedade são os banidos, os criminosos, os publicanos, as prostitutas e outras pessoas que a sociedade considera malditas, e as crucificou juntamente com Jesus.
No Evangelho de Lucas a misericórdia divina é uma proposta aberta até o fim, até mesmo onde as esperanças humanas de salvação e vida parecem ter desaparecido.
Pequeninos do Senhor.



Este é o Rei dos judeus!
A crucifixão de Jesus constituiu-se em um trauma para os discípulos. Eles esperavam que seu Mestre fosse um Messias-rei glorioso, cheio de poder, capaz de pôr fim à opressão romana. Por isso, diante do Crucificado, viram esvair-se todas as suas esperanças.
Contudo, a inscrição afixada no alto da cruz - "Este é o rei dos judeus" - era verdadeira. Efetivamente, Jesus era "rei dos judeus", mas seu reino era bem diferente daquele que os discípulos e os adversários esperavam.
Uns e outros não conseguiam perceber a dinâmica de salvação em que estava envolvida a morte de cruz. Ali, Jesus estava salvando toda a humanidade, por ser o Cristo de Deus, o eleito. A crucifixão resultava de sua fidelidade total ao Pai, Senhor de sua existência. Isto significava que a vontade divina sempre fora o imperativo na vida do Filho de Deus. O Reino do Pai tornara-se o Reino de Jesus. Reino articulado no querer divino, e não na força das armas, da violência, das conquistas, da opressão. Por conseguinte, os judeus e todos os que quisessem salvar-se, deveriam aderir a este Reino, cujo Rei é Jesus.
Os dois ladrões, também crucificados com o Mestre, revelaram duas atitudes contrastantes diante desse Rei: um o rejeitou como fraco e impotente; o outro o acolheu e o reconheceu como sendo vítima da injustiça. A este Jesus acolheu em seu Reino!
padre Jaldemir Vitório




Jesus Cristo é o rei
A atribuição do título de "rei" a Jesus tem origem na teologia imperial davídica (primeira leitura; cf. 2Sm. 7). Este título equivale ao título de messias ("messias", do hebraico, ou "cristo", do grego - significando: ungido) devido ao rito da unção dos reis em Israel. Os discípulos diante das palavras e da prática de Jesus, as quais o distanciavam do tipo de messias poderoso e triunfante que era esperado por eles. Apesar da simplicidade de vida de Jesus, seus discípulos, formados sob a ideologia do Judaísmo, se inclinavam a ver em Jesus este tipo de messias. Por esta razão, particularmente no Evangelho de Marcos, são freqüentes as repreensões de Jesus a esta visão equivocada. Não se tendo realizado o sonho messiânico aqui na terra, os discípulos marcados pela cultura e tradição do Judaísmo projetaram Jesus no céu como, finalmente, messias triunfante. Jesus Cristo é o rei celestial. Tal título foi bem acolhido a partir do momento em que os imperadores se tornaram aliados da Igreja, protegendo-a, favorecendo-a e recebendo suas bênçãos. Tendo no céu um rei, seus representantes na terra também se revestem de autoridade, pompa e poder. A atribuição do título de "rei" a Jesus fere sua natureza e sua índole, bem como rompe com o propósito da encarnação, que é assumir a condição humana em sua simplicidade, humildade e fragilidade. Jesus, "manso e humilde de coração", é aquele que peregrina convivendo com as multidões de pobres, excluídos e sofredores, e "não tem onde repousar a cabeça". Pilatos resolveu ironizar os judeus afixando à cruz de Jesus a placa com os dizeres: "Este é o rei dos judeus". Jesus, na sua fragilidade e na sua mansidão, em nada condizia com a condição de um rei, o que suscitou a ironia de Pilatos, bem como a zombaria dos soldados. A um dos crucificados que lhe pede que se lembre dele em seu "Reino", Jesus responde mencionando o "paraíso", no qual o crucificado será recebido "hoje", sem delongas escatológicas. O Deus de Jesus não é um deus de poder que destrói os inimigos em sua ira, mas o Deus de amor, Pai e Mãe, que comunica a todos sua vida divina, em Jesus (segunda leitura).
José Raimundo Oliva





“Meu reino não é deste mundo”
A solenidade de nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, é a festa de encerramento do ano litúrgico.
Há nos evangelhos um único texto em que Jesus assume o título de rei: “O sumo sacerdote o interrogou de novo: ‘És tu o Messias, o Filho do Deus Bendito?’ Jesus respondeu: ‘Eu sou’” (Mc. 14,61-62). De resto, Jesus rejeita para si o título de rei que pudesse identificá-lo com a esperança de restaurar a monarquia davídica e a libertação do país da dominação estrangeira. Jesus rejeita todos os títulos que poderiam fazer pensar no desejo de poder (Mc. 1,25.34.44; 3,12; 5,43; 7,36; 8,26.30). O poder observado no mundo não é o vivido por Jesus e proposto aos seus discípulos: “Para vós, não será assim” (Lc. 22,24-27). Jesus se distancia de toda forma de poder e distingue a concepção de poder da comunidade dos discípulos com a comum dos “grandes deste mundo”. O que deve ser buscado por toda a Igreja é a prioridade do serviço: “O maior é aquele que serve” (Lc. 22,27). Perguntado por Pilatos: “Tu és o rei dos judeus?” (Jo 18,33), Jesus responde: “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36). A única realeza que Jesus aceita é a da cruz. Os evangelhos recordarão, então, a inscrição sobre a cruz: “Jesus de Nazaré, rei dos judeus” (Mt. 27,37; Mc. 15,26; Lc. 23,38; Jo 19,19-22). A partir da cruz, sobre o título de rei, não paira nenhuma ambiguidade, pois a realeza de Jesus é o serviço até a entrega radical da própria vida, como ato de amor supremo. Jesus, Rei do universo, inaugura um modo de vida que não admite o gosto do poder, tal qual “as nações” o compreendem.
As três interpelações dos que zombavam de Jesus (vv. 35.37.39) lembram as interpelações do relato das tentações (cf. Lc. 4,1-13). Isto pode nos fazer compreender que a cruz do Senhor é o lugar da tentação suprema que ele vence: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito” (23,46). No relato das tentações como na paixão, a tentação é a mesma: usar o poder em benefício próprio, usar da condição de Filho de Deus e de Messias para si mesmo. O silêncio do Senhor sobre a cruz ante as interpelações e zombarias é expressão de sua rejeição de todo poder mundano que o desviasse de realizar a vontade do Pai. A cruz é o lugar em que se exerce a realeza tipicamente jesuânica: o poder de salvar, de dar a vida. À súplica do malfeitor: “... lembra-te de mim, quando começares a reinar” (v. 42), Jesus responde: “... hoje estarás comigo no Paraíso” (v. 43; cf. Lc. 4,21).
Carlos Alberto Contieri,sj




É este o último domingo do ano da Igreja. Na corrida, na fiada de dias iniciada no advento do ano passado, contemplamos o Cristo que se fez homem por nós, por nós anunciou e tornou presente o Reino do Pai e, para nos dar esse Reino de modo definitivo, por nós entregou-se na cruz, morreu e ressuscitou, dando-nos de modo definitivo o seu Espírito Santo. Pois bem: depois de termos contemplado todo este mistério, chegamos ao fim e proclamamos o Senhor Jesus como Reino do Universo. Como afirma o Apocalipse, “Jesus Cristo fez de nós um reino e sacerdotes para Deus, seu Pai. A ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos!”
Mas, que significa afirmar esta realeza de Cristo Jesus? Pensando bem, é um título problemático, esse dado ao Senhor... Ele é Rei mesmo? Rei do quê? Rei num mundo que o rejeita, Rei de um Ocidente que cada vez mais lhe volta as costas? Rei de uma humanidade de coração fechado para o seu senhorio? Não seria mais lógico, mais realista afirmar que os reis de hoje são os Ronaldinhos, o Paulo Coelho, o Bush e os heróis de plantão? Será que celebrar o Senhor Jesus com este título portentoso, “Rei do Universo”, não é mais uma prova de que os cristãos estão delirando, apegados a um passado glorioso, quando a sociedade era cristã e a Igreja tinha poder?
Quando os cristãos confessamos que Cristo é Rei, de que reinado estamos falando? A que Reino estamos nos referindo? Nós realmente acreditamos com todo o coração e confessamos com toda convicção que Jesus Cristo – e só ele! – é Rei: Rei do universo, Rei da história, Rei da humanidade, Rei da vida de cada pessoa humana, cristã ou não-cristã. Ele é Rei porque é Deus feito homem, é, como diz a Escritura, aquele “através de quem e para quem todas as coisas foram criadas, no céu e na terra... Tudo foi criado através dele e para ele... Ele é o Primogênito dentre os mortos” (Cl. 1,1518).
No entanto, é necessário compreender a natureza do reinado de Jesus. A liturgia de hoje coloca como antífona de entrada do missal romano uma frase do Apocalipse que é surpreendente: “O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A ele a glória e poder através dos séculos!” Frase surpreendente, sim! Quem é Aquele que proclamamos Rei? O Cordeiro; e Cordeiro imolado. Cordeiro evoca mansidão, paz, fragilidade... Nosso Rei não é aquele que faz e acontece, aquele que passa por cima feito trator... Nosso Rei é o Cordeiro que foi esmagado na cruz, Aquele que foi imolado pelo Pecado do mundo. O mundo passou e passa por cima do nosso Rei, refuta seu Evangelho, desdenha de sua Palavra, ridiculariza seus preceitos, calunia sua Igreja... Esse Rei é Aquele que foi crucificado, que foi derrotado e terminou sozinho, é o homem de dores prenunciado por Isaías. No Evangelho escutamos que zombaram e zombam dele: “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se de fato é o Cristo de Deus, o Escolhido! Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” (Lc. 23,35.39)
Não! Decididamente, Jesus não é Rei nos moldes dos reis da terra. Não podemos imaginar os reis, presidentes e manda-chuvas deste mundo, para depois enquadrar Cristo nesses modelos. O reinado de Cristo somente pode ser compreendido a partir da lógica do próprio Cristo: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc. 10,45). Eis o modo que Cristo tem de reinar: servindo, dando vida e entregando a própria vida. Tão diferente dos reis da terra, dos políticos e líderes de ontem de hoje: “Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vos não será assim...” (Mc. 10,42s). Cristo é Rei porque se fez solidário conosco ao fazer-se um de nós, é Rei porque tomou nossa vida sobre seus ombros, é Rei porque passou entre nós servindo, até o maior serviço: entregar-se totalmente na cruz. É rei porque, agora, no céu, Deus e homem verdadeiro, é Cabeça e Princípio de uma nova criação, de uma nova humanidade, de uma nova história, que se consumará na plenitude final. A festa de Cristo Rei recorda-nos uma outra: a do domingo de Ramos, quando, com palmas nas mãos, cantamos o reinado de Cristo, que entrava em Jerusalém num burrico – animal de carga de serviço – para ser coroado de espinhos, morrer e ressuscitar.
Tudo isto nos coloca em crise, pois este Rei-Messias olha para nós, cristãos, seus discípulos, e nos convida a segui-lo por esse caminho: não o da glória, mas da humildade; não o do sucesso a qualquer custo, mas da fidelidade a todo preço; não o das honras, mas do serviço; não o da imposição, mas da proposta humilde. Quantas vezes os cristãos pensaram o reinado de Cristo de modo demasiado humano, quantas vezes a Igreja pensou que o Reino do Senhor estava mais presente quando ela era honrada, reverenciada, presente nos corredores dos palácios ou nos palanques dos grandes do mundo... Quantas vezes vemos o reinado do Senhor quando tudo sai bem para nós... Ilusão; tentação diabólica! Nosso verdadeiro reinado, nossa real serviço, nossa inalienável dignidade é unir-se a Cristo no seu caminho de humilde serviço ao Evangelho, seguindo os passos do nosso Senhor: “Fiel é esta palavra: Se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos” (2Tm. 2,11). Todas as vezes que esquecemos isso, fomos infiéis e indignos de reinar com Cristo. Houve tempos gloriosos na nossa história de Igreja de Cristo: já fomos perseguidos pelos romanos, já fomos perseguidos em tantos lugares da terra: já nos mataram, torturaram, pisaram, discriminaram... Houve tempos tristes: quando perseguimos, torturamos e discriminamos... pensando, assim, manifestar o Reino de Cristo! Que engano! Que ilusão!
Hoje, temos uma nova chance. Nos países muçulmanos e budistas, somos cidadãos de segunda classe, perseguidos e mortos (ninguém divulga isso!), na China, somos colocados na prisão e nossos Bispos são condenados a trabalhos forçados e, aqui, no nosso Brasil, somos chamados de reacionários, medievais, obscurantistas, anacrônicos, contrários à ciência e ao progresso... porque não aceitamos o aborto, a eutanásia, o assassinato de deficientes, a dissolução da família... É, mais uma vez, a chance de testemunhar o reinado de Cristo, de permanecermos firmes no combate, com a humildade que é capaz de dialogar e ouvir, mas também com a firmeza que não arreda o pé da fidelidade ao Senhor:“Vós sois os que permanecestes constantemente comigo em minhas tribulações; também eu disponho para vós o Reino, como meu Pai o dispôs para mim, a fim de que comais e bebais à minha mesa em meu Reino” (Lc. 22,28-30). Que missão, que chance, que desafio, que graça! Com serenidade e firmeza, na palavra, na vida e na morte, testemunhemos: Jesus Cristo é Rei e Senhor, Princípio e Fim de todas as coisas.
Humildemente, elevemos, cheios de confiança, o nosso olhar para ele, e como o Bom Ladrão, supliquemos: “Jesus, lembra-te de mim, lembra-te de nós, quando entrares no teu Reino!” Só a ti a glória, pelos séculos dos séculos.
dom Henrique Soares da Costa




A Palavra de Deus, neste último domingo do ano litúrgico, convida-nos a tomar consciência da realeza de Jesus. Deixa claro, no entanto, que essa realeza não pode ser entendida à maneira dos reis deste mundo: é uma realeza que se exerce no amor, no serviço, no perdão, no dom da vida.
A primeira leitura apresenta-nos o momento em que David se tornou rei de todo o Israel. Com ele, iniciou-se um tempo de felicidade, de abundância, de paz, que ficou na memória de todo o Povo de Deus. Nos séculos seguintes, o Povo sonhava com o regresso a essa era de felicidade e com a restauração do reino de David; e os profetas prometeram a chegada de um descendente de David que iria realizar esse sonho.
O Evangelho apresenta-nos a realização dessa promessa: Jesus é o Messias/Rei enviado por Deus, que veio tornar realidade o velho sonho do Povo de Deus e apresentar aos homens o “Reino”; no entanto, o “Reino” que Jesus propôs não é um Reino construído sobre a força, a violência, a imposição, mas sobre o amor, o perdão, o dom da vida.
A segunda leitura apresenta um hino que celebra a realeza e a soberania de Cristo sobre toda a criação; além disso, põe em relevo o seu papel fundamental como fonte de vida para o homem.
1º leitura: 2Sm. 5,1-3 - AMBIENTE
Por volta do ano 1007 a.C., o reino de Saul (que agrupava as tribos do norte e do centro) sofreu um rude golpe, com a morte do rei e de Jónatas (filho e natural sucessor de Saul) às mãos dos filisteus, numa batalha travada junto do monte Guilboá (cf. 1Sm. 31). Por esta altura, em contrapartida, David reinava (desde 1012 a.C.) sobre as tribos do sul (cf. 2 Sm. 2,1-4).
Ishboshet, filho de Saul, foi escolhido para suceder a seu pai e ainda reinou dois anos sobre as tribos do norte e do centro (cf. 2Sm. 2,8-11); mas acabou por ter a oposição de Abner, chefe dos exércitos do norte, que ofereceu a David a autoridade sobre as tribos que formavam o reino de Saul (cf. 2Sm. 3,12-21). Abner foi, entretanto, assassinado por Joab, general de David (cf. 2Sm. 3,26-27); e, pouco depois, também Ishboshet foi, muito convenientemente, assassinado – embora o segundo livro de
Samuel se esforce por mostrar que David não teve nada a ver com esses assassínios (cf. 2Sm. 3,28-39; 4,1-12). Finalmente, os anciãos do norte – preocupados em encontrar uma liderança forte que lhes permitisse resistir aos inimigos tradicionais, os filisteus – pediram a David que aceitasse dirigir também os destinos das tribos do norte e do centro.
É diante deste quadro que a leitura de hoje nos coloca. David está em Hebron – a capital das tribos do sul – e é lá que recebe os enviados das tribos norte e do centro que lhe propõem a realeza. Estamos por volta do ano 1005 a.C..
MENSAGEM
Temos, portanto, os anciãos de Israel diante de David a propor-lhe a realeza sobre as tribos do norte e do centro. David aceita… É a primeira vez que se consegue a união das tribos do norte, do centro e do sul sob a autoridade de um único rei (as “doze tribos” que a tradição teológica designará como o “Povo de Deus”).
Os catequistas deuteronomistas, autores deste texto, preocupam-se, no entanto, em fazer uma leitura teológica da história. Assim, colocam na boca dos anciãos de Israel a seguinte frase: “O Senhor disse-te: tu apascentarás o meu Povo de Israel, tu serás rei de Israel” (v. 2). A realeza de David aparecerá, assim, como algo querido por Deus, decidido por Deus – uma espécie de extensão da realeza de Deus: doravante, o rei David será considerado o instrumento através do qual Deus apascenta o seu Povo.
David foi o rei mais importante da história do Povo de Deus. O seu reinado foi marcado – como acontece com todos os reinados “humanos” – por conflitos internos, guerras civis, injustiças, mortes… Mas, apesar de tudo, David manifestou-se como um homem com uma grande estatura política e moral. Em termos políticos, o reinado de David fez de Israel e de Judá um reino de razoáveis dimensões, que se sobrepôs aos seus inimigos tradicionais (os filisteus, os amonitas, os moabitas) e que ficou na memória do Povo de Deus como um tempo ideal de paz e de abundância. Em termos religiosos, foi o tempo em que Jahwéh era considerado, efetivamente, o Deus de Israel e de Judá e em que o rei potenciava o encontro de todo o Povo à volta do seu Deus, na fidelidade à aliança.
No futuro – sobretudo em épocas de crise, de frustração nacional, de instabilidade social, de infidelidade religiosa – o reinado de David vai constituir como que uma miragem ideal; e, nas alturas mais dramáticas da sua história, o Povo de Deus sonha com um descendente de David que venha restaurar o reino ideal de seu pai.
ATUALIZAÇÃO
¨ O que é que a história de David tem a ver com a festa de Jesus Cristo, Rei do Universo? Jesus Cristo, o Messias, Rei de Israel, descendente de David, é considerado no Novo Testamento a resposta de Jahwéh aos sonhos e expectativas do Povo de Deus. Ele veio para restaurar, ao jeito de Deus e na lógica de Deus, o reino de David. Jesus é, portanto, o Rei que, à imagem do que David fez com Israel, apascenta o novo Povo de Deus (veremos, mais à frente, como deve ser entendida a realeza de Jesus). Que significa, para mim, dizer que Jesus é Rei?
¨ O reinado de David é apresentado com um tempo ideal de unidade, de paz e de felicidade; no entanto, conheceu, também, tudo aquilo que costuma caracterizar os reinados humanos: tronos, riquezas, exércitos, batalhas, injustiças, intrigas de corte, lutas pelo poder, assassínios, corrupção. Falar do “Reino” de Jesus terá algo a ver com isto? Estes esquemas caberão, de alguma forma, na lógica de Deus?
2º leitura: Col. 1,12-20 - AMBIENTE
A comunidade cristã de Colossos (situada na Ásia Menor, a cerca de 200 quilômetros a Este de Éfeso) não foi fundada por Paulo, mas sim por Epafras, discípulo de Paulo e colossense de origem. Como é que Paulo aparece envolvido com esta comunidade?
Daquilo que podemos perceber da carta, Paulo estava na prisão (em Roma?) quando recebeu a visita do seu amigo Epafras. Epafras contou a Paulo que a Igreja de Colossos estava em crise, pois alguns “doutores” cristãos ensinavam que a adesão a Jesus devia ser completada por outras práticas religiosas, fundamentais para a salvação e para um conhecimento mais profundo do mistério de Deus. Assim, esses “doutores” exigiam dos crentes de Colossos o cumprimento de práticas ascéticas, de certos ritos legalistas, de algumas prescrições sobre os alimentos; exigiam, também, a observância de determinadas festas e a crença nos anjos e nos seus poderes. É possível que este quadro tivesse a ver com doutrinas orientais que começavam a circular nesta época e que iriam, mais tarde, desembocar no movimento “gnóstico”.
Contra esta confusão religiosa, Paulo afirma a absoluta suficiência de Cristo: a adesão a Cristo é o fundamental para quem quer ter acesso à proposta de salvação que Deus faz aos homens; tudo o resto é dispensável e não deve ser imposto aos cristãos.
MENSAGEM
O texto que nos é proposto começa com um convite à ação de graças, porque Deus livrou os colossenses “do poder das trevas” e transferiu-os “para o Reino do seu filho muito amado” (vs. 12-14); em seguida, Paulo apresenta um hino no qual celebra a supremacia absoluta de Cristo na criação e na redenção (vs. 15-20): trata-se de um hino que Paulo, provavelmente, tomou da liturgia cristã, mas que aparece perfeitamente integrado no discurso e na mensagem desta carta. É nas duas estrofes deste hino que está a mensagem fundamental que nos interessa refletir.
A primeira estrofe do hino (vs. 15-17) afirma e celebra a soberania de Cristo sobre toda a criação; e fá-lo, recorrendo a três afirmações importantes.
A primeira diz que Cristo é a “imagem de Deus invisível”. Dizer que é “imagem” significa dizer que Ele é, em tudo, igual ao Pai, no ser e no agir, e que n’Ele reside a plenitude da divindade. Significa que Deus, espiritual e transcendente, revela-Se aos homens e faz-Se visível através da humanidade de Cristo.
A segunda afirma que Ele é “o primogênito de toda a criatura”. No contexto familiar judaico, o “primogênito” era o herdeiro principal, que tinha a primazia em dignidade e em autoridade sobre os seus irmãos. Aplicado a Cristo, significa que Ele tem a supremacia e a autoridade sobre toda a criação.
A terceira assegura que “n’Ele, por Ele e para Ele foram criadas todas as coisas”. Tal significa que todas as coisas têm n’Ele o seu centro supremo de unidade, de coesão, de harmonia (“n’Ele”) que é Ele que comunica a vida do Pai (“por Ele”); e que Cristo é o termo e a finalidade de toda a criação (“para Ele”).
Ao mencionar expressamente que os “tronos, dominações, principados e potestades” estão incluídos na soberania de Cristo, Paulo desmonta as especulações dos “doutores” de Colossos acerca dos poderes angélicos, considerados em paralelo com o poder de Cristo.
A segunda estrofe (vs. 18-20) afirma e celebra a soberania e o poder de Cristo na redenção. Também aqui temos três afirmações fundamentais…
A primeira diz que Cristo é a “cabeça da Igreja, que é o seu corpo”. A expressão significa, em primeiro lugar, que Cristo tem a primazia e a soberania sobre a comunidade cristã; mas significa, também, que é Ele quem comunica a vida aos membros do corpo e que os une num conjunto vital e harmônico.
A segunda afirma que Cristo é o “princípio, o primogênito de entre os mortos”.
Significa, não só que Ele foi o primeiro a ressuscitar, mas também que Ele é a fonte de vida que vai provocar a nossa própria ressurreição.
A terceira assegura que em Cristo reside “toda a plenitude”. Significa que n’Ele e só n’Ele habita, efetiva e essencialmente, a divindade: tudo o que Deus nos quer comunicar, a fim de nos inserir na sua família, está em Cristo. Por isso, o autor do hino pode concluir que, por Cristo, foram reconciliadas com Deus todas as criaturas na terra e nos céus: por Cristo, a criação inteira, marcada pelo pecado, recebeu a oferta da salvação e pôde voltar a inserir-se na família de Deus.
ATUALIZAÇÃO
¨ A festa de Cristo Rei, que encerra o ano litúrgico, celebra, antes de mais, a soberania e o poder de Cristo sobre toda a criação. A leitura que acabamos de ver diz, a este propósito, que em Cristo, Deus revela-Se; que Ele tem a supremacia e autoridade sobre todos os seres criados; que Ele é o centro de todo o universo e que tudo tende e converge para Ele… Isto equivale a definir Cristo como o centro da vida e da história, a coordenada fundamental à volta da qual tudo se constrói.
Cristo tem, de fato, esta centralidade na vida dos homens e mulheres do nosso tempo, ou há outros deuses e referências que usurparam o seu lugar? Quais são esses outros “reis” que ocuparam o “trono” que pertence a Cristo? Esses “reis” trouxeram alguma “mais valia” à vida dos homens, ou apenas criaram escravidão e desumanização? O que podemos fazer para que a nossa sociedade reconheça em Cristo o seu “rei”?
¨ Em termos pessoais, Cristo é o centro, referência fundamental à volta da qual a minha vida se articula e se constrói? O que é que Ele significa para mim, não em termos de definição teórica, mas em termos existenciais?
¨ A Festa de Cristo Rei é, também, a festa da soberania de Cristo sobre a comunidade cristã. A Igreja é um corpo, do qual Cristo é a cabeça; é Cristo que reúne os vários membros numa comunidade de irmãos que vivem no amor; é Cristo que a todos alimenta e dá vida; é Cristo o termo dessa caminhada que os crentes fazem ao encontro da vida em plenitude. Esta centralidade de Cristo tem estado sempre presente na reflexão, na catequese e na vida da Igreja? É que muitas vezes falamos mais de autoridade e de obediência do que de Cristo; de castidade, de celibato e de leis canônicas, do que do Evangelho; de dinheiro, de
poder e de direitos da Igreja, do que do “Reino”… Cristo é – não em teoria, mas de fato – o centro de referência da Igreja no seu todo e de cada uma das nossas comunidades cristãs em particular? Não damos, às vezes, mais importância às leis feitas pelos homens do que a Cristo? Não há, tantas vezes, “santos”, “santinhos” e “santões” que assumem um valor exagerado na vivência de certos cristãos, e que ocultam ou fazem esquecer o essencial?
Evangelho: Lc. 23,35-43 - AMBIENTE
O Evangelho situa-nos “lugar do Crânio” (alusão provável à forma da rocha que dominava o lugar e que lembrava um crânio), diante de uma cruz. É o final da “caminhada” terrena de Jesus: estamos perante o último quadro de uma vida gasta ao serviço da construção do “Reino”. As bases do “Reino” já estão lançadas e Jesus é apresentado como “o Rei” que preside a esse “Reino” que ele veio propor aos homens. A cena apresenta-nos Jesus crucificado, dois “malfeitores” crucificados também, os chefes dos judeus que “zombavam de Jesus”, os soldados que troçavam dos condenados e o povo silencioso, perplexo e expectante. Por cima da cruz de Jesus, havia uma inscrição: “o basileus tôn Ioudaiôn outos” (“este é o rei dos judeus”).
MENSAGEM
O quadro que Lucas nos apresenta é, portanto, dominado pelo tema da realeza de Jesus. Como é que se define e apresenta essa realeza?
Presidindo à cena, dominando-a de alto a baixo, está a famosa inscrição que define Jesus como “rei dos judeus”. É uma indicação que, face à situação em que Jesus se encontra, parece irônica: Ele não está sentado num trono, mas pregado numa cruz; não aparece rodeado de súbditos fiéis que o incensam e adulam, mas dos chefes dos judeus que o insultam e dos soldados que O escarnecem; Ele não exerce autoridade de vida ou de morte sobre milhões de homens, mas está pregado numa cruz, indefeso, condenado a uma morte infamante… Não há aqui qualquer sinal que identifique Jesus com poder, com autoridade, com realeza terrena.
Contudo, a inscrição da cruz – irônica aos olhos dos homens – descreve com precisão a situação de Jesus, na perspectiva de Deus: Ele é o “rei” que preside, da cruz, a um “Reino” de serviço, de amor, de entrega, de dom da vida. Neste quadro, explica-se a lógica desse “Reino de Deus” que Jesus veio propor aos homens.
O quadro é completado por uma cena bem significativa para entender o sentido da realeza de Jesus. Ao lado de Jesus estão dois “malfeitores”, crucificados como Ele.
Enquanto um o insulta (este representa aqueles que recusam a proposta do “Reino”), o outro pede: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres com a tua realeza”. A resposta de Jesus a este pedido é: “hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. Jesus é o Rei que apresenta aos homens uma proposta de salvação e que, da cruz, oferece a vida. O “estar hoje no paraíso” não expressa um dado cronológico, mas indica que a salvação definitiva (o “Reino”) começa a fazer-se realidade a partir da cruz. Na cruz manifesta-se plenamente a realeza de Jesus que é perdão, renovação do homem, vida plena; e essa realeza abarca todos os homens – mesmo os condenados – que acolhem a salvação.
Toda a vida de Jesus foi dominada pelo tema do “Reino”. Ele começou o seu ministério anunciando que “o Reino chegou” (cf. Mc. 1,15; Mt. 4,17). As suas palavras e os seus gestos sempre mostraram que Ele tinha consciência de ter sido enviado pelo Pai para anunciar o “Reino” e para trazer aos homens uma era nova de felicidade e de paz. Os discípulos depressa perceberam que Jesus era o “Messias” (cf. Mc. 8,29; Mt. 16,16; Lc. 9,20) – um título que o ligava às promessas proféticas e a esse reino ideal de David com que o Povo sonhava. Contudo, Jesus nunca assumiu com clareza o título de “Messias”, a fim de evitar equívocos: numa Palestina em ebulição, o título de “Messias” tinha algo de ambíguo, por estar ligado a perspectivas nacionalistas e a sonhos de luta política contra o ocupante romano. Jesus não quis deitar mais lenha para a fogueira da esperança messiânica, pois o seu messianismo não passava por um trono, nem por esquemas de autoridade, de poder, de violência. Jesus é o Messias/rei, sim; mas é rei na lógica de Deus – isto é, veio para presidir a um “Reino” cuja lei é o serviço, o amor, o dom da vida. A afirmação da sua dignidade real passa pelo sofrimento, pela morte, pela entrega de si próprio. O seu trono é a cruz, expressão máxima de uma vida feita amor e entrega. É neste sentido que o Evangelho de hoje nos convida a entender a realeza de Jesus.
ATUALIZAÇÃO
¨ Celebrar a festa de Cristo Rei do Universo não é celebrar um Deus forte, dominador que se impõe aos homens do alto da sua onipotência e que os assusta com gestos espetaculares; mas é celebrar um Deus que serve, que acolhe e que reina nos corações com a força desarmada do amor. A cruz – ponto de chegada de uma vida gasta a construir o “Reino de Deus” – é o trono de um Deus que recusa qualquer poder e escolhe reinar no coração dos homens através do amor e do dom da vida.
¨ À Igreja de Jesus ainda falta alguma coisa para interiorizar a lógica da realeza de Jesus. Depois dos exércitos para impor a cruz, das conversões forçadas e das fogueiras para combater as heresias, continuamos a manter estruturas que nos equiparam aos reinos deste mundo… A Igreja corpo de Cristo e seu sinal no mundo necessita que o seu Estado com território (ainda que simbólico) seja equiparado a outros Estados políticos? A Igreja, esposa de Cristo, necessita de servidores que se comportam como se fossem funcionários superiores do império?
A Igreja, serva de Cristo e dos homens, necessita de estruturas que funcionam, muitas vezes, apenas segundo a lógica do mercado e da política? Que sentido é que tudo isto faz?
¨ Em termos pessoais, a Festa de Cristo Rei convida-nos, também, a repensar a nossa existência e os nossos valores. Diante deste “rei” despojado de tudo e pregado numa cruz, não nos parecem completamente ridículas as nossas pretensões de honras, de glórias, de títulos, de aplausos, de reconhecimentos?
Diante deste “rei” que dá a vida por amor, não nos parecem completamente sem sentido as nossas manias de grandeza, as lutas para conseguirmos mais poder, as invejas mesquinhas, as rivalidades que nos magoam e separam dos irmãos?
Diante deste “rei” que se dá sem guardar nada para si, não nos sentimos convidados a fazer da vida um dom?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho





O reinado de Cristo
I. O Senhor sentar-se-á como rei para sempre, o Senhor abençoará o seu povo dando-lhe a paz (1), recorda-nos uma das antífonas da missa.
A solenidade que celebramos hoje “é como uma síntese de todo o mistério salvífico” (2). Com ela encerra-se o ano litúrgico: depois de termos celebrado todos os mistérios da vida do Senhor, apresenta-se agora à nossa consideração Cristo glorioso, Rei de toda a criação e das nossas almas. Ainda que as festas da Epifania, Páscoa e Ascensão sejam também festas de Cristo Rei e Senhor de todas as coisas criadas, a de hoje foi especialmente instituída para nos mostrar Jesus como único soberano de uma sociedade que parece querer viver de costas para Deus3.
Os textos da Missa salientam o amor de Cristo-Rei, que veio estabelecer o seu reinado, não com a força de um conquistador, mas com a bondade e a mansidão do pastor: Eis que eu mesmo irei buscar as minhas ovelhas, seguindo o seu rasto. Assim como um pastor segue o rasto do seu rebanho quando as ovelhas se encontram dispersas, assim eu seguirei o rasto das minhas ovelhas; e livrá-las-ei tirando-as de todos os lugares por onde se tenham dispersado no dia das nuvens tempestuosas e da escuridão4.
Foi com esta solicitude que o Senhor veio em busca dos homens dispersos e afastados de Deus pelo pecado. E como estavam feridos e doentes, curou-os e vendou-lhes as feridas. Tanto os amou que deu a vida por eles. “Como Rei, vem para revelar o amor de Deus, para ser o Mediador da Nova Aliança, o Redentor do homem. O Reino instaurado por Jesus Cristo atua como fermento e sinal de salvação a fim de construir um mundo mais justo, mais fraterno, mais solidário, inspirado nos valores evangélicos da esperança e da futura bem-aventurança a que todos estamos chamados. Por isso, no Prefácio da celebração eucarística de hoje, fala-se de Jesus que ofereceu ao Pai um reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz”5.
Assim é o Reino de Cristo, do qual somos chamados a participar e que somos convidados a dilatar mediante um apostolado fecundo. O Senhor deve estar presente nos nossos familiares, amigos, vizinhos, companheiros de trabalho... “Perante os que reduzem a religião a um cúmulo de negações, ou se conformam com um catolicismo de meias-tintas; perante os que querem pôr o Senhor de cara contra a parede, ou colocá-lo num canto da alma..., temos de afirmar, com as nossas palavras e com as nossas obras, que aspiramos a fazer de Cristo um autêntico Rei de todos os corações..., também dos deles”6.
II. OPORTET AUTEM illum regnare..., é necessário que Ele reine...7
São Paulo ensina que a soberania de Cristo sobre toda a criação cumpre-se agora no tempo, mas alcançará a sua plenitude definitiva depois do Juízo universal. O Apóstolo apresenta este acontecimento, para nós misterioso, como um ato de solene homenagem ao Pai: Cristo oferecer-lhe-á toda a criação como um troféu e apresentar-lhe-á finalmente o Reino cuja realização lhe havia sido confiada até aquele momento8. A sua vinda gloriosa no fim dos tempos, quando tiver estabelecido os novos céus e a nova terra9, representará o triunfo definitivo sobre o demônio, o pecado, a dor e a morte10.
Entretanto, a atitude do cristão não pode ser de mera passividade em relação ao reinado de Cristo no mundo. Nós desejamos ardentemente esse reinado: Oportet illum regnare...! É necessário que Cristo reine em primeiro lugar na nossa inteligência, mediante o conhecimento da sua doutrina e o acatamento amoroso dessas verdades reveladas. É necessário que reine na nossa vontade, para que se identifique cada vez mais plenamente com a vontade divina. É necessário que reine no nosso coração, para que nenhum amor se anteponha ao amor a Deus. É necessário que reine no nosso corpo, templo do Espírito Santo11; no nosso trabalho profissional, caminho de santidade... “Como és grande, Senhor nosso Deus! Tu és quem dá à nossa vida sentido sobrenatural e eficácia divina. Tu és a causa de que, por amor do teu Filho, possamos repetir com todas as forças do nosso ser, com a alma e com o corpo: Convém que Ele reine!, enquanto ressoa a canção da nossa fraqueza, pois sabes que somos criaturas”12.
A festa de hoje é como uma antecipação da segunda vinda de Cristo em poder e majestade, a vinda gloriosa que se apossará dos corações e secará toda a lágrima de infelicidade. Mas é, ao mesmo tempo, uma chamada e um incentivo para que todas as coisas à nossa volta se deixem impregnar pelo espírito amável de Cristo, pois “a esperança de uma nova terra, longe de atenuar, deve antes estimular a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra, na qual cresce o Corpo da nova família humana que já nos pode oferecer um certo esboço do novo mundo. Por isso, ainda que o progresso terreno deva ser cuidadosamente distinguido do crescimento do Reino de Cristo, no entanto o progresso terreno é de grande interesse para o Reino de Deus, na medida em que pode contribuir para organizar melhor a sociedade humana.
“Depois de termos propagado na terra – no Espírito do Senhor e por sua ordem – os valores da dignidade humana, da comunidade fraterna e da liberdade, voltaremos a encontrar todos esses bons frutos da natureza e do nosso trabalho – desta vez limpos já de toda a impureza, iluminados e transfigurados – quando Cristo entregar ao Pai o Reino eterno e universal [...]. O Reino já está misteriosamente presente aqui na terra. E quando o Senhor vier, alcançará a sua perfeição”13. Nós colaboramos na propagação do reinado de Jesus quando procuramos tornar mais humano e mais cristão o pequeno mundo que freqüentamos diariamente.
III. JESUS RESPONDEU a Pilatos: O meu Reino não é deste mundo... E quando o Procurador tornou a interpelá-lo, afirmou-lhe: Tu o dizes, eu sou rei14. Não sendo deste mundo, o Reino de Cristo começa já nesta terra. O seu reinado expande-se entre os homens quando eles se sentem filhos de Deus, quando se alimentam dEle e vivem para Ele.
Cristo é um Rei que recebeu todo o poder no céu e na terra, e governa sendo manso e humilde de coração15, servindo a todos, porque não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para a redenção de muitos. O seu trono foi o presépio de Belém e depois a Cruz do Calvário. Sendo o Príncipe dos reis da terra16, não exige outros tributos além da fé e do amor.
Um ladrão foi o primeiro a reconhecer a sua realeza: Senhor – dizia-lhe ele com uma fé simples e humilde –, lembra-te de mim quando entrares no teu reino17. O título que para muitos foi motivo de escândalo e de injúrias, será a salvação deste homem em quem a fé lançou raízes, quando mais oculta parecia a divindade do Salvador. O Senhor “concede sempre mais do que aquilo que lhe pedem: o ladrão só lhe pedia que se lembrasse dele; mas o Senhor disse-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso. A vida consiste em habitar com Jesus Cristo, e onde está Jesus Cristo ali está o seu Reino”18.
Na festa de hoje, ouvimos o Senhor dizer-nos na intimidade do nosso coração: Eu tenho sobre ti desígnios de paz e não de aflição19. E fazemos o propósito de corrigir no nosso coração o que não estiver de acordo com o querer de Cristo.
Ao mesmo tempo, pedimos-lhe que nos reforce a vontade de colaborar na tarefa de estender o seu reinado ao nosso redor e em tantos lugares em que ainda não o conhecem. “Foi para isso que nós, os cristãos, fomos chamados, essa é a nossa tarefa apostólica e a preocupação que deve consumir a nossa alma: conseguir que o reino de Cristo se torne realidade, que não haja mais ódios nem crueldades, que estendamos pela terra o bálsamo forte e pacífico do amor”20. Que o Senhor nos faça sentir-nos verdadeiramente comprometidos a realizar um apostolado constante e eficaz.
Para tornarmos realidade os nossos desejos, recorremos uma vez mais a Nossa Senhora. “Maria, a Mãe santa do nosso Rei, a Rainha do nosso coração, cuida de nós como só Ela o sabe fazer. Mãe compassiva, trono da graça: nós te pedimos que saibamos compor na nossa vida e na vida dos que nos rodeiam, verso a verso, o poema singelo da caridade, quasi fluvium pacis (Is 66, 12), como um rio de paz. Pois tu és um mar de inesgotável misericórdia”21.
Francisco Fernández-Carvajal





No trono da cruz, um rei ensanguentado
Lucas nos informa que acima de Jesus, no alto da cruz, havia um letreiro: Este é o rei dos judeus. Sim, no trono da cruz, está  assentado um rei ensaguentado!
Os evangelistas, ao descreverem os últimos momentos da vida de Jesus, nos fornecem muitos e preciosos detalhes.  Houve zombarias. “Se és alguém, se és o enviado do Pai, se tens a ver com Deus, tu que salvaste a tantos, desce daí...” E os soldados se compraziam em ridicularizar esse condenado à morte tão incômodo, ali, nas vésperas das festas dos judeus...
Ao lado de Jesus, crucificado com ele está um ladrão. Dizem que se chamava Dimas. Não se diz isso nos evangelhos. Era um homem que roubava, um desses salteadores. Este, ouvindo as ofensas que dirigia a Jesus o outro ladrão, o repreende e voltando-se para Jesus, diz: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares do teu reinado!”. Ali estava um homem com o coração dolorido, muito provavelmente arrependido de seus gestos e desmandos e, ao mesmo tempo profundamente sensibilizado com esse companheiro de tormento, esse Jesus que ali, impotente, inocente, era um trapo humano. Sua nudez era coberta pelo sangue, um condenado inocente, morrendo com dignidade. O salteador dito “bom ladrão” parece compreender que Jesus vai para um espaço de vida, para um reino onde haverá de existir amor e paz.  Esse ladrão exprime fé e desejo de viver com esse  nobre Jesus ensanguentado.
E Jesus profere  palavras extremamente consoladoras: “Em verdade eu te digo hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. Podemos bem imaginar a alegria serena desse ladrão sem esperança. Ele entraria pela porta do reino conduzido por seu companheiro de tortura, esse rei ensanguentado.
O menino que se remexia nas palhas era o desejado das colinas eternas. Viera da parte de Deus como centro de tudo. Desde toda eternidade o Pai sonhara em ser amado fora da Trindade. Enviou seu Filho ao mundo, o Verbo se fez carne. Tudo fez para ele. Ele era objeto de todas as complacências do coração do Pai. E ele falou aos homens, pediu que orientassem seus corações para o Pai. Conviveu com homens, quis ser pão, caminho, verdade, vida de todos. E como não existe maior amor do que dar a vida pelos seus aceitou, livremente subir até o alto da cruz e ali, despojado de tudo, dar a vida pelos seus e assim atrair, pelo amor, ao seu coração todos os corações. Ele é rei, rei despojado, rei sem vontade de dominar, mas centro de tudo e pólo de atração.  Jesus, rei do mundo e rei dos corações sinceros! Belamente o prefácio da missa do Cristo Rei proclama: “Ele, oferecendo-se na cruz, vítima pura e pacífica, realizou a redenção da humanidade. Submetendo ao seu poder toda criatura, entregará (Senhor) à vossa infinita majestade um reino eterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, do amor e da paz”.
Belíssima esta página de Agostinho sobre o Cristo, Rei do universo: “Ouvi, judeus e gentios; ouvi circuncidados, ouvi incircuncisos; ouvi reinos de toda a terra:  “Eu não eliminou a vossa soberania. Meu reino não é deste mundo (Jo 18,36)”  Não vos deixes dominar pelo vão temor como aquele que Herodes, o Grande, experimentou por ocasião do nascimento de Cristo, o qual, pretendendo eliminar Jesus, matou inocentes (cf. Mt. 2,3.16). “Meu reino não é deste mundo, diz Jesus. O que quereis? Vinde ao reino que não é deste mundo; vinde com fé e não queirais ser cruéis levados pelo medo! É verdade que numa profecia Cristo, falando de Deus, seu Pai, disse: “Por ele foi constituído rei sobre Sião, seu monte santo” (Sl. 2,6), mas esta Sião e este monte não são deste mundo. O que é o reino de Cristo?  São os que crêem nele, a propósito dos quais ele disse: “Não sois do mundo, como eu não sou da mundo” (Jo. 17,16), mesmo querendo que eles permanecessem no mundo, por isso pede ao Pai por eles: “Não te peço que os tires, do mundo, mas que os preserve do mal” (Jo 17,15). Também aqui não diz: “O meu reino não é neste mundo”, mas afirma: O meu reino não é deste mundo”. E depois de ter demonstrado isto, dizendo Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servos combateriam por mim, para que eu não fosse entregue aos judeus” (Jo. 18,36, não diz: “O meu reino não se encontra nesta terra”, mas diz: O meu reino não é desta terra”. Na realidade seu reino está nesta terra até o fim dos séculos e carrega consigo a cizânia misturada com o grão fino (o trigo) até o  momento da colheita que se dará no fim dos tempos quando virão os ceifeiros, isto é, os anjos e arrancarão de seu reino todos os escândalos (cf. Mt. 13,38-41). Isso não poderia acontecer se o seu reino não estivesse aqui, na terra. No entanto, o reino não é desta terra, porque estamos no exílio do mundo. Aos que pertencem ao seu reino ele diz: “Vós não sois do mundo, eu os escolhi do mundo” (Jo. 15,19).
frei Almir Ribeiro Guimarães





“Ainda hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc. 23,43).
Esta solenidade, Cristo Rei do Universo, foi instituída pelo papa Pio XI, em 11 de dezembro de 1925. Com ela, conclui-se o ano litúrgico e, de modo especial este ano, o Ano da Fé, aberto em 2012 pelo papa emérito Bento XVI.
As leituras de hoje nos falam sobre realezas. Na primeira leitura (2Sm. 5,1-3), Davi é ungido rei de Israel pelo povo. Esse, estando na frente do povo, tinha como missão dirigir, apascentar, unificar as tribos de Israel que estavam dispersas e levá-las à prosperidade, segundo a aliança feita aos olhos do Senhor.
No Evangelho segundo São Lucas (Lc. 23,35-43), Jesus Cristo cumpre sua missão sobre a terra: doar sua vida pela nossa redenção, servir a humanidade. Que absurdo! Aquilo que mais os homens desprezam, Deus assume como vitória e vida? Muitos não compreendem. Basta ler o motivo de sua condenação inscrita sobre sua cabeça, que é vida para nós: “Este é o Rei dos judeus.”
No momento em que menos se esperava, Jesus revela-se como portador da salvação na cruz, e a oferece ao ladrão. Assim, em Jesus, todos nós que clamamos “lembra-te de nós”, ainda que tudo pareça perdido, sempre seremos lembrados por Ele, porque foi do agrado do Pai conceder-nos a salvação.
São Paulo, na segunda leitura (Cl. 1,12-20), com seu hino cristológico, enaltece o ser humano por ser o principal  herdeiro do Reino de Deus e, por isso, apela por uma vida de ação de graças, já que fomos concedidos à estima de participarmos dessa mesma luz.
Viva Cristo Rei do Universo!
Noviços deste ano












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