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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

TODOS OS SANTOS

TODOS OS SANTOS. SOLENIDADE
6 de Novembro de 2016-Ano C

1ª Leitura - Ap 7,2-4.9-14

Salmo - Sl 23(24)

2ª Leitura - 1Jo 3,1-3

Evangelho - Mt 5,1-12ª



As bem-aventuranças formam um conjunto de parâmetros para que possamos medir como está indo a nossa vida. Como estamos suportando os fardos que devemos carregar, e se estamos vivendo de acordo com a vontade de Deus. Continuar lendo


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AS BEM-AVENTURANÇAS - Olivia Coutinho

32º DOMINGO DO TEMPO COMUM - TODOS OS SANTOS - SOLENIDADE

Dia 06 de Novembro de 2016

Evangelho de Mt5,1-12

Hoje, Solenidade de todos os santos, a Igreja nos convida a voltarmos  o nosso olhar para o céu e contemplar uma multidão de santos e de santas que deixaram marcas profundas do seu amor a Deus aqui na terra e que agora participam da gloria do céu junto ao Pai, permanecendo vivas dentro de nós, através do seu testemunho!
Os santos se santificaram aqui na terra, no seu cotidiano, o que vem nos assegurar, que todos nós, também  podemos ser santos! 
 Jesus nos convida  a ser santo, a darmosum sentido novo a nossa existência, uma única e fundamental direção: a santidade como meta para chegarmos a vida eterna!
Optamos pelo caminho da santidade, quando deixamos de projetar a nossa vida em nós mesmos, para nos envolvermos  no projeto de Deus que tem como referência unicamente Jesus! 
Fomos criados por Deus Pai e orientados por Deus Filho a direcionar  a nossa existência como uma flecha que busca o seu alvo, o nosso alvo é o próprio Deus, Ele é o nosso objetivo primeiro, Aquele que dá o verdadeiro sentido a nossa vida!
No evangelho  que a liturgia deste Domingo nos convida a refletir, Jesus nos apresenta as Bem-Aventuranças.
É importante conscientizamos de que as Bem-Aventuranças, não são mandamentos, afinal, Deus não exige sofrimento para  cobrir seus filhos de felicidade, podemos dizer,  que as Bem-Aventuranças, são uma consolação de Deus a todos aqueles que são desfavorecidos pelo o mundo, que são perseguidos por amar e obedecer a Deus. 
 Jesus deixa claro, que só é  feliz verdadeiramente, quem  vive dentro do plano de Deus! Quem vive de acordo com o plano de Deus, não hesita em caminhar  na contramão do mundo, pois está  convicto de que nada neste mundo é mais importante do que a sua  fidelidade a Ele.
Jesus Proclama: “Bem-aventurados (Felizes) os pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça os misericordiosos, os puros de coração, os perseguidos e injuriados por causa do reino”! Estes são felizes, porque se colocam inteiramente na dependência de  Deus!
Ser perseguido, odiado, injuriado por causa de Jesus, são situações que não agradam a Deus, mas quem suporta tudo isso em nome da sua fidelidade a Ele, é feliz, porque tem em Deus, a sua consolação, o seu abraço de Pai, um abraço que não tem preço, que vale mais do que todas as benéficas do mundo.
Quem sofre as consequências do seu seguimento a Jesus e se mantem  fiel a Ele, começa a receber a sua recompensa, já  aqui na terra, pois Deus transforma, todo o  mal que lhes é causado em benefício para ele.
É no esvaziamento de nós mesmos que experimentamos  o aconchego do coração do Pai, a sua consolação!
Alegremo-nos por confiar na realização das promessas de Deus, é o próprio Jesus quem nos garante: “Alegrai-vos e exultai, pois será grande a vossa recompensa no Céu”. 
É desejo de Deus, que todos nós sejamos felizes, e ser feliz, é também, tudo o que mais desejamos, pena, que muitos de nós buscamos a felicidade fora dos planos de Deus. Só alcança a felicidade, quem vive em Deus! 
O conceito de felicidade, segundo a visão do mundo,  é completamente diferente da felicidade que Deus planejou para nós, para o mundo, felicidade se baseia no ter, no poder, enquanto que para Deus, felicidade está no ser e em ser! O ser, que se faz morada de Deus é feliz em qualquer circunstancia!
Assim como foram os Santos, sejamos também, fieis ao Evangelho, não tenhamos medo de ser de Deus, de dar testemunho de Jesus, ainda que para isso, tenhamos que navegar contra a maré.  

"Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus."(Mt5,48)
Buscar a santidade, é o grande desafio de buscar a perfeição em meio às imperfeições do mundo, sem esquecer: o mais Santo de todos os Santos da terra, será sempre um pecador perdoado.
Ninguém busca o sofrimento, mas ele é inevitável em nossas vidas, faz parte da natureza humana, saber aproveitá-lo como trampolim para a nossa ascensão, é trilhar os passos de Jesus, é estar no caminho da Santidade.

 

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

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Os santos preparam o Reino
A solenidade de Todos os Santos é tão importante, que tem precedência sobre o domingo do tempo comum. Celebra todos os santos, não só os canonizados. A canonização de um santo é algo custoso em todos os sentidos, e muitos e muitos de nossos pobres perseguidos, que contribuíram fortemente para o advento do reinado de Deus no mundo, não deixaram recursos suficientes para serem canonizados. De dom Oscar Romero, ainda não canonizado em razão de protelações no processo, até as humildes, analfabetas e desconhecidas donas Sebastianas, todos os santos são comemorados hoje.
Eles mereceram ser assinalados para que escapassem da segunda morte, a morte definitiva. Os trabalhos de sua vida, quando não sua morte em favor das vítimas deste nosso mundo, uniram-nos ao sangue do Cordeiro e deram-lhes a faixa de campeões e o troféu da vitória. Viveram como fiéis filhos de Deus. Essa grandeza de serem filhos de Deus, a qual procuraram preservar contra tudo e contra todos, agora se abriu, como o botão de uma rosa, na glória de Deus. Entre eles, pobres e perseguidos que enxugaram as lágrimas dos que choravam, mataram a fome dos famintos da verdadeira justiça, tornaram senhores os que não eram ninguém neste mundo. Fizeram a sua parte, construíram a verdadeira paz.
1º leitura (Ap. 7,2-4.9-14)
O livro do Apocalipse foi escrito para dar esperança a comunidades cristãs da Ásia Menor, comunidades pobres e vítimas de perseguição. Eram perseguidas por não adorarem o império.
Em cidades da Ásia Menor é que tinha surgido o primeiro templo dedicado à deusa Roma, ali é que estava “o trono de satanás”, o lugar onde se cultuava a imagem do divino imperador, o “deus acessível”. Quem participava desse culto recebia uma marca que lhe abria todas as portas. Quem não participava, além de excluído, poderia ser até mesmo condenado à morte. Os cristãos não participavam e por isso eram marginalizados e perseguidos.
Chamava-se João o missionário itinerante que animava essas comunidades, incentivando-as a não ceder ao culto do império. Por isso ele foi preso na ilha de Patmos e de lá envia o escrito, numa linguagem que os pobres e perseguidos poderiam entender e as autoridades do império não. Dá-lhes ânimo e aumenta-lhes a auto-estima.
No trecho que vamos ouvir na primeira leitura de hoje, ele fala de uma visão do céu. Multidões, milhares de cada clã (12), de cada uma das doze tribos (12x12 = 144) do povo hebreu que não cederam ao culto imperial, recebem outra marca que não os deixa ser vítimas do castigo que virá para os opressores. Além deles, estão presentes também as multidões incontáveis dos santos de todas as outras tribos e nações.
Todos são vencedores, vestem mantos brancos, a cor dos vencedores nas competições esportivas – poderíamos dizer hoje: trazem a faixa de campeões –, e têm o troféu, a palma, nas mãos. Não cultuaram Roma e o imperador, agora cultuam a Deus e ao Cordeiro. De onde vieram eles? Vieram da grande tribulação, a pobreza unida à exclusão social e à perseguição. Sua morte, seu sangue, unida ao sangue, morte, do Cordeiro, deu-lhes o manto branco da vitória. A resistência até a morte deu-lhes a vida sem fim.
2º leitura (1Jo. 3,1-3)
Os que nós chamamos de santos e hoje celebramos são os nossos irmãos que estão na glória. Como diz a segunda leitura de hoje, a graça de ser filhos de Deus, o botão que estava dentro deles, já se abriu em flor. Essa graça, esse dom de amor do Pai em nosso favor, faz-nos diferentes, como o mundo distante do Pai não é capaz de entender.
Falta-nos hoje apenas aquilo que não falta aos santos que celebramos: ver Jesus Cristo. Só nos falta o ver segundo o conceito joanino de experimentar, conviver, ter comunhão plena com o Filho, Jesus. Isso nos tornará totalmente semelhantes a ele. E é essa convicção que nos faz manter-nos distantes do mal, tal como ele fez e como todos os santos fizeram.
Evangelho (Mt. 5,1-12a)
Um detalhe, geralmente não observado na maioria das traduções, faz grande diferença na interpretação do evangelho de hoje. Trata-se da primeira frase. Em geral, dizem as traduções: “Vendo as multidões”. O tempo do verbo grego utilizado (aoristo), porém, pede que se traduza: “Tendo visto as multidões, Jesus subiu à montanha...”. Foi porque viu aquelas multidões que Jesus subiu à montanha e passou a dar a instrução aos discípulos, como Moisés, da montanha, deu ao povo a Lei ou Instrução de Deus. À vista das multidões, ele faz o Sermão da Montanha.
Que multidões eram essas? Eram as multidões de sofredores da Judéia e da Galileia, como também de fora, que, no final do capítulo 4, vinham buscar em Jesus uma solução para os seus problemas. Podemos dizer que são toda a humanidade sofredora. Por causa dela, para benefício dela, Jesus se senta como mestre, rodeado pelos discípulos, sobre uma montanha que lembra o monte Sinai. Ele instrui os discípulos não para que estejam voltados para o próprio umbigo, mas para que cuidem das multidões sofredoras que acorrem de toda parte.
Isso ajuda a entender a instrução. Notar que, das oito bem-aventuranças básicas, a primeira e a última se referem ao tempo presente: “deles é o reino dos céus”.
É preciso ter bem claro que “reino dos céus” não é o céu, a glória eterna. “Reino dos céus”, frequente no Evangelho de Mateus, é o mesmo que reino ou reinado de Deus. Ele começa aqui na terra, onde o que se liga ou desliga é confirmado no céu; assemelha-se ao campo de terreno bom e terreno ruim, à rede que pega peixes bons e maus, à lavoura onde o joio se mistura ao trigo. Só o respeito judaico pelo Nome o faz ser substituído pela palavra céus. A eles, aos pobres e aos perseguidos, pertence, portanto, o reinado de Deus, que tem início aqui na terra.
Os primeiros são os “pobres por espírito”, isto é, por força interior, por convicção, e os últimos são os “perseguidos por causa da justiça”, perseguidos por buscarem a justiça do reinado de Deus, tema caro a Mateus. Assim, os pobres e os perseguidos, de certo modo, identificam-se. E quem diz que aquele que aceita a pobreza, que não faz caso do dinheiro, não incomoda e não sofre por isso? Mas desses é o reinado de Deus; eles é que estabelecem o reinado que não é dos césares nem do dinheiro. São os santos que hoje celebramos.
Nas bem-aventuranças seguintes estão as consequências disso. Os que agora estão chorando mais adiante vão parar de chorar, serão consolados. Os que têm fome e sede de ver acontecer a verdadeira justiça hão de matar essa fome. Os carentes, em geral traduzidos por “mansos”, os que não são ninguém, que não têm vez nem voz, serão senhores, serão os donos da terra.
Na sequência, outras três bem-aventuranças: os que colaboram, ou seja, os que têm misericórdia, os que têm intenções retas (“coração puro”) e os que promovem a paz ou felicidade plena também terão sua recompensa. São a quinta, a sexta e a sétima bem-aventurança.
Voltando-se depois para os discípulos, nós e os santos hoje festejados, Jesus nos diz felizes porque perseguidos. É pena que o lecionário tenha cortado o final do v. 12, que dá o motivo da bem-aventurança da perseguição: “porque foi assim que sempre trataram os verdadeiros profetas”. Quem não é perseguido, quem não incomoda os senhores deste mundo, sejam pessoas ou instituições, não é profeta, não é santo.
Dicas para reflexão
São oito as bem-aventuranças. Oito está além da plenitude, que é o sete. Oito é Jesus Cristo, só ele vai além da plenitude. Ele é o primeiro pobre por opção e o primeiro mártir, o primeiro perseguido. Só ele põe os fundamentos do reinado de Deus. Só ele tira os pecados do mundo. Na cruz, o príncipe deste mundo, o que manda neste mundo, é posto para fora.
Nossos irmãos, os santos, “lavaram seus mantos no sangue do Cordeiro”, alcançaram a vitória, assemelhando-se à pobreza e à perseguição de Jesus.
Quando, na eucaristia, celebramos a morte do Cordeiro pascal, com ele celebramos o martírio, os trabalhos e a pobreza dos santos de ontem e de hoje. O pão e o vinho partilhados, que celebram o horizonte da comunhão perfeita e plena, sem lágrimas, sem fome e sem exclusão, significam também a pobreza de quem se parte em pedaços e a coerência que torna capaz a resistência à mais cruel perseguição.
Feliz não é o rico, o que tem tudo, mas não tem a si mesmo, pois pertence ao seu dinheiro.
Feliz não é o elogiado por todos, o aprovado por todos os poderosos do mundo, aquele que por ninguém é perseguido, porque nada tem para dizer, em nada colabora, nada acrescenta, só sabe negar-se a si mesmo e à própria consciência para agradar aos que podem. Parece agradar a todos, só não agrada a si mesmo.
Felizes são o pobre e o perseguido, e, com eles, muitos outros também serão felizes. Isso é ser santo.
padre José Luiz Gonzaga do Prado




A felicidade dos pobres (Mt. 5,1-12a)
As bem-aventuranças marcam, no Evangelho de Mateus, o início do Sermão da Montanha (Mt. 5,1-7,28), a nova constituição do povo de Deus.
O v. 1 mostra a quem se destina essa boa notícia: às multidões vindas da Síria, da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e do outro lado do Jordão (cf. 4,24-25). Há gente vinda de todos os lugares. Isso denota que a mensagem de Jesus não tem fronteiras (Mateus pôs, como destinatários das bem-aventuranças, os cristãos das comunidades às quais escreveu seu evangelho). Vendo as multidões, Jesus sobe à montanha, que, simbolicamente, é o lugar de Deus e do encontro com ele. A montanha recorda o Sinai, o monte onde foi selada a aliança com o povo hebreu que saiu da escravidão egípcia. Foi aí que Moisés recebeu as tábuas da Lei (Decálogo), a constituição do povo de Deus.
Jesus, portanto, está para promulgar a nova constituição do povo de Deus, um povo sem fronteiras e sem discriminações; ele vai inaugurar a nova aliança com os pobres e marginalizados do mundo inteiro, revelando que Deus se solidarizou com eles a ponto de confiar-lhes o Reino. O clima dessa nova aliança é o da confiança ilimitada que circula entre Deus e seu povo. De fato, no tempo do deserto, o povo hebreu devia permanecer longe do monte Sinai, sem se aproximar. E Deus falava ao povo por meio de Moisés. Aqui, os discípulos se aproximam do Mestre na montanha, e Deus lhes fala em Jesus – o Emanuel –, que, sentado, ensina como Mestre que tem autoridade.
As bem-aventuranças são propostas de felicidade. A constituição do povo de Deus não impõe leis. Jesus simplesmente constata a situação do povo que o segue (pobres, afligidos, despossuídos [= mansos], famintos); percebe o esforço que fazem para mudar a situação (misericórdia/solidariedade, pureza de coração, promoção da paz); conhece as dificuldades e perseguições que enfrentam para criar a nova sociedade e os proclama felizes, herdeiros do projeto de Deus. A constituição que Jesus promulga no Sermão da Montanha nasce da constatação das lutas do povo sofrido. Deus se solidarizou com ele, confiando-lhe o Reino.
a. A felicidade dos pobres (vv. 3,10)
A primeira bem-aventurança: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino do céu” (v. 3), juntamente com a oitava: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino do céu” (v. 10), são a síntese de todas as bem-aventuranças. As demais (vv. 4 - 9) esclarecem alguns aspectos dessas duas. A primeira e oitava possuem promessa idêntica: “porque deles é o reino do céu”. Não se trata propriamente de uma promessa, mas de constatação do que está acontecendo: o reino do céu já é dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça! Esses dois grupos (pobres em espírito e perseguidos por causa da justiça) constituem, na verdade, um único grupo. As demais bem-aventuranças trazem uma promessa futura: serão consolados, possuirão a terra etc. Contudo, não é para esperar a realização dessa promessa no além. Ela é decorrência da opção que Deus fez pelos pobres e oprimidos, confiando-lhes o Reino, portador da plenitude dos bens: liberdade, vida, fraternidade, partilha, paz. Quando será realizado tudo o que aparece como promessa? Quando a nova prática da justiça fizer germinar e crescer o Reino.
A primeira bem-aventurança proclama felizes os “pobres em espírito”. Frequentemente se tenta pôr panos quentes na força dessa expressão, como se os pobres em espírito fossem pessoas humildes, independentemente de sua condição social. A palavra pobre recorda os ‘anawim do Antigo Testamento, da época de Jesus e das comunidades de Mateus: são os que depositaram sua confiança em Deus enquanto última instância, porque a sociedade lhes negava justiça. São pobres em espírito, ou seja, escolheram a pobreza (cf. 6,24) não porque a miséria os fizesse felizes, mas porque nessa condição participam do projeto de Deus, que é a construção da nova sociedade, baseada na justiça e igualdade. Por isso Jesus afirma que o reino do céu é deles! Deus é o rei dos pobres (poeticamente, R. Tagore afirma que “Deus cada vez mais se cansa dos grandes reinos, porém jamais das pequeninas flores”) e com eles formará o novo povo; sendo pobres, saberão concretizar o Reino na partilha e solidariedade (cf. 14,13 - 23; 15,32-39). O Reino é deles porque, vivendo assim, realizam o pedido de Jesus (cf. 4,17: “Convertam-se, porque o reino do céu está próximo”). A melhor definição dos “pobres em espírito” que descobri é a que foi apresentada por uma mulher do povo: “O pobre em espírito é como o peixe no mar: tem toda a água à sua disposição, mas não a guarda para si; deixa-a para todos os peixes”.
A sociedade estabelecida, ambiciosa de poder, glória e riqueza (cf. 4,9), não suporta uma sociedade alternativa que se forma com base na partilha e comunhão dos bens. Não suportando os pobres que aprenderam a partilha e a promovem como forma de realizar o Reino, persegue-os, procurando eliminá-los (v. 10). Ser perseguido por causa disso constitui desgraça? Não. Para Jesus, e na ótica do Reino, é sinônimo de felicidade, pois a perseguição da sociedade estabelecida mostra que o caminho dos pobres que lutam pela justiça é autêntico: deles é o reino do céu! Contudo, é bom lembrar que não se trata de perseguição por qualquer motivo, mas por causa da justiça do Reino, e esta se traduz na solidariedade, igualdade e fraternidade. Aliás, a justiça é a chave que abre todas as portas do Evangelho de Mateus. Temos, assim, um critério claro para discernir se alguém é ou não pobre em espírito: basta examinar seu compromisso com a justiça do Reino e ver se está sendo, de alguma forma, perseguido por causa dela.
b. A situação dos pobres que buscam a libertação (vv. 4-6)
Os vv. 4-6 descrevem a situação dos pobres que buscam a libertação. Eles são afligidos. Essa bem-aventurança se inspira no Antigo Testamento (cf. Is. 61,1). Lá, os aflitos são pessoas cativas e aprisionadas, vítimas de sociedade cruel e opressora. Afirmando que os aflitos serão consolados, Jesus lhes garante que o Reino tem força e capacidade de libertá-los das opressões a que foram submetidos. E por isso são felizes! Concretamente, nos capítulos 8-9, Mateus mostra como e quando isso acontece: a cura do leproso, do servo do centurião etc.
Os mansos são os que foram subjugados pelos poderosos. Também essa bem-aventurança se inspira no Antigo Testamento, exatamente no Sl. 37,10-11. Afirma-se aí que “mais um pouco e não haverá mais injusto; você buscará o lugar deles, e não existirá. Mas os pobres vão possuir a terra e deleitar-se com paz abundante”. Portanto, os mansos são os que foram “amansados” pelo poder tirano, que os privou da terra, impossibilitando-os até de reivindicar seus direitos (o estudioso Alonso Schökel traduzia “mansos” por “despossuídos”). Olhando para a promessa que lhes é feita, é possível identificá-los com os sem-terra do tempo de Jesus, das comunidades de Mateus e de todos os tempos. Fazendo parte do Reino, eles possuirão a terra (com artigo!), isto é, não só receberão de volta seus terrenos roubados pelos poderosos latifundiários, mas serão senhores do mundo, porque a partilha fará com que os bens da criação sejam de todos. Lida à luz de nossa realidade, essa bem-aventurança soa mais ou menos assim: “Felizes os sem-terra que lutam pela justiça, porque a realeza de Deus sobre eles lhes garante que a terra é de todos”.
Jesus proclama a felicidade dos que lutam pela justiça, dos que dela sentem necessidade como alimento vital e diário (ter fome e sede), porque na utopia do Reino não há um sinal sequer de injustiça.
c. Opções e práxis dos pobres: construir a nova sociedade (vv. 7-9)
Os pobres, que entraram na dinâmica do Reino, são misericordiosos, isto é, solidários. Partilha e comunhão impedem que alguém retenha qualquer coisa para si. Nesse clima de solidariedade, ninguém passa necessidade. Quem dá recebe, não só das pessoas, mas do próprio Deus, que entregou o Reino nas mãos dos que aprenderam a repartir. É a primeira opção dos que entraram na dinâmica do Reino: pôr tudo em comum. E por isso são felizes!
A segunda opção é a pureza de coração. Para os semitas, coração é a sede das opções profundas que marcam a vida inteira. Para eles, pensa-se com o coração (Mt. 15,19 mostra que do coração das pessoas nasce toda espécie de opção que contrasta com o projeto de Deus). Ser puro de coração é ter conduta única, em perfeita sintonia com o Reino. Essa bem-aventurança se inspira no Sl 24,4, em que pureza de coração está associada a “mãos inocentes”. Mãos inocentes são resultado de um “coração puro”: sem violência, sem corrupção, sem exploração etc. Os pobres do Reino são puros de coração porque não se apropriam da vida do próximo, como os poderosos. Sua conduta é íntegra. São felizes porque, agindo assim, veem a Deus, ou seja, experimentam-no concretamente na vida. Deus está presente em todo clamor ou sinal de vida. Quem possui essa “pureza de coração” o vê e o encontra a cada passo.
No Antigo Testamento, a pureza dependia de uma série de ritos mediante os quais as pessoas tinham acesso a Deus, que se manifestava no Templo. Na nova aliança – e na linha do Sl 24 – pureza é sinônimo de opção pela justiça do Reino e respeito pela integridade das pessoas. Deus não se manifesta mais no Templo (quando Mateus escreve o evangelho, o templo de Jerusalém já não existe). As pessoas o experimentam de forma direta no dia a dia e no relacionamento fraterno. Essa opção gera felicidade: felizes os puros de coração!
Jesus proclama felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. A promoção da paz (shalom = plenitude dos bens) é fruto da solidariedade e pureza de coração. Paz é bem-estar que exclui toda injustiça, opressão e violação de direitos. Não se trata de paz em nível pessoal, mas sobretudo em nível social. Na dinâmica do Reino, uma pessoa só é verdadeiramente feliz quando todas o são. A luta pelo bem-estar de todos, como o requer o projeto divino, torna os seres humanos filhos de Deus. Há, portanto, estreita colaboração entre o Criador e as criaturas. O que o Pai faz, os filhos também fazem. Os pobres que optaram pelo Reino são capazes dessa práxis. Jesus garante que disso depende a felicidade deles!
d. A comunidade cristã em meio aos conflitos (vv. 11-12a)
A última bem-aventurança (vv. 11-12) revela as tensões e conflitos enfrentados pelas comunidades migrantes na Síria, no meio das quais nasceu o Evangelho de Mateus. No tempo em que o evangelho foi escrito, essas comunidades passavam por crise de identidade, com perigo de abandono do projeto de Deus. Os conflitos vinham do império romano e do judaísmo oficial, representado pelos doutores da Lei e fariseus: a sociedade estabelecida começou a difamar os cristãos, caluniando-os e perseguindo-os. Tornava-se difícil resistir diante das pressões e tribulações de toda espécie. O evangelho lhes lembra que ser discípulo de Jesus é ser como os profetas do Antigo Testamento: “Desse modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês” (v. 12b).
2º leitura (1Jo 3,1-3)
A esperança que anima e purifica
A primeira carta de João foi “dirigida às comunidades cristãs da Ásia Menor, que passavam por séria crise, provocada por um grupo de dissidentes carismáticos. Estes propunham uma doutrina gnóstica, que afirmava que o homem se salva graças a um conhecimento religioso especial e pessoal. Eles negavam que Jesus era o Messias e se gloriavam de conhecer a Deus, de amá-lo e de estar em íntima comunhão com ele; afirmavam ser iluminados, livres do pecado e da baixeza do mundo: não davam importância ao amor ao próximo e talvez até odiassem e hostilizassem a comunidade… A carta mostra que é vazio e sem valor qualquer espiritualismo que não se traduz em comportamento prático. Não é possível amar a Deus sem amar o próximo e sem formar comunidade: se Deus é Pai, os homens são filhos e família de Deus, e consequentemente todos devem amar-se como irmãos” (Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, Paulus, São Paulo, p. 1.578).
Os versículos escolhidos como segunda leitura deste domingo pertencem a uma seção que vai de 2,29 a 4,6, cujo tema é viver como filhos de Deus. Como realizar isso? Os dissidentes carismáticos afirmavam que era mediante um conhecimento religioso especial e pessoal. O autor da carta prova o contrário: viver como filhos de Deus implica a prática da justiça: “todo aquele que pratica a justiça nasceu de Deus” (2,29). A prática da justiça mostra que Deus é justo e nos torna seus filhos. Portanto, ser filho de Deus é estar em sintonia com o projeto do Pai (cf. evangelho: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”).
O texto salienta que o amor do Pai é a grande força que sustenta a caminhada da comunidade cristã, apoiando e encorajando a luta pela implantação do projeto de Deus. O conflito está bem presente no texto. João o exprime, empregando a expressão “o mundo” (os que não aderiram ao projeto de Deus): o “mundo”, descompromissado com a vontade divina, não reconhece, isto é, hostiliza, calunia, difama e persegue os que desejam implantar na terra a justiça (cf. 3,1). Os cristãos, porém, têm condições de superar as dificuldades e conflitos da caminhada. Sua força está em serem filhos de Deus. Por ora não é possível ver claro o que vamos ser, porque a manifestação de Cristo ainda não é plena. Mas, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque nós o veremos como ele é (3,2).
Enquanto não chega a plena manifestação, cabe à comunidade cristã, na esperança, lutar para ser pura como Jesus é puro (v. 3). Em outras palavras, faz-se necessário resistir e implantar a justiça, de modo que nossa prática traduza as palavras e gestos de Jesus. Ser filhos de Deus, portanto, é ser filhos no Filho, que mostrou ao mundo a justiça do Pai. Essa é a esperança que anima e purifica.
1º leitura (Ap. 7,2-4.9-14)
A vitória dos oprimidos
O capítulo 7 do Apocalipse funciona como uma espécie de pausa para reflexão dentro da “seção dos selos” (6,1-7,17). A seção se caracteriza pela abertura progressiva, por parte do Cordeiro, dos sete selos. Os primeiros quatro (6,1-8) nos apresentam crua fotografia da humanidade arrastada pela ganância, pela violência, pela exploração e pela morte. Diante dessa situação desastrosa, abre-se o quinto selo (vv. 9-12). O clamor dos mártires provoca a reversão dos fatos e a intervenção de Deus e do Cordeiro, pois chegou o grande dia de sua ira: quem poderá ficar de pé? (sexto selo). O capítulo 6 termina com grande expectativa. Quem poderá ser considerado inocente (é este o sentido dessa expressão) diante da intervenção do Deus que julga a humanidade?
O capítulo 7, ao qual pertencem os versículos da leitura de hoje, procura responder a essa expectativa em dois momentos sucessivos. Num primeiro momento, abre-se uma janela em direção ao passado (vv. 4-8). O autor do Apocalipse se inspira no recenseamento dos hebreus saídos do Egito (Nm. 1,20-43) para mostrar que Deus preserva do julgamento (os Anjos que seguram os quatro ventos, 7,1) os que lhe são fiéis (chamados de servos, ou seja, profetas) e os salva (o sinal que os eleitos recebem na fronte é sinônimo de salvação, v. 3; cf. Ez 9,4). Segue-se, então, o recenseamento dos eleitos: 144 mil. O autor, utilizando o simbolismo dos números, mostra que os que lutam e resistem são muitos e formam uma totalidade perfeita (144 mil é o resultado da multiplicação de números perfeitos: 12 x 12 x 1000).
A segunda janela se abre para o presente/futuro da comunidade cristã (vv. 9-17). Se, no passado, Israel foi salvo da escravidão egípcia, com maior razão agora o Cordeiro salvará, conduzirá os que permanecem fiéis, enxugando-lhes as lágrimas (enxugar as lágrimas é sinônimo de “fazer justiça”). Por isso o autor vê uma multidão que ninguém podia contar: gente de todas as nações, tribos, povos e línguas (isto é, do mundo inteiro, v. 9a). É aqui que se responde à pergunta angustiante com que se encerrava o capítulo 6: “Estavam todos de pé diante do trono e do Cordeiro” (v. 9b). E não só podem ficar de pé (isto é, são declarados inocentes), como também participam da própria vida divina: vestem-se de branco (cor que, no Apocalipse, remete à vitória de Cristo sobre a morte) e são vitoriosos (trazem palmas na mão, v. 9c). Essa multidão reconhece que a salvação vem de Deus e do Cordeiro (v. 10) e sua aclamação é seguida pela dos Anjos, Anciãos e Seres vivos, que tributam a Deus tudo o que lhe é devido (v. 12).
A comunidade cristã, na escuta do texto do Apocalipse, em clima de celebração e discernimento, é convidada, na pessoa do autor, a identificar quem são os que estão vestidos de branco e de onde vieram (v. 13). Diante da incapacidade em desvendar o mistério (v. 14a), um dos vinte e quatro Anciãos dá a chave de leitura: “São os que vêm chegando da grande tribulação. Eles lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro” (v. 14b). A partir disso, a comunidade cristã está em condições de descobrir, no meio dessa imensa multidão, seus mártires e santos, que resistiram até o sangue. A memória deles anima a difícil caminhada dos que agora estão lutando para implantar o projeto de Deus na história.
O Apocalipse foi escrito para animar comunidades perseguidas até a morte pela opressão e repressão do império romano. A vitória do Cristo sobre as forças do mal e a memória dos mártires das comunidades devolveram aos cristãos a força própria de sua vocação: a capacidade de denunciar e resistir a todo poder absolutizado que oprime e mata. Os mártires são vitoriosos e estão com Cristo: cabe a nós resistir e lutar.
Pistas para reflexão
A festa de Todos os Santos é momento oportuno para uma revisão da caminhada da comunidade. Olhando para os que nos precederam, santos e mártires, a comunidade é convidada a se questionar sobre seu caminho de santidade. Somos filhos de Deus. Nossa filiação, porém, se traduz na prática da justiça (II leitura). A prática da justiça se traduz na vivência das bem-aventuranças (evangelho). Ao tentar vivê-las, os cristãos deparam com conflitos, calúnias, perseguições e morte patrocinados pela sociedade estabelecida que não aderiu ao projeto de Deus. O que isso significa para nós: desgraça ou felicidade? A memória dos mártires da caminhada é esperança e conforto: Jesus tem a última palavra sobre os conflitos e as forças do mal. Urge à comunidade denunciar e resistir em meio às tribulações (I leitura). Não há outro caminho de santidade!





Santidade: o jeito humano de ser
Nascemos de Deus. Fomos criados à sua imagem e semelhança. Deus é bom. Deus é santo. Podemos ser bons e santos, realizando a vontade de Deus. Nosso modelo é Jesus Cristo: ele nos ensinou o caminho. Na proclamação das bem-aventuranças, Jesus indica como viver na santidade: com pobreza, mansidão, justiça, misericórdia, pureza de coração e empenho pela paz (Evangelho). Desde as primeiras comunidades cristãs, temos o exemplo de uma multidão incontável de mulheres e homens que seguiram radicalmente a Jesus Cristo. Muitos foram cruelmente perseguidos e martirizados por causa de sua fidelidade ao evangelho (I leitura). Somos filhos e filhas de Deus. Por isso, o nosso jeito de ser deve estar de acordo com a dignidade conferida pela filiação divina. Podemos viver no mesmo amor com que o Pai nos ama, de modo perseverante, até a plenitude (II leitura). O tempo transitório em que estamos neste mundo é a oportunidade de manifestar a glória de Deus por meio de uma vida santa.
Evangelho (Mt. 5,1-12a)
Quem são os bem-aventurados?
A proclamação das bem-aventuranças, no Evangelho de Mateus, dá a abertura ao “Sermão da Montanha”, no qual Jesus apresenta a nova justiça. Segundo o ensinamento oficial do judaísmo no tempo de Jesus, a justiça baseava-se no cumprimento da Lei. Mateus, que escreve para os cristãos provindos do judaísmo, indica novo caminho: a justiça agora é praticar os ensinamentos de Jesus.
Assim como a lei antiga veio por meio de Moisés no monte Sinai, a nova lei vem por meio de Jesus. Assim como se deu com Moisés, a nova justiça é proclamada por Jesus sobre uma montanha, para os judeus lugar de manifestação da vontade divina. A posição de Jesus (sentado) revela que possui a autoridade de um mestre, conforme o costume entre os rabinos judaicos. É um discurso solene, de importância especial para as comunidades cristãs.
O primeiro aspecto a ser ressaltado é o olhar de Jesus sobre a multidão. É de dentro dela que Jesus vai tirar os princípios que devem orientar os seus seguidores. Não é por acaso que os discípulos se aproximam de Jesus. O sermão dirige-se prioritariamente a eles. As lições são tiradas da Sagrada Escritura e, especialmente, da vida das pessoas do povo. Nela, Jesus encontra os valores que fundamentam o seu evangelho, a boa notícia de vida para todos.
A multidão que segue a Jesus é formada de pobres em espírito. Trata-se de pessoas vítimas do sistema dos poderosos, vergadas sob o peso do legalismo religioso e da opressão política e econômica. São pessoas indefesas que vivem da esperança de dias melhores. A essa gente Jesus vem trazer a libertação. O horizonte é o reino de Deus, onde não haverá exclusão. Os pobres são os protagonistas do reino. Jesus conta com eles, pois clamam por mudança social e, por isso, se mostram abertos à nova proposta.
São pessoas mansas que rejeitam a violência como caminho de solução de seus problemas; possuem a consciência de sua pequenez e confiam na bondade e grandeza de Deus, superando a amargura e o desejo de vingança. Como os oprimidos na origem de Israel, anseiam por uma terra de liberdade e de vida digna.
São pessoas aflitas devido à penúria e à instabilidade em que vivem; choram marcadas pelo tratamento desumano, pelo abandono social, pelas dívidas, doenças, acusações injustas... São pessoas que têm fome e sede de justiça, pois sentem na pele os efeitos de uma sociedade baseada no poder do mais forte. A fome e a sede eram uma realidade cotidiana da maioria das pessoas que seguiam a Jesus em suas jornadas missionárias e também das que pertenciam às comunidades cristãs primitivas.
São pessoas que, apesar de oprimidas, são misericordiosas. Elas se mantêm abertas e acolhedoras; amam incondicionalmente, reconhecem-se pecadoras e esperam a salvação que vem de Deus... São pessoas puras de coração: mesmo excluídas do sistema religioso oficial por serem consideradas impuras (doentes, estrangeiras, pecadoras...), não se deixam contaminar pelos interesses dos dominantes, mas cultivam a confiança em Deus e buscam viver na transparência e na autenticidade.
São pessoas que promovem a paz num contexto de conflitos e guerras. Não são “pacíficas” no sentido de evitarem envolver-se em questões sociais conflituosas, mas são militantes por um mundo de paz. Suas atitudes são marcadas pela “não violência ativa”, desdobramento do amor que caracteriza os filhos e filhas de Deus... São pessoas, enfim, perseguidas por causa da justiça, que sofrem as consequências de ser fiéis à proposta do reino de Deus.
As bem-aventuranças não são expressão de pena ou de consolo oportunista para as pessoas sofredoras; pelo contrário, são a convocação de Jesus para o compromisso dos pobres em vista de sua libertação. Elas sintetizam o caminho de santidade que pode ser seguido por todas as pessoas de boa vontade.
1ª leitura (Ap. 7,2-4.9-14)
Uma multidão de santos
O Apocalipse foi escrito para encorajar as comunidades cristãs a perseverar no meio de grande sofrimento. O texto deste domingo reflete o testemunho dado por uma multidão de cristãos diante da violenta perseguição desencadeada pelo imperador Nero ao redor do ano 65. A visão é um recurso próprio do gênero apocalíptico para revelar o que os olhos da fé captam por trás dos acontecimentos.
As comunidades perseguidas, mergulhadas em profunda dor, gritam por justiça. Deus intervém a seu favor. Os anjos são seus justiceiros. Devem, no entanto, respeitar todos os que são assinalados. A cena lembra a saída do povo do Egito, quando as casas dos escravos hebreus foram marcadas com o sangue do cordeiro para serem protegidas da vingança divina.
As 144 mil pessoas assinaladas (12 x 12 x 1.000) representam a totalidade dos servos e servas de Deus, tanto da primeira aliança como da segunda. São todas as que não se contaminam com a ideologia dos poderosos. São as que permanecem fiéis ao plano de Deus a ponto de entregar a própria vida, como fez Jesus, o Cordeiro imolado. Esse é o sentido das vestes brancas.
Deus é o protetor e salvador dos pequeninos, dos indefesos e dos perseguidos por causa da justiça. São milhares de “todas as nações, tribos, povos e línguas”. Pertencem a todas as tradições religiosas. Com coragem e perseverança, seguem o caminho do bem e lutam por um mundo de fraternidade. Nós, cristãos, recebemos a marca do batismo, que nos torna servos e servas de Deus. Somos convocados a perseverar no seguimento de Jesus; somos chamados a ser santos, vivendo e anunciando os valores evangélicos da misericórdia, da mansidão, da justiça, da paz...
2ª leitura (1Jo 3,1-3)
Somos filhos e filhas de Deus
O amor de Deus não tem limites. Ele fez de nós participantes de sua própria natureza divina. Somos seus filhos e filhas já neste tempo transitório e o seremos plenamente na ressurreição. Essa verdade tão bela nos enche de dignidade e nos impulsiona a viver de acordo com a vocação divina.
O jeito divino de viver não se conforma com os sistemas baseados no domínio de uns sobre os outros e sobre a criação. Como fez Jesus, os cristãos devem posicionar-se de forma clara a favor de uma sociedade onde reine o amor fraterno, pois “quem diz que ama a Deus e odeia o seu irmão é um mentiroso” (1Jo 4,20).
As pessoas que vivem de modo coerente com o evangelho se confrontam com os interesses egoístas dos que dominam este mundo. Jesus preveniu seus discípulos de que seriam perseguidos, presos e até mortos. Os que sofrem por causa da fidelidade aos valores evangélicos fazem parte dos bem-aventurados...
Pistas para reflexão
- As bem-aventuranças indicam o caminho da santidade. Ser santo não significa ser uma pessoa fora do comum. Jesus viveu como uma pessoa normal junto à sua família, comunidade e sociedade. Praticou a vontade do Pai nas pequenas coisas e aprendeu, junto com o seu povo e meditando a Sagrada Escritura, a reconhecer os valores que caracterizam uma vida de santidade. Nas bem-aventuranças, ele sintetiza esses valores, encorajando as pessoas simples e pequeninas a se empenhar por um mundo novo, o reino de Deus. Hoje, de que maneira podemos viver as bem-aventuranças? Quais são os valores a que não podemos renunciar como seguidores de Jesus? Quem são os bem-aventurados na família, na comunidade, na política...?
- Somos marcados com o sinal de Deus. As comunidades cristãs primitivas enfrentaram situações de grande crise por causa das perseguições. Muitas pessoas foram martirizadas. Por meio dos encontros comunitários, pelas orações e pela reflexão sobre a palavra de Deus, elas encontraram sabedoria e coragem para superar o medo e confiar na proteção divina. Sentiam-se marcadas pelo amor misericordioso de Deus. Hoje, como enfrentamos os sofrimentos e as crises? Quais meios nos fazem crescer na fé em Deus e perseverar no caminho do bem? Temos a marca divina em nós pelo batismo: o que isso significa na prática? Podemos lembrar o testemunho de alguns mártires e santos...
- Somos filhos e filhas de Deus! Somos de natureza divina, nascidos do amor gratuito de Deus. Podemos cultivar, de forma sempre renovada, o jeito divino de ser, que é igual ao jeito verdadeiramente humano: honestidade, respeito mútuo, diálogo, carinho, atenção a quem sofre, acolhida, perdão, cuidado com a natureza...
Celso Loraschi




Dos que acendem em nós o desejo de Deus
São incontáveis aqueles e aquelas que, terminados os dias de sua peregrinação terrestre, foram levados à mansão da paz e da contemplação da face do Altíssimo. Nós os chamados de santos, de bem-aventurados.  Não ocupam um lugar geográfico, mas vivem em Deus no que se convencionou chamar de eternidade. Comprazem-se eternamente em viver diante  daquele que é santo, três vezes santo.  Os santos, santificados pelo Santo.
São Bernardo se pergunta: “Para que louvar os santos, para que glorificá-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes importam as honras terrenas, a eles que, segundo as promessas do Filho, o mesmo Pai celeste glorifica De que lhes servem nossos elogios?   Os santos não precisam de nossas homenagens, nem lhes vale nossa devoção.  Se veneramos os Santos, sem dúvida alguma, o interesse é nosso, não deles. Eu por mim, confesso, ao recordar-me deles, sinto acender-se um desejo veemente”.
Hebreus: “Vós vos aproximastes do monte Sião e da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste; da reunião festiva de milhões de anjos; da assembléia dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus; de Deus, o  Juiz de todos;  dos espíritos dos juntos, que chegaram à perfeição; de Jesus, o mediador da nova aliança, e da aspersão do sangue  mais eloqüente do que o de Abel” (Hb. 12,22-24).
Eles são homens e mulheres, religiosos e papas, solteiros e viúvos, jovens e idosos, de todas as raças e de todos os cantos da terra. Todos lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro. Revelaram um coração sem pretensões de serem donos da face da terra. Andaram sempre se dobrando sobre a miséria dos outros. Cheios de sede, de fome das coisas do alto. Espalharam aqui e ali o perfume da paz. Foram artesãos de um mundo de fraternidade.
O prefacio da solenidade: Festejamos hoje a cidade de Deus, a Jerusalém do alto, nossa mãe, onde nossos irmãos os santos vos cercam e cantam eternamente o vosso louvor.  Para essa cidade caminhamos pressurosos, peregrinando na penumbra da fé. Contemplamos alegres, na vossa luz,todos os membros da Igreja que nos dais como exemplo e intercessão.
Terminando com Bernardo: “Com inteira segurança e ambição cobicemos esta glória. Contudo, para que nos seja licito esperá-la e aspirar a tão grande felicidade, cumpre-nos desejar com muito empenho, a intercessão dos santos. Assim aquilo que não podemos obter por nós mesmos, seja-nos dado por sua intercessão”.
Com efeito, a solenidade dos santos todos que moram na casa de Deus faz nascer dentro de nós o desejo daquele que nosso coração anda catando com imenso ardor. A solenidade dos santos faz nascer em nós o desejo da santidade.


Os santos nos esperam na glória
Mais uma vez estamos diante da multidão dos santos e santas de Deus, aqueles e aquelas que lavaram suas vestes no sangue do cordeiro, os filhos adotivos de Deus que, na glória, aparecem em toda sua nobreza e magnificência, ao lado do Cristo, os pobres, mansos e aqueles que sofreram tribulação por causa do Amado.
São Bernardo de Claraval vai nos ajudar a refletir sobre o tema dos santos: para que louvar os santos, para que glorifica-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes importam as honras terrenas, a eles que, segundo a promessa do Filho, o mesmo Pai celeste glorifica?  De que lhes servem os nossos elogios? Os santos não precisam de nossas homenagens, nem lhes vale a nossa devoção. Se veneramos os santos, sem dúvida nenhuma, o interesse é nosso, não deles.  Eu, por mim, confesso, ao recordar-me deles, sinto acender-se um desejo veemente.
Em primeiro lugar, o desejo que sua lembrança mais estimula e incita é o de gozarmos de sua tão amável companhia e de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem-aventurados, de unir-nos ao grupo dos patriarcas, às fileiras dos profetas, ao senado dos apóstolos, ao numeroso exército dos mártires, ao grêmio dos confessores, aos coros das virgens, de associar-nos, enfim, à comunhão de todos os santos e com todos nos alegrarmos. A assembléia dos primogênitos  aguarda-nos e nós parecemos indiferentes! Os santos desejam-nos e não fazemos caso; os justos esperam-nos e nos esquivamos.
Animemo-nos, enfim, irmãos. Ressuscitemos com Cristo. Busquemos  as realidades celestes. Tenhamos gosto pelas coisas do alto.  Desejemos aqueles que nos desejam. Apressemo-nos ao encontro dos que nos aguardam. Antecipemo-nos pelos votos do coração  aos que nos esperam. Seja-nos um incentivo não só a companhia dos santos, mas também a sua felicidade. Cobicemos com fervoroso empenho também a glória daqueles cuja presença desejamos. Não é má esta ambição nem de nenhum modo é perigosa a paixão pela glória deles.
O segundo desejo que brota em nós pela comemoração dos santos  consiste em que Cristo, nossa vida, tal como eles, também apareça a nós e nós juntamente com ele apareçamos na glória. Enquanto isso não sucede nossa Cabeça, não como é, mas como se fez por nós, se nos apresenta. Isto é, não coroada de glória, mas com os espinhos de nossos pecados. É uma vergonha fazer-se membro regalado, sob uma cabeça coroada de espinhos.  Por enquanto a púrpura não lhe é sinal de honra, mas de zombaria. Será sinal de honra quando Cristo  vier e não mais se proclamará sua morte, e saberemos que nós estamos mortos com ele, e com ele escondida nossa vida. Aparecerá a Cabeça gloriosa e com ela refulgirão os membros glorificados quando transformar nosso corpo humilhado, configurando-o à glória da Cabeça que é ele mesmo.
Com inteira e segura ambição cobicemos esta glória. Contudo para que nos seja lícito espera-la e aspirar a tão grande felicidade, cumpre-nos desejar com muito empenho a intercessão dos santos. Assim, aquilo que não podemos obter por nós mesmos, seja-nos dado por sua intercessão. Liturgia das Horas IV, p. 1421-1422


Quem são esses todos vestidos com roupas brancas?
Novembro, mês dos finados e tempo de pensar nos santos da glória. Desde a nossa mais tenra infância quando chegava novembro os jardins e parques ficavam cheios de agapantos azuis e brancos. Finados e todos os santos: duas comemorações entrelaças enfeitadas pelos esguios agapantos.
Quando se fala em santos lembramo-nos da imagens de gesso ou de madeira representando Antônio de Pádua, Rita de Cássia ou Teresa de Lisieux. Quando crianças gostávamos de contemplar todas essas imagens e também suas representações nos vitrais. As imagens nos lembram que muitos de nossos irmãos na fé estão hoje na glória dos céus. Eles nos precedem. À frente desse cortejo está uma mulher que foi santificada desde o momento de seu nascimento chamada Maria, aquela que deveria trazer em seio o Santo. Ela é a rainha dos santos e anjos e Senhora da Glória.
Os cristãos são santificados pela sua participação na paixão, morte e ressurreição do Senhor. O santo não é um “halterofilista”  da fé. O cristão é alguém que se tornou santo nas águas do batismo e que foi fazendo lugar em si para a ação do amor de Deus. Os santos, com efeito, são obras de arte do amor de Deus. Na medida em que pessoas e comunidades esvaziam-se de si, não se colocam com centro de tudo mas se abrem a Deus, começa a obra de arte que as mãos do Senhor executa. A santidade é dom de Deus  acolhido pelos corações pobres, por aqueles que são sedentos de Deus, desejosos de Deus, aqueles que choram por não corresponderem ainda ao amor de Deus, que são mansos e misericordiosos, que sofrem perseguição por causa de seu testemunho de vida.
Há esses santos que se retiraram das cidades e viveram  no deserto e na contemplação. Outros se casaram. Procuraram  colocar-se como marido e mulher diante de Deus, acolhendo os filhos, trabalhando, lutando, na fidelidade de todos os momentos, carregando as cruzes inerentes à vida. Há essas mães de moços que morreram na guerra e de filhos e filhas que  terminam os dias com overdose de drogas. Mães que sofreram baixinho e que souberam unir seus sofrimentos à paixão e morte de Cristo. Há esses que deram a vida por um inocente e outros que morreram para não negar a fé. Há esses bispos que assumiram efetivamente a missão de serem pastores e guias do povo, noite e dia, sempre. Há essas pessoas que a vida toda cuidaram de uma capela, na simplicidade e na fidelidade. Há esses homens de mãos rudes que não foram acolhidos de coração por suas esposas, que eram tratados de imprestáveis. Há essas pessoas que foram para as praças do mundo, na Bahia ou em Calcutá para cuidar dos mais abandonados.
Hoje comemoramos esses e essas que passaram pelo mundo com os olhos na Beleza, na Bondade e no Amor. Gente de carne e osso, com seu entusiasmo, mas também com seu pecado. Gente que precisou cantar dolentemente o Miserere como Agostinho de Hipona ou Margarida de Cortona. Pessoas que foram lavadas no sangue do Cordeiro e que hoje participam do banquete da eternidade, que alvejaram suas vestes  no sangue do Cordeiro.
frei Almir Ribeiro Guimarães




Somos santos já, na medida em que pertencemos a Deus no presente
A festa de todos os santos abrange os três momentos do tempo, além da dimensão universal do espaço. De fato, celebramos os justos do passado, celebramos a vocação à santidade futura (o “céu”), e celebramos a santidade como dom (graça) presente. Como esta dimensão presente é a em que menos se pensa quando se fala de santidade, achamos que ela merece uma atenção especial: é a mensagem das Bem-Aventuranças, no evangelho de hoje (Mt. 5,1-12) As Bem-Aventuranças devem ser entendidas como uma proclamação da chegada do Reino de Deus para as pessoas que vão ficar felizes com isso (Lc. 6,24-26 acrescenta também aqueles que vão ficar infelizes...).
São, ao mesmo tempo, a proclamação da amizade de Deus para aqueles que participam do espírito que é evocado por oito exemplificações, e (sobretudo na versão de Mateus) um programa de vida para todos os que escutam a palavra do Cristo.
Este programa de vida já entra em ação desde que alguém se torna discípulo de Jesus: os que estão realizando este programa já são “santos”. Por isso, este evangelho foi escolhido para a festa de hoje. Jesus proclama a bem-aventurança (a felicidade, o “bom encaminhamento”, a “boa ventura”) dos “pobres no espírito” (= semitismo: os diminuídos até no alento da vida; não se trata da questionável “pobreza espiritual”), porque deles é o Reino dos Céus, ele não quer dizer o além da morte - uma recompensa futura pela carência na terra - mas a realidade presente. “Reino dos Céus” é maneira semítica de dizer “Reino de Deus” (por respeito, Deus é chamado “os Céus”). E o Reino de Deus começa onde se faz a vontade de Deus, como aprendemos do Pai-nosso, que Jesus ensina em seguida (Mt. 6,9-13). Se entendêssemos as Bem-Aventuranças somente como uma compensação para depois da morte, elas seriam “ópio do povo”. Mas o contrário é verdade: elas são um incentivo para realizar, desde já, o novo espírito, que traz presente o Reino. O sentido das Bem-Aventuranças é, exatamente, relacionar o dom escatológico (expresso nos termos: “serão consolados, serão saciados” etc.) com a realidade de hoje. O dom escatológico não cai do céu, mediante a atuação de algum mágico, mas é o que, da parte de Deus, corresponde à atitude do justo, do servo, do “pobre do Senhor”. Corresponde à atitude de não procurar a mera afirmação pessoal no poder e na riqueza, mas de dispor-se inteiramente para a obra de Deus, pelo esvaziamento, a mansidão, a paciência no sofrer, a sede de justiça divina, o empenho pela paz... Em outros termos, somos santos já, na medida em que pertencemos a Deus no presente. Então, também o futuro de Deus nos pertence.
A mesma mensagem proclama a 2ª leitura (1Jo 3): nossa atual santidade, por sermos filhos de Deus, embora ainda não seja manifesto “o que seremos” (= a nossa glorificação). Portanto, quem é celebrado hoje é, em primeiro lugar, os “filhos de Deus” neste mundo.
A isto se une a visão antecipada do autor do Apocalipse sobre a plenitude dos que aderiram a Cristo, seguiram o Cordeiro (1ª leitura). É o número perfeito das tribos (12 x 12.000), os eleitos de Israel (o autor é judeu-cristão), mas também um número inumerável de todas as nações (universalismo – mas ainda assim há quem ensine que no céu só tem 144.000 lugares....)
Ora, tanto na mensagem das Bem-Aventuranças quanto na visão do Apocalipse ganham um destaque especial os mártires, os que são perseguidos por causa do evangelho, os que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro e vêm da grande tribulação. Testemunhar de Cristo com seu sangue é a marca mais segura da santidade. Mas, com ou sem sangue, todos deverão fazer de sua vida um pertencer a Cristo, para que possam ser chamados “santos”, isto é, consagrados a Deus.
As orações insistem muito na intercessão dos santos. É um aspecto deste dia, que atinge muito a sensibilidade popular. É preciso fazer aqui um delicado trabalho de interpretação. Confiar em alguém como intercessor supõe sentir-se solidário (familiar) com ele. Será que vivemos como familiares destes intercessores? Será que cabemos na sua companhia?
padre Johan Konings "Liturgia dominical"




Anseio por um mundo novo
Estamos, hoje, celebrando a Solenidade de Todos os Santos e Santas de Deus. Neste dia, somos convidados a louvarmos a Deus por tudo o que realizou na vida destes homens e mulheres que, com suas vidas, anunciaram e vivenciaram a verdadeira felicidade, outrora também anunciada pelo próprio Cristo. No Evangelho de hoje, Jesus, do alto de uma montanha, nos comunica, em alto e bom tom, quem são, de fato, pessoas felizes. Por isso, nos diz que a verdadeira felicidade não se encontra com os quais a sociedade proclama como felizes. Por isso: “Felizes os ricos!”, “felizes os que possuem muitos bens!”, “felizes os que podem comprar e ter sempre mais!”.
Essa felicidade proclamada pela sociedade não nos leva a uma vida realizada e plena. É por isso que, diante dessa realidade que nos convida a possuir, a ter, a conter tudo e todos para sermos felizes, Jesus nos diz que precisamos apenas sermos pobres e humildes, mansos, pacíficos, limpos de coração, consoladores, famintos e sedentos de justiça… Nisto consiste a felicidade: no ser! Os santos e santas que hoje celebramos, foram pessoas que souberam, frente à sociedade de seu tempo, responder com o Evangelho. Por isso, não queriam possuir, mas se desfizeram de tudo o que era terreno, a fim de abraçar o que era Celeste. Foi assim que se tornaram pessoas felizes, e também fizeram e tornaram a outros felizes. Peçamos a Deus a graça de vivermos esses valores simples, mas transformadores, que as bem-aventuranças nos apontam.
Oxalá, agraciados, sejamos verdadeiramente homens e mulheres testemunhas da felicidade perene!
Noviços franciscanos




Este Evangelho, conhecido como sermão da Montanha, é descrito por Mateus logo no início de sua narrativa da vida terrena de Cristo, onde Jesus já batizado por João Batista, anda pela Galiléia, pregando a boa nova, proclamando a chegada do Reino de Deus e convidando os homens de fé a segui-Lo. Jesus, vendo a multidão que vinha de todos os lugares, sobe à montanha, que simbolicamente é um lugar próximo de Deus e de encontro com Ele.
A montanha simboliza, também, o monte Sinai, onde foi selada a Aliança com o povo hebreu que saiu da escravidão do Egito, e foi onde Moisés recebeu as tábuas da Lei (o Decálogo), a constituição do povo de Deus.
Agora, portanto, Jesus quer apresentar uma nova lei para o povo de Deus. Ele vai fazer uma Nova Aliança com os pobres e marginalizados do mundo todo, revelando que Deus deposita neles uma confiança ilimitada a ponto de confiar-lhes o Seu Reino, solidarizando-se com eles.
Deus falava as seu povo através de Moisés, e aqui Ele fala através do Mestre na montanha, por meio de Jesus que sentado, ensina como o Senhor, Aquele que tem autoridade.
A escolha desse texto para festejar o dia de todos os Santos deve-se ao fato de ele trazer o direcionamento para uma vida cristã plena, pois, trata-se das virtudes de Jesus, um conjunto de atitudes e ações que norteiam a vida do verdadeiro cristão.
Quando se fala em santidade, o mais comum é que as pessoas se remetam ao passado, lembrando dos santos que foram grandes mártires e construíram a Igreja de Jesus, e realmente suas vidas são exemplos que sempre devem ser lembrados e seguidos, e suas ações devem servir de foco para os cristãos de hoje, mas a santidade não está apenas no passado, também faz parte do presente, através da busca diária de cada cristão por fazer a vontade de Deus e, com isso, participar do Reino dos Céus e do futuro com a esperança de ser merecedor da Glória Eterna.

No sermão que proferiu na montanha, Jesus mostra que só “o servir a Deus” torna o homem feliz, e ensina que a verdadeira felicidade não está nas riquezas, nem na glória humana ou no poder, mas apenas em Deus, fonte de todo bem e de todo amor.
Mas, por que será que Jesus começa o sermão falando da felicidade? É natural ao ser humano a busca por ela, porém o homem acredita que pode encontrá-la nos bens materiais que possui; no poder que tudo compra e conquista; no reconhecimento pelos outros de “seu valor”.
Jesus, no Sermão da Montanha, dá uma receita de felicidade que vai contra tudo isto, pois é a receita da ‘verdadeira felicidade’, aquela que vem de Deus; e, são felizes aqueles que conseguem encontrá-la.
Uma imensa multidão vinda de todos os lugares rodeia Jesus que aproveita a ocasião para mostrar como todos devem viver. A sociedade daquela época acreditava que os bens materiais eram “graça de Deus”, e a miséria, “castigo divino”. Jesus, então, apresenta uma nova visão desses valores. Ele ensina que a "verdadeira felicidade" é para os que lutam pela justiça e sentem necessidade dela como um alimento vital e diário (ter fome e sede), porque na plenitude do Reino de Deus não há nenhum sinal de injustiça.
As oito bem-aventuranças relatadas por Mateus formam o verdadeiro caminho para Santidade e, por essa razão, esse é o Evangelho escolhido para o dia de “Todos os Santos”, não como uma promessa futura a se concretizar além desse mundo, mas para se viver a partir do presente, neste mundo. Ser Santo é assumir, hoje, atitudes de comprometimento com o Reino de Deus e, não agir esperando compensações futuras. A verdadeira compensação está no dia-a-dia, na construção de um mundo melhor onde reina a igualdade e a fraternidade, pois, esse sim é o verdadeiro Reino de Deus que já se encontra no meio dos homens.
 Pequeninos do Senhor


Entregues nas mãos do Senhor
A santidade não é um artigo de luxo reservado a um grupo de privilegiados. É um ideal para o qual todos os cristãos devem tender, independentemente de sua condição social ou eclesial. Como ninguém é excluído, também ninguém pode eximir-se de dar sua resposta a este apelo divino. O importante é ter uma visão correta da santidade, para se evitar esmorecimentos diante de concepções falsas, e também para não ir atrás de um projeto de santidade incompatível com a proposta de Jesus.
O Evangelho entende a santidade como a capacidade de entregar-se totalmente nas mãos do Pai, de quem tudo se espera e em nome de quem se age em favor do semelhante. Neste caso, santidade e bem-aventurança identificam-se.
A bem-aventurança dos pobres em espírito, dos mansos, dos aflitos e dos que têm fome e sede de justiça acontece quando as pessoas, nestas condições, contam apenas com o auxílio que vem de Deus. Seria inútil contar com as criaturas e esperar delas o socorro.
Por outro lado, também os misericordiosos, os puros de coração, os construtores de paz e os perseguidos por causa da justiça trilham um caminho de santidade. Sem uma profunda adesão a Deus e a seu Reino, jamais se disporiam a prestar ao próximo um serviço gratuito e desinteressado, e a escolher um projeto de vida em que os interesses pessoais passam para um segundo plano. A santidade, neste caso, consiste em imitar o modo divino de agir.


Bem-aventurança e santidade
Ao proclamar as bem-aventuranças, Jesus descreveu a dinâmica da santidade. Bem-aventurado é sinônimo de santo. Portanto, santos são os pobres em espírito, cujo coração está centrado em Deus e que rejeita toda espécie de idolatria. Com certeza, possuirão o Reino dos Céus. Santos são os mansos, que por não responderem a violência com violência, herdarão um bem inalcançável pelos violentos. Santos são os aflitos, que são impotentes diante de situações dramáticas, e não pretendem ter solução para tudo. Sua recompensa será a consolação de Deus. Santos são os famintos e sedentos de justiça, que não pactuam com a maldade, nem se deixam levar pela lógica da dominação. Deus mesmo haverá de realizar seu ideal e fazê-los contemplar o reino da justiça. Santos são os misericordiosos, cujo destino consistirá em viver a comunhão definitiva com o Deus-misericórdia. Santos são os puros de coração, que não agem com segundas intenções e nem falsidade, mas sim, com transparência. Por isso, serão recompensados com a visão de Deus, em todo seu esplendor. Santos são os promotores da paz, que procuram criar laços de amizade e banir toda espécie de ódio, a fim de que o mundo seja mais fraterno. Eles serão chamados filhas e filhos de Deus. Santos são os perseguidos por causa da justiça, os que lutam para fazer valer o projeto de Deus para a humanidade.
Este é o caminho da santidade que todos somos chamados a percorrer.
padre Jaldemir Vitório




A comunhão dos santos
Atualmente pouco se ouve falar na “comunhão dos santos”. Além disso, muitos fiéis talvez tenham uma ideia muito restrita a respeito de quem são os santos… Nas suas cartas, Paulo chama os fiéis em geral de “santos”. Todos os que pertencem a Cristo e seu Reino constituem uma comunidade viva e real, a “comunhão dos santos”.
As bem-aventuranças (evangelho) proclamam a chegada do Reino de Deus e, por isso, a boa ventura daqueles que “combinam com ele”. Assim, caracterizam a comunidade dos “santos”, os “filhos do Reino”, e proclamando a sua felicidade e salvação. Jesus felicita os “pobres de Deus”, os que confiam mais em Deus do que na prepotência, os que produzem paz, os que vêem o mundo com a clareza de um coração puro etc. Sobretudo os que sofrem por causa do Reino, pois sua recompensa é a comunhão no “céu”, isto é, em Deus. Dedicando sua vida à causa de Deus, eles “são dele”. É o que diz S. João (2ª leitura): já somos filhos de Deus, e nem imaginamos o que seremos! Mas uma coisa sabemos: seremos semelhantes a ele, realizaremos a vocação de nossa criação (Gn. 1,26). O amor de Deus tomará totalmente conta de nosso ser, ao ponto de nos tornar iguais a ele.
A santidade não é o destino de uns poucos, mas de uma imensa multidão (1ª leitura): todos aqueles que, de alguma maneira, até sem o saber, aderiram e aderirão à causa de Cristo e do Reino: a comunhão ou comunidade dos santos.
Ser santo significa ser de Deus. Não é preciso ser anjo para isso. Santidade não é angelismo. Significa um cristianismo libertado e esperançoso, acolhedor para com todos os que “procuram Deus com um coração sincero” (Oração eucarística IV). Mas significa também um cristianismo exigente. Devemos viver mais expressamente a santidade de nossas comunidades (a nossa pertença a Deus e a Jesus), por uma prática da caridade digna dos santos e por uma vida espiritual sólida e permanente.
Sobretudo: santidade não é beatice, não é medo de viver. É uma atitude dinâmica, uma busca de pertencer mais a Deus e assemelhar-se sempre mais a Cristo. Não exige boa aparência!
Desprezar os pobres é desprezar os santos! Mas exige disponibilidade para se deixar atrair por Cristo e entrar na solidariedade dos fiéis de todos os tempos, santificados e unidos por ele.
Johan Konings "Liturgia dominical"




Hoje, a Igreja volta seu olhar e seu coração para o céu e enche-se de alegria ao contemplar uma multidão que participa da glória e da plenitude do Deus Santo.
A nossa fé nos ensina que somente Deus é Santo. Na Bíblia, "santo" significa, literalmente, "separado". Deus é aquele que é separado, absolutamente diferente de tudo quanto exista no céu e na terra: Ele é único, Ele é absoluto, Ele sozinho se basta, sozinho é pleno, sozinho é infinitamente feliz. Ele é Deus! Por isso, Santo, em sentido absoluto, é somente o Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo. A Jesus, o Filho eterno feito homem, nós proclamamos em cada missa: "Só vós sois o Santo"; ao Pai nós dizemos: "Na verdade, ó Pai, vós sois Santo e fonte de toda santidade"; ao Espírito nós chamamos de Santo.
Mas, a nossa fé também nos ensina que este Deus santo e pleno, dobra-se carinhosamente sobre a humanidade – sobre cada um de nós - para nos dar a sua própria vida, para nos fazer participantes de sua própria plenitude, sua própria santidade. Foi assim que o Pai, cheio de imenso amor, enviou-nos seu Filho único até nós, e este, morto e ressuscitado, infundiu no mais íntimo de nós e de toda a Igreja o seu Espírito de santidade. Eis, quanta misericórdia: Deus, o único Santo, nos santifica pelo Filho no Espírito: "Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!" É isto a santidade para nós: participar da vida do próprio Deus, sermos separados, consagrados por ele e para ele desde o nosso Batismo, para vivermos sua própria vida, vida de filhos no Filho Jesus! É assim que todo cristão é um santificado, um separado para Deus. Mas, esta santidade que já possuímos deve, contudo, aparecer no nosso modo de viver, nas nossas ações e atitudes. E o modelo de toda santidade é Jesus, o Bem-aventurado. Ele, o Filho, foi totalmente aberto para o Pai no Espírito Santo e, por isso, foi totalmente pobre, totalmente manso, totalmente puro e abandonado a Deus no pranto, na fome de justiça e na misericórdia. Então, ser santo, é ser como Jesus, deixando-se guiar e transformar pelo seu Espírito em direção ao Pai. Esta santidade é um processo que dura a vida toda e somente será pleno na glória. São João nos fala disso na segunda leitura de hoje: "Quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é".
Nesta perspectiva, podemos contemplar a estupenda leitura do Apocalipse que escutamos como primeira leitura. O que se vê aí? Uma multidão. Primeiro, cento e quarenta e quatro mil de todas as tribos de Israel. Isto simboliza todo o Israel. Recordemos: 12 é o número do Povo do Antigo Testamento. Pois bem, cento e quarenta e quatro mil equivale a 12 x 12 x 1000, isto é, à totalidade de Israel. Deus não se cansou de chamar o povo da antiga aliança: Israel haverá de ser salvo pelo sangue de Cristo. Mas, há ainda mais: "Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro". Essa multidão são todos os povos da terra, chamados por Cristo, na Igreja, para a salvação, para a santificação que Deus nos oferece. Notemos bem: "uma multidão que ninguém podia contar". A salvação é para todos, a santidade não é para um grupinho de eleitos, para uma elite espiritual. Todos são chamados a essa vida divina que Deus quer partilhar conosco, todos são chamados à santidade! "Trajavam vestes brancas e traziam palmas nas mãos. São os que vieram da grande tribulação e lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro". Eis quem são os santos: aqueles que atravessaram as lutas desta vida, as tribulações desta nossa pobre existência, unidos a Cristo; são os que venceram em Cristo – por isso trazem a palma da vitória; são os que não tiveram medo de viver e, se caíram, se erraram, foram, humildemente, lavando e alvejando suas vestes no sangue precioso de Cristo: são santos não com sua própria santidade, mas com a santidade do Cristo-Deus. Nunca esqueçamos: ninguém é santo com suas forças, ninguém é santo por sua própria santidade: só em Cristo somos santificados, pois somente Cristo derrama sobre nós o Espírito de santidade. O nosso único trabalho é lutar para acolher esse Espírito, deixando-nos guiar por ele e por ele sermos transfigurados em Cristo!
Olhemos para o céu: lá estão Pedro e Paulo, lá estão os doze, lá estão os mártires de Cristo, os santos pastores e doutores, lá estão as santas virgens e os santos homens, lá estão tantos e tantos – uns, conhecidos e reconhecidos pela Igreja publicamente, outros, cujo nome somente Deus conhece; lá está a Santíssima e Bem-aventurada sempre Virgem Maria, Mãe e discípula perfeita do Cristo, toda plena do Espírito, toda obediente ao Pai. Eles chegaram lá, eles intercedem por nós, eles são nossos modelos, eles nos esperam.
Num mundo que vive estressado, que corre sem saber para onde... num mundo que já não crê nos verdadeiros valores, porque já não crê em Deus, contemplar hoje todos os santos é recordar para onde vamos e qual é o sentido da nossa vida! Não tenhamos medo de ser de Deus, não tenhamos medo de testemunhar o Evangelho, não tenhamos medo de alimentar nossa visa com o Cristo, na sua Palavra e na sua Eucaristia para sermos inebriados da vida do próprio Deus.
Infelizmente, muitos hoje têm como heróis os atletas, os atores, os cantores e tantos outros que não têm muito e até nada para ensinar. Quanto a nós, que nossos heróis e modelos sejam os santos e santas de Cristo, que foram heróis porque se venceram e correram para o Cristo! Que eles roguem por nós, pois o que eles foram, nós somos e o que eles são, todos nós somos chamados a ser.
Todos os santos e santas de Deus, rogai por nós!
dom Henrique Soares da Costa





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