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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 5 de maio de 2017

4º DOMINGO DA PÁSCOA-ANO A

4º DOMINGO DA PÁSCOA


7 de Maio de 2017
Cor: Branco
Evangelho - Jo 10,1-10

Jesus disse que quem não entra pela porta principal, mas sim pelos fundos, é ladrão e assaltante. Mas quem entra pela porta principal, é o verdadeiro pastor, que tem a porta aberta pelo porteiro.  .Continuar lendo

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EU SOU A PORTA. QUEM ENTRAR  POR MIM SERÁ SALVO.” Olívia Coutinho

 

4º DOMINGO DA PÁSCOA.

 

Dia 07 de Maio de 2017

 

Evangelho de Jo10, 1-10

 

Ainda estamos vivendo as alegrias do  tempo Pascal, um tempo propício para fazermos um reencontro com as raízes da nossa fé, que se fundamenta na ressurreição de Jesus! A   partir deste encontro, é importante que façamos  uma avaliação da nossa caminhada de fé, confrontando o nosso comportamento com a palavra de Deus e assim, poder  ajustar o nosso modo de viver com os valores do evangelho!

A ressurreição de Jesus marcou o início da sua presença definitiva no meio de nós, portanto, este acontecimento não deve ser  vivida somente nestes dias em que a igreja nos oferece a oportunidade de mergulharmos neste  mistério através da riqueza da liturgia deste tempo, devemos viver a ressurreição de Jesus todos os dias de nossa vida.  
Como seguidores de Jesus, devemos dar testemunho da sua ressurreição, não, com provas históricas, mas  com as nossas ações do dia a dia.
O evangelho que a liturgia deste quarto domingo da Páscoa nos apresenta, nos desperta, sobre a importância da “escuta” da escuta atenta da palavra de Deus, é a partir desta escuta, que vamos ajustando os nossos passos nos passos de Jesus.
Como Bom Pastor, Jesus se apresenta como a única porta de entrada para o coração do Pai!  Sem passarmos por esta porta, ficamos como ovelhas desprotegidas, vulneráveis aos ataques dos lobos vorazes que estão por aí, a nos espreitar! 
Querer passar pela a  experiência do coração misericordioso e acolhedor de Jesus para chegar ao Pai,  é conscientizar  da nossa verdadeira origem e do nosso destino: “Viemos  do Pai e para o Pai retornaremos.
 O Pai, no seu infinito amor, nos entregou aos cuidados do Filho, o Bom Pastor, que nos acolheu com o mesmo amor do Pai, nos colocando acima de sua própria vida!
Ao se colocar como o Bom Pastor, Jesus  deixa claro que Ele é um Pastor, totalmente diferente dos  que se dizem pastores, mas não tem compromisso com o seu rebanho, não se importam com o bem viver de suas ovelhas! Ao contrário destes “pastores,” Jesus não quer que nenhuma de suas ovelhas se perca, e, se por ventura, alguma delas desviar do caminho,  seduzida por estes falsos pastores, Ele vai a sua procura, não desiste de esperar pelo seu retorno, estará sempre de braços abertos para acolhê-la de volta, pois para Jesus, não existe caminho sem volta e nem ponto final para uma historia de amor!
Escutar e colocar em prática os ensinamentos de Jesus é ser uma ovelha fiel ao Bom Pastor! Fiéis ao Bom Pastor, estaremos amparados, protegidos,  contra  os falsos pastores, aqueles que tentam nos seduzir com proposta enganosas, portas largas que a princípio podem nos parecer atrativas, mas que  nos levam a morte e não a vida!
A todos nós, que confiamos em Jesus, fica o grande desafio: sermos perseverantes na fé em meio as inverdades do mundo, não deixar  que a voz dos falsos pastores,  sobreponha a voz do verdadeiro Pastor que é Jesus.
Jesus é a fonte de água viva que sacia nossa sede, a Luz que nos ilumina, o Pão que nos sustenta, o Pastor que nos conduz, mediante a esta oferta de amor, do que mais precisamos para sermos felizes?
Ao doar a vida pelas ovelhas que o Pai lhe confiara, Jesus deu a maior prova de amor pela a humanidade! Diante a esta  tão grande prova de amor, perguntemo-nos: O que temos feito da nossa vida que custou a vida de Jesus?

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Verdadeiro mérito. Qual pois mérito (há) se pecando e esbofeteados, aguentais? Mas, se fazendo o bem e padecendo, aguentais, isto (é) agradável para Deus (20).
Mérito, rumor, fama, glória, louvor, aplauso que temos traduzido por mérito como mais inteligível e até mais apropriado. Este vocábulo sai unicamente. Ele é um apax neste versículo.
Esbofeteados é o particípio passivo do presente do verbo kolafizö que significa esbofetear, receber um tapa, bater com o punho, golpear. Também maltratar, tratar com violência e desprezo. É o que aconteceu com Jesus segundo Mt. 26,67 e Mc. 14,65 na casa de Caifás, onde foi esbofeteado e cuspido pelos escudeiros do Sumo Pontífice.
Aguentais do verbo ypomenö, com o significado de permanecer, perseverar, não retroceder, aguentar, resistir, suportar e tolerar, especialmente se são tratamentos e condutas impróprias e vexames.
Agradável com o significado de ser coisa agradável a Deus é uma das traduções, a mais seguida; mas também e talvez com maior propriedade podemos traduzir por é uma mercê de Deus. A natureza humana se revolta contra toda a injustiça; porém fazer todo o contrário, suportar as injúrias injustas é um dom de Deus, como sugere o para preposição de procedência, com genitivo, ou seja que procede de Deus. Ou seja, traduziremos isto é um dom que de Deus procede.

Exemplo de Cristo. Pois para isso fostes chamados, porque também Cristo padeceu por vós, a vós deixando um exemplo para que sigais nos seus passos (21).
Fostes chamados aoristo do verbo kaleö com o significado de chamar, convidar, que é uma vocação divina para imitar o exemplo de Cristo como afirmará mais tarde. Do versículo anterior, sabemos que são os planos divinos os que acompanham os sofrimentos injustos e que dentro deles agora o apóstolo toma como exemplar a conduta de Cristo. Padeceu aoristo de paschö, é o verbo usado por Jesus para indicar os padecimentos a que seria submetido pelos juízes do Sinédrio (Mt. 16,21 e Mc. 8,31). O por vós é em grego yper ëmön [por nós] segundo o grego da Nestlé. A Vulgata e o grego católico de Mark usam o nós, como se Pedro se incluísse dentro dos remidos por Cristo. Do ponto de vista lógico da frase o vós é o mais correto. Com esta afirmação Pedro supõe a morte vicária de Cristo, pois o yper grego significa em favor de, por amor de, pelo benefício de, no lugar de, em vez de como genitivo [no caso].Um exemplo: em 1Cor. 15,19 Paulo fala do caso em que os novos cristãos se batizavam ypernekrön [= no lugar dos mortos]. Com isto Pedro reforça o dogma da morte vicária de Cristo, que hoje alguns teólogos criticam como sendo metáfora, pois negam a justiça divina ao exaltar em demasia a bondade de um Pai demasiado indulgente. Citam a parábola do filho pródigo, mas esquecem outras passagens do evangelho em que o fogo eterno é claramente afirmado para os que praticam a iniquidade, com a mesma rejeição de quem separa os que estão à sua esquerda para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos  (Mt. 7,23 e 25,41). Exemplo com o significado de uma cópia escrita e logicamente um exemplo.
Sigais o verbo é usado por Marcos quando diz que o Senhor cooperava com os pregadores do evangelho confirmando a palavra com os sinais que se seguiram (Mc. 16,20).
Passos, pegada, pisada, passo geralmente em plural, como vemos no latim. Evidentemente o apóstolo refere-se aos sofrimentos dos primeiros cristãos, na época, perseguidos e caluniados em cujas vicissitudes ele observa que estão seguindo os passos do seu senhor como este já tinha profetizado (Lc. 21,12) de modo que o discípulo não seja diferente de seu Mestre (Mt. 10,34-25).

Inocência de Cristo. O qual pecado não fez, nem se encontrou engano na sua boca (22) O qual insultado, não revidava o insulto, sofrendo não ameaçava, mas entregava-se ao que julga justamente (23).
Pedro expõe agora a inocência de Jesus com duas ideias: não cometeu pecado em obras e não houve mentira em sua boca. Consequentemente foi um inocente, injustamente castigado com atrozes tormentos e morte de cruz. Este é o exemplo que devem imitar seus discípulos e seguidores.
Engano: propriamente isca, tentação, engodo e daí astúcia, engano, falsidade, fraude, dolo. Pedro coincide com Tiago que afirma: se alguém entre vós cuida ser religioso e não refreia sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã (1Pd. 2,22). Pedro apela ao exemplo de Cristo, especialmente durante o tempo de sua paixão. Jesus não revidou aos insultos como vemos em Mt. 26,62-63, durante o julgamento na casa de Caifás ou no pátio de Pilatos em Mt. 27,28-30 e no momento da crucifixão os insultos narrados por Mateus em 27,39-44. Por isso, Jesus entregou sua causa a Deus, o verdadeiro juiz que julga corretamente.

Cristo nos salvou por suas chagas. O qual nossos pecados ele carregou no seu corpo sobre o madeiro para que mortos aos pecados vivamos na justiça, o qual pela chaga fostes curados (24).
Carregou: é o aoristo do verbo anaferö com o significado de oferecer no altar, liderar, carregar, suster. Com esta frase Pedro confirma o dito pela carta aos Hebreus 7,27: Não necessitou diariamente, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia por seus próprios pecados, e depois pelos do povo; porque isto fez uma vez, oferecendo-se a si mesmo. E em Hebreus 9,28: Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos. Porque como diz Paulo: Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (2Cor. 5,21). Disso tudo, podemos deduzir que a morte de Cristo na cruz foi um sacrifício expiatório, como também Cristo vos amou e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave (Ef. 5,2). Pela chaga o grego indica mancha roxa, contusão, vergão, vinco e pancada. Sem dúvida que aqui Pedro une a flagelação ao suplício da cruz, podendo ser traduzida a passagem: pelas suas feridas fomos curados. De modo que a maldição da cruz, como diz Paulo, serviu para a bênção dos que outrora eram malditos; a morte para a vida e as feridas para a saúde. Assim se cumpriu o que Paulo afirma: Deus escolheu a loucura do mundo para a mais sábia solução de salvação e vida do pecador (ver 1Cor. 1,25).

O novo Pastor. Éreis, pois, como ovelhas desgarradas, mas agora vos mudastes para o pastor e supervisor de vossas almas (25).
De uma vida como sem esperança nem futuro, agora remidos por Cristo pertencem os novos cristãos a um pastor que é ao mesmo tempo supervisor [episcopos] que cuida amorosamente dessas almas ou vidas que ele conseguiu por sua cruz e por seus sofrimentos. Pois demonstrou que era o bom pastor que dá sua vida por suas ovelhas.

Evangelho (Jo 10,1-10)
Jesus, a porta do aprisco
Este é o domingo chamado do Bom Pastor, festa que é comemorada em todos os três anos litúrgicos. Além de ser o autêntico pastor, Jesus também se declara como a porta pela qual entra todo pastor legítimo e, através da qual, o acompanhando, saem suas ovelhas. Porta, pastor e ovelhas constituem termos de uma alegoria em que a voz do pastor é ouvida pelas suas ovelhas e encontram os prados de modo que tenham vida abundante. Esta alegoria do Bom Pastor é única do quarto evangelho que não encontra lugar paralelo entre os sinóticos. Jesus falará em Mateus e Marcos, como viu as multidões que eram como ovelhas sem pastor (Mt. 9,36 ) e afirmará que, ferido o pastor, as ovelhas serão dispersadas (Mt. 26,31). São estas duas passagens as que indiretamente declaram Jesus como pastor de Israel. Mas, é na perícope atual, de uma beleza extraordinária, a que nos mostra, primeiro, Jesus como a porta  para indicar que qualquer outra maneira de entrar no aprisco é sub-reptícia. Logo, na segunda parte, falará que ele é também o verdadeiro pastor. Nesta primeira parte, vamos falar de Jesus como porta. Antes de entrar na exegese do evangelho é oportuno e até necessário, observar as circunstâncias nas quais essa alegoria foi proclamada por Jesus. Jesus estava em Jerusalém, no templo, rodeado por fariseus que eram os mestres de Israel. Após a cura do cego de nascença, Jesus disse uma frase que incomodou os fariseus: vim para os que não veem vejam, e os que veem tornem-se cegos (9,39). Jesus então está afirmando uma coisa inaudita: Ele é a porta por onde deve entrar quem se considera pastor de Israel. Esta é a base do evangelho de hoje.

Uma afirmação inusitada. Amém, amém, vos digo: quem não entra pela porta ao aprisco das ovelhas, mas pula por outra parte , esse é ladrão e bandido (1).
Amém, amém: a palavra é de origem hebraica, traduzida por verdadeiramente na totalidade dos casos, ou deixada no original em outros. O Amém hebraico está relacionado com o verbo amam [crer ou ser fiel], e significa certamente, ou verdadeiramente. A tradução literal é: firmemente, fielmente, certamente, seguramente. Por isso, Deus mesmo é chamado Amém por ser fiel e veraz (Is. 66,16).
1) No princípio de um discurso, seria traduzido por com certeza.
2) No fim do mesmo, por assim será. Entre os judeus: Era costume entre os judeus, retomado pelos cristãos, que no fim de maldições solenes (Nm. 5,22), ou após orações e hinos de bênção e louvor (1Cr. 16,36 e Sl. 41,14), ou, terminado um discurso ou juramento (Jr. 11,5), os assistentes respondessem Amém, como aceitando a substância do mesmo. Em Jesus, testemunha fidedigna e veraz e Amém de Deus (2Cor. 1,19-20), o termo equivale a uma afirmação solene e inquestionável. Ele emprega o amém na frase Amen lego Ymin antes de uma afirmação solene e dogmática. Desta forma é usado 30 vezes em Mateus, 12 em Marcos e 7 em Lucas. Unicamente encontramos em Mateus o amém no fim, quando após o Pai Nosso diz: Teu o reino, o Poder e a glória pelos séculos. Amém (6,13). O seu uso ao início de uma afirmação é duplo em João: Amém , amém e aparece 24 vezes. Uma delas é esta de hoje. O Amém final repetido somente aparece duas vezes nos salmos: 41,14 e 72,19. Fora disso aparece repetido em Nm. 5,22., com o significado de genoitogenoito [seja, seja] grego nos três casos. Em todos os casos, significa verdadeiramente, de fato, como um assentimento ao afirmado anteriormente. Unicamente em Is. 65,16 o amém significa verdadeiro, pois se fala do Deus do Amém, ou seja, o Deus da Verdade, que cumpre sua palavra como traduz a vulgata: abençoar e jurar in Dio Amen. Na Nova vulgata o texto será: Quicumque benedicit sibi in terra, benedicet sibi in Deo Amem, et quicumque iurat in Deo in terra iurabit in Deo Amem.
Daí que o Amém tenha o sentido de verdade, de compromisso com a palavra própria e que em João, ao ser repetitiva, indica um superlativo, à semelhança de como aclamamos Santo, Santo, Santo é o Senhor (Is. 6,3). No NT, entre os escritos apostólicos, o Amém tem o significado de termo de oração ou de bênção, acrescentado para proclamar a adesão ao mesmo com o sentido de assim seja ou desejamos, como no caso de Rm. 1,25 Criador que é bendito pelos séculos. Amém. No nosso caso, parece um superlativo de verdadeiramente, ou o equivalente de com toda segurança e garantia, eu posso afirmar. É, pois, uma asseveração solene de Jesus na qual ele aposta, na verdade de que Ele é a Palavra de Deus.
O portão: Thyra é a palavra usada pelo evangelista. A palavra pode indicar a porta da habitação de uma casa, como em Mt. 6,6: Fecha a porta de tua habitação; a porta de um sepulcro em Mt. 27,60; a porta de uma casa Mc. 2,2 onde Jesus morava; o portão da cidade Mc. 1,33, assim como o portão de um aprisco Jo. 10,1.
Ovelhas: a palavra probaton no seu sentido mais lato denotava todos os animais de quatro patas [especialmente os domesticados] em oposição aos que nadavam ou rastejavam. Derivada a palavra de pro-baino = ir adiante, nos rebanhos mistos, era o gado miúdo [ovelhas e cabras] que por serem mais fracos que os outros animais iam à frente, marcando o passo. Originariamente, a palavra se empregava no plural, com o significado de rebanho ou manada. Mas depois, apareceu o emprego no singular, com o significado de um membro da manada, uma ovellha. No AT, com o plural probata significa-se metaforicamente o povo que está sob o domínio do pastor. O essencial era a necessidade de proteção, que, sem o pastor, fica disperso (Ez. 34,5). Javé providenciará para que seu rebanho não seja disperso, nomeando pastores, tal como o rei messiânico (Jr. 23,1) ou sendo ele mesmo o pastor de seu povo (Sl. 78,52 e Is. 40,11). No NT, probaton é mais frequente em Mateus (11 vezes) e em João (17 vezes). Fica claro que os contemporâneos de Jesus sabiam como a ovelha necessitava da proteção amorosa e abnegada do pastor, e que, sem ele, fica indefesa (Mt. 9,36) e perdida (Mt. 10,6)Jesus, como autêntico pastor é enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt. 15,24). Em João probaton denota o povo eleito de Cristo, os seus, os que conhecem sua voz, como vemos no evangelho de hoje, formando um só rebanho e um só pastor (Jo. 10, 16), quando finalmente judeus e cristãos fiquem reunidos numa só Igreja com um só Senhor. (Jo. 17,20-23). Com respeito a este último versículo, creio que é mais apropriado esta nossa interpretação que a de apelar aos gentios como ovelhas separadas. Aprisco: A palavra aulêsignificava nos tempos clássicos um espaço aberto, sem teto, mas cercado com um muro do qual formavam parte os currais; daí que, entre os orientais, significasse especialmente o redil, isto é o curral onde estava recolhido o gado de origem lanígero ou caprino. Em que consistia um redil? Como temos dito, era um espaço fechado por um muro de pedra sobre o qual existia uma sebe ou tapume de galhos espinhosos, que também podia ser uma cerca viva, para que as feras como lobos e cães selvagens não pudessem pular dentro do curral. É obardal espanhol, do qual eu tive perfeito conhecimento durante a guerra civil, quando fui obrigado a morar na roça. Parece que existia o costume do pastor dormir junto ao portão para ser despertado caso o ladrão quisesse entrar pelo portão. Dentro do mesmo havia gado de diferentes donos e unicamente os pastores, donos da porção correspondente de ovelhas, conhecidos pelo guardião de turno, podiam entrar pelo portão. Quem não entra: O portão está sempre à disposição dos donos das ovelhas, mas é lógico que os que não são pastores das mesmas não têm permissão para entrar. Por isso entram pulando o muro. São os que João chama de Kleptes e Lestes. As duas palavras têm significados diferentes: Um Kléptes é um ladrão vulgar, um fraudador, que não usa da violência, mas do engano e da astúcia; é o fur latino [daí a palavra furto]. Já um Lestes é um arrombador que usa a violência e que podemos traduzir por malfeitor, salteador, bandido, ou facínora. A vulgata traduz lestes por latro [dela provém o ladrão]. Inicialmente latro era a palavra usada para denominar o soldado que se apoderava dos bens inimigos, como saqueador dos mesmos. E foi a palavra usada para descrever Barrabás segundo João. Lestes era também o pirata. Os outros evangelistas falam de Barrabás, como se fosse de um revoltoso. O importante da afirmação é que quem entra pulando a cerca é um malfeitor que não busca o bem das ovelhas, mas pelo contrário, o proveito próprio que delas pode obter.

O Pastor. Mas aquele que entra através da porta é pastor das ovelhas (2). A este, o porteiro abre e as ovelhas ouve (m) sua voz e as ovelhas próprias chama por nome e as saca (2).
Contrariamente à conduta imprópria dos ladrões e assaltantes, o pastor do rebanho, neste caso das ovelhas, sempre entra pela porta. Na realidade, oprobata grego é usado principalmente para designar o gado menor,  composto, na Palestina da época, de ovelhas e cabras (Mt. 25,32). Como vemos, no grego usa-se o singular para o verbo ouvir, talvez dando o significado de rebanho, no caso, e poderíamos traduzir: o rebanho ouve a sua voz e chama pelo nome as ovelhas próprias e as conduz para fora.

A conduta das ovelhas. E quando fizer sair as próprias ovelhas, caminha diante delas e o rebanho o segue, porque tem conhecido a sua voz (4). Mas a um estranho não seguiriam, mas fugiriam dele porque não têm conhecido a voz de estranhos (5).
O dono das ovelhas ou o pastor das mesmas é conhecido do porteiro e entra pelo portão. Nos versículos seguintes (3,4 e 5 ) que podem ser um acréscimo do próprio evangelista como explicação, Jesus fala da relação ovelha-pastor: as ovelhas conhecem sua voz; ele as chama pelo seu nome e as conduz fora do aprisco. Logicamente, tudo isto é o oposto da maneira de agir dos assaltantes: as ovelhas são forçadas ou mortas e assim estas são as únicas maneiras de apoderarem-se delas. A um estranho não acompanhariam, mas antes fugirão dele porque não reconheceram sua voz (5).

Conclusão: esta narrativa figurada disse-lhes Jesus. Mas eles não conheceram que realidades eram das que lhes falava (6).
A tradução, querendo ser a mais literal possível, resulta às vezes um pouco forçada. Narrativa figurada é uma tradução do grego original que melhor  poderíamos traduzir por metáfora e que a Vulgata traduz por provérbio. De novo, paroimia é usada por João como metáfora prolongada ou uma fala figurada: Estas coisas vos tenho dito falando em palavras figuradas (16,25). Somente em 2Pd. 2,22, fala-se de adágio ou provérbio: aconteceu com eles o que diz o provérbio: o cão voltou ao próprio vômito. Porém os ouvintes, que eram os fariseus, não entenderam o significado desta comparação metafórica. Assim este versículo é uma conclusão lógica do evangelista, dadas as circunstâncias em que ele viveu o momento histórico que relata. Era este um lance de tensão entre Jesus e os fariseus a quem, por não ver na cura do cego de Siloé, além do fato material, a realidade transcendente do autor, Jesus terá que chamar de cegos, apesar de se declararem videntes. Por que não admitiam Jesus como o enviado do Pai? E Jesus responde com esta alegoria. Eles, porém, não entenderam a realidade, oculta sob as palavras da comparação.  Daí a explicação estrita, dada pelo próprio autor da alegoria, como veremos nos versículos seguintes.

De novo a afirmação. Disse-lhes, então, de novo, Jesus: Amém, Amém vos digo que eu sou a porta das ovelhas (7). Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e bandidos; não os escutaram as ovelhas (8).
É uma primeira declaração que explica o porquê o povo de Israel, que  era chamado de rebanho que Javé de modo particular pastoreava [dá ouvidos, ó pastor de Israel, tu que conduzes a José como um rebanho; tu que estás entronizado acima dos querubins, mostra o teu esplendor (Sl. 80,1)], tinha uma porta no redil e essa porta de entrada e saída era Ele, Jesus. Pastor, em hebraico é ra’ah que é traduzido por poimën ao grego e por pastor ao latim. Tanto no grego clássico quanto na bíblia, emprega-se em sentido metafórico para indicar um líder, um governante, um comandante. Platão fala dos chefes de uma polis como sendo cópias do divino pastor. No Oriente antigo, pastor era o título de honra que se aplicava de igual modo a soberanos e deuses. No verão seco, em terra sem água, não era fácil achar novas pastagens e o pastor devia cuidar de modo incansável dos seus animais indefesos. No AT Javé é o único Pastor do seu Povo. Esta ideia se destaca nos salmos 23; 28,29 etc. E o povo é o único rebanho de Javé. Assim se fala de que o rebanho de Israel é conduzido para o exílio (Jr. 13,17). Também, entre outras passagens, podemos citar Isaías 40, 11 onde lemos: o Senhor Javé, vosso Deus como um pastor apascenta ele o seu rebanho … No NT poimen aparece 9 vezes nos sinóticos e 6 vezes em João. Os contemporâneos de Jesus desprezavam o pastor, mas foi esta, a metáfora que Jesus empregou para expressar o amor de Deus para com os pecadores e para revelar a sua oposição à condenação destes por parte dos fariseus (Lc. 15,4-6). E, nesta alegoria, Jesus se apresenta como porta das ovelhas e como o autêntico pastor das mesmas. Estas podem ser descritas como poimnh (Jo. 10,16) ou como a soma total das mesmas com a palavra probata. Em ambos os casos, probata é a representação dos seus discípulos, os que ouvem em obediência as suas palavras. Veremos o motivo por que Jesus se identifica com a porta do aprisco já que o Pastor era Javé. A conclusão: Todos os que vieram antes de Jesus, não eram os verdadeiros pastores. Porque não entraram pela porta das ovelhas, já que Ele e só Ele era a porta. Isto quer dizer que não existiu verdadeiro Messias antes de Jesus. Quem teve a audácia de se declarar Messias antes de Jesus? No seu tempo houve revoltas contra os romanos, anteriores a Cristo, como falsos profetas. Eram os que não entraram pela porta que é Ele, Jesus, o Filho Encarnado. Ou seja, com esta frase não suprime nem Moisés nem os profetas até João o Batista, pois dEle todos eles falaram, mas todos os que rejeitaram seu nome [pessoa] como os fariseus ou, em seu lugar, tomaram o ministério de serem os Ungidos e Messias, ou salvadores da humanidade, como no caso dos Césares, de título Augusti, ou como Apolônio de Triana, Mitra e Simão o mago, para não falarmos dos falsos messias judeus como o caso de Herodes, o Magno (39 a 4 a.C. ), a quem os herodianos consideravam como Messias, Judas Galileu (4 a 6 a.C.) sucessor de seu pai Ezequias morto este por Herodes. Simão da Pereia (4 a.C.), Atronges, o pastor (4 a.C.), que foi morto por Arquelau e finalmente Judas, o Galileu (6 a.C.). Podemos falar inclusive do Batista, cujos discípulos, com o nome de mandeos ou mandeanos, ainda sobrevivem em número de cem mil no norte do Iraque. Se não entraram através da porta, que é Jesus, são falsos pastores. E definitivamente foram causa de revoltas e matanças tanto pelo poder romano como pelos poderes fáticos da Palestina da época. Cita-se Zc. 11,8: Eu destruirei os três pastores em um só mês para indicar os líderes das três seitas religiosas no tempo de Jesus: Fariseus, Saduceus e Essênios que foram suprimidas na guerra, de modo que já não mais tiveram influência dentro do mundo judeu. Faltando na Vulgata o antes de mim e em vários códices gregos, podemos incluir outros movimentos messiânicos como os do profeta samaritano (36 d.C.) morto por Pilatos, o rei Antipas (44 d.C.), Teudas, o Egípcio (45 d.C.), o profeta egípcio (58 d.C.) o profeta anônimo (59 d.C.), Menahem filho de Judas o Galileu (66 d.C.), João de Giscala (66-70 d.C.), Simão bar Giora (67-70 d.C.), Tito Vespasiano (67-81), Jonatan o tecedor(73 d.C.). Lukuas (115 d.C.), e principalmente, de Bar Kokhba (135 d.C.), o último dos messias nos tempos posteriores a Jesus. O rebanho que não os escutou, significa que não o seguiram indefinidamente, de modo que seus movimentos hoje estão completamente esquecidos. Todos eles levaram à morte seus partidários. Só Jesus morreu pelos seus e disse ao ser preso: deixai que estes se retirem (Jo. 18,8). Então de novo disse Jesus: Absolutamente vos digo: Eu sou a porta das ovelhas (7). Que significa isto? Dos parágrafos anteriores, a porta era principalmente a entrada por onde o verdadeiro pastor entra e recolhe as ovelhas para levá-las ao pasto. Mas se Jesus era a verdadeira porta, quem eram os outros que a si mesmos se intitularam como tais, até o momento em que ele veio e se mostrou aos conterrâneos?  Eram ladrões e facínoras. Por isso, não foram escutados pelas ovelhas. Quem eram estes anteriores a Jesus? Sem dúvida, os fariseus e os líderes do povo antes de Jesus. Santo Ignácio, o bispo mártir de Antioquia afirma que Jesus é a porta do Pai por onde entram Abraão, Isaac e Jacó, os profetas, os apóstolos e a Igreja (aos de Filadélfia 9,1).

NOTA: por serem pouco conhecidos, vamos falar de Simão de Pereia (4 a.C.). Após a morte de Herodes, o Grande, um escravo de seu séquito, de nome Simão, um gigante em estatura, colocou o diadema real sobre sua cabeça e foi seguido por um número considerável de adeptos. Pôs fogo no palácio de Jericó e em outras casas reais deixando que fossem saqueados.
Gratus, o comandante da infantaria de Herodes, uniu-se a alguns soldados romanos e, após derrotá-lo, cortou-lhe a cabeça.
Atronges, o pastor (4 a.C.): após a morte de Herodes, rebelou-se contra Arquelau.
Atronges, um pastor, mas de força e estatura superior, com seus 4 irmãos também de grande porte físico, comandou um grupo numeroso e colocou um diadema sobre sua cabeça. E foi chamado de rei. Matou um grande número de romanos e soldados leais a Arquelau. Atacou uma companhia de romanos em Emaús, que traziam grãos e armas para o exército. Matou 40 deles, entre eles Arius o centurião. Gratus, nosso conhecido, veio em auxílio dos vencidos. Após dois anos de luta, mortos por luta e doença os 4 irmãos, Atronges se entregou sob a promessa de Arquelau de respeitar sua vida.
Judas filho de Ezequias (4 a.C.): também após a morte de Herodes, e com um número considerável de partidários, atacou Séforis, a capital do norte e tomou as armas e pilhou a cidade. Provavelmente foi capturado pelo governador de Síria, Varo, famoso pela perda das legiões na Germânia anos mais tarde, que semeou de cruzes o caminho até Jerusalém.
Judas, o Galileu (6 d.C.): não confundi-lo com o anterior, pois se passaram 10 anos entre os dois e as circunstâncias foram totalmente diferentes. Sendo Arquelau deposto pelos romanos o seu reino foi tomado, como província da Judeia, pelo governador Copônio, que intentou novos impostos. Assim se formou uma rebelião sob a liderança de Judas o Galileu, e quando o sumo sacerdote Joazar foi incapaz de resolver a sublevação, interveio o governador adjacente da Síria, Públio Sulpício Quirino, conhecido por Lucas em 2,2. Nosso Judas, da cidade de Gamala, apoiou-se no critério do fariseu Zadok, para iniciar uma revolta que lutava contra a escravidão, à qual conduziam os impostos, e afirmando que unicamente seu Senhor era o Deus de Israel (ver o tributo ao César dos fariseus). Assim se originou a quarta seita judaica, a dos zelotes. Nos Atos, Judas foi morto e todos os que o seguiam foram dispersos (At. 5,37).
Como vemos é certíssima a afirmação de Jesus de que todos eles eram ladrões e bandidos. Só serviram para a morte de seus seguidores. No mundo moderno, aqueles que com a escusa da injustiça se levantaram como líderes de uma nova ordem mundial levaram seus seguidores à morte. Os nazistas foram responsáveis por 25 milhões de mortes, ao passo que os mortos, nos vários Estados do socialismo real, não ficaram aquém de 100 milhões, dentre os quais 20 milhões na Rússia e 65 milhões na China (tomado de Carlos I. S. Azambuja, historiador).
Pelo que diz respeito aos anos posteriores de Jesus, temos o caso de Teudas, discutível quanto a data, entre o relato dos Atos e o relato de F. Josefo. Segundo Josefo entre o ano de 44 e o 46 d.C. causou certos distúrbios ao se proclamar Messias e reuniu um grande número do povo à beira do Jordão, dizendo que dividiria as águas do rio. Cuspius Fadus, o procurador, não permitiu mais alterações e enviou uma força de cavaleiros que matou muitos e cortou a cabeça de Teudas, que foi carregada até Jerusalém. O interessante do caso é que esse Teudas é citado por Gamaliel em At 5,36, mas que a data de sua atuação deve ser retraída ao ano 33, quando Gamaliel fala diante do Sinédrio, no ano em que os apóstolos começavam a pregar o evangelho e foram impedidos pelo supremo tribunal. Fado, efetivamente foi procurador entre 44-66. Houve um erro de Lucas, ou o erro foi de F. Josefo, tantas vezes inseguro pelas datas de sua História das Antiguidades Judaicas? Cremos nesta última hipótese, já que o escrito de Lucas é muito mais próximo dos fatos.

Eu sou a Porta. Eu sou a porta. Através de mim, se alguém entrar, será salvo e entrará e sairá e encontrará pastagem (9). O ladrão não vem senão para que roube e mate e perca; eu vim para que tenham vida e sem medida tenham (10).
Jesus indica claramente que ele é único, como porta, por onde devem entrar todos os pastores de Israel. Ou seja, os reis ou dirigentes messiânicos de Israel, devem se ajustar ao único verdadeiro que é ele, Jesus. Quem não entra, como os apóstolos, pela sua porta não pode ser verdadeiro pastor. Porque os outros que não entram pela porta só se servem das ovelhas para roubar, matar e assim se perdem. Na nota temos visto como a realidade se conforma com as palavras de Jesus. Ele, pelo contrário, veio para que as ovelhas possam viver e até melhor do que viviam dentro dos limites dos antigos pastores de Israel.  Por isso, na continuação, Jesus explica seu papel de supremo e verdadeiro pastor. Mas isso ultrapassa os limites do evangelho de hoje.
PISTAS
1) A afirmação de Jesus de ser a porta do aprisco é de tal modo absoluta, que nos obriga a mantê-la como uma verdade dogmática. Todo aquele, que não se compromete com Jesus e seus ensinamentos, não pode ser verdadeiro pastor das ovelhas que constituem os súditos do reino.
2) Essa porta é única, de modo que qualquer outra porta moral ou dogmática será o mesmo que entrar no aprisco por cima da cerca. E isso constitui os tais ladrões e facínoras, que servem melhor aos seus interesses do que ao bem das ovelhas a eles encomendadas.
3) Quem são os tais? Evidentemente aqueles que buscam o dinheiro como proveito de seus serviços, ou a fama para serem louvados como tais líderes (Mc. 12,38-39), quando Jesus afirma que seu serviço é  dar a vida e para isso ele escolheu a própria morte para que elas tenham vida (Jo. 10,15). Jesus aclarará como os chefes da terra subjugam e dominam, mas aquele que quiser ser grande entre seus discípulos deve servir a todos como fez ele mesmo (Mt. 20,25-28).
4) Não podemos esquecer que os primeiros pastores são os próprios pais. Neste mundo em que o bem-estar e o prazer substituem o amor e o serviço, é bom recordar as palavras de Jesus sobre como apascentar as ovelhas, que no caso são os filhos. Por isso, o problema deste Papa será o problema da família e da conservação da vida em todos os aspectos.
padre Ignácio de Nicolás Rodríguez




Amor de predileção pelos sacerdotes
Estamos no mês mariano. Durante este mês é importante que não nos esqueçamos de pedir à Mãe de Jesus que cuide dos sacerdotes. Cada padre, desde que João foi confiado a Maria, é seu filho predileto. Ela os ama de maneira muito especial.
O amor é necessariamente desigual. Não se pode pedir a uma mãe que ame com a mesa intensidade tanto os filhos que saíram das suas entranhas quanto aos estrangeiros que ela apenas teria saudado alguma vez. Não se pode pedir a um marido que a todas as mulheres por igual. Tampouco se pode exigir ao cristão amar a todos os seres humanos por igual. A caridade é ordenada e, por isso mesmo, justamente desigual. É lógico que amemos mais intensamente os nossos irmãos na fé, especialmente aqueles que convivem conosco; é totalmente normal que amemos mais fortemente os nossos familiares, especialmente os nossos pais; não há nada de estranho que amemos mais os nossos amigos que os nossos inimigos, ainda que devamos amar também aos inimigos.
Maria ama com predileção os sacerdotes do seu filho porque Jesus os confiou a ela enquanto sofria na cruz para a nossa salvação. Nossa Senhora não pôde esquecer jamais aquela cena. As últimas vontades de um moribundo, especialmente quando esse moribundo é o Filho de Deus, ficam gravadas na mente de uma maneira indelével. As últimas coisas que um filho pede a uma mãe ficam presentes para sempre na memória materna. Com Nossa Senhora não foi diferente: o desejo de Jesus permaneceu sempre presente no seu coração e ela tem cuidado dos sacerdotes com amor de predileção até hoje.
Gosto de pensar na figura de João. É o típico rapaz valioso e de pouca idade que decide entregar-se de corpo e alma a uma causa maior. João entregou tudo o que era seu aos cuidados de Jesus. João era jovem, tinha um coração puro, era um rapaz vigoroso, um jovenzinho de caráter forte, um coração grande e generoso. Eu não estou de acordo quando se escuta por aí que o vocacionado ao sacerdócio tem que fazer primeiro uma experiência de namoro antes de entrar no seminário. Aqueles que tiveram uma experiência desse tipo não são melhores nem piores do que aqueles que não a tiveram. No entanto, não posso deixar de elogiar a entrega total daqueles que, sem dividir o coração em nenhum momento, se entregaram totalmente a Cristo. Isso é maravilhoso!
Por outro lado, Jesus tem direito de escolher os seus ministros tanto entre os que mantiveram uma vida irrepreensível como o apóstolo João e o discípulo amado de Paulo, Timóteo; como entre aqueles que foram grandes pecadores, como Pedro, Paulo, Agostinho, etc. A todos esses o Senhor confiou a missão de ser pastores da sua grei.
No trecho do Evangelho de hoje, a palavra “porta” aparece quatro vezes. Jesus é a porta! Ou seja, o acesso a Deus, à felicidade, a uma vida verdadeiramente humana, é possível somente através de Cristo. Outras vozes, outras portas, outros pastores não conduzem à vida em abundância que só Jesus tem para dar-nos. Assim como Jesus é a porta das ovelhas, o sacerdote –agindo na Pessoa de Cristo cabeça e em nome da Igreja– também é porta.
Esse é um critério importante para pastores e ovelhas. O sacerdote tem que ser pastor no Pastor. Ele não pode pregar uma doutrina diferente da de Jesus. Se o padre pregasse algo diferente do Evangelho, ele estaria fazendo ressoar uma voz que as ovelhas não seguiriam porque elas não reconhecem nesse tipo de pregação a voz de Cristo, Pastor das suas almas. Nós, os sacerdotes, somos instrumentos do único Pastor. Chamam-nos pastores, e o somos, porque participamos no pastoreio de Jesus. Quando anunciamos a Palavra e quando celebramos os Sacramentos não somos nós, é Cristo em nós. Somos o mesmo Cristo, estamos identificados com ele. Que absurdo, portanto, pregar algo diferente do Evangelho! Que contrassenso pregar uma doutrina que não seja a doutrina católica, tanto em questões de fé quanto em questões de moral.
Os fiéis de Cristo têm direito a escutar a voz de Cristo através dos seus sacerdotes. Os ministros do Senhor foram ordenados para isso. Os fiéis podem e devem exigir deles o Cristo. Os demais cristãos não podem tolerar uma doutrina que não seja a do Divino Pastor e a da sua Esposa, a Igreja, vinda da boca de um sacerdote. Se tal coisa se desse, os fiéis deveriam, justamente, manifestar-se –mas com cuidado para não faltar à caridade– e pedir o que eles desejam: Jesus Cristo, sua palavra santa, os seus sacramentos.
padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa





Pastor- Ovelhas- Vocações
O quarto domingo da Páscoa é o domingo do Bom Pastor. Depois de várias aparições de Cristo ressuscitado às mulheres, aos apóstolos, aos discípulos, hoje Jesus se apresenta como o Bom Pastor! É um título de Cristo muito familiar aos primeiros cristãos. A liturgia deste domingo convida-nos a meditar na misericordiosa ternura de nosso Salvador, para que reconheçamos os direitos que Ele adquiriu sobre cada um de nós com a sua morte. No Evangelho (Jo 10,1-10) Jesus se apresenta como o Bom Pastor. É uma catequese sobre a missão de Jesus: conduzir os homens às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em plenitude. O Bom Pastor aparece numa atitude de ternura com as ovelhas… Ele as conhece,as chama pelo nome, caminha com elas e estas O seguem. Elas escutam a Sua voz, porque sabem que as conduz com segurança. Em contraste com o pastor, aparece a figura dos ladrões e dos bandidos. São todos os que se apresentam como Pastor, ou até falam em nome de Cristo, mas procuram somente vantagens pessoais. Além do título de Bom Pastor, Cristo aplica-Se a Si mesmo a imagem da porta pela qual se entra no aprisco das ovelhas que é a Igreja. Ensina o Concílio Vaticano II:” A Igreja é o redil, cuja única porta e necessário pastor é Cristo (LG. 6). No redil entram os pastores e as ovelhas. Tanto uns como outras hão de entrar pela porta que é Cristo. “ Eu, pregava santo Agostinho, querendo chegar até vós, isto é, ao vosso coração, prego-vos Cristo: se pregasse outra coisa, quereria entrar por outro lado. Cristo é para mim a porta para entrar em vós: por Cristo entro não nas vossas casas, mas nos vossos corações. Por Cristo entro gozosamente e escutais-me ao falar d Ele. Por quê? Porque sois ovelhas de Cristo e fostes compradas com o Seu Sangue”. “… e as ovelhas O seguem, porque conhecem a sua voz” (Jo 10,4). Ora, a Igreja é Cristo continuado! Diz são Josemaria Escrivá: “Cristo deu à Sua Igreja a segurança da doutrina, a corrente de graça dos sacramentos; e providenciou para que haja pessoas que nos orientem, que nos conduzam, que nos recordem constantemente o caminho. Dispomos de um tesouro infinito de ciência: a Palavra de Deus guardada pela Igreja; a graça de Cristo, que se administra nos Sacramentos; o testemunho e o exemplo dos que vivem com retidão ao nosso lado e sabem fazer das suas vidas um caminho de fidelidade a Deus” (Cristo que passa, nº 34).
Jesus é a porta das ovelhas! Para as ovelhas significa que Jesus é o único lugar de acesso para que as ovelhas possam encontrar as pastagens que dão vida. Para os cristãos, o Pastor por excelência é Cristo: Ele recebeu do Pai a missão de conduzir o rebanho de Deus… Portanto, Cristo deve conduzir as nossas escolhas. Quem nos conduz? Qual é a voz que escutamos? A voz da política, a voz da opinião pública, a voz do comodismo e da instalação, a voz dos nossos privilégios, a voz do êxito e do triunfo a qualquer custo, a voz da novela? A voz da televisão? Cristo é o nosso Pastor! Ele Conhece as ovelhas e as chama pelo nome, mantendo com cada uma delas uma relação muito pessoal. A existência humana é bem complexa para que se possa vivê-la com segurança absoluta. Jesus, porém, oferece a quem O segue a direção exata e a proteção eficaz para evitar os elementos que podem prejudicar.
Afirma o Sl. 22(23): “ Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei;estais comigo…”. O Divino Pastor é quem pode, realmente, ajudar, salvar e conservar a vida. Ele afirmou: “Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Para distinguir a Voz do Pastor é preciso três coisas: – Uma vida de oração intensa; um confronto permanente com a Palavra de Deus e uma participação ativa nos sacramentos, onde recebemos a vida, que o Pastor nos oferece. Nesse 48º Dia mundial de oração pelas vocações, o papa enviou uma mensagem, com o tema: “Propor as vocações na Igreja Local”: “É preciso que cada Igreja local se torne cada vez mais sensível e atenta à pastoral vocacional, educando a nível familiar, paroquial e associativo, sobre tudo os adolescentes e os jovens, para maturarem uma amizade genuína e afetuosa com o Senhor, cultivada na oração pessoal e litúrgica… na escuta atenta e frutuosa da Palavra de Deus… A capacidade de cultivar as vocações é sinal característico da vitalidade de uma Igreja local”.
mons. José Maria Pereira




O ponto mais alto da Palavra de Deus, para este domingo, encontra-se no texto do Santo Evangelho – São João 10, 9-10: «Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai doaprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».

Primeira leitura – Atos 2,14a.36–41
Temos hoje a continuação da leitura do discurso de são Pedro no dia do Pentecostes. E continuaremos em todos os domingos pascais a ter trechos dos Atos dos Apóstolos como 1ª leitura.
36 «Deus fez Senhor e Messias esse Jesus». É evidente que Jesus não é feito Senhor, isto é, Deus e Messias, só após a prova a que foi sujeito (a Sua Paixão e Morte), mediante a Sua Ressurreição e glorificação. No plano divino, era a Ressurreição de Jesus que devia manifestar plenamente a sua condição e poder divinos e fazê-Lo entrar no gozo perfeito da glória que Lhe competia como Pessoa divina e Messias (cf. Lc. 24,26). O verbo grego «epóiêsen» (fez) parece ser a tradução do verbo hebraico «xamó»: «colocou-O como».
38 «O Batismo em nome de Jesus Cristo». É chamado assim, «em nome de Jesus», para o distinguir de outros batismos correntes na época, como o de João e o dos prosélitos. Chama-se «de Jesus», não só por ter sido instituído por Jesus, mas também porque nos faz pertencer a Cristo, incorporando-nos n’Ele (cf. Rm. 6,3; Gal. 3,27). Esta expressão nada nos diz da fórmula ritual usada na administração do Sacramento, que seria a trinitária, como que consta de Mt. 28,19, exigida para a validade.
«Recebereis o dom do Espírito Santo». Não se designam aqui os chamados «sete dons do Espírito Santo», mas sim o dom (que é) o Espírito Santo (trata-se de um «genitivo epexegético, ou de aposição», como lhe chamam os gramáticos). Não é fácil de saber se o texto se refere à recepção do Espírito Santo mediante o batismo, ou mediante a imposição das mãos no Sacramento da Confirmação (cf. At. 8,17; 19,6).
39 «Quantos de longe». É uma referência aos gentios (cf. At. 22,21; Ef. 2,13).

Segunda leitura - 1  Pedro 2,20b–25
Os vv. 21b-25 formam um hino a Cristo, muito belo, com uma alusão final ao cumprimento da profecia do Servo de Yahwéh (4º canto: Is. 52,13 – 53,12) e ao Bom Pastor (cf. Jô 10,11-16; 21,15-19); também se pode ver uma alusão a Ez. 34,11-16, onde é o próprio Deus que vem apascentar as suas ovelhas dispersas (alusão em que se pode ver um deraxe cristológico, isto é, a aplicação a Jesus do que no A. T. se diz de Yahwéh).
Os conselhos que aqui temos são dirigidos particularmente aos escravos (cf. v. 18). Não sendo possível então acabar com uma ordem social injusta, como era a escravatura, Pedro não desiste de ajudar os escravos a santificarem-se na condição a que estão sujeitos, imitando a Cristo – seguindo os seus passos – sofredor e obediente até à morte: sendo inocente «sofreu por vós» (v. 21), suportou os nossos pecados… pelas suas chagas fomos curados» (v. 24). Portanto, se os que são escravos forem tratados de modo injusto, que se deixem de lamentações inúteis, mas suportem tudo como Jesus, que «Se entregava Àquele que julga com justiça», que «não pagava com injúrias» e «não respondia com ameaças» (v. 23). Esta exortação mantém atualidade para nós, hoje, já que é frequente ter de «suportar sofrimentos por fazer o bem» (v. 30). E «isto é uma graça aos olhos de Deus» (v. 20b).

Evangelho – João 10,1–10
No capítulo 10 de João podem ver-se duas parábolas, as únicas do IV Evangelho: a parábola do pastor e o ladrão (1-6) e a do pastor e o mercenário (11-13), ambas explicadas por Jesus. Neste ano, temos a primeira.
1-5 - Para uma reta compreensão da parábola devem-se ter presentes os costumes pastoris da Palestina. Durante o dia, os rebanhos dispersavam-se pelas poucas pastagens daquelas zonas pobres. À noite, especialmente a partir da Primavera, eram recolhidos em recintos descobertos, rodeados de uma sebe ou pequeno muro. Nesta cerca, que faz de «aprisco», era frequente reunirem-se vários rebanhos, que ficavam a ser vigiados de noite por algum guarda pago, um «mercenário», ao passo que os pastores se albergavam em cabanas armadas nas proximidades. De manhã, cada pastor vinha à porta do recinto chamar as suas próprias ovelhas, que já lhe conheciam o grito habitual e que vão atrás dele para as pastagens. Quem não entrar pela porta, mas saltar o muro, é «ladrão e salteador», e «não vem senão para roubar, matar e destruir» (v. 10); não vem para apascentar o rebanho.
7-10 - O sentido da parábola é claro e fica explicado pelo Senhor. Parte do dado de que o Povo de Deus é o rebanho de Yahwéh (Ez 34). Aqueles que, sem mandato divino, vieram antes de Jesus são «ladrões e salteadores» (v. 8), que cuidam só dos interesses próprios, inimigos e rivais de Jesus, causando destruição no rebanho (v. 10), ao passo que Jesus, e só Ele, que veio para dar a vida em abundância (v. 10), é o autêntico Pastor. Jesus apresenta-se como a «Porta» do redil, a porta por onde as ovelhas têm de passar para chegar à salvação e ter a vida eterna, «a vida em abundância» (v. 10). No v. 7, de acordo com os vv. 1-2, Jesus aparece como a porta que dá acesso ao aprisco, a sua Igreja; assim Jesus indica que só são legítimos pastores, os que passam por Cristo, recebendo d’Ele o mandato; os demais pastores só trazem ruína ao rebanho.

MENSAGEM PARA O 45º DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES
«As vocações a serviço da Igreja-Missão»
Aos apóstolos Jesus ressuscitado confiou o mandato: «Ide, pois, fazei discípulos meus entre todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (Mt. 28,19) e assegurando: «Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo» (Mt. 28,20). A Igreja é missionária no seu conjunto e em cada um dos seus membros. Se, graças aos sacramentos do batismo e da Confirmação, cada cristão é chamado a testemunhar e a anunciar o Evangelho, a dimensão missionária é especialmente e intimamente ligada à vocação sacerdotal. Na aliança com Israel, Deus confiou a homens selecionados, chamados por Ele e enviados ao povo em seu nome, a missão de serem profetas e sacerdotes. Assim fez, por exemplo, com Moisés: «E agora, vai! – lhe disse Javé – Eu te envio ao Faraó [...] [...] quando tiveres tirado o povo do Egito, servireis a Deus sobre esta montanha». (Ex. 3,10.12). Igualmente acontece com os profetas.
2. As promessas feitas aos pais se realizaram plenamente em Jesus Cristo. A este respeito, afirma o Concílio Vaticano II: «Veio pois o Filho, enviado pelo Pai, que n’Ele nos escolheu antes de criar o mundo, e nos predestinou para sermos filhos adotivos [...] Por isso, Cristo para cumprir a vontade do Pai, inaugurou na terra o Reino dos Céus e revelou-nos o seu mistério, realizando-o, com a própria obediência, a redenção» (Const. Dogmática Lúmen Gentium, 3). Durante a pregação na Galileia, na vida pública, Jesus escolheu os discípulos como seus diretos colaboradores no ministério messiânico. Por exemplo, na multiplicação dos pães, quando disse aos Apóstolos: «Dai-lhes vós mesmo de comer» (Mt. 14,16), animando-os assim, a assumir o peso das necessidades das multidões, às quais queria oferecer o alimento para saciar-lhes a fome, mas também revelar o alimento «que dura para a vida eterna» (Jô 6,27). Movia-se de compaixão pelo povo, porque, ao percorrer cidades e aldeias, via multidões cansadas e abatidas, «como ovelhas sem pastor» (cf. Mt. 9,36). Do seu olhar de amor brotava o convite aos discípulos: «Pedi ao Senhor da messe, que mande operários para sua messe» (Mt. 9,38), enviando antes os Doze, com precisas instruções, «às velhas perdidas da casa de Israel». Se nos detemos a meditar esta página do Evangelho de Mateus, conhecida comumente como «discurso missionário», observamos todos aqueles aspectos que caracterizam a atividade missionária de uma comunidade cristã, que deseja ser fiel ao exemplo e ao ensinamento de Jesus. Corresponder ao chamado do Senhor supõe enfrentar cada perigo com prudência e simplicidade, e inclusive as perseguições, pois «um discípulo não é mais que seu mestre, nem um servo mais que o seu patrão» (Mt. 10,24). Feitos uma coisa só com o Mestre, os discípulos não ficam sós para anunciar o Reino dos Céus, mas é o mesmo Jesus que age neles: «Quem vos acolhe, a mim acolhe; e quem me acolhe, acolhe aquele que me enviou» (Mt. 10,40). Além disso, como verdadeiras testemunhas, «revestidos da força do alto» (Lc. 24,49), estes pregam «a conversão e o perdão dos pecados» (Lc. 24,47) a todos os povos.
3. Precisamente por terem sido enviados pelo Senhor, os Doze receberam o nome de «apóstolos», chamados a percorrer os caminhos do mundo anunciando o Evangelho, como testemunhas da morte e ressurreição de Cristo. Escreve são Paulo aos cristãos de Corinto: «Nós – isto é os Apóstolos – anunciamos Cristo crucificado» (1Cor. 1,23). Neste processo de evangelização, o livro dos Atos dos Apóstolos considera também muito importante o papel de outros discípulos, cuja vocação missionária surge através circunstâncias providenciais, às vezes dolorosas, como a expulsão da própria terra enquanto seguidores de Jesus (cf. 8,1-4). O Espírito Santo permite transformar esta prova em ocasião de graça, fazendo com que o nome do Senhor seja anunciado a outros povos, ampliando assim o círculo da comunidade cristã. Trata-se de homens e de mulheres que, como escreve Lucas no livro dos Atos, «arriscaram a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo» (15,26). O primeiro entre todos, chamado pelo Senhor mesmo para ser um verdadeiro Apóstolo, é, sem dúvida, Paulo de Tarso. A história de Paulo, o maior missionário de todos os tempos, descreve, em muitos aspectos, qual seja o nexo entre a vocação e a missão. Acusado pelos seus adversários de não ter sido autorizado para o apostolado, ele mesmo, repetidas vezes, apela ao chamado recebido diretamente pelo Senhor (cf. Rm. 1,1; Gal. 1,11-12.15-17).
4. O que «impeliu» os apóstolos no início, e no decorrer dos tempos, foi sempre «o amor de Cristo» (cf. 2Cor. 5,14). Como fiéis servidores da Igreja, dóceis à ação do Espírito Santo, muitos missionários, ao longo dos séculos, seguiram as pegadas dos primeiros discípulos. Observa o Concílio Vaticano II: «Embora todo discípulo de Cristo incumba-se da obrigação de difundir a fé conforme as suas possibilidades, Cristo Senhor chama sempre dentre os discípulos os que ele quer para estarem com ele e os enviarem a evangelizar os povos (cf. Mc. 3,13-15)» (Decreto Ad gentes, 23). De fato, o amor de Cristo foi comunicado aos irmãos, com exemplos e palavras - com toda a vida. «A vocação especial dos missionários ad vitam – escreveu o meu venerável Predecessor João Paulo II - conserva toda a sua validade: representa o paradigma do compromisso missionário da Igreja, que sempre tem necessidade de doações radicais e totais, de impulsos novos e corajosos» (Enc. Redemptoris missio, 66).
5. Entre as pessoas que se dedicam totalmente a serviço do Evangelho estão, de modo particular, muitos sacerdotes chamados para anunciar a Palavra de Deus, administrar os sacramentos, especialmente a eucaristia e a reconciliação, dedicados ao serviço dos mais débeis, dos doentes, dos sofredores, dos pobres e dos que passam por momentos difíceis, em regiões da terra onde ainda hoje existem multidões que não tiveram um verdadeiro encontro com Cristo. Para estes, os missionários levam o primeiro anúncio do seu amor redentor. As estatísticas testemunham que o número dos batizados aumenta cada ano, graças à ação pastoral destes sacerdotes, inteiramente consagrados à salvação dos irmãos. Neste contexto, seja dado um especial reconhecimento «aos presbíteros fidei donum que edificam a comunidade, com competência e generosa dedicação, anunciando-lhe a palavra de Deus e repartindo o pão da vida, sem pouparem as suas energias ao serviço da missão da Igreja. Por fim, é preciso agradecer a Deus pelos numerosos sacerdotes que tiveram de sofrer até ao sacrifício da vida por servir a Cristo [...]. Trata-se de comoventes testemunhos que poderão inspirar muitos jovens a seguirem por sua vez a Cristo e gastarem a sua vida pelos outros, encontrando precisamente assim a vida verdadeira.» (Exortação ap. Sacramentum caritatis, 26). Desta forma Jesus, através dos seus sacerdotes, se faz presente entre os homens de hoje, até às mais distantes extremidades da terra.
6. Não são poucos os homens e as mulheres que, desde sempre na Igreja, movidos pela ação do Espírito Santo, escolheram de viver radicalmente o Evangelho, professando os votos de castidade, pobreza e obediência. Esta multidão de religiosos e de religiosas, pertencentes a numerosos Institutos de vida contemplativa e ativa, tem tido «até agora uma parte importantíssima na evangelização do mundo» (Decreto Ad gentes, 40). Com a oração perseverante e comunitária, os religiosos de vida contemplativa intercedem incessantemente pela inteira humanidade; os de vida ativa, com suas múltiplas formas de ação caritativa, levam a todos o testemunho vivo do amor e da misericórdia de Deus. Diante destes apóstolos do nosso tempo, o Servo de Deus Paulo VI, pôde dizer: «Graças à sua consagração religiosa, eles são por excelência voluntários e livres para deixar tudo e ir anunciar o Evangelho até as extremidades da terra. Eles são empreendedores, e o seu apostolado é muitas vezes marcado por uma originalidade e por uma feição própria, que forçosamente lhes granjeiam admiração. Depois, eles são generosos: encontram-se com frequência nos postos de vanguarda da missão e a arrostar com os maiores perigos para a sua saúde e para a sua própria vida. Sim, verdadeiramente a Igreja deve-lhes muito» (Exortação ap. i, 69).
7. Além disso, para que a Igreja possa continuar a missão que lhe foi confiada por Cristo e não faltem os evangelizadores que o mundo necessita, será oportuno que nas comunidades cristãs, nunca falte uma constante educação na fé das crianças e dos adultos; é necessário manter vivo nos fiéis um sentido ativo de responsabilidade missionária e de participação solidária com os povos da terra. O dom da fé chama todos os cristãos a cooperarem na evangelização. Esta consciência seja alimentada através da pregação e da catequese, pela liturgia e por uma constante formação na oração; seja incrementada com o exercício da acolhida, da caridade, do acompanhamento espiritual, da reflexão e do discernimento, como também com a elaboração de um plano de pastoral, do qual faça parte integrante o cuidado das vocações.
8. Somente num terreno espiritualmente bem cultivado brotam as vocações para o sacerdócio ministerial e para a vida consagrada. De fato, as comunidades cristãs, que vivem intensamente a dimensão missionária do mistério da Igreja, jamais serão levadas a fechar-se em si mesmas. A missão, como testemunho do amor divino, se torna particularmente eficaz quando é partilhada comunitariamente, «para que o mundo creia» (cf. Jo 17,21). A graça das vocações é o dom que a Igreja invoca diariamente ao Espírito Santo. Desde o seu início a comunidade eclesial, recolhida em torno à Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos, d’Ela aprende a implorar do Senhor o florescimento de novos apóstolos, que saibam viver no seu íntimo aquela fé e aquele amor necessários para a missão.
9. Ao confiar esta reflexão a todas as comunidades eclesiais para que a façam suas e, sobretudo, para suscitar subsídios de oração, encorajo o empenho de todos que trabalham com fé e generosidade ao serviço das vocações e, de coração, envio aos formadores, aos catequistas e a todos, especialmente aos jovens na caminhada vocacional, uma especial bênção (Papa Bento XVI, Vaticano, 3 de dezembro de 2007)
Adriano Teixeira - Geraldo Morujão




A liturgia deste IV domingo da Páscoa é considerado o “domingo do Bom Pastor”, pois todos os anos a liturgia propõe, neste domingo, um trecho do capítulo 10 do Evangelho segundo João, no qual Jesus é apresentado como “Bom Pastor”. É, portanto, este o tema central que a Palavra de Deus põe hoje à nossa reflexão.
O Evangelho apresenta Cristo como “o Pastor”, cuja missão é libertar o rebanho de Deus do domínio da escravidão e levá-lo ao encontro das pastagens verdejantes onde há vida em plenitude (ao contrário dos falsos pastores, cujo objetivo é só aproveitar-se do rebanho em benefício próprio). Jesus vai cumprir com amor essa missão, no respeito absoluto pela identidade, individualidade e liberdade das ovelhas.
A segunda leitura apresenta-nos também Cristo como “o Pastor” que guarda e conduz as suas ovelhas. O catequista que escreve este texto insiste, sobretudo, em que os crentes devem seguir esse “Pastor”. No contexto concreto em que a leitura nos coloca, seguir “o Pastor” é responder à injustiça com o amor, ao mal com o bem.
A primeira leitura traça, de forma bastante completa, o percurso que Cristo, “o Pastor”, desafia os homens a percorrer: é preciso converter-se (isto é, deixar os esquemas de escravidão), ser batizado (isto é, aderir a Jesus e segui-l’O) e receber o Espírito Santo (acolher no coração a vida de Deus e deixar-se recriar, vivificar e transformar por ela).
Um só Pastor, uma comunidade de iguais.
Chegamos ao IV domingo da Páscoa e nos toca o Evangelho do Bom Pastor. Jesus diz de si mesmo que é o bom pastor, que conhece às ovelhas por seu nome. Traduzido a nossa linguagem: Jesus é nosso pastor e conhece-nos à cada um por nosso nome. Mais traduzido: nele temos nome, rosto, identidade; nele nos reconhecemos como pessoas livres e responsáveis.
Mais ainda: ante Jesus reconhecemos-nos como filhos de Deus. O Senhor ressuscitado converte-se em nosso irmão maior. Convoca-nos e nos senta à mesa dos filhos, em torno do Pai, seu Abbá, o que nos criou e nos cria, nos mantém na vida e nos abre a um futuro de Vida Plena, nos enche de esperança e de sentido.
Assim o compreenderam, no Evangelho da semana passada os dois de Emaús. Por isso mudaram de direção e de espírito. Da decepção passaram ao entusiasmo e os que se afastavam de Jerusalém voltaram a Jerusalém.
Só um pastor, só um Senhor
As palavras de Jesus têm-nos que fazer pensar duas coisas. Em primeiro lugar, não há mais que um pastor. Jesus é o único pastor e todos os demais somos membros de seu rebanho. Mas estes exemplos não devem ser tomar ao pé da letra. Que sejamos parte do rebanho não quer dizer que sejamos exatamente como as ovelhas (animais mais bem tontos, guiados pelos latidos dos cães pastores e pela voz e as pedras do pastor, preocupados apenas remoer a erva do campo pelos quais são levadas).
Se em Jesus nos reconhecemos como filhos, se em Jesus nos reconhecemos como pessoas livres, então somos membros de uma comunidade de homens e mulheres livres, voluntariamente irmãos e irmãs desde a fé no Abbá de Jesus. Uma comunidade fraterna de iguais. Com um só Pastor e um só Senhor: Jesus.
Todos somos pastores
Em segundo lugar, todos somos pastores de nossos irmãos (na carta aos Hebreus se diz que todos somos sacerdotes, profetas e reis!). Todos somos responsáveis uns pelos outros e pela comunidade. Se fôssemos ovelhas, então não teríamos essa responsabilidade. Mas somos filhos, somos pessoas adultas e responsáveis.
Por isso a fraternidade é mais que uma fonte de direitos, origem de obrigações e deveres. O bem-estar e a felicidade de meus irmãos e irmãs, de toda a humanidade, são de minha responsabilidade.
Meu próprio bem-estar e felicidade dependem de que meus irmãos se sintam bem e sejam felizes. Assim é a família de Deus, assim é como Deus nos quer. Esse foi o sonho de Jesus. Isso era o que queria dizer quando falava do Reino.
Orar pelos “pastores”
Na comunidade cristã existem também os que têm uma verdadeira responsabilidade: sacerdotes, bispos, cardeais, o Papa, mas também agentes de pastoral, responsáveis de comunidades, catequistas, educadores... Todos eles formam, e também nos formamos parte do mesmo rebanho. Somos “ovelhas” como os demais. Fomos chamados a fazer um serviço.
Hoje imploramos a oração de nossos irmãos e irmãs para que não usemos mal a responsabilidade que nos tem confiado, para que sejamos para valer servidores, para que não nos sintamos superiores nem vejamos aos demais como “ovelhas” no pior dos sentidos, para que trabalhemos sem descanso pelo bem da comunidade e da cada um dos filhos e filhas de Deus, que são todos os homens e mulheres deste mundo, para que todos se cheguem a reconhecer em Jesus, o único pastor - não o esqueçamos -, como filhos de Deus, como pessoas livres e responsáveis, chamadas a dar sua própria resposta ao chamado de Deus.
Fernando Torres




«Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância»
«Eis o que diz o Senhor: "Eis que Eu mesmo cuidarei das minhas ovelhas"». […] Foi sem dúvida o que Ele fez, é o que voltará a fazer: «Eis que Eu mesmo cuidarei das minhas ovelhas […] como o pastor se preocupa com o seu rebanho» (Ez. 34,10-14). Os maus pastores não tiveram cuidado nenhum, pois não resgataram as ovelhas com o seu sangue. «As minhas ovelhas escutam a minha voz» (Jo. 10,27). «Reconduzi-las-ei de todas as partes por onde tenha sido dispersas, num dia de nuvens e de trevas. Arrancá-las-ei de entre os povos e as reunirei dos vários países, a fim de as reconduzir à sua própria terra e as apascentar nos montes de Israel, nos vales e em todos os lugares habitados da região. Eu as apascentarei em boas pastagens; o seu pasto será nas montanhas elevadas de Israel» (cf Ez. 34,10-14)
Essas «montanhas de Israel» são os autores das Sagradas Escrituras. Eis as pastagens onde precisais de vos alimentar, se quereis fazê-lo em segurança (Sl 80,2-3). Saboreai tudo o que por lá aprenderdes e rejeitai tudo o que lá não estiver. Não vos percais no ruído, escutai a voz do pastor. Reuni-vos nas montanhas da Sagrada Escritura. Lá encontrareis verdadeiras delícias para o vosso coração; não encontrareis nada de venenoso, nem de perigoso: são pastagens ricas; […] «levá-las-ei ao longo dos rios aos melhores lugares». Desses montes de que vos falamos escorrem os rios da pregação do Evangelho, uma vez que a sua palavra «ressoou por toda a terra» (Sl. 19,5) e que todos os lugares da terra oferecem às ovelhas pastagens agradáveis e abundantes.
«Eu as apascentarei em boas pastagens» e aí será o seu redil, isto é, será aí que elas repousarão, aí poderão dizer: «Bom é estar aqui; é verdade, é muito claro, encontramos a verdade.» Elas repousarão na glória de Deus, como no seu redil.
Santo Agostinho




No texto do evangelho de são João proposto para este domingo, chamado domingo do Bom Pastor, estão entrelaçadas duas imagens: a porta e o pastor.
Jesus serve-se de duas situações comuns no seu tempo. A primeira situação refere-se ao recinto fechado no qual eram guardados vários rebanhos durante a noite, com um dos pastores a vigiar, enquanto os outros dormiam. De manhã, cada pastor ia buscar as suas ovelhas, chamando-as pelo nome; cada rebanho seguia o seu pastor, porque estavam habituadas à sua presença e à sua voz. Outra situação era o recinto junto de casa para um só rebanho; este recinto era rodeado por muros de pedra e algumas plantas; a «porta» era o próprio pastor que aí se colocava.
Jesus afirma: «Eu sou a Porta», evidentemente com dois sentidos diversos: é a porta através da qual através da qual passa o pastor e a porta através da qual passam as ovelhas.
No primeiro caso, Jesus afirma que quem quer ser pastor das ovelhas deve estar em comunhão com ele, de contrário é um salteador. No segundo diz-se que o único verdadeiro acesso à salvação é o próprio Jesus.
É preciso ter em conta que depois deste texto vem o episódio do cego de nascença (c. 11), com o confronto com os guias de Israel que decidiram expulsar da comunidade quem reconhece Jesus como Messias. Estes sacerdotes e fariseus pretendem ser pastores de Israel e expulsam o cego curado. Vê-se claramente que não se interessam com as ovelhas. A estes Jesus chama cegos e guias cegos que estão convencidos que vêm muito bem. Perante isto, Jesus reivindica ser a única porta de acesso à vida, à salvação.
Os verbos unidos a Bom Pastor fazem-nos perceber qual é a sua missão: «abre», isto é, abriu a passagem para a vida nova fechada pelo pecado e pela morte; «chama» a possuir a sua própria vida; «conduz», isto é, está sempre conosco, alimenta-nos, ama-nos; «caminha à frente, indicando-nos o caminho e mostrando-nos em si mesmo o cumprimento das suas promessas, uma das quais a ressurreição.
A resposta dos féis (ovelhas) apresenta um dinamismo de conversão bastante sublinhado pelos verbos «escutar», «conhecer» e «seguir». Daqui nasce a resposta a um chamamento claro e inequívoco à «vida». Só quem está atento à voz do Pastor, à sua Palavra, pode conhecê-lo, ou seja, fazer uma expe-riência de comunhão com aquele que nos convida a fazer comunhão com os outros, em atitude de serviço. E convida-nos a segui-lo, na mesma atitude de entrega e serviço a caminho da Vida.
padre Franclim Pacheco




Jesus é o Bom Pastor
Jesus é o Bom Pastor que veio para que todos tenham vida em abundância. O pastor era a imagem e o símbolo do líder. Jesus diz que muitos se apresentavam como pastor, mas na realidade eram ladrões e assaltantes. Hoje acontece a mesma coisa. Muitas pessoas se apresentam como líderes, mas na realidade são ladrões e assaltantes, pois, em vez de servir, buscam os seus próprios interesses. E, às vezes, têm uma fala tão mansa e fazem uma propaganda tão inteligente, que conseguem enganar o povo.
Situando
1. O discurso sobre o Bom Pastor traz três comparações ligadas entre si:
a) pastor e assaltante (Jo. 10,1-5);
b) comparação: Jesus é a porteira das ovelhas (Jo. 10,6-10);
c) comparação: Jesus não é simplesmente um pastor, e sim o Bom Pastor
(Jo. 10,11-18).
2. Temos aqui outro exemplo de como foi escrito o Evangelho de João.
O discurso de Jesus sobre o Bom Pastor (Jo 10,1-18) é como um tijolo inserido numa parede já pronta. Com ele a parede ficou mais forte e mais bonita. Imediatamente antes, em Jo 9,40-41, João falava da cegueira dos fariseus. A conclusão natural desta discussão sobre a cegueira está logo depois, em Jo 10,19-21. Ora, o discurso sobre o Bom Pastor foi inserido aqui, porque, como veremos, ensina como tirar esse tipo de cegueira dos fariseus.
Comentando
1. João 10,1-5: 1ª Imagem: entrar pela porteira e não por outro lugar
Jesus inicia o discurso com a comparação da porteira: “Quem não entra pela porteira, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante! Quem entra pela porteira é o pastor das ovelhas!” Para entender esta comparação, temos que lembrar o seguinte. Naquele tempo, os pastores cuidavam do rebanho durante o dia. Quando chegava a noite, levavam as ovelhas para um grande redil ou curral comunitário, bem protegido contra ladrões e lobos. Todos os pastores de uma mesma região levavam para lá o seu rebanho. Um porteiro tomava conta durante a noite. No dia seguinte, de manhã cedo, o pastor chegava, batia palmas na porteira e o porteiro abria. O pastor entrava e chamava as ovelhas pelo nome. As ovelhas reconheciam a voz do seu pastor, levantavam e saíam atrás dele para a pastagem. As ovelhas dos outros pastores ouviam a voz, mas não se mexiam, pois era uma voz estranha para elas. De vez em quando, aparecia o perigo de assalto. Ladrões entravam por um atalho ou derrubavam a cerca do redil, feita de pedras amontoadas, para roubar as ovelhas. Eles não entravam pela porteira, pois lá havia o guarda que tomava conta.
2. João 10,6-10: 2ª Imagem: Jesus é a porteira
Os ouvintes, os fariseus (Jo. 9,40-41), não entenderam o que significava “entrar.
pela porteira”. Jesus então explicou: “Eu sou a porteira das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e assaltantes.” De quem Jesus está falando nesta frase tão dura? Provavelmente, se referia a líderes religiosos que arrastavam o povo atrás de si, mas que não respondiam às esperanças do povo. Não estavam interessados no bem do povo, e sim no próprio bolso e nos próprios interesses. Enganavam o povo e o deixavam na pior. Entrar pela porteira é o mesmo que agir como Jesus agia. O critério básico para discernir quem é pastor e quem é assaltante, é a defesa da vida das ovelhas. Jesus pede para o povo tomar a iniciativa de não seguir o fulano que se apresenta como pastor, mas não busca a vida do povo. É aqui que ele disse aquela frase que até hoje cantamos: “Eu vim para que todos tenham vida, que todos tenham vida plenamente!” Este é o critério.
3. João 10,11-15: 3ª Imagem: doar a vida pelas ovelhas
Jesus muda a comparação. Antes, ele era a porteira das ovelhas. Agora, diz que é o pastor. Todo mundo sabia o que era um pastor e como ele vivia e trabalhava. Mas Jesus não é um pastor qualquer, e sim o Bom Pastor! A imagem do bom pastor vem do  AT.  Dizendo  que  é  o  Bom  Pastor,  Jesus  se  apresenta  como  aquele  que vem  realizar  as  promessas  dos  profetas  e  as  esperanças  do  povo.  Há  dois pontos em que ele insiste. Na defesa da vida das ovelhas: o bom pastor dá a sua vida. No mútuo entendimento entre o pastor e as ovelhas: o pastor conhece as suas ovelhas e elas conhecem o pastor. Assim, para quem quer vencer sua cegueira é importante conferir a própria opinião com a do povo. Era isso que os fariseus não faziam. Eles desprezavam as ovelhas e chamavam-nas de povo maldito e ignorante (Jo 7,49; 9,34). Jesus, ao contrário, dizia que no povo há uma percepção infalível para saber quem era o bom pastor. Os fariseus pensavam ter o olhar certo para discernir as coisas de Deus. Na realidade eram cegos. O discurso sobre o Bom Pastor ensina duas regras de como tirar este tipo de cegueira. 1) Prestar muita atenção na reação das ovelhas, pois elas reconhecem a voz do pastor. 2) Prestar muita atenção na atitude daquele que se diz pastor para ver se o interesse dele é a vida das ovelhas, sim ou não, e se ele é capaz de dar a vida pelas ovelhas.
4. João 10,16-18: A meta aonde Jesus quer chegar: um só rebanho e um só pastor
Jesus abre o horizonte e diz que tem outras ovelhas que não são deste redil. Elas ainda não ouviram a voz de Jesus, mas quando a ouvirem, vão perceber que ele é o pastor e vão segui-lo. Aqui transparece a atitude ecumênica das comunidades do Discípulo Amado, de que falamos na Introdução.
Alargando
A imagem do pastor na Bíblia
Na Palestina, a sobrevivência do povo dependia em grande parte da criação de cabras e ovelhas. A imagem do pastor guiando suas ovelhas para as pastagens era conhecida por todos, como hoje todos conhecem a imagem do motorista de ônibus. Era normal usar a imagem do pastor para indicar a função de quem governava e conduzia o povo. Os profetas criticavam os reis por serem maus pastores que não cuidavam do seu rebanho e não o conduziam para as pastagens (Jr. 2,8; 10,21; 23,1-2). Esta crítica dos maus pastores cresceu na mesma medida em que, por culpa dos reis, o povo foi levado para o cativeiro (Ez. 34,1-10; Zc. 11,4-17).
Diante da frustração sofrida com os desmandos dos maus pastores, aparece a comparação com o verdadeiro pastor do povo, que é o próprio Deus: “O Senhor é meu pastor nada me falta!” (Sl 23,1-6; Gn 48,15). Os profetas esperam que, no futuro, Deus venha, ele mesmo, como pastor guiar o seu rebanho (Is 40,11; Ez. 34,11-16). E esperam que, desta vez, o povo saiba reconhecer a voz do seu pastor: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz!” (Sl. 95,7). Esperam que Deus venha como Juiz que fará o julgamento entre as ovelhas do rebanho (Ez. 34,17). Surgem o desejo e a esperança de que, um dia, Deus suscite bons pastores e que o messias seja um bom pastor para o povo de Deus (Jr. 3,15; 23,4).
Jesus realiza esta esperança e se apresenta como o Bom Pastor, diferente dos assaltantes que roubavam o povo. Ele se apresenta também como o Juiz do povo que, no final, fará o julgamento como um pastor que sabe separar as ovelhas dos cabritos (Mt 25,31-46). Em Jesus se realiza a profecia de Zacarias que diz que o bom pastor será perseguido pelos maus pastores, incomodados pela denúncia que ele faz: “Vão bater no pastor e as ovelhas se dispersarão!” (Zc 13,7). No fim, Jesus é tudo: é a porteira, é o pastor, é o cordeiro!
Mesters, Lopes e Orofino


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