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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

19º DOMINGO DO TEMPO COMUM-Ano A

19º DOMINGO DO TEMPO COMUM
13 de Agosto de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt 14,22-33

Muitas vezes pensamos que na oração, é só nós que falamos com Deus, pedindo, agradecendo...
Deus fala conosco nas nossas preces. E isso acontece geralmente naquelas interrupções, que chamamos de distrações.
Precisamos prestar mais atenção, pois Deus fala conosco, diretamente, não só através de fatos de pessoas, mas também diretamente nos nossos próprios pensamentos.  Continuar lendo


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“SENHOR, SALVA-ME!”- Olivia Coutinho

19º DOMINGO DO TEMPO COMUM!

Dia 13 de Agosto de 2017

Evangelho de Mt14,22-33

 Nesta segunda semana do mês de agosto, mês das vocações, a Igreja nos convida a refletirmos sobre a vocação familiar, dando uma atenção especial aos pais!
Os pais são os representantes de Deus no seio da família, eles são os pilares que dão segurança a esta instituição sagrada, que é o berço de todas as vocações!
Na família, a figura do pai, sempre aparece como ponto de referencia, Deus coloca em suas mãos, o destino e a segurança da família, a eles são conferidas, as maiores responsabilidades.
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, nos coloca em alto mar, enfrentando os mesmos desafios que os primeiros discípulos  tiveram que enfrentar, enquanto faziam a travessia para a outra margem!
A narrativa diz, que depois da multiplicação dos pães, quando Jesus  passou para os discípulos a responsabilidade de alimentar uma multidão, ensinando-os a partilhar, manda-os entrar na barca e atravessarem  para a outra margem, isto é, a irem ao encontro de outros povos.
Podemos dizer que Jesus, já estava preparando os discípulos para caminharem sem a sua presença física! Até então, eles,  eram totalmente dependentes de Jesus, não davam um passo sequer, sem Ele, o que não poderia continuar, afinal, depois da sua volta para o Pai, seriam eles, os responsáveis em dar continuidade a missão de Jesus, a conduzir a sua barca!(Igreja)
Em atendimento a Jesus, os discípulos entram na barca e avançam mar adentro, remando em direção  à outra margem.
Atravessar para a outra margem, foi o primeiro desafio que os discípulos tiveram que enfrentar, e foi nesta travessia, que eles experimentaram as consequências da falta fé.
Jesus mandou que os discípulos fossem à sua frente, mas Ele, não os perdera de vista. Assim como os pais, observam os seus filhos, quando eles dão seus primeiros passos, Jesus  observava os discípulos à distancia,  vê, quando eles  são surpreendidos, por uma tempestade em alto mar. Jesus vê,  e vai ao socorro deles!
“A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas as ondas, pois o vento era contrário.” Podemos tirar vários significados desta narrativa: os ventos contrários, o mar revolto, vem nos falar, das dificuldades que a Igreja e todos os que abraçam a sua vocação, enfrentam pelo o caminho!
Pelas às três horas da manhã, Jesus, veio até os discípulos,  andando sobre  o  mar.” Para os Judeus, o mar era visto como o mal, para nós, “Jesus andando sobre o mar” significa, que Ele está acima de todo o  mal! O mal não tem vez diante de Jesus! Quem está com Jesus, está seguro, não  precisa temer os ventos contrários!
 “Coragem!” “Sou eu.” Jesus vai em direção aos discípulos e eles não o reconhece de imediato, chegando a pensar que se tratasse de um fantasma. Pedro, chegou  ao ponto de pedir uma prova a Jesus: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro,caminhando sobre a água." O que pode acontecer também conosco: não reconhecer Jesus, na pessoa de  seus enviados, naqueles,  que Ele envia, para nos socorrer! 
O medo que se apossou dos discípulos, pode também, apossar de nós, quando não alimentarmos a nossa fé. O medo, que paralisa e que quase afundou Pedro, significar falta de fé!
Fazendo uma reflexão mais  profunda desta passagem,  podemos dizer, que o maior  perigo  que os discípulos correram, não foi, de um naufrágio nas águas do mar,  e sim, do naufrágio na fé! Este sim poderia lhes tirar a vida, os fazendo abandonar a missão!  Perder a fé é perder a vida em plenitude, deste naufrágio, nós não somente devemos temer como também evita-lo, alimentando a nossa na fé no nosso dia a dia.  Antes perder a vida física,  do que perder  a fé!
 “Homem fraco na fé porque duvidaste?” Assim como Pedro vacilou várias vezes na fé, nós também, estamos sujeitos a vacilar, mas o importante é fazer como Pedro: reativar a fé, pedindo socorro a Jesus: "Senhor, salva-me!"
Os discípulos, tiveram muitas dificuldades em atravessar para a outra margem, nós também, temos muitas dificuldades em atravessar os mares impetuosos do nosso interior, como o egoísmo,  para irmos ao encontro do outro! 
Se algum dia, formos surpreendidos pelas ondas do mar revolto da nossa vida, não tenhamos medo, confiemos em Jesus, Ele virá ao nosso socorro, não, da mesma forma que foi ao socorro dos primeiros discípulos, mas Ele virá escondido no coração de alguém, no coração dos seus enviados, pode até ser, no coração  de um desconhecido!
Lembremos: ora, somos socorridos, ora somos os enviados a socorrer.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Chamados no mar de injustiças e contradições humanas
Estamos iniciando o mês de agosto. Neste mês, a igreja propõe para as comunidades a reflexão em torno ao tema da vocação: cada domingo é dedicado, respectivamente, a uma delas: sacerdócio, pai, religiosa e leiga.
Vocação vem do latim: vocare – chamar. Muitos, pensando na profissão, dizem que não têm vocação para isso ou aquilo. Outros pensam que somente padres e religiosos (as) é que têm vocação. As duas afirmativas procedem. Faremos bem algo quando temos vocação para tal. Muitos até exercem uma profissão sem o devido sacerdócio, isto é, a dedicação. Imagine se um médico não está disponível quando um doente precisar dele. Vocação tem muito a ver com a intensidade e paixão no fazer e consequente felicidade. Quando o teólogo alemão completou bodas de vida sacerdotal, perguntaram-lhe pelo segredo da felicidade, e ele respondeu sabiamente: “Se você quer ser feliz por um dia: vá pescar; se quer ser feliz por um mês: case-se; se quer ser feliz por toda a vida: faça tudo com intensidade a cada minuto de sua vida”. Neste primeiro domingo de agosto, dediquemo-nos a refletir sobre a vocação sacerdotal. No último dia 4, celebramos o patrono dos padres, são João Maria Vianey, homem dedicado ao sacerdócio, que, no seu tempo, soube responder com eficácia ao chamado de Deus. Nas leituras de hoje, veremos que Deus chama o profeta Elias; Jesus convoca Pedro para caminhar sobre as águas do mar; Paulo fala, com tristeza, da não correspondência de seus compatriotas, os israelitas, ao chamado de Deus.
1ª leitura (1 Reis 19,9ª 11-13a)
Deus chama na brisa leve e convoca o profeta para uma missão conflituosa.
Elias, o grande profeta do povo judeu, é relembrado anualmente no jantar da ceia pascal. Os judeus deixam à mesa uma cadeira vazia para Elias e o recebem nas casas com uma taça de vinho. O livro de Malaquias atesta a promessa divina da volta de Elias, antes do Dia do Senhor, de modo que ele possa fazer voltar o coração dos pais para os filhos (Ml. 3,23-24). Não por menos, muitos cristãos acreditam que Jesus, o Messias, morreu invocando Elias (Mt. 27,47.49). A trajetória profética de Elias foi marcada, sobretudo, pela saída do palácio do rei. Com ele, se o rei precisasse ouvir o conselho de um profeta, teria que ir aonde povo estava, pois ali se encontrava o profeta. Elias multiplicou a farinha e o óleo de uma pobre viúva (1Rs. 17,7-16); ressuscitou o filho de outra, em Serepta (1Rs. 17,17-24); provocou seca; fez descer fogo do céu; predisse a chegada da chuva; degolou 450 profetas de Baal, após o sacrifício no monte Carmelo (1Rs. 18). Por tudo isso, Elias foi chamado de “homem de Deus” pelas pobres viúvas, mas, de assassino, pela rainha de Israel, Jezabel. Elias restaurou, em Israel, a fé em Javé, o Deus libertador. Tendo realizado todos esses feitos e vendo a perseguição bater às suas portas, Elias teve medo e fugiu para o monte Sinai. Qual outro Moisés que, após matar o soldado egípcio que matara o seu irmão de sangue, defendendo os direitos de seu povo, fugiu da casa do Faraó, onde teria sido criado (Ex. 2,11-3,22). Chegando ao monte Sinai, após quarenta dias e quarenta noites, fato simbólico que relembra a peregrinação do povo no deserto, Elias entra numa gruta. Deus lhe pede que saia e revela-se para ele em uma brisa suave (v. 12). Neste mesmo lugar, Deus havia se manifestado por meio de trovões, luzes, terremotos. Com Elias é diferente. Deus fala por meio de uma brisa suave. Muitos interpretam esse fato vocacional na vida de Elias como um chamado à serenidade, própria de Deus e do seu escolhido. Mesmo que essa afirmativa seja verdadeira, não é bem assim a missão dada a Elias, que os versículos posteriores retratam: Elias teria que descer do monte e retomar o caminho, ungir Hazael como rei de Aram; Jeú, rei de Israel e Eliseu, profeta em seu lugar. E o que é mais drástico: todos os três deveriam provocar uma matança geral, resguardando sete mil homens fiéis, que não aderiram a Baal (v. 18).
A vocação de Elias é marcada por: contato próximo de Deus; falar em nome de Deus; medo ao assumir a missão e suas consequências inevitáveis; denunciar as injustiças sociais; defender os pobres; purificar a religião por um estado que governa em nome de Deus e, se preciso for, matar os opositores de Javé. Aos nossos ouvidos pode soar estranho esse último ponto de sua vocação. Não podemos simplesmente, de forma anacrônica, justificar essas suas atitudes em nossos dias. Assim viveu Israel, nos primórdios de sua fé. A vocação sacerdotal, sobre a qual estamos refletindo, neste domingo, tem muito de Elias. Deus o chama ao sacerdócio, isto é, ao serviço de ser ‘ponte’ entre o povo de Israel e Deus. Elias tem medo, pois a sua missão não é fácil. O idílico do chamado na brisa leve vai muito além, no enfretamento aos desafios hodiernos de uma religião comprometida com a justiça social. O sacerdote, se não for, como Elias, um homem de oração e de serviço, não poderá corresponder ao chamado de Deus.
Evangelho (Mt. 14,22-33)
Segura nas mãos e vai... na fé
O evangelho de hoje, dando continuidade ao do domingo anterior, o da multiplicação dos pães, mostra Jesus subindo ao monte para rezar. No fim da tarde, ele volta caminhando sobre o mar. Os discípulos, com medo, pensam que se tratava de um fantasma. Jesus se apresenta e os convoca a ter fé. Pedro dialoga com ele e sai caminhando sobre o mar. Quando duvida, começa a se afogar, mas Jesus o acolhe pela mão. Os discípulos manifestam a fé em Jesus como Filho de Deus. Esse é o conteúdo do evangelho que ouvimos. Em que ele ilumina o tema de nossa reflexão, a vocação sacerdotal? Vejamos. Jesus caminha firme sobre o mar. Ele poderia realizar tal proeza, pois era o Filho de Deus. O mar é o lugar do medo, do não dominado, do mal, do não conhecimento humano, de onde vinha o leviatã, o demônio. O medo que vem do mar é contrastado, no evangelho, como o medo dos discípulos. Para o mar, Jesus havia enviado uma legião de porcos – animais impuros como o mar -, e possuídos de demônios, assim como a legião de romanos (Mt. 8,28-34). Pedro, a pedra, representa aquele que tem pouca fé e vacila no caminho. A mão de Deus, Jesus, o segura nas dificuldades e amaina o vento forte que vem do mar. A barca é o lugar seguro, apesar do mar violento e perigoso. Aqui vale lembrar a música: “Se as águas do mar da vida quiserem te afundar, segura nas mãos de Deus, e vai”... O sacerdote, assim como todo cristão, é chamado a enfrentar as dificuldades do ‘mar da vida’, a ter fé, apesar do medo. Caminhar sempre, professar a sua fé em Jesus, o Filho de Deus. E, assim como Jesus, buscar força na oração nos ‘montes’ da vida. Para o povo da Bíblia, o monte era o lugar da proximidade com Deus. O padre, fraco na fé, como Pedro, humano como outro humano qualquer, celebra ‘in persona Christi’ os sacramentos. Testemunhando, no altar e na vida, a paixão, morte e ressurreição de Jesus, o Filho de Deus.
2ª leitura (Rm. 9,1-5)
Quem nos separará do amor de Deus
Paulo, que de perseguidor dos cristãos, por causa da vocação – chamado de Deus que lhe aparece na pessoa do ressuscitado -, transformou-se em um homem de muita fé, contrário a Pedro do evangelho de hoje. A preocupação de Paulo, sobretudo no trecho que hoje ouvimos da Carta aos romanos, reside no fato de os seus parentes na carne, os israelitas, não demonstrarem fé em Cristo, descendente dos patriarcas e Deus bendito pelos séculos. Paulo tem consciência de que Deus escolhe Israel como seu povo e com ele fez uma aliança eterna. Paulo tem esperança de que os seus compatriotas iriam compreender o mistério da revelação de Deus em Jesus. Os judeus tinham Paulo como inimigo e traidor deles (At. 21,28). Paulo manifesta sua fé na divindade de Jesus. Essa questão percorreria longos séculos de discussão entre os cristãos, até o consenso final, no Concílio de Calcedônia, em 451, em que a igreja criou o dogma de fé na Trindade. Essa decisão, no entanto, provocou o surgimento de outra religião, o islamismo, que não aceitou a divindade de Jesus (cf. Faria, Jacir de Freitas, Apócrifos aberrantes, complementares e cristianismos alternativos – Poder e heresias! 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2010, p.147). Como Paulo, o sacerdote e os cristãos são chamados a testemunhar a fé em Cristo, Deus bendito pelos séculos.
frei Jacir de Freitas Faria, ofm



Experimentar Deus
Bela e admirável a aventura daqueles e daquelas que buscam a Deus. Não existe projeto mais audacioso e mais belo do que este de tentar ouvir a Palavra daquele que fala sem ter lábios, que escuta sem ter ouvidos, que abraça sem ter braços. Não se trata apenas do encontro com noções a respeito de Deus nem com caricaturas que costumam ser feitas dele. Trata-se de experimentar Deus na vida. O teólogo Karl Ranner afirmava, em meados do século passado, que o cristão dos tempos novos ou seria místico ou não seria nada. Ou faria uma experiência de Deus ou não seria cristão.
As Escrituras gostam de mostrar as manifestações de Deus no alto de uma montanha e no silêncio das grutas. Aliás, todos os místicos seguiram a mesma trilha. Temos hoje o texto do livro do Reis em que Elias faz uma particular experiência de Deus. O profeta anda desalentado e desanimado. A palavra de Deus lhe é dirigida durante a noite. "Sai e permanece sobre o monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar". Será preciso esperar essa "passagem" do Senhor. Três elementos da natureza simbolizam "espaços" onde o Senhor não está. Primeiro trata-se de um vento impetuoso que destruía tudo. Ali não estava o Senhor. Vem depois uma movimentação violenta da terra, um terremoto, mas também ali não estava o Senhor. Não estava também no fogo. Elias vai experimentar a presença do Senhor num leve murmúrio de brisa, na suavidade das coisas sem estardalhaço, no murmúrio do silêncio. " E depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu pôs-se à entrada da gruta". Interiormente o profeta tem a certeza da presença do Senhor. E adora o Altíssimo. No silêncio e na suavidade o Senhor se manifestou como se nos manifesta quando caminhamos em sua presença no tecido cotidiano de nossa existência, quando o nosso coração bate ao compasso do coração de Deus.
A experiência nos atesta que tocamos uma proximidade de Deus no templo, quando nos retiramos do bulício e deixamos nos revestir de silêncio. Muitos dias e tardes de oração silenciosa são ocasiões privilegiadas para preparar o coração em vista de uma eventual aproximação de Deus. Há aqueles que fazem a experiência do Senhor saboreando os salmos em comunidade ou em particular. Outros afirmam que fazem a experiência do Senhor frequentando o rosto dos mais abandonados. Francisco de Assis, o grande amante das grutas e do silêncio, faz questão de assinalar que deixou o mundo das vaidades e da mentira quando encontrou o leproso e cuidou dele com todo carinho.
Mateus descreve uma acidentada travessia do mar em meio a gigantescas turbulências. "A barca, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário". Experiência de medo, de insegurança.... Há um momento em que Jesus se aproxima andando sobre as águas. Sofrendo os abalos do mar agitado pensavam os discípulos que Jesus fosse um fantasma... Passam a experimentar medo. Pedro não tem coragem de caminhar sobre as águas. Todo um quadro que mostra a fragilidade dos apóstolos. Hoje acontecem na Igreja outras tempestades: fragilidade dos cristãos, uma Igreja que tem dificuldade em evangelizar a cultura do provisório, do individualismo, da descartabilidade, do aqui e agora. Nem sempre a Igreja se dá conta que Jesus está caminhando sobre as águas. Fragilidade da fé e, ao mesmo tempo, experiência de Deus. "Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: Verdadeiramente tu és o Filho de Deus".
Assim, se experimenta a proximidade e o amor de Deus.
frei Almir Ribeiro Guimarães



O Deus da brisa mansa
Certo dia, frustrado com a incredulidade que ele encontrava na sua luta contra os ídolos em favor do Deus único, Elias fugiu das mãos de Jezabel para a montanha de seu Deus, quase que para provocá-lo a mostrar novamente sua força e a esmagar aqueles que passaram os seus profetas ao fio da espada (1Rs. 19,9-10). Deus o mandou esperar no cume da montanha. Passou um vento violento, mas Deus não estava no vento violento; houve um terremoto, mas Deus não estava no terremoto; houve fogo, mas Deus não estava no fogo. Depois, ouviu-se o murmúrio de uma brisa ligeira, então, Elias cobriu o rosto e escutou a voz de Deus (1ª leitura).
Deus não está necessariamente nas coisas grandiosas ou violentas. Apesar da violência dos homens, Deus está naquilo que significa paz e refrigério. Dentro da brisa mansa, ele confia a Elias uma nova missão. A religiosidade mágica facilmente acredita que Deus se manifesta na tempestade. Mas ele se manifesta acalmando a tempestade. Assim, ele se manifestou em Cristo, diante dos apóstolos, que estavam lutando contra o vento no barco do lago de Genesaré (Mt. 14,22-33).
Por trás dessa narração está um mundo de mitologia. O mar era o domínio de Leviatã, o monstro marinho, uma vez considerado como um deus, mas, mais tarde, desmitologizado até anjo ou diabo. A tempestade era a força do inimigo, acreditavam os supersticiosos pescadores galileus. Ora, depois da multiplicação dos pães (cf. dom. passado) Jesus tinha deixado seus discípulos atravessarem sozinhos o lago de Genesaré.
Ei-los agora confrontados com essas forças, às quais eles atribuíam uma origem maliciosa (evangelho). Aí Jesus inventa dar um passeio andando sobre as ondas. Simão Pedro (só o evangelho de Mateus conta este detalhe) se sente logo animado e quer, sobre as ondas, ir ao encontro de Jesus. Mas de repente vê novamente diante de si o vento e as águas e perde a confiança em si, mas não em Jesus, pois grita “Senhor, salva-me” (cf. tb. salmo responsorial). O que Jesus faz, não sem lhe censurar a falta de fé. E então, com um gesto que revela toda sua majestade, Jesus acalma as ondas. Agora, os discípulos reconhecem-no como o Senhor, o Filho de Deus, e adoram-no.
O Deus que se manifesta em Jesus Cristo não é de tempestade, não é um Leviatã, mas um Deus rico em misericórdia e fidelidade (cf. aquela outra manifestação na montanha, Ex. 34,5-6). O que não quer dizer: um Deus de moleza - pois ele tem mais força que a tempestade. Mas ele quer que não tenhamos medo. Não é um Deus que reina na base do medo, mas da confiança, da fé. Ora - e esta é a segunda consideração -, a fé deve ser mais do que um momento passageiro de entusiasmo. Se for só isso, logo de novo vamos, como Pedro, ver surgir o Leviatã de todos os lados. Fé de fogo de palha é pouca fé para Cristo (23). É o que aconteceu com Pedro. “Se és tu, manda-me vir...” (a frase condicional mostra que ele ainda duvidava se era Jesus, manifestando-se como Filho de Deus, ou um fantasma, algum Leviatã; cf. Mt. 14,26).
Na 2ª leitura inicia a segunda grande parte de Rm: nos caps. 9-11, Paulo confessa sua paixão para o povo de Israel, do qual ele é membro - embora tenha de combater o legalismo farisaico. Ele mesmo gostaria de ser condenado se, com isso, os seus irmãos judaicos tivessem a salvação (Rm.9,3). Palavra forte, mas não mero exagero: Paulo sabia que seria impossível que eles estivessem pura e simplesmente perdidos. O plano de salvação, mesmo aberto aos gentios, vale também para os judeus. Como? Isso veremos nos próximos domingos. De toda maneira, tanta confiança tem Paulo no plano de Deus que pode dizer: se Israel for totalmente rejeitado, então, eu também!
Acreditamos num Deus que salva (salmo responsorial), que ouve o nosso clamor (canto da entrada), um Deus da mansidão (1ª leitura). Assim, ele se dá a conhecer em Cristo (evangelho). Para nos inteirarmos disso, precisamos de fé, não passageira, mas constante (evangelho, oração final).
padre Johan Konings "Liturgia dominical"



Jesus mais uma vez se manifesta aos seus discípulos.
Depois de multiplicar os pães e os peixes, Ele despede a multidão e sobe sozinho ao monte para rezar.
Despedir os discípulos significa não dar a eles a oportunidade de sentirem ‘orgulho’ pelo que fizeram, ajudando na partilha dos pães. Jesus, manso e humilde de coração, quer que seus discípulos não caiam
nesta tentação e, por isso, ordena que sigam à frente, velejando pelo mar de Genesaré, em direção a outra margem, para a terra dos pagãos, para talvez ensinarem a outros o ato da partilha e da solidariedade que aprenderam.
O fato de sair de um lugar seguro, rumo ao desconhecido, para levar os ensinamentos de Jesus, muitas vezes causa medo, e esse deslocamento é semelhante à travessia dos discípulos pelo mar de Genesaré.
As forças contrárias, que dificultam a trajetória, representam a resistência ao projeto de Deus. A fragilidade da barca à noite, e o vento contrário dão a dimensão exata dos desafios enfrentados pelas comunidades cristãs.
O mar fala da dimensão do cristianismo que se abre, rompendo caminhos desconhecidos.
O contato com a Palavra de Deus dá coragem e afasta o temor, e o milagre acontece no caminho, em meio aos desafios.
O cristão participa do plano de Deus mesmo diante das oposições e perseguições da sociedade que rejeita o projeto. E não é o risco que faz afundar o projeto, mas a dúvida que paralisa: “Quem enfrenta os desafios arrisca errar, mas quem não arrisca erra sempre.”
Já era alta madrugada quando Jesus vai até os discípulos, andando sobre a água, numa possibilidade que só pertencia a Deus. Os discípulos acreditam estar vendo um fantasma, e Jesus se apresenta reafirmando
a sua identidade.
A figura de Pedro sobressai neste episódio, ele que será o líder dos discípulos e da comunidade cristã.
Nesse momento, assim como na prisão, julgamento e crucificação de Jesus, ele vacila em sua fé, representando a comunidade que, nas crises e atribulações duvidam da presença de Jesus em seu meio e, por isso, pede um sinal. E, mesmo diante das evidências, continua com medo e tem sua fé abalada e enfraquecida. Pedro tira o seu foco da pessoa de Jesus e, quando isso acontece ele afunda. O mundo aqui representado pelo vento o surpreende como as tentações e, quando isso acontece, o foco passa a ser o desejo, o medo, a ganância, o orgulho, a inveja que chamam a atenção para uma nova luz que não ilumina, mas ofusca o entendimento.
Quando Jesus entra na barca, a tempestade se acalma, e os discípulos se sentem seguros para continuar a caminhada. Na vida é a mesma coisa, quando há a presença de Jesus, as tempestades se acalmam para
continuarem enfrentando com serenidade, coragem e fé todos os riscos.
O cristão, quando está focado no Senhor, não vacila diante das dificuldades que o mundo impõe.
Pequeninos do Senhor




Em meio às tempestades
A cena evangélica desenrola-se em meio aos ventos, tempestades e ondas encapeladas, que põem em risco a vida dos discípulos, enquanto atravessam o mar da Galiléia. Além disso, é noite! A natureza toda parece ter-se colocado contra o pequeno grupo. O quê fazer neste contexto desesperador, quando todos já haviam sido tomados pelo medo?
A salvação aparece com a chegada de Jesus. Embora a tempestade continue, ele lhes recomenda a não temer, mas confiar. Quando o Mestre está com eles, podem estar seguros de que não perecerão.
A ousadia de Pedro, querendo por à prova o Mestre, acabou em fracasso. Amedrontado pelo vento furioso, começou a afundar. Sua falta de fé levou-o a duvidar da presença do Senhor. Donde o risco de quase ter sido tragado pelas ondas. Só se salvou porque recorreu a Jesus.
Este fato ilustra a vida da comunidade cristã, atribulada por perseguições, verdadeiras tempestades que devem enfrentar. Quando tudo parece concorrer para fazer a comunidade sucumbir, é preciso reconhecer a presença salvadora do Mestre. Até mesmo as lideranças, representadas por Pedro, correm o risco de perder a fé. Atitude arriscada, que pode levar a todos de roldão. Só é possível salvar-se, recorrendo a Jesus: "Senhor, salva-nos!"
padre Jaldemir Vitório



A travessia
A primeira leitura, assim como o evangelho, fala de uma travessia. No caso de Elias, é uma travessia pelo deserto. Os discípulos de Jesus fazem a travessia para a outra margem do mar da Galileia, depois do episódio dos pães. Jesus, a sós, vai à montanha para rezar. Uma e outra travessia são símbolos da vida cotidiana em que se dá o encontro com Deus. É o tempo em que Deus se aproxima do homem, como se aproximou de Elias e dos discípulos, para revelar quem Ele é e quem é o homem.
Elias atravessa o deserto fugindo da perseguição de Jezabel, mulher do rei Acab, que pretendia matá-lo, pois Elias havia degolado quatrocentos profetas de Baal que estavam a serviço da rainha. No meio da travessia do deserto, Elias pede a Deus a morte; deita-se, à sombra de um junípero, entregue às próprias forças. Misteriosamente, aparece, ali, a comida que ele precisa para continuar o seu caminho até o Monte de Deus. Lá chegando, refugiou-se numa gruta. Avisado que Deus iria passar, se pôs à entrada da gruta e experimentou a presença de Deus não como um vento impetuoso nem como um terremoto, mas como uma brisa suave. Isso foi para Elias uma lição: O Deus de Israel não é um Deus que promove a vingança, nem tampouco o ódio. O Deus que se revela sobre o Monte é um Deus misericordioso, compassivo, bondoso, suave como a brisa da tarde.
A travessia dos discípulos para a outra margem acontece depois do episódio dos pães. O lago de Genesaré é, para o nosso texto de hoje, símbolo da vida cotidiana. Na travessia, o barco é agitado pelas ondas, pois o vento era contrário. O mar é, ainda, para a mentalidade do homem bíblico, símbolo do mal e da morte. O mal agita e ameaça a vida humana e a Igreja. Ao longe, o Senhor vê o sofrimento dos discípulos (cf. Ex. 3,7ss) e sai em socorro dos seus caminhando sobre as águas. Gesto simbólico que manifesta a divindade de Jesus. No Antigo Testamento é Deus quem domina a fúria do vento e do mar (cf. Sl. 89,10). O medo, a escuridão da noite fazem os discípulos confundirem Jesus com um fantasma. Mesmo diante da palavra de Jesus, “sou eu”, Pedro o desafia. À palavra de Jesus ele sai do barco e caminha sobre a água, mas duvida e começa a afundar. O Senhor, no entanto, o resgata. O que faz Pedro afundar é o medo, a dúvida, a falta de confiança no Senhor. Mergulhado na sua fraqueza, em razão da sua incredulidade, Pedro irá experimentar a força do braço do Senhor que o arrancou do poder do mal e da morte.
Carlos Alberto Contieri,sj



A Escritura deste domingo fala-nos de um Deus que é grande demais, misterioso demais, inesperado e surpreendente demais para que possamos enquadrá-lo na nossa lógica e no nosso modo de pensar. Eis, caríssimos! Uma grande tentação para o homem é achar que pode compreender o Senhor, enquadrar seu modo de agir e dirigir o mundo com a nossa pobre e limitada lógica... Mas, o Deus verdadeiro, o Deus que se revelou a Israel e mostrou plenamente o seu Rosto em Jesus Cristo, não é assim! Ele é Misterioso, é Santo, é livre como o vento do deserto!
Pensemos nesta misteriosa e encantadora primeira leitura, do Livro dos Reis. Elias, em crise, fugindo de Jezabel, caminha para o Horeb; ele quer encontrar suas origens, as fontes da fé de Israel. Recordem que o Horeb é o mesmo monte Sinai, a Montanha de Deus. Elias tem razão: nos momentos de dúvida, de crise, de escuridão, é indispensável voltar às origens, às raízes de nossa fé; é indispensável recordar o momento e a ocasião do nosso primeiro encontro com o Senhor e nele reencontrar as forças, a inspiração e a coragem para continuar. Pois bem, Elias volta ao Horeb procurando Deus. Lembrem que no caminho ele chegou a desanimar e pedir a morte: "Agora basta, Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais!" (1Rs. 19,4). No entanto, o Senhor o forçou a continuar o caminho: "Levanta-te e come, pois tens ainda um longo caminho" (1Rs. 19,7). Pois bem, Elias caminhou, teimou em procurar o seu Deus, mesmo com o coração cansado e em trevas; assim, chegou ao Monte de Deus! Mas, também aí, no seu Monte, Deus surpreende Elias – Deus sempre nos surpreende! O Profeta espera o Senhor e o Senhor se revela, vai passar... Mas, não como Elias o esperava: não no vento impetuoso que força tudo e destrói tudo quanto encontra pela frente, não no terremoto que coloca tudo abaixo, não no fogo que tudo devora... Eis: três fenômenos que significam força, que causam temor, que fazem o homem abater-se... E o Senhor não estava aí. Muito tempo antes, quando foi entregar a Moisés as tábuas da Lei, Deus se manifestara no fogo, no vento e no terremoto: "Houve trovões, relâmpagos e uma espessa nuvem sobre a montanha... E o povo estava com medo e pô-se a tremer... Toda a montanha do Sinai fumegava, porque o Senhor desceu sobre ela no fogo... e toda a montanha tremia violentamente" (Ex. 19,16.18). Mas, agora, o Senhor não está no vento impetuoso nem no terremoto nem no fogo... Elias teve de reconhecê-lo, de descobrir sua Presença no murmúrio da brisa suave! – Ah, Senhor! Como teus caminhos são imprevisíveis! Quem pode te reconhecer senão quem a ti se converte? Quem pode continuar contigo se pensar em dobrar-te à própria lógica e à própria medida? Tu és livre demais, grande demais, surpreendente demais! Não há Deus além de ti; tu, que convertes e educas o nosso coração! Elias te reconheceu e cobriu o rosto com o manto, saiu ao teu encontro e te viu pelas costas... Pobres dos homens deste século XXI, que tão cheios de si mesmos, querem te enquadrar à própria medida e, por isso, não te vêem, não te reconhecem, não experimentam a alegria e a doçura da tua Presença!
E, no entanto, meus irmãos, as surpresas de Deus não param por aí! O mais surpreendente ainda estava por vir. Não havia chegado ainda a plenitude do tempo! Pois bem! Na plenitude do tempo, veio a plenitude da graça: Deus enviou o seu Filho ao mundo; ele veio pessoalmente! Não mais no vento, não mais no fogo, não mais no terremoto, não mais pelos profetas! Ele veio pessoalmente, ele, em Jesus: "Quem me vê, vê o Pai. Eu e o Pai somos uma coisa só" (Jo 14,9; 12,45). Por isso mesmo, São Paulo afirma hoje claramente que "Cristo, o qual está acima de todos, é Deus bendito para sempre!" É por essa fé que somos cristãos, meus irmãos! Jesus é Deus, o Deus Santo, o Deus Forte, o Deus Imortal, o Deus de nossos Pais! Nele o Pai criou todas as coisas, por Ele o Pai tirou Abraão de Ur dos Caldeus, por Ele o Pai abriu o Mar Vermelho, por Ele, deu o Maná ao seu povo, sobre Ele fez os profetas falarem e, na plenitude dos tempos no-lo enviou a nós! Surpreendente, o nosso Deus; surpreendente como vem a nós!
Lá vamos nós, lã vai a Igreja, no meio da noite deste mundo, navegando com dificuldade porque a barca da vida é agitada pelos ventos... e Jesus vem ao nosso encontro, caminhando sobre as águas! Em Jesus, Deus vem vindo ao nosso encontro, em Jesus, vem em nosso socorro... E, infelizmente, confundimo-lo com um fantasma, etéreo, irreal. E ele no diz mais uma vez: “Coragem! Sou eu! Não tenhais medo!” Atenção para esta frase do Senhor: “Coragem, EU SOU! Não tenhais medo!” EU SOU! É o nome do próprio Deus como se revelou no deserto! Deus de Moisés, de Elias, Deus feito pessoalmente presente para nós em Jesus Cristo!
Então digamos como Pedro: “Senhor, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre á água!” Ir ao encontro de Jesus, caminhando sobre as águas do mar da vida! Todos temos de pedir isso, de fazer isso! Peçamos sim, como Pedro, mas não façamos como Pedro que, desviando o olhar de Jesus, colocando a atenção mais na profundeza do mar e na força do vento que no poder amoroso e fiel do Senhor, começou a afundar! Assim acontecerá conosco, acontecerá com a Igreja, se medrosos, olharmos mais para o mar e a noite que para o Senhor que vem a nós com amor onipotente! E Deus é tão bom que, ainda que às vezes, façamos a tolice de Pedro, podemos ainda como Pedro gritar de todo o coração: “Senhor, salva-me!” Salva-nos, Senhor, porque somos de pouca fé! Salva tua Igreja, salva cada um de nós das imensas águas do mar da vida, do sombrio e escuro mar encrespado na noite opaca de nossa existência! Tu, que durante a noite oravas e vias o barco navegando com dificuldade, do teu céu, olha para nós e vem ao nosso encontro! E tu vens! Sabemos que vens na graça da Palavra, no dom da Eucaristia e de tantos outros modos discretos... Cristo-Deus ajuda-nos a reconhecer-te, a caminhar ao teu encontro, vencendo as águas do mar da vida!
dom Henrique Soares da Costa



A liturgia do 19º domingo do tempo comum tem como tema fundamental a revelação de Deus. Fala-nos de um Deus apostado em percorrer, de braço dado com os homens, os caminhos da história.
A primeira leitura convida os crentes a regressarem às origens da sua fé e do seu compromisso, a fazerem uma peregrinação ao encontro do Deus da comunhão e da Aliança; e garante que o crente não encontra esse Deus nas manifestações espetaculares, mas na humildade, na simplicidade, na interioridade.
O Evangelho apresenta-nos uma reflexão sobre a caminhada histórica dos discípulos, enviados à “outra margem” a propor aos homens o banquete do Reino. Nessa “viagem”, a comunidade do Reino não está sozinha, à mercê das forças da morte: em Jesus, o Deus do amor e da comunhão vem ao encontro dos discípulos, estende-lhes a mão, dá-lhes a força para vencer a adversidade, a desilusão, a hostilidade do mundo. Os discípulos são convidados a reconhecê-l’O, a acolhê-l’O e a aceitá-l’O como “o Senhor”.
A segunda leitura sugere que esse Deus, apostado em vir ao encontro dos homens e em revelar-lhes o seu rosto de amor e de bondade, tem uma proposta de salvação que oferece a todos. Convida-nos a estarmos atentos às manifestações desse Deus e a não perdermos as oportunidades de salvação que Ele nos oferece.
1ª Leitura – 1 Reis 19,9a.11-13ª - AMBIENTE
A nossa leitura situa-nos no Reino do Norte (Israel), durante o reinado de Acab (873-853 a.C.). No país multiplicam-se os lugares sagrados onde se adoram deuses estrangeiros. De acordo com 1Re. 16,31-33, o próprio rei – influenciado por Jezabel, a sua esposa fenícia – erige altares a Baal e Asserá e presta culto a esses deuses. Por detrás deste quadro está, provavelmente, a tentativa de Acab em abrir Israel a outras nações, a fim de facilitar o intercâmbio cultural e comercial. Mas essas razões políticas não são entendidas nem aceites pelos círculos religiosos de Israel.
Contra estes desvios à fé tradicional, levanta-se o profeta Elias. Ele aparece como o representante desses israelitas fiéis, que recusam a substituição de Jahwéh por deuses estranhos ao universo religioso de Israel. Num episódio dramático cuja memória é conservada no primeiro livro dos Reis, o próprio Elias desafia os profetas de Baal para um duelo religioso, que termina com o massacre de quatrocentos profetas de Baal, no monte Carmelo (cf. 1Re. 18). Esse episódio é, certamente, uma representação teológica dessa luta sem tréguas que se trava entre os fiéis a Jahwéh e os que abrem o coração às influências culturais e religiosas de outros povos.
O texto que nos é proposto como primeira leitura aparece, precisamente, na seqüência do massacre do Carmelo. Jezabel, informada da morte dos profetas de Baal, promete matar Elias; e o profeta foge para o sul, a fim de salvar a vida. Atravessa o Reino do Sul (Judá), passa por Beer-Sheva e dirige-se para o deserto, em direção ao monte Horeb/Sinai (cf. 1Re 19,1-8). É aí que o nosso texto nos situa.
MENSAGEM
A peregrinação de Elias ao Sinai/Horeb é uma espécie de regresso aos inícios. Com Elias, é todo o Israel – esse Israel infiel à aliança, que se deixou seduzir pelos cultos cananeus – que regressa às suas origens, ao lugar do seu compromisso inicial com Deus. Israel precisa de se encontrar de novo com Jahwéh e redescobrir a sua vocação de Povo da Aliança.
A cena descrita pelo texto que nos é proposto contém uma clara alusão à revelação de Deus a Moisés (cf. Ex. 19,16-17; 33,18-23; 34,5-8): assim como Deus Se revelou a Moisés no Sinai/Horeb, assim também Se revela a Elias no mesmo lugar. Dessas revelações resulta, para um e para outro, um compromisso com a Aliança… Depois de receber a revelação de Jahwéh, Moisés torna-se o instrumento através do qual Deus propõe ao Povo uma Aliança; e Elias, depois de receber a revelação de Jahwéh, torna-se o instrumento através do qual Deus relança uma Aliança ameaçada de ruptura, devido à infidelidade do Povo.
Há, no entanto, uma diferença significativa… A Moisés, Deus revelou-Se no meio de fenômenos naturais aterrorizadores (“trovões e relâmpagos”, uma “pesada nuvem”, o “fumo” que envolvia toda a montanha, o “fogo”, o terremoto que fazia a montanha tremer – Ex. 19,16-17). A Elias, Deus não Se revelou nos elementos típicos das manifestações teofânicas (o vento forte que “fendia as montanhas e quebrava os rochedos”, o terremoto, o fogo); mas revelou-Se na “brisa ligeira”. Diante da manifestação de Deus, Elias cumpriu o ritual adequado: “cobriu o rosto com o manto”, já que o homem não pode contemplar face a face o mistério de Deus.
A intenção dos autores deuteronomistas não parece ser polemizar contra a catequese tradicional das manifestações de Deus… Parece ser, antes, distanciar Jahwéh de Baal, considerado na mitologia cananéia o deus do trovão e da tempestade, que fazia a terra tremer com a sua voz poderosa. A intenção fundamental do autor seria mostrar que Jahwéh não Se manifesta em fenômenos assombrosos e espetaculares, mas sim na intimidade, na tranqüilidade, no silêncio que ecoa no coração de quem procura a comunhão com Deus.
O encontro com esse Deus que Se manifesta no silêncio, na intimidade, na simplicidade, na humildade, na interioridade do coração do homem leva à ação (num desenvolvimento que o texto que nos é hoje proposto pela liturgia não apresenta, Jahwéh confia a Elias uma missão profética – cf. 1Re. 19,15-18): o encontro com Deus conduz sempre o homem a um empenho concreto e a um compromisso com o mundo.
Com Elias, Israel é convidado a voltar aos inícios, a redescobrir as suas raízes de Povo de Deus, a reencontrar o rosto de Jahwéh (que é muito diferente dos rostos desses deuses que, todos os dias, seduzem o Povo e o afastam dos seus compromissos), a renovar a sua Aliança com Ele, a escutar a voz de Deus que ecoa no coração de cada membro da comunidade, a aceitar dar testemunho de Deus e dos seus projetos no meio do mundo.
ATUALIZAÇÃO
• Quem é Deus? Como é Deus? É possível provar, sem margem para dúvidas, a existência de Deus? Estas e outras perguntas já as fizemos, certamente, a nós próprios ou a alguém. Todos nós somos pessoas a quem Deus inquieta: há um “qualquer coisa” no coração do homem que o projeta para o transcendente, que o leva a interrogar-se sobre Deus e a tentar descobrir o seu rosto… No entanto, Deus não é evidente. Se confiarmos apenas nos nossos sentidos, Deus não existe: não conseguimos vê-l’O com os nossos olhos, sentir o seu cheiro ou tocá-l’O com as nossas mãos. Mais ainda: nenhum instrumento científico, nenhum microscópio eletrônico, nenhum radar espacial detectou jamais qualquer sinal sensível de Deus. Talvez por isso o soviético Yuri Gagarin, o primeiro homem do espaço, mal pôs os pés na terra apressou-se a afirmar que não tinha encontrado na estratosfera qualquer marca de Deus… O texto que nos é proposto convida todos aqueles que estão interessados em Deus, a descobri-l’O no silêncio, na simplicidade, na intimidade… É preciso calar o ruído excessivo, moderar a atividade desenfreada, encontrar tempo e disponibilidade para consultar o coração, para interrogar a Palavra de Deus, para perceber a sua presença e as suas indicações nos sinais (quase sempre discretos) que Ele deixa na nossa história e na vida do mundo… Tenho consciência de que preciso encontrar tempo para “buscar Deus”? De acordo com a minha experiência de procura, onde é que eu O encontro mais facilmente: na agitação e nos gestos espetaculares, ou no silêncio, na humildade e na simplicidade?
• Hoje como ontem, há outros deuses, outras propostas de felicidade, que nos procuram seduzir e atrair… Há deuses que gritam alto (em todos os canais de televisão?) a sua capacidade de nos oferecer uma felicidade imediata; há deuses que, como um terremoto, fazem tremer as nossas convicções e lançam por terra os valores que consideramos mais sagrados; há deuses que, com a força da tempestade, nos arrastam para atitudes de egoísmo, de prepotência, de injustiça, de comodismo, de ódio… O nosso texto convida-nos a uma peregrinação ao encontro das nossas raízes, dos nossos compromissos batismais… Temos, permanentemente, de partir ao encontro do Deus que fez conosco uma Aliança e que nos chama todos os dias à comunhão com Ele… Aceito percorrer este caminho de conversão? Encontro tempo para redescobrir o Deus da Aliança com quem me comprometi no dia do meu batismo? Quais são os falsos deuses que, às vezes, me afastam da comunhão com o verdadeiro Deus?
• Na história de Elias (e na história de qualquer profeta), a descoberta de Deus leva ao compromisso, à ação, ao testemunho… Depois de encontrar o Deus da Aliança, aceito comprometer-me com Ele? Estou disposto a cumprir a missão que Ele me confia no mundo? Estou disponível para O testemunhar no meio dos meus irmãos?
2ª Leitura – Rm. 9,1-5 - AMBIENTE
Depois de apresentar, nos primeiros oito capítulos da carta aos Romanos, uma catequese sobre a salvação (apesar do pecado que submerge todos os homens e desfia o mundo Deus, na sua bondade, oferece gratuitamente a todos os homens, através de Jesus Cristo, a salvação), Paulo vai referir-se, agora, a um problema particular, mas que o preocupa a ele e a todos os cristãos: que acontecerá a Israel que, apesar de ser o Povo eleito de Deus e o Povo da Promessa, recusou essa salvação que Cristo veio oferecer? Israel ficará, devido a essa recusa, definitivamente à margem da salvação? Na verdade, Deus jurou ao seu Povo, em vários momentos da história, libertá-lo e salvá-lo; ora, se Israel ficar excluído da salvação, podemos dizer que Deus falhou? Podemos continuar a confiar na sua Palavra? É a estas questões que, genericamente, Paulo procura responder nos capítulos 9-11 da carta aos Romanos.
O texto que nos é proposto como segunda leitura deste domingo é a introdução a esta questão.
MENSAGEM
Pelo texto perpassa a grande tristeza e dor que a questão levanta no coração de Paulo. O problema da salvação de Israel incomoda-o tanto que ele até aceitaria tornar-se “anátema” (no Antigo Testamento, o que era “anátema” devia ser totalmente destruído; no Novo Testamento, “anátema” equivale a “maldito” e implicava, quer a exclusão da comunidade do Povo de Deus, quer a maldição divina) e ser separado de Cristo, se isso servisse para que o Povo judeu aceitasse a salvação que Deus lhe oferece. Trata-se de expressões que são para levar a sério? Digamos, apenas, que são afirmações excessivas, mas que dão bem a idéia do sofrimento de Paulo e da sua preocupação com a sorte do seu Povo.
Na verdade, Israel foi adotado por Deus, é o Povo da Aliança, da Lei, do culto, das Promessas, dos antepassados que escutaram Deus e viveram em comunhão com Ele… Israel é, até, o Povo do qual nasceu Cristo; ora, esse Cristo que “está acima de todas as coisas” deixará o seu Povo “segundo a carne” entregue à morte?
A leitura que nos é hoje proposta não vai mais além; mas, no conjunto da sua reflexão sobre esta questão (cf. Rm. 9,1-11,36), Paulo mostrará que Deus é eternamente fiel às suas promessas e que nunca falha… Ele tem os seus planos; e a desobediência atual de Israel deverá fazer parte dos planos de Deus. Paulo acabará, no final da secção, por manifestar a sua convicção de que a misericórdia de Deus se derramará também sobre Israel.
ATUALIZAÇÃO
• Uma das coisas que impressiona, neste texto, é a forma como Paulo sente a infelicidade do seu Povo. A obstinação de Israel em recusar a salvação fá-lo sentir “uma grande tristeza e uma dor contínua” no coração. Todos nós conhecemos irmãos – mesmo batizadas – que recusam a salvação que Deus oferece ou que, pelo menos, vivem numa absoluta indiferença face à vida plena que Deus lhes quer dar. Como nos sentimos diante deles? Ficamos indiferentes e achamos que não é nada conosco? Deixamo-nos contaminar por essa indiferença e escolhemos, como eles, caminhos de egoísmo e de auto-suficiência? Ou sentimos que é nossa responsabilidade continuar a testemunhar diante deles os valores em que acreditamos e que conduzem à vida plena e verdadeira?
• Este texto propõe-nos também uma reflexão sobre as oportunidades perdidas… Israel, apesar de todas as manifestações da bondade e do amor de Deus que conheceu ao longo da sua caminhada pela história, acabou por se instalar numa auto-suficiência que não lhe permitiu acompanhar o ritmo de Deus, nem descobrir os novos desafios que o projeto da salvação de Deus faz, em cada fase, aos homens. O exemplo de Israel faz-nos pensar no nosso compromisso com Deus… Em primeiro lugar, mostra-nos a importância de não nos instalarmos num esquema de vivência medíocre da fé e sugere que o “sim” a Deus do dia do nosso batismo precisa de ser renovado em cada dia da nossa vida… Em segundo lugar, sugere que o cristão não pode instalar-se nas suas certezas e auto-suficiências, mas tem de estar atento aos desafios, sempre renovados, de Deus… Em terceiro lugar, sugere que o ter o nome inscrito no livro de registros da nossa paróquia não é um certificado de garantia de salvação (a salvação passa sempre pela adesão sempre renovada aos dons de Deus).
Evangelho – Mt. 14,22-33 - AMBIENTE
No passado domingo, Jesus foi-nos apresentado como o novo Moisés, que conduz “ao deserto” um povo de coração escravo. Aí, liberta-o da opressão do egoísmo, ao mostrar-lhe que os bens são um dom de Deus, destinados a ser partilhados com todos os homens. Nasce, assim, a comunidade do Reino – isto é, essa comunidade fraterna de amor e de partilha, que se senta à mesa de Deus e que d’Ele recebe vida em abundância (cf. Mt 14,13-21).
O texto do Evangelho que hoje nos é proposto vem na seqüência desse episódio. Mateus começa por observar que, depois desses sucessos, Jesus “obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-l’O na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão” (Mt. 14,22). Esta nota pode indicar que Jesus quis arrefecer o entusiasmo excessivo dos discípulos (o autor do quarto Evangelho, a propósito do mesmo episódio, refere que Jesus Se retirou sozinho para o monte, pois sabia que “viriam arrebatá-l’O para O fazerem rei” – Jo 6,15).
O episódio situa-nos na área do lago de Tiberíades ou da Genesaré, esse lago de água doce com 21 quilômetros de comprimento e 12 de largura situado na Galileia e que é o grande reservatório de água doce da Palestina.
Para os judeus, o mar – e o lago de Tiberíades ou de Genesaré é considerado, para todos os efeitos, um “mar” – era o lugar onde habitavam os monstros, os demônios e todas as forças que se opunham à vida e à felicidade do homem. Na perspectiva da teologia judaica, no mar o homem estava à mercê das forças demoníacas; e só o poder de Deus podia salvá-lo…
Recordemos, ainda, que o nosso texto está incluído numa secção (cf. Mt. 13,1-17,27) do Evangelho segundo Mateus, a que poderíamos chamar “instrução sobre o Reino”. Aí, Mateus põe Jesus a dirigir-Se sobretudo aos discípulos e a instruí-los sobre os valores e os mistérios do Reino. É neste contexto de catequese sobre o Reino que devemos situar o episódio que hoje nos é proposto.
Lembremos, finalmente, que o Evangelho segundo Mateus – escrito durante a década de 80 – se destina a uma comunidade cristã que já esqueceu o seu entusiasmo inicial por Jesus e pelo seu Evangelho e que vive uma fé cômoda, instalada, pouco exigente. Para os crentes, avizinham-se grandes contrariedades e perseguições… A comunidade só poderá subsistir se confiar em Jesus, na sua presença, na sua proteção.
MENSAGEM
Depois de despedir a multidão e de obrigar os discípulos a embarcar para a outra margem, Jesus “subiu a um monte para orar, a sós”. Mateus só se refere à oração de Jesus por duas vezes: aqui e no episódio do Getsêmani (cf. Mt. 26,36): em ambos os casos, a oração precede um momento de prova para os discípulos.
Enquanto Jesus está em diálogo com o Pai, os discípulos estão sozinhos, em viagem pelo lago. Essa viagem, no entanto, não é fácil nem serena… É de noite; o barco é açoitado pelas ondas e navega dificilmente, com vento contrário. Os discípulos estão inquietos e preocupados, pois Jesus não está com eles…
O quadro refere-se, certamente, à situação da comunidade a que Mateus destina o seu Evangelho (e que não será muito diferente da situação de qualquer comunidade cristã, em qualquer tempo e lugar). A “noite” representa as trevas, a escuridão, a confusão, a insegurança em que tantas vezes “navegam” através da história os discípulos de Jesus, sem saberem exatamente que caminhos percorrer nem para onde ir… As “ondas” que açoitam o barco representam a hostilidade do mundo, que bate continuamente contra o barco em que viajam os discípulos… Os “ventos contrários” representam a oposição, a resistência do mundo ao projeto de Jesus – esse projeto que os discípulos testemunham… Quantas vezes, na sua viagem pela história, os discípulos de Jesus se sentem perdidos, sozinhos, abandonados, desanimados, desiludidos, incapazes de enfrentar as tempestades que as forças da morte e da opressão (o “mar”) lançam contra eles…
É aí, precisamente, que Jesus manifesta a sua presença. Ele vai ao encontro dos discípulos “caminhando sobre o mar” (v. 26). No contexto da catequese judaica, só Deus “caminha sobre o mar” (Job. 9,8b; 38,16; Sl. 77,20); só Ele faz “tremer as águas e agitarem-se os abismos” (Sl. 77,17); só Ele acalma as ondas e as tempestades (cf. Sl. 107,25-30). Jesus é, portanto, o Deus que vela pelo seu Povo e que não deixa que as forças da morte (o “mar”) o destruam. A expressão “sou Eu” reproduz a fórmula de identificação com que Deus se apresenta aos homens no Antigo Testamento (cf. Ex. 3,14; Is. 43,3.10-11); e a exortação “tende confiança, não temais” transmite aos discípulos a certeza de que nada têm a temer porque Jesus, o Deus que vence as forças da morte e da opressão acompanha a par e passo a sua caminhada histórica e dá-lhes a força para vencer a adversidade, a solidão e a hostilidade do mundo.
Depois, Mateus narra uma cena exclusiva, que não é apresentada por nenhum outro evangelista: a do diálogo entre Pedro e Jesus (vs. 28-33). Tudo começa com o pedido de Pedro: “se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas”. Pedro sai do barco e vai, de fato, ao encontro de Jesus; mas, assustando-se com a violência do vento, começa a afundar-se e pede a Jesus que o salve. Assim acontece, embora Jesus censure a sua pouca fé e as suas dúvidas.
Pedro é, aqui, o porta-voz e o representante dessa comunidade dos discípulos que vai no barco (a Igreja). O episódio reflete a fragilidade da fé dos discípulos, sempre que têm de enfrentar as forças da opressão, do egoísmo, da injustiça. Jesus comunicou aos seus o poder de vencerem todos os poderes deste mundo que se opõem à vida, à libertação, à realização, à felicidade dos homens. No entanto, enquanto enfrentam as ondas do mundo hostil e os ventos soprados pelas forças da morte, os discípulos debatem-se entre a confiança em Jesus e o medo. Mateus refere-se, desta forma, à experiência de muitos discípulos (da sua comunidade e das comunidades cristãs de todos os tempos e lugares) que seguem a Jesus de forma decidida, mas que se deixam abalar quando chegam as perseguições, os sofrimentos, as dificuldades… Então, começam a afundar-se e a ser submergidos pelo “mar” da morte, da frustração, do desânimo, da desilusão… No entanto, Jesus lá está para lhes estender a mão e para os sustentar.
Finalmente, a desconfiança dos discípulos transforma-se em fé firme: “Tu és verdadeiramente o Filho de Deus” (v. 33). É para aqui que converge todo o relato. Esta confissão reflete a fé dos verdadeiros discípulos, que vêem em Jesus o Deus que vence o “mar”, o Senhor da vida e da história que acompanha a caminhada dos seus, que lhes dá a força para vencer as forças da opressão e da morte, que lhes estende a mão quando eles estão desanimados e com medo e que não os deixa afundar.
Quando é que os discípulos fizeram a descoberta de que Jesus era o Deus vencedor do pecado e da morte? Naturalmente, após a Páscoa, quando perceberam plenamente o mistério de Jesus (perceberam que Ele não era “um fantasma”), sentiram a sua presença no meio da comunidade reunida, experimentaram a sua ajuda nos momentos difíceis da caminhada, sentiram que Ele lhes transmitia a força de enfrentar as adversidades e a hostilidade do mundo, sentiram que Ele estava lá, estendendo-lhes a mão, nos momentos de fraqueza, de dificuldade, de falta de fé. É esta mesma experiência que Mateus nos convida também a fazer.
ATUALIZAÇÃO
• O Evangelho deste domingo é, antes de mais, uma catequese sobre a caminhada histórica da comunidade de Jesus, enviada à “outra margem”, a convidar todos os homens para o banquete do Reino e a oferecer-lhes o alimento com que Deus mata a fome de vida e de felicidade dos seus filhos. Estamos dispostos a embarcar na aventura de propor a todos os homens o banquete do Reino? Temos consciência de que nos foi confiada a missão de saciar a fome do mundo? Aqueles que são deixados à margem dessa mesa onde se jogam os interesses e os destinos do mundo, que têm fome e sede de vida, de amor, de esperança, encontram em nós uma proposta credível e coerente que aponta no sentido de uma realidade de plenitude, de realização, de vida plena?
• A caminhada histórica dos discípulos e o seu testemunho do banquete do Reino não é um caminho fácil, feito no meio de aclamações das multidões e dos aplausos unânimes dos homens. A comunidade (o “barco”) dos discípulos tem de abrir caminho através de um mar de dificuldades, continuamente batido pela hostilidade dos adversários do Reino e pela recusa do mundo em acolher os projetos de Jesus. Todos os dias o mundo nos mostra – com um sorriso irônico – que os valores em que acreditamos e que procuramos testemunhar estão ultrapassados. Todos os dias o mundo insiste em provar-nos – às vezes com agressividade, outras vezes com comiseração – que só seremos competitivos e vencedores quando usarmos as armas da arrogância, do poder, do orgulho, da prepotência, da ganância… Como nos colocamos face a isto? É possível desempenharmos o nosso papel no mundo, com rigor e competência, sem perdermos as nossas referências cristãs e sem trairmos o Reino?
• Para que seja possível viver de forma coerente e corajosa na dinâmica do Reino, os discípulos têm de estar conscientes da presença de Jesus, o Senhor da vida e da história, que as forças do mal nunca conseguirão vencer nem domesticar. Ele diz aos discípulos, tantas vezes desanimados e assustados face às dificuldades e às perseguições: “tende confiança. Sou Eu. Não temais”. Os discípulos sabem, assim, que não há qualquer razão para se deixarem afundar no desespero e na desilusão. Mesmo quando a sua fé vacila, eles sabem que a mão de Jesus está lá, estendida, para que eles não sejam submergidos pelas forças do egoísmo, da injustiça, da morte. Nada nem ninguém poderá roubar a vida àqueles que lutam para instaurar o Reino. Jesus, vivo e ressuscitado, não deixa nunca que sejamos vencidos.
• A oração de Jesus (que em Mateus antecede os momentos de prova) convida-nos a manter um diálogo íntimo com o Pai. É nesse diálogo que os discípulos colherão o discernimento para perceberem os caminhos de Deus, a força para seguir Jesus, a coragem para enfrentar a hostilidade do mundo.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho


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