.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

MARIA, MÃE DE JESUS

MARIA, MÃE DE JESUS
Dia 01 de janeio – Ano A

Primeira leitura – Nm.6,22-27
Salmo 66
Segunda leitura – Gl 4,4-7
Evangelho Lc 2,16-21

A Igreja hoje celebra a festa de MARIA MÃE DE DEUS. É a solenidade da Santa Mãe de Deus.  Maria foi aquela escolhida que aceitou colaborar com o projeto do Pai.
·     Continuar lendo


=====================================


======================================

Nascido de mulher” para nos tornar filhos de deus
“Deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo” (Lc. 2,21). Essa afirmação do Evangelho de Lucas harmoniza-se com a primeira leitura: “assim invocarão o meu nome... e eu os abençoarei” (Nm. 6,27). Essa bênção, reservada outrora ao povo de Israel, estende-se agora a todos os povos por intermédio de Jesus, o Filho de Deus “nascido de mulher” (Gl. 4,4). Em Jesus, a face de Deus (Nm. 6,25-26) está voltada para o ser humano. Porque é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Jesus viveu integralmente a humanidade e a elevou à mais alta dignidade de filiação divina. Por sua encarnação participou em tudo da condição humana, para que o ser humano participasse em tudo da condição divina por sua ressurreição.
Evangelho (Lc. 2,16-21) - Foi-lhe dado o nome de Jesus
As promessas de Deus haviam sido feitas a pastores tais como Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Davi e outros. Por isso os anjos anunciam o cumprimento dessas promessas aos pastores nos arredores de Belém. O evangelho destaca o sinal da salvação: o recém-nascido está na manjedoura, lugar onde é posto o alimento. Jesus, desde o início, vem ao mundo como alimento, e o lugar do reconhecimento do Salvador dá-se na eucaristia, fonte e ápice da vida cristã.
Com a circuncisão, Jesus é inserido na comunidade judaica e na primeira aliança. Isso significa que Jesus não é um mito, mas participa em tudo da realidade histórica, é alguém inserido no mundo e sujeito às suas leis.
“Deram-lhe o nome de Jesus, como lhe chamara o anjo” (v. 21). É o próprio Deus, e não os seres humanos, quem dá o nome Jesus (Salvador), e com isso o evangelho assegura que todas as promessas feitas a Israel agora foram realizadas, o tempo da espera pelo Messias terminou.
1ª leitura (Nm. 6,22-27) - “Porão o meu nome sobre os filhos de Israel”
O livro dos Números certifica aos sacerdotes levitas que, ao pronunciarem essa bênção, o nome de Deus estará sobre os filhos de Israel (6,27). Era nessa ocasião que os sacerdotes tinham a permissão de pronunciar o nome de Deus dentro do templo de Jerusalém. Com a destruição do Templo, o nome de Deus deixou de ser pronunciado e foi substituído pelo termo “Senhor”.
“O Senhor te abençoe e te guarde” (v. 24). “Abençoar”, na cultura de Israel, inclui almejar todo tipo de coisas boas, sejam materiais, sentimentais, sociais, espirituais. “Guardar” se refere à proteção de Deus. “Fazer resplandecer a face” (v. 25) significa lançar um olhar favorável. “Mostrar a face” (v. 26) quer dizer fixar a atenção em alguém com um propósito benevolente, em contraste com a angústia experimentada quando Deus esconde o rosto.
O último pedido, para que Deus conceda a paz (shalom), é o mais importante de todos. Em hebraico, shalom significa muito mais que a ausência de conflitos, mas inclui todo tipo de bem-estar, entre os quais a salvação.
Então, a bênção de Nm. 6,22-27 nos apresenta Deus como um Pai bondoso que deseja dar tudo o que é bom ao ser humano, também a salvação, que é seu próprio Filho, Jesus.
2ª leitura (Gl. 4,4-7) - O Espírito clama em nós: Abba, Pai!
Paulo utiliza uma alegoria para falar sobre nossa participação na filiação divina. Na Antiguidade, ainda que potencialmente um menino fosse o herdeiro da família, não poderia exercer a plena liberdade e autonomia de um adulto enquanto não adquirisse a idade previamente estabelecida pelo pai.
Em se tratando de um órfão, era comum o recurso a um curador (v. 2) ou tutor que representasse legalmente o menor até que este alcançasse a maioridade. Durante o período da menoridade, o herdeiro não usufruía totalmente da herança.
Na alegoria de Paulo, algo semelhante se verificou com a humanidade antes da encarnação, morte e ressurreição de Jesus. Quando se completou o tempo previamente estabelecido pelo Pai, o Filho de Deus nasceu de uma mulher (tornou-se humano) para elevar a humanidade inteira à maioridade e pleno usufruto da herança eterna que é a filiação divina.
Jesus nasceu submisso à Lei para redimir os que estavam sob a lei da menoridade e assim elevá-los a uma relação superior, a adoção de filhos com plenos direitos de cidadania no reino de Deus.
Paulo afirma que o Espírito foi enviado após o Cristo. Isso significa que a Trindade está envolvida na realização da filiação divina do ser humano. É pelo Espírito do Ressuscitado que o cristão clama Abba. No idioma aramaico, a palavra Abba significa “Pai”. Jesus usava esse termo quando se referia a Deus, e agora também nós o podemos usar porque, pelo Espírito de Cristo, somos herdeiros de todas as bênçãos recapituladas na salvação integral do ser humano.
Pistas para reflexão
A homilia deve ter um viés cristológico e soteriológico, ou seja, a ênfase deve estar no mistério da encarnação em vista da salvação do ser humano. Uma homilia exageradamente devocional a Maria tira a liturgia de seu eixo principal. O objetivo do Filho de Deus ao tornar-se humano foi nos tornar filhos de Deus. Maria colabora nesse mistério da salvação como modelo do perfeito discípulo que penetra o mistério de maneira mais íntima, associando-se a seu Filho, servindo-o no mistério da redenção (LG 56). A filiação divina resulta na exigência de que se viva o cotidiano de acordo com a vontade do Pai, a exemplo de Maria, que obedecia a Deus mesmo quando não compreendia totalmente a vontade dele.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj



Nascido de mulher, nascido sob a lei
Celebramos a oitava de Natal, a solenidade da Santa Mãe de Deus. Até a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, era chamada festa da Circuncisão de Nosso Senhor. O Evangelho relata que Jesus recebeu a circuncisão, acompanhada da imposição do nome, como prescreve a tradição de Israel. Esse rito significava a integração do “nascido de mulher” na comunidade judaica, como ressalta a segunda leitura. A inserção de Jesus na humanidade e no povo passa pelo útero de Maria. Jesus nasce de mãe judia e submetido à Lei judaica.
 Como, no século IV, foi escolhido o dia 25 de dezembro para celebrar o Natal, a oitava coincide com o ano-novo romano, fixado em 1º de janeiro por Júlio Cesar. Assim, a festa de hoje coincide com o início do ano civil, atualmente celebrado como dia da paz mundial. Neste contexto, cabe bem a primeira leitura, que evoca a bênção do ano-novo israelita (Nm 6,27), reforçada pelo salmo responsorial. Aliás, o próprio nome que Jesus recebe sugere que ele é a bênção: yeshua, “o Senhor salva”. Maria deu Jesus à humanidade como um presente de Deus (cf. 4º domingo do Advento), e Deus faz “brilhar sua face” sobre o povo e sobre a humanidade no nome de Jesus. (No dia 3 de janeiro há uma celebração própria do Santíssimo Nome de Jesus.)
Recentemente, a solenidade de hoje foi posta sob o patrocínio de Maria, “Mãe de Deus”, lembrando o título de Theotokos, “Genitora (Mãe) de Deus”, que lhe foi dado pelo Concílio de Éfeso em 431 d.C. Decerto Deus não tem mãe, mas escolheu Maria como mãe para o Filho que em tudo realiza a obra de Deus. Santificou em Maria a maternidade quando o Filho assumiu a humanidade. A maternidade é, como a humanidade, capax Dei, capaz de receber Deus. Deus é tão grande que conhece também o mistério da maternidade, e por dentro! Para captar isso, talvez tenhamos de modificar um pouco nosso conceito de Deus.
Deus não ama em geral abstratamente, mas por meio de pessoas e comunidades concretas. Só aquilo que é concreto pode ser realidade. Assim como Maria foi, no seio do povo de Israel, o caminho concreto para o Salvador, comunidades concretas serão portadoras de Cristo, salvação de Deus para o mundo hoje. Por isso, Maria é protótipo da Igreja e das comunidades eclesiais.
1ª leitura (Nm. 6,22-27)
A 1ª leitura é a bênção do sacerdote de Israel sobre o povo. Na manhã da criação, Deus abençoou os seres humanos e os animais, dando-lhes alimento e força de vida (Gn. 1,28-30). A bênção de Deus é um augúrio de paz para a natureza e o ser humano. Para quem se coloca diante dessa bênção, Deus deixa brilhar “a luz de sua face”, sua graciosa presença. Só Deus pode realmente abençoar, benzer, “dizer bem”; os humanos abençoam invocando o nome de Deus. Em continuidade com este pensamento, o salmo responsorial expressa um pedido de bênção (Sl. 67[66],2-3.5-6.8).
2ª leitura (Gl. 4,4-7)
A 2ª leitura é tomada da carta de Paulo aos Gálatas, que é a “carta” (no sentido de documento) da liberdade cristã. Cristo veio para nos tornar livres (Gl. 5,1). “Nascido de mulher, nascido sob a Lei” (Gl. 4,4), viveu entre nós sob o regime passageiro que vigorava no Antigo Testamento. Vivendo conosco sob o regime da Lei, ensinou-nos a perceber e interpretar a Lei como dom do Pai e não como escravidão, à diferença dos contemporâneos de Paulo. Estes queriam impô-la como um jugo aos cristãos da Galácia, que nem sequer eram judeus de origem. Já não somos escravos, diz Paulo, mas filhos; portanto, livres. O Filho de Deus tornou-se nosso irmão, nele temos o Espírito que, em nosso coração, ora: “Abba, Pai” (4,6 – provavelmente uma alusão ao pai-nosso rezado nas comunidades, cf. Mt. 6,9-13; Lc. 11,2-4).
Comemorando a vinda de Cristo, pensamos especialmente na “mulher” que o integrou em nossa comunidade (Gl. 4,4). “Nascido de mulher” é uma maneira bíblica para designar o ser humano (cf. Mt. 11,11; Lc. 7,28).
Evangelho (Lc. 2,16-21)
O evangelho de hoje menciona dois temas: a adoração dos pastores junto ao presépio de Belém e a circuncisão de Jesus no oitavo dia, acompanhada da imposição de seu nome. O primeiro tema já foi focalizado no evangelho da missa da aurora no Natal, e na mesma linha podemos destacar, na festa da Mãe de Deus, que “Maria guardava todos estes fatos e meditava sobre eles no seu coração”.
Nossa atenção, porém, vai para o segundo tema, a circuncisão com a imposição do nome, que se harmoniza com o da 2ª leitura. Jesus sujeita-se à antiga Lei (cf. 2ª leitura) e recebe o nome dado pelo anjo, ou seja, por Deus mesmo (Lc 1,31-33; Mt 1,21; cf. Hb. 1,4-5): “O Senhor salva”. Jesus é o salvador enviado por Deus à humanidade.
Dicas para reflexão
– O nome e a cidadania de Jesus.
Celebramos hoje a “cidadania” de Jesus: seu nome, sua identidade, seu lugar na sociedade humana. A 2ª leitura evoca duas dimensões da inserção de Jesus na sociedade humana: nasceu de mulher, membro da família humana; e nasceu sujeito à Lei, cidadão de uma comunidade política e religiosa. Exatamente por assumir a lei de um povo concreto, ele é verdadeiro representante da humanidade. Quem não pertence a nada não representa ninguém. Porque, concretamente, por ser judeu é que Jesus pôde ser o salvador da humanidade toda. Integrado na comunidade judaica pela circuncisão, no oitavo dia recebe o nome de Jesus, escolhido por Deus mesmo. Muita gente, quando escolhe o nome do filho, projeta nisso uma expectativa. Maria e José não escolheram o nome. Alinharam-se com Deus, que projeta seu próprio plano de salvação no nome de Jesus: “O Senhor salva”. O nome de Jesus assinala a participação pessoal de Deus na história da comunidade humana e política. Por isso, assim como o sacerdote Aarão abençoava os israelitas invocando o nome do Senhor Deus, podemos benzer a nós e a todos com o nome de Jesus (1ª leitura).
Deus respeita a Lei que ele mesmo comunicou ao povo. Seu Filho nasceu sob a Lei e foi circuncidado conforme a Lei. As estruturas políticas e sociais do povo, quando condizentes com a vontade de Deus, são instrumentos para Deus se tornar presente em nossa história. Deus mostrou isso em Jesus. E quando as leis e estruturas são manipuladas a ponto de se tornarem injustas, o Filho de Deus as assume para transformá-las no sentido do seu amor. Por isso, Jesus morreu por causa da Lei injustamente aplicada a ele.
– Maria, “porta do céu”.
Em Jesus, Deus quis ter uma mãe. A inserção de Deus em nossa história passa pela ternura materna. Sem esta não se pode construir a história conforme o projeto de Deus. Assim, Deus, na “sua” história salvífica, santificou uma dimensão especificamente feminina. Nas ladainhas chamamos Maria “Porta do Céu”. Porta para nós subirmos e para Deus descer.
Jesus nasceu de mulher e sob a Lei, de mãe humana e dentro de uma sociedade humana. Foi acolhido na sociedade judaica pela circuncisão e pela imposição do nome, como teria acontecido a qualquer indivíduo do sexo masculino entre nós que tivesse nascido naquela sociedade. Maria é, portanto, mãe do verdadeiro homem e judeu Jesus de Nazaré, mas nós a celebramos hoje como Mãe de Deus. Esse título deve ser entendido como “Genitora (é assim que o Concílio de Éfeso a chama) do Filho de Deus”. Este Filho foi igual a nós em tudo, menos no pecado, e viveu e sofreu na carne de maneira verdadeiramente humana (cf. Hb 4,15; 5,7-8). Duas décadas depois de Éfeso, o Concílio de Calcedônia o chamou “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”. É por ser mãe de Jesus humanamente que Maria é chamada Mãe de Deus, pois a humanidade e a divindade em Jesus não se podem separar. Dando Jesus ao mundo, Maria faz Deus nascer no meio do povo. Ela é o ponto de inserção de Deus na humanidade. Toda mulher-mãe é ponto de inserção de vida nova no meio do povo. Em Maria, essa vida nova é vida divina. Deus se insere no povo por meio da maternidade que ele mesmo criou.
Assim como Maria se tornou “Porta do Céu”, a comunidade humana é chamada a tornar-se acesso de Deus ao mundo e do mundo a Deus. A vida do povo, sua “lei”, suas tradições, cultura e estruturas políticas e sociais devem ser um caminho de Deus e para Deus, não um obstáculo. Por isso é preciso transformar a vida humana e as estruturas da sociedade quando não servem para Deus e não condizem com a dignidade que Deus lhes conferiu pelo nascimento de Jesus de mulher e sob a Lei.
– Jesus de Maria, bênção do povo.
Para os cristãos, o novo ano litúrgico já começou no 1º domingo do Advento, mas no dia 1 de janeiro os cristãos participam como cidadãos do ano-novo civil com a festa de Maria, Mãe do Deus Salvador, Jesus Cristo. Queremos felicitar de modo especial a Mãe da família dos cristãos – pois, ao visitarmos hoje a casa de nossos amigos, não cumprimentamos primeiro a dona da casa?
A Igreja marcar este dia com a festa de Maria, Mãe de Deus, é um voto de paz e bênção para o mundo! A bênção maior da parte de Deus: o seu Filho, Jesus. Os nossos votos de paz e bênção devem ser a extensão da bênção que é Jesus e que Maria fez chegar até nós. Desejamos paz e bênção aos nossos amigos em Jesus. Então, nossos votos serão profundamente cristãos, não apenas fórmula social. Desejaremos aos nossos semelhantes aquilo que veio até nós em Jesus: o amor de Deus na doação da vida para os irmãos. É isso que se deve desejar neste dia mundial da paz. Somente onde reinam os sentimentos de Jesus pode existir a paz que vem de Deus.
Luiz Alexandre Solano Rossi



Nascido de mulher, nascido sob a lei
Celebramos a oitava de Natal, a solenidade da Santa Mãe de Deus. Até a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, era chamada festa da Circuncisão de Nosso Senhor. O Evangelho relata que Jesus recebeu a circuncisão, acompanhada da imposição do nome, como prescreve a tradição de Israel. Esse rito significava a integração do “nascido de mulher” na comunidade judaica, como ressalta a segunda leitura. A inserção de Jesus na humanidade e no povo passa pelo útero de Maria. Jesus nasce de mãe judia e submetido à Lei judaica.
 Como, no século IV, foi escolhido o dia 25 de dezembro para celebrar o Natal, a oitava coincide com o ano-novo romano, fixado em 1º de janeiro por Júlio Cesar. Assim, a festa de hoje coincide com o início do ano civil, atualmente celebrado como dia da paz mundial. Neste contexto, cabe bem a primeira leitura, que evoca a bênção do ano-novo israelita (Nm 6,27), reforçada pelo salmo responsorial. Aliás, o próprio nome que Jesus recebe sugere que ele é a bênção: yeshua, “o Senhor salva”. Maria deu Jesus à humanidade como um presente de Deus (cf. 4º domingo do Advento), e Deus faz “brilhar sua face” sobre o povo e sobre a humanidade no nome de Jesus. (No dia 3 de janeiro há uma celebração própria do Santíssimo Nome de Jesus.)
Recentemente, a solenidade de hoje foi posta sob o patrocínio de Maria, “Mãe de Deus”, lembrando o título de Theotokos, “Genitora (Mãe) de Deus”, que lhe foi dado pelo Concílio de Éfeso em 431 d.C. Decerto Deus não tem mãe, mas escolheu Maria como mãe para o Filho que em tudo realiza a obra de Deus. Santificou em Maria a maternidade quando o Filho assumiu a humanidade. A maternidade é, como a humanidade, capax Dei, capaz de receber Deus. Deus é tão grande que conhece também o mistério da maternidade, e por dentro! Para captar isso, talvez tenhamos de modificar um pouco nosso conceito de Deus.
Deus não ama em geral abstratamente, mas por meio de pessoas e comunidades concretas. Só aquilo que é concreto pode ser realidade. Assim como Maria foi, no seio do povo de Israel, o caminho concreto para o Salvador, comunidades concretas serão portadoras de Cristo, salvação de Deus para o mundo hoje. Por isso, Maria é protótipo da Igreja e das comunidades eclesiais.
1ª leitura (Nm. 6,22-27)
A 1ª leitura é a bênção do sacerdote de Israel sobre o povo. Na manhã da criação, Deus abençoou os seres humanos e os animais, dando-lhes alimento e força de vida (Gn. 1,28-30). A bênção de Deus é um augúrio de paz para a natureza e o ser humano. Para quem se coloca diante dessa bênção, Deus deixa brilhar “a luz de sua face”, sua graciosa presença. Só Deus pode realmente abençoar, benzer, “dizer bem”; os humanos abençoam invocando o nome de Deus. Em continuidade com este pensamento, o salmo responsorial expressa um pedido de bênção (Sl. 67[66],2-3.5-6.8).
2ª leitura (Gl. 4,4-7)
A 2ª leitura é tomada da carta de Paulo aos Gálatas, que é a “carta” (no sentido de documento) da liberdade cristã. Cristo veio para nos tornar livres (Gl. 5,1). “Nascido de mulher, nascido sob a Lei” (Gl. 4,4), viveu entre nós sob o regime passageiro que vigorava no Antigo Testamento. Vivendo conosco sob o regime da Lei, ensinou-nos a perceber e interpretar a Lei como dom do Pai e não como escravidão, à diferença dos contemporâneos de Paulo. Estes queriam impô-la como um jugo aos cristãos da Galácia, que nem sequer eram judeus de origem. Já não somos escravos, diz Paulo, mas filhos; portanto, livres. O Filho de Deus tornou-se nosso irmão, nele temos o Espírito que, em nosso coração, ora: “Abba, Pai” (4,6 – provavelmente uma alusão ao pai-nosso rezado nas comunidades, cf. Mt. 6,9-13; Lc. 11,2-4).
Comemorando a vinda de Cristo, pensamos especialmente na “mulher” que o integrou em nossa comunidade (Gl. 4,4). “Nascido de mulher” é uma maneira bíblica para designar o ser humano (cf. Mt. 11,11; Lc. 7,28).
Evangelho (Lc. 2,16-21)
O evangelho de hoje menciona dois temas: a adoração dos pastores junto ao presépio de Belém e a circuncisão de Jesus no oitavo dia, acompanhada da imposição de seu nome. O primeiro tema já foi focalizado no evangelho da missa da aurora no Natal, e na mesma linha podemos destacar, na festa da Mãe de Deus, que “Maria guardava todos estes fatos e meditava sobre eles no seu coração”.
Nossa atenção, porém, vai para o segundo tema, a circuncisão com a imposição do nome, que se harmoniza com o da 2ª leitura. Jesus sujeita-se à antiga Lei (cf. 2ª leitura) e recebe o nome dado pelo anjo, ou seja, por Deus mesmo (Lc 1,31-33; Mt 1,21; cf. Hb. 1,4-5): “O Senhor salva”. Jesus é o salvador enviado por Deus à humanidade.
Dicas para reflexão
– O nome e a cidadania de Jesus.
Celebramos hoje a “cidadania” de Jesus: seu nome, sua identidade, seu lugar na sociedade humana. A 2ª leitura evoca duas dimensões da inserção de Jesus na sociedade humana: nasceu de mulher, membro da família humana; e nasceu sujeito à Lei, cidadão de uma comunidade política e religiosa. Exatamente por assumir a lei de um povo concreto, ele é verdadeiro representante da humanidade. Quem não pertence a nada não representa ninguém. Porque, concretamente, por ser judeu é que Jesus pôde ser o salvador da humanidade toda. Integrado na comunidade judaica pela circuncisão, no oitavo dia recebe o nome de Jesus, escolhido por Deus mesmo. Muita gente, quando escolhe o nome do filho, projeta nisso uma expectativa. Maria e José não escolheram o nome. Alinharam-se com Deus, que projeta seu próprio plano de salvação no nome de Jesus: “O Senhor salva”. O nome de Jesus assinala a participação pessoal de Deus na história da comunidade humana e política. Por isso, assim como o sacerdote Aarão abençoava os israelitas invocando o nome do Senhor Deus, podemos benzer a nós e a todos com o nome de Jesus (1ª leitura).
Deus respeita a Lei que ele mesmo comunicou ao povo. Seu Filho nasceu sob a Lei e foi circuncidado conforme a Lei. As estruturas políticas e sociais do povo, quando condizentes com a vontade de Deus, são instrumentos para Deus se tornar presente em nossa história. Deus mostrou isso em Jesus. E quando as leis e estruturas são manipuladas a ponto de se tornarem injustas, o Filho de Deus as assume para transformá-las no sentido do seu amor. Por isso, Jesus morreu por causa da Lei injustamente aplicada a ele.
– Maria, “porta do céu”.
Em Jesus, Deus quis ter uma mãe. A inserção de Deus em nossa história passa pela ternura materna. Sem esta não se pode construir a história conforme o projeto de Deus. Assim, Deus, na “sua” história salvífica, santificou uma dimensão especificamente feminina. Nas ladainhas chamamos Maria “Porta do Céu”. Porta para nós subirmos e para Deus descer.
Jesus nasceu de mulher e sob a Lei, de mãe humana e dentro de uma sociedade humana. Foi acolhido na sociedade judaica pela circuncisão e pela imposição do nome, como teria acontecido a qualquer indivíduo do sexo masculino entre nós que tivesse nascido naquela sociedade. Maria é, portanto, mãe do verdadeiro homem e judeu Jesus de Nazaré, mas nós a celebramos hoje como Mãe de Deus. Esse título deve ser entendido como “Genitora (é assim que o Concílio de Éfeso a chama) do Filho de Deus”. Este Filho foi igual a nós em tudo, menos no pecado, e viveu e sofreu na carne de maneira verdadeiramente humana (cf. Hb 4,15; 5,7-8). Duas décadas depois de Éfeso, o Concílio de Calcedônia o chamou “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”. É por ser mãe de Jesus humanamente que Maria é chamada Mãe de Deus, pois a humanidade e a divindade em Jesus não se podem separar. Dando Jesus ao mundo, Maria faz Deus nascer no meio do povo. Ela é o ponto de inserção de Deus na humanidade. Toda mulher-mãe é ponto de inserção de vida nova no meio do povo. Em Maria, essa vida nova é vida divina. Deus se insere no povo por meio da maternidade que ele mesmo criou.
Assim como Maria se tornou “Porta do Céu”, a comunidade humana é chamada a tornar-se acesso de Deus ao mundo e do mundo a Deus. A vida do povo, sua “lei”, suas tradições, cultura e estruturas políticas e sociais devem ser um caminho de Deus e para Deus, não um obstáculo. Por isso é preciso transformar a vida humana e as estruturas da sociedade quando não servem para Deus e não condizem com a dignidade que Deus lhes conferiu pelo nascimento de Jesus de mulher e sob a Lei.
– Jesus de Maria, bênção do povo.
Para os cristãos, o novo ano litúrgico já começou no 1º domingo do Advento, mas no dia 1 de janeiro os cristãos participam como cidadãos do ano-novo civil com a festa de Maria, Mãe do Deus Salvador, Jesus Cristo. Queremos felicitar de modo especial a Mãe da família dos cristãos – pois, ao visitarmos hoje a casa de nossos amigos, não cumprimentamos primeiro a dona da casa?
A Igreja marcar este dia com a festa de Maria, Mãe de Deus, é um voto de paz e bênção para o mundo! A bênção maior da parte de Deus: o seu Filho, Jesus. Os nossos votos de paz e bênção devem ser a extensão da bênção que é Jesus e que Maria fez chegar até nós. Desejamos paz e bênção aos nossos amigos em Jesus. Então, nossos votos serão profundamente cristãos, não apenas fórmula social. Desejaremos aos nossos semelhantes aquilo que veio até nós em Jesus: o amor de Deus na doação da vida para os irmãos. É isso que se deve desejar neste dia mundial da paz. Somente onde reinam os sentimentos de Jesus pode existir a paz que vem de Deus.
 Luiz Alexandre Solano Rossi


No início era a bênção!
No início de um novo ano muitas vezes somos relembrados de que devemos adequar ou, até mesmo, readequar nossas expectativas; o ideal, dizem, é que tenhamos nossos corações e mentes tomados pela plenitude da esperança. Não há como discordar dessas palavras. No entanto, faz-se necessário refletir que não existimos sozinhos. Nossas esperanças e expectativas não devem ser pensadas e construídas sem a presença do outro que nos acompanha na história de nossas vidas. Todo ano-novo também deveria ser um novo ano para a comunidade da qual fazemos parte. Quando nos pensamos de forma plural, estamos dizendo aos outros que também eles fazem parte das nossas esperanças e expectativas e que o novo ano que se apresenta não poderá ser construído sem ou até mesmo contra eles. Pensar nos outros é sair de nós mesmos e romper as estruturas que criamos ao nosso redor e que nos impedem de conhecer novas pessoas e com elas interagir. Quando caminhamos em direção aos outros, não somente conhecemos novas pessoas, mas, principalmente, passamos a conhecer melhor a nós mesmos.
1ª leitura: Nm. 6,22-27
Todo ano-novo deveria ser iniciado sob os auspícios de uma bênção. Mas devemos sempre pensar a bênção sob dois aspectos que estão extremamente ligados entre si, ou seja, devemos pensar a bênção de forma individual e comunitária. Somos indivíduos e, por isso, trazemos dentro de nós anseios profundos. Porém, somos também comunitários – vivemos em comunidades – e, assim, a bênção deve ser partilhada dentro do grupo. Nela não há espaço para projetos individualistas.
A beleza da primeira leitura reside no fato de que a bênção é partilhada – “vocês abençoarão” – de maneira gratuita. Quem abençoa, nesse sentido, não se aproxima das outras pessoas fazendo cálculos do que poderia ganhar. O abençoador não transforma a bênção em mercadoria. Infelizmente vivemos imersos numa cultura capitalista que estimula o consumo e, por conta disso, costumamos colocar etiquetas em tudo, até mesmo no sagrado. Muitos, hoje, compreendem Deus como se fosse um grande shopping center que oferece produtos a preços vantajosos!
Aquele que abençoa tem o privilégio de ser um instrumento que o aproxima das outras pessoas, ajudando a tecer a bênção com três fios de ouro: a bênção do abrigo e da proteção, a bênção da misericórdia de Deus e a bênção da paz. Nessa perspectiva, Deus nos chama a olhar primeiramente para as pessoas que nos rodeiam e, dessa forma, trazer uma pergunta no coração, que se faz constante: como poderia eu ser bênção de Deus na vida dos meus irmãos e irmãs?
2ª leitura: Gl. 4,4-7
Todos aqueles que creem em Cristo vivem uma novidade de vida. As coisas velhas ficaram para trás e tudo se fez completamente novo. Em Jesus se insere a certeza da construção de um novo programa de vida, ou seja, de um novo modo de viver. Por causa de Jesus, somos chamados a viver outro estilo de vida. Nele também se apresenta o Espírito do Filho que clama em nós com a linguagem carinhosa da criança: “Abba, Pai”. Trata-se de uma relação especial com Deus. Somente aqueles que se relacionam com Deus podem chamá-lo de Pai. E por causa dessa nova relação é que podemos estabelecer novas formas de relacionamento.
Em Jesus todas as relações são renovadas: de escravos para filhos; de subjugados pela lei para vida em liberdade; de desprovidos de qualquer valor para herdeiros. As coisas velhas já se passaram e tudo vai se fazendo novo. Uma nova realidade se instala na vida dos fiéis que se refletirá na própria maneira de ser e de viver. O que Jesus fez por nós jamais outra pessoa poderia fazer. Nele e por causa dele somos transformados e alcançamos a plenitude do ser humano. É importante e salutar recordar que a posição que alcançamos em Jesus não é para nos tornar Super-Homens e Mulheres Maravilhas, e sim para que a vida de Cristo reflita novas formas de relacionamento social por meio das quais nos relacionamos com os outros da mesma forma que Cristo se relacionou conosco. Cristo não nos liberta para que sejamos supercristãos, e sim para que nos humanizemos a cada dia. Na verdade, não existe essa categoria de supercristãos. O que de fato existe é aquele/a que, ao aderir a Jesus Cristo, se torna servo/a a fim de viver o discipulado e ser missionário/a do Reino.
Evangelho: Lc. 2,16-21
A profundidade da espiritualidade de Maria é impressionante. Ela não somente possui imensa preocupação consigo própria, mas também com o menino Jesus. Por isso, leva-o a Jerusalém para apresentá-lo a Deus. Ela é a primeira e a maior de todas as catequistas. Mas, para ela, a catequese tem início na própria casa. De nada adianta a preocupação com tudo aquilo que é externo quando deixamos de lado aquilo que está próximo e não lhe damos a devida atenção. Há uma igreja doméstica na casa de Maria e, com a consciência de que tudo começa na própria casa, ela pode caminhar em direção à casa de Deus. Aqui se encontra a chave da questão: o ponto de partida é que se faz vital. Maria somente podia olhar para o templo depois que lançasse seu olhar para a sua própria casa. De que adiantaria ter um altar na casa de Deus e não edificar um altar na própria casa? Maria não é displicente. Ela é sabedora de que o relacionamento com Deus tem início muito antes de chegar ao templo. Quantas e quantas vezes desejamos catequizar os outros e nos esquecemos de nossas próprias casas.
No entanto, Maria também conhece o caminho que leva ao templo. Ela não resume sua vida espiritual aos espaços de sua casa. Reconhece tal importância, é claro. Mas tem consciência de que é preciso algo mais. Por isso, sai de sua casa e caminha em direção a Jerusalém. Ela não se esquece do templo. Provavelmente muitos cristãos hoje se esquecem de Jerusalém e percorrem outros caminhos. E ao se esquecerem do caminho que leva à Igreja, também deixam de construir parte importante de sua espiritualidade e de seu compromisso com o discipulado de Jesus, No entanto, para Maria, não havia outro caminho além daquele que levava para a casa de Deus. A experiência de Maria é contundente: devemos pegar o caminho que leva à casa de Deus e aí nos apresentar a Deus e apresentar a ele todos os que nos acompanham.
Possivelmente, hoje, Maria ficaria com o coração entristecido ao nos ver trilhando por tantos caminhos que não nos aproximam da casa de Deus e até, quem sabe, nos afastam. Para ela não devia haver, naquele momento, nada mais emocionante e maravilhoso do que trilhar o caminho que levava de sua casa ao templo de Jerusalém. E, mais do que isso, um caminho que ela trilhava acompanhada. Maria não tinha um projeto pessoal. Era um projeto familiar e integrador. A unidade da família sagrada também acontecia pelo caminho, ou seja, quando juntos buscavam a Deus.
Pelo caminho ia toda a sagrada família. Unidos faziam o mesmo trajeto, comungavam do mesmo ideal e da mesma espiritualidade. Para ela, não era possível iniciar a vida sem Deus nem continuar a vida negando a Deus. Por isso, juntos percorriam o caminho que levava ao encontro do Deus da vida. Há unidade na diversidade. Maria, José e Jesus. Tão diferentes e tão iguais. Tão diferentes e buscadores do mesmo alicerce que fundamentava aquilo que eram: uma família.
O comportamento de Maria é exemplar. Não mede esforços para indicar a seu filho que o único caminho verdadeiro é aquele que nos conduz ao coração do Pai. Nada mais belo do que ver uma mãe ensinando a seu filho o caminho que leva à fonte de toda sabedoria, vida e salvação. Maria é a guia e a catequista de seu filho. Nela, ele encontra não somente a mãe, mas também a educadora que o conduz para o interior do próprio Deus. É interessante observar que Maria é guia que de fato cumpre o papel de guia, isto é, ela vai junto! Não é muito difícil encontrar pais que desejam fortemente que seus filhos frequentem a Igreja, desde que percorram o caminho sozinhos. Nesse caso os pais não agem como guias, e sim como antiguias e, por que não dizer, antipais.
Pistas para reflexão
– A cultura contemporânea muitas vezes e insistentemente nos leva a viver uma espiritualidade desvinculada da comunidade. Nessa espiritualidade reina o individualismo e a busca incessante do sucesso pessoal, mesmo que tal sucesso signifique prejuízo para outras pessoas. De que vale o sucesso construído sobre o fracasso de outros? Seria possível viver o evangelho sem a comunidade? Como ser cristão e negar tantos irmãos e irmãs que formam o Corpo de Cristo?
– Vivemos tempos diferentes. Em muitos momentos até mesmo parece que o evangelho foi falsificado e/ou transformado em qualquer outra coisa que não o evangelho gratuito de Jesus. Numa sociedade em que o valor econômico determina o preço de todas as coisas, até mesmo a bênção de Deus passa a ser vendida como se fosse produto que pode ser adquirido nas prateleiras de um supermercado. Seria, por acaso, possível colocar uma etiqueta com preço nos atos graciosos de Deus?
Luiz Alexandre Solano Rossi



Nossa Senhora do Ano Novo
No umbral de um ano novo a Igreja coloca diante de nossos olhos a figura de Maria.  O Menino que foi dado precisava de braços, mãos, coração e vida humana para nos falar e transmitir os segredos do seu Pai e sobretudo precisava ter um corpo para viver e morrer. O corpo de Deus devemos ao  sim de Maria que  acolhe a vida de Deus  na carne de sua carne.  Respeitosamente nós, cristãos, vivemos sob o patrocínio dessa que chamamos de Mãe de Deus e nossa Mãe.
Eu vos saúdo, cheia de graça, vós cujo seio é mais amplo que o céu porque ele abrigou  Quem os céus  não podem conter. Eu vos saúdo, fonte da luz que iluminais o mundo; eu vos saúdo, sol brilhante  que estais sempre no levante  e nunca no poente. Eu vos saúdo porque carregais  em vós o Autor da vida. Eu vos saúdo porque és jardim  do Pai Celeste, prado embelezado  pelas delicadas flores do Espírito Santo, Eu vos  saúdo, ó fonte de todos os bens: eu vos saúdo, pedra preciosa  cujo brilho e valor não têm preço. Eu vos saúdo, videira misteriosa, que carregaste o fruto mais rico, nuvem benéfica que mataste a sede dos santos pela abundância de vossas águas, poço místico de onde haurimos as águas vivas da graça, sarça ardente  queimando o fogo divino, sem se consumir, porta aberta unicamente para o grande Rei, monte do qual se desprendeu a pedra angular sem o recurso das mãos dos homens. (Crísipo de Jerusalém, monge palestino - aproximadamente entre  407-460).
“Coração, o mais puro que já existiu. Coração mais humilde, Coração mais fervoroso no amor para com Deus e para com o próximo. Coração que soube guardar cuidadosamente as coisas que iam acontecendo  na infância e juventude de vosso Filho, Coração que tanto sofrestes no tempo da Paixão, Coração sempre file. Coração sempre assíduo não oração: por vossos méritos   obtende  pelos vossos méritos a graça do Senhor a graça do Senhor para todos os homens”  (Santa Mechtilde de Marburg, séc. XIII)





Nossa Senhora do ano novo
Primeiro dia do ano novo. Em nossos lábios e em nossos ouvidos essa saudação tão bonita: feliz ano novo!  Um santo ano novo! Festa universal marcada por música, alegria, fogos de artifício, danças, bebidas e comidas. Começa um ano novo, ano de graça e de bênção do Senhor. A liturgia da Igreja coloca diante de nossos olhos a Mãe do Menino. Hoje é festa de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. Ela vai nos acompanhar através do tempo que nos será dado viver neste ano que agora chamamos de novo.
Estamos uma vez mais diante da simplicidade do presépio. Pastores chegam ao local onde estava o Menino, atendendo ao apelo do anjo.  Lucas diz que eles, avisados do nascimento do menino, foram às pressas a Belém. Maria vendo tudo, guardava  esses fatos e meditava sobre eles em seu coração. Vemos a alegria dos que chegam e damo-nos conta da atitude de fé de Maria. Nesse tempo do Natal o mistério do Deus encarnado é colocado diante de nós no rosto da criança. Vamos também levando essas coisas ao fundo de nosso coração e nos acostumando alegremente a conviver com Deus que se fez Emanuel no seio de sua Mãe e nossa Mãe. Viver de maneira fecunda os dias do ano novo será levar as coisas de Deus até o fundo do coração, cada dia, em cada circunstância, em todos os momentos.
Aquela mulher que colocou no mundo o Menino das Palhas é Maria, Mãe de Deus. Paulo lembra que, quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho nascido de mulher. Ficamos muito felizes de ouvir a proclamação da benção vétero-testamentária dada aos filhos de Israel (Números 6,22-27). Tal bênção se materializa no Filho de Deus que nos foi dado por Maria. “O Senhor te abençoe e te guarde, faça brilhar sobre ti a sua face, se compadeça de ti, volva para ti o seu rosto e te dê a paz”. Tais palavras, no primeiro dia do ano, constituem garantia do amor de Deus que quer acompanhar nossos passos no tempo que corre e que é dom de seu amor.
Neste dia de ano novo comemora-se o dia mundial da paz. “Desejaremos aos nossos amigos aquilo que veio até nós em Cristo: o amor de Deus na doação de vida para os irmãos. Esta é a verdadeira paz que convém desejar nesse dia mundial da Paz. Somente onde reinam os sentimentos de Jesus – o esquecimento de si para o bem dos irmãos, como pessoas e como sociedade, pode existir a paz que vem de Deus. É este o espírito de Jesus, no qual chamamos a Deus de Pai e aos outros, irmãos” (Johan Konings, SJ, Liturgia dominical, Vozes, p 61).
Ó Deus, que pela virgindade fecunda de Maria destes à humanidade a salvação eterna, dai-nos contar sempre com sua intercessão, pois ele nos trouxe o autor da vida (Oração da solenidade)
frei Almir Ribeiro Guimarães




Nascido de mulher, nascido sob a lei
Quem se lembra da antiga liturgia gregoriana terá saudades, hoje, da maravilhosa antífona Salve sancta parens (“Salve, santa genitora”), a participação de Maria no mistério da Encarnação. Celebramos a oitava de Natal. Ora, ao oitavo dia do parto confere-se ao filho a circuncisão (nome antigo desta festa), acompanhada da imposição do nome.
É a integração na comunidade judaica. A 2ª leitura ressalta a maternidade e o rito judaico: “Nascido de mulher, nascido sob a Lei” (Gl. 4,4). Mediante a figura de Maria é celebrada a inserção de Jesus na humanidade, especificamente, na comunidade judaica. Pois Jesus não era “bom demais” para nascer como homem, nem para ser submetido à lei judaica. Com isso combina bem o fato de celebrarmos essa festa no início do ano civil, lembrando a bênção do ano novo israelita (1ª leitura), reforçada pelo pedido de bênção no salmo responsorial. Aliás, o nome que Jesus recebe (evangelho) é uma bênção: Ieshua (‘= “Javé salva”).
Através do nascimento maravilhoso, Maria deu Jesus à humanidade como um presente de Deus (cf. 4° dom. do Advento), no seio de um povo com leis e costumes, povo sobre o qual Deus faz “brilhar sua face”, e o nome de Jesus traz a bênção do Senhor Deus. Jesus, “o Senhor salva”, este é o nome que doravante será invocado sobre a humanidade (cf. Nm. 6,27).
A mediação da comunidade de Israel no projeto salvífico de Deus nos ensina que Deus não ama em geral, abstratamente, mas através de pessoas e comunidades concretas. Só aquilo que é concreto pode ser realidade. Assim como Maria, no seio do povo de Israel, foi o caminho concreto para o Salvador, serão comunidades concretas as portadoras de Cristo como salvação de Deus para o mundo hoje. Assim, Maria é protótipo da Igreja e das comunidades eclesiais (cf. oração do dia)
A festa de hoje remete também à renhida discussão teológica que reclamou para Maria o titulo de Theótokos, “Genitora (Mãe) de Deus” (Concílio de Éfeso). Decerto, Deus não tem mãe, mas escolheu Maria como mãe para o Filho que em tudo realiza a obra de Deus. Santificou em Maria a maternidade quando o Filho assumiu a humanidade. Deus experimentou a realidade íntima da maternidade em Cristo. A maternidade é, como a humanidade, capax Dei, capaz de receber Deus... Deus é tão grande que conhece também o mistério da maternidade, e por dentro! (Para captar isso talvez tenhamos de modificar um pouco nosso conceito de Deus.)
padre Johan Konings "Liturgia dominical"






Santa Mãe de Deus, Maria
Naquele tempo os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura. Tendo-o visto, contaram o que lhes fora dito sobre o menino. E todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam. Quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração. Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito. Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido.
Explicação do Evangelho
Os pastores eram homens e crianças simples que viviam no campo, cuidando das ovelhas, e foram eles os primeiros a serem avisados pelos anjos de Deus, sobre o nascimento do menino Jesus, demonstrando a Sua opção pelos excluídos e marginalizados.
Eles foram ao encontro do Menino e O encontraram com sua Mãe e seu pai, e contaram a eles o que tinham ouvido.
O relato dos pastores causava admiração a todos, porém Maria se mantinha em silêncio, pois tudo aquilo já havia sido revelado pelo anjo, no momento em que aceitou a missão de conceber e dar à luz a Jesus,  agora ela se ocupava de tentar entender o sentido.
Os pastores retornam à rotina cantando de alegria e louvando a Deus pela graça de terem ficado diante de Seu Filho Jesus que estava ali diante deles. Este sentimento de alegria e louvor é o mesmo de todas as pessoas que se colocam diante de Jesus.
Depois de oito dias, Maria e José levaram o menino para circuncidar, pois a circuncisão era uma prática que os judeus realizavam em todos os meninos que nasciam, no qual a criança começava a fazer parte do povo eleito. No momento da circuncisão a criança recebia do pai seu nome que mostrava a missão que assumiria junto ao povo de Deus. Jesus, que significa ‘aquele que vem trazer a salvação’, recebe o nome dado, pelo anjo Gabriel, na anunciação à Maria e depois ao próprio José.
Jesus pelo fato de ter sido concebido, gerado e nascido de uma mulher, além de submeter-se às leis dos homens sendo circuncidado e receber um nome que o torna cidadão com um lugar definido na sociedade, adquire uma situação de humanidade.
O Evangelho de hoje é dedicado à Maria, que recebeu no Concílio de Éfeso em 431 d.C o título de “Mãe de Deus” (Theotókos).

Pequeninos do Senhor



O mistério de Deus em Maria
A figura de Maria foi toda envolvida pelo mistério de Deus. Ao aceitar ser a mãe do "Filho do Altíssimo", ela estabeleceu um relacionamento profundo com a divindade. Lenta e gradativamente, Maria foi compreendendo a real dimensão desta experiência, que exigiu dela empenho e discernimento.
A visita dos pobres pastores ao Menino Jesus, na gruta de Belém, ofereceu a Maria elementos de reflexão. Eles falavam do que lhes fora revelado sobre o recém-nascido, sua identidade e sua missão de Salvador, o Messias esperado. Sua origem divina evidenciava-se pela presença do anjo do Senhor. Ele estava todo envolvido pelo mistério divino.
A história do Menino ligava-se radicalmente à existência de Maria. Foi com ela que o Pai havia contado para a gestação física de seu filho amado, que haveria de ser, também, filho dela. A vida de Maria, portanto, definia-se pela relação com o Pai e com o filho Jesus, redundando em serviço exclusivo a ambos.
Por que Deus escolheu aquela pobre mulher de Nazaré, para concretizar seu plano de amor em relação à humanidade? Nem mesmo Maria deve ter sabido dar uma resposta definitiva a esta questão. Por isso, ela guardava, no coração, todas as palavras dos pastores, tentando discernir o sentido e as exigências da presença de Deus em sua vida.
padre Jaldemir Vitório




1ª leitura (Nm. 6,22-27) - Bênção do ano novo sobre o povo
Na manhã da criação, Deus abençoou os seres humanos e os animais, dando-lhes alimento e força de vida (Gn. 1,28-30). Paz na natureza e no mundo dos homens, eis a bênção de Deus. Para quem se coloca diante desta bênção, Deus deixa brilhar “a luz de sua face”, sua graciosa presença. Só Deus pode realmente abençoar, benzer, “dizer bem”; os humanos abençoam invocando o nome de Deus.
* Cf. Sl. 121[120],7-8; Dt. 28,6; Sl. 4,7; 122[121],6-7; Eclo. 50,22-23 [20-21].

2ª leitura (Gl 4,4-7) - “Nascido de mulher, nascido sob a Lei”
Gl. é a “carta da liberdade cristã”. Cristo veio para nos tornar livres (5,1), veio “sob a lei” passageira do A.T., para nos libertar dela. O Filho de Deus tornou-se nosso irmão, nele temos o Espírito do Pai. – Comemorando a vinda de Cristo, pensamos especialmente na “mulher” (4,4) que o integrou em nossa comunidade. * Cf . Ef. 1,10; Rm. 1,3; Jo 1,14; Rm. 8,15-17; Jo 3,16-21.

Evangelho (Lc 2,16-21) - Adoração dos pastores, circuncisão e nome de Jesus
Dois assuntos: 1) os pastores ao presépio de Belém; 2) a circuncisão e imposição do nome (no 8º dia). Jesus sujeita-se à antiga Lei (cf. 2ª leitura). Recebe o nome dado pelo anjo (Lc. 1,31-33; Mt. 1,21; cf. Hb. 1,4-5): “Javé salva”.
Maria, “porta do céu”
Nas ladainhas chamamos Maria “Porta do Céu”. Porta para nós subirmos, ou para Deus descer? A festa de hoje confirma as duas interpretações.
“Nascido de mulher, nascido sob a Lei”, assim qualifica Paulo Jesus (1ª leitura). Jesus nasceu como todo ser humano de uma mãe humana, Maria, e dentro de uma sociedade humana, a sociedade de Israel, com sua “lei”, regime ao mesmo tempo religioso e sociopolítico. O evangelho narra que Jesus, no oitavo dia do nascimento, foi acolhido na sociedade judaica pela circuncisão e pela imposição do nome, como teria acontecido a qualquer masculino dentre nós se tivesse nascido naquela sociedade.
Maria é, portanto, mãe do verdadeiro homem e judeu Jesus de Nazaré, mas nós a celebramos hoje como “Mãe de Deus”... Como se conjugam essas duas maternidades? Não são duas, são uma só!
O título “Mãe de Deus” foi conferido a Maria pelo concílio de Éfeso no ano 431 d.C. Este mesmo concílio insistiu que Jesus foi igual a nós em tudo menos o pecado (cf. Hb. 4,15) e viveu e sofreu na carne de maneira verdadeiramente humana. Vinte anos depois, o concílio de Calcedônio chamou Jesus “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”. É por ser mãe de Jesus humanamente que Maria é chamada Mãe de Deus, pois a humanidade e a divindade em Jesus não se podem separar. Dando Jesus ao mundo Maria deu Deus a todos nós.
Em Jesus, Maria faz Deus nascer no meio do povo. Maria é o ponto de inserção de Deus na humanidade. Neste sentido ela é “porta do Céu”, porta para Deus que desce até nós e pela qual nós temos acesso a Deus. Toda mulher-mãe é ponto de inserção de vida nova no meio do povo. Em Maria, essa vida nova é vida divina. Deus se insere no povo por meio da maternidade que ele mesmo criou.
De maneira semelhante, Deus respeita também a Lei que ele mesmo criou e comunicou ao povo. Seu Filho nasceu sob a Lei e foi circuncidado conforme a Lei. As estruturas políticas e sociais do povo, quando condizentes com a vontade de Deus, são instrumento para Deus se tornar presente em nossa história. Deus mostrou isso em Jesus. E quando as leis e estruturas são manipuladas a ponto de se tornarem injustas, o Filho de Deus as assume para as transformar no sentido do seu amor. Por isso, Jesus morreu por causa da Lei, injustamente aplicada a ele.
Assim como pela maternidade humano-divina Maria se tornou “Porta do Céu”, a comunidade humana é chamada a tornar-se acesso de Deus ao mundo e do mundo a Deus. A vida do povo, suas tradições, cultura e estruturas políticas e sociais devem ser um caminho de Deus e para Deus, não um obstáculo. Por isso é preciso transformar a vida humana e as estruturas da sociedade, quando não servem para Deus e não condizem com a dignidade que Deus lhes conferiu pelo nascimento de Jesus de mulher e sob a Lei.
Johan Konings




Hoje é a oitava do Natal. Nesta eucaristia, é necessário que tenhamos em vista alguns aspectos importantes.
No Oriente, era costume, no dia seguinte ao parto, cumprimentar uma mulher que houvesse dado à luz. Por isso, nossos irmãos orientais, desde o século IV, no dia seguinte ao Natal, celebram a festa da congratulação da Mãe de Deus – uma homenagem Àquela que deu à luz o Salvador. No Ocidente, a congratulação da Virgem é hoje, oito dias após o santo Natal. A Igreja, com os pastores, vai ao encontro do Menino e o encontra com sua Mãe; e proclama que este Menino é o Deus verdadeiro. Ele não é somente a criancinha frágil; mas o Deus forte, feito pequeno por nós! Por isso, o povo de Deus saúda, hoje, a Virgem, com o título antiqüíssimo de Mãe de Deus, isto é, Mãe de Deus Filho! “Bendita sejais, Virgem Maria! Trouxestes no ventre quem fez o universo! Vós destes à luz a quem vos criou e permaneceis Virgem para sempre!” Este Menino, o Deus verdadeiro, fez-se realmente um de nós, nascido realmente de uma Virgem. Ele não é a mãe de Deus Pai - isto seria uma blasfêmia! Também não é mãe do Espírito Santo - isto seria loucura! Não se pode tampouco dizer que ela é mãe da natureza divina - isto seria heresia! O que a Igreja crê, professa, testemunha e ensina com todo acerto e toda piedade é que a sempre Virgem Maria é Mãe santíssima do Deus Filho feito homem! Tudo quanto o Filho é na sua humanidade, ele o recebeu de Maria! O Filho não somente nasceu através de Maria, mas de Maria!
Mais ainda: os orientais gostam de invocar Jesus exclamando: Deus nascido da Virgem, salvai-nos! Estejamos atentos! Não somente Deus concebido de Maria, a Virgem, mas também Deus nascido de modo inefável, miraculoso, misterioso, da Virgem: Deus nascido da Virgem! Admirada com um nascimento assim, tão divino, tão único, a Igreja exclama: “Como a sarça, que Moisés viu arder sem se consumir, assim intacta é a vossa admirável virgindade. Virgem Maria, Mãe de Deus, por nós intercedei”. Deste modo, a Solenidade de hoje nos recorda não somente que a Virgem é verdadeiramente Mãe de Deus, mas que ela é sempre virgem: antes, durante e depois do parto! O Cristo nosso Deus não somente foi concebido da Virgem Maria, mas o Credo diz que ele nasceu da Virgem Maria! Nasceu sem destruir a virgindade da Mãe! Para o nosso mundo atual, que supervaloriza o sexo e faz com que os jovens tenham até mesmo vergonha de admitir que são virgens, proclamar a virgindade perpétua de Maria, recorda-nos que a castidade é uma preciosa e cara virtude cristã e a virgindade deve ser vista por nós como um valor e um ideal a ser buscado! Em Maria, a Virgem, o permanecer na virgindade exprime que ela sempre foi toda de Deus, absolutamente de Deus, em corpo e alma, em todo o seu ser, de modo constante e absoluto!
Não é por acaso que, segundo o Evangelho de Mateus, os magos encontraram o Menino com Maria, sua Mãe (cf. 2,11). É assim que Aquele que nos nasceu é sempre encontrado, pois o Deus que de nada necessita, contou com o “sim” da Virgem e dela, como de uma terra nova e virgem, gerou segundo a natureza humana o seu Filho para nossa salvação. É este mistério que a Igreja hoje celebra: este Menino é o Deus verdadeiro e sua Mãe faz parte do plano da salvação, pois “quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma Mulher... a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei”. Na nossa salvação, esteve, está e estará sempre presente a Mulher, a Virgem Maria. Alegremo-nos, portanto, com a Virgem Maria e, com toda Igreja, digamos: “Virgem Santa e Imaculada, eu não sei com que louvores poderei engrandecer-vos! Pois Aquele a quem os céus não puderam abranger, repousou em vosso seio. Sois bendita entre as mulheres e bendito é o fruto que nasceu do vosso ventre!”
Há um segundo aspecto deste hoje. O primeiro do ano e dia da confraternização universal, início do ano civil. A pedido do papa Paulo VI, a ONU transformou esta data em dia festivo para todas as nações. É dia da paz, dia da confraternização entre os povos, nações, culturas... Ora, nós cristãos sabemos que a paz não é uma idéia, um sonho, um desejo; a paz é uma pessoa. São Leão Magno dizia, no século V: “O Natal do Senhor é o Natal da Paz. Cristo é a nossa paz!” Não foi a respeito dele que o profeta afirmou: “Ele será chamado Admirável, Deus, Príncipe da Paz, Pai do mundo novo”? (Is. 9,2-6) Não foi ele mesmo quem disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos sou; não vo-la dou como o mundo a dá?” (Jo 14,27). Que tenhamos cada vez mais sólida esta convicção: a paz que almejamos, a paz tão sonhada, a paz para o mundo e para a nossa vida, somente no Cristo poderá ser encontrada de modo definitivo e pleno! Nele, nem as tristezas, nem as desilusões, nem as angústias, nem as provações, poderão nos fazer perder a paz! Cristo, nossa Paz!
Finalmente, hoje, também, é dia da circuncisão do Menino. Como descendente de Abraão, ele foi circuncidado, passando a fazer parte do Povo da antiga Aliança, e recebeu o nome de Jesus, isto é, Deus salva! Que nome belo, que nome eloqüente, que nome bendito a nos encher de certa esperança para os dias de 2004 que chegou! Jesus, nome acima de todo nome, único nome no qual podemos encontrar salvação no céu e na terra. Jesus, doce lembrança do nosso coração, doce alívio nas dores, forte certeza nos momentos difíceis. Jesus, amigo certo de todas as horas, única certeza e apoio de nossa existência! Por isso mesmo, a primeira leitura da Missa de hoje, faz-nos ouvir a bênção de Aarão, que, por três vezes, invoca o nome do Senhor sobre o povo! Para os cristãos, o Senhor é Jesus, e não há outro! Pois é neste nome bendito que todos e cada um queremos iniciar o novo ano civil: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu olhar e te dê a paz!”



Hoje é a oitava do Natal. É um antiqüíssimo costume da Igreja de Roma, voltar seu coração e sua mente, neste dia, para Aquela de quem nasceu o Salvador do mundo. O Evangelho de são Mateus afirma que os magos, ao entrarem onde estava a Sagrada Família, “viram o Menino com Maria, sua Mãe e, prostrando-se, o homenagearam” (2,11). Trata-se da homenagem solene e ritual prestada aos reis orientais. E, no Oriente, a Mãe do rei, chamada gebirah, exercia um papel importantíssimo. Pois, eis aqui, na cena do Evangelho, o Rei dos judeus, o Rei-Messias, o Rei que é Deus, e sua Rainha-Mãe, sua gebirah, a Virgem Maria! Agradecida pelo seu “sim” ao plano de Deus, a Igreja chama-a, desde os primórdios da fé cristã, de “Mãe de Deus”, isto é, “Mãe de Deus-Filho feito homem”! Com isto, nós confessamos que o Menino nascido da Virgem é Deus verdadeiro e perfeito, uma Pessoa divina com a natureza divina completa e uma verdadeira natureza humana. Ele, Filho do eterno Pai, fez-se realmente, como homem, filho de Maria Virgem, sem deixar de ser Deus! Na Virgem Santíssima, que trouxe em seu seio a segunda Pessoa da Trindade Santa, o divino e o humano se encontraram para sempre, os céus e a terra se abraçaram para nunca mais se deixarem!
Ao recordar a maternidade divina de Nossa Senhora, a Igreja recorda também as condições maravilhosas dessa maternidade: ela aconteceu de modo virginal! Com efeito, a Mãe do Senhor concebeu virginalmente, virginalmente deu à luz e virgem permaneceu para sempre! A Virgem não somente concebeu, mas também virginalmente deu à luz um filho – eis a profecia de Isaías (cf. 7,14). A Igreja canta esse mistério com palavras admiráveis: “Na sarça que Moisés via arder sem se consumir, admiramos o sinal da vossa  incomparável virgindade, ó Mãe de Deus!” e ainda, pensando na porta selada, pela qual somente o Senhor passaria, como profetizou Ezequiel (cf. 44,2), a Igreja exclama: “A porta eterna do Templo eternamente fechado feliz e pronta se abre somente ao Rei esperado!”. Aqui silencia a imaginação humana, pois que pertence ao segredo de Deus o modo como, Virgem, Nossa Senhora concebeu e ainda como, virginalmente, deu à luz! Uma coisa é certa: sua virgindade perpétua quer nos mostrar o quanto esse Menino todo vindo de Deus é um novo começo, um novo início para toda a criação e toda a humanidade! Além do mais, revela o quanto Maria Virgem foi integralmente de Deus, de corpo e alma. Num mundo que endeusa o sexo e exalta de modo abusivo a sensualidade, a Santíssima Virgem nos aponta outros valores e revela a beleza da virgindade e da castidade como expressão do ser humano vivendo livre, debaixo do senhorio de Cristo, no seu corpo, no seu afeto e na sua alma! Quanto mais alguém vive totalmente para o Senhor, mais fecundo se torna em sua vida e mais traz Jesus ao mundo, como testemunha do Reino dos céus. Por isso a saudação que a Igreja hoje dirige à Virgem Maria: “Salve, ó Santa Mãe de Deus, vós destes à luz o Rei que governa o céu e a terra pelos séculos eternos!”
Hoje também, oitavo dia do nascimento do Fruto do ventre da Virgem, a Igreja recorda a circuncisão do Menino. Ele, circuncidado, passou a fazer parte do Povo de Israel. Assim, cumpriu-se a promessa que Deus fizera a Abraão, nosso Pai. Da sua descendência o Senhor fizera surgir um Salvador para todas as nações: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu filho, nascido de uma Mulher, nascido sob a Lei!”. Circuncidado, o Menino recebeu o nome de Jesus, que significa “o Senhor salva”. Seu nome revela sua identidade, sua missão e a causa da nossa alegria! Ele é a salvação que Deus nos concede, ele é a nossa Paz, pois nos reconcilia com Deus e nos abre as portas dos céus. Por isso mesmo, os cristãos hoje, juntamente com toda a humanidade, celebram o Dia da Paz. Para nós, essa Paz tem um nome, tem um rosto, tem um sorriso. Podemos encontrar tudo isso naquele que veio de Maria, a Virgem! Somente abrindo-se para ele, o mundo encontrará a verdadeira paz!
Confiemos, pois, os dias do novo ano civil que está começando, a este Menino, o Príncipe da Paz. Que o seu nome repouse sobre nós, como uma bênção! Certamente, neste ano choraremos e sorriremos, venceremos e fracassaremos, cairemos e nos ergueremos... Não importa! Importa, sim, que estejamos com o Senhor, ele, que estará sempre conosco. Ele foi apelidado – não esqueçamos – de Emanuel, Deus-conosco! Que este ano seja, como se colocavam nos antigos documentos, “Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo!”
Estamos iniciando o ano novo profundamente feridos e perplexos com a tragédia da Ásia. Escapa-nos o porquê de tanta dor, sofrimento e morte. Mas, teimamos em acreditar que há um Deus no céu, que, em Cristo, esse Deus fez-se presente como amor, como companhia, como ternura e consolo para toda a humanidade. Cremos que, neste Menino que nasceu e cresceu e chorou e sofreu e morreu, Deus faz-se, para sempre, solidário conosco. Queremos recordar cada morto e cada sobrevivente dessa tragédia; queremos recordar aqueles montes de cadáveres em decomposição, sem tempo para uma sepultura digna; queremos dizer que tudo isso é muito triste, é absurdamente incompreensível! Mas, queremos também colocar tudo isso nas mãos desse Menininho; também ele pobre, também ele perseguido, também ele sem abrigo, também ele sofredor até a morte de cruz, até o silêncio da sepultura, para dar sentido às nossas dores e vencer a nossa morte. Nesse Menino crucificado, a dor humana não se explica, mas encontra consolo; nesse Emanuel, nós sabemos que Deus está conosco, mesmo quando parece se calar ante uma tragédia como a que estamos assistindo!
Coloquemos, pois, os dias de nossa vida nas mãos do Salvador. E, como penhor de que nossas preces serão ouvidas, supliquemos à Mãe de Deus toda Santa: “À vossa proteção recorremos, ó Santa Mãe de Deus! Protegei os pobres, ajudai os fracos, consolai os tristes, rogai pela Igreja, protegei o clero, ajudai-nos todos, sede nossa salvação! Santa Maria, sois a Mãe dos homens, sois a Mãe do Cristo que nos fez irmãos! Rogai pela Igreja, pela humanidade e fazei que, enfim, tenhamos paz e salvação!”
dom Henrique Soares da Costa


Nenhum comentário:

Postar um comentário