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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 26 de maio de 2017

ASCENSÃO DO SENHOR-Ano A


ASCENSÃO DO SENHOR
28 DE MAIO DE 2017
Cor: Branco
Evangelho - Mt 28,16-20
Toda a autoridade me foi dada
no céu e sobre a terra.

·     Neste domingo chegamos ao final do tempo pascal e celebramos a volta de Jesus a casa do Pai. Terminada a sua missão terrena, Ele volta para o Pai, e para nos preparar uma morada definitiva.  Jesus não nos abandonou. Pelo contrário, Ele continuou conosco de forma invisível e através da sua Igreja que recebeu a missão de continuar o seu trabalho. Continuar lendo


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ASCENSÃO DO SENHOR, A PLENITUDE DA PÁSCOA! – Olivia Coutinho

Dia 28 de Maio de 2017

Evangelho de Mt 28,16-20


Celebramos hoje, a ascensão do Senhor, a plenitude da Páscoa!
Com a volta de Jesus para o Pai, abriram-se as cortinas de um mundo novo, sinalizando os primeiros passos da igreja missionária, que através do testemunho dos primeiros cristãos, tornou Jesus conhecido em todos os rincões da terra!
Através dos discípulos, o anuncio do Reino se espalhou por todo o universo como fagulhas de fogo, incendiando o coração da humanidade com a presença viva do Cristo libertador, o Deus Filho, que mudou o rumo da nossa história, que nos tirou da solidão das trevas, replantando em nossos corações a semente da fé e da esperança!
Hoje, somos nós, os responsáveis pela propagação deste anúncio, é urgente a necessidade de fazer chegar a outros corações, a proposta de um Reino de paz, de amor e de justiça, implantado por Jesus aqui na terra! Não podemos deixar que irmãos nossos, privem-se da alegria de vivenciar a presença do Cristo Ressuscitado em suas vidas! 
Contemplando a ascensão do Senhor, estamos também nos preparando para a grande festa litúrgica de Pentecostes: a vinda do Espírito Santo, Espírito Santo, que já está no meio de nós, mas que nem sempre percebemos a sua ação no mundo. O momento é propício para refletirmos sobre o a importância do nosso Batismo, ocasião em que recebemos o Espírito Santo que nos insere na comunidade cristã! 
A vitória de Jesus que é também a nossa vitória começa na ressurreição e se concretiza na ascensão! Viver esta verdade, é vivenciar já aqui na terra, as alegrias do céu, o que não significa ignorar os problemas existentes aqui na terra.
 Não é olhando para o alto que vamos encontrar Jesus, e sim, olhando para a nossa realidade terrena, para os rostos desfigurados de tantos irmãos, excluídos por uma sociedade insensível, que não os reconhece como gente.
Ao contrário da sua morte, a ascensão de Jesus, ou seja, a subida de Jesus ao céu, não foi vista pelos discípulos como uma separação, pelo o  contrário, foi a partir de então, que eles passaram a  sentir  mais forte ainda, a presença de Jesus entre eles!
A todo instante, somos beneficiados pelos frutos da ascensão, a grande riqueza que nos foi conquistada por Jesus: o Espírito Santo e também pela última benção dada por Ele aos discípulos no momento de sua subida ao céu; bênção que se prolonga por toda história, chegando até cada um de nós!
O evangelho que liturgia deste domingo nos apresenta,  narra o encontro de Jesus com os discípulos na Galiléia, logo após a sua ressurreição.
Podemos nos perguntar: porque Jesus indicou aquele local para o encontro com os discípulos e não em Jerusalém? Certamente, por ter sido  ali, o local onde tudo começou, onde foi iniciada a sua caminhada com os discípulos,  rumo a Jerusalém. Refazendo a mesma trajetória que fizeram com Jesus, os discípulos iriam recordar tudo que Ele lhes havia ensinado, enquanto caminhavam.
Galiléia, era o lugar do testemunho, foi ali, que muitos testemunharam as obras que Jesus realizava, e passaram a  acreditar Nele.
Jesus sabia que todos os que acreditaram Nele, tornariam seus seguidores dando continuidade a sua missão.
É importante termos em mente:  Jesus, não deixou tudo pronto, Ele deixou para nós, a responsabilidade de dar continuidade as obras do Pai aqui na terra, de fazer o Reino de Deus acontecer através do nosso testemunho de adesão ao projeto de Deus! 
Hoje, Jesus marca um encontro com cada um de nós, não, precisamente na Galiléia, mas dentro do nosso coração! É a partir deste encontro, que tornamos anunciadores do Reino, que avançamos sem medo para águas mais profundas, na certeza de que nunca estaremos sós, pois o próprio Jesus nos garante:  “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos”. 
Se Jesus Está conosco, o que haveremos de temer?

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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A exaltação e senhorio de cristo e a evangelização
Quarenta dias depois da Páscoa, a Igreja celebra a Ascensão do Senhor. Na realidade, o que se celebra hoje é bem mais do que uma aparição na qual Jesus é elevado ao céu. É toda a realidade de sua glorificação que celebramos, aquilo que os primeiros cristãos chamaram de “estar sentado à direita do Pai”. Assim, a última aparição de Jesus aos apóstolos aponta para uma realidade que ultrapassa o quadro da narração. Por isso, não precisamos preocupar-nos em “harmonizar” a ascensão segundo At. 1,1-11, em Jerusalém (1ª leitura), com a de Mt. 28,16-20, na Galileia (evangelho). Pode tratar-se de duas aparições, dois acontecimentos diferentes, que têm o mesmo sentido: Jesus, depois de sua ressurreição, não veio retomar sua atividade de antes na terra (cf. sua advertência a Maria Madalena em Jo 20,17) nem implantar um reino político de Deus no mundo, como muitos achavam que ele deveria ter feito (cf. At. 1,6). Não. Jesus realiza-se agora em outra dimensão, a dimensão de sua glória, de seu senhorio transcendente. A atividade aqui na terra, ele a deixa para nós (“Sede as minhas testemunhas... até os confins da terra”; At. 1,8), e nós é que devemos reinventá-la a cada momento. Na ressurreição, Jesus volta a nós, não mais “carnal”, mas em condição gloriosa, para nos animar com seu Espírito (At. 1,8; Mt. 16,20; cf. Jo 14,15-20, evangelho de domingo passado).
1ª leitura (At. 1,1-11)
A primeira leitura narra a ascensão de Jesus e a missão dos apóstolos segundo o livro dos Atos dos Apóstolos. Os dias entre a Páscoa e a ascensão formam “o retiro de preparação para o desabrochar da Igreja”: 40 dias, como os 40 dias de Moisés e de Elias no Horeb, como os 40 anos de Israel no deserto. Nesses dias, Jesus deu as últimas instruções aos seus: a promessa do Espírito e a missão de evangelizar. Os discípulos não devem ficar olhando o céu, mas deverão levar a mensagem de Jesus ao mundo inteiro, “até os confins da terra” (At. 1,8), e para isso receberão a força do Espírito. Até o Senhor voltar, sua Igreja será missionária.
2ª leitura (Ef. 1,17-23)
Na exaltação do Cristo, revela-se a força de Deus. A carta aos Efésios se inicia com um hino de louvor (vv. 2-10), seguido por um enunciado sobre o plano da salvação (vv. 11-14) e uma súplica pelos fiéis (vv. 15-19), que se expande numa proclamação dos grandes feitos de Deus em Cristo (vv. 20-23). Essa súplica e contemplação constituem a leitura de hoje. Deus ressuscitou Jesus e o fez cabeça da Igreja e do universo. A Igreja é seu “corpo”, ela o torna presente no mundo, ela é a presença atuante de Cristo no mundo. Celebrando a glorificação do Cristo, tomamos consciência de nossa própria vocação à glória. Também a oração do dia e os prefácios próprios falam nesse sentido.
Nestes tempos de “diminuição” da Igreja, podemos encontrar nessa leitura uma perspectiva maior e um ânimo mais firme. Cristo se completa em sua Igreja, e esta encontra no Senhor ressuscitado e glorioso a sua firmeza. Não há por que ficarmos medrosos e desanimados.
Evangelho (Mt. 28,16-20)
O evangelho é o final do Evangelho segundo Mateus. Traz as últimas palavras do Senhor ressuscitado: a despedida de Jesus e a missão dos apóstolos. Tudo isso à luz da compreensão que Mateus tem do evangelho. No início do evangelho, Jesus é entendido como aquele que realiza o sentido pleno da profecia do “Emanuel”, Deus-conosco (Mt. 1,23). Depois, Mt 4,15-16 ressaltou que a atuação desse “Emanuel” se iniciou na “Galileia dos gentios”, primeiro destinatário da mensagem da salvação, realizando-se assim o sentido pleno de Is. 8,23-9,1. Mas, durante sua missão terrestre, Jesus se restringiu às ovelhas perdidas de Israel (Mt. 10,5-6). Agora, na cena final (28,16-20), o Senhor glorioso transcende os limites de Israel. Suas palavras finais significam o universalismo da missão dos apóstolos e da expansão da Igreja. Todos os povos serão discípulos de Cristo (assinalados pelo batismo). O fim do Evangelho de Mateus revela o sentido universal de todo o ensinamento nele consignado (cf. sobretudo o Sermão da Montanha, Mt. 5-7).
Assim, ao celebrarmos a entrada de Jesus na glória, não celebramos uma despedida, mas um novo modo de presença; celebramos que ele é, realmente, o Emanuel, o Deus-conosco, para sempre e para todos (Mt. 28,20). Esse novo modo de presença é um aperitivo da realidade final: assim como ele entra na sua glória, isto é, como Senhor glorioso, assim ele voltará, para concluir o curso da história (cf. At. 1,11). Pouco importa como a gente imagina isso, o sentido é que, desde já, Jesus é o Senhor do universo e da história (cf. o salmo responsorial, Sl. 47) e nós, obedientes a sua palavra, colaboramos com o sentido definitivo que ele estabelece e há de julgar.
O senhorio de Jesus e a evangelização
Temos o costume de considerar a ascensão de Jesus (como também a ressurreição) principalmente como um milagre. Mas o sentido principal desse fato é o que exprimem os termos “exaltação” ou “enaltecimento”, a entronização de Jesus na glória de Deus. Esses termos, evidentemente figurativos, significam o seguinte. Os donos deste mundo haviam jogado Jesus lá embaixo (se não fosse José de Arimateia a sepultá-lo, seu corpo teria terminado na vala comum...). Mas Deus o colocou lá em cima, “à sua direita”. Deu-lhe o “poder” sobre o universo não só como “Filho do homem”, no fim dos tempos (cf. Mc. 14,62), mas, desde já, por meio da missão universal daqueles que na fé aderem a ele. E nós participamos desse poder, pois Cristo não é completo sem o seu “corpo”, que é a Igreja, como nos ensina a 2ª leitura.
Com a ascensão de Jesus, começa o tempo para anunciá-lo como Senhor de todos os povos. Mas não um senhor ditador! Seu “poder” não é o dos que se apresentam como donos do mundo. Jesus é o Senhor que se tornou servo e deseja que todos, como discípulos, o imitem nisso. Mandou que os apóstolos fizessem de todos os povos discípulos seus (evangelho). Nessa missão, ele está sempre conosco, até o fim dos tempos.
O testemunho cristão, que Jesus nos encomenda, não é triunfalista. É fruto da serena convicção de que, apesar de sua rejeição e morte infame, “Jesus estava certo”. Essa convicção se reflete em nossas atitudes e ações, especialmente na caridade. Assim, na serenidade de nossa fé e na vivência radical da caridade, damos um testemunho implícito. Mas é indispensável o testemunho explícito, para orientar o mundo àquele que é a fonte de nossa prática, o “Senhor” Jesus.
A ideia do testemunho levou a Igreja a fazer da festa da Ascensão o dia dos meios de comunicação social – a “mídia”: imprensa, rádio, televisão, internet. Para uma espiritualidade “ativa”, a comunidade eclesial deve se tornar presente na mídia. Como é possível que num país tão “católico” como o nosso haja tão pouco espírito cristão na mídia e tanto sensacionalismo, consumismo e até militância maliciosa em favor da opressão e da injustiça?
Ao mesmo tempo, para a espiritualidade mais “contemplativa”, o dia de hoje enseja um aprofundamento da consciência do “senhorio” de Cristo. Deus elevou Jesus acima de todas as criaturas, mostrando que ele venceu o mal mediante sua morte por amor e dando-lhe o poder universal sobre a humanidade e a história. Por isso, a Igreja recebe a missão de fazer de todas as pessoas discípulos de Jesus.
Uma idéia que permeia a liturgia deste dia (como de todo o tempo pascal) e se exprime na oração sobre as oferendas e na oração depois da comunhão é que o cristão deve viver com a mente no céu, comungando na realidade da glorificação do Cristo. Essa participação é novo modo de presença junto ao mundo; não uma alienação, mas, antes, o exercício do senhorio escatológico sobre este mundo. Viver com a mente junto ao Senhor glorioso não nos dispensa de estar com os dois pés no chão; significa encarnar, neste chão, aquele sentido da história e da existência que em Cristo foi coroado de glória.
padre Johan Konings "Liturgia dominical"




Celebrar a partida de Jesus para o Pai é senti-lo eternamente presente na vida das pessoas e da comunidade cristã. Ele não se afastou. Criou sua morada estável em nosso meio, pois é o Deus-conosco. Cabe agora às comunidades mostrá-lo presente mediante o testemunho (1ª leitura). Cabe agora à comunidade ir ao encontro dele “na Galileia”, repetindo suas palavras e ações em favor dos excluídos, exercendo a mesma autoridade de Jesus, que quer salvar a todos (evangelho). Ele está sempre presente no meio de nós, em nossas comunidades, pois a glória de Deus é estar conosco; e nós o glorificamos quando o reconhecemos e manifestamos como Senhor absoluto, Cabeça da Igreja, razão da nossa esperança (2ª leitura).
1ª leitura (At. 1,1-11)
A comunidade cristã: sacramento das palavras e ações de Jesus
Atos dos Apóstolos é o segundo livro que Lucas escreveu, ou a segunda parte de sua obra. No seu plano, o evangelista pretende mostrar que os ensinamentos e ações de Jesus continuam nos ensinamentos e ações dos cristãos. Portanto, o livro dos Atos não é um manual de história da Igreja, mas, sim, o prolongamento da prática do Senhor na vida da comunidade cristã. Se no Evangelho de Lucas temos a práxis de Jesus – desde o começo até o dia em que foi levado para o céu – no livro dos Atos temos a práxis cristã. E quem deseja ser amigo de Deus, “Teó-filo” (esse nome tem, provavelmente, caráter simbólico, querendo identificar todos os cristãos), tem na práxis de Jesus e na práxis cristã as linhas mestras de inspiração e conduta. A passagem do primeiro momento para o segundo está nas instruções que Jesus dá aos apóstolos que tinha escolhido, movido pelo Espírito Santo (v. 2). O mesmo Espírito esteve presente em Jesus e está presente na práxis cristã da comunidade.
Essa tarefa está ancorada na experiência do Cristo ressuscitado: “Foi a eles que Jesus se mostrou vivo depois da sua paixão, com numerosas provas” (v. 3a); tem o aval do Pai, cuja promessa se realiza em Jesus e na comunidade (v. 4b) por meio da efusão do Espírito (v. 5), que levará a comunidade à identificação de sua práxis com a de Jesus. Lucas fala de “quarenta dias” (v. 3b), durante os quais Jesus apareceu e falou aos discípulos sobre o reino de Deus. O fato não tem caráter cronológico, mas teológico-catequético: a prática cristã nasce da experiência plena do Cristo ressuscitado, experiência que Lucas visualiza num contexto de intimidade e comunhão: a refeição (v. 4a, em grego se diz synalizómenos = “com sal” = sócios). É dessa intimidade com ele que nasce o testemunho cristão, a missão, a evangelização, pondo em movimento a boa notícia trazida por Jesus. E a garantia do sucesso está no batismo com o Espírito Santo. Ele é a memória continuamente renovada e atualizada do que Jesus disse e fez (cf. Jo 14,26).
Os vv. 6-8 contêm a pergunta dos discípulos e a resposta de Jesus. A pergunta dos discípulos revela a ânsia da comunidade cristã para que o projeto de Deus se realize completamente. Estão curiosos por saber se existe um limite até o qual se possa resistir e lutar corajosamente e depois “descansar”, sem que haja mais nada por fazer (v. 6). A resposta de Jesus contém duas indicações. A primeira (v. 7) afirma que o projeto de Deus não depende de uma data histórica: “Não cabe a vocês saber os tempos e as datas”. A segunda é conseqüência da primeira e manifesta qual deve ser a autêntica preocupação da comunidade cristã: sob a ação e força do Espírito, testemunhar (v. 8a) a práxis de Jesus. “Força”, em grego, se diz dýnamis, e essa palavra é usada na anunciação (Lc. 1,35). O Espírito que gerou Jesus em Maria vai gerar a missão nos discípulos. O projeto de Deus não depende de teorias, mas do testemunho que atualize o que Jesus fez e disse.
De fato, o Evangelho de Lucas se encerrava falando desse testemunho (24,48). E aqui Jesus renova o compromisso dos discípulos (v. 8b). Após o Pentecostes, os discípulos não cessam de repetir que são testemunhas (At. 2,32; 3,15; 4,33; 5,32; 13,3; 22,15). Em palavras e ações, prolongam a práxis de Jesus. O testemunho, segundo os Atos dos Apóstolos, vai se espalhando a partir de Jerusalém – onde Jesus deu o testemunho final com a morte e ressurreição –, atinge a Judéia e a Samaria (At. 8,1-8) e chega aos confins do mundo (as viagens de Paulo). O projeto de Deus está aberto e disponível a todos.
O v. 9 fala do arrebatamento de Jesus (compare com Lc. 9,51). A referência à nuvem – símbolo teofânico – afirma que Jesus pertence definitivamente à esfera de Deus. É a certeza da comunidade de que Jesus cumpriu perfeitamente a vontade do Pai. Contudo, não basta sabê-lo. Torna-se necessário descruzar os braços, deixar de olhar passivamente para o céu, encarar a realidade que nos cerca, perceber que somos “homens da Galiléia”, comprometidos com o testemunho de Jesus (vv. 10-11). O texto de hoje termina fazendo referência à volta de Jesus, da mesma forma como foi visto partir para o céu. Lucas está falando de parusia ou de teofania? Quando voltará Jesus: no fim dos tempos ou no Pentecostes que leva a comunidade cristã a ser epifania de Jesus mediante o testemunho?
Evangelho (Mt 28,16-20)
O Deus-conosco se revela na práxis da comunidade cristã
O texto é a conclusão do Evangelho de Mateus, que apresentou Jesus como o Mestre da Justiça (3,15) e o Emanuel, Deus-conosco (1,23). Pertence à seção dos caps. 26-28, que resumimos como “o fim da injustiça”. Pode ser dividido em três momentos: a. Um relato de aparição (vv. 16-17); b. instruções de Jesus aos discípulos (vv. 18-20a); c. promessa (v. 20b).
a. Experiência do Ressuscitado (vv. 16-17)
Inicia-se falando dos onze discípulos que se dirigem à Galileia, ao monte que Jesus havia indicado (v. 16). A comunidade dos discípulos tomou o rumo certo: a Galileia. É bom lembrar o que significa para o evangelista essa localização. Para entendê-lo, devemos recordar o início da atividade de Jesus. Ele inicia sua missão na Galileia das nações (ler Mt. 4,12-17), no meio daquela gente pisada e marginalizada, a fim de levar-lhe a boa notícia da libertação e da vinda do Reino. Foi lá que Jesus deu início à prática da justiça que faz nascer o Reino. É para lá que os discípulos se dirigem. É o lugar do testemunho e ação da comunidade cristã. Os discípulos, em Jesus e a partir dele, dão início à práxis cristã: a luta para implantar a justiça do Reino.
Mateus fala também de um monte como ponto de encontro de Jesus com sua comunidade. Não se trata de localizar geograficamente esse ponto de encontro. É um monte que recorda a atividade de Jesus. Nesse sentido, o monte é onde Jesus venceu a tentação da concentração do poder (4,8-10), o da transfiguração (17,1-6), mas sobretudo o monte sobre o qual Jesus anunciou seu programa libertador: o monte das bem-aventuranças (5,1-7,29). A montanha representa, portanto, o programa da comunidade, que é o mesmo de Jesus. Agindo assim, ela se torna autêntica discípula. Identifica-se com Jesus e seu projeto (os discípulos se prostram diante dele).
Contudo, há sempre o risco da dúvida, de não acolher plenamente o significado da prática de Jesus na vida da comunidade: “Ainda assim alguns duvidaram” (v. 17b). O verbo duvidar (edístesan, em grego), ao longo do Evangelho de Mateus, encontra-se somente aqui e em 14,31, passagem em que Pedro duvida e afunda na água. Duvidar, portanto, comporta a falta de fé, mas também a falta de percepção maior da prática de Jesus que vence todas as formas de injustiça e morte do povo. Duvidar é ter medo do risco e do compromisso com a prática da justiça. É um alerta que acompanha constantemente a comunidade, pondo-a numa atitude de conversão permanente ao projeto de Deus.
b. O poder de Jesus é passado à comunidade (vv. 18-20a)
Durante sua vida terrena, Jesus agia como aquele homem ao qual Deus dera seu poder (cf. 7,29; 9,6-8; 21,23.24.27), fazendo que as pessoas glorificassem a Deus. Agora, ressuscitado, possui “toda autoridade no céu e sobre a terra” (v. 18b). Essa autoridade plena foi-lhe dada pelo Pai (a forma passiva “me foi dada” refere-se a Deus) e é muito próxima das pessoas (Jesus “se aproximou dos discípulos”, v. 18a). Não só está próxima, como é entregue, por Jesus, à comunidade cristã: “Vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos” (v. 19a; é a concretização do “devemos cumprir...” de 3,15). A Galileia é o ponto de partida, e a meta é fazer que a justiça do Reino alcance a todos, tornando-os discípulos de Jesus, o Mestre da Justiça, pois é assim que ele se apresenta no Evangelho de Mateus. Realiza-se, assim, a promessa feita a Abraão (cf. Gn. 17,4s; 22,18).
Os meios para fazer que todos os povos se tornem discípulos do Mestre da Justiça são dois: o batismo em nome da Trindade (v. 19b) e a catequese que visa à implantação da justiça do Reino.
a. O batismo é feito em nome da Trindade. Batiza-se em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O texto grego de Mateus emprega a preposição eis, para salientar o caráter do batismo. Com isso ele afirma que o batismo em nome da Trindade é a vinculação pela qual o ser humano está plenamente comprometido com a prática da justiça que inaugura o reino de Deus na nossa história. Ser batizado em nome da Trindade denota não simples representação, mas dedicação total, consagração, posse da Trindade.
b. O segundo meio é a catequese que leva a observar tudo o que Jesus ensinou. O que foi que ele ensinou? A síntese dos mandamentos de Jesus está no sermão da montanha (5,1-7,29). É a esse código de práxis cristã que se referirá toda a catequese da comunidade primitiva e das comunidades cristãs de hoje. Essa catequese não é outra coisa senão a recordação da prática de Jesus (implantação da justiça do Reino), tendo em vista a prática cristã. O Evangelho de Mateus é feito de discursos e atos de Jesus (milagres).
c. Jesus é aquele que caminha conosco (v. 20b)
O Evangelho de Mateus termina com uma promessa: “Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (v. 20b). Mateus havia iniciado o evangelho apresentando Jesus como o Emanuel (Deus-conosco, cf. 1,23) e o conclui mostrando-o continuamente vivo e presente na vida da comunidade. A ascensão de Jesus não é seu afastamento do mundo. Pelo contrário, sela sua indestrutível presença na história, que é ao mesmo tempo história de Deus e da humanidade.
2ª leitura (Ef 1,17-23)
A glória de Deus é a comunidade cristã
A carta aos Efésios é um texto que Paulo (ou um discípulo seu) escreveu para diversas comunidades dos arredores de Éfeso. Parece que Paulo não conheceu essas comunidades. Ele só esteve em Éfeso (cf. At. 19-20), onde deu início a uma comunidade cristã que, por sua vez, fez surgir comunidades nos arredores (por exemplo, a comunidade de Colossas, fundada por Epafras, colaborador de Paulo).
Paulo estava preso. Teve notícias do surgimento dessas comunidades, de sua firmeza na fé, do amor que unia a todos e da esperança que animava suas lutas. Mas ficou sabendo também de alguns riscos trazidos pelas filosofias do tempo, que pregavam um Deus afastado e ausente da vida das pessoas; só por meio de entidades intermediárias (soberanias, poderes, forças, dominações) é que se podia ter acesso a Deus. Jesus não passaria de uma dessas entidades intermediárias. Isso trazia conseqüências sérias para toda a vida cristã.
O texto de hoje pertence à ação de graças e súplica que Paulo faz a Deus em vista dessas comunidades (1,15-23). Dá graças a Deus por causa da fé (adesão a Jesus) e da caridade (resposta da fé, que se visualiza no amor solidário entre as pessoas) encontradas nos fiéis. Ele suplica. O conteúdo da súplica é uma espécie de credo cristão. Pela fé e solidariedade, os cristãos vivem sempre mais o ser de Deus que está próximo e presente na comunidade. Contudo, é preciso conhecê-lo (v. 17) e conhecer a esperança à qual a comunidade foi chamada (v. 18a).
Paulo fala da glória de Deus (v. 18b). E emprega outros termos, como potência, eficácia, poder e força, que ampliam a idéia da glória de Deus. O texto é muito denso, e aqui é possível apresentar só uma síntese do pensamento de Paulo. Longe de ser distante da humanidade, o dos cristãos é um Deus cuja glória depende do fato de existir como o Deus da comunidade. A glória de Deus é sua ação concreta na história, na vida da comunidade cristã, que prolonga a vitória de Jesus sobre a morte. Em Jesus, Deus fez conhecer a sua glória, mostrando-se tão próximo à humanidade, a ponto de eleger a comunidade cristã como o Corpo de Cristo, a plenitude de Cristo, que preenche tudo em todo o universo (v. 23).
Paulo não polemiza contra as entidades intermediárias. Simplesmente mostra às comunidades que existe apenas um Senhor, que realizou o projeto do Pai, e que esse Senhor está presente na história e na vida dos fiéis. A comunidade cristã é o espaço no qual se revela o projeto de Deus, a realeza absoluta do Cristo ressuscitado.
Pistas para reflexão
Os textos bíblicos da festa da Ascensão falam da perene presença de Jesus ressuscitado na vida da comunidade cristã. Em vez de se ausentar, ele inaugura sua presença e morada definitivas no meio das pessoas quando estas o testemunham. Portanto, a festa de hoje é uma oportunidade para que descubramos o Deus-conosco, para que avaliemos a força e alcance do testemunho cristão. É também um desafio: caminhar “para a Galileia”, “para o monte”, a fim de encontrar o Cristo vivo; evangelizar a partir do povo que sofre; promover a dignidade das pessoas e a justiça do Reino como formas autênticas de fazer brilhar a glória de Deus; compreender a esperança à qual fomos chamados.
Paulus




Aquele que se foi e sempre vem
Comemoramos hoje a ascensão de Jesus à glória dos céus. Festa bela que nos toca profundamente. Depois de ressuscitado, Jesus apareceu a algumas pessoas privilegiadas que  seriam testemunhas de sua ressurreição. Pelo seu testemunho elas diriam a todos que Jesus vivia.
Houve um momento em que cessaram as aparições do Ressuscitado. Ele não era mais visto. Nesse momento os apóstolos se deram conta da volta de Jesus ao seio do Pai.  Esse o sentido da Ascensão.
Ele viera da parte do Pai. Viera para conviver com os homens, falar-lhes das coisas do Pai, mostrar o rosto do Pai. Ele, de fato, sendo de condição divina, não hesitou em tomar a condição de homem. Deificou a carne. E com a carne humana subiu até o alto da cruz para fazer com que essa natureza humana fosse restaurada e transfigurada.  Os homens foram profundamente tocados por Deus na carne, na trajetória de Jesus. Hoje comemoramos a festa do céu. Nossa pobre natureza humana, redimida, está assentada na glória de Deus com ascensão  de Jesus. Tudo isso porque Deus se revestiu de carne em Jesus.  Temos saudades do céu. Lá é o nosso destino final. Não desaparecemos na terra  nem com a cremação de nossos “restos” mortais.
A fé aponta como último horizonte de nossa caminhada a pátria da glória, destinada àqueles que se configuraram com Cristo, que renasceram de sua morte e ressurreição. Essa “terra” da glória não é um espaço geográfico mas o coração do Deus  uno e trino. Lá onde mora Deus é a terra da glória.
Hoje é o dia da festa do céu.
No momento da despedida Jesus anuncia a próxima vinda do Espírito que virá com a missão de tornar os seus apóstolos testemunhas de Cristo ressuscitado.  Esta a missão da Igreja em todas as transformações e vicissitudes dos tempos. Podem surgir tempestades, podem surgir outros modos de se chegar a Deus mas a Igreja haverá de testemunhar sua fé até o final dos tempos. A pregação não é  “propaganda”,  mas anúncio de salvação na força do Espírito.
Uma nuvem encobre Jesus. Nuvem da glória de Deus. Os discípulos não poderiam continuar ali estáticos. Precisariam ir pelo mundo preparando a segunda vinda de Cristo. “Esse Jesus, que vos foi elevado para o céu. Virá do mesmo modo, como o vistes partir para o céu”.
frei Almir Ribeiro Guimarães




Desenvolvimento do Evangelho
Judas, o discípulo que traiu Jesus, já não estava mais junto dos outros onze. Ele havia dado fim à sua vida depois da traição que levou os romanos a pegarem Jesus no Jardim das Oliveiras.
O monte, que Jesus indicara para que os onze fossem se encontrar com Ele na Galiléia, pode ser chamado de Monte “Sinai’ do Novo Testamento, local onde Ele, o próprio Deus está presente - assim como no Antigo Testamento Deus estava presente - à espera dos seus eleitos, aqueles que seriam os responsáveis por continuar a missão e por levar o Reino de Deus a todos os povos e nações.
No Antigo Testamento, o povo não pôde subir ao Monte Sinai porque Deus estava lá, e somente Moisés subiu, porém, agora, todos os discípulos são convocados para estar na presença do Senhor e adorá-Lo, reconhecendo-O como o único Deus, Aquele que esteve presente no meio deles.
Hoje a Igreja de Jesus celebra a sua Glorificação.
A ascensão de Jesus, não é o seu afastamento do mundo, mas ao contrário, ela sela a sua indestrutível presença na história de Deus e da humanidade.
Nesse momento de grande alegria, o tema central do Evangelho é a missão que Jesus, ao voltar para o Pai, deixa a todos os seus seguidores. Ele após ter anunciado a salvação ao povo de Israel, conforme foi prescrito no plano divino, quer oferecê-la a todos os povos.
A Galileia foi onde Jesus começou a sua missão salvadora, e é também onde Ele, agora, se encontra com os onze discípulos para, diante deles, voltar para o Pai não no sentido de fim, mas sim, de um novo começo.
Após a ressurreição, Jesus encontra-se sentado à direita do trono do Pai, recebendo Dele autoridade sobre o céu que é o plano divino, e sobre a terra, plano humano. Agora Ele é a única autoridade entre Deus e os homens, e dá apenas uma ordem para aqueles que desejam segui-Lo: continuar a sua missão de fazer com que todos os povos se tornem seus discípulos. Missão esta que começou com seu batismo, quando recebeu o Espírito de Deus que O levou ao anúncio e à prática da justiça aqui na terra.
O Evangelho de Mateus se encerra com a promessa já contida em seu início: ”Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo”. Jesus é Emanuel, que quer dizer: “Deus conosco”, e estará sempre junto daqueles que se comprometem com Ele e com o seu projeto de amor
Pequeninos do Senhor




A missão universal
A Ascensão descortinou para os apóstolos um vasto campo de missão que abrangia o mundo inteiro e toda a humanidade. Uma vez concluída a caminhada terrena do Messias, urgia levar adiante esta missão, para que todos pudessem beneficiar-se da salvação realizada por ele.
Enviados pelo poder que Jesus recebeu do Pai, os apóstolos deveriam partir, dispostos a caminhar por todas as estradas do mundo, e a anunciar a Boa-Nova da salvação a quantos encontrassem. Ninguém podia ser deixado de lado, pois a salvação é um direito de todos.
O sinal de adesão a Jesus dar-se-ia no batismo feito “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Seria a forma de vincular toda a humanidade com o Pai, por meio de Jesus, na força do Espírito Santo. Desta comunhão de amor deveria surgir uma humanidade nova, fundada na filiação divina e na fraternidade.
Os apóstolos tinham como tarefa levar os novos discípulos a pautar suas vidas pelos ensinamentos do Mestre. Nada de novas doutrinas! Bastaria ensinar os batizados a observar tudo quanto Jesus lhes havia ensinado: nada mais do que amar a Deus e ao próximo, como fora explicitado no Sermão da Montanha.
Uma certeza deveria animar os apóstolos: o Ressuscitado estaria para sempre junto deles, incentivando-os a serem fiéis à missão. Portanto, nada de se deixarem abater pela grandiosidade e pelas exigências da tarefa recebida.
padre Jaldemir Vitório


A ascensão de Jesus já é nossa vitória
Na oração da coleta deste dia, rezamos: “Ó Deus, a ascensão do Vosso Filho já é nossa vitória”. Celebramos a vitória de Jesus Cristo sobre o mal e todas as suas manifestações e sobre a morte. Dessa vitória todos somos herdeiros, pelos méritos de Cristo. Essa vitória de Cristo nos faz compreender que o mal e a morte não têm mais poder, eles foram vencidos pelo Senhor ressuscitado dentre os mortos.
O texto dos Atos dos apóstolos de hoje é importante para compreender a mensagem da ascensão do Senhor. Ao longo de quarenta dias, depois da ressurreição, o Senhor aparecia aos discípulos e os instruía pelo Espírito Santo. O Senhor continua a estar presente e a falar com os seus, mas agora não de viva voz e em carne e osso, podemos dizer, mas pelo Espírito Santo. O Espírito Santo torna o Cristo presente aos seus discípulos e atual as suas palavras. Agora, é através do Espírito Santo que o Senhor continua a revelar o desígnio salvífico de Deus. O relato da ascensão não se oferece ao nosso olhar; trata-se de uma profissão de fé: ressuscitado dos mortos, Jesus Cristo foi elevado ao céu onde está sentado à direita do Pai. O relato tem por finalidade ser um apoio para a intelecção da fé e o aprofundamento do mistério da ressurreição. O passivo divino usado para dizer da elevação de Jesus (vv. 9.11) indica que é o Pai quem o elevou. A nuvem que envolve o Ressuscitado (v. 9) é para a tradição bíblica símbolo da presença de Deus que acompanha o seu povo (cf. Ex. 13,22). A nuvem que envolve o Senhor é um modo de dizer que Jesus ressuscitado entra no mistério de Deus, no que é seu, antes da criação do mundo. Os dois mensageiros celestes são um apoio para compreender que, agora, com seu corpo glorioso, o Senhor não é encontrado no alto, mas na nossa própria humanidade, em todos os lugares e situações, no cotidiano da existência humana. É pela fé que vemos e encontramos o Senhor, em meio às vicissitudes da história. Pela fé a elevação de Jesus Cristo não é sentida como ausência, mas como uma forma de presença.
O evangelho deste domingo nos diz que é o Ressuscitado que está na origem da universalidade da missão da Igreja. A presença permanente do Senhor é o sustento dessa missão.



Na montanha os discípulos recebem de Jesus o mandato para a missão
Maria Madalena e a outra Maria chegando ao túmulo de Jesus, ao raiar do primeiro dia da semana, encontraram um anjo que lhes anuncia que Jesus não está ali, pois ressuscitou. E o anjo completa dizendo-lhes que Jesus precedia os discípulos na Galiléia, para onde eles deveriam se dirigir. A seguir o próprio Jesus vem ao encontro delas e também lhes comunica que elas devem anunciar aos discípulos que se dirijam para a Galiléia (Mt. 28,1-10). O retorno dos discípulos à Galiléia, que é mencionado também nos evangelhos de Marcos e João, indica a continuidade da missão aí inaugurada por Jesus.
Na Galiléia, encontram Jesus na montanha. Na montanha Moisés recebera de Deus os mandamentos da Lei para o povo de Israel. Por sua vez, sobre a montanha Jesus proclamara às multidões os mandamentos das bem-aventuranças. Agora, na montanha os discípulos recebem de Jesus o mandato para a missão a todas as nações gentílicas.
O contexto indica que o ressuscitado é o próprio Jesus de Nazaré, que continua presente entre os discípulos, até o fim dos tempos. A missão vai gerar novos discípulos. A iniciação do discipulado se dá com o batismo. João Batista deixou a marca do seu anúncio do batismo para a conversão à prática da justiça que supera o pecado. Jesus assumiu, no Espírito Santo, o batismo de João como a expressão do amor de Deus e a integração na vida divina. Jesus, que iniciara seu magistério com o batismo de João, agora envia os discípulos a batizarem em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Em sua missão os discípulos serão iluminados pelo Espírito Santo, que é o espírito da verdade que Deus infunde nos corações (cf. segunda leitura).
A missão se dará em um mundo dominado pelos poderosos que se enriquecem cada vez mais, insensíveis exploradores dos pobres que produzem as riquezas. Os discípulos são enviados para testemunhar o que receberam de Jesus, tudo que ele havia ordenado. É a continuidade do ministério de Jesus de Nazaré. Ao longo dos sucessos ou das dificuldades, os discípulos terão a presença confortante de Jesus, até o fim dos tempos. De maneira diferenciada dos demais evangelistas, no evangelho de Lucas (Lc. 24,49-53) e em Atos dos Apóstolos (primeira leitura), a recomendação é de que os discípulos permaneçam em Jerusalém, e a subida aos céus acontece ou em Betânia (Lc. 24,50) ou no monte das Oliveiras, nas vizinhanças de Jerusalém (At. 1,12). Com isto Lucas privilegia a comunidade de Jerusalém em seu papel centralizador nas origens da Igreja.
José Raimundo Oliva




Estamos ainda nos dias pascais, nas alegrias da Ressurreição do Senhor. A solenidade que hoje celebramos – a Ascensão – e aquela do domingo próximo – Pentecostes - são ainda dimensões, aspectos do mistério da Páscoa: ressurreição, subida ao céu e dom do Espírito são três aspectos do mesmo mistério. Celebramo-lo num arco de cinqüenta dias porque, enquanto o Senhor Jesus deixou este nosso tempo, feito de ontens, de hojes e de amanhãs, nós continuamos presos às horas, dias, meses e anos deste mundo...
Eis: Jesus ressuscita no Pai; não ressuscita para depois ir ao seu Deus e Pai! Ressuscitar é, precisamente, sair da morte, entrando na vida plena, que é o Pai. (Nunca esqueçamos: o Pai é nossa Vida, o Pai é nosso céu! Também o foi e o é para Jesus)! Isso aparece claro em alguns textos dos próprios evangelhos. Em Lc. 24,44, Jesus ressuscitado, conversando, com seus apóstolos e sendo tocado por eles, diz claramente que com eles não está mais: “São estas as palavras que eu vos falei quando estava convosco...” No próprio Evangelho deste hoje, o Senhor, aparecendo aos seus sobre o monte, dá a entender que já está no céu: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra!” Vede: ele já recebeu tal autoridade, também no Céu! Ele, durante quarenta dias apareceu aos seus, mas já não estava entre os seus! Seu novo modo de permanecer conosco é na potência do seu Espírito, também fruto da sua ressurreição e da entrada no Pai...
Se é assim, qual o sentido desta Solene Ascensão do Senhor? Eis o seu significado, tão importante para nós e para a nossa salvação: na Ressurreição, Jesus foi glorificado na sua pessoa, isto é, em si mesmo. Na Ascensão, aparece o que sua Ressurreição significa para nós, o que o Cristo se torna em relação a nós. Em primeiro lugar, a Ascensão marca o fim daquele período de encontros que o Ressuscitado teve com seus discípulos para fortalecer-lhes a fé e explicar-lhes a missão. É, portanto, uma despedida! Como já foi dito, a partir desse momento o Senhor estará com os seus e poderá ser por eles percebido de uma forma nova: na potência do seu Espírito Santo, presente na força da Palavra anunciada e nos sacramentos da Igreja. É assim que a Ascensão abre caminho para o Pentecostes, quando o Espírito, de um modo visível e barulhento, marca a inauguração da missão da Igreja, que é testemunhar e anunciar o Senhor, tornando-o presente nos gestos sacramentais.
Segundo: a Ascensão nos revela aquilo que aconteceu no céu com Jesus e que, na terra, somente pela fé podemos saber e crer, isto é, sua glorificação como Senhor do Céu e da terra, Senhor da história humana e da Igreja. Ele ressuscitou e subiu ao Céu para tudo recapitular e de tudo ser a Cabeça, fonte de vida e salvação! São Paulo nos disse na segunda leitura que “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos e fê-lo sentar-se à sua direita nos céus. Ele pôs tudo sob os seus pés e fez dele, que está acima de tudo, Cabeça da Igreja, que é o seu corpo...” É assim que hoje, cheios de alegria, proclamamos Jesus ressuscitado como Cabeça de toda a criação, Cabeça da humanidade toda, Cabeça e sentido da história humana. E tudo isso ele o é enquanto Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo! Isso significa que toda a criação caminha para ele e nele será um dia glorificada; que toda história somente nele encontra a direção e o sentido profundo; e que a Igreja participa, de modo indissolúvel, da sua obra universal de salvação! Se toda salvação neste mundo somente pode vir através de Cristo, vem desse Cristo que é, inseparavelmente, Cabeça da Igreja. Assim, podemos e devemos dizer que sem o ministério da Igreja não há salvação possível! Isso mesmo: fora da Igreja não há salvação, porque ela é o Corpo do Cristo, sua Cabeça e único Salvador. Em outras palavras: todo ser humano de boa vontade e consciência reta pode salvar-se, mas pode-o somente porque Cristo, Cabeça da Igreja, morreu e ressuscitou e está à Direita do Pai em favor de toda a humanidade e age através da Igreja em benefício de todo ser humano, até de quem não crê nele!
Em terceiro lugar, glorificado, o Senhor é nosso Juiz! Para ele caminham a história humana e as nossas histórias. Somente ele pode ver nosso caminho neste mundo com seu sentido profundo, somente ele nos julgará, porque, à Direita do Pai, somente ele abarca toda a história com o seu Espírito e desvela seu sentido pleno; somente nele nossos pobres dias podem encontrar o Dia sem fim, o Dia pleno da glória eterna!
Quarto: desaparecendo de nossa vista humana, ele nos dá o seu Espírito, inaugurando um novo modo de estar presente entre nós, mais profundo e eficaz: agora ele nos é interior, age em nós pela energia do seu Espírito Santo: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo!” – Essa promessa não é palavra vazia; é, sim, uma impressionante realidade! E é nesse Espírito que ele consola a Igreja e a guia na missão  pelas estradas do mundo. Em quinto lugar, sua presença na glória, à Direita do Pai, o constitui para sempre como nosso Intercessor, como diz o Autor da Epístola aos Hebreus: “Cristo entrou no próprio céu, a fim de comparecer, agora, na presença de Deus, em nosso favor!” (9,24). Eis como é grande a nossa certeza, como é profunda a nossa esperança, como é certo o nosso caminho: temos um Irmão nosso, um de nossa raça à Direita do Pai, intercedendo por nós!
A hodierna solenidade é também nossa festa e motivo de alegria para nós! Aquele que hoje sentou-se à Direita do Pai é o Filho eterno feito homem, é um de nós! Que coisa impressionante: hoje, a nossa humanidade foi colocada acima dos Anjos! Aquele que, como Deus, foi colocado no presépio e no sepulcro, hoje, como homem, foi colocado acima dos anjos, à direita do próprio Pai! Ora, alegremo-nos: onde já está o Cristo, nossa Cabeça, estaremos um dia todos nós, membros do seu Corpo! Era isso que rezava a oração inicial da Missa de hoje: “Ó Deus todo-poderoso, a ascensão do vosso Filho já é a nossa vitória: membros do seu corpo, somos chamados a participar da sua glória!” E a oração que faremos após a comunhão dirá claramente que junto do Pai já se encontra a nossa humanidade, no Cristo glorificado.
Elevemos o olhar para o céu: à Direita do Pai, Deus como o Pai, encontra-se o homem Jesus, nosso irmão, um de nossa raça... Ele é o objetivo para o qual se dirigem a nossa existência e a historia humana, ele é o nosso Juiz, ele é o nosso Intercessor! Que nossa vida, neste mundo que passa, seja cheia do gosto da eternidade, porque nele, nossa esperança é certíssima! Não temamos: aquele que está no céu faz-se ouvir nas Escrituras e se nos dá em comunhão na eucaristia para que o experimentemos, o anunciemos e o testemunhemos, até sermos plenamente unidos a ele quando aparecer em sua glória e entregar o Reino a Deus seu Pai. “Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje; ele o será por toda a eternidade” (Hb. 13,8).
dom Henrique Soares da Costa




A festa da Ascensão de Jesus, que hoje celebramos, sugere que, no final do caminho percorrido no amor e na doação, está a vida definitiva, a comunhão com Deus. Sugere também que Jesus nos deixou o testemunho e que somos nós, seus seguidores, que devemos continuar a realizar o projeto libertador de Deus para os homens e para o mundo.
O Evangelho apresenta o encontro final de Jesus ressuscitado com os seus discípulos, num monte da Galileia. A comunidade dos discípulos, reunida à volta de Jesus ressuscitado, reconhece-O como o seu Senhor, adora-O e recebe d’Ele a missão de continuar no mundo o testemunho do “Reino”.
Na primeira leitura, repete-se a mensagem essencial desta festa: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o projeto do Pai, entrou na vida definitiva da comunhão com Deus – a mesma vida que espera todos os que percorrem o mesmo “caminho” que Jesus percorreu. Quanto aos discípulos: eles não podem ficar a olhar para o céu, numa passividade alienante; mas têm de ir para o meio dos homens, continuar o projeto de Jesus.
A segunda leitura convida os discípulos a terem consciência da esperança a que foram chamados (a vida plena de comunhão com Deus). Devem caminhar ao encontro dessa “esperança” de mãos dadas com os irmãos – membros do mesmo “corpo” – e em comunhão com Cristo, a “cabeça” desse “corpo”. Cristo reside no seu “corpo” que é a Igreja; e é nela que Se torna, hoje, presente no meio dos homens.
AMBIENTE
O livro dos “Atos dos Apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem num certo contexto de crise. Estamos na década de 80, cerca de cinqüenta anos após a morte de Jesus. Passou já a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o “Reino” e há uma certa desilusão. As questões doutrinais trazem alguma confusão; a monotonia favorece uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na mediocridade; falta o entusiasmo e o empenho… O quadro geral é o de um certo sentimento de frustração, porque o mundo continua igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada. Quando vai concretizar-se, de forma plena e inequívoca, o projecto salvador de Deus?
É neste ambiente que podemos inserir o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura. Nele, o catequista Lucas avisa que o projecto de salvação e de libertação que Jesus veio apresentar passou (após a ida de Jesus para junto do Pai) para as mãos da Igreja, animada pelo Espírito. A construção do “Reino” é uma tarefa que não está terminada, mas que é preciso concretizar na história e exige o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido de testemunhar o projeto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu.
MENSAGEM
O nosso texto começa com um prólogo (vs. 1-2) que relaciona os “Atos” com o 3º Evangelho – quer na referência ao mesmo Teófilo a quem o Evangelho era dedicado, quer na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua ação no mundo (tema central do 3º Evangelho). Neste prólogo são também apresentados os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos, ambos vinculados com Jesus.
Depois da apresentação inicial, vem o tema da despedida de Jesus (vs. 3-8). O autor começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos “a respeito do Reino de Deus” (o que parece estar em contradição com o Evangelho, onde a ressurreição e a ascensão são apresentados no próprio dia de Páscoa – cf. Lc 24). O número quarenta é, certamente, um número simbólico: é o número que define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.
As palavras de despedida de Jesus (vs. 4-8) sublinham dois aspectos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos confins do mundo”. Temos aqui resumida a experiência missionária da comunidade de Lucas: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, desde Jerusalém a Roma. Na realidade, trata-se do programa que Lucas vai apresentar ao longo do livro, posto na boca de Jesus ressuscitado. O autor quer mostrar com a sua obra que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito.
O último tema é o da ascensão (vs. 9-11). Evidentemente, esta passagem necessita de ser interpretada para que, através da roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a claridade.
Temos, em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao céu (v. 9a). Não estamos a falar de uma pessoa que, literalmente, descola da terra e começa a elevar-se; estamos a falar de um sentido teológico (não é o “repórter”, mas sim o “teólogo” a falar): a ascensão é uma forma de expressar, simbolicamente, que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supra-terrenas; é a forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que agora reentra na glória da comunhão com o Pai.
Temos, depois, a nuvem (v. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando a meio caminho entre o céu e a terra a nuvem é, no Antigo Testamento, um símbolo privilegiado para exprimir a presença do divino (cf. Ex. 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Ao mesmo tempo, simultaneamente, esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e terra, presença e ausência, luz e sombra, divino e humano, são dimensões aqui sugeridas a propósito de Cristo ressuscitado, elevado à glória do Pai, mas que continua a caminhar com os discípulos.
Temos, ainda, os discípulos a olhar para o céu (v. 10a). Significa a expectativa dessa comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de levar ao seu termo o projeto de libertação do homem e do mundo.
Temos, finalmente, os dois homens vestidos de branco (v. 10b). O branco sugere o mundo de Deus – o que indica que o seu testemunho vem de Deus. Eles convidam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar na história a obra de Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor.
O sentido fundamental da ascensão não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus; mas é convidar-nos a seguir o “caminho” de Jesus, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do seu projeto de salvação no meio do mundo.
ATUALIZAÇÃO
• A ressurreição/ascensão de Jesus garante-nos, antes de mais, que uma vida, vivida na fidelidade aos projetos do Pai, é uma vida destinada à glorificação, à comunhão definitiva com Deus. Quem percorre o mesmo “caminho” de Jesus subirá, como Ele, à vida plena.
• A ascensão de Jesus recorda-nos, sobretudo, que Ele foi elevado para junto do Pai e nos encarregou de continuar a tornar realidade o seu projeto libertador no meio dos homens nossos irmãos. É essa a atitude que tem marcado a caminhada histórica da Igreja? Ela tem sido fiel à missão que Jesus, ao deixar este mundo, lhe confiou?
• O nosso testemunho tem transformado e libertado a realidade que nos rodeia? Qual o real impacto desse testemunho na nossa família, no local onde desenvolvemos a nossa atividade profissional, na nossa comunidade cristã ou religiosa?
• É relativamente frequente ouvirmos dizer que os seguidores de Jesus gostam mais de olhar para o céu do que comprometerem-se na transformação da terra. Estamos, efetivamente, atentos aos problemas e às angústias dos homens, ou vivemos de olhos postos no céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações, pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os homens, particularmente com aqueles que sofrem?
AMBIENTE
A Carta aos Efésios é, provavelmente, um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias igrejas da Ásia Menor, numa altura em que Paulo está na prisão (em Roma?). O seu portador é um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60.
Alguns vêem nesta Carta uma espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que a missão do apóstolo está praticamente terminada no oriente.
Em concreto, o texto que nos é proposto aparece na primeira parte da Carta e faz parte de uma ação de graças, na qual Paulo agradece a Deus pela fé dos Efésios e pela caridade que eles manifestam para com todos os irmãos na fé.
MENSAGEM
À ação de graças, Paulo une uma fervorosa oração a Deus, para que os destinatários da Carta conheçam “a esperança a que foram chamados” (v. 18). A prova de que o Pai tem poder para realizar essa “esperança” (isto é, conferir aos crentes a vida eterna como herança) é o que Ele fez com Jesus Cristo: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita (v. 20), exaltou-O e deu-Lhe a soberania sobre todos os poderes angélicos (Paulo está preocupado com a perigosa tendência de alguns cristãos em dar uma importância exagerada aos anjos, colocando-os até acima de Cristo – cf. Col. 1,6). Essa soberania estende-se, inclusive, à Igreja – o “corpo” do qual Cristo é a “cabeça”.
O mais significativo deste texto é, precisamente, este último desenvolvimento. A ideia de que a comunidade cristã é um “corpo” – o “corpo de Cristo” – formado por muitos membros, já havia aparecido nas “grandes cartas”, acentuando-se, sobretudo, a relação dos vários membros do “corpo” entre si (cf. 1Cor. 6,12-20; 10,16-17; 12,12-27; Rom. 12,3-8); mas, nas “cartas do cativeiro”, Paulo retoma a noção de “corpo de Cristo” para refletir sobre a relação que existe entre a comunidade e Cristo.
Neste texto, em concreto, há dois conceitos muito significativos para definir o quadro da relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”).
Dizer que Cristo é a “cabeça” da Igreja significa, antes de mais, que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino; significa, também, que Cristo é o centro à volta do qual o “corpo” se articula, a partir do qual e em direção ao qual o “corpo” cresce, se orienta e constrói, a origem e o fim desse “corpo”; significa, ainda, que a Igreja/corpo está submetida à obediência a Cristo/cabeça: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência.
Dizer que a Igreja é a “plenitude” (“pleroma”) de Cristo significa dizer que nela reside a “plenitude”, a “totalidade” de Cristo. Ela é o receptáculo, a habitação, onde Cristo Se torna presente no mundo; é através desse “corpo” onde reside que Cristo continua todos os dias a realizar o seu projeto de salvação em favor dos homens. Presente nesse “corpo”, Cristo enche o mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que o próprio Cristo “seja tudo em todos” (v. 23).
ATUALIZAÇÃO
• Na nossa peregrinação pelo mundo, convém termos sempre presente “a esperança a que fomos chamados”. A ressurreição/ascensão/glorificação de Jesus é a garantia da nossa própria ressurreição/glorificação. Formamos com Ele um “corpo” destinado à vida plena. Esta perspectiva tem de dar-nos a força de enfrentar a história e de avançar – apesar das dificuldades – nesse “caminho” do amor e da entrega total que Cristo percorreu.
• Dizer que fazemos parte do “corpo de Cristo” significa que devemos viver numa comunhão total com Ele e que nessa comunhão recebemos, a cada instante, a vida que nos alimenta. Significa, também, viver em comunhão, em solidariedade total com todos os nossos irmãos, membros do mesmo “corpo”, alimentados pela mesma vida. Estas duas coordenadas estão presentes na nossa existência?
• Dizer que a Igreja é o “pleroma” de Cristo significa que temos a obrigação de testemunhar Cristo, de torná-l’O presente no mundo, de levar à plenitude a projeto de libertação que Ele começou em favor dos homens. Essa tarefa só estará acabada quando, pelo testemunho e pela ação dos crentes, Cristo for “um em todos”.
Ambiente
O texto situa-nos na Galileia, após a ressurreição de Jesus (embora não se diga se é muito ou pouco tempo após a descoberta do túmulo vazio – cf. Mt. 28,1-15). De acordo com Mateus, Jesus – pouco antes de ser preso – havia marcado encontro com os discípulos na Galileia (cf. Mt. 26,32); na manhã da Páscoa, os anjos que apareceram às mulheres no sepulcro (cf. Mt. 28,7) e o próprio Jesus, vivo e ressuscitado (cf. Mt. 28,10), renovam o convite para que os discípulos se dirijam à Galileia, a fim de lá encontrar o Senhor.
A Galileia – região setentrional da Palestina – era uma região próspera e bem povoada, de solo fértil e bem cultivado. A sua situação geográfica fazia desta região o ponto de encontro de muitos povos; por isso, um número importante de pagãos fazia parte da sua população. A coabitação de populações pagãs e judias fazia, certamente, com que os judeus da Galileia vivessem a religião de uma maneira diferente dos judeus de Jerusalém e da Judeia: a presença diária dos pagãos conduzia, provavelmente, os galileus a suavizar a sua prática da Lei e a interpretar mais amplamente as regras que se referiam, por exemplo, às impurezas rituais contraídas pelo contacto com os não judeus. No entanto, isto fazia com que os judeus de Jerusalém desprezassem os judeus da Galileia e considerassem que da Galileia “não podia sair nada de bom”.
No entanto, foi na Galileia que Jesus viveu quase toda a sua vida. Foi, também, na Galileia que Ele começou a anunciar o Evangelho do “Reino” e que começou a reunir à sua volta um grupo de discípulos (cf. Mt. 4,12-22). Para Mateus, esse fato sugere que o anúncio libertador de Jesus tem uma dimensão universal: destina-se a judeus e pagãos.
Mateus situa este encontro final entre Jesus ressuscitado e os discípulos num “monte que Jesus lhes indicara”. Trata-se, no entanto, de uma montanha da Galileia que é impossível identificar geograficamente, mas que talvez Mateus ligue com a montanha da tentação (cf. Mt. 4,8) e com a montanha da transfiguração (cf. Mt. 17,1). De qualquer forma, o “monte” é sempre, no Antigo Testamento, o lugar onde Deus se revela aos homens.
Mensagem
O texto que descreve o encontro final entre Jesus e os discípulos divide-se em duas partes.
Na primeira (vs. 16-18), descreve-se o encontro. Jesus, vivo e ressuscitado, revela-Se aos discípulos; e os discípulos reconhecem-n’O como “o Senhor” e adoram-n’O. Depois de descrever a adoração, Mateus acrescenta uma expressão que alguns traduzem como “alguns ainda duvidaram” e outros como “eles que tinham duvidado” (gramaticalmente, ambas as traduções são possíveis). No primeiro caso, a expressão significaria que a fé não é uma certeza científica e que não exclui a dúvida; no segundo caso, a expressão aludiria a essa dúvida constante dos discípulos – expressa em vários momentos, ao longo da caminhada para Jerusalém – e que aqui perde qualquer razão de ser.
Ao reconhecimento e à adoração dos discípulos, segue-se uma manifestação do mistério de Jesus, que reflete a fé da comunidade de Mateus: Jesus é o “Kyrios”, que possui todo o poder sobre o mundo e sobre a história; Jesus “o mestre”, cujo ensinamento será sempre uma referência para os discípulos; Jesus é o “Deus-conosco”, que acompanhará, a par e passo, a caminhada dos discípulos pela história.
Na segunda (vs. 19-20), Mateus descreve o envio dos discípulos em missão pelo mundo. A Igreja de Jesus é, essencialmente, uma comunidade missionária, cuja missão é testemunhar no mundo a proposta de salvação e de libertação que Jesus veio trazer aos homens e que deixou nas mãos e no coração dos discípulos. A primeira nota do envio e do mandato que Jesus dá aos discípulos é a da universalidade… A missão dos discípulos destina-se a “todas as nações”.
A segunda nota dá conta das duas fases da iniciação cristã, conhecidas da comunidade de Mateus: o ensino e o batismo. Começava-se pela catequese, cujo conteúdo eram as palavras e os gestos de Jesus (o discípulo começava sempre pelo catecumenato, que lhe dava as bases da proposta de Jesus). Quando os discípulos estavam informados da proposta de Jesus, vinha o batismo – que selava a íntima vinculação do discípulo com o Pai, o Filho e o Espírito Santo (era a adesão à proposta anteriormente feita).
Uma última nota: Jesus estará sempre com os discípulos, “até ao fim dos tempos”. Esta afirmação expressa a convicção – que todos os crentes da comunidade mateana possuíam – de que Jesus ressuscitado estará sempre com a sua Igreja, acompanhando a comunidade dos discípulos na sua marcha pela história, ajudando-a a superar as crises e as dificuldades da caminhada.
Atualização
• Jesus foi ao encontro do Pai, depois de uma vida gasta ao serviço do “Reino”; deixou aos seus discípulos a missão de anunciar o “Reino” e de torná-lo uma proposta capaz de renovar e de transformar o mundo. Celebrar a ascensão de Jesus significa, antes de mais, tomar consciência da missão que foi confiada aos discípulos e sentir-se responsável pela presença do “Reino” na vida dos homens. Estou consciente de que a Igreja – a comunidade dos discípulos de Jesus, a que eu também pertenço – é, hoje, a presença libertadora e salvadora de Jesus no meio dos homens? Como é que eu procuro testemunhar o “Reino” na minha vida de todos os dias – em casa, no trabalho ou na escola, na paróquia, na comunidade religiosa?
• A missão que Jesus confiou aos discípulos é uma missão universal: as fronteiras, as raças, a diversidade de culturas, não podem ser obstáculos para a presença da proposta libertadora de Jesus no mundo. Tenho consciência de que a missão confiada aos discípulos é uma missão universal? Tenho consciência de que Jesus me envia a todos os homens – sem distinção de raças, de etnias, de diferenças religiosas, sociais ou econômicas – a anunciar-lhes a libertação, a salvação, a vida definitiva? Tenho consciência de que sou responsável pela vida, pela felicidade e pela liberdade de todos os meus irmãos – mesmo que eles habitem no outro lado do mundo?
• Tornar-se discípulo é, em primeiro lugar, aprender os ensinamentos de Jesus – a partir das suas palavras, dos seus gestos, da sua vida oferecida por amor. É claro que o mundo do século XXI apresenta, todos os dias, desafios novos; mas os discípulos, formados na escola de Jesus, são convidados a ler os desafios que hoje o mundo coloca, à luz dos ensinamentos de Jesus. Preocupo-me em conhecer bem os ensinamentos de Jesus e em aplicá-los à vida de todos os dias?
• No dia em que fui batizado, comprometi-me com Jesus e vinculei-me com a comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A minha vida tem sido coerente com esse compromisso?
• É um tremendo desafio testemunhar, hoje, no mundo os valores do “Reino” (esses valores que, muitas vezes, estão em contradição com aquilo que o mundo defende e que o mundo considera serem as prioridades da vida). Com frequência, os discípulos de Jesus são objeto da irrisão e do escárnio dos homens, porque insistem em testemunhar que a felicidade está no amor e no dom da vida; com frequência, os discípulos de Jesus são apresentados como vítimas de uma máquina de escravidão, que produz escravos, alienados, vítimas do obscurantismo, porque insistem em testemunhar que a vida plena está no perdão, no serviço, na entrega da vida. O confronto com o mundo gera muitas vezes, nos discípulos, desilusão, sofrimento, frustração… Nos momentos de decepção e de desilusão convém, no entanto, recordar as palavras de Jesus: “Eu estarei convosco até ao fim dos tempos”. Esta certeza deve alimentar a coragem com que testemunhamos aquilo em que acreditamos.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho



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