22º DOMINGO DO TEMPO COMUM
3 de Setembro de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt
16,21-27
Jesus estava consciente da sua missão na Terra, e
avisou aos seus amigos que deveria ir a Jerusalém e lá sofrer nas mãos das
autoridades, ser morto, mas no terceiro dia Ele voltaria à vida. Continuar lendo
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“SE ALGUÉM QUER ME SEGUIR, RENUNCIE A SI MESMO, TOME A SUA CRUZ E
ME SIGA.”- Olivia Coutinho.
22º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 03 de Setembro de 2017
Evangelho de Mt16,21-27
Estamos no início do Mês da Bíblia; tempo em que a Igreja nos
convida a abrirmos mais vezes, este livro sagrado, a fim de que possamos nos
aprofundar mais na palavra de Deus, palavra que orienta, que liberta, que
aponta caminhos!
Numa comunidade cristã, que alimenta a sua intimidade com a Bíblia,
sempre haverá inovação, avanços significativos, tanto na catequese, quanto na
liturgia, como também, no cotidiano das pessoas, pois através da leitura
profunda da Bíblia, todos vão se inteirando do querer de Deus, se colocando a
seu dispor.
Cada dia é uma oportunidade que Deus nos concede, para que
possamos, através do conhecimento da palavra de Deus, rever a nossa vida, nos
reorganizar interiormente, esvaziando do nosso “eu” para dar espaço ao que é de
Deus! É assim, que vamos assentando os nossos passos, nos passos de Jesus,
deixando-nos orientar pelos os seus ensinamentos.
No evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, vemos
que os discípulos, mesmo convivendo diretamente com Jesus, tiveram muitas dificuldades
em entender o seu messianismo. Na mente deles, Jesus não deveria aceitar
um desfecho tão trágico para a sua vida. A revelação da sua morte
de cruz soou para eles, como um fracasso.
Pedro, ao querer eliminar a cruz do caminho de Jesus, pouco depois
de professar a sua fé, (Mt16,16) reconhecendo- o como o Filho do
Deus vivo, demonstrou, ainda não estar totalmente preparado para assumir
o seu legado, dando a entender, que ele ainda carregava consigo a
mentalidade do mundo, alimentando dentro de si, a ideia de um Messias glorioso,
porém, sem a cruz!
Jesus, conhecedor das fraquezas humanas, percebe de imediato
a dificuldade dos discípulos, em aceitar o desafio da cruz, e
repreende Pedro severamente:” Vai para longe Satanás! Tu és para mim uma
pedra de tropeço, porque não pensa as coisas de Deus, mas sim as coisas dos
homens.”
Pedro, ao tentar impedir que Jesus passasse pela a cruz,
inconscientemente, quis intervir nos planos de Deus, numa postura semelhante a
do diabo, quando tentou Jesus. (Mt4:8-10) Ao imaginar, um Jesus glorioso,
sem a cruz, Pedro, na sua fraqueza humana, não se deu conta, de que Jesus era
totalmente obediente ao Pai, e que nada o faria desistir da missão. Como
Filho obediente ao Pai, era seu propósito, concluir a missão que lhe confiada,
uma missão, que teria como consequência, a cruz.
Os discípulos, embora convivendo dia a dia com Jesus, tiveram
muitas dificuldades em aceitar o desafio da cruz, eles só foram compreender o
sentido da cruz, depois da ressurreição de Jesus! Foi a partir da sua
ressurreição, que eles abraçaram a cruz, fazendo o mesmo caminho de
Jesus, dando a vida pela causa do Reino.
Se hoje, estamos aqui, buscando um entendimento melhor dos
ensinamentos de Jesus, é graças ao testemunho destes primeiros seguidores de
Jesus, homens frágeis como nós, que caindo e levantando, foram crescendo na fé,
nos deixando como herança, a mais bela certeza: Jesus é a nossa única opção de
vida!
Quem está disposto a seguir Jesus, não deve iludir com facilidades,
pois o seguimento a Ele é exigente, implica em mudanças radical no seu modo de
viver, exige muito mais do que boa vontade, do que entusiasmo exige
compromisso, fidelidade, disposição de deixar muitas coisas para trás, exige
consciência do rumo a ser tomado, despojamento de si mesmo e de assumir a cruz
de cada dia!
O seguimento a Jesus inclui à cruz, porque a nossa adesão a
Ele, nos leva a atitudes que contrariam os opositores do projeto de Deus.
Reflitamos: Se Jesus não tivesse passado pela a cruz, os seus
ensinamentos seriam em vão, Ele não passaria de mais um pregador, que passou
por este chão.
Foi pela cruz, que Jesus nos possibilitou uma vida que não
passa!
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook
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O sentido da cruz e do sofrimento
Na modernidade, o
discurso do sofrimento não atrai ninguém. Tomar a cruz e seguir Jesus é
tornar-se um inconformado com as injustiças sociais. Vejamos como as leituras
de hoje, no dia da vocação do leigo, podem nos iluminar em uma nova trajetória
de fé.
1ª leitura (Jr. 20,7-9)
O sofrimento advindo da sedução sagrada
“Tu me seduziste, Senhor,
e eu me deixei seduzir.” Essas palavras de rara beleza poética fazem parte do
colossal testemunho de fé, da confissão do profeta sofredor, Jeremias. Homem de
profunda piedade, ele era sensível ao sofrimento e à crise. Optou por não se
casar para dedicar-se ao profetismo, entre os anos 626 e 587 a.C. Jeremias
atuou na cidade de Jerusalém. Segundo os apócrifos Vida dos profetas 2,1-6, ele
era de Anatot e morreu em Táfnis, no Egito (Jr. 43,7s), apedrejado por seu povo
(cf. Faria, 2006, p. 63). Jeremias passou grande parte de sua ação profética
denunciando tribunais injustos, sacerdotes que usam a religião em proveito
próprio, escravidão etc. Como diz a leitura de hoje, suas palavras eram somente
“violência e opressão” (v. 8). Ele também tinha clareza de que o sofrimento de
seus compatriotas no exílio na Babilônia era algo justo. Deus os castigava por
causa de seus inúmeros pecados. Imagine quanta incompreensão vivera Jeremias. A
leitura de hoje nos mostra a sua grande decepção. Ele acusa Deus de seduzi-lo no
serviço profético. E diz com todas as letras: “estou cansado de suportar, não
posso mais” (v. 9). Jeremias sabe que Deus mudara a sua vida. Quis casar e não
o fez por causa da missão. Ele reclama e protesta contra Deus, como se este
fosse responsável pela sua desgraça, pois ninguém queria ouvi-lo e até zombavam
dele. No mais profundo sofrimento, Jeremias diz: “Maldito o dia em que eu
nasci” (Jr 20,14); “Ai de mim, de minha mãe, porque tu me geraste” (Jr 15,10).
O sofrimento do profeta interioriza as suas relações com Deus, que se torna seu
íntimo. A sedução divina tomou conta de Jeremias. O seu sofrimento foi
salvador, mesmo que ele o tenha proposto para o seu povo e o vivido na pele.
Não que o tenha querido. Ele veio como consequência de sua ação profética.
Evangelho (Mt. 16,21-27)
Tomar a cruz e seguir Jesus
Após Jesus demonstrar
aos discípulos que deveria ir a Jerusalém para sofrer, morrer e
ressuscitar, Pedro toma a palavra e pede a Deus que não permita que isso
aconteça. Ao que Jesus lhe chama de pedra de tropeço. Quem era Pedro para
impedir a realização do projeto de Deus? Ele só podia ser um satanás na vida de
Jesus. A palavra “satanás” naquele contexto significava adversário. Pedro é a
pedra em que Jesus não queria tropeçar na sua marcha, de bem-aventurado rumo à
realização de sua missão até as últimas consequências. Não é que o poeta também
tinha razão: “havia uma pedra no meio do caminho”... de modo que Pedro, tendo
recebido as chaves do Reino dos Céus, não está isento das fragilidades humanas
e das dificuldades de se pôr em sintonia com o projeto de Deus. Deve ter
cuidado para manter bem a caminhada para o Reino e não servir de pedra de
tropeço.
Em seguida, Jesus
convoca seus discípulos a tomar, cada um, a sua cruz, segui-lo, negar a si
mesmo e perder a vida por causa dele. Ao longo de séculos, certas
interpretações dessa passagem bíblica deram rumo à vida de muitos cristãos.
Martírio, sofrimento, flagelação do corpo e tantos outros exemplos, às vezes
buscados por vontade própria, poderão ilustrar o corolário de ações de cristãos
para encontrar a salvação.
A cruz era um dos
instrumentos usados pelos romanos para matar escravos e condenados por rebeldia
pelo império, os quais, nus, agonizavam na cruz. Morrer crucificado era o
“suplício mais cruel e terrível”, segundo o historiador da Antiguidade Flávio
Josefo. E, o que é pior, antes de ser crucificado, o condenado podia ser
torturado e até mesmo crucificado de cabeça para baixo ou empalado no poste da
cruz, de forma obscena. Os judeus sabiam muito bem o que era a crucifixão, pois
muitos deles morreram assim. O judeu seguidor de Jesus, com certeza, foi tomado
de espanto com essa proposta de seu mestre: tomar a cruz, de livre e espontânea
vontade, e segui-lo, sabendo que iria morrer de forma cruel. A lembrança desse
ensinamento motivou muitos cristãos a aceitar o martírio como caminho de
testemunho da ressurreição de Jesus e consequente salvação no reino
escatológico. Com o fim do martírio naquele contexto, quando o império romano
acabou aderindo ao cristianismo como religião do Estado, viu-se fortalecida a
teologia do sofrimento pessoal, que acabou em resignação. Essa visão ainda
perdura em nossos dias.
Jesus, ao repassar
tal ensinamento, estaria aludindo à consequência lógica da adesão ao reino de
justiça que ele pregava. Quem se punha contra o império acabaria na cruz. Não
havia outro caminho que não fosse o de perder a própria vida. Ele não propôs
sofrimento pelo sofrimento. Isso é masoquismo! Masoquismo e resignação, sofrer
calado, não têm espaços no reino.
2ª leitura (Rm. 12,1-2)
Tomar a cruz é tornar-se presença visível de Jesus e não se
conformar com o mundo
Nessa pequena leitura
de hoje, Paulo segue o pensamento das leituras anteriores. O cristão é
convidado por ele a oferecer o seu corpo como hóstia viva, santa e agradável a
Deus, como culto espiritual. Para além dos sacrifícios ritualistas judaicos, a
comunidade cristã torna-se uma presença visível de Jesus ressuscitado. Ademais,
o cristão não deve se conformar com este mundo, mas transformá-lo. Tomar a cruz
e seguir Jesus, como atestou o evangelho de hoje, tem aqui a conotação de não
se deixar iludir pelo poder, pela pompa, pelo dinheiro e seus esquemas
injustos, mas solidarizar-se com os pobres e lutar contra a exclusão. Nada de
sofrimento pelo sofrimento.
Pistas para reflexão
1. Celebrando, neste
domingo de agosto, a vocação do leigo, do catequista, na comunidade, reforçar o
papel do leigo no serviço à comunidade de fé mediante seu testemunho na
transmissão da fé e na participação na vida da comunidade.
2. Refletir sofre a
mentalidade ainda reinante entre os cristãos segundo a qual tomar a cruz e
seguir Jesus é sinônimo de sofrimento pelo sofrimento e resignação.
3. Demonstrar que
tomar a cruz de Jesus é tornar-se um profeta que não se acomoda diante das
injustiças.
frei Jacir de Freitas Faria, ofm
Seduzidos pelo Senhor
Os poucos versículos
do livro de Jeremias lidos na liturgia deste domingo são ardorosos. Sim, a
palavra é esta mesma. Há fogo nessas linhas e nessa fala. “Seduziste-me,
Senhor e deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder”.
Jeremias se dá conta da presença e da ação do Senhor em sua vida querendo que
ele seja seu porta-voz.
Vendo as dificuldades
o profeta desanima, mas o Senhor não desiste.
Jeremias fala de uma
verdadeira sedução. O profeta se sente desencorajado. Como que meio
envergonhado, meio perdido no meio da oposição que lhe é feita Jeremias
escreve: “Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele”. Os
profetas de ontem e de hoje sabem que nem sempre é cômodo dizer o que lhes pede
o Senhor. As pessoas não querem mudar. Acostumam-se com a vidinha de
todos os dias, talvez não tão pecaminosa, mas medíocre, ritualista, vazia. Não
querem mudar. Há também os grandes prejudicadores do povo que ontem como hoje
eliminam os profetas. Jeremias desabafa: Não quer mais falarem nome dele.
Quer fugir. No momento em que fala de seu desalento faz uma outra
experiência: “Senti então dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o
corpo todo: desfaleci sem forças para suportar”. Que fogo é esse? De onde
este ardor? Trata-se de uma fortíssima experiência da proximidade
de Deus. O Senhor, quando encontra sinceridade de vida, quando as portas
da intimidade, mesmo com receios e medos se abre ele passa a tomar conta da pessoa.
“Seduziste-me, Senhor, e eu deixei-me seduzir”. Paulo, na epístola
proclamada hoje, pede que seus leitores busquem viver com mais intensidade a
busca da vontade de Deus. “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos,
renovando vossa maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é
da vontade de Deus...”. Essa é a preocupação dos discípulos: saber qual a
vontade de Deus no casamento, na família, na hora de escolher os
políticos, no encontro com o sofrimento. Paulo fala que será
preciso saber o que é bom, o que agrada o Senhor e o que é
perfeito.
Felizes aqueles
cristãos que vivem realmente no seguimento do Mestre. Jesus nos adverte a
respeito de alguns aspectos de seu seguimento. Os que desejam seguir o
Senhor não poderão ter sua agenda intocável. Haverá momentos em que
será preciso renunciar aos interesses pequenos: esquecer o ego e dar o perdão,
não desesperar no momento do desemprego, acolher as doenças e o negativo da
vida. Os que pensam salvar sua vida realizando tudo o que lhes apetece
fazer talvez estejam perdendo a vida. “De que adianta o homem salvar o
mundo inteiro se vier a perder a própria alma?”
Jeremias foi seduzido
pelo Senhor. Paulo lembra a necessidade de transformar a mente e o coração.
Jesus leva os seus queridos a fazerem com ele a experiência da cruz que
liberta.
frei Almir Ribeiro Guimarães
O seguimento de
Jesus
Hoje em dia, há muitos que bancam o
profeta. Mas ser profeta não é fácil, e tampouco seguir um profeta. Jeremias
descreve sua vida de profeta como uma sedução (1ª leitura). “Entrei numa fria”,
dir-se-ia hoje. Desde o começo, foi um tanto recalcitrante (Jr. 1,6). Até quis
fazer greve (Jr. 20,9), mas a voz de Deus era como um fogo ardente no seu
peito. Não conseguia reprimi-la... Tal é a sorte do profeta. Quando ele tem uma
mensagem desagradável e sempre de novo deve ferir os ouvidos, Deus não o deixa
em paz.
Também Jesus sabia que este era seu
caminho (evangelho). Sabia que sua visão de Deus e do mundo não concordava com
aquilo que o povo, sobretudo os chefes esperavam. Pois é grande a diferença
entre uma religião que serve para comprar o céu e uma fé que incansavelmente
procura a vontade de Deus (seu incansável amor)! Quem não se quer converter da
falsa segurança não pode tolerar a presença do incômodo profeta de Nazaré.
Simão Pedro, o mesmo que, pouco antes,
proclamara a fé em Jesus como Messias e, por isso, se tornou o responsável dos
seus irmãos, ainda não entendia a sorte do profeta. Pensava ainda em termos de
sucesso, não em termos de cruz. Afinal, é agradável termos igrejas cheias,
obras funcionando bem, entrevistas na TV etc. Mas quem acha isso mais
importante do que a fidelidade à Palavra de Deus - mensagem amarga, que deve
ser proclamada até o fim - não é digno de Jesus Cristo. É um adversário dele (o
que, em hebraico, se chama “Satanás”). Para seguir Jesus, é preciso sentir o
que Deus sente e não o que os homens acham...
Então Jesus fala do seguimento. Seguir
a Jesus é renunciar a si mesmo, isto é, aos próprios conceitos feitos e acabados.
É assumir sua cruz, a condenação humana, a degradação total... Diante da
exigência da missão profética, querer salvar-se é perder-se (deixar de se
realizar na missão de Deus). E perder-se (aos olhos dos homens) é realizar-se
como enviado, como “filho” de Deus. A fidelidade à mensagem de Deus nos situa
diante de uma escolha: garantir o sucesso humano (ganhar o mundo todo) ou
ganhar “sua alma”, isto é, o cerne interior da existência. Devemos escolher
entre uma realização superficial e a realização radical de nossa vida. Ora, que
podemos dar em troca dessa realização radical, aquela que será sancionada pelo
próprio Jesus, a partir de sua glória, na base daquilo que tivermos praticado?
(*)
Há quem entenda a predição da Paixão de
Jesus (evangelho) como sinal de que ele sofreu por querê-lo e o quis porque
tinha que “pagar com seu sangue” em nosso lugar. Tal conceito é simplório.
Certamente, Jesus sofreu porque o quis; porém, não porque gostava de sofrer
(não era doente), mas porque a fidelidade à palavra do Pai o levou a isso. Se
os homens se tivessem convertido à sua palavra, ele não teria sofrido (cf. Mt.
26,39-42 e par.)! Mas ele teve que enfrentar até o fim o orgulho congênito do
ser humano.
A 2ª leitura, início das exortações
finais de Rm. (muito ricas, por sinal), recebe uma luz particular do evangelho
de hoje: oferecer-se como hóstia viva a Deus não é desprezar-se, mas é “culto
razoável”, cultivo coerente e conseqüente da vontade de Deus: sermos plenamente
seus: seu povo, seus filhos, seus profetas, não conformando-nos a este mundo,
mas procurando conformidade com a vontade de Deus. É uma bela exortação para
encenar a liturgia de hoje. Chamamos ainda atenção para a mensagem das orações:
Deus alimenta com seu amor (sacramentado na Eucaristia) o que é bom em nós,
nossa doação, nosso amor (oração do dia, oração final).
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
(*) Este evangelho
não apregoa o desprezo da vida (corporal) em favor de um espiritualismo mórbido
(“salvar a alma”). Alma, na linguagem bíblica, é sinônimo de vida total.
Designa o princípio e o cerne da vida. Salvar sua alma é realizar sua vida, e
realizá-la autenticamente. Ora, quem descobre a visão de Deus sobre a realidade
(a estrutura sócio-econômica, a estrutura religiosa, o abuso ecológico, o esbanjamento
dos bens vitais, o cinismo da guerra, a usurpação dos direitos humanos, a
ludibriação da verdade - tudo o que está em desacordo com Deus) fica assombrado
pela mensagem de Deus; só consegue “desfazer-se” dela proclamando-a.., e
correndo o risco da rejeição. A não ser que sufoque sua própria alma no
suicídio espiritual.
padre Johan Konings
OUTRA
1ª leitura (Jr. 20,7-9) - O profeta
“seduzido” por Deus para um trabalho ingrato
Já desde o início, Jeremias não gostou
da vocação profética (cf. 1,6). Seu temperamento sensível não era o de um
lutador contra os abusos religiosos e sociais de seu tempo e, sobretudo, não
servia para proclamar as catástrofes que viriam sobre Judá. Aliás, a catástrofe
se fazia esperar, o escárnio e a perseguição do profeta, porém, não! Assim, o
profeta chega a amaldiçoar sua própria existência (cf. 15,10-21). Mas, sempre
de novo, sua revolta o reconduz a seu Senhor.
* Cf. Jr. 1,4-10; 17,14-18; 23,29; Am.
3,8; 1Cor. 9,16.
2ª leitura (Rm. 12,1-2) O verdadeiro
culto a Deus
“Diante da misericórdia de Deus”
(12,1), descrita em Rm. 1–11 (a salvação pela graça de Deus e a fé do homem),
Paulo propõe uma prática de vida que é “culto adequado” a Deus (recomendações
morais, Rm. 12–14). Pode-se comparar a vida com um sacrifício, transformado
pela santificação; assim também a vida do cristão já não é como a do mundo. O
cristão é crítico em relação ao mundo: assume o que é valioso e rejeita o que
não o é. Assim, ele encarna a ação salvífica de Cristo no mundo. * 12,1 cf. Rm.
1,9; 15,16; 1Pd. 2,5 * 12,2 cf. Rm. 8,5; Ef. 4,22-24; 5,10.17; Fl. 1,9-10.
Evangelho (Mt. 16,21-27) - O seguimento
de Jesus: assumir sua cruz
Com a profissão de fé messiânica
relacionam-se, nos três evangelhos sinóticos, a predição da Paixão e o tema do
seguimento de Jesus no sofrimento. Pedro mostra-se, outra vez, porta-voz, mas,
desta vez, da incompreensão diante do mistério. Que o Messias e sua Igreja
devem sofrer é um ensinamento que sempre de novo terá que ser repetido e
aprofundado.
* Cf. Mc. 8,31-38; Lc. 9,22-26 *
16,21-23 cf. Mt. 17,22-23; 20,17-19; Lc. 9,44; 18,31-33; 24,7.44-46 * 16,24-26
cf. Lc. 14,27; 17,33; Jo 12,25-26 * 16,27 cf. Mt. 25,31; 2Ts. 1,7.
Tomar a cruz e
seguir Jesus
“É proibido proibir”. Hoje em dia
existe nada pode restringir o prazer e o poder. Privar-se de algum prazer é
contrário ao que ensinam os grandes doutrinadores da sociedade – a publicidade,
a televisão... “Chega de cristianismo triste! Para que sempre falar em cruz e
sacrifício?”
No domingo passado vimos que Pedro, com
entusiasmo, proclamou a fé em Jesus Messias. No evangelho de hoje, Jesus começa
a ensinar que “o Filho do Homem” vai sofrer e morrer. Ao ouvir essas palavras,
Pedro fica indignado. Mas Jesus o repreende, porque pensa segundo categorias
humanas e não segundo o projeto de Deus. Ensina-lhe que, para segui-lo, é
preciso assumir a cruz. Séculos antes, Jeremias já experimentara a estranha
lógica de Deus. Ele disse abertamente que Deus o “seduziu” para a tarefa
ingrata de ser profeta (1ª leitura).
Os critérios humanos se opõem ao modo
de proceder de Deus. O homem envereda pelo sucesso e pela eficiência, Deus pelo
dom da própria vida. O caminho de Jesus e de seus seguidores é convencer o
mundo do amor de Deus.
Deus não deseja “sacrificar pessoas”
(como é praxe em estratégias militares e políticas). Apenas deseja que sejam
testemunhas de seu projeto. Mas os que não concordam com este projeto matam os
profetas, os enviados de Deus, quando estes querem ser fiéis à sua missão.
Exemplos disto não faltam em nosso mundo. Por isso, quando Pedro protesta
contra a ideia da morte de Jesus, este o vê do lado do grande “adversário”,
Satanás: “Vai para trás de mim, Satanás, tu és uma pedra de tropeço para mim”.
Pedro deve ir atrás de Jesus, em vez de seduzi-lo para um caminho que não
condiz com o projeto de Deus (Satanás significa sedutor). Pedro pensava num
Messias de sucesso, Jesus pensa no Servo Sofredor de Deus, que liberta o mundo
por sua dedicação até a morte.
A lição que Pedro recebe ensina-nos a
olhar para Cristo, para ver nele a lógica de Deus; a olhar para os pobres, para
ver neles o resultado da estratégia do Adversário... Pois o sucesso e a
ganância produzem os porões de miséria.
Devemos analisar o sistema de Deus e o
sistema do Adversário hoje. O sistema de Deus proíbe ao homem dominar seu
irmão, porque Deus é o único “dono”; os sistemas contrários são baseados na
dominação do homem pelo homem. Quem quiser ser mensageiro do reino de Deus
experimentará na pele a incompatibilidade com os sistemas deste mundo (2ª
leitura). O mensageiro de Deus, seguidor de Jesus, será rejeitado pela
sociedade como “corpo alheio”. Tomando consciência disso, vamos rever nossa
escala de valores e critérios de decisão. A mania do sucesso, o prazer de
dominar, de aparecer, de mandar... já não valem. Vale agora o amor fiel, que
assume a cruz, até o fim.
padre Johan Konings
confissão de fé de Pedro, Jesus começa a
prepará-los para viverem a difícil passagem de sua paixão e morte, revelando o
que vai acontecer quando retornarem a Jerusalém, capital dos judeus, onde se
concentra o poder econômico, político, social e religioso.
Os apóstolos não entendem bem essa linguagem, e
Pedro que a pouco acabara de professar sua fé, devido ao grande sentimento de
carinho por Jesus, não aceita as consequências que estão por vir, e deseja que
Jesus seja feito à imagem e semelhança de seus caprichos procurando afastá-lo
do caminho da cruz, sem compreender o que ela representa para toda a
humanidade.
A atitude de Jesus com Pedro mostra que Ele não é
como a humanidade quer, ao contrário, quer que a humanidade seja como ele é.
Por isso, repreende a Pedro com severidade, porque ele não raciocina na lógica
de Deus, mas é levado por opiniões e interesses humanos. Jesus, dirigindo-se a
todos os seus discípulos, ensina as exigências para quem quer segui-Lo:
negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz, perder a própria vida para encontrá-la
em plenitude.
Os primeiros cristãos utilizavam muito a expressão
“tomar a cruz” para mostrar a sua união com Jesus em sua morte e ressurreição.
Deram, portanto, a essa expressão um sentido pleno, relacionando-a ao mistério
da Páscoa de Jesus.
O anúncio da cruz, da mortificação e do sacrifício
como um bem, é difícil de ser compreendido pela lógica humana. A fé,
entretanto, permite ver que o caminho da santidade passa pela cruz e todo o
apostolado deve se fundamentar nela.
Muitos pensam que os critérios para seguir a Cristo
são flexíveis, mas nesse evangelho Jesus deixa bem claro que segui-Lo exige
adesão pessoal que implica em renúncia, aceitação e compromisso. À semelhança
de Jesus, a orientação fundamental do cristão é encontrar vida na doação da
própria vida em prol dos irmãos.
Pequeninos do Senhor
Jesus vinha exercendo seu ministério na
Galiléia, onde se misturavam gentios e colônias judaicas, e nas regiões
gentílicas vizinhas. Agora, tendo chegado bem ao norte, em Cesaréia de Filipe,
como que dando por encerrado seu ministério nestas regiões, Jesus toma a
decisão de voltar ao sul e, atravessando a Galiléia, seguir o caminho de
Jerusalém. Nesta nova etapa de seu ministério, Jesus decide fazer seu anúncio
libertador e vivificante diretamente entre as multidões de fieis do judaísmo
que acorriam a Jerusalém, para atenderem ao preceito religioso de cumprir o
dever de celebrar a Páscoa. Esta era a principal festa religiosa da tradição de
Israel, e era a ocasião de todos os fieis, particularmente os que moravam em
regiões mais distantes, trouxessem suas ofertas e dízimos anuais ao Templo.
Jesus tinha consciência de que os chefes das sinagogas e do Templo de Jerusalém
tinham a intenção de, em algum momento oportuno, matá-lo. A pregação e a
prática libertadora de Jesus suscitara o ódio destes chefes, que tinham
garantidos sua autoridade e seu poder a partir da Lei opressora, elaborada ao
longo da tradição de Israel. Agora, a ida a Jerusalém poderia ser fatal.
Contudo Jesus não renuncia ao propósito de anunciar ao mundo, sem restrições, o
projeto de Pai, de libertar o mundo de toda opressão e promover a vida plena
para todos. Jesus, então, fala aos discípulos sobre as provações que o aguardam
em Jerusalém. Ë o chamado "anúncio da Paixão". Este
"anúncio" pode ter dois sentidos. Na perspectiva messiânica é o
sofrimento necessário redentor, de acordo com a tradição do Primeiro
Testamento. Porém pode significar a comum prática repressora dos poderosos
deste mundo que não toleram e procuram destruir todo aquele que promove a
libertação do povo oprimido, tal como foi Jesus em toda sua vida. Mateus, em
seu evangelho, faz um contraste. Pedro, ao identificar Jesus com o Cristo,
tinha uma revelação de Deus, era proclamado como pedra da Igreja, a as portas
do inferno não prevaleceriam sobre ela. Agora, ao rejeitar o confronto de Jesus
em Jerusalém, não tem a compreensão das coisas de Deus, é pedra de tropeço, e
satanás. Jesus convida os discípulos a consagrarem sua vida à causa da justiça
e da vida. Seduzidos pelo chamado de Jesus (1ª leitura), empenham-se em renovar
as estruturas deste mundo conformando-o a tudo que é bom, justo, e agradável a
Deus (2ª leitura).
padre Jaldemir
Vitório
Sem vencer o medo da morte não será possível ser livre para seguir o
Senhor
O profeta Jeremias
viveu no período que, para Israel, foi como um buraco negro: o exílio na
Babilônia, no século VI a.C. É por ocasião desse acontecimento terrível que
Jeremias é chamado por Deus para ser “profeta das nações”. Jeremias resistiu o
quanto pôde a responder afirmativamente ao chamado do Senhor. Cedendo à vontade
de Deus, foi fiel até o fim. Sua missão fundamental foi a de denunciar a
idolatria e a infidelidade dos dirigentes do povo, e o mal das nações
estrangeiras. Em razão de sua fidelidade a Deus, ele foi perseguido e sua vida
ameaçada pelos membros do próprio povo eleito de Deus. O texto de hoje, dito
autobiográfico, retrata, por um lado, a angústia da perseguição e do abandono,
mas, de outro, a experiência do cuidado e proteção de Deus. A presença de Deus
na vida de Jeremias era como um fogo que queimava dentro do peito e não o
deixava desistir da missão recebida de Deus.
O evangelho de hoje é
a sequência da profissão de fé de Pedro. O anúncio da paixão, morte e
ressurreição de Jesus é uma prolepse que tem por finalidade esclarecer os
discípulos acerca do messianismo vivido por Jesus. A reação de Pedro revela o
seu desapontamento: Jesus não é exatamente o Messias que ele pensava ter
encontrado. A atitude de Pedro de dissuadir Jesus de prosseguir o seu caminho
não é preocupação com Jesus. Além da ideia distorcida do Messias, é preocupação
com a sua própria sorte. O Messias que Pedro segue não se exime do sofrimento.
A palavra de Jesus a Pedro é dura, semelhante à usada contra a sugestão de satanás,
quando das tentações no deserto (cf. Mt. 4,1-11). Desejar sofrer é insanidade,
mas quando o sofrimento é consequência da adesão a Deus, ele deve ser vivido na
confiança, pois o Senhor permanece fiel, mesmo quando lhe somos infiéis. Seguir
Jesus impõe superar, pela mesma graça de Cristo que se entregou pela
humanidade, o medo da morte. Sem vencer o medo da morte não será possível ser
livre para seguir o Senhor.
Carlos Alberto Contieri,sj
O seguimento de Jesus significa renunciar aos projetos pessoais
A introdução, "A
partir de então", relaciona-se com a estada de Jesus com seus discípulos
na região gentílica de Cesaréia de Filipe, ao norte da Galiléia e à profissão
de fé de Pedro. Eles vão iniciar a viagem em direção ao sul com destino a Jerusalém.
Na Galiléia os escribas e os fariseus das sinagogas de Cafarnaum e de mais
algumas cidades entraram em conflito com Jesus e até já desejavam sua morte.
Indo a Jerusalém, a sede do poder religioso do judaísmo, Jesus pressente o
desfecho violento. É o momento de advertir os discípulos sobre o que os espera
lá. Os discípulos não contavam com o arriscar a vida, pois esperavam que Jesus
assumisse o papel de um messias poderoso que lhes conferiria uma boa e
vantajosa posição no sistema. Já se sabia que os líderes religiosos, fariseus,
herodianos, sacerdotes, estavam articulando a morte de Jesus. A novidade,
agora, é a iminência da morte em Jerusalém, para onde Jesus caminha. Pedro
havia professado sua fé em que Jesus era o tradicional messias poderoso,
esperado por Israel. Nos evangelhos de Marcos e Lucas Pedro é repreendido por
Jesus por tal compreensão. Em Mateus, que transfere o messianismo terreno de
Jesus para um messianismo celestial, Pedro é elogiado. Agora, em uma narrativa
que se encontra nos três evangelhos sinóticos, quando Jesus fala dos
sofrimentos que deve enfrentar em Jerusalém da parte dos anciãos, sumos
sacerdotes e escribas, até a morte, Pedro o rejeita com veemência. Jesus, por
sua vez o repreende austeramente, e as censuras de Jesus contradizem os elogios
mencionados por Mateus anteriormente: se Pedro tinha acolhido a revelação
messiânica do céu, agora só tem em mente as coisas dos homens; se era pedra
fundamento da construção da Igreja, agora é pedra de tropeço; e se as portas do
Inferno nunca prevalecerão contra a Igreja, Pedro, agora, faz o jogo de
satanás. A ordem de Jesus a Pedro, "Volte para trás de mim", tem o
sentido do retorno de Pedro ao chamado inicial que lhe foi feito: "Vinde
após mim, e vos farei pescadores de homens" (Mt. 4,19). Jesus exige uma
firme compreensão de sua missão libertadora e misericordiosa, rejeitando
qualquer ideologia de poder, comparada a um espírito mau. Tal contradição
presente no texto de Mateus sugere que os elogios a Pedro, por sua compreensão
messiânica triunfalista sobre Jesus, expressem um empenho tardio na exaltação
da instituição eclesial embrionária. O seguimento de Jesus significa renunciar
aos projetos pessoais de realização aos olhos da sociedade estruturada pelos
poderosos, e tomar a cruz. A cruz era o instrumento de suplício e morte imposto
pelos romanos àqueles que ameaçavam a ordem do império. Eram os subversivos.
Durante a revolta judaica no ano 6 d.C. os romanos crucificaram 500 revoltosos,
contornando Jerusalém. Tomar a sua cruz, o que é diferente de "tomar o
poder", não tem nada de messiânico. Tomar a cruz e perder sua vida é
deixar-se seduzir pelo chamado de Jesus e renovar as estruturas desta sociedade
conformando-a a tudo que é bom e agradável a Deus. Aqueles que são seduzidos
pelo mundo dos ricos ambiciosos, pensando assim salvar suas vidas, são
aprisionados pelas malhas do poder. Seguir Jesus e tomar sua cruz significa
rejeitar os critérios de sucesso deste mundo e comprometer-se com a construção
do mundo novo de fraternidade, justiça e paz, sem temer as adversidades que
surgirão.
José Raimundo Oliva
O Evangelho deste Domingo reflete um
momento crítico da vida do Senhor Jesus. Ele sabe que será massacrado por seus
inimigos, sabe que a vinda do Reino de Deus passaria pelo desastre da cruz.
Agora, anuncia isso aos apóstolos: iria sofrer e morrer para ressuscitar. Pedro
não compreende como isso possa ser possível, não aceita tal caminho para o
Mestre: “Deus não permita tal coisa, Senhor!” Eis que drama, caríssimos: a
atitude de Pedro é a de muitos de nós: não compreendemos o caminho do Senhor,
seu sofrimento e sua cruz.
Esse caminho do Senhor está presente na
nossa vida; e nós não somos capazes de acolhê-lo, de perceber aí o misterioso
desígnio de Deus. Nossa lógica, infelizmente, é tão mundana, tão terra-terra,
tão presa à humana racionalidade. A dura reprimenda do Senhor a Pedro vale
também para nós: “Tu és para mim pedra de tropeço, porque não pensas as coisas
de Deus, mas sim as coisas dos homens”. Não nos iludamos: trata-se de duas
lógicas sem acordo: não se pode abraçar a sede louca do mundo de se dar bem a
qualquer custo, de possuir tudo, de viver sempre no sucesso e no acordo com
todos e, ao mesmo tempo, ser fiel ao Evangelho, tão radical, tão contra a
corrente. Vale para nós – valerá sempre – o desafio de Jesus: “Que adianta ao
homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em
troca de sua vida?” Caros, olhem o Cristo, pensem no seu caminho e escutem a
palavra do Senhor a nós, seus discípulos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a
si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai
perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la!”
Renunciar-se, tomar a cruz por causa de Jesus... por causa dele! Não há, não
pode haver outro caminho para um cristão! Qualquer outra possibilidade é ilusão
humana!
Caros meus, estejamos atentos, que o
Deus de Jesus – e o próprio Jesus é Deus! – nos coloca em crise. Nosso Deus não
é um Deus fácil, manipulável, domesticável: ele seduz, atrai, e sua sedução no
coloca em crise porque nos faz pensas as coisas de Deus, não as dos homens e
isso nos faz nadar contra a corrente. Por mais que quiséssemos, já não seria
possível esquecê-lo, fazer de conta que não o encontramos um dia! É o drama do
profeta Jeremias na primeira leitura deste hoje: “Tu me seduziste, Senhor!” É o
que afirma o coração do Salmista: "Sois vós, ó Senhor, o meu Deus: a minha
alma tem sede de vós, como terra sedenta e sem água! Vosso amor vale mais do
que a vida!”
Que fazer meus caros? Por um lado,
experimentamos a sede de Deus, a vontade louca de seguir de todo o coração o
nosso Senhor Jesus, por outro lado, os apelos de um mundo soberbo e satisfeito
consigo mesmo, atanazam o nosso coração... que fazer? Como abraçar sinceramente
a lógica do Evangelho? Há só um modo de seguir adiante, de ser cristão de
verdade: o caminho da conversão. Não é um caminho fácil: é difícil, doloroso,
mas libertador. São Paulo, na segunda leitura de hoje, exorta-nos a tal
caminho: “Eu vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e
agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” Compreendem irmãos?
Compreendem irmãs? Seguir o Cristo é entrar no seu caminho, é, em união com
ele, fazer-se sacrifício agradável a Deus, deixando-se guiar e queimar pelo
Espírito do Cristo crucificado e ressuscitado. E o Apóstolo nos previne
claramente: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando
vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da
vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito”. Não
tomar a forma do mundo, não viver como o mundo, com sua maneira de pensar e de
avaliar as coisas. Só assim poderemos compreender a vontade de Deus – e ela
passa pela cruz e ressurreição do Senhor!
Caríssimos, pensemos bem! Os cristãos
não são mais perseguidos por soldados, já não são crucificados, jogados às
feras ou queimados vivos. Hoje, o mundo nos combate invadindo nossa casa e
nosso coração com tanta superficialidade e tanto paganismo, acirrando nossos
instintos e explorando nossas fraquezas; hoje o mundo nos ataca nos
ridicularizando, fazendo crer que o cristianismo é algo do passado, opressor e
castrador... Quantos cristãos – até padres, freiras e teólogos – enganam-se e
enganam pensando que se pode dialogar com o mundo... O mundo crucificou Jesus;
o mundo crucifica o Evangelho; o mundo nos crucificará se formos fiéis ao
Senhor. Estamos dispostos a pagar o preço? “O que poderá alguém dar em troca de
sua vida?”
A única atitude realmente evangélica
diante do mundo é o anúncio inteiro do Cristo, com todas as suas exigências -
sem disfarçar, sem esconder, sem se envergonhar... E isso com paciência, com
amor, com todo respeito.
dom Henrique Soares
da Costa
A liturgia do 22º domingo do tempo
comum convida-nos a descobrir a “loucura da cruz”: o acesso a essa vida
verdadeira e plena que Deus nos quer oferecer passa pelo caminho do amor e do
dom da vida (cruz).
Na primeira leitura, um profeta de
Israel (Jeremias) descreve a sua experiência de “cruz”. Seduzido por Jahwéh,
Jeremias colocou toda a sua vida ao serviço de Deus e dos seus projetos. Nesse
“caminho”, ele teve que enfrentar os poderosos e pôr em causa a lógica do
mundo; por isso, conheceu o sofrimento, a solidão, a perseguição… É essa a
experiência de todos aqueles que acolhem a Palavra de Jahwéh no seu coração e
vivem em coerência com os valores de Deus.
A segunda leitura convida os cristãos a
oferecerem toda a sua existência de cada dia a Deus. Paulo garante que é esse o
sacrifício que Deus prefere. O que é que significa oferecer a Deus toda a
existência? Significa, de acordo com Paulo, não nos conformarmos com a lógica
do mundo, aprendermos a discernir os planos de Deus e a viver em consequência.
No Evangelho, Jesus avisa os discípulos
de que o caminho da vida verdadeira não passa pelos triunfos e êxitos humanos,
mas passa pelo amor e pelo dom da vida (até a morte, se for necessário). Jesus
vai percorrer esse caminho; e quem quiser ser seu discípulo tem de aceitar
percorrer um caminho semelhante.
1ª leitura: Jr.
20,7-9 - Ambiente
Jeremias nasceu em Anatot (a
norte de Jerusalém), por volta de 650 a.C. Ainda novo (por volta de 627/626
a.C.), sentiu que Deus o chamava a ser profeta. A atividade profética de
Jeremias prolongou-se até depois da destruição de Jerusalém pelos babilônios
(586 a.C.). O cenário da atividade do profeta foi, em geral, o reino de Judá
(e, sobretudo, a cidade de Jerusalém). Jeremias viveu numa época histórica
bastante conturbada. Foi um período de grande instabilidade, de injustiças
sociais gritantes, de infidelidade religiosa. Quer Joaquim (609-597 a.C.) quer
Sedecias (597-586 a.C.) foram reis fracos, incapazes de responder com êxito às
exigências da conjuntura internacional e de manter uma política de neutralidade
em relação às grandes potências da época (sobretudo o Egito e a Babilônia).
Jeremias – convencido de que Judá estava a ser infiel a Deus ao deixar de
confiar em Jahwéh e ao colocar a sua segurança e a sua esperança nas mãos dos
povos estrangeiros – criticou duramente os líderes do Povo e anunciou uma
invasão estrangeira, destinada a castigar os pecados de Judá.
A pregação de Jeremias não foi, no
entanto, apreciada pelo Povo e pelos líderes. Considerado um “profeta da
desgraça”, Jeremias apenas conseguiu criar o vazio à sua volta e viu os amigos,
os familiares, os conhecidos voltarem-lhe as costas. Conheceu a solidão, o
abandono, a maledicência… Acusado de traição e encarcerado (cf. Jr. 37,11-16),
o profeta chegou a correr perigo de vida (cf. Jr. 38,11-13).
Jeremias é o paradigma dos profetas que
sofreram por causa da sua missão. De natureza sensível e cordial, homem de paz,
Jeremias não foi feito para o confronto, para a violência das palavras ou dos
gestos; mas Jahwéh chamou-o para “arrancar e destruir, para exterminar e
demolir” (Jr. 1,10), para predizer desgraças e anunciar destruição e morte (cf.
Jr. 20,8). Como consequência, foi continuamente objeto de desprezo e de irrisão
e todos o maldiziam e se afastavam mal ele abria a boca. E esse homem bom,
sensível e delicado sofria terrivelmente pelo abandono e pela solidão a que a
missão profética o condenava.
Jeremias estava, verdadeiramente, apaixonado pela Palavra de Jahwéh e sabia que não teria descanso se não a proclamasse com fidelidade. Mas, nos momentos mais negros de solidão e de frustração, o profeta deixou, algumas vezes, que a amargura que lhe ia no coração lhe subisse à boca e se transformasse em palavras. Então, dirigia-se a Deus e censurava-O asperamente por causa dos problemas que a missão lhe trazia.
Jeremias estava, verdadeiramente, apaixonado pela Palavra de Jahwéh e sabia que não teria descanso se não a proclamasse com fidelidade. Mas, nos momentos mais negros de solidão e de frustração, o profeta deixou, algumas vezes, que a amargura que lhe ia no coração lhe subisse à boca e se transformasse em palavras. Então, dirigia-se a Deus e censurava-O asperamente por causa dos problemas que a missão lhe trazia.
No Livro de Jeremias aparecem, a par e
passo, queixas e lamentos do profeta, condenado a essa vida de aparente
fracasso. Alguns desses textos são conhecidos como “confissões de Jeremias” e
são verdadeiros desabafos em que o profeta expõe a Jahwéh, com sinceridade e
rebeldia, a sua desilusão, a sua amargura e a sua frustração (cf. Jr. 11,
18-23; 12,1-6; 15,10.15-20; 17,14-18; 18,18-23; 20,7-18). O texto que hoje nos
é proposto faz parte de uma dessas “confissões”.
Mensagem
O texto apresenta-nos uma
desconcertante oração de Jeremias num momento dramático de desilusão e de
desânimo (quando, preso pelos ministros de Sedecias e atirado para uma
cisterna, se afundava no lodo? – cf. Jr. 38,4-6).
Esta estranha oração adota a forma de
denúncia ou de acusação do profeta ao seu Deus. Essa acusação é formulada
através da imagem da “sedução”: é como se Jahwéh tivesse namorado o profeta até
ao ponto de o seduzir (o verbo “pth”, aqui utilizado, aparece em Ex. 22,15 para
falar da sedução de uma jovem solteira). Deus insinuou-Se na vida do profeta,
pressionou-o, subjugou-o, dominou-o e o profeta não soube como resistir às
investidas de Deus (o verbo “ykl”, utilizado no v. 7 para definir a forma como
Deus atuou em relação ao profeta, significa “exercer o poder”, “prevalecer
sobre alguém”, “dominar”). O profeta, embalado pelas promessas desse Deus
sedutor, incapaz de resistir ao seu “charme” e aos seus jogos de sedução,
pressionado, dominado, violentado, entregou-se completamente nas suas mãos e
dedicou toda a vida ao seu serviço.
O que é que o profeta ganhou com essa
entrega? Nada. Esse Deus que o seduziu, que o forçou a dedicar a vida ao
serviço profético, abandonou-o miseravelmente e deixou-o entregue aos insultos
e às zombarias dos seus adversários. O profeta está desiludido e decepcionado…
Essa desilusão irrompe em resolução firme de resistir à voz do sedutor: “não
voltarei a falar nele, não falarei mais em seu nome” (v. 9). Conseguirá o
profeta levar até ao fim o seu propósito?
Não. O amor por Deus e pela sua Palavra
está tão vivo no coração do profeta que é inútil resistir: “procurava contê-lo,
mas não podia” (v. 9). A Palavra de Deus é um fogo devorador, que consome o
coração do profeta e que não o deixa demitir-se da missão e esconder-se numa
vida cômoda e instalada. Ao profeta resta, portanto, continuar ao serviço da
Palavra, enfrentando o seu destino de solidão e de sofrimento, na esperança de,
ao longo da caminhada, reencontrar esse amor de Deus que um dia o seduziu e ao
qual o profeta nunca saberá renunciar.
Atualização
A história de Jeremias é, em termos
gerais, a história de todos aqueles que Deus chama a ser profetas. Ser sinal de
Deus e dos seus valores significa enfrentar a injustiça, a opressão, o pecado
e, portanto, pôr em causa os interesses egoístas e os esquemas sobre os quais,
tantas vezes, se constrói a história do mundo; por isso, o “caminho profético”
é um caminho onde se lida, permanentemente, com a incompreensão, com a solidão,
com o risco. Deus nunca prometeu a nenhum profeta um caminho fácil de glórias e
de triunfos humanos. Temos consciência disso e estamos dispostos a seguir esse
caminho?
No batismo, fomos ungidos como
“profetas”, à imagem de Cristo. Estamos conscientes dessa vocação a que Deus, a
todos, nos convocou? Temos a noção de que somos a “boca” através da qual a
Palavra de Deus ressoa no mundo e se dirige aos homens?
Neste texto – e, em geral, em toda a
vida de Jeremias – impressiona-nos o espaço fundamental que a Palavra de Deus
ocupa na vida do profeta. Ela tomou conta do seu coração e dominou-o totalmente.
É uma “paixão” que – apesar de ter trazido ao profeta uma história pessoal de
sofrimento e de risco – não pode ser calada e sufocada. Que espaço ocupa a
Palavra de Deus ocupa na minha vida? Amo, de forma apaixonada, a Palavra de
Deus? Estou disposto a correr todos os riscos para que a Palavra de Deus
alcance a vida dos meus irmãos e renove o mundo?
O lamento de Jeremias não deve
escandalizar-nos; mas deve ser entendido no contexto de uma situação trágica de
sofrimento intolerável. É o grito de um coração humano dolorido, marcado pela
incompreensão dos que o rodeiam, pelo abandono, pela solidão e pelo aparente
fracasso da missão a que devotou a sua vida. É o mesmo lamento de tantos homens
e mulheres, em tantos momentos dramáticos de solidão, de sofrimento, de
incompreensão, de dor. É a expressão da nossa finitude, da nossa fragilidade,
das nossas limitações, da nossa humanidade. É precisamente nessas situações que
nos dirigimos a Deus (às vezes até com expressões menos próprias) e Lhe dizemos
a falta que Ele nos faz e o quanto a nossa vida é vazia e sem sentido se Ele
não nos estender a sua mão. Esses momentos não são, propriamente, momentos
negativos da nossa caminhada de fé e de relação com Deus; mas são momentos
(talvez necessários) de crescimento e de amadurecimento, em que experimentamos
a nossa fragilidade e descobrimos que, sem Deus e sem o seu amor, a nossa vida
não faz sentido.
2ª leitura: Rm.
12,1-2 - Ambiente
Depois de apresentar a sua catequese
sobre o projeto de salvação que Deus tem para todos os homens (cf. Rm.
1,18-11,36), Paulo vai descer a considerações de caráter mais prático,
destinadas a mostrar como deve viver aquele que é chamado à salvação.
Essas indicações práticas aparecem na
segunda parte da carta aos Romanos (cf. Rm. 12,1-15,13). Aí Paulo apresenta um
longo discurso exortativo, no qual convida os romanos (e os crentes em geral) a
comportar-se de acordo com as exigências da sua condição de batizados. Aderir a
Cristo e acolher a salvação que Ele veio oferecer não significa ficar no
simples campo das verdades teóricas e abstratas (por muito bonitas e profundas
que elas possam ser), mas exige um comportamento coerente com os valores de
Jesus e com a vida nova que Ele oferece. A adesão a Jesus implica assumir
atitudes, nos vários momentos e situações da vida diária, que sejam a expressão
existencial desse dinamismo de vida nova que resulta do batismo.
O texto que hoje nos é proposto é a
introdução à segunda parte da carta e a esta reflexão prática sobre as
exigências do caminho cristão. Apresentam-se como uma espécie de ponte entre a
parte teórica (primeira parte da carta) e a parte prática (segunda parte da
carta).
Mensagem
A bondade e o amor de Deus (de que
Paulo tratou abundantemente nos capítulos anteriores) convida a uma resposta do
homem. Como é que deve ser essa resposta?
Paulo convida os crentes a
oferecerem-se a si mesmos (literalmente “os vossos corpos”. “Corpo” não
designa, aqui, essa entidade distinta da alma, mas a pessoa na sua totalidade,
enquanto ser em relação. É o homem enquanto ser que se relaciona com Deus, com
os outros homens e com o mundo). Os cristãos são aqueles que se entregam
completamente nas mãos de Deus e que, em todos os instantes da sua existência,
vivem para Deus. Essa oferta será um “sacrifício vivo, santo e agradável a
Deus”. É esse “culto espiritual” (pode traduzir-se também como “culto lógico”
ou “culto razoável”) que Deus espera do homem. O adjetivo utilizado por Paulo
para referir-se ao culto é utilizado em contextos análogos, tanto por autores
judeus como por autores gregos, para marcar a diferença entre um culto formal e
exterior, que não compromete o homem e o culto verdadeiro, que brota do coração
e que compromete o homem inteiro (cf. Am. 5,21-25; Os. 6,6; Jo 4,23-24). Os
crentes devem, portanto, oferecer inteiramente as suas vidas a Deus; e é esse o
culto que Deus espera desses sobre quem derrama a sua misericórdia e a quem
oferece a salvação.
Na perspectiva de Paulo, o que é que
significa o homem oferecer inteiramente a sua vida a Deus?
Significa, em primeiro lugar, não se
conformar com “este mundo” – isto é, manter uma distância crítica em relação
aos esquemas do mundo e aos valores sobre os quais este mundo de egoísmo e de
pecado se constrói. Significa, em segundo lugar, uma mudança de coração, de
mentalidade e de inteligência, que possibilite ao homem discernir qual é a
vontade de Deus, a fim de poder percorrer, com fidelidade, os seus caminhos.
O “culto espiritual” de que Paulo fala
é, portanto, a entrega a Deus da totalidade da vida do homem. Na sua relação
com Deus, com os outros homens e com o mundo, o cristão deve renunciar aos
caminhos do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência, da injustiça e do pecado;
e deve procurar conhecer os projetos de Deus, acolhê-los no coração e viver em
coerência total com as suas propostas.
Atualização
Como é que o crente deve responder aos
dons de Deus? Com atos rituais solenes e formais, com orações ou gestos
tradicionais repetidos de forma mecânica, com a oferta de uma “esmola” para os
cofres da Igreja, com uma peregrinação a um santuário? Paulo responde: o culto
que Deus quer é a nossa vida, vivida no amor, no serviço, na doação, na entrega
a Deus e aos irmãos. Respondemos ao amor de Deus entregando-nos nas suas mãos,
tentando perceber as suas propostas, vivendo na fidelidade aos seus projetos.
Como é o culto que eu procuro prestar a Deus: é um somatório de gestos
mecânicos, rituais e externos, ou é uma vida de entrega e de amor a Deus e aos
homens meus irmãos?
“Não vos conformeis com este mundo” –
pede Paulo. O cristão é alguém que não pactua com um mundo que se constrói à
margem ou contra os valores de Deus. O cristão não pode pactuar com a violência
como meio para resolver os problemas, nem com a lógica materialista do sucesso
a qualquer custo, nem com as leis do neo-liberalismo que deixam atrás uma
multidão de vencidos e de sofredores, nem com as exigências de uma globalização
que favorece alguns privilegiados mas aumenta as bolsas de miséria e de
exclusão, nem com a forma de organização de uma sociedade que condena à solidão
os velhos e os doentes… Eu sou um comodista, egoisticamente instalado no meu
cantinho a devorar a minha pequena fatia de felicidade, ou sou alguém que não
se conforma e que luta para que os projetos de Deus se concretizem?
“Transformai-vos pela renovação
espiritual da vossa mente” – diz Paulo. Estou instalado nos meus preconceitos,
nas minhas certezas e seguranças, nos meus princípios imutáveis, ou estou
sempre numa permanente escuta de Deus, dos seus caminhos, dos seus projetos e propostas?
Evangelho: Mt.
16,21-27
O episódio que o Evangelho de hoje nos
propõe vem na sequência daquele que lemos e refletimos no passado domingo.
Então (cf. Mt. 16,13-20), a comunidade dos discípulos expressava a sua fé em
Jesus como o “Messias, Filho de Deus” (é sobre essa fé – diz Jesus – que a
Igreja será edificada); agora, Jesus vai explicar a esse grupo de discípulos o
sentido autêntico do seu messianismo e da sua filiação divina.
Continuamos, ainda, no âmbito da
“instrução sobre o Reino” (cf. Mt. 13,1-17,27); no entanto, iniciamos, com este
episódio, uma secção onde se privilegia a catequese sobre esse destino de cruz
que aparece no horizonte próximo de Jesus (cf. Mt. 16,21-17,27).
Nesta fase, as multidões ficaram para
trás e os líderes já decidiram rejeitar Jesus. Quem continua a acompanhar
Jesus, de forma indefectível, é o grupo dos discípulos. Eles acreditam que
Jesus é o “Messias, Filho de Deus” e querem partilhar o seu destino de glória e
de triunfo. Jesus vai, no entanto, explicar-lhes que o seu messianismo não
passa por triunfos e êxitos humanos, mas pela cruz (cf. Mt. 16,21-17,21); e vai
avisá-los de que viver como discípulo é seguir esse caminho da entrega e do dom
da vida (cf. Mt. 17,22-27).
Mateus escreve o seu Evangelho para
comunidades cristãs do final do séc. I (anos 80/90). São comunidades
instaladas, que já esqueceram o fervor inicial e que se acomodaram num
cristianismo morno e pouco exigente. Com a aproximação de tempos difíceis (no
horizonte próximo estão já as grandes perseguições do final do séc. I), é
conveniente que os crentes recordem que o caminho cristão não é um caminho
fácil, percorrido no meio de êxitos e de aplausos, mas é um caminho difícil,
que exige diariamente a entrega e o dom da vida.
Mensagem
O nosso texto pode, claramente,
dividir-se em duas partes. Na primeira (vs. 21-23), Jesus anuncia aos
discípulos a sua paixão; na segunda (vs. 24-28), Jesus apresenta uma instrução
sobre o significado e as exigências de ser seu discípulo.
A primeira parte começa com o anúncio
de Jesus de que o caminho para a ressurreição passa pelo sofrimento e pela
morte na cruz. Não é uma previsão arriscada: depois do confronto de Jesus com
os líderes judeus e depois que estes rejeitaram de forma absoluta a proposta do
Reino, é evidente que o judaísmo medita a eliminação física de Jesus. Jesus tem
consciência disso; no entanto, não se demite do projeto do Reino e anuncia que
pretende continuar a apresentar, até ao fim, os planos do Pai.
Pedro não está de acordo com este final
e opõe-se, decididamente, a que Jesus caminhe em direção ao seu destino de
cruz. A oposição de Pedro (e dos discípulos, pois Pedro continua a ser o
porta-voz da comunidade) significa que a sua compreensão do mistério de Jesus
ainda é muito imperfeita. Para ele, a missão do “Messias, Filho de Deus” é uma
missão gloriosa e vencedora; e, na lógica de Pedro – que é a lógica do mundo –
a vitória não pode estar na cruz e no dom da vida.
Jesus dirige-Se a Pedro com alguma
dureza, pois é preciso que os discípulos corrijam a sua perspectiva de Jesus e
do plano do Pai que Ele vem realizar. O plano de Deus não passa por triunfos
humanos, nem por esquemas de poder e de domínio; mas o plano do Pai passa pelo
dom da vida e pelo amor até às últimas consequências (de que a cruz é a
expressão mais radical). Ao pedir a Jesus que não embarque nos projetos do Pai,
Pedro está a repetir essas tentações que Jesus experimentou no início do seu
ministério (cf. Mt. 4,3-10); por isso, Mateus coloca na boca de Jesus a mesma
resposta que, então, Ele deu ao diabo: “Retira-te, Satanás”. As palavras de
Pedro – como as do diabo anteriormente – pretendem desviar Jesus do cumprimento
dos planos do Pai; e Jesus não está disposto a transigir com qualquer proposta
que O impeça de concretizar, com amor e fidelidade, os projetos de Deus. Na
segunda parte, Jesus apresenta uma instrução sobre as atitudes próprias do
discípulo. Quem quiser ser discípulo de Jesus, tem de “renunciar a si mesmo”,
“tomar a cruz” e seguir Jesus no seu caminho de amor, de entrega e de dom da vida.
O que é que significa, exatamente,
renunciar a si mesmo? Significa renunciar ao seu egoísmo e auto-suficiência,
para fazer da vida um dom a Deus e aos outros. O cristão não pode viver fechado
em si próprio, preocupado apenas em concretizar os seus sonhos pessoais, os
seus projetos de riqueza, de segurança, de bem-estar, de domínio, de êxito, de
triunfo… O cristão deve fazer da sua vida um dom generoso a Deus e aos irmãos.
Só assim ele poderá ser discípulo de Jesus e integrar a comunidade do Reino.
O que é que significa “tomar a cruz” de
Jesus e segui-l’O? A cruz é a expressão de um amor total, radical, que se dá
até à morte. Significa a entrega da própria vida por amor. “Tomar a cruz” é ser
capaz de gastar a vida – de forma total e completa – por amor a Deus e para que
os irmãos sejam mais felizes. No final desta instrução, Jesus explica aos
discípulos as razões pelas quais eles devem abraçar a “lógica da cruz” (vs.
25-27). Em primeiro lugar, Jesus convida-os a entender que oferecer a vida por
amor não é perdê-la, mas ganhá-la. Quem é capaz de dar a vida a Deus e aos
irmãos não fracassou; mas ganhou a vida eterna, a vida verdadeira que Deus
oferece a quem vive de acordo com as suas propostas (v. 25).
Em segundo lugar, os discípulos são
convidados a perceber que a vida que gozam neste mundo não é a vida definitiva.
Não devem, pois, preocupar-se em preservá-la a qualquer custo: devem é procurar
encontrar, já nesta terra, essa vida definitiva que passa pelo amor total e
pelo dom a Deus e aos outros. É essa a grande meta que todos devem procurar
alcançar (v. 26). Em terceiro lugar, os discípulos devem pensar no seu encontro
final com Deus: nessa altura, Deus dar-lhes-á a recompensa pelas opções que
fizeram… Esta alusão ao momento do juízo não é rara em Mateus: ele recorre, com
alguma frequência, a esta motivação para fundamentar as exigências éticas da
vida cristã.
Atualização
Na reflexão, considerar os seguintes
dados:
Frente a frente, o Evangelho deste
domingo coloca a lógica dos homens (Pedro) e a lógica de Deus (Jesus). A lógica
dos homens aposta no poder, no domínio, no triunfo, no êxito; garante-nos que a
vida só tem sentido se estivermos do lado dos vencedores, se tivermos dinheiro
em abundância, se formos reconhecidos e incensados pelas multidões, se tivermos
acesso às festas onde se reúne a alta sociedade, se tivermos lugar no conselho
de administração da empresa. A lógica de Deus aposta na entrega da vida a Deus
e aos irmãos; garante-nos que a vida só faz sentido se assumirmos os valores do
Reino e vivermos no amor, na partilha, no serviço, na solidariedade, na
humildade, na simplicidade. Na minha vida de cada dia, estas duas perspectivas
confrontam-se, a par e passo… Qual é a minha escolha? Na minha perspectiva,
qual destas duas propostas apresenta um caminho de felicidade seguro e
duradouro?
Jesus tornou-Se um de nós para
concretizar os planos do Pai e propor aos homens – através do amor, do serviço,
do dom da vida – o caminho da salvação, da vida verdadeira. Neste texto (como,
aliás, em muitos outros), fica claramente expressa a fidelidade radical de
Jesus a esse projeto. Por isso, Ele não aceita que nada nem ninguém O afaste do
caminho do dom da vida: dar ouvidos à lógica do mundo e esquecer os planos de
Deus é, para Jesus, uma tentação diabólica que Ele rejeita duramente. Que
significado e que lugar ocupam na minha vida os projetos de Deus? Esforço-me
por descobrir a vontade de Deus a meu respeito e a respeito do mundo? Estou
atento a esses “sinais dos tempos” através dos quais Deus me interpela? Sou capaz
de acolher e de viver com fidelidade e radicalidade as propostas de Deus, mesmo
quando elas são exigentes e vão contra os meus interesses e projetos pessoais?
Quem são os verdadeiros discípulos de
Jesus? Muitos de nós receberam uma catequese que insistia em ritos, em
fórmulas, em práticas de piedade, em determinadas obrigações legais, mas que
deixou para segundo plano o essencial: o seguimento de Jesus. A identidade
cristã constrói-se à volta de Jesus e da sua proposta de vida. Que nenhum de
nós tenha dúvidas: ser cristão é bem mais do que ser batizado, ter casado na
igreja, organizar a festa do santo padroeiro da paróquia, ou dar-se bem com o
padre… Ser cristão é, essencialmente, seguir Jesus no caminho do amor e do dom
da vida. O cristão é aquele que faz de Jesus a referência fundamental à volta
da qual constrói toda a sua existência; e é aquele que renuncia a si mesmo e
que toma a mesma cruz de Jesus.
O que é “renunciar a si mesmo”? É não
deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a auto-suficiência dominem a
vida. O seguidor de Jesus não vive fechado no seu cantinho, a olhar para si
mesmo, indiferente aos dramas que se passam à sua volta, insensível às
necessidades dos irmãos, alheado das lutas e reivindicações dos outros homens;
mas vive para Deus e na solidariedade, na partilha e no serviço aos irmãos.
O que é “tomar a cruz”? É amar até às
últimas consequências, até à morte. O seguidor de Jesus é aquele que está
disposto a dar a vida para que os seus irmãos sejam mais livres e mais felizes.
Por isso, o cristão não tem medo de lutar contra a injustiça, a exploração, a
miséria, o pecado, mesmo que isso signifique enfrentar a morte, a tortura, as
represálias dos poderosos.
P. Joaquim Garrido,
P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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