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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

6º DOMINGO TEMPO COMUM-Ano A

6º DOMINGO TEMPO COMUM

12 de Fevereiro de 2014

Evangelho - Mt 5,17-37




Prezados irmãos. Neste Evangelho, Jesus jogou pesado! Suas palavras são duras, porém, necessárias para a nossa salvação. Ou somos cristãos, ou não somos! A partir de hoje precisamos decidir que rumo tomamos em nossa vida tribulada, e recheada de descaminhos e muitos tropeços.      
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“NÃO PENSEIS QUE VIM ABOLIR A LEI...” Olivia Coutinho

6º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 12 de Fevereiro de 2017

Evangelho de  Mt5,17-37


O ponto fundamental de todos os ensinamentos de Jesus sempre foi o amor, Jesus era movido pelo o amor,  todas as suas ações se convergiam para o bem maior, que é a vida!
Não pode haver sintonia entre o homem e Deus sem a vivência do amor! O amor gera vida, nos une como irmãos, nos torna testemunhas vivas de Jesus no mundo! É o amor que nos possibilita viver a nossa humanidade de forma Divina!
No evangelho de hoje, Jesus nos ensina o caminho que devemos percorrer, se quisermos de fato, fazer parte do Reino dos Céus, que é o caminho do amor!
“Se a vossa justiça, não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus.” Mt5,20.
Ao contrário do que muitos daquela época pensavam, Jesus não veio abolir as leis, pelo contrário, Ele veio aprimorá-las! A interpretação que Ele faz dos mandamentos, torna explícita a intenção de Deus, que não somente quis nos deixar “mandamentos” e sim, nos oferecer, por meio de Jesus, diretrizes precisas para a nossa caminhada rumo a eternidade! 
É no pensamento que está a raiz de todo pecado, e Jesus veio nos ensinar como cortar este mal pela raiz, que é eliminar tudo que pode nos levar a tirar a vida do outro, o que fazemos não somente com armas, mas também com as nossas atitudes, principalmente, com a nossa indiferença, com a nossa omissão diante as injustiças. 
O antigo Testamento diz: “não matarás”, Jesus diz a mesma coisa, mudando apenas as palavras, ao invés de dizer: não matarás, Ele nos convidar a amar! “Amem-se uns aos outros." O amor é a arma que bloqueia toda ocasião de pecado, pois quem ama não mata, não escandaliza o outro, quem ama, perdoa, respeita, valoriza a família, enfim, quem só faz o bem!
O texto nos alerta sobre o perigo de nos deixar contaminar pela mentalidade farisaica ainda presente nos dias de hoje, até mesmo nas nossas comunidades cristãs.
O legalismo é um instrumento de alienação e de opressão que tem como objetivo desviar a atenção do povo. Enquanto o povo está voltado para o cumprimento de tantas regrinhas, de tantos preceitos, os seus líderes sentem-se livres para praticarem seus atos contrários ao projeto de Deus, um projeto, que tem como prioridade  a vida em toda sua dimensão!
As leis de organização social e religiosas, para Jesus, só têm validade,  se forem elaboradas em favor da vida e Jesus veio para promover a vida!
Em todos os seus ensinamentos, Jesus sempre deixou claro que a vida deve estar acima de toda e qualquer lei!
Ao nos deixar o mandamento do amor, Jesus enfatiza a importância de vivê-lo no nosso dia a dia! O mandamento do amor, não se trata de uma recomendação e muito menos de uma lei imposta por Ele, mas sim, de uma condição para que Ele possa estar em nós e nós Nele!
Quem ama, obedece todos os mandamentos e ensina o outro a cumpri-los, com o seu testemunho de vida! Estes, diz Jesus: serão considerados grandes no Reino dos céus! 
O mandamento do amor é um mandamento sempre novo, pois o amor é atual, o amor  nunca entra em decadência!
O reino de Deus não se espalha através de cumprimento de normas, o Reino de Deus se espalha pelo contagio do amor, pois o amor é “contagioso”, pega de um para o outro!
A nossa identidade, o que nos distingue como cristão, é a nossa vivencia no amor, onde não há amor, não há vida cristã!
O nosso amor pelo outro, deve ser um amor que responda ao amor que  Deus tem por nós!
Ora, se somos filhos do amor, amor devemos ser!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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A fidelidade à lei de Deus – melhor dizendo, à Torá ou instrução do Senhor – é um dos temas centrais do Antigo Testamento. O amor e a fidelidade à lei de Deus constituíam toda a justiça e santidade do povo de Israel.
A lei de Deus é boa e santa (Rm. 7,12). Por isso, a lei não foi abolida por Jesus, mas sim plenificada (Mt. 5,17). Plenificar significa que não basta cumprir a materialidade do mandamento, mas se perguntar pela intenção de Deus ao instituí-lo. Não é suficiente uma fidelidade externa, mas faz-se necessária uma fidelidade mais profunda, que empenhe mente e coração. Não basta somente uma conduta que todos possam ver, mas se requer reta intenção, que brote do mais profundo do coração e da mente, vista somente por Deus. Tal atitude é possível quando se é capaz de deixar-se penetrar pela sabedoria do evangelho, “misteriosa e oculta” (1Cor 2,7), sabedoria da cruz de Cristo. Isso é andar na lei do Senhor. Os atos meramente externos constituem um legalismo severamente criticado por Jesus.
Evangelho (Mt. 5,17-37)
Eu não vim abolir, mas cumprir a lei
Jesus continua o discurso do monte, afirmando que, se o modo de agir, ou seja, se a justiça dos discípulos não for mais exigente que a dos escribas e dos fariseus, eles não participarão da construção do Reino de Deus. É isto que mostra o evangelho na liturgia de hoje: o cristianismo é muito mais exigente que o judaísmo.
Com o termo “ouvistes” se quer contrapor o ensinamento de Jesus ao ensinamento dos escribas e fariseus. Isso não significa, como muitos pensam, uma substituição do Antigo pelo Novo Testamento. Não se trata do que foi “escrito”, mas do que foi “ouvido” como homilia feita pelos doutores da lei, os mestres do judaísmo. Trata-se da interpretação de Jesus contra a interpretação dos escribas e fariseus a respeito da Sagrada Escritura.
A novidade da interpretação que Jesus faz da Escritura está na explicitação da intenção de Deus ao dar os mandamentos. Não basta, por exemplo, não matar. Devem-se evitar as palavras de desamor, de desprezo, de ressentimento contra o próximo. Era essa a intenção de Deus ao dar o mandamento “não matarás”.
“Deixa tua oferta diante do altar” (v. 24). No dia da expiação (ou do perdão, cf. Lv 16), os judeus confessam os pecados cometidos contra Deus e pedem perdão durante 24 horas. Mas acreditam que os pecados contra o “próximo” devem ser perdoados por quem sofreu a ofensa, e não por Deus; por isso, primeiramente pedem perdão ao próximo, para depois se dirigirem a Deus. Jesus faz uma mudança em relação ao judaísmo, afirmando que não somente num dia especial, mas todos os dias, os cristãos devem pedir perdão ao seu próximo para depois dirigir-se a Deus.
A compreensão dos escribas a respeito do adultério era diferente no caso da culpa da mulher e da culpa do homem. Entendiam que a mulher cometia adultério até mesmo sozinha, no coração, quando era casada e desejava outro homem. Cometia adultério quando observava um homem para vê-lo passar ou quando se exibia para ser notada por ele. Se fosse flagrada numa dessas atitudes, poderia ser apedrejada sozinha, porque seu adultério não dependia do consentimento de um homem. Jesus põe homem e mulher em pé de igualdade. Seja homem seja mulher, cada um comete adultério no coração. A intenção de Jesus é preservar a família e o matrimônio, e não lançar um fardo pesado demais sobre nossos ombros.
Quanto ao juramento, muitas vezes os judeus juravam sem pensar e se obrigavam a agir mesmo se descobrissem ser a vontade de Deus diferente do que foi prometido por juramento. Mesmo assim, algumas pessoas preferiam fazer algo que desagradava a Deus a descumprir um juramento, pois amaldiçoavam a si mesmas quando juravam (cf. 1Rs. 19,1-2). Por isso, Jesus exorta a não jurar.
1ª leitura (Eclo. 15,16-21)
Fidelidade é fazer a vontade de Deus
Esse texto da primeira leitura destaca a liberdade de escolha, o livre-arbítrio do ser humano diante da vontade de Deus. O autor bíblico acentua a responsabilidade da pessoa quando ela decide se rebelar contra Deus.
Quem obedece à vontade de Deus, expressa principalmente na Escritura, tem qualidade de vida. Se todas as pessoas cumprissem os mandamentos de não roubar e não matar, entendidos em sentido amplo, incluindo injustiças e ofensas, a sociedade de hoje seria menos violenta.
Por isso, afirma o texto bíblico que a vida e a morte estão diante do ser humano, para que ele escolha o que deseja. A vontade de Deus gera vida em plenitude, o pecado gera morte. Tanto a vida quanto a morte, entendidas nesse sentido, são consequências das escolhas humanas.
O ser humano é livre e, por conseguinte, responsável pelas próprias ações. O mal que faz ao próximo não é culpa de Deus, pois “a ninguém Deus ordenou que fizesse o mal, a ninguém Deus deu licença de pecar” (v. 21). Deus nos deu o livre-arbítrio e a capacidade de fazer as escolhas certas.
2ª leitura (1Cor. 2,6-10)
Uma sabedoria que não é deste mundo
Paulo ensina os fiéis de Corinto a cultivar a sabedoria “misteriosa e oculta” revelada por Deus, que ultrapassa a sabedoria do mundo e dos poderosos.
A sabedoria de que Paulo fala é a cruz, na qual Cristo revela o Deus despojado. Na fragilidade de sua vida humana e totalmente ofertada ao Pai como dom de amor, Jesus desvenda aquilo que Deus “preparou desde toda a eternidade” para os seres humanos: o amor ao extremo. É, pois, na adesão à vida de Cristo que consiste a sabedoria divina, não reconhecida pelos poderosos, porque foge da lógica deste mundo. Somente aquele que se despoja da própria vida será capaz de reconhecer a sabedoria de Deus, que é Jesus Cristo crucificado.
PISTAS PARA REFLEXÃO
Durante muito tempo se entendeu que fazer a vontade de Deus significava cumprir apenas seus mandamentos de forma rigorosa. No entanto, essa concepção levou muitos a cair num legalismo exacerbado, o que gerou uma moral escravizadora. Ainda hoje muita gente sofre por causa de certos julgamentos pautados numa visão legalista da Escritura. Mas a proposta de Jesus sempre foi outra. Isso não significa um relaxamento na conduta do ser humano; ao contrário, a proposta de Jesus é exigente, porque mira o interior da pessoa, no qual foi escrita a vontade de Deus. Deus não quer seus filhos escravos, mas livres. E somente no exercício da liberdade o ser humano poderá ser verdadeiramente fiel aos mandamentos divinos.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade






Formando os discípulos
Hoje, se escuta falar muito em formação permanente. Não basta apenas ter terminado um período de estudos, uma escola técnica ou uma faculdade. Tudo muda. Tudo caminha. É preciso atualizar-se. Por isso se fala em reciclagem, formação continuada e permanente.  Algo parecido acontece com a questão da fé. Não é possível que, no quadro das transformações culturais em que vivemos, as pessoas possam sobreviver e subsistir com rudimentares noções do catecismo. O cristão para tornar-se discípulo precisa permanecer demoradamente aos pés do Mestre. Não se  trata apenas de seguir cursos, mas de deixar que neste momento de nossa vida pessoal e comunitária o Senhor nos fale e nos ensope da força do  evangelho.
O sermão da Montanha de Mateus pode ajudar-nos em nossa formação permanente.
Jesus veio abolir a Lei.  Ele não é um revolucionário pelo gosto de ser revolucionário. Não apaga ou despreza o passado, mesmo apontando para o futuro. Em sua pessoa hão de  realizar-se as profecias feitas pelos profetas. Jesus fala da obediência dos mandamentos menores  como a nos dizer que não temos o direito de transmitir aos outros nossas opiniões particulares a respeito de aspectos da fé, mas aquilo que deve ser transmitido. Santificamo-nos nas coisas pequenas e simples de todos os dias.
A santidade do discípulo não pode consistir na linha da realização do mínimo. Não basta apenas uma observância dos mandamentos para não  infligir a demarcação entre o certo e o errado.  Não é digno de condenação apenas aquele que mata. O que não tem carinho para com o próximo já está foram da esfera do discípulo fiel do Mestre. “Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás. Quem matar será condenado pelo tribunal. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão ‘patife’, será condenado pelo tribunal;  quem chamar o irmão de ‘tolo’  será condenado ao fogo do inferno”. O discípulo é chamado a fazer o máximo e a manifestação generosidade com relação ao irmão.
Somos convidados a oferecer ao Senhor o sacrifício do louvor com mãos puras. Pensamos nas orações, nas liturgias e na missa. No momento em que estamos nos dirigindo para  o templo ou a capela e nos lembramos de desavenças será preciso largar ali, no corredor, a oferta e ir reconciliar-se  com o irmão.  Depois do abraço da paz refeita será possível retomar a oferta a ser levada.
Os casados fazem uma promessa de amor. Querem cumpri-la na fidelidade de todos os momentos. Esta será uma fidelidade criativa e que cresce ao longo do tempo. Evidentemente ela comporta o aspecto carnal. Mas a coisa começa antes, no jeito de olhar, no jeito do coração: “Todo aquele que olhar para um mulher com o desejo de possuí-la já cometeu adultério com ela no coração”. É sempre no coração que começa a fidelidade ou a infidelidade.
frei Almir Ribeiro Guimarães




A verdadeira justiça
Não basta observar leis para ser justo; é preciso observá-las de maneira pessoal, consciente daquilo que se está fazendo, a fim de realizar o bem a que a lei visa. Isso se chama: agir conforme o espírito da lei. Vale para a lei civil e, muito mais ainda, quando se trata da lei de Deus: devemos observá-la conforme o Espírito de Deus. A letra da lei mata, o Espírito vivifica. Os nossos pais na fé, os antigos israelitas, veneravam a Lei (religiosa e civil ao mesmo tempo) como uma encarnação da sabedoria e do espírito de Deus. O salmo responsorial  de hoje, Sl. 119 [118], é um bom exemplo disto. A Lei era uma luz, um caminho, uma razão de justo orgulho perante os outros povos (cf. Dt. 4,7-8). Graças aos mandamentos esperavam o bem que Deus lhes propunha (não o fogo, mas a água; Eclo 15,17[16]; 1ª leitura).
Mas observar a lei pode também acontecer num outro espírito, que não é o de Deus. Havia os que observavam a Lei com espírito de barganha: “Vamos fazer exatamente o que lá está escrito, nem menos nem mais; então seremos justos, e Deus nos deverá conceder o paraíso!” Certos escribas e fariseus apoderaram-se da Lei para fazer dela um instrumento de dominação (Mt 23,2-4). Jesus pretende tirar a Lei das mãos dessa gente e restituí-la a Deus, isto é, deixá-la ser novamente expressão da vontade de Deus, de seu amor e fidelidade (cf. 1ª leitura). Jesus não é contra a Lei. Antes pelo contrário, ele quer restabelecê-la em toda a sua pureza. Não a quer abolir, mas dar-lhe sua perfeição: não o legalismo farisaico, mas o Espírito de Deus mesmo (Mt 5,17-20, evangelho).
Ora, restituir a Lei a Deus significa uma profunda conversão da nossa “justiça” (cf. Mt 5,20). Significa, no fundo, que nossa justiça, enquanto ela só vier de nós mesmos, nunca será suficiente para observar a Lei. Pois, entendida segundo o espírito do legislador, ninguém conseguirá jamais realizar tudo o que Deus quis sugerir através da Lei. “Não matarás”, cita Jesus, mas também não sufocarás psicologicamente teu irmão por desprezo e rixa. “Não adulterarás” (5,27), mas também não alimentarás cobiça por mulher alheia no teu coração. O divórcio (mais exatamente, o repúdio da esposa) entrou na lei de Moisés, mas não era da intenção de Deus (cf. Mt. 19,1ss); conforme o espírito de Deus não deve haver divórcio, pois, se o divórcio for alguma vez o mal menor, nunca será um bem … Mesmo jurar é uma aberração, se a gente considera bem, pois Deus quer que sempre se diga a verdade; por que então jurar (Mt. 5, 33-37)?
Com sua tremenda radicalidade na interpretação da Lei, Jesus derruba toda auto-suficiência. Diante de Deus, ninguém é sem pecado (cf. SI. 130[129],3). Mas isso não nos dispensa de tentar fazer o melhor que podemos. Os fariseus punham, através de sua casuística, a Lei em moldes humanos e, depois, se gabavam de a ter observado perfeitamente. Jesus mostra a dimensão infinita e inesgotável da vontade de Deus, da qual os mandamentos são uma expressão fraca. Pela radicalidade de Jesus tomamos consciência de ficarmos devendo; e é muito salutar essa consciência: é o começo de nossa salvação. Nunca estaremos em dia com Deus, mas, fazendo aquilo de que somos capazes, podemos contar com sua graça, pois ele é o nosso Pai. Essa certeza enquadra a liturgia de hoje (canto da entrada, oração do dia).
Na 2ª leitura continua a exposição de Paulo sobre a sabedoria do mundo e a de Deus. Esta “despistou” os poderosos do cosmo, fazendo com que o Filho de Deus viesse entre nós revestido de fragilidade. Se a sabedoria e o poder do mundo tivessem reconhecido o Deus despojado que é Cristo, não o teriam crucificado; teriam tratado de “cooptá-lo … “. Pode-se estabelecer um paralelo: a oposição entre o auto-suficiente legalismo farisaico e a “absurda” radicalidade do Sermão da Montanha por um lado, e a oposição entre a brilhante sabedoria grega e o absurdo da Cruz por outro. Em ambos os casos, Deus se mostra infinitamente superior aos critérios humanos. Só reconhecendo isso, temos chances de nos entendermos com ele.
Johan Konings "Liturgia dominical"





Jesus, no Evangelho de hoje, diz que não veio para destruir a Lei antiga, referindo-se aos dez mandamentos recebidos por Moisés, mas para ensinar a cumpri-las plenamente. O que Ele pretende é restaurar, aperfeiçoar as ordens estabelecidas ao povo de Israel.
O Primeiro Testamento prometia o Reino de Deus que traria bem-estar, prosperidade e felicidade para todos e o cumprimento fiel da Lei contida nas escrituras era a forma de se conquistar estas promessas.
Naquele tempo os escribas eram os doutores intelectuais, que se julgavam donos do saber e, portanto, aptos a interpretar as Escrituras para os outros, criticando os que a descumpriam segundo as suas próprias interpretações e incluindo Jesus nas suas críticas. Como pessoas esclarecidas, os escribas sabiam muito bem o que se devia fazer, mas não o faziam e nem sempre ensinavam aos outros o que Deus pedia, criando uma burocracia que escravizava e controlando duramente a população.
Jesus ensina que não veio abolir as leis, e sim ensinar como elas deveriam ser realmente compreendidas e praticadas, ensinando, dessa forma um novo jeito de viver a liberdade e a justiça, não simplesmente observando o teor burocrático e imperativo.
Para falar sobre a forma como isto se dá, Jesus retoma algumas exigências da lei, procurando esclarecer que as normas e regras devem servir de inspiração para a justiça e misericórdia, a fim de que o homem tenha vida e relações mais fraternas. Ele mostra que, para praticar a lei é necessário antes de qualquer coisa, compreendê-la, buscar nela o discernimento que faz enxergar profundamente as situações, possibilitando desta forma transformá-la em uma ação que liberta, tirando dela o conceito de escravidão.
Mateus apresenta no Evangelho alguns exemplos que evidenciam como a lei deve ser entendida. O ato de matar, por exemplo, começa pelo ressentimento e pela raiva. É preciso cortá-lo pela raiz, resolvendo dessa forma o ódio que pode levar às situações extremas.
Além deste discernimento capaz de ditar atos novos em situações de ofensa à lei, Jesus pede a verdade sempre. A necessidade de juramento é sinal de que a mentira e a desconfiança pervertem as relações humanas. Jesus exige relacionamentos em que as pessoas sejam verdadeiras e responsáveis, esta é condição para a prática da justiça e da misericórdia, capaz de conduzir o homem ao Reino prometido por Deus.
Os ensinamentos de Jesus levam o cristão a um novo jeito de se relacionar com Deus, não com atos de barganha, onde se faz aqui para ganhar ali, mas com espírito livre, que age por amor a Deus e ao próximo, seguindo as orientações de Jesus que diz que, se se cumprir o primeiro mandamento, os outros serão cumpridos por consequência.
O ponto de referência para as obras que conduzem ao Amor do Pai, é a própria Bíblia sintetizada nos mandamentos que nascem na prática de Jesus e de seus seguidores que são convocados à pratica da justiça que conduz à vida. A única forma de encontrar Deus e prestar-lhe culto é criar relações de justiça que geram fraternidade e vida para todos.
Pequeninos do Senhor






Eu, porém, vos digo ...
O elenco de antíteses, proclamadas por Jesus, tem um caráter polêmico, a começar pela introdução: "Vocês ouviram o que foi dito (por Deus) aos antigos". Ele se referia aos pais do povo hebreu mormente os que haviam recebido a Lei no Sinai e fizeram a primeira tentativa de explicá-la para o povo. Por conseguinte, Jesus não se referia aos rabinos de seu tempo e sim a quem recebera de Deus o encargo de transmitir sua Lei ao povo.
Este era o ensinamento questionado por Jesus. Ensinamento de origem divina, cuja autoridade era inquestionável. A ousadia do Mestre era patente!
A este ensinamento venerável e tradicional, Jesus pretendia contrapor outro mais radical, também em conformidade com o querer divino. E não algo puramente humano, sem transcendência. O ensinamento saído de sua boca, diferentemente daquele dos mestres antigos, estava em perfeita sintonia com Deus.
Jesus não se colocou na contramão do Deus do Antigo Testamento. Tendo-lhe sido dado todo poder, no Céu e na Terra, estava suficientemente autorizado para penetrar no âmago dos mandamentos do Decálogo e extrair um sentido muito mais radical do que até então se lhe atribuía. Seu ensinamento superava a materialidade da letra dos mandamentos, revelando o espírito neles subjacente. Neste nível profundo, Jesus revelava também o verdadeiro projeto de Deus para a humanidade.
padre Jaldemir Vitório





Uma fonte de bênção
Encontramos no texto deste domingo do livro do Eclesiástico (Eclo 15,16-17) ressonâncias de Dt. 30,15-20, situado no longo e último discurso de Moisés. Aí achamos as duas vias apresentadas pelo Senhor para a decisão de cada membro do povo de Deus (cf. tb. Eclo 15,16b.17b), e uma forte exortação a guardar os mandamentos do Senhor (Dt. 30,16.19b-20). É no cumprimento dos mandamentos da Lei de Deus que está a vida e a felicidade. A influente tradição deuteronomista insiste que o cumprimento irrepreensível da Lei é uma fonte de bênção (cf. Dt. 28,1-14); sua rejeição, uma fonte de maldições (Dt. 28,15ss).
O evangelho deste domingo, situado no início do longo “sermão da montanha” (5–7), começa por eliminar um equívoco (v. 7a) que, certamente, perdurou por longo período e foi ocasião de disputas não somente entre Jesus e os seus contemporâneos, mas entre judeus e cristãos. O modo como Jesus interpretava e punha em prática a Lei de Moisés desconcertava a tal ponto que fazia com que seus contemporâneos e a geração posterior pensassem que ele desprezava e revogava a Lei de Moisés. As antíteses que se seguem (vv. 21-37) são o exemplo claro de que Jesus ultrapassa a letra da Lei, superando um rigorismo sufocante, considerado um fardo pesado que impedia de entrar na finalidade própria da Lei, dada por Deus ao seu povo para preservar o dom da vida e da liberdade. Parece que é exatamente isso que Jesus quer dizer ao afirmar que, para a comunidade que ele reúne, a justiça, isto é, o modo de proceder em conformidade com a vontade de Deus expressa na Lei, deve superar o rigorismo dos escribas e fariseus (cf. v. 20). É em Jesus que a Lei e os profetas alcançam o seu pleno cumprimento e sentido, pois apontam para ele. A expressão “Lei e os profetas” é um modo bíblico de designar a Escritura na sua totalidade. Esses dois termos estão intrinsecamente relacionados: a Lei é necessária para atestar e confirmar a veracidade da profecia; a profecia é necessária para interpretar e pôr corretamente em prática a Lei. Jesus não revoga a Lei de Moisés, mas, agora, na plenitude dos tempos, ela precisa ser interpretada à luz da revelação de Jesus Cristo (cf. Mt. 5,17; 7,12; 22,40). No centro dessa “nova justiça” estão o amor, o perdão e a reconciliação, a misericórdia, a unidade e o acolhimento, que incluem e integram a todos na comunhão com Deus.
Carlos Alberto Contieri,sj






A liturgia de hoje garante-nos que Deus tem um projeto de salvação para que o homem possa chegar à vida plena e propõe-nos uma reflexão sobre a atitude que devemos assumir diante desse projeto.
Na segunda leitura, Paulo apresenta o projeto salvador de Deus (aquilo que ele chama “sabedoria de Deus” ou “o mistério”). É um projeto que Deus preparou desde sempre “para aqueles que o amam”, que esteve oculto aos olhos dos homens, mas que Jesus Cristo revelou com a sua pessoa, as suas palavras, os seus gestos e, sobretudo, com a sua morte na cruz (pois aí, no dom total da vida, revelou-se aos homens a medida do amor de Deus e mostrou-se ao homem o caminho que leva à realização plena).
A primeira leitura recorda, no entanto, que o homem é livre de escolher entre a proposta de Deus (que conduz à vida e à felicidade) e a auto-suficiência do próprio homem (que conduz, quase sempre, à morte e à desgraça). Para ajudar o homem que escolhe a vida, Deus propõe “mandamentos”: são os “sinais” com que Deus delimita o caminho que conduz à salvação.
O Evangelho completa a reflexão, propondo a atitude de base com que o homem deve abordar esse caminho balizado pelos “mandamentos”: não se trata apenas de cumprir regras externas, no respeito estrito pela letra da lei; mas trata-se de assumir uma verdadeira atitude interior de adesão a Deus e às suas propostas, que tenha, depois, correspondência em todos os passos da vida.
1º leitura: Sir. 15,16-21 (15-20) - AMBIENTE
O livro de Ben Sira (designado na Bíblia católica com o nome de “Eclesiástico”) é um livro “sapiencial” – isto é, um livro cujo objetivo é apresentar indicações de caráter prático, deduzidas da reflexão e da experiência, sobre a arte de viver bem, de ter êxito, de ser feliz (é essa a temática da reflexão sapiencial no Médio Oriente, em geral, e em Israel, em particular). O seu autor é um tal Jesus Ben Sira, um judeu tradicional, convencido que a Tora (a Lei) dada por Deus a Israel é a súmula da sabedoria.
Estamos no início do séc. II a.C.; a cultura grega (instalada na Palestina desde 333 a.C., quando Alexandre da Macedônia venceu Dario III, em Issos, e se apossou da Palestina e do Egito) minava há já algum tempo, a cultura, a fé, os valores tradicionais de Israel. Os mais jovens abandonavam a fé dos pais, seduzidos pelo brilho superior dessa cultura universal, que era a cultura helênica.
Jesus Ben Sira escreve para ajudar os israelitas a perceber a singularidade da sua fé e da sua cultura, a fim de que não se perca a identidade do Povo de Deus. Apresenta, na sua obra, uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel, mostrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega.
Nos capítulos 14 e 15 do livro de Ben Sira, há uma reflexão sobre como encontrar a verdadeira felicidade. É nesse contexto que devemos situar o nosso texto: dirigindo-se aos seus concidadãos, seduzidos pela cultura grega, Jesus Ben Sira sugere-lhes o caminho da verdadeira felicidade e convida-os a percorrê-lo.
MENSAGEM
O tema da opção entre dois caminhos – o caminho da vida e da felicidade e o caminho da morte e da desgraça – é um tema caro à teologia tradicional de Israel. Para os teólogos deuteronomistas, essa é a grande questão que condiciona o sentido da vida do homem e o sentido da história: se o homem escolhe caminhos de orgulho e de auto-suficiência, à margem de Deus e dos mandamentos, prepara para si e para a comunidade em que está inserido um futuro de morte e de desgraça; mas se o homem escolhe viver no “temor” de Deus e no respeito pelas propostas de Jahwéh (mandamentos), ele constrói para si e para o seu Povo um futuro de felicidade, de bem estar, de abundância, de paz. A questão está muito bem expressa em Dt. 30,15-20.
A reflexão sapiencial tradicional mantém-se na mesma linha. Os “sábios” de Israel já perceberam (inclusive a partir da experiência que a própria história da sua nação lhes forneceu) que, quando respeita as indicações de Deus (mandamentos), o Povo constrói uma sociedade fraterna, livre, solidária, onde todos se respeitam e têm o que é necessário para viver de forma equilibrada e feliz; mas quando o Povo escolhe caminhos à margem de Jahwéh e faz “orelhas moucas” às propostas de Deus, constrói egoísmo, exploração, divisão e, portanto, sofrimento, privações, morte. As grandes catástrofes nacionais (nomeadamente o exílio na Babilônia) resultaram de opções por caminhos à margem de Deus e dos seus mandamentos.
Neste texto, Jesus Ben Sira pretende colocar os homens do seu tempo – sobretudo aqueles que oscilavam entre os valores da fé dos pais e os valores mais “in” da cultura dominante – diante da opção fundamental que a liberdade lhes oferece: a vida e a morte, a felicidade e a desgraça.
Um pormenor notável reside na convicção (aqui muito bem expressa) de que Deus respeita absolutamente a liberdade do homem. O homem não é, segundo Ben Sira, um títere nas mãos de Deus, ou um robot que Deus liga e desliga com o seu comando; mas o homem é um ser livre, que faz as suas escolhas (escolhas que condicionam, necessariamente, o seu futuro) e que tem nas suas mãos o próprio destino. Deus indica ao homem os caminhos para chegar à vida e à felicidade; mas, depois, respeita absolutamente as opções que o homem faz. Resta ao homem fazer as suas escolhas e construir o seu destino: ou com Deus, ou contra Deus; ou um destino de vida e felicidade, ou um destino de morte e de desgraça.
ATUALIZAÇÃO
• A questão fundamental que aqui nos é posta é esta: existem caminhos diversos, opções várias, que dia a dia nos interpelam e desafiam. Em cada momento, corremos o risco da liberdade, assumimos o supremo desafio de escolher o nosso destino. Sentimos essa responsabilidade e procuramos responder ao desafio, ou passamos a vida a encolher os ombros e a deixar-nos ir na corrente, ao sabor das modas, do “politicamente correto”, aceitando que sejam os outros a impor-nos os seus esquemas, os seus valores, a sua visão das coisas?
• Uma proposta leva à vida e à felicidade. Quem quiser ir por aí, tem de seguir os “sinais” (mandamentos) com que Deus delimita o caminho que leva à vida. Percorrer esse caminho implica, evidentemente, viver numa escuta permanente de Deus, num diálogo nunca acabado com Deus, numa descoberta contínua das suas propostas. Esforço-me por viver na escuta de Deus e por descobrir os “sinais” que Ele me deixa?
• A outra proposta leva à morte. É o caminho daqueles que escolhem o egoísmo, a auto-suficiência, o orgulho, o isolamento em relação a Deus e às suas sugestões. Ao fechar-se em si e ao ignorar as propostas de Deus, o homem acaba por escolher os seus interesses e por manipular o mundo e os outros homens, introduzindo desequilíbrios que geram injustiça, miséria, exploração, sofrimento, morte. Talvez nenhum de nós escolha, conscientemente, este caminho; mas o orgulho, a ambição, a vontade de afirmar a nossa independência e liberdade, podem levar-nos (mesmo sem o notarmos) a passar ao lado dos “sinais” de Deus e a ignorá-los, resvalando por atalhos que vão dar ao egoísmo, ao fechamento em nós. Em cada dia que começa, é preciso fazer o balanço do caminho percorrido e renovar as nossas opções.
• Este texto levanta, também, a questão da liberdade. A Palavra de Deus que aqui nos é proposta deixa claro que Deus nos criou livres e que respeita absolutamente as nossas opções e a nossa liberdade. Deus não é um empecilho à liberdade e à realização plena do homem. Ele coloca-nos diante das diferentes opções, diz-nos onde elas nos levam, aponta o caminho da verdadeira felicidade e da realização plena e… deixa-nos escolher.
• Atenção: a morte e a desgraça nunca são um castigo de Deus por nos termos portado mal e por termos escolhido caminhos errados; mas é o resultado lógico de escolhas egoístas, que geram desequilíbrios e que destroem a paz, o equilíbrio, a harmonia do mundo, da família e de mim próprio.
2ª leitura: 1Cor. 2, 6-10 - AMBIENTE
Continuamos no ambiente da comunidade cristã de Corinto e à volta da discussão sobre a verdadeira sabedoria. Recordemos que o ponto de partida para a reflexão de Paulo é a pretensão dos coríntios em equiparar a fé cristã a um qualquer caminho filosófico, que devia ser percorrido sob a orientação de mestres humanos (para uns, Paulo, para outros Pedro, para outros Apolo), à maneira do que se fazia nas escolas filosóficas gregas. Os coríntios corriam, dessa forma, o risco de fazer da fé uma ideologia, mais ou menos brilhante conforme as qualidades pessoais ou a elegância do discurso dos mestres que defendiam as teses. Paulo está consciente, no entanto, que o único mestre é Cristo e que a verdadeira sabedoria não é a que resulta do brilho e da elegância das palavras ou da coerência dos sistemas filosóficos, mas é a que resulta da cruz.
Depois de denunciar a pretensão dos coríntios em encontrar nos homens a verdadeira proposta de sabedoria para chegar a uma vida plena, Paulo vai apresentar – de forma mais desenvolvida – a “sabedoria de Deus”.
MENSAGEM
Para Paulo, falar da “sabedoria de Deus” é falar do projeto de salvação que Deus preparou para a humanidade (noutros textos, Paulo usa um outro conceito para falar da mesma coisa: “mystêrion” – cf. Rm. 16,25; Ef. 1,3-10; 3,3.4.9; Col. 1,26; 2,2; 4,3). Trata-se de um plano “que Deus preparou para aqueles que o amam”, no sentido de os levar à salvação, à vida plena. Esse plano resulta do amor e da solicitude de Deus pelos seus filhos, os homens. É um plano que o próprio Deus manteve misterioso e oculto durante muitos séculos, e só revelou através do seu Filho, Jesus Cristo (antes de revelação feita através das palavras, dos gestos, da pessoa de Cristo, dificilmente os homens estariam preparados para compreender o alcance e a profundidade do plano divino, da “sabedoria de Deus”).
Na leitura que Paulo faz da história da salvação, as coisas são claras: Deus escolheu-nos desde sempre e quis que nos tornássemos santos e irrepreensíveis, a fim de chegarmos à vida eterna, à felicidade total, à realização plena. Por isso, veio ao nosso encontro, fez aliança conosco, indicou-nos os caminhos da vida e da felicidade; e, na plenitude dos tempos, enviou ao nosso encontro o seu próprio Filho, que nos libertou do pecado, que nos inseriu numa dinâmica de amor e de doação da vida e que nos convocou à comunhão com Deus e com os irmãos. Na cruz de Jesus, está bem expressa esta história de amor que vai até ao ponto de o próprio Filho dar a vida por nós… Esse plano de salvação continua, agora, a acontecer na vida dos crentes pela ação do Espírito: é o Espírito que nos anima no sentido de nascermos, dia a dia, como homens novos, até nos identificarmos totalmente com Cristo.
ATUALIZAÇÃO
• O projeto de salvação que Deus tem para os homens, e que resulta do seu imenso amor por nós, é um projeto que nos garante a vida definitiva, a realização plena, a chegada ao patamar do Homem Novo, a identificação final com Cristo. Os crentes são, em consequência deste dinamismo de esperança que o projeto de salvação de Deus introduz na nossa história, pessoas que olham a vida com os olhos cheios de confiança, que sabem enfrentar sem medo nem dramas as crises, as vicissitudes, os problemas que o dia-a-dia lhes apresenta, e que caminham cumprindo a sua missão no mundo, em direcção à meta final que Deus tem reservada para aqueles que O amam.
• No entanto, Deus não força ninguém: a opção pelo caminho que conduz à vida plena, ao Homem Novo, é uma escolha livre que cada homem e cada mulher devem fazer. O que Deus faz é ladear o nosso caminho de “sinais” (mandamentos) que indicam como chegar a essa meta final de vida definitiva. Como é que eu percorro esse caminho: na atenção constante aos “sinais” de Deus, ou na auto-suficiência de quem quer ser o responsável único pela sua liberdade e não precisa de Deus para nada?
Evangelho: Mt. 5,17-37 - AMBIENTE
Terminado o preâmbulo do “sermão da montanha” (que vimos nos dois anteriores domingos), entramos no corpo do discurso. Recordamos aquilo que dissemos nos domingos anteriores: o discurso de Jesus “no cimo de um monte” transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus Se revelou e deu ao seu Povo a Lei; agora, é Jesus que, numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus essa nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao “Reino”. Neste discurso (o primeiro dos cinco grandes discursos que Mateus apresenta), o evangelista agrupa um conjunto de “ditos” de Jesus e oferece à comunidade cristã um novo código ético, a nova Lei, que deve guiar os discípulos de Jesus na sua marcha pela história.
Para entendermos o “pano de fundo” do texto que nos é hoje proposto, convém que nos situemos no ambiente das comunidades cristãs primitivas e, de forma especial, no ambiente da comunidade mateana: trata-se de uma comunidade com fortes raízes judaicas, na qual preponderam os cristãos que vêm do judaísmo. As questões que a comunidade põe, na década de oitenta (quando este Evangelho aparece), são: continuamos obrigados a cumprir a Lei de Moisés? Jesus não aboliu a Lei antiga? O que é que há de verdadeiramente novo na mensagem de Jesus?
MENSAGEM
Mateus tenta conciliar as tendências e as respostas dos vários grupos que, no contexto da sua comunidade cristã, eram dadas a estas questões.
Na primeira parte do Evangelho que hoje nos é proposto (vs. 17-19), Mateus sustenta que Cristo não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu Povo no Sinai. A Lei de Deus conserva toda a validade e é eterna; no entanto, é preciso encará-la, não como um conjunto de prescrições legais e externas, que obrigam o homem a proceder desta ou daquela forma rígida, no contexto desta ou daquela situação particular, mas como a expressão concreta de uma adesão total a Deus (adesão que implica a totalidade do homem, e que está para além desta ou daquela situação concreta). Dito de outra forma: os fariseus (que eram a corrente dominante no judaísmo pós-destruição de Jerusalém) tinham caído na casuística da Lei e achavam que a salvação passava pelo cumprimento de certas normas concretas; mas Mateus achava que a proposta libertadora de Jesus ia mais além e passava por assumir uma atitude interior de compromisso total com Deus e com as suas propostas.
Na segunda parte do texto que nos é proposto (vs. 20-37), Mateus refere quatro exemplos concretos desta nova forma de entender a Lei (na realidade, são seis os exemplos que aparecem no conjunto do texto mateano; mas o Evangelho de hoje só apresenta quatro).
O primeiro (vs. 21-26) refere-se às relações fraternas. A Lei de Moisés exige, simplesmente, o não matar (cf. Ex. 20,13; Dt. 5,17); mas, na perspectiva de Jesus (que não se resume ao cumprimento estrito da letra da Lei, mas exige uma nova atitude interior), o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao irmão. Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os discípulos do “Reino” não podem limitar-se a cumprir a letra da Lei; têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os leve a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do irmão. A propósito, Mateus aproveita para apresentar à sua comunidade uma catequese sobre a urgência da reconciliação (o cortar relações com o irmão, afastá-lo da relação, marginalizá-lo, não é uma forma de matar?). Na perspectiva de Mateus, a reconciliação com o irmão deve sobrepor-se ao próprio culto, pois é uma mentira a relação com Deus de alguém que não ama os irmãos.
O segundo (vs. 27-30) refere-se ao adultério. A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex. 20,14; Dt. 5,18); mas, na perspectiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e atacar a raiz do problema – ou seja, o próprio coração do homem… É no coração do homem que nascem os desejos de apropriação indevida daquilo que não lhe pertence; portanto, é a esse nível que é preciso realizar uma “conversão”. A referência a arrancar o olho que é ocasião de pecado (o olho é, nesta cultura, o órgão que dá entrada aos desejos) ou a cortar a mão que é ocasião de pecado (a mão é, nesta cultura, o órgão da ação, através do qual se concretizam os desejos que nascem no coração) são expressões fortes (bem ao gosto da cultura semita mas que, no entanto, não temos de traduzir à letra) para dizer que é preciso atuar lá onde as ações más do homem têm origem e eliminar, na fonte, as raízes do mal.
O terceiro (vs. 31-32) refere-se ao divórcio. A Lei de Moisés permite ao homem repudiar a sua mulher (cf. Dt. 24,1); mas, na perspectiva de Jesus, a Lei tem de ser corrigida: o divórcio não estava no plano original de Deus, quando criou o homem e a mulher e os chamou a amarem-se e a partilharem a vida.
O quarto (vs. 33-37) refere-se à questão do julgamento. A Lei de Moisés pede, apenas, a fidelidade aos compromissos selados com um juramento (cf. Lv. 19,12; Nm. 20,3; Dt. 23,22-24); mas, na perspectiva de Jesus, a necessidade de jurar implica a existência de um clima de desconfiança que é incompatível com o “Reino”. Para os que estão inseridos na dinâmica do “Reino”, deve haver um tal clima de sinceridade e confiança que os simples “sim” e “não” bastam. Qualquer fórmula de juramento é supérflua e sinal de corrupção da dinâmica do “Reino”.
A questão essencial é, portanto, esta: para quem quer viver na dinâmica do “Reino”, não chega cumprir estrita e casuisticamente as regras da Lei; mas é preciso uma atitude interior inteiramente nova, um compromisso verdadeiro com Deus que envolva o homem todo e lhe transforme o coração.
ATUALIZAÇÃO
• Os discípulos de Jesus são convidados a viver na dinâmica do “Reino”, isto é, a acolher com alegria e entusiasmo o projeto de salvação que Deus quis oferecer aos homens e a percorrer, sem desfalecer, num espírito de total adesão, o caminho que conduz à vida plena.
• Cumprir um conjunto de regras externas não assegura, automaticamente, a salvação, nem garante o acesso à vida eterna; mas, o acesso à vida em plenitude passa por uma adesão total (com a mente, com o coração, com a vida) às propostas de Deus. Os nossos comportamentos externos têm de resultar, não do medo ou do calculismo, mas de uma verdadeira atitude interior de adesão a Deus e às suas propostas. É isso que se passa na minha vida? Os “mandamentos” são, para mim, princípios sagrados que eu tenho de cumprir, mecanicamente, sob pena de receber castigos (o maior dos quais será o “inferno”), ou são indicações que me ajudam a potenciar a minha relação com Deus e a não me desviar do caminho que conduz à vida? O cumprimento das leis (de Deus ou da Igreja) é, para mim, uma obrigação que resulta do medo, ou o resultado lógico da opção que eu fiz por Deus e pelo “Reino”?
• “Não matar”, é, segundo Jesus, evitar tudo aquilo que cause dano ao meu irmão. Tenho consciência de que posso “matar” com certas atitudes de egoísmo, de prepotência, de autoritarismo, de injustiça, de indiferença, de intolerância, de calúnia e má língua que magoam o outro, que destroem a sua dignidade, o seu bem estar, as suas relações, a sua paz? Tenho consciência que brincar com a dignidade do meu irmão, ofendê-lo, inventar caminhos tortuosos para o desacreditar ou desmoralizar é um crime contra o irmão? Tenho consciência que ignorar o sofrimento de alguém, ficar indiferente a quem necessita de um gesto de bondade, de misericórdia, de reconciliação, é assassinar a vida?
• Não podemos deixar, nunca, que as leis (mesmo que sejam leis muito “sagradas”) se transformem num absoluto ou que contribuam para escravizar o homem. As leis, os “mandamentos”, devem ser apenas “sinais” indicadores desse caminho que conduz à vida plena; mas o que é verdadeiramente importante, é o homem que caminha na história, com os seus defeitos e fracassos, em direção à felicidade e à vida definitiva.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho


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