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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 7 de abril de 2017

DOMINGO DE RAMOS- ANO A

Domingo de Ramos da Paixão do Senhor da Quaresma
9 de Abril de 2017
Cor: Vermelho
Evangelho - Mt 26,14-27,66


·     Domingo de ramos marca o início da Semana Santa, na qual vamos com todo respeito e devoção relembrar o sofrimento, paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. É bom lembrar mais uma vez, que Jesus não morre nesta semana. Portanto, não se explica atitudes piegas de lágrimas e gestos piedosos exagerados.  Continuar lendo



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“HOSANA AO FILHO DE DAVI! BENDITO O QUE VEM EM NOME DO SENHOR”! – Olívia Coutinho

DOMINGO DE RAMOS.


Iniciamos hoje a Semana Santa!
Para nós, cristãos católicos, a Semana Santa é um tempo forte, quando estaremos reunidos em nossas comunidades, para contemplarmos os últimos passos de Jesus a caminho da cruz e nos prepararmos, para vivermos de maneira intensa, livre e amorosa o acontecimento mais importante do ano litúrgico que é a PÁSCOA DO SENHOR JESUS!
Aprendemos muito durante a nossa caminhada Quaresmal, mas ainda há muito que aprender, afinal, temos uma missão muito importante pela frente: fazer chegar a muitos corações sombrios, a Luz do Cristo Ressuscitado! O caminho que percorremos durante estes quarenta dias de retiro interior, nos aproximou mais de Deus, nos fez mergulhar no mistério do seu amor, a conscientizar da nossa necessidade de conversão. A liturgia nos apresentada nestes dias, trouxe-nos a certeza de que temos tudo para sermos felizes: um Pai que nos ama, que não leva em conta as nossas ingratidões, um Pai que não desiste de nós, que enviou o seu Filho para nos recolocar no caminho da vida! Não pensemos que foi fácil para Jesus, passar por tamanho sofrimento, mesmo sendo Deus, Jesus não estava isento do sofrimento. Ao assumir a natureza humana, Ele assumiu-a por inteiro, exceto no pecado. Se quisesse, Jesus poderia ter recusado a cruz, mas Ele não a recusou, em obediência ao Pai, em querer levar em frente o seu projeto de vida plena para todos! Uma obediência, que resultou na sua morte, morte, que também não foi da vontade de Deus e sim, por consequência da maldade humana. Deus poderia ter retirado a cruz do seu Filho, mas não o fez, por amor a cada um de nós! Foi para nos devolver a vida, que Deus deixou que o seu Filho pagasse com a vida, o preço do nosso resgate.
A entrada festiva de Jesus em Jerusalém marcou o início de seu calvário! Ele entra em Jerusalém, aclamado como Rei e Senhor da glória, o Rei e Senhor dos pobres, o povo sem vez e sem voz! Para identificar-se com estes, Jesus entra na cidade, montado num jumentinho, o meio de transporte usado pelo o povo simples daquela época. A sua entrada triunfal em Jerusalém, foi uma maneira forte de proclamar a chegada do Messias, o Rei tão esperado e desejado pelos os “pequenos!”
“As multidões que iam à frente de Jesus e os que o seguiam, gritavam: “Bendito o que vem em nome do Senhor”! Tamanha aclamação, provocou ira nos seus adversários, que ao se sentirem ameaçados de perder o poder, apressaram em dar fim na pessoa de Jesus.
Nas celebrações da Semana Santa, nós nos comovemos diante as encenações da Paixão e morte de Jesus, achamos uma maldade imensa, o que fizeram com Ele, mas será que hoje, nós também, não continuamos, de alguma forma, fazendo o mesmo com Ele, na pessoa do nosso irmão? Será que não estamos crucificando Jesus com as nossas atitudes do dia a dia? Toda vez que não praticamos a justiça, a solidariedade, que negamos ajuda ao nosso irmão, estamos também crucificando Jesus! E ao contrário, todo vez que praticamos a justiça, que promovemos o nosso irmão, estamos ressuscitando Jesus! Rasguemos pois, as vestes do “homem” velho, para nos revestir do “homem” novo, que aprendeu com Jesus a partilhar a vida, a ser vida na vida do outro, para que assim, possamos desde já, vivenciar o grande sentido da Páscoa, que é Passagem... Vida nova... Renovação...
Celebrar a Páscoa é celebrar a vida, é resgatar valores hoje tão esquecidos, como o amor, a justiça o perdão...
Como verdadeiros seguidores de Jesus, devemos estar sempre disposto a enfrentar todo e qualquer desafio para levar em frente a nossa missão de portadores e anunciadores da grande notícia: Jesus ressuscitou Ele vive entre nós!
Com os pés no chão e o olhar para o alto, carreguemos a nossa cruz, certos de que um dia, nós também ressuscitaremos com Jesus!
Quiseram eliminar aquele que acolheu os pobres, os abandonados, que defendeu a vida, mas não conseguiram, pois a vida vence onde o amor se faz presente!

(Conscientizados do nosso compromisso em cuidar da Natureza, criação de Deus, não quebremos galhos de nossas plantas, aclamemos Jesus, com plantas vivas! Ele ficará muito mais feliz!)
CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2017:
CULTIVAR E GUARDAR A CRIAÇÃO. (Gn 2,15)

DESEJO A TODOS UMA PROVEITOSA SEMANA SANTA!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia Coutinho


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Saber entender a paixão de Cristo
Na antiguidade clássica dizia-se que o tempo de sofrimento estava muito perto do tempo de realização e de alegria. Os romanos tinham um provérbio: “O Capitólio está muito perto da Rocha Tarpeia”. O Capitólio era o lugar da consagração dos heróis. A Rocha Tarpeia era o abismo para onde se lançavam os condenados. Os judeus tinham um dito semelhante: “O Pináculo do Tempo está muito perto do fogo da Geena”. O Pináculo era o lugar mais alto do Templo de onde se avistava, simbolicamente, o mundo todo. A Geena era a lixeira de Jerusalém que estava sempre a arder, queimando tudo o que ali se lançava.
O domingo de Ramos consagra estas duas faces do homem. Celebra-se a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, sendo aclamado por todos que gritam “Bendito o Filho de David, o que vem em nome do Senhor”. Depois, no coração da liturgia, lê-se a Paixão, com todo o drama do sofrimento que revestiu a fase final da vida de Jesus. Perante o sofrimento vivido por Cristo e que significa também a dor vivida por todos os homens, compreende-se a súplica de Isaías: “Que eu saiba dar uma palavra de alento aos que andam abatidos” (Is. 50,4-5). Também na Carta aos Filipenses, Paulo relaciona a Cruz de Cristo à exaltação que o Pai lhe concede pela sua incondicional fidelidade.
A Paixão está no centro da celebração litúrgica de hoje: começa pelo anúncio da traição de Judas. Conta-se a celebração da Última Ceia, assiste-se à negação de Pedro, depois de uma noite de oração cheia de angústia. Jesus sofre, então, quatro julgamentos: no Tribunal religioso com Caifás, no Tribunal político com Pilatos, no Tribunal étnico com Herodes e, finalmente, no Tribunal popular com a multidão que grita: “Crucifica-O, crucifica-O”. O caminho do Calvário permite repensar muitas situações das nossas vidas. Ao reler a Paixão de Cristo, reconhece-se que Jesus quer viver toda a experiência humana. Ele levou até ao fim a sua cruz, também os cristãos são convidados a aceitar a cruz de cada dia e a oferecê-la, de forma redentora, pelos nossos irmãos.
A Paixão de Cristo não esgota a sua missão redentora. Ele venceu todo o sofrimento, todas as cruzes, todas as mortes. A vida dos cristãos será também vencer as inúmeras dificuldades com a força redentora do Evangelho.
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”



Na liturgia do domingo de Ramos, a Igreja dá-nos uma perspectiva global da Paixão de Cristo. Na quinta-feira santa, faz-nos participar na última Ceia. Na sexta-feira santa, convida-nos à “compaixão”, pela morte do Senhor e por todos os sofrimentos dos homens. Na noite de sábado, celebra a Ressurreição.
As cerimônias deste domingo começam com a procissão dos Ramos, evocando a entrada de Jesus em Jerusalém dias antes da Páscoa: o povo aclama-o como Rei e Messias; mas Ele vem montado num burrinho, para cumprir a profecia de Zacarias, mas sobretudo porque a simplicidade e a pobreza são a sua maneira de viver. “Eis que o teu Rei vem a ti. Ele é justo e vitorioso. Vem, humilde, montado num jumentinho, filho de uma jumenta. Ele exterminará os carros de guerra…, proclamará a paz para as nações.” (Zc. 9,9-10).
A oração da missa proclama que Deus nos enviou Seu Filho na humildade e no dom de si mesmo; e pede que nos seja dada a graça de seguir os ensinamentos da paixão, “para merecermos tomar parte na glória da sua ressurreição”.
A primeira leitura é tirada do Livro de Isaías (segunda parte, escrita depois do regresso do cativeiro na Babilônia). É o terceiro dos “cânticos do Servidor de Deus”. “Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face àqueles que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam” (Is. 50,4-7).
O salmo responsorial (Sl. 21/22) é uma das palavras mais profundas do Antigo Testamento. Um justo, rodeado pelos inimigos e a ponto de sucumbir, lamenta-se perante Deus mas mantém a sua profissão de fé e a certeza de que Deus não é vencido. Segundo S. Mateus e S. Marcos, Jesus murmurou na cruz as palavras que dão início a este salmo: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.
A segunda leitura é tirada da epistola aos Filipenses: “Cristo Jesus, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus… humilhou-se até à morte, e morte de cruz… Por isso o Pai o ressuscitou e Lhe deu um Nome…” (Fil. 2,6-11). Este texto serve também de base à aclamação do Evangelho.
Alguns passos do Evangelho desta missa (Mt. 26,14-27,66):
“… Enquanto comiam, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo». Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos, porque este é o meu Sangue, o Sangue da Aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados”
“… E, tomando consigo Pedro, Tiago e João, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Disse-lhes então: «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo». E, adiantando-se um pouco mais, caiu com o rosto por terra, enquanto orava e dizia: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres”
“… Disse-lhe o Sumo Sacerdote: «Eu te conjuro, pelo Deus vivo, que nos declares se és tu o Messias, o Filho de Deus». Jesus respondeu-lhe: É como disseste. E eu vos digo: vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-Poderoso, vindo sobre as nuvens do céu”
“… Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar do Calvário, deram-lhe a beber vinho misturado com fel. Mas Jesus, depois de o ter provado, não o quis beber… E pelas três da tarde, Jesus clamou com voz forte: «Eli, Eli, lemá sabactani?», que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?». E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou“.
padre João Resina



A celebração de hoje, consta de duas partes. A primeira corresponde à comemoração da entrada do Senhor em Jerusalém como Messias (evangelho da benção dos ramos), despojado de todo triunfalismo e montando um jumentinho em atitude humilde e pacífica.
A segunda parte corresponde à celebração da Eucaristia e oferece, na liturgia da Palavra, uma porta de entrada para a celebração da Paixão e Morte do Senhor, que se entregou à morte pela vida e salvação da humanidade (evangelho), igualando-se a todos aqueles que sofrem para dar-lhes uma palavra de ânimo e esperança (1ª leitura). Por isso é que foi elevado sobre todas as coisas (2ª leitura, e toda língua sempre proclamará Jesus como Senhor.
Evangelho (benção dos ramos e procissão): Mateus 21, 1-11
A cidade de Jerusalém estava repleta de peregrinos para celebrar a Festa da Páscoa. Também Jesus estava chegando com seus discípulos e uma multidão o aclamava com vivas, palmas e ramos. Antes havia surpreendido a todos pedindo um jumentinho para entrar montado nele. Lembrando o que disse o profeta Zacarías 9,9 ( “grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta.”), o povo entende o gesto, reconhece-o como Messias e o aclama com entusiasmo como aquele que traz o Reino da Verdadeira Justiça: “Bendito aquele que vem em nome do Senhor!”.
Jesus é o Rei-Messias que vai confrontar-se com o centro de poder da sociedade judaica, simbolizado pela cidade de Jerusalém e pelo Templo, sede do poder econômico, político, ideológico e religioso. Ele não entra na cidade de forma triunfal, como rei guerreiro montado num vistoso cavalo, mas como simples homem, humilde e pacífico, montado num jumento, animal de trabalho, e identificando-se com os pobres. À diferença do Messias que esperavam, Ele traz consigo a inversão de um sistema social apoiado na violência e na força, que defende os privilegiados e despreza os humildes. Está claro que Ele não vem para dominar. Vem para servir!
1ª leitura: Isaias 50, 4-7
O Servo é a grande novidade preparada por Deus: o missionário escolhido para fazer surgir, graças ao Espírito do Senhor, uma sociedade conforme a justiça e o direito. Ele não submeterá os fracos ao seu domínio, mas o seu agir acabará produzindo uma transformação radical de forma que “os cegos passem a enxergar e os presos sejam libertados”.
A missão do Servo é aqui apresentada como uma ação de encorajamento para os fracos e abatidos. Não recusa aceitá-la e não recua diante das dificuldades em realizar aquilo que Deus lhe pede, apesar dos ataques dos adversários. Seus adversários não triunfarão sobre ele porque é Deus seu advogado defensor.
A tradição cristã reconheceu neste “servo” a pessoa do Senhor pela semelhança com a vida e a morte de Cristo, a obediência à vontade do Pai e a forma como levou à frente a sua missão até o extremo de entregar sua vida pela salvação da humanidade. Esta foi a atitude de Jesus e é, também, a característica fundamental de seus seguidores: a fidelidade total à vocação que vem de Deus no sentido de “falar como discípulo” que sempre está aprendendo dos fatos da vida, onde descobre a mão de Deus para, depois, “ajudar os desanimados com uma palavra de coragem” e ser solidários com eles.
2ª leitura: Filipenses 2,6-11
Citando um hino conhecido na época, Paulo apresenta Cristo como modelo de humildade. Embora tivesse a mesma condição de Deus, Jesus se apresentou entre os homens como simples homem. Abriu mão de qualquer privilégio, tornando-se apenas um homem obediente a Deus, filho de um povo dominado, a serviço de toda a humanidade. Não bastasse isso, Jesus se humilhou e se igualou a nós até o fim submetendo-se à experiência mais difícil, que é a morte, e uma morte ignominiosa de cruz como se fosse um criminoso. Desceu até os porões da humanidade.
Como resposta a este rebaixamento e obediência, o Pai o ressuscita e o coloca no mais alto posto que possa existir na criação, como “Kyrios”=“O Senhor” do universo e da história (título atribuído somente a Deus).
Reconhecer e aceitar que “Jesus Cristo é o Senhor” é a maior expressão de louvor (“para a glória de Deus Pai”). Para não ficar só em palavras, este louvor deve traduzir-se na imitação prática do Senhor, abrindo mão de todo e qualquer privilégio, até mesmo da boa fama, para colocar-nos, sem reservas, a serviço dos irmãos.
Texto parcial (selecionado e comentado aquí): Mateus 22,31-34.47-71
Impressiona a solidão de Jesus diante da morte. Mais ainda depois da fuga e do abandono por parte dos discípulos. Certamente foi um dos maiores sofrimentos da Paixão. Mas tem um outro aspecto que contribuiu certamente a tornar dolorosa a Paixão e Morte do Senhor: a injustiça e a mentira.
Logo no início desta leitura, descobrimos duas atitudes contrapostas a respeito de Jesus: por um lado, a traição de Judas transformando o gesto de amizade, usado entre os judeus, em contrassenha para entregar o Senhor («Jesus é aquele que eu beijar; prendam») e, por outro lado, a atitude impulsiva de Pedro de puxar a espada para defender seu Mestre (“feriu o empregado do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha”). A resposta de Jesus em ambas situações é dada com a mesma serenidade. Dá a entender a Judas que sabe das suas intenções e, sem ressentimento, lhe diz: «Amigo, faça logo o que tem a fazer», ao tempo em que ensina a Pedro que a não violência é sempre melhor: “Todos os que usam a espada, pela espada morrerão” (violência, gera violência). Desta forma se entrega livremente para ser julgado pelo sumo sacerdote e o Sinédrio que, em lugar de fazer justiça, “procuravam algum falso testemunho... a fim de o condenarem à morte”.
Diante de tanta injustiça e perversidade, a resposta mais eloquente de Jesus é o silêncio (“Jesus continuou calado”). Uma atitude tão digna e desconcertante que obrigou o sumo sacerdote a abrir o jogo e reconhecer, implicitamente, o que realmente lhes incomodava na pessoa de Jesus: «Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Messias, o Filho de Deus.». Essa oportunidade de proclamar a verdade, Jesus não podia perder. Ele só precisou concordar (“É como você acabou de dizer”) mesmo sabendo que era o que eles esperavam para condená-lo a morte (“O sumo sacerdote rasgou as próprias vestes, e disse: «Blasfemou!... É réu de morte!»).
A injustiça e a mentira triunfaram aparentemente, mas o sumo sacerdote foi obrigado a pronunciar a palavra que não queria (“tu és o Messias, o Filho de Deus”). Certamente Jesus não precisava de advogado de defesa. Foi condenado a morte, mas venceu o julgamento.
Palavra de Deus na vida
A celebração de hoje é de palavras e sentimentos contraditórios: procissão festiva dos ramos e, ao mesmo tempo, relato da Paixão do Senhor; alegria e tristeza; vida e morte. Mas, com tudo o que tem de contraditório, este dia tem muito a ver com nossa vida de contrastes, contradições e incoerências.
Foi Caifás, o Sumo Sacerdote daquele ano, quem pronunciou aquela frase histórica que, mesmo sendo uma declaração politicamente maldosa, envolve uma grande e terrível verdade teológica: “É preciso que um homem morra pelo povo” (João 18,14).
Caifás era um bom político; sabia dar-se bem com os romanos desde que eles não impedissem o cumprimento externo dos preceitos da Lei de Moisés. A situação política também era conveniente para os influentes saduceus, que eram colaboracionistas de Roma. A submissão ao poder romano fazia prosperar o negócio do Templo e sustentava o status dos Sacerdotes.
Se as propostas de Jesus prosperassem, se o Templo perdesse importância, se a religião puramente exterior, os sacrifícios, a hierarquia, deixasse de ter importância; se os pobres passassem a ser importantes, si a verdadeira religião consistisse em dar de comer aos famintos, se os samaritanos, os publicanos e as mulheres pudessem ser tão importantes quanto os Sumos Sacerdotes, acabaria o poder deles e Caifás não via isto com bons olhos.
Melhor seria Jesus morrer para que tudo isto não viesse acontecer. Só que, falando assim, Caifás identificava seus próprios interesses com os do povo. Não era o povo que estava em perigo, mas seu status privilegiado. Seria matar Jesus “por razões de estado”, o qual era conveniente para quem controlava a situação e se aproveitava dela: uma velha e perversa estratégia de políticos sem compaixão.
“Convém que morra...”. Conveniente para quem? Para os cegos, os leprosos, as viúvas, as pessoas honestas que esperam a libertação? Que Jesus morra era a eles que convinha, e muito. Era uma questão de vida ou morte para manter sua aliança espúria: a aliança do poder político, o poder econômico e o poder religioso. Esta perversa aliança já matou mais inocentes do que ninguém ao longo da historia.
O duplo julgamento, político e religioso, que Jesus sofreu é a expressão completa da injustiça. O condenam a morte simplesmente por estar colocando em risco a credibilidade do sistema religioso, político e econômico. Não provocou revoltas populares, mas apresentou um projeto de vida alternativo no qual as pessoas valem por si mesmas e devem ser respeitadas por ter os mesmos direitos. É condenado como tantos homens de bem que devem morrer para que o poder corrupto continue a governar o mundo, impunemente, sem mais ideais do que o seu próprio proveito.
Jesus nos encomenda esta sua mesma tarefa: fazer valer o direito das pessoas excluídas e empobrecidas. Baixar da cruz aas pessoas crucificadas.
Pensando bem...
A Semana Santa é tão rica em conteúdo que não tem desperdício. Confundi-la com um “feriado prolongado” é a maior perda de tempo para qualquer pessoa que se diga católico, cristão ou seguidor e discípulo de Jesus. Vamos animar as pessoas de nosso entorno para que façam uma parada nestes dias, a fim de reativar a sua fé e restabelecer o seu contato com Deus?
padre Ciriaco Madrigal




"Bendito o que vem em nome do Senhor!"
Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. O Domingo de Ramos é a porta de entrada da Semana Santa. Chegamos, finalmente, a Jerusalém. Com a celebração de hoje, entramos na "Grande Semana" ou mais conhecida "Semana Santa". Apoiados na Palavra de Deus, vimos Jesus e percorremos com ele, durante toda a Quaresma, uma longa caminhada até aqui. Ouvimos e meditamos a Palavra de Deus que nos convoca à conversão em vista da alegria da Páscoa. Fizemos penitencia. Rezamos bastante. Participamos dos círculos bíblicos, dos encontros na rede de comunidades, da Via Sacra, onde refletimos em torno do tema da Campanha da Fraternidade.
Durante esta semana somos levados a rever e rememorar os acontecimentos finais da vida de Jesus Cristo. O auge da Semana Santa é o Tríduo Pascal: Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa (ou da Paixão e morte de Jesus) e Sábado Santo (ou Vigília Pascal.
Concluímos hoje, também, a Campanha da Fraternidade de 2012. Nossa coleta de solidariedade é gesto de perdão e reconciliação.
Estamos em Jerusalém, o cenário principal em que acontece a nossa Páscoa. Saudemos com Hosana o Filho de Davi, em sua entrada em Jerusalém. Vamos ao seu encontro com ramos nas mãos e O acolhamos em nossas vidas
Evangelho da bênção - Mateus 21,1-11
O primeiro texto bíblico de hoje é o Evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém, última etapa da subida à Cidade Santa (Lucas 18,31-43). O texto é chamado de Evangelho da bênção.
A narração de Mateus contém duas citações do Primeiro Testamento: Zacarias 9,9 e Salmo 117/118,25-26. Entre os evangelistas, só Mateus, interpretando em chave messiânica a entrada de Jesus na Cidade Santa, cita fielmente o texto do profético de Zacarias 9,9. Anúncio e cumprimento estão unidos com a fórmula do costume: "Isto sucedeu para se cumprir o que o profeta tinha anunciado" (v. 4). Uma outra ligação é estabelecida entre a ordem de Jesus e a sua execução pelos discípulos (cf. versículo 6; cf. Mateus 1,24). Em relação aos outros evangelistas, Mateus amplifica o acontecimento: "Numerosa multidão"; isto é, "Toda a cidade" (vs. 8.10; cf. Mateus 2,3).
A narrativa de Zacarias 9,9 serve de base para Mateus e de interpretação: um rei virá como Messias, mas num aparato pobre, contrastando com o aparato tradicional dos reis poderosos.
Cristo fazendo-se reconhecer nesta situação de pobreza, os discípulos e a multidão dirigem-lhe uma aclamação de inspiração messiânica (vs. 8-9). Este louvor é, sobretudo, inspirado pelo salmo 117/118, cântico da restauração da nova Jerusalém, característico da festa das Tendas, principalmente os versículos 9.26 e 27b: "Bendito o que vem em nome do Senhor" (v. 26a), que entrou para o canto do Santo da Missa Romana; "É melhor abrigar-se no Senhor do que confiar nos nobres" (v. 9); "Formai procissão com ramos até aos ângulos do altar" (v. 27b).  No entanto, Mateus introduz nele um título que aumenta o alcance messiânico e real da citação: "filho de Davi".
Na descrição da procissão feita por Mateus, a multidão agita os ramos que trazem nas mãos (Lucas ocidentaliza falando apenas dos mantos estendidos pelo caminho). A entrada de Cristo em Jerusalém está influenciada pelo ritual tradicional da "festa das Tendas", também chamada de festa dos Tabernáculos onde havia justamente no hábito de agitar os ramos (Levítico 23,33-34). Na liturgia judaica, a festa das Tendas coincidia com as colheitas; ela encerrava o ano celebrando sua fecundidade, e invocava a bênção divina sobre o novo ano. Os versículos do Salmo 117/118, bem colocado para esta manifestação, tem o empenho de unir a parábola dos vinhateiros homicidas e outros versículos deste mesmo salmo, revelando que Cristo só será plenamente Messias depois de sua morte (Mateus 21,42). Os evangelistas situam a entrada de Cristo em Jerusalém nos dias que precedem a Páscoa, e não tanto com a festa das Tendas.
Assim a entronização do Messias passa pela Cruz; não há outro caminho que conduza à glória: é o mistério pascal.
Neste Evangelho seguem-se imediatamente, sem interrupção e como se tudo acontecesse no mesmo dia, a Cura dos Cegos de Jericó (Mateus 20,29-34), a Entrada em Jerusalém e no Templo (21,1-12a) e a Purificação do Templo de Jerusalém (21,12b-17). Um resumo mostra como Mateus uniu as três cenas e como ele transformou a viagem de Jesus desde a cidade de Jericó até o Templo em uma só grande encenação da vinda do Messias, o Filho de Davi, à Jerusalém/Sião.
Mateus ligou e relacionou as cenas ainda mais entre si pela repetição do título messiânico "Filho de Davi" (20,30.31; 21,9; 21,15); do verbo "gritar" (20,30.31; 21,1; 21,15) e da referência "à grande multidão".
Na primeira cena Mateus diz que Jesus "cheio de compaixão" atendeu ao pedido dos cegos e os curou. Na segunda cena Mateus cita explicitamente, diferente de Marcos e Lucas, a profecia de Zacarias 9,9: "Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado em um jumento, em um jumentinho, filho de uma jumenta" (Mateus 21,5). A palavra, "manso" é a mesma de Mateus 5,4: "Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra".
Na terceira cena, dentro do recinto do Templo, Jesus é procurado "pelos cegos e coxos e aclamado pelas crianças", enquanto os grandes e poderosos O criticam e O chamam à atenção. Esta parte da terceira cena (21,14-16) é totalmente própria de Mateus, isto é, não é citada por Marcos, Lucas e João.  E também só Mateus cita explicitamente o Salmo 8,3: "Nunca lestes que: Da boca dos pequeninos e das criancinhas de peito preparaste um louvor para ti?"; (cf. Mateus 21,16).
As três cenas foram concebidas por Mateus e compostas como uma unidade literária. Elas começam e terminam com a cura de cegos
Primeira leitura - Isaias 50,4-7
O texto é do terceiro dos assim chamados "Cânticos do Servo de Javé". Pertence a um profeta chamado Dêutero-Isaias que compôs Isaias 40-55 e exerceu sua missão em meados do século VI a.C. entre os exilados da Babilônia.  O poema abrange os versículos de 4-9. Nos versículos 5b-6 aparece a motivação típica (protesto de inocência) que prepara a súplica dos salmos de lamentação individual: "não fui rebelde, não me esquivei; aos que me feriam apresentei as minhas costas..." é preferível qualificar o poema como um salmo individual de confiança. De fato, a partir do versículo 7 se desenvolvem os dois motivos básicos de tais salmos: a afirmação de confiança e a certeza de ser atendido.
A lamentação individual no Antigo Testamento é própria de pessoa de bem em geral, que se consideram injustamente perseguidas. Entre elas aparecem sobretudo os mediadores, ou porta-vozes da Palavra de Deus, como Moisés (cf. Números 11,10-15; Deuteronômio 18,15-19), Elias (1 Reis 19,1-18) e Jeremias (17,17-18;20,7-17). Eles sofrem precisamente em conseqüência da ingrata missão de mediadores.
Antes de tudo o profeta se apresenta como um discípulo (v. 4a). Atento às palavras do Mestre, ele não guarda o conteúdo da mensagem para si, mas a transmite aos outros (cf. Jeremias 1,7; Ezequiel 2,3-3,4; Deuteronômio 18,18). Esta mensagem já não é uma palavra ameaçadora como nos profetas pré-exílicos, mas uma palavra libertadora, capaz de reconfortar os desanimados (cf. Isaias 40,6-11.27-31; 41,14; 42,1-7; Ezequiel 37,11). Como profeta ele está continuamente atento às palavras que recebe de Deus (cf. Jeremias 15,16: "Todas as manhãs ele desperta meus ouvidos para que escute como discípulo" (versículo 4b). somente assim torna capaz de levar sua missão em frente sem desfalecer (v. 5). Como outros profetas (cf. Amós 7,10-17; Miquéias 2,6.10; Jeremias 20, 7-18) também o Dêutero-Isaias sofreu o desprezo e a perseguição (versículo 6) da parte de seus ouvintes no exílio, por causa da mensagem que proclamava. Presume-se que o motivo dessa reação da comunidade exílica contra o profeta tenha sido o seu universalismo, pois anunciava o reino messiânico também aos pagãos (cf. Isaias 45,14; 49,6). Mas como os justos perseguidos dos salmos de lamentação individual (cf. Salmo 5; 6; 22, etc.), ou como Jeremias (15,17, 17,13; 20,11), o profeta põe toda a sua confiança em Deus, que o fortifica (versículo 7) e frustrará os insultos dos adversários (versículo 8-9).
Também Jesus está animado da mesma confiança dos profetas que sofreram por causa da mensagem que deviam anunciar. Inspirado na figura do Servo Sofredor, Ele entra resolvido em Jerusalém para levar a sua missão até o fim. Ali enfrentará toda espécie de desonra por causa de sua doutrina, na certeza do apoio divino que o levaria à vitória final.
Qual é o personagem que se esconde atrás do título "servo", tão rico de conteúdo para p pensamento cristão? É um dos problemas do Primeiro Testamento mais discutidos pelos entendidos. Tem-se formulado numerosas hipóteses de interpretação. Há três correntes maiores.
A primeira vê o Servo de Javé um indivíduo, distinto do povo (em Isaias 49,6 e 53,3-8 ele desempenha um papel junto ao povo, enquanto nas outras partes e Dêutero-Isaias a expressão "o Servo de Javé" indica o povo todo!). Mas não se chegou a um acordo a respeito desse personagem. Trata-se de uma figura do passado (Moisés; Davi ou um de seus descendentes); ou no futuro (o Messias; um rei glorioso dos fins dos tempos)? A dificuldade não vem de hoje. Ela já aparece no Novo Testamento: "De quem disse isto o profeta: de si mesmo ou de outro?" (Atos 8,32-35).
De qualquer modo unem-se na figura do Servo de Javé traços proféticos e reais. E ele é também salvador, sacerdote e vítima ao mesmo tempo que, pelos seus sofrimentos, "intercede pelos culpados" (Isaias 53,12). Ele tem uma missão missionária junto a todos os povos.
A segunda corrente dá à expressão "Servo de Javé" um sentido coletivo. Ele não vê no Servo um indivíduo, distinto do povo de Israel. É o povo que será luz das nações; que deverá sofrer a perseguição e a morte pela salvação dos povos. Admite-se que se trataria de um grupo pequeno de fiéis no meio do povo. Seria o pequeno resto que permanece fiel a Deus e que deve servir de testemunha aos demais membros do povo e às nações.
A terceira corrente as duas anteriores. Ele dá a expressão um sentido representativo. Usa-se o termo: personalidade corporativa. O Servo de Javé incorporaria na sua pessoa todo o povo, seu passado e o seu futuro. O profeta que escreveu os cantos teria projetado nele o verdadeiro Israel. O Novo Testamento proclama a realização destas expectativas em Jesus de Nazaré, na sua vida, paixão e morte, e ressurreição.
Salmo responsorial 21/22,8-9.17-18a.19-20.23-24
O Salmo é uma súplica a Deus numa hora de sofrimento e abandono. Salmo de grande intensidade, expressa em imagens vigorosas, em pedidos insistentes, e também numa esperança triunfante.
O limite do sofrimento é sentir o abandono de Deus, que parece não ouvir a oração. A gozação das pessoas redobra a dor do salmista, seu sentimento de abandono; contudo, são também um argumento para mover a Deus, ao qual os insultos atingem. Do extremo da dor passa para o a segurança da esperança: a salvação é certa, próxima, e já pode convidar a comunidade a unir-se com ele no louvor a Deus.
A lamentação e a prece de um inocente perseguido terminam em ação de graças pela libertação esperada (versículos 23-27 e adaptam-se à liturgia nacional pelo versículo 24 e o final universalista (versículos 28-32, em que a vinda do Reino de Deus no mundo inteiro aparece logo após as provações do servo fiel. Próximo do poema do Servo Sofredor (Isaias 52,13-53,12), este salmo, cujo início Cristo pronunciou sobre a cruz e no qual os evangelistas viram descritos diversos episódios da Paixão, é, portanto, messiânico, ao menos em sentido típico. É a súplica de uma pessoa num momento de intenso sofrimento e abandono, retomada por Jesus no momento angustiante de sua cruz, entreguemos ao Pai a nossa vida e a vida de tantos irmãos e irmãs que passam pelo vale do sofrimento e da morte.
O rosto de Deus no Salmo 21/22. Há uma relação íntima e pessoal entre o justo e Deus, a ponto de o justo chamá-lo de "meu Deus". Os antepassados confiavam em Deus e eram libertos (versículos 5-6). Por causa desse Deus da Aliança é que essa pessoa tem a coragem e a confiança de clamar. A imagem mais bela de Deus neste Salmo é, portanto, a do Deus que ouve o clamor do pobre injustiçado e o liberta, fazendo-o cantar hinos de louvor (versículos 23-27). Aparece de maneira clara o rosto de um Deus libertador.
De acordo com Marcos (15,34) e Mateus (27, 46), Jesus rezou este Salmo na cruz. Ele, portanto, é o justo inocente que clama confiante. E Deus lhe responde com a ressurreição. Jesus em toda a sua vida ouviu todos os clamores do povo e atendeu com misericórdia. Ele é, portanto, a resposta do Deus que ouve os clamores e liberta.
Segunda leitura - Filipenses 2,6-11
No contexto de uma exortação de Filipos Paulo cita um hino cristológico. Através desta citação sugere que as principais coordenadas da salvação operada através de Cristo marquem a existência cristã. Estas coordenadas aparecem na estrutura do hino. Seu tema central são a humildade e a disponibilidade do serviço do Messias Jesus. Ele não quis se beneficiar de privilégios de ser Filho de Deus, mas diminuiu-se para se tornar um de nós, como nós. E somos convidados a ter os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus.
Na glorificação (doxologia) "Jesus Cristo é o Senhor" em que culmina o hino, dirige-se a Jesus o nome que no Primeiro Testamento é reservado a Deus. Conforme o hino, Jesus, morto na cruz e depois exaltado, recebe de Deus e da comunidade o nome de "Javé". Antes Ele não tinha este nome. Ele era Deus preexistente. Assumindo a natureza humana poderia ter-se valido desta igualdade com Deus Pai. Ma ao tornar-se homem e inaugurar a Sua missão preferia apresentar-se á humanidade como servo de Deus e não como senhor do universo. Esta preferência não era somente de ordem subjetiva, mas de ordem objetiva. Ele revela que a pessoa humana se realiza mais na submissão a Deus do que no senhorio sobre o mundo e o universo. A soberania da pessoa humana só será plenamente humana se e na medida que ela for serviço de Deus. O fato que Jesus recebe o senhorio sobre o universo depois de Sua obediência até a morte revela que nela não há nada de usurpação.
"Jesus é Javé". Esta confissão de fé ou glorificação (doxologia) não é uma divinização ou deificação indevida que existia no mundo no mundo greco-romano, em que reis e imperadores se deixavam idolatrar como deuses. Não era uma blasfêmia para os primeiros cristãos e não o é para nós, porque nela se professa que se procura a salvação em alguém que deu honra a Deus e recebeu honra de Deus. "Esvaziou-se (ou: aniquilou-se) a si mesmo... feito obediente até a morte da cruz". Na confissão de fé "Jesus é Javé" professamos que Deus deu razão a Jesus e que nós também Lhe damos razão. Isto não é blasfêmia, porque nisso também professamos que a realização plena da pessoa humana existe na dependência absoluta de Deus antes, durante e depois da morte; e que, por isso, pode-se arriscar a vida pela glória de Deus.
Evangelho - Mateus 26,14-27,66 ou 27,11-54 (mais breve)
De muitas maneiras o evangelista Mateus conseguiu expressar a sua própria teologia e cristologia, recordando a Paixão de Jesus. Alguns elementos sobre a Paixão de Jesus são exclusivos de Mateus: as palavras de Jesus a respeito de Judas Iscariotes "Ai daquele homem por quem o Filho do Homem for entregue!" (Mateus 26,24), e ao mesmo Judas na hora do beijo da traição, Jesus respondeu-lhe, "Amigo, para que estás aqui"? (Mateus 26,50), e a notícia do trágico fim de Judas, "Judas, que o entregara, vendo que Jesus fora condenado, sentiu remorsos e veio de devolver aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos as trinta moedas de prata, dizendo: 'Pequei, entregando sangue inocente'. Ele, atirando as moedas no Templo, retirou-se e foi enforcar-se" (Mateus 27,3-5), os motivos pelos quais não se deve recorrer à espada, isto é, à vingança "Guarda tua espada no seu lugar, pois todos os que pegam a espada pela espada perecerão" (Mateus 26,52), a intervenção da esposa de Pilatos "Enquanto estava sentado no tribunal, sua mulher lhe mandou dizer: não te envolvas com esse justo, porque muito sofri hoje em sonho por causa dele", o protesto de inocência de Pilatos que lava as mãos "Vendo Pilatos que nada conseguia, mas, ao contrário, a desordem aumentava, pegou água e lavando as mãos na presença da multidão, disse: Estou inocente desse sangue. A responsabilidade é vossa" (Mateus 27,24), a aclamação do povo que assume a responsabilidade da morte de Jesus depois da declaração de Pilatos "Todo o povo respondeu: O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos" e o pedido da autoridade judaica para se colocarem guardas na entrada do sepulcro "Que o sepulcro seja guardado com segurança até o terceiro dia, para que os discípulos não venham roubá-lo e depois digam ao povo: ele ressuscitou dos mortos" (Mateus 27,64).
Constata-se na versão de Mateus o lugar importante do tema da realização das Escrituras. Mateus prova aos judeus-cristãos, que esperavam um Messias triunfante e glorioso, que as profecias também prevêem um Messias sofredor e que as Escrituras previam o desenvolvimento da Paixão nos mínimos detalhes.
A agonia de Jesus no Getsêmani estava assim prevista pelo Salmo 41/42. Desde a prisão de Jesus, Mateus ressalta que tinha que ser assim, para "realizar as Escrituras" (26,54-56), refutando assim a opinião que desejava uma resposta armada a respeito da prisão de Jesus.
Tanto Marcos como Mateus insistem sobre o fato de que Jesus nada responde a Pilatos. Lembrando assim o silêncio do Servo sofredor diante das injúrias (Isaias 53,7). Mateus ressalta que a bebida oferecida a Jesus na cruz era vinho com fel e comprova assim o texto do Salmo 68/69,22 cf. Mateus 27,34. Mateus também é o único que apresenta às zombarias pronunciadas pelos judeus em relação a Jesus crucificado: "Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar!" (Mateus 27,42).
Durante o inquérito Pilatos recebe o recado de sua mulher a respeito do sonho. É interpretado como um testemunho divino da inocência de Jesus. No Primeiro Testamento e no próprio Mateus os sonhos têm este sentido religioso. Eles comunicam profecias (cf. Gênesis 37,5-10; 40; 41; Juízes 7,13ss; Daniel 2,1; 4,2; Ester 10,5, etc.), revelações de verdades desconhecidas (cf. Jó 7,14; Sabedoria 18,17) e recados (Mateus 1,20-23; 2,12.13.19-22). Provavelmente Mateus viu no sonho um testemunho da inocência de Jesus, muito mais do que um aviso a Pilatos.
Mateus além da coroa de espinhos menciona que puseram "na mão de Jesus uma vara". Esta vara certamente substituía o símbolo da realeza, o cetro. Os judeus zombavam de Jesus como Messias (26,68), os soldados romanos como rei. Somente Mateus diz que zombavam da pretensão de Jesus de ser o Filho de Deus (versículos 40 e 43).
Além dos fenômenos que Mateus tem em comum com Marcos e Lucas (as trevas: versículo 45; a rasgadura do véu do Templo: versículo 51a), há alguns que somente ele menciona, como, o terremoto, a rachadura das rochas e a ressurreição de "muitos santos" que "entraram na Cidade Santa depois da ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas" (versículos 51-53). Alegando todos estes fenômenos, Mateus provavelmente quis sugerir que com a morte de Jesus chegou "o dia do Senhor". Os terremotos são os fenômenos anunciados pelos profetas para o dia do Senhor (Amós 8,9. O conjunto desses fenômenos certamente quer sugerir que o dia da morte de Jesus é "o dia do Senhor", que marca um corte na história da salvação.
Mateus é finalmente o único a mencionar a riqueza de José de Arimatéia (Marcos fala de sua notoriedade e Lucas de sua piedade), com a preocupação de comprovar a profecia de Isaias 53,9: "Seu túmulo está com os ricos".
O véu rasgado torna caduca a antiga Aliança, o terremoto introduz a Nova Aliança selada no Seu sangue. A fé do centurião romano anuncia a conversão das nações pagãs. Dando o corpo de Jesus aos "discípulos", os sumos sacerdotes renunciam voluntariamente de suas prerrogativas e deixam para a Igreja o cuidado de ser sinal de Cristo no mundo.
Uma das características próprias de Mateus, é a menção dos guardas na cruz de Jesus (Mateus 27, 36 e 54) e, sobretudo no túmulo (Mateus 27,62-66), citação que os outros evangelistas não fazem. A chave desta citação é dada pelo próprio Mateus em 28,11-15.
A fé de Mateus em Cristo é tão forte que chega a compor uma narrativa para destruir a mentira dos judeus. O importante é que ele é fiel a uma história mais verdadeira, a de sua fé de rabino judeu convertido a Jesus Cristo.
Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida
"Jesus entra em Jerusalém como rei messiânico, humilde, pacífico, em atitude de serviço, e não de poder. Ele é o Servo paciente" que se encaminha para enfrentar pacificamente, sem violência, a humilhação e o aparente fracasso, impostos pela maldade humana. Mas ele entra para vencer! Como? Pela violência não violenta do amor. "O caminho de Jesus e, portanto, também do cristão é o paradoxal: pelo fracasso ao triunfo, pela derrota à vitória, pela humilhação à glória, pela morte à vida e à ressurreição" (B. Caballero).
Jesus entrou em Jerusalém. Até chegar aí, ele havia feito um caminho. Durante três anos havia percorrido a Judéia e a Galiléia como missionário de Deus, anunciando o projeto do Pai em relação aos seres humanos. Muitos fatores e circunstâncias suscitaram a inimizade, a inveja e o ódio dos chefes político-religiosos do povo judeu. "Sua mensagem de amor, de serviço e de pobreza, sua Boa-Nova de salvação para os pobres, seus milagres como sinais do Reino de Deus, sua denúncia profética da religião ritualista e do culto vazio do templo de Jerusalém... sua proclamação de uma lei e religião novas fundadas no espírito , na verdade e no amor, suas bem-aventuranças que são uma inversão completa dos valores humanos em moda por outros critérios e atitudes revolucionárias, e toda uma série de encontros, discussões e invectivas com os escribas e fariseus da lei mosaica, foram preparando o desenlace final. Seus inimigos conseguiram, enfim, legitimar sua condenação à morte pressionando Pilatos, o poder civil romano, e com a anuência de grande parte do povo, enganado por eles" (idem).
Naquele instante chegara a hora de Jesus enfrentar a tentação derradeira. Usar violência? Não! Desistir? Também não! Se Deus é amor, Jesus, como enviado de Deus, jamais poderia usar da violência. E se ele é enviado para salvar os seres humanos, também não poderia desistir da missão, custasse o que custasse. Ele sentiu a tentação de descumprir a vontade de Deus: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice", desabafou Jesus no meio da angústia. Mas ele conseguiu vencer a tentação de realizar seus próprios interesses: "Contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua!", falou Jesus para o pai. Ele enfrentou todos os sofrimentos de sua paixão, tanto físicos (torturas, flagelação, coroação de espinhos, crucificação) como psíquicos (traição de Judas, preço de escravo à sua pessoa, negação de Pedro, deserção geral de seus discípulos, ingratidão do povo judeu, inveja e ódio de seus chefes religiosos). Enfrentou com amor, com espírito de entrega, como alguém que não veio para ser servido, mas para servir, personificando a eterna misericórdia de Deus. Por isso que, do alto da cruz, suas palavras foram de perdão e entrega: "Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem". Ao bom ladrão disse: "Hoje estarás comigo no paraíso". E, enfim: "Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito".
Assim como profetizou Isaías a respeito do Servo sofredor, este Servo é o próprio Jesus, como ouvimos hoje: "Não desviei meu rosto das bofetadas e cusparadas. Sei que não serei humilhado...Por isso não me deixei abater o ânimo". "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?", gritou ele. Mas não se deixou vencer pelo sentimento de abandono. "Humilhou-se a si mesmo", sim. Por esta razão, pela não-violência do amor à humanidade, "Deus o exaltou acima de tudo".
Um exemplo interessante é a cegueira das autoridades que, obcecadas pelo poder político-religioso, não conseguiram (ou não quiseram!) enxergar em Jesus a presença viva do próprio Deus, e assim mataram um inocente. Isto também acontece muito entre nós, infelizmente! E um terceiro exemplo é a postura de Jesus que, como enviado do Pai, venceu a tentação da violência, que só quer "levar vantagem em tudo". Vítima de uma grande violência, não respondeu com violência igual. Seu exemplo é o da misericórdia, do perdão, da não-violência ativa, do serviço a todos, da entrega de si a serviço da vida. Isto da mesma forma acontece em nossas comunidades... graças a Deus! Existem tantas pessoas com posturas muito parecidas com a de Jesus, que não se deixam dobrar pela tentação da violência, qualquer que seja. Felizes delas!
A Palavra se faz celebração
A alegria da Páscoa
A tradição litúrgica do ocidente conhece uma expressão bem pouco lembrada para compreender e celebrar o mistério da Paixão do Senhor: beata passio. Pius Parsch, agostiniano austríaco, grande nome que contribuiu para a reforma litúrgica do Vaticano II nos lembra, em artigo não muito distante, que "É importante lembrar a profunda diferença entre os velhos sentimentos dos cristãos de hoje. Como a piedade popular acha que é a Paixão de Cristo? Ela adere ao sofrimento histórico do Senhor, ela tenta imaginar de uma maneira vívida as cenas especiais do 'amargo sofrimento', ele analisa os sentimentos e pensamentos do sofrimento Salvador, tem compaixão e ela chora." Reitera, em seguida, que a liturgia, em contrapartida, não fica imóvel diante do sofrimento histórico do Senhor, mas, com sua inteligência, resgata o seu sentido mais genuíno e profundo: o reconhecimento de que, por sua páscoa, Jesus nos fez participantes de sua filiação. Por isso, a Oração eucarística I, na sua versão latina traz a feliz expressão beatae passionis quando, após a narrativa da instituição, recorda e oferece o sacrifício de Cristo, de nos fazer membros da vida divina por sua cruz e ressurreição. Tal expressão não permaneceu na versão portuguesa do Cano Romano. Mas, felizmente, é conservado na Antífona que acompanha o beijo da cruz na Sexta-Feira santa, um fraseado que lhe é semelhante: "Adoramos, ó Senhor, vosso madeiro; vossa ressurreição nós celebramos. Veio a alegria para o mundo inteiro por esta cruz que hoje veneramos." Também o antigo hino "Crux Fidelis" nos lembra este sentido ao convidar para o louvor da Cruz de Cristo: Cantemos hoje em memória da luta que houve na cruz, este sinal de vitória, que todo um povo conduz; nela coberto de glória, morrendo, vence Jesus."
O sentido do domingo de Ramos
Olhando a liturgia do Domingo de Ramos por este ângulo, perceberemos que é importante escapar do romantismo de quem ainda pensa na insuperável ofensa a Deus pela morte do Redentor. Para a inteligência da fé é evento salvador, cumprimento das Escrituras na vida do povo (cf. Emaús Lucas 24,13-35). O Domingo de Ramos dá a chave para abrir as portas da Semana Santa, a fim de que os Mistérios aí celebrados sejam vividos não só corretamente do ponto de vista da ortodoxia da fé, mas que produzam frutos de verdade e justiça na comunidade dos fiéis e estes não fiquem presos aos sentimentos de pena quanto à morte do Senhor. Os sentimentos em torno da morte nos abrem à compreensão da dimensão da entrega do Senhor, mas por si só não dão testemunho da fé celebrada e vivida pela Igreja.
Ao celebrar a Páscoa de Cristo, sua Cruz e Ressurreição, sempre unidas embora o enfoque recaia sobre um ou outro aspecto, a depender da festa que se celebra, a Igreja canta o Mistério de se ver unida ao Filho, de se enxergar "ressuscitada com ele na glória" mesmo que isso signifique a partir da contemplação de seu sofrimento (cf. Oração do Dia).
Ligando a Palavra com a ação eucarística
Reconciliação e paz, vida para todos: eis a grande conquista da Páscoa de Jesus para todos nós. Então, depois de prepararmos a mesa para celebrar a presença do seu sacrifício salvador, do qual participamos neste domingo, o sacerdote reza em nome de toda a assembléia: "Ó Deus, pela paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, sejamos reconciliados convosco, de modo que, ajudados pela vossa misericórdia, alcancemos pelo sacrifício do vosso Filho o perdão que não merecemos por nossas obras".
Deus merece todo louvor e ação de graças por ter-nos dado seu Filho tão profundamente solidário com o ser humano, a ponto de ele mergulhar no abismo de nossa própria morte para dela resgatar o ser humano pecador. Por isso, abrindo a grande oração eucarística, pela qual anunciamos a presença viva da Páscoa de Jesus e nossa, o sacerdote, em nome de todos, proclama solenemente: "Inocente, Jesus quis sofrer pelos pecadores. Santíssimo, quis ser condenado a morrer pelos criminosos. Sua morte apagou nossos pecados e sua ressurreição nos trouxe vida nova".
Enfim, uma vez alimentados pela presença vitoriosa do Senhor, na eucaristia que celebramos e comungamos, ouvimos a seguinte prece confiante que se eleva ao Deus altíssimo em nome de todos: "Saciados pelo vosso sacramento, nós vos pedimos, ó Deus: como pela morte do vosso Filho nos destes esperar o que cremos, dai-nos pela sua ressurreição alcançar o que buscamos".
O simbolismo dos ramos
O simbolismo da "arvore" é muito forte na Bíblia: as árvores do paraíso, especialmente a "árvore do conhecimento do bem e do mal" e a "árvore da vida" (Gênesis 2,9; Apocalipse 2,7; 22,14) são símbolos da Torá. O cedro do Líbano, a figueira, o carvalho e principalmente a videira, entre outras, muitas vezes simbolizam o povo de Israel. Valor simbólico especial tem a oliveira: um ramo seu é o sinal de que acabou o dilúvio e a vida voltou à terra (Gênesis 8,11;9,1.7-11) É de seu fruto que se extrai o azeite, óleo fundamental para a alimentação e a saúde, carregado também de um rico valor simbólico, como na unção de reis, profetas e sacerdotes. Paulo fala da salvação dos pagãos comparando-os a uma "oliveira selvagem" que foi enxertada na oliveira boa, Israel (Romanos 11,16-24).
Os ramos desta procissão são uma metáfora da própria paixão, morte e ressurreição, na relação vida-morte-vida. As árvores têm seus ramos verdes arrancados, o que simboliza a morte, pois esses ramos secarão; mas elas também os "doam" para servir ao Senhor da Vida. Os vegetais, representados pelas árvores, foram dados a nós como alimento, são o nosso sustento, como tão bem nos diz o Gênesis. De certa forma, então, eles "morrem" para que nós tenhamos vida!
padre Benedito Mazeti



Quem é o nosso Jesus nesse domingo de ramos?
Sabemos que evangelho significa Boa nova ou Boa Notícia, por isso quando deparamos com um dos sinóticos, no caso São Mateus, nesse Domingo de Ramos, é forçoso nos perguntar, como que os pormenores da paixão de Jesus, a sua morte na cruz, poderá nos trazer uma mensagem de Boa Nova... E mais um detalhe importante, se é Domingo de Ramos, que tem como foco a entrada triunfal de Jesus na cidade Santa, como vemos na primeira proclamação, feita antes da procissão de ramos, novamente nos perguntamos, o que poderá haver de triunfal em um acontecimento que irá resultar em uma tragédia?
Sendo o evangelho a Palavra de Deus revelada sob inspiração do Espírito Santo, é necessário abrir o coração para compreendê-lo, e não só a razão. Naturalmente essas questões que a nossa razão apresenta entre outras, longe de manifestar a nossa incredulidade, nos ajuda a migrarmos para o coração, pois, se dermos relevada importância ao fato histórico em si, a comoção que iremos sentir diante desses relatos, será idêntica á que experimentamos diante da obra de um grande taumaturgo.
Vamos acabar chorando comovidos, com toda a maldade que fizeram com o Jesus Histórico e jamais conseguiremos entender o que isso tem a ver com a nossa vida. Diante de um evangelho, precisamos sempre ter em mente que se trata de uma reflexão sobre Jesus de Nazaré, feita pelas primeiras comunidades, estamos portanto longe do fato histórico da condenação e morte do Senhor, sobre o qual nenhum resquício chegou até nós, a não ser os evangelhos, que nada mais são do que escritos coletados pelas comunidades e que por isso mesmo requer uma  interpretação usando sempre como referência a Tradição e o Magistério da Igreja, que se fundamenta no testemunho dos apóstolos e das primeiras comunidades, como a de Mateus, onde havia muitos judeus convertidos, e já se tinha consciência de que Jesus ressuscitara, e que agora tentam descobrir qual a relação desse Jesus ressuscitado , com aquele Homem Jesus de Nazaré, que foi condenado com 33 anos, e passou por uma morte tão vergonhosa e humilhante.
Sabemos pelo próprio relato, qual foi a atitude da comunidade diante de tal revelação, não guardaram dúvidas ou desconfianças diante da Revelação Divina e concluíram com um belíssimo ato de Fé, que Mateus retratou com  fidelidade na exclamação do Oficial Romano “Ele era mesmo o Filho de Deus”!
O evangelista Mateus, preocupado em convencer seus conterrâneos sobre a Verdade de Jesus de Nazaré, usou de uma estratégia ao reler as escrituras, apontando de maneira caridosa e paciente, os textos que a ele se referiam facilitando assim a compreensão sobre o conteúdo das leituras desse Domingo de Ramos, que nos introduzem na Semana Santa, onde se celebra o Tríduo Pascal, enfocando a Vida e a morte, a plena realização e o fracasso, as trevas e a Luz, antagonismos presentes não só na Vida Terrena de Jesus, mas na vida de cada Ser Humano, que a partir de então poderá fazer suas escolhas e decidir-se por uma ou por outra, pois Salvação é exatamente isso, conhecer a Verdadeira Luz, a Vida e a Verdade Absoluta que é o próprio Cristo, e deixar-se atrair por ele tomando a decisão de segui-lo, não mais a partir de uma obrigatoriedade Legal de Caráter Religioso, mas a partir de uma experiência real como ocorreu com as Comunidades de Matheus, e o Oficial Romano, sendo este precisamente  o convite e o apelo desse evangelho: que as nossas comunidades revejam toda a caminhada e em uma auto afirmação da nossa Fé, redescubramos: Jesus é o nosso Senhor, o Filho de Deus!
O máximo que se pensou sobre Jesus, é que ele fosse um Profeta, tal qual nos atesta a conclusão do relato da sua entrada em Jerusalém, Mateus não engana seus leitores, pois sendo um Profeta renomado, terá o mesmo destino dos demais, sendo ouvido por poucos, rejeitado por muitos, e finalmente esmagado com a morte. Portanto, aquilo que parece ser um momento de glória, pelo menos na visão nacionalista da Nação de Israel, irá redundar em terrível fracasso! Há Glória sim, presente no regozijo de um Homem totalmente novo, Fiel, que com sua encarnação Divinizou a todos e a cada um dos homens, resgatando neles a imagem e semelhança do Deus Criador. Um homem capaz de ter toda firmeza e confiança em Deus,, mesmo diante das contrariedades e provações, em um contexto que caminha para o iminente fracasso, como esse Servo de Iahweh, assumido pelo Profeta Isaias.e que nessa circunstância provoca a queixa orante do Salmista “Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonastes”
O apóstolo Paulo, na carta aos Filipenses, consegue resumir, de modo magistral, o que Mateus transmite nas entre linhas desse evangelho... O mal presente no coração do homem, do presente, do passado e do futuro, não conseguirá jamais subjugar o Bem Supremo, impondo-lhe o seu domínio. Ninguém o humilhou, mas Ele humilhou-se, ninguém o entregou á morte, mas Ele próprio entregou-se, ninguém foi capaz de rebaixá-lo despojando-o da sua  Dignidade de Filho de Deus, Ele próprio rebaixou-se e esvaziou-se de si mesmo.
Podemos então concluir a nossa reflexão desse domingo de Ramos, olhando para o testemunho do Oficial Romano, homem considerado impuro e, portanto, descartado da Salvação pela Religião Oficial, mas que fez a sua experiência com Cristo, e mesmo sem pertencer ao Povo da Promessa, reconheceu Nele aquilo que os Doutores em Escritura não reconheceram. O Oficial viu a revelação do Amor de Deus, naquele Homem que se entregou livremente, porque o verdadeiro amor não é aquele que domina, mas aquele que se deixa dominar, o verdadeiro amor pressupõe uma entrega total, dentro de uma também total liberdade. O verdadeiro amor se aniquila e se deixa esmagar, tornando-se alicerce na construção de algo totalmente novo, que o coração humano busca e sonha, mas que só se consegue encontrar em Jesus, alguém como nós, mas que vislumbrado na Fé, o descobrimos como nosso único Deus e Senhor, Aquele que o Pai exaltou para sempre!
diácono José da Cruz




1. «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres». Oportuna e luminosa síntese da vida e da missão de Jesus: fazer a vontade do Pai, alimentar-se da Sua Presença, procurar em tudo responder aos Seus desígnios. Eis que venho para fazer a Tua vontade. Tenho um alimento maior. Felizes os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.
Como qualquer ser humano, Jesus sente a dureza e fragilidade do caminho. Percebe que está próximo um desenlace fatal. Já não há como fugir. Há situações na vida em que enfrentamos ou nos perdemos, acobardando-nos. É preciso ter fibra, ainda que não seja agradável.
 Nessas horas de maior aperto, Jesus reza e ensina-nos a rezar. Com toda a devoção. Confiante e confidente. E se a oração é essencial, também a companhia. Cada um sofre à sua maneira, mas partilhar o que nos dói, o que nos faz sofrer, os medos que estamos a enfrentar e os perigos que antevemos, ajudar-nos-á a dar sentido à nossa persistência. Jesus roga aos Seus discípulos: «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo». Também assim o desabafo, que não condena, mas alerta: «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo! Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».
A consciência do que lá vem, os pés firmes na terra, não retiram o peso daquelas horas. Um pouco antes Jesus diz o que lhe vai na alma, prepara os discípulos, prepara-nos para atravessarmos as trevas, para que não fiquemos sem luz. «Bebei dele todos, porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados. Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no reino de meu Pai».
O medo pode agigantar-se. Havendo alguma centelha de luz – a fé, a confiança em Deus, a presença dos amigos – isso fará que não nos percamos no meio e apesar das trevas.
2. "Não se faça como Eu quero, mas como Tu queres". Vem ao de cima o instinto de sobrevivência, mas há de ser mais forte a obediência. "Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes…"
O hino recolhido por são Paulo mostra-nos a identidade de Cristo, a Sua Encarnação, a assunção da nossa humanidade, o projeto de nos trazer Deus e nos introduzir num projeto de vida nova que nos projete para a eternidade, mas como Ele, vivendo em lógica de paixão pelos outros. A realeza e a grandeza de Jesus revela-se no despojamento, esvaziando-se de Si – não se faça o que EU quero –, enchendo-se do Amor do Pai – faça-se o que TU queres. Jesus recusa-se a salvar-Se a Si mesmo, livrando a própria pele da Cruz, pelo contrário, estende os braços para o Pai e para a humanidade. Até à morte e para lá da morte vencerá o amor, a obediência, a Presença de Deus.
3. Uns dias antes, a entrada triunfal de Jesus na cidade de Jerusalém clarifica o mesmo despojamento. O Rei que aí vem não passa de (mais) um Profeta, e passaria despercebido não fora uma multidão de pobres que O acompanham desde a Galileia. É uma multidão simples. Pessoas de todas as idades, e com intenções diferentes, com propósitos diversos. Pobres, humildes, rudes, deslocam-se em caravana para se protegerem mutuamente. Cada ano, por ocasião da Páscoa, deixam as suas casas, juntam alguns poucos haveres, e deslocam-se para celebrar a sua fé em Deus. É mais forte a fé que os move, com os sacrifícios que terão de fazer e dos perigos que terão que enfrentar.
"Eis o teu Rei, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho de uma jumenta... Numerosa multidão estendia as capas no caminho; outros cortavam ramos de árvores e espalhavam-nos pelo chão. E, tanto as multidões que vinham à frente de Jesus como as que O seguiam, diziam em altos brados: «Hossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!».
Alguns estão à beira do caminho. Perguntam-se e perguntam quem é Ele. "Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou em alvoroço. «Quem é Ele?» – perguntavam. E a multidão respondia: «É Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia».
Faz-nos lembrar o alvoroço com que Herodes recebeu a notícia do nascimento do Messias. Um alvoroço que não foi suficiente para ele sair do seu conforto e ir à procura e ao encontro do Rei-Menino.
Registe-se a reflexão de Bento XVI acerca desta multidão que acompanha Jesus e que não é coincidente com a multidão que O arrasta até ao Calvário. Pedro é precisamente acusado de ser "um deles" porque fala com os mesmos "tiques" ou nuances dos Galileus. Estes seriam estranhos naquela outra multidão que acusa Jesus, que O persegue, que tenta desacreditá-l’O, por inveja, por medo, por ignorância, por instigação de alguns bem instalados na vida, que empurram outros para o campo de batalha. Não se juntam à multidão que aclama Jesus, juntam-se agora em multidão que condena!
4. "Ainda Jesus estava a falar, quando chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo".
 Tudo parece acontecer demasiadamente rápido. Ainda noite. Pela calada da noite. Quando faz silêncio incomodo. Quando o sono ainda é rei. Os próprios discípulos, desgastados, com medo, sem forças, ansiosos, se deixam vencer pelos acontecimentos, não acompanham Jesus na Sua oração e vigília. São horas de luta e de desistência. Lutam para sobreviver àquele momento. Mas desistem de Jesus, desistem de "dar a vida por ele". "Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram". Mantêm-se à distância. Vão observando o desenrolar dos acontecimentos. Lamentando-se. Chorando. Bloqueando, sem saber o que fazer. Se dão mais um passo, tudo pode desabar por cima deles. Por outro lado, sentem o olhar envolvente e misericordioso de Jesus que os serena e os desafia.
 Podemos incluir-nos dentro daquela multidão, entre os apóstolos, com a autoridade judaica e com a autoridade romana, com a multidão da Galileia que antes O aclamava, ou com a multidão da Judeia que se deixa levar pela inventiva de alguns poucos. Judas. Pedro. Discípulos. Caifás. Pilatos. Sacerdotes e fariseus. Acusando ou lavando as mãos. Traindo ou negando. Gritando em fúria no meio da multidão anónima ou pegar nos instrumentos de flagelação. Ajudar a levar a cruz ou ser forçado a isso. Quais as mulheres e mães que não arredam, a espreitaram para o caso de as deixarem ajudar Jesus. "Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem. Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus. Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus".
 Em todo o caso, no final sobrevêm novas escolhas. Enquanto vivemos, estamos a tempo de nos convertermos e aderirmos a Jesus Cristo e ao Seu Evangelho. Pedro refaz o seu testemunho e o seguimento de Cristo. José de Arimateia não se envergonha e recolhe o corpo de um condenado. O Centurião, e os que por ali estavam, que têm um lampejo da realeza divina de Jesus, e expressa-o de forma audível: «Este era verdadeiramente Filho de Deus».
5. Isaías, na primeira leitura, caracteriza o Messias que há de vir e identifica com o Servo Sofredor, qual Cordeiro inocente levado ao matadouro, manso e humilde de coração, cuja vida e missão têm o fito único de dar esperança a todos que andam cansados e abatidos. "O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido".
 Abramos bem os ouvidos para ouvir a Palavra de Deus e o grito dos irmãos que buscam razões para viver. Abramos bem os olhos para nos outros descobrirmos a presença de Deus e os acolhermos como se a Ele o acolhêssemos.




A liturgia do domingo de Ramos envolve vários momentos importantes no desenrolar da Paixão de Jesus, deixando entrever os acontecimentos que precipitam o desfecho da Sua missão terrena e temporal. Iniciamos a Semana maior com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e com o relato da Paixão do Senhor, que acompanhamos desde a oração e agonia no Horto das Oliveiras até à crucifixão e morte de Jesus.
Vejamos alguns desses momentos e dos intervenientes principais.
1. NOITE
É de noite que Jesus sai com os discípulos para o Jardim das Oliveiras. Para Jesus, a noite é tempo e oportunidade de oração, explicitando a Sua comunhão íntima com Deus.
Na noite, porém, tudo acontece, todos os gatos são pardos. Os guardas, com os dirigentes do Templo, vão pela calada da noite, quando as pessoas estão tranqüilas em suas casas, prender Jesus, evitando qualquer surpresa que contrariasse os seus intentos.
O mal tem a noite, a escuridão, as trevas, por aliada. É noite quando Judas se perde e entrega Jesus. Ainda é noite quando Pedro renega Jesus.
2. JESUS
O itinerário de Jesus, em Semana Santa, relembra-nos as situações diversas da nossa existência, marcada por alegrias e tristezas, pelo encanto da vida e pela desilusão, pelas conquistas e pelas derrotas, que nos tornam mais fortes (ou nos derrotam) e fazem de nós o que somos hoje e o que poderemos vir a ser.
Em todo o trajeto sobressai uma grande confiança em Deus. Na dor mais atroz, a única saída para Jesus é entregar-se em Deus: "Pai em Tuas mãos entrego o meu espírito".
3. MULTIDÃO
Quando estamos sós reagimos de maneira diversa de quando estamos em grupo. Juntamente com os outros podemos facilmente embarcar na corrente geral, para o bem e para o mal.
No recente volume da obra "Jesus de Nazaré", o papa Bento XVI/Joseph Ratzinger chama a atenção para duas multidões distintas: na entrada triunfal em Jerusalém e diante de Pilatos pedindo a crucifixão de Jesus.
Jesus chega a Jerusalém para a festa da Páscoa, acompanhado pelos discípulos, pelos galileus (judeus originários da Galileia, como a maioria dos Apóstolos), e por pessoas das aldeias vizinhas, por onde Ele passou e que engrossam o grupo. É neste contexto que os judeus (de Jerusalém) perguntam o motivo da agitação e a identidade d'Aquele homem!
Diante da autoridade romana, a "outra multidão" os dirigentes do Templo e seus sequazes, que iniciam o processo ainda noite para não chamar muito a atenção, e os companheiros de Barrabás, que estarão diante de Pilatos para fazer lóbi pela amnistia pascal do seu líder.
Os discípulos, com medo, acobardam-se e mantêm-se à distância, não estão lá para gritar pela libertação do Mestre.
4. DISCÍPULOS
Acompanham Jesus titubeando. As coisas correm de feição e eles rodeiam-n'O alegremente. As coisas correm mal e afastam-se d'Ele rapidamente para não serem notados. No monte das oliveiras, dispersam, fogem, escondem-se. Durante o processo e até à Cruz tornam-se observadores cautelosos e distantes, vendo para onde pende a balança.
Dói ser abandonado, mas muito mais por aqueles que deveriam estar perto, dando apoio, acompanhando.
5 – JUDAS
Sem dúvida um dos discípulos mais próximos de Jesus e alguém de confiança dentro do grupo, mas que tropeça na noite e se precipita na entrega do Seu Mestre.
O drama de Judas não está apenas no trair da confiança, mas na consequente culpabilização. Não supera o sentimento de culpa, ainda que se vislumbre o seu arrependimento - entreguei um homem inocente. A noite é mais forte, as trevas paralisam-no, não deixam penetrar a luz de Jesus Cristo.
6 – PEDRO
Do círculo mais próximo de Jesus - do qual fazem parte Tiago e João e Judas, este retirado muito cedo pelas comunidades cristãs -, Pedro encontra-se muito "verde". Com o mesmo entusiasmo se empolga no aplauso a Jesus e logo se amedronta, escondendo-se e renegando o Mestre. Dito de outra forma, quando o Mestre está, Pedro é forte. Quando Jesus não está, Pedro fraqueja.
Diferentemente de Judas, Pedro não se deixa afundar pelo seu pecado, pelas suas trevas, "agarra-se" (de novo) a Jesus e ao Seu olhar compassivo e reconciliador e deixa-se salvar por Ele.
7 - AUTORIDADES DO TEMPLO
Funcionam também em grupo, protegendo-se mutuamente, ainda assim com dissidentes que não concordam com os procedimentos realizados para condenar Jesus. Um dos contestatários é Nicodemos.
Sentindo-se ameaçados no seu poder e na sua liderança, não hesitam em entregar Jesus, "é melhor que morra um só homem pela nação". De algum modo completam a profecia, Jesus morrerá pela humanidade inteira, por um só homem é dada a salvação a todos.
8 – PILATOS
Representante do imperialismo romano, cedo acautela o seu lugar. Seguindo a lei romana, sabe que Aquele homem é inocente e não merece qualquer tipo de preocupação. Mas logo a pressão e o medo em perder os favores do imperador alteram o seu juízo. E, ele que não queria ser envolvido nas questões religiosas dos judeus, deixa-se enredar, não tanto pelos argumentos mas pela conveniência em manter o posto. Entrega Jesus para ser açoitado e crucificado.
9. MULHERES
Ao longo da história da humanidade elas sofrem como filhas, como esposas e como mães, sofrem pelos pais, pelos maridos, pelos filhos, pelos outros. Mas agüentam firmes, vão à luta. Lá estão elas na primeira linha. Acompanham de perto o Mestre, estão bem junto à Cruz. Serão elas também as primeiras testemunhas da ressurreição. A sua fidelidade é premiada com a primeira aparição do Ressuscitado.
10. NÓS
Jesus entrega-Se também por nós. Ou dito de outra forma, também por nós Ele é pregado à CRUZ. Se vivêssemos naquele tempo e naqueles dias subíssemos a Jerusalém, pela festa da Páscoa, em que grupo nos inseriríamos? É possível que estivéssemos no lugar de qualquer um daqueles intervenientes.
Como é que hoje nos situamos diante da Sua Cruz? Que respostas damos com a nossa vida? De que forma a Cruz é redentora para nós? Em que medida influencia as nossas escolhas e as nossas vivências?
padre Manuel Gonçalves



Bendito o que vem em nome do Senhor
Começa hoje a grande semana litúrgica que nos conduz à Páscoa, à morte e à ressurreição do Senhor, centro da nossa vida cristã. A Semana Santa é, pois, um tempo de profundas vivências religiosas: o mistério de Deus “entregue por nós” e a força da sua ressurreição, como dizia são Paulo, convocam-nos perante a Cruz que é o triunfo do amor sobre o ódio, a esperança sobre todo o desespero.
O Evangelho da entrada em Jerusalém (Mt. 21,1-11), com a procissão da comunidade e dos ramos, deve servir para inaugurar a grande semana do cristianismo. Toda a “tradição” e beleza dos ramos devem servir para inaugurar esta grande semana. A “tradição” e a beleza dos ramos e das palmas, convidam-nos, no entanto, a integrarmo-nos naquela experiência de ir a Jerusalém, percurso a que o profeta da Galileia não podia esquivar-Se. Sem dúvida que Jesus já sabia o que O esperava: o julgamento, a condenação e a morte. Tudo isto muitas vezes foi e é representado esteticamente, mas o ambiente daquela Páscoa do ano 30 não tinha nada de teatral, antes a dura realidade de “Alguém” que sabe o que quer. Jesus não Se deixa iludir pelos gritos de “Hossana”, porque não Se sentia Messias e, muito menos, como alguns o interpretaram. Estas aclamações justificariam mais o seu julgamento e a sua condenação perante os poderosos que estavam à espera que chegasse o profeta da Galileia a Jerusalém: E chegou...
1ª leitura: Isaías (50,4-7)
O Servo de Iavé: nos seus ombros o futuro
1. Os quatro cantos do Deutero-Isaías (42,1-4. 7.9; 49,1-6.9.13; 50,4-9.11; 52,13-53,12) abrem a Paixão de Jesus neste dia de Domingo de Ramos. Estamos perante o terceiro cântico do “Servo de Iavé” onde se sublinha o sofrimento de uma figura que deu muito que falar na teologia veterotestamentária sem que se tenha chegado a uma identificação precisa. Se os cristãos se atrevessem a identificar Jesus Crucificado com o Servo esta seria a única lógica para poder defender que era o Messias. A teologia oficial do judaísmo não podia aceitar, de forma alguma, o sofrimento como algo possível no futuro Messias. Por isso, ao cristianismo se lhe abriram as portas de par em par para poder afirmar que se Jesus foi julgado, condenado e crucificado se cumpriam quase à letra as “revelações” ou manifestações do Servo de Iavé. Esta foi a “Bíblia básica” dos primeiros cristãos, embora não rejeitassem a leitura da Lei e dos Profetas. Desta
“Bíblia básica” passaram, pouco a pouco, a pôr por escrito o primeiro relato da Paixão que liam nas celebrações como memória da morte do seu Senhor.
2. Qual é a sua mensagem? Abre-nos à ignomínia deste mundo violento, cruel, face à força da mansidão do discípulo, do servo de Deus, porque, na sua “Paixão” Deus estará sempre com Ele. É uma leitura muito adequada de preparação para a proclamação da Paixão do Domingo de Ramos, já que foram os primeiros cristãos que descobriram nestes cantos que o Messias teria de sofrer para que tivesse força a sua proposta de salvação.
2ª leitura: Filipenses (2, 6-11)
O hino da “humilhação” divina
1. O hino da Carta aos Filipenses realça a força da fé com que os primeiros cristãos se expressavam na liturgia e que Paulo adota para as gerações futuras como Evangelho vivo do processo de Deus, de Cristo, o Filho: Ele quis partilhar connosco a vida. Mais ainda: Ele quis ir para além da nossa própria debilidade, até à debilidade da morte na cruz (juntaria Paulo), que é a morte mais escandalosa da história da humanidade, para que ficasse claro que o nosso Deus, ao acompanhar-nos, não o faz esteticamente, mas sim radicalmente. Hoje não é o dia de aprofundar este texto inaudito de Paulo. A Paixão de Mateus deve servir de referência de como o Filho de Deus chega ao final: a morte na cruz.
2. O hino tem duas partes. A primeira sublinha a auto-humilhação de Cristo que, sendo de condição divina, se converte em escravo. A segunda reflete a exaltação de Jesus, por parte de Deus, à categoria de Senhor. Estabelece, além disso, uma relação de causa efeito entre humilhação e exaltação: “Precisamente por isso” (Fil. 2,9). E aqui radica o grande paradoxo: alguém que não se destacou em vida por actos heróicos, que não foi soberano nem teve o título de Senhor, e acaba os seus dias crucificado como vil e subversivo aos olhos do Império e da sua própria religião e considerado “Senhor” e “Messias”. E, paradoxo ainda maior é o anúncio do Messias crucificado converter-se naquele núcleo da pregação de Paulo e no centro da fé cristã. Isto só podia, no mínimo, chocar a mentalidade helenista que, nos seus cultos, aclamava os “senhores” que tinham gozado uma vida gloriosa. Tinha de surpreender igualmente o mundo judaico, para quem o Messias devia ter uma existência gloriosa que certamente Jesus não tinha tido. Por isso, dirá Paulo, o anúncio de um Messias crucificado é “escândalo para os judeus e loucura para os gregos (1 Cor. 23).
Evangelho: Mateus (26-27)
Paixão segundo são Mateus
1. Neste dia, a leitura da Paixão segundo  Mateus deve ser valorizada na sua justa medida. A leitura, em si, deve ser “evangelho”, boa nova, e nós, tal como as primeiras comunidades para as quais escreveu, devemos aplicar os cinco sentidos e personalizá-la. A Paixão segundo são Marcos é o relato mais primitivo que temos dos Evangelhos, embora não queira dizer que antes não houvesse outras tradições das quais ele se tenha valido. Esta é a fonte do nosso relato de Mateus. Devemos saber que não podemos explicar o texto da Paixão numa homilia, mas temos de convidar todos para que cada um se sinta protagonista desta bela narrativa e considere onde poderia estar presente, em que personagem, como se tivesse sido ator nessa narrativa. Precisamente porque é um relato nascido quase com toda a certeza para a liturgia, será a liturgia o momento adequado para viver a sua força teológica e espiritual.
2. Não é, portanto, o momento de entrar em profundidades históricas e exegéticas sobre esta narrativa, sobre a qual se poderiam dizer muitas coisas. Desde o primeiro momento, é nos vv. 1-2 que encontramos as personagens protagonistas. O ambiente são as festas da Páscoa que se estavam a preparar em Jerusalém (faltavam dois dias) e os sumos-sacerdotes não queriam que Jesus morresse durante a “festa”; tinha que ser antes. O relato, no entanto, organizaria as coisas para que tudo ocorresse na grande festa da Páscoa dos judeus – nada mais, nada menos! Os responsáveis, diz o texto, “procuravam motivo para prender Jesus e matá-l’O. Era lógico, porque era um profeta que não Se deixava intimidar pela teologia oficial. Era um profeta que estava nas mãos de Deus. E isto eles não suportavam.
3. Mateus, como dissemos, segue de perto o texto de Marcos, mas há que notar algumas chaves:
a) O que dá unidade e coerência às diferentes secções (alguns falam de três) é a perspectiva cristológica em que tudo se apresenta. Mateus foi o melhor a tratar de defender o mistério da Paixão do Messias com o cumprimento das Escrituras. Isto era facilmente explicável para uma comunidade que, procedendo do judaísmo, deveria assumir que a paixão e morte, coroada da ressurreição, entrava no plano de Deus e era assim livremente assumido por Jesus.
b) Há alguns pormenores do relato que chamam a atenção de Mateus. A diferença relativamente a Marcos encontra-se no episódio de Barrabás e converte-se num dos elementos-chave da sua visão da paixão e das consequências para Israel. Há alguns anos foi escrita uma obra sobre a redação de Mateus e a sua teologia que se fundamentava na de Mt. 27,25: “que o seu sangue caia…”Consta de dois elementos: a intervenção da mulher de Pilatos e a cena em que Pilatos lava as mãos. Não se trata de meros acrescentos. Mateus retoma todo o conjunto e apresenta-nos uma nova composição muitíssimo bem construída, onde aparece, com toda a nitidez, a intenção doutrinal e eclesial. Ficam definidos os laços de Cristo com o povo de Israel. Quando a mulher do pagão intercede pelo “justo”, a filha de Sião, aos gritos, exige a morte do seu Messias, do seu Cristo (em vez de “rei dos judeus”, Mateus utiliza duas vezes este título). “Todo o povo” toma sobre si a responsabilidade que Pilatos recusa (27,24-25). Esta tomada de posição do povo da antiga aliança marca uma transformação na história da salvação. E evidente a perspectiva cristológica de tudo isto. É o repúdio do judaísmo pelo Messias que, livremente, escolheu a paixão. Mas isto não deve incitar – de forma nenhuma – o anti-semitismo, como ocorreu em leituras apologéticas que não entendem que o povo de Israel não é o responsável pela morte do “profeta”, mas alguns dirigentes cegos e sem misericórdia. É verdade que o Evangelho de Mateus “mantém uma constante de “anti-judaísmo” como problema histórico e teologia, mas não é “anti-judeu” por natureza.
c) Não deveríamos dizer que Jesus “escolheu” a morte, porque Deus assim o queria ou assim precisava. Não é o sofrimento o caminho que Deus quer para redimir e salvar os homens. Mas Deus, neste caso, por meio da opção decisiva do Profeta, do Messias verdadeiro de Israel (segundo a teologia de Mateus) sabe assumir tudo o que os homens “constroem” religiosa e exatamente para destruir esta “construção religiosa” anti-humana e anti-divina. A construção eclesiológica de Mateus do relato da Paixão é a mesma que foi mantida em toda a sua obra. A este respeito poder-se-ia dizer que o relato de Marcos sobre a Paixão é mais kérigmático e o de Mateus mais eclesiológico. Mas os dois aspectos devem ser unidos na nossa reflexão sobre o que significa ler a “Paixão” na liturgia do Domingo de Ramos. Não incidamos demasiado no sofrimento, porque essa não é chave de Mateus, mas antes em como a comunidade se identifica com o seu Senhor para tornar possível que o projeto de Deus seja vivido de verdade, para além das decisões absurdas dos dirigentes do povo que não puderam assumir o que o Profeta desmontara na concepção que eles tinham de Deus e da religião de Israel. E isso seria em benefício de toda a humanidade.
d) A Paixão, nós, os cristãos não a devemos ler como um tema “gore” (de sangue e sofrimento cruel). Não é essa a concepção do relato primitivo que cada um dos evangelistas elaborou, de acordo com a sua comunidade. É o mistério da identificação com a sua causa, com o projeto do Reino que tinha anunciado até chegar às suas últimas consequências. Jesus não sofreu mais do que os crucificados dos caminhos que o Império romano multiplicava, nem derramou mais sangue que eles, mas estava identificado com o sofrimento de todos aqueles crucificados. É verdade que no seu julgamento ocorre uma série de circunstâncias religiosas que O tornam diferente e, por isso, um julgamento e uma condenação diferente, contemplamos uma condenação diferente. É mais belo o poema musical da Paixão segundo S. Mateus de Bach, do que filmes que apenas mostram – sem poesia nem religiosidade nenhuma – o sofrimento pelo sofrimento. Não esqueçamos que os nossos relatos são elaborados na perspectiva da ressurreição como vitória de Deus sobre os projetos dos poderosos ou do amor sobre o ódio.
fray Miguel de Burgos Núñez
tradução de Maria Madalena Carneiro


2 comentários:

  1. Vou trabalhar no Domingo de Ramos, poderei ir à missa hoje, sábado. A liturgia é a mesma?

    Carlos

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  2. Acabei indo à missa no sábado (17h) e no domingo, hoje, às 7:00hs. O evangelho foi diferente em ambas e na de hoje não foi o evangelho da entrada triunfal de Jesus no lombo de um jumentinho que seria o do Domingo de Ramos. Nesta missa de hoje não houve procissão e o padre mencionou que o evangelho citado faz parte das celebrações onde há a procissão de ramos.
    Carlos/Barbacena-MG

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