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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sábado, 5 de agosto de 2017

TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR-Ano A

6 de Agosto de 2017

TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR
6 de Agosto de 2017
Cor: Branco
Evangelho - Mt 17,1-9

·     A nossa transfiguração na forma positiva é aquela que acontece pela graça de Deus, nas pessoas que vivem  o Evangelho na prática da fé. Assim, você olha no rosto daquele padre e em seu sorriso vê Jesus Cristo.  Continuar lendo

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“ESTE É O MEU FILHO AMADO, NO QUAL EU PUS TODO MEU AGRADO.”- Olívia Coutinho


DOMINGO: TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR.

Dia 06 de Agosto de 2017

Evangelho de Mt17,1-9

A Igreja, no mês de agosto, nos convida a refletir sobre a importância de descobrirmos e de vivermos a nossa vocação! Quem vive a sua vocação, encontrou sentido para sua a vida!
A vocação nos direciona ao serviço, a sermos construtores de um mundo melhor, dando testemunho de Jesus, na família, na comunidade, na sociedade...
Quando nos colocamos a serviço da vida, já estamos respondendo a nossa vocação primeira, nos posicionando contrários a qualquer sistema que gera morte!
Jesus nos chama a exercer um determinado serviço, a assumirmos livremente uma missão, quem diz “sim” ao seu chamado, tem o caminho aberto para desenvolver o dom que Deus lhe deu.
Somos peregrinos da fé, dispostos a percorrer o mesmo caminho que Jesus percorreu, atualizando esta caminhada, no contexto do mundo de hoje.
Enxertados em Jesus, não vamos ter dificuldades em viver de acordo com o  plano de Deus, no respeito e no cuidado com o que lhe é de mais precioso, que é a vida humana!
O Evangelho que a liturgia de hoje nos apresenta, narra a transfiguração de Jesus!
“Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz.”
A transfiguração de Jesus foi um prenuncio do seu retorno glorioso para o Pai, momento, em que Ele revela aos discípulos, de forma visível, a sua intimidade com o Pai, assegurando-os da sua ressurreição!
Na transfiguração, os discípulos Pedro, Tiago e João, puderam visualizar o encontro de Jesus com o Pai. A partir de então, eles, que andavam tristes, com as últimas revelações de Jesus, sobre o desfecho dolorido, de sua trajetória terrena, se encheram de alegria, com a certeza, de que a vida e ação de Jesus, não terminariam com a sua morte! 
Jesus não transfigurou diante de todos os discípulos, Ele escolheu apenas três, provavelmente, por serem os mais fortes, os que aguentariam tamanha emoção!
 Pedro Tiago e João, tiveram a alegria de  testemunhar a gloria de Jesus junto ao Pai! Um testemunho, que eles deveriam guardar, e  que a pedido de Jesus, só deveria ser revelado aos outros, após a sua ressurreição.
Assim como Pedro desejou construir três tendas para que eles pudessem ficar no alto da montanha com Jesus, longe dos perigos e sem precisar batalhar a vida, nós também, certamente, desejaríamos o mesmo!   Essa pode ser a nossa grande tentação dos dias de hoje: buscar a nossa comodidade, o nosso bem estar, sem pensar na necessidade do outro. 
Rezar, ouvir e meditar a palavra agrada a Deus, mas Ele quer que façamos muito mais! Deus quer, que  desçamos do alto da “montanha”, que voltemos à planície, pois é aqui, neste chão duro, que Ele quer contar conosco, na construção do seu Reino, no amparo de tantos irmãos, que dependem da graça de Deus agindo em nós, para se transfigurarem. 
Precisamos sair de nossas tendas, abrir mão da nossa zona de conforto, descruzar os nossos braços, desvendar os nossos olhos e nos por a caminho, afinal, há muito que fazer neste mundo, que a cada dia vai perdendo de vista, o  horizonte da paz!
A transfiguração de Jesus nos trouxe a certeza, de que há uma vida melhor por vir! Este episódio deve nos animar, afinal, foi transfigurado, que Jesus nos mostrou o lado positivo da cruz! Estejamos certos: A cruz não é sinal de morte, e sim, sinal de vitória, de vitória da vida sobre a morte!
Não deixemos que os ventos contrários, apaguem o brilho do rosto transfigurado de Jesus, um  brilho, que ficou impregnado em todos os que creem  Nele! Cultivemos este brilho, na certeza, de que ele nos servirá de farol, nas nossas passagens, pelos os túneis escuros de nossa vida.

NESTE DOMINGO, REZEMOS PELA A VOCAÇÃO À VIDA SACERDOTAL.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

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Seguir a Deus é assumir atitude de permanente êxodo. Abraão, nosso pai na fé, foi chamado por Deus a pôr-se a caminho para a terra prometida. Foi provocado a deixar as seguranças para entrar na dinâmica do plano de amor de Deus, visando a uma “terra sem males”, uma sociedade de justiça e paz. Obedecendo ao chamado divino, Abraão e sua família tornaram-se portadores da bênção divina para todo o povo (1ª leitura). O cristão, continuamente, corre o risco de se equivocar a respeito de Jesus e de sua proposta. Como Pedro no episódio da transfiguração, tende a construir o “ninho” de proteção e de bem-estar, negligenciando as implicâncias do seguimento de Jesus no caminho da cruz e da morte (Evangelho). É bom prestar atenção nos conselhos de Paulo a Timóteo: são expressões de amor e de solidariedade a quem passa por situações conflituosas. Timóteo é encorajado a persistir no testemunho de Jesus Cristo, participando de seus sofrimentos pela causa do evangelho (2ª leitura). Neste tempo propício de penitência e conversão, somos convidados a ouvir o chamado que Deus nos faz para sermos santos; é tempo propício para aprofundar a vocação que dele recebemos e discernir o que é essencial do que é ilusório.
1ª leitura (Gn. 12,1-4a)
A fé que se transforma em caminho
A Bíblia nos apresenta a figura de Abraão como o pai do povo de Israel. Sua fé e confiança em Deus tornam-se a principal herança para as futuras gerações. Abraão é representativo de grupos seminômades, em torno de 1500 a.C. Esses grupos, por natureza, não se submetem à dominação do poder político, como o exercido naquela época pelas cidades-estado. São caminhantes, sempre em busca de terra fértil que proporcione pastagens para a sobrevivência dos seus rebanhos e, consequentemente, de suas famílias e clãs.
A experiência que Abraão possui de Deus está intimamente ligada ao estilo de vida dos pastores. A garantia da terra e o senso de liberdade são fundamentais. A presença de Deus se dá onde se encontram as famílias. Ele caminha com os pastores, conduz os seus passos e lhes dá a terra de que necessitam. A terra é promessa e dom de Deus, porém é necessário que Abraão esteja disposto a romper com as seguranças que impedem a caminhada na direção que Deus lhe aponta.
Confiar no Deus da promessa é ter a certeza de um mundo sem exploração e sem fome. Essa promessa é motivadora para os movimentos populares, especialmente em época de opressão, como aquela exercida pelo Egito e, posteriormente, pela monarquia israelita. Abraão torna-se a “memória perigosa” que desacomoda os oprimidos, proporcionando-lhes inspiração para a resistência e a mobilização em vista de uma nova sociedade.
2ª leitura (2Tm. 1,8b-10)
A santa vocação
A segunda carta a Timóteo faz parte das tradicionalmente conhecidas “cartas pastorais” (junto com 1Tm. e Tt.). São dirigidas aos animadores de Igrejas cristãs, num tom pessoal. Os autores atribuem essas cartas a Paulo. Foram escritas algum tempo depois de sua morte, no intuito de iluminar e fortalecer a missão desses “pastores” junto às comunidades.
Timóteo havia sido um companheiro de Paulo. Participou da segunda e terceira viagens missionárias. Pessoa de confiança e dedicado à evangelização. Paulo podia contar com ele para enviá-lo às comunidades a fim de levar instruções e animar a fé dos cristãos. Após a morte de Paulo, continuou a missão de ministro da Palavra, revelando-se como importante liderança. A tradição o venera como bispo de Éfeso. Etimologicamente, Timóteo significa “aquele que honra a Deus”.
O texto da leitura de hoje indica uma situação difícil pela qual está passando Timóteo. O intuito é confortá-lo e animá-lo à perseverança. Timóteo é convidado a participar solidariamente dos sofrimentos pelos quais Paulo também passou por causa do evangelho. Quem assumiu a missão de servir à Palavra não pode sucumbir às dificuldades nem manifestar-se timidamente. A tribulação é inerente ao anúncio do evangelho quando feito com autenticidade. Como aconteceu com Jesus, também acontece com os seus discípulos. Nessa mesma carta, encontramos o alerta: “Todos os que quiserem viver com piedade em Cristo Jesus serão perseguidos” (3,12).
A confiança plena na graça de Deus deve ser característica da pessoa que evangeliza. Deus nos salvou gratuitamente em Jesus Cristo. Ele nos chama com uma santa vocação para servi-lo e amá-lo. A santidade nos faz andar cotidianamente na intimidade divina, como o fez Jesus. A pessoa santa é portadora da graça e irradiadora da boa notícia de Jesus, o Salvador, que venceu a morte e fez brilhar a vida. A missão de Timóteo e de toda pessoa seguidora de Jesus é anunciar, de modo permanente e corajoso, esse projeto salvador de Deus, concebido desde toda a eternidade e revelado plenamente em Jesus Cristo.
Evangelho (Mt 17,1-9)
A transfiguração de Jesus
A narrativa da transfiguração de Jesus está permeada de elementos simbólicos teologicamente muito significativos. Vemos Jesus subindo à montanha com Pedro, Tiago e João. Todos participam de uma experiência mística inédita. Moisés e Elias também se fazem presentes e dialogam com Jesus.
Lembremos, especialmente, que a comunidade de Mateus é formada de judeus que vivem a fé cristã. Portanto, é importante que a tradição judaica seja respeitada e aprofundada agora em novo contexto. Assim, a montanha tem um significado especial de manifestação de Deus. Basta lembrar o dom da Lei de Deus a Moisés no monte Sinai. Assim também a expressão “seis dias depois”, bem como a presença da nuvem. Lemos em Ex. 24,16: “Quando Moisés subiu ao monte, a nuvem cobriu o monte. A glória do Senhor pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu durante seis dias”. Como vemos, há íntima relação entre a transfiguração de Jesus e a experiência religiosa de Moisés. É um momento extraordinário de manifestação divina. Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas, caminho que aponta para o Messias. Jesus é o cumprimento da promessa do Pai revelada na Sagrada Escritura.
Podemos considerar como centro dessa narrativa a declaração de Deus: “Este é meu Filho amado, nele está meu pleno agrado: escutai-o”. Essa voz que vem do céu declarando a filiação divina de Jesus também se fez ouvir no seu batismo (Mt. 3,17). É, sem dúvida, a confissão de fé da comunidade cristã, representada nesse momento por Pedro, Tiago e João. De fato, os discípulos, no barco, reconhecem a Jesus caminhando sobre as águas e salvando a Pedro de sua fraqueza de fé: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus” (14,33). Na ocasião em que Jesus pergunta o que dizem dele, Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (16,16). É no momento da morte de Jesus que o centurião e os guardas declaram: “De fato, esse era Filho de Deus” (27,54). O anúncio da verdade sobre Jesus não foi feito aos que detinham o poder político ou religioso. Também não foi feito em algum centro ou instituição importante. E sim a um grupo de gente simples, num lugar social periférico.
O imperativo “escutai-o” enfatiza a perfeita relação entre a profissão de fé em Jesus como “Filho de Deus” e a atenção cuidadosa ao seu ensinamento. O elemento fundamental do ensino de Jesus é que ele terá de passar pelo sofrimento e pela morte, na perspectiva do “Servo sofredor” anunciado pelo profeta Isaías (cf. 42,1-9). Não é por acaso que Mateus insere o relato da transfiguração logo após o primeiro anúncio de sua paixão e morte e o convite ao discipulado: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (16,24). Portanto, os discípulos deverão compreender que o caminho para o seguimento de Jesus, Servo de Deus, implica “descer da montanha” e assumir as consequências, conforme o testemunho do Mestre. Porém, esse não é um caminho derrotista. A vida triunfa sobre a morte. A glória de Deus se manifestará plenamente na ressurreição. A transfiguração é um sinal antecipado da realidade da Páscoa.
Pistas para reflexão
– Pôr-se à disposição de Deus. As leituras deste domingo nos apontam a dinâmica do projeto libertador de Deus: deixar as seguranças que nos engessam para nos pormos a caminho da terra que Deus deseja para a humanidade. Como Abraão e sua família, nós também podemos assumir a fé e a total confiança em Deus, que sustenta e guia os nossos passos na verdade, na justiça e no amor. Essa é a melhor herança que podemos deixar às futuras gerações.
– Assumir a missão de evangelizar. Timóteo, “aquele que honra a Deus”, assumiu a missão de anunciar o evangelho de forma corajosa e perseverante mesmo nas situações difíceis; também nós podemos ser anunciadores da boa notícia de Jesus em nossas famílias, na comunidade e na sociedade. Isso acontece pela coerência entre fé e vida, pelo testemunho de doação alegre, também pela constância no testemunho de diálogo e de fraternidade. Assim, estaremos respondendo à “santa vocação” a que fomos chamados pela bondade de Deus.
– A vida é um permanente caminhar. Jesus foi a grande manifestação de Deus para a humanidade. Pedro, Tiago e João foram agraciados com uma experiência maravilhosa, participando da transfiguração de Jesus. Também em nossa vida, Deus nos concede momentos de muita luz, consolo e força. Tendemos, porém, a buscar e a nos acomodar ao que nos garante bem-estar, prazeres, sensações agradáveis... Não podemos esquecer que seguir a Jesus implica “descer da montanha” do egoísmo e da acomodação. Seguir a Jesus é entregar-se pela causa da vida digna sem exclusão, alicerçada na justiça e na igualdade. Para isso, conforme nos convoca a Campanha da Fraternidade, faz-se necessário o cuidado com a terra, a casa comum que abriga a todos os seres.
Celso Loraschi



Por um tempo seu rosto se iluminou
Domingo da transfiguração... O rosto de Jesus  refulge. Brilha com a força do sol.
Os fatos se dão sobre uma alta montanha. Montanha, espaço de silêncio, lugar de onde se descortinam paisagens deslumbrantes, espaço afastado das coisas “pequenas” e “cotidianas”. Alta montanha que lembra tantas montanhas que aparecem nos textos escriturísticos. Montanha, lugar de Deus.
O Mestre se faz acompanhar por três de seus apóstolos: “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, se irmão e os levou a um lugar  à parte...”.Reserva aos seus momentos de uma profunda e decisiva experiência.
Chega então o momento central da cena: Jesus se transfigura, ganha “outra figura”. Aquele Mestre tão parecido com todos os seres humanos da face da terra tinha agora uma claridade inesperada. “E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e suas roupas ficaram brancas como a luz”. Jesus se tornava claridade, luminosidade, beleza luminosa.  O Mestre que havia chamado os apóstolos viera da luz e agora, ali diante dos três, mostrava sua origem. Em volta de Jesus todo iluminado o Moisés da montanha dos mandamentos e o Elias, luminoso, da montanha do Horeb, que foi levado para o céu  num resplandecente carro de fogo.
Nada mais natural que os discípulos  quisessem perpetuar aquele momento.  Eles faziam a experiência da glória do Senhor.  Esse Jesus que os havia chamado está na atmosfera de Deus. 
Comentando a reação de Pedro, Beda Veneravel escreve: “Que felicidade não será ver a divindade entre os coros dos anjos e lá estar para sempre! O simples fato de ver mesmo só por um instante, a humanidade de Cristo transfigurada na companhia de dois santos, deleita a tal ponto que, com medo de se afastarem Pedro, cheio de entusiasmo deseja retê-los. Se em sua fraqueza humana ele não sabe o que diz, dá, no entanto, testemunho de um sentimento gravado em sua alma”.  No meio de tudo, de dentro da nuvem de Deus, uma solene declaração: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o”. Tudo isso nos toca profundamente, a nós que não vivemos a experiência com nossos sentidos, mas que a podemos refazer na dimensão da fé.
Jesus, o mais belo de todos os filhos dos homens, aquele que é o Filho eterno do Pai de toda luz. E a cena se desfaz. O rosto de Jesus torna a ser o rosto de um homem... Ele vai caminhar até sua paixão. Nesse momento não haverá luz nem claridade em seu semblante.  Por um tempo seu rosto se iluminou....Depois haveria de ser coberto de escarros, de poeira, de lágrimas e de dor.
Nesse momento, por alguns momentos, o rosto de Jesus se ilumina. Depois será coberto de sombras até que chegue a manha luminosa da Páscoa.
frei Almir Ribeiro Guimarães



Pela Cruz à Glória
Cada ano, o segundo domingo quaresmal traz o evangelho da Transfiguração, no início da subida de Jesus a Jerusalém, onde ele levará a termo a vontade do Pai.
Acompanhamos Jesus no seu caminho. Ora, neste caminho, para não desfalecermos em nossa fé, é bom termos diante dos olhos – como João, Tiago e Pedro, as testemunhas privilegiadas – a glória daquele que vai ser aniquilado, o Filho e Servo de Deus. E escutarmos a voz que sai da nuvem: “Escutai-o”.
Cada ano, também, a 1ª leitura apresenta um dos grandes momentos da caminhada do antigo povo de Deus; neste ano (A), a vocação de Abraão. “Sai da tua terra”. Largar o que consideramos adquirido é a condição para caminhar no rumo que Deus indica. A 2ª leitura é um breve comentário a isso. Aponta a “vocação santa” que recebemos em virtude do desígnio de Deus e com a ajuda transformadora de sua graça, dada em Cristo, no qual resplandece a vitória sobre a morte. Essa vitória final, Pedro, Tiago e João a viram antecipadamente, e atestada por Moisés (a Lei) e Elias (os Profetas), no monte da Transfiguração (evangelho; prefácio próprio). A visão desta glória é acompanhada pela voz: “Escutai-o”, que lembra o “Ouve Israel” de Dt. 6,4. É um prelúdio da ressurreição - por isso as testemunhas devem guardar o silêncio até que esta se realize.
Jesus revela em si mesmo o termo de nossa vocação, na medida em que nós nos unimos a ele pela obediência à autoridade de sua palavra, pela adesão da fé. Assim, nossa vida não é posição adquirida, mas caminho, dinamizado por uma vocação cujo termo, embora ainda escondido, já é revelado em Jesus Cristo. Nossa adesão a ele nos move de etapa em etapa. Sua glória é a luz que ilumina o caminho que nós somos chamados a percorrer. A seqüência da predição da Paixão (Mt. 16,21-23) e da Transfiguração de Jesus (17,1-9) projeta para nós esse caminho: “pela cruz à glória” (prefácio próprio). A lógica de Deus entra em choque com o mundo, que só quer conquistar e dominar, mas é vitoriosa em quem é fiel.
Para essa caminhada - assim reza a oração do dia - é preciso que sejamos alimentados com a palavra que nos vem através do Filho Amado (“Escutai-o”). Assim, com o olhar da fé purificado, participaremos já na terra da realidade eterna de Deus mesmo (oração final).
padre Johan Konings "Liturgia dominical"



Abraão, pai dos povos, pai da fé
Vimos, na semana passada, o sentido da “pré-história”, conforme narrada na Bíblia (Gn 1–11): recuando imaginariamente até os inícios da humanidade, a Bíblia descreve o ser humano universal, na grandeza de sua vocação, na queda causada pela ambição desmedida, e na Aliança que Deus faz com Noé para não destruir a humanidade.
Depois desse prelúdio, a Bíblia se põe a contar a história do povo de Israel, começando pela figura de seu patriarca, Abraão, que conforme o nosso conhecimento da história geral deve ser situado por volta de 1800 antes de Cristo.
Mas Abraão não é somente o patriarca dos israelitas. Ele é um estrangeiro, ele vem de longe, da terra das grandes culturas antigas, Ur da Caldéia (mais tarde chamada Babilônia, hoje em dia, Iraque) (Gn 11,31-33). Ele mora um tempo em Arâm (Síria). Depois passa como nômade pela terra que futuramente será a terra de Israel. E finalmente encontramo-lo na fronteira do Egito. Ele é o ancestral não só de Israel, mas também dos povos vizinhos. Antes de ter o filho prometido, Isaac, que será o pai de Jacó, ou Israel, ele tem um filho de sua escrava, chamado Ismael, que é o patriarca dos árabes e venerado como tal pelo Islão.
A figura de Abraão é, portanto, uma figura polivalente. É o pai dos povos nômades do Médio Oriente. Nele, todos esses povos se encontram. Apesar das brigas intermináveis que os separam, eles são povos irmãos. Se Israel, no auge de sua vida nacional, possui uma terra, não é porque sempre esteve aí, mas porque Deus prometeu essa terra aos descendentes de Sara, mulher legítima de Abraão. Assim, a consciência nacional de Israel distingue entre o próprio grupo e os outros: eles são descendentes do “filho de família”, Isaac, pai de Jacó-Israel; os árabes são descendentes do filho natural, Ismael... Mas são irmãos!
O mais importante em Abraão é a sua fé. Ele acreditou na promessa de Deus. Sem isso, não seria o “pai da multidão”, como significa seu nome, nem o patriarca de Israel. Já sua saída da terra de Ur dos Caldeus é um ato de fé. Ele obedece à palavra que ele ouve: “Sai da tua terra” (Gn 12,1). E mais tarde, contra toda a probabilidade, ele acredita na promessa de ter um filho legítimo de sua esposa Sara; por esta fé confiante, Deus o considera justo e amigo seu (Gn 15,1-6).
Esta fama de “pai da fé” acompanhou Abraão através da Bíblia até no Novo Testamento, sendo interpretada de modos diferentes pelos diversos teólogos cristãos. Na Carta aos Romanos (Rm 4,3), Paulo diz que Abraão foi considerado justo por Deus porque ele acreditou na promessa de ter uma descendência (cita Gn 15,1-6; ver também Gl 3,6). Já a Carta de Tiago julga que Abraão foi considerado justo não apenas por ter crido, mas por ter comprovado esta fé por seus atos, e a prova disso é que ele se dispôs a sacrificar o “filho da promessa”, o único filho legítimo, Isaac, se tal fosse a vontade de Deus (Tg 2,21-23). A Carta aos Hebreus vê a fé de Abraão em diversos momentos: quando ele acata o chamado de sair de sua terra (Hb 11,8), quando ele se arrisca a viver como estrangeiro entre os outros povos (11,8-9); quando acredita que se tornará pai de numerosos descendentes apesar da idade avançada (11,10). E, sobretudo, quando é posto à prova por Deus, para ver se ele seria capaz de oferecer seu próprio filho (11,17-19).
É certamente por este aspecto que a figura de Abraão aparece na liturgia do 2º domingo da Quaresma, tempo de conversão, tempo de dar a Deus o primeiro lugar em nosso coração.
padre Johan Konings "Descobrir a Bíblia partir da liturgia"



Levantai-vos, não tenhais medo. (Mt. 17,7b).
Primeira Leitura: Gn. 12,1-4a.
... Abraão partiu como o Senhor lhe havia dito (Gn. 12,4a).
A Liturgia da Palavra deste domingo nos convida a confiar em Deus quando o que Ele nos pede parece estar muito acima de nossas forças.
Assim nesta Primeira Leitura nos deparamos com a cena do primeiro encontro de Deus com um ser humano na história: Deus chama Abraão, revelando-Se somente a ele.
A vida de Abraão, ao que parece, até aquele momento estava muito bem. Ele vivia com seu pai e seus irmãos, era casado com Sara, tinha seu rebanho, vivia em paz.
Mas o chamado de Deus lhe tira este conforto.
Logo de início Deus lhe dá ordens:
“Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar” (Gn. 12,1).
Já esta ordem de Deus surpreendeu a Abraão, que se interrogava: que Deus é este que logo começa me dando ordens?
Mas Deus lhe revela um plano grandiosíssimo:
“Farei de ti um grande povo e te abençoarei ...
... em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (Gn. 12,2a.3c).
A Bênção de Deus era bem-vinda.
Mas fazer de Abraão o início de um grande povo já era um desafio para sua fé.
Como Abraão seria iniciador de um grande povo, se sua esposa, Sara, não podia ter filhos?
Mas este temor logo se desfez, porque Deus também abençoara Abraão. A Bênção divina garantiria uma descendência a ele, mesmo que de início não soubesse como.
Aqui entrou a fé de Abraão em Deus: se Deus promete, cumpre.
Se Deus abençoa, a descendência virá, como Deus determinar.
O exemplo de Abraão, desde o início de sua chamada por Deus, é de enfrentamento dos desafios que a fé em Seu Deus lhe impõe.
Não há fé sem aceitação de seus desafios.
Deus pode nos pedir uma fé cega no que nos propõe e promete em nossa vida.
Como Abraão, não tenhamos medo, e sim confiança no poder de Deus.
Para Ele tudo é possível.
Salmo Responsorial: Sl 32(33),4-22.
No Senhor nós esperamos confiantes,
porque Ele é nosso auxílio e proteção [Sl 32(33),20].
A confiança que Abraão teve em Deus foi passada para seus descendentes, o Povo Eleito.
Este Povo Eleito considerou, por séculos, seu relacionamento com Deus, relacionamento fundado na fé e na confiança total. De fato o Salmo hoje nos diz:
No Senhor nós esperamos confiantes, porque Ele é nosso auxílio e proteção. [Sl 32(33),20].
Diz ainda mais, confirmando a fé em Deus perante os desafios que esta fé exige:
... reta é a palavra do Senhor, e tudo o que Ele faz merece fé. [Sl. 32(33),4].
Como os homens devem corresponder a tudo isto? Continua o Salmo:
... o Senhor pousa o olhar sobre os que O temem,
e que confiam esperando em Seu Amor, para da morte libertar as suas vidas e alimentá-los em tempo de penúria. [Sl. 32(33),18-19].
Não foi este tipo de experiência que os filhos de Abraão, o Povo de Deus,teve desde o dia em que se puseram a caminho da terra prometida? Caminharam por desertos, detiveram-se em Canaã, foram para o Egito, voltaram a Canaã no êxodo pelo deserto, sofreram a fome e a sede. Mas Deus os salvou.
Deus os salvou porque os descendentes de Abraão O temiam.
Deus os salvou porque confiaram em Seu Amor.
Deus os salvou da morte para manter em vida seu Povo Eleito.
Deus os salvou quando quase estavam para desaparecer: Ele os alimentou na penúria.
O que é mais importante no ensino deste Salmo?
É a fé em Deus mesmo diante dos desafios que esta fé impõe.
Rezemos, portanto, este Salmo, naquelas situações de grandes perigos que nossa vida nos traz.
Aprendamos dos filhos de Abraão a temer a Deus, a confiar em Seu Amor, a sermos salvos das doenças e da morte, e das penúrias materiais e espirituais.
Segunda Leitura: 2Tm 1,8b-10.
Sofre comigo pelo Evangelho, pelo poder de Deus (2Tm 1,8b).
A Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo é considerada seu testamento espiritual.
São Paulo está no fim de sua vida.
Ele não quer que tudo o que Deus lhe deu para cumprir sua missão fique perdido, mas tenha alguém para receber esta imensa herança.
Este alguém é São Timóteo, seu auxiliar mais fiel de todos.
São Timóteo ainda era adolescente quando seguiu São Paulo, deixando para trás sua mãe Eunice, seu pai e sua avó Lóide (2Tm. 1,5).
Em muitas viagens esteve ao lado de São Paulo.
Com ele enfrentou muitos dos perigos que São Paulo enumera em 2Cor 11,23-28: prisões, açoites, perigos de morte, perigos de salteadores, perigos nas mãos dos judeus que os queriam matar; perigos no deserto, no mar; perigos pelo excesso de trabalho, pela fome, pela sede, pelo frio, pela falta de agasalhos, pelas vigílias das longas noites em oração; tudo isto, além da preocupação com cada comunidade que fundaram.
A missão que Jesus Cristo confiara a São Paulo incluía muitos sacrifícios, sofrimentos, desafios inesperados. Foi o que Ananias lhe revelou, assim que se converteu e foi batizado em Damasco: ... Eu lhe mostrarei quanto ele deve sofrer pelo Meu Nome (At. 9,16).
E foi assim que São Paulo viveu toda sua vida de apóstolo.
Por isso esperava o apoio de São Timóteo, dizendo-lhe:
Sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus (2Tm 1,8b).
Notemos que São Paulo não sofreu sem sentido, nem sozinho.
Deus sempre esteve a seu lado: fortificado pelo poder de Deus (2Tm 1,8b).
São Paulo disse mais a São Timóteo:
10 Tu, porém, tens seguido, de perto, o meu ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, perseverança,
11 as minhas perseguições e os meus sofrimentos, quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra.
Quantas perseguições tenho suportado!
De todas, entretanto, me livrou o Senhor.
Não vemos aqui um eco do Salmo Responsorial de hoje?
Recordemos novamente o Salmo:
... o Senhor pousa o olhar sobre os que O temem, e que confiam esperando em Seu Amor, para da morte libertar as suas vidas e alimentá-los em tempo de penúria. [Sl 32(33),18-19].
Se Deus tratou assim São Paulo e seus ajudantes, tratará também de nós, que O tememos e confiamos em Seu Amor. Sejamos, portanto, dignos de nossa fé, de seus desafios e do auxílio que Deus nos dá.
E nesta Quaresma, repensemos a história de nossa vida de fé.
Encontraremos momentos comparáveis aos de São Paulo, e veremos como Deus nos livrou de tantos perigos!
Evangelho: Mt 17,1-9.
Levantai-vos, não tenhais medo (Mt 17,7b).
Estamos habituados a meditar sobre a Transfiguração de Jesus e extrair deste Evangelho as lições habituais.
Mas há um aspecto sobre o qual pouco pensamos.
Quando os apóstolos vêem Jesus no esplendor de Sua Glória, ficam com medo.
Medo do esplendor de Jesus?
Não parece ser este o tipo de temor que tiveram. Pelo contrário ver Jesus em Glória deve tê-los deixado orgulhosos por conhecer a glória de seu Mestre. O temor, no entanto, era de outra natureza.
Se Jesus tinha tanto Poder e Glória, o temor dos apóstolos era o de corresponder à altura da grandeza do Mestre.
A voz de Deus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a Ele ouvi. (Mt 17,5c), encheu os discípulos de temor e reverência. Eles não sabiam sequer qual reação ter naquele momento.
A ordem divina: ... a Ele ouvi, soava como um desafio divino a homens conscientes de sua limitação humana. Como “ouvir”, isto é, aceitar Jesus conforme as exigências de alguém tão poderoso, nada menos que Deus?
Com o tempo os apóstolos verão que “ouvir” a Jesus implicava dispor da própria vida.
Jesus será claro com eles: ... quem perder a vida por minha causa, achá-la-á. (Mt 10,39).
Portanto os discípulos de Jesus reagiam humanamente com medo dos desafios daquele chamado.
No entanto, nenhum rejeitou Jesus. É claro que Ele os fortaleceu dizendo:
Levantai-vos, não tenhais medo (Mt 17,7b).
É claro, também, que depois de revê-lo no esplendor de sua Ressurreição todos os discípulos passaram a confiar em Seu mestre com grande segurança.
Maior segurança ainda lhe foi dada com o dom do Espírito Santo no dia de Pentecostes. A partir deste dia ficaram destemidos a ponto de darem a vida por Jesus no martírio que muitos deles sofreram.
Aprendamos dos apóstolos também a confiar em Jesus Cristo.
Sabemos que Ele nos acompanha sempre, todos os dias, porque Ele disse:
... estou convosco todos os dias até à consumação do século. (Mt 28,20).
Jesus Cristo está conosco ao longo de toda esta Quaresma.
Ele nos chama a uma conversão que pode parecer dolorosa.
Mas lembremos como Ele confirmou seus discípulos e os fortaleceu a ponto de eles aceitarem até mesmo a morte do martírio.
Jesus não nos pede o martírio, mas nosso coração. Vamos entregá-lo a Ele.
padre Valdir Marques, SJ



O Evangelho de hoje descreve a transfiguração de Jesus no monte Tabor, no início de sua subida a Jerusalém, onde será preso, julgado e crucificado.
Jesus havia dito aos apóstolos que o Filho do Homem iria sofrer em Jerusalém e que morreria nas mãos dos sumos sacerdotes, dos escribas e dos anciãos. Mediante a aflição e a tristeza dos seus seguidores, por causa das Suas revelações, Jesus oferece o consolo para fortalecê-los. Ele escolhe três discípulos – os mesmos que vão testemunhar a sua agonia no horto das Oliveiras por ocasião de sua paixão. Estes são favorecidos por poderem contemplar o momento glorioso da Transfiguração de Jesus, a fim de se fortalecerem para enfrentar as dificuldades que terão de enfrentar.
Era necessário mostrar para os discípulos o resultado final da Sua luta por um Reino de justiça, e que a Sua vida e a Sua ação não terminariam com a Sua morte. Neste sentido, a Transfiguração é sinal de Ressurreição. É Jesus vencendo a morte. Ele revela, neste momento que, para “entrar na sua glória” é necessário passar pela Cruz em Jerusalém. Todos os que O ouvem e O seguem participam de sua vitória final, quando então ressuscitarão com Ele.
A presença de Moisés e Elias no momento da Transfiguração remete ao Primeiro Testamento. Moisés representa a lei, e Elias, os profetas. A Lei e as profecias eram o caminho de Deus para anunciar o seu plano de salvação, e a transfiguração mostra que Jesus é o novo Moisés e o novo Profeta, por meio do qual chega aos homens a sua Justiça.
A presença dos discípulos na cena da Transfiguração mostra que o projeto de Deus no Primeiro Testamento e o projeto de Jesus no Segundo Testamento estão interligados.
A reação de Pedro, ao convocar Jesus a permanecer ali, revela uma atitude de acomodação perante a glória. Pedro quer reter o Jesus Glorioso junto com Moisés e Elias. Porém, Jesus aproveita a oportunidade para ensinar que a lógica de Deus é diferente da dos homens, pois a glória virá depois da luta e da dor.
A nuvem clara que aparece, indica a presença forte do Espírito Santo, e a voz que sai dela é a personificação do Pai. Neste momento, a Trindade se faz presente, como aconteceu também no Batismo de Jesus. O Pai confirma a filiação divina de Seu Filho e mostra que Ele é a autoridade, e que todos são convidados a ouvir o que Ele diz. E, fortalecidos pela presença da Santíssima Trindade, os discípulos desceram do Tabor.


PEQUENINOS DO SENHOR


Uma experiência fascinante
A contemplação de Jesus transfigurado foi uma experiência fascinante na vida dos três discípulos escolhidos pelo Mestre para subirem com ele ao alto monte. Neste lugar carregado de simbolismo (a montanha era tida como o lugar privilegiado de encontro com Deus) puderam contemplar Jesus transfigurado, revestido de glória e majestade, e "vê-lo" no fulgor de sua santidade.
A transfiguração foi, de certo modo, uma antecipação da ressurreição. Depois de ressuscitado, o esplendor de sua glória já não fulguraria, por pouco tempo, para um grupo seleto de discípulos. Pelo contrário, não só poderia ser contemplada por todos os discípulos, como também deveria ser proclamada a todos os povos da Terra. A ordem de guardar segredo ("não dizer a ninguém a respeito da visão") perderia sua razão de ser.
Contudo, a contemplação do Ressuscitado haveria de ser precedida por uma experiência aterradora: a de ver o Messias Jesus pendente na cruz. O fascínio daria lugar ao pavor e à estupefação, porque a morte de cruz não encontraria explicação, uma vez que o Mestre sempre dera mostras de ser um homem justo e, em sua pregação, falara de Deus como um Pai amoroso e fiel.
Só quem fosse capaz de superar o impacto da cruz e reconhecer no Crucificado o Filho de Deus, chegaria a reconhecê-lo fascinantemente ressuscitado.
padre Jaldemir Vitório



O que sustenta nossa fé, é a graça da ressurreição do Senhor
A liturgia da palavra deste segundo domingo da Quaresma tem como intenção esclarecer a fé e fundar a esperança do povo de Deus. O livro do Gênesis, como o próprio nome o sugere, é o livro das origens; origem do universo com tudo o que contém e origem do povo de Deus; é o livro da origem do mal, mas também da fé no Deus único e verdadeiro.
O texto de hoje do livro do Gênesis visa nos fazer compreender o dinamismo que está na origem de nossa fé. Em primeiro lugar, está a palavra que Deus dirige ao ser humano (Gn. 12,1-3). No início da fé está um convite de Deus, um convite a sair, um convite à felicidade e à realização do ser humano. Felicidade e realização que estão contidas no verbo “abençoar”. Como a graça de Deus não é exclusiva, essa promessa e bênção dizem respeito a toda a humanidade (v. 3). No início de nossa fé está a palavra de Deus que convida o ser humano, guiado pela palavra do Senhor, a fazer uma migração para poder ser feliz. Para poder encontrar a felicidade e vivê-la como dom é preciso “sair” de si mesmo, de suas seguranças pessoais e se deixar conduzir por Deus.
O relato da transfiguração do Senhor é a sequência do primeiro anúncio da paixão, morte e ressurreição do Senhor e a apresentação das exigências para seguir Jesus (Mt. 16,21-23.24-28). Os discípulos têm dificuldade de aceitar o messianismo apresentado por Jesus, que passa pelo sofrimento e pela morte. O caminho do discípulo, no entanto, é o mesmo do Mestre.
A transfiguração é uma prolepse do mistério pascal de Jesus Cristo. Rosto brilhante como o sol, vestes brancas como a luz são expressões do modo bíblico de dizer que se trata de uma revelação de Deus. O que sustenta nossa vocação cristã, o que sustenta nossa fé, é a graça da ressurreição do Senhor. O sofrimento e a morte não são a última palavra. O Senhor, ressuscitando dos mortos, venceu o mal e a morte; glorioso, nos faz participantes de sua vitória. Esse é o conteúdo da esperança cristã. É preciso manter os ouvidos abertos e o olhar fixo no Senhor, que passou pelo sofrimento e pela morte, e ressuscitou. A experiência dos efeitos de sua ressurreição conduzem os discípulos, todos nós, a vivermos a adesão à pessoa de Jesus Cristo no cotidiano de nossa vida.
Carlos Alberto Contieri,sj



No domingo passado, primeiro da Quaresma, meditamos sobre as tentações de Jesus. O Senhor no deserto, lutando contra o diabo, convidava-nos ao combate espiritual, próprio do deserto quaresmal. Sim, porque é isso que o tempo santo que estamos vivendo deseja ser: tempo de retiro no deserto do coração para combater nossos demônios interiores e, pela oração, a penitência, a caridade fraterna, a escuta da Palavra de Deus e a reconciliação sacramental, caminharmos para a santa Páscoa.
Na liturgia deste hoje, ladeado por Moisés e Elias, que também enfrentaram durante quarenta dias e quarenta noites o combate no deserto para experimentarem o fulgor da glória de Deus, Jesus nos mostra qual a finalidade do nosso caminho quaresmal, Jesus nos revela aonde nos leva nosso combate espiritual. Qual o objetivo? Qual a finalidade? Ei-los: celebrar com ele a sua Páscoa, sendo com ele transfigurado em glória! Nosso objetivo, nosso escopo, o feliz e gozoso fim do nosso caminho é o Cristo envolto na sua glória pascal que nos transfigura também a nós! Mais que Moisés e Elias, nós seremos envolvidos da glória de Cristo, aquela glória que é o Espírito Santo que o Pai derramou sobre ele na sua ressurreição! Passaremos, portanto, do roxo quaresmal, tão sóbrio, para o esfuseante branco pascal, sinal da glória e da imortalidade, transfigurados em Jesus e por Jesus, o homem perfeito, modelo de todo ser humano que vem a este mundo. Um dia, meus caros em Cristo, passaremos do roxo das lágrimas desta vida, para o branco da glória eterna dos que, revestidos da glória do Cordeiro, haverão de segui-lo para sempre! De Quaresma em Quaresma e de Páscoa em Páscoa, passaremos da Quaresma deste mundo para a Páscoa da glória eterna!
Mas, detenhamo-nos um pouco no Tabor do Evangelho hodierno. Ele é prenúncio, uma misteriosa antecipação da ressurreição. Com sua bendita Transfiguração, Jesus deseja preparar o seus para as dores da paixão – do mesmo modo que a Igreja nos deseja alentar e motivar para as renúncias e observâncias quaresmais. Por isso mesmo, Pedro, Tiago e João, o três que estão no Tabor são os mesmos que estarão no Jardim das Oliveiras. Por isso também o Evangelho de hoje termina com uma alusão à ressurreição de Jesus dentre os mortos e, o relato da transfiguração em Lucas afirma que “Jesus falava de sua partida que iria consumar-se em Jerusalém” (9,30). Eis: Moisés e Elias, a Lei e os Profetas dão testemunho da paixão do Senhor: tudo estava no misterioso desígnio de Deus! Após a ressurreição, isso ficará claro: “Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória?’ E começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito” (Lc 34,26-27). Eis que mistério: a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) dão testemunho de Jesus e aparecem iluminados por ele. Somente nele, na luz da sua cruz e ressurreição, o Antigo Testamento encontra sua plenitude e sua luz!
Sendo assim, levantemo-nos! Tomemos, generosos, nosso caminho quaresmal! Também nós somos chamados, como nosso pai Abraão o foi, a sair: sair de nós mesmos, sair de nós velhos para nós renovados, transfigurados à imagem do Cristo Jesus! Tenhamos a coragem de atravessar o deserto interior, enfrentar o deserto do nosso coração, como Moisés e Elias, como o povo de Israel, como o próprio Senhor Jesus, que por nós quis ser tentado no seu período de deserto! Somente assim chegaremos renovados e purificados ao nosso destino. Este destino não é um lugar, mas uma situação, uma realidade: é o homem novo, transfigurado à imagem do Cristo que, após o tormento imenso da cruz, foi glorificado pelo Espírito do Pai. Eis o caminho quaresmal: do homem velho ao homem novo, do pecado à graça, do vício à virtude, da preguiça espiritual à generosidade, da morte à vida, da tristeza à alegria… trazendo em nós, na nossa vida, o reflexo da glória do próprio Cristo Jesus! Não é este o significado das palavras de São Paulo, na segunda leitura de hoje? “Sofre comigo pelo Evangelho. Deus nos salvou e nos chamou a uma vocação santa… em virtude da graça que nos foi dada em Jesus Cristo. Esta graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade”. Eis! Os sofrimentos e lutas desta vida não são pesados se compararmos com o objetivo tão alto que nos preparam!
Caríssimos, que as práticas quaresmais, vividas com generosa fidelidade, arrancando o pecado que nos torna opacos, possam revelar em nós o resplendor da glória de Cristo a que somos chamados e que já está presente em nós desde o nosso batismo!
Mais ainda: que a novidade de nossa vida transborde para o mundo, que tanto tem necessidade do testemunho dos cristãos. Nunca esqueçamos: este mundo mergulhado na violência (violência da injustiça, violência do desrespeito à dignidade humana, violência da fome, violência dos atentados à paz, violência das drogas e das mentiras, violência dos meios de comunicação, violência da negação de Deus)… este mundo precisa de nosso testemunho e de nossa palavra, mesmo quando nos rejeita, quando despreza o nome de Cristo, quando deseja esquecer o seu Senhor e pisar os valores do Evangelho!
Deixemo-nos, portanto, transfigurar pelo Senhor e sejamos luz para o mundo! Como pede a oração inicial da Missa hodierna: Senhor, “que purificado o olhar da nossa fé, nos alegremos com a visão da vossa glória!”
dom Henrique Soares da Costa



Neste domingo a Palavra de Deus define o caminho que o verdadeiro discípulo deve seguir: é o caminho da escuta atenta de Deus e dos seus projetos, da obediência total e radical aos planos do Pai.
O Evangelho relata a transfiguração de Jesus. Recorrendo a elementos simbólicos do Antigo Testamento, o autor apresenta-nos uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que vai concretizar o seu projeto libertador em favor dos homens através do dom da vida. Aos discípulos, desanimados e assustados, Jesus diz: o caminho do dom da vida não conduz ao fracasso, mas à vida plena e definitiva. Segui-o, vós também.
Na primeira leitura apresenta-se a figura de Abraão. Abraão é o homem de fé, que vive numa constante escuta de Deus, que sabe ler os seus sinais, que aceita os apelos de Deus e que lhes responde com a obediência total e com a entrega confiada. Nesta perspectiva, ele é o modelo do crente que percebe o projeto de Deus e o segue de todo o coração.
Na segunda leitura, há um apelo aos seguidores de Jesus, no sentido de que sejam, de forma verdadeira, empenhada e coerente, as testemunhas do projeto de Deus no mundo. Nada – muito menos o medo, o comodismo e a instalação – pode distrair o discípulo dessa responsabilidade.
AMBIENTE
A primeira leitura de hoje faz parte de um bloco de textos a que se dá o nome genérico de “tradições patriarcais” (cf. Gn. 12-36). Trata-se de um conjunto de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, sem grande unidade e sem caráter de documento histórico. Nesses capítulos aparecem, de forma indiferenciada, “mitos de origem” (descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca do clã), “lendas cultuais” (narravam como um deus tinha aparecido nesse lugar ao patriarca do clã), indicações mais ou menos concretas sobre a vida dos clãs nômades que circularam pela Palestina durante o 2º milênio e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.
Por detrás do quadro teológico e catequético que nos é proposto, estão as migrações históricas de povos nômades, antepassados do povo bíblico, nos inícios do 2º milênio a.C. Por essa época, a história registra um forte movimento migratório de povos amorreus entre a Mesopotâmia e o Egito, passando pela terra de Canaã. São povos que não conseguiram fixar-se na Mesopotâmia (ou que tiveram de a abandonar por causa de convulsões políticas registradas nessa zona no início do 2º milênio) e que continuaram o seu caminho migratório, à procura de uma terra onde “plantar definitivamente a sua tenda”, de forma a escapar aos perigos e incomodidades da vida nômade. Os nossos patriarcas bíblicos fazem, provavelmente, parte dessa onda migratória.
Os clãs referenciados nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac e Jacob – tinham os seus sonhos e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. O deus aceite pelo grupo era o potencial concretizador desse ideal.
MENSAGEM
Nos capítulos anteriores (cf. Gn. 3-11), o autor descreveu uma humanidade que escolheu o pecado e que se afastou de Deus; agora, o autor vai apresentar um novo ponto de partida: Deus ainda não desistiu da humanidade e continua a querer construir com ela uma história de salvação. Para isso, interpela diretamente um homem no meio de uma multidão de nações. Esta “eleição” não é um privilégio, mas um convite a realizar uma tarefa difícil: ser um sinal de Deus no meio dos homens.
O tema central do nosso texto é a interpelação de Deus a Abraão. Segundo o teólogo jahwista, Deus chamou Abraão, convidou-o a deixar a sua terra e a sua família e a partir ao encontro de uma outra terra; ligado a este convite, aparece uma bênção e a promessa de a família de Abraão se tornar uma grande nação. Porquê esta iniciativa de Deus? Porquê o chamamento a este homem, em particular? O catequista jahwista não dá qualquer tipo de explicação. Temos aqui um exemplo perfeito desse mistério, sempre novo e sempre sem explicação, chamado “vocação”.
Como é que Abraão reage ao chamamento de Deus? É preciso ter em conta que, para os antigos, abandonar a terra (o horizonte natural onde o clã vive e onde tem as suas referências – inclusive em termos de paisagem), a pátria (isto é, o espaço onde o clã encontra o afeto e a solidariedade e, além disso, o seu espaço protegido por usos, leis e costumes) e a família (o círculo familiar íntimo, onde o homem encontra o apoio e o seu complemento), era pouco menos do que irrealizável. Abraão será capaz de arriscar tudo, deixando o seguro para apostar em algo nebuloso e incerto?
Diante do desafio de Deus, Abraão permanece mudo, sem discutir nem objetar. Com consumada mestria, o autor jahwista limita-se a descrever a sequência dos acontecimentos, como se as ações de Abraão valessem por mil explicações: o patriarca, simplesmente, pôs-se a caminho. O verbo “yalak” utilizado no vs. 4 (“ir”, “partir”, “pôr-se a caminho”) tem uma força extraordinária e expressa a audácia do crente que é capaz de arriscar tudo, de deixar o seguro para apostar em algo que não é certo, confiando apenas na Palavra de Deus. Trata-se de um rasgo maravilhoso, que define uma atitude de fé radical, de confiança total, de obediência incondicional aos desígnios de Deus. Esta é uma das passagens onde o que se conta de Abraão tem um valor de modelo: o autor jahwista pretende ensinar aos seus concidadãos a obediência cega às propostas de Deus.
Deus, por sua vez, compromete-se com Abraão e acena-lhe com uma promessa. A promessa expressa-se, neste contexto, através da bênção (a raiz “abençoar” é repetida cinco vezes, nestes poucos versículos). A bênção é uma comunicação de vida, através da qual Deus realiza a sua promessa de salvação. Na promessa aqui formulada, a bênção concretiza-se como descendência numerosa (noutros textos das “tradições patriarcais”, a bênção de Deus é, além da descendência numerosa, promessa de uma terra).
Particularmente importante, neste contexto da promessa é a idéia de que o Povo nascido de Abraão será uma fonte de bênção para todas as nações (v. 3c): inaugura-se, aqui, a idéia de que Israel é o centro do mundo e de que a sua “vocação” é ser testemunha da salvação de Deus diante de todos os povos da terra. Não se trata de um privilégio concedido a Israel, mas de uma responsabilidade.
ATUALIZAÇÃO
A figura de Abraão que nos foi apresentada pelos catequistas de Israel tem sido, ao longo dos tempos, uma figura inspiradora para todos os crentes. Abraão é o homem que encontra Deus, que está atento aos seus sinais e sabe interpretá-los, que responde aos desafios de Deus com uma obediência total e com uma entrega confiada… Esta figura constitui uma interpelação muito forte a esse homem moderno que nunca tem tempo para encontrar Deus nem para perceber os seus sinais, pois está demasiado ocupado a ganhar dinheiro ou a construir a carreira profissional. Eu tenho tempo para me encontrar com Deus, para aprofundar a comunhão com Ele? Preocupo-me em detectar a sua presença, as suas indicações e propostas nos acontecimentos do dia a dia? A minha resposta aos seus desafios é um “sim” incondicional, ou é uma procura de razões para justificar os meus pontos de vista e esquemas pessoais?
A figura de Abraão questiona, também, o homem instalado e comodista, que prefere apostar na segurança do que já tem, em vez de arriscar na novidade de Deus, ou deixar que a Palavra de Deus ponha em causa os seus velhos hábitos, a sua forma de vida e a sua instalação. Estou disposto a mudar, a “pôr-me a caminho” em direção a essa terra nova da vida plena e autêntica, ou prefiro continuar prisioneiro dos meus esquemas pré-concebidos, dos meus medos, dos meus velhos hábitos, das minhas velhas formas de pensar, de agir e de julgar os outros?
Este texto diz-nos, também, que por detrás da história da humanidade há um Deus que tem um projeto para os homens e para o mundo e que esse projeto é de amor e de salvação… Apesar de os homens O ignorarem e prescindirem das suas orientações e propostas, Deus continua a vir ao seu encontro, a desafiá-los a caminhar em direção ao novo, a propor-lhes ir mais além. O homem, por sua vez, é convidado a participar neste projeto, por meio da fé (entendida como adesão plena aos planos de Deus). Estou disposto a colaborar com esse Deus que tem um plano para o mundo e para os homens e a embarcar com Ele na construção de um mundo mais feliz?

2ª leitura – 2Tim. 1,8b-10 – AMBIENTE
Segundo os Atos dos Apóstolos, Paulo encontrou Timóteo em Listra, cidade da Licaónia, no decurso da sua segunda viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo devia ser ainda bastante jovem, nessa altura (cf. At. 16,1). No entanto, Paulo não hesitou em levá-lo consigo através da Ásia Menor, da Macedónia e da Grécia. Tímido e reservado, de saúde delicada (em 1Tim. 5,23 Paulo aconselha: "não continues a beber só água, mas mistura-a com um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes indisposições), Timóteo tornou-se um companheiro fiel e discreto do apóstolo no trabalho missionário. Para não ter problemas com os judeus, Paulo fê-lo circuncidar (cf. At. 16,3); e, numa data desconhecida para nós, Timóteo recebeu dos anciãos a “imposição das mãos” (cf. 1Tim 4,14) que o designava como enviado da comunidade para anunciar o Evangelho de Jesus.
A atividade de Timóteo está bastante ligada a Paulo, como o demonstram as contínuas referências que Paulo lhe faz nos seus escritos. Com ternura, Paulo refere-se a Timóteo como o “nosso irmão, colaborador de Deus na pregação do Evangelho de Cristo” (1Tes. 3,2); e faz referências a Timóteo nas Cartas aos Tessalonicenses (cf. 1Tes. 11,1; 2Tes. 1,1), na 2 Coríntios (cf. 2 Cor 1,1), na Carta aos Romanos (cf. Rom 16,21), na Carta aos Filipenses (cf. Fl. 1,1), na Carta aos Colossenses (cf. Col. 1,1) e na Carta a Filémon (cf. Flm. 1). Encarregou-o, também, de missões particulares entre os Tessalonicenses (cf. 1Tes. 3,2.6) e entre os Coríntios (cf. 1 Cor 4,17).
Em relação à segunda Carta a Timóteo há, no entanto, um problema sério: a maioria dos comentadores considera esta carta posterior a Paulo (o mesmo acontece com a 1 Timóteo e com a Carta a Tito), sobretudo por aí aparecer um modelo de organização da Igreja que parece ser de uma época tardia, isto é, de finais do séc. I ou princípios do séc. II). A questão continua em aberto.
Timóteo é, por esta altura, bispo de Éfeso, na costa ocidental da Ásia Menor. Estão a começar as grandes perseguições; muitos cristãos estão desanimados e vacilam na fé. É preciso que os líderes das comunidades – entre os quais está Timóteo – mantenham o ânimo e ajudem as comunidades a enfrentar, com fortaleza, as dificuldades que se avizinham.
MENSAGEM
O nosso texto apresenta-se como uma exortação de Paulo a Timóteo, convidando-o a superar a sua juventude e timidez e a ser um modelo de fidelidade e de fortaleza no testemunho da fé.
O autor da segunda carta a Timóteo apresenta os motivos que devem impulsionar Timóteo a cumprir com fidelidade a sua missão apostólica. Neste texto que nos é proposto, em concreto, o autor da carta recorda a Timóteo o projeto salvífico de Deus que, de forma gratuita, quer salvar os homens e chamá-los à santidade (cf. 2Tim. 1,9). Esse projeto manifestou-se em Jesus Cristo, o libertador, que destruiu a morte e o pecado e ofereceu a todos os homens a vida plena e definitiva (cf. 2Tim. 1,9-10). Ora Paulo (nesta altura prisioneiro por causa do Evangelho), Timóteo e todos os outros são as testemunhas deste projeto de Deus e não podem ficar calados diante do enfraquecimento da vida cristã que se constata nas comunidades; mesmo no meio das perseguições e dificuldades, eles não podem demitir-se da missão que Deus lhes confiou… Têm de ser testemunhas vivas, entusiastas e corajosas do projeto salvífico e amoroso de Deus.
ATUALIZAÇÃO
Mais uma vez somos convidados a recordar que Deus tem um projecto de salvação e de vida plena para os homens, para todos os homens. Quase todos os domingos, a Palavra de Deus convida-nos a tomar consciência desse fato; mas nunca é demais lembrá-lo, até porque os homens do nosso tempo tendem a esquecer Deus e a viver sem a consciência da sua presença, do seu amor, da sua preocupação com a nossa vida, a nossa realização, a nossa felicidade. Se tivéssemos sempre consciência de que temos um lugar cativo no projecto de Deus e que o próprio Deus está a velar pela nossa realização e pela nossa felicidade, certamente a vida teria um outro sentido e no nosso coração haveria mais serenidade, mais paz, mais esperança.
Também é preciso termos consciência de que nós, os crentes, somos, aqui e agora, as testemunhas vivas de Deus e do seu projeto para os homens e para o mundo. Nada – e muito menos o nosso comodismo e instalação – pode distrair-nos dessa responsabilidade. Os homens, nossos irmãos, têm de encontrar em nós – e particularmente naqueles a quem foi confiada a missão de animar e orientar a comunidade – sinais vivos de Deus, do seu amor, da sua bondade e ternura, da sua preocupação com os homens.
É verdade que não é fácil ser testemunha de Deus e do seu projeto. O mundo de hoje tende a ignorar os apelos de Deus ou até manifesta desprezo pelos valores do Evangelho (esses valores que temos de testemunhar, a fim de sermos sinais do mundo novo que Deus quer propor aos homens). No entanto, as dificuldades não podem ser uma desculpa para nos demitirmos das nossas responsabilidades e de levarmos a sério a vocação a que Deus nos chama.

Evangelho – Mt. 17,1-9 – AMBIENTE
A secção de Mt. 16,21-20,34 é uma catequese sobre o discipulado, como seguimento de Jesus até à cruz. O texto que hoje nos é proposto faz parte dessa catequese.
O relato da transfiguração de Jesus é antecedido do primeiro anúncio da paixão (cf. Mt. 16,21-23) e de uma instrução sobre as atitudes próprias do discípulo (convidado a renunciar a si mesmo, a tomar a sua cruz e a seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega da vida – cf. Mt. 16,24-28). Depois de terem ouvido falar do “caminho da cruz” e de terem constatado aquilo que Jesus pede aos que o querem seguir, os discípulos estão desanimados e frustrados, pois a aventura em que apostaram parece encaminhar-se para um rotundo fracasso; eles vêem esfumar-se – nessa cruz que irá ser plantada numa colina de Jerusalém – os seus sonhos de glória, de honras, de triunfos e perguntam-se se vale a pena seguir um mestre que nada mais tem para oferecer do que a morte na cruz.
É neste contexto que Mateus coloca o episódio da transfiguração. A cena constitui uma palavra de ânimo para os discípulos (e para os crentes, em geral), pois nela manifesta-se a glória de Jesus e atesta-se que Ele é – apesar da cruz que se aproxima – o Filho amado de Deus. Os discípulos recebem, assim, a garantia de que o projeto que Jesus apresenta é um projeto que vem de Deus; e, apesar das suas próprias dúvidas, recebem um complemento de esperança que lhes permite “embarcar” e apostar nesse projeto.
Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai colocar no quadro que descreve todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato fotográfico de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a ensinar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus.
MENSAGEM
Esta página de catequese, destinada a ensinar que Jesus é o Filho de Deus e que o projeto que Ele propõe vem de Deus, está construída sobre elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento. Que elementos são esses?
O monte situa-nos num contexto de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é no cimo de um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo.
A mudança do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex. 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei.
A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto (cf. Ex. 40,35; Nm. 9,18.22; 10,34).
Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt. 18,15-18; Mal 3,22-23).
O temor e a perturbação dos discípulos são a reação lógica de qualquer homem ou mulher diante da manifestação da grandeza, da onipotência e da majestade de Deus (cf. Ex. 19,16; 20,18-21).
As tendas parecem aludir à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas”, no deserto.
A mensagem fundamental, amassada com todos estes elementos, pretende dizer quem é Jesus. Recorrendo a simbologias do Antigo Testamento, o autor deixa claro que Jesus é o Filho amado de Deus, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas (Elias). Mais ainda: ele é um novo Moisés – isto é, aquele através de quem o próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos homens uma nova aliança.
Da ação libertadora de Jesus, o novo Moisés, irá nascer um novo Povo de Deus. Com esse novo Povo, Deus vai fazer uma nova aliança; e vai percorrer com ele os caminhos da história, conduzindo-o através do “deserto” que leva da escravidão à liberdade.
Esta apresentação tem como destinatários os discípulos de Jesus (esse grupo desanimado e frustrado porque no horizonte próximo do seu líder está a cruz e porque o mestre exige dos discípulos que aceitem percorrer um caminho semelhante). Aponta para a ressurreição, aqui anunciada pela glória de Deus que se manifesta em Jesus, pelas vestes resplandecentes (que lembram as vestes resplandecentes dos anjos que anunciam a ressurreição – cf. Mt. 28,3) e pelas palavras finais de Jesus (“não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do Homem ressuscitar dos mortos” – Mt. 17,9): diz-lhes que a cruz não será a palavra final, pois no fim do caminho de Jesus (e, consequentemente, dos discípulos que seguirem Jesus) está a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.
Uma palavra final para o desejo – manifestado por Pedro – de construir três tendas no cimo do monte, como se pretendesse “assentar arraiais” naquele quadro. O pormenor pode significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus. Jesus nem responde à proposta: Ele sabe que o projeto de Deus – esse projeto de construir um novo Povo de Deus e levá-lo da escravidão para a liberdade – tem de passar pelo caminho do dom da vida, da entrega total, do amor até às últimas consequências.
ATUALIZAÇÃO
A questão fundamental expressa no episódio da transfiguração está na revelação de Jesus como o Filho amado de Deus, que vai concretizar o projeto salvador e libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de si próprio por amor. Pela transfiguração de Jesus, Deus demonstra aos crentes de todas as épocas e lugares que uma existência feita dom não é fracassada – mesmo se termina na cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.
Na verdade, os homens do nosso tempo têm alguma dificuldade em perceber esta lógica… Para muitos dos nossos irmãos, a vida plena não está no amor levado até às últimas consequências (até ao dom total da vida), mas sim na preocupação egoísta com os seus interesses pessoais, com o seu orgulho, com o seu pequeno mundo privado; não está no serviço simples e humilde em favor dos irmãos (sobretudo dos mais débeis, dos mais marginalizados e dos mais infelizes), mas no assegurar para si próprio uma dose generosa de poder, de influência, de autoridade e de domínio, que dê a sensação de pertencer à categoria dos vencedores; não está numa vida vivida como dom, com humildade e simplicidade, mas numa vida feita um jogo complicado de conquista de honras, de glórias e de êxitos. Na verdade, onde é que está a realização plena do homem? Quem tem razão: Deus, ou os esquemas humanos que hoje dominam o mundo e que nos impõem uma lógica diferente da lógica do Evangelho?
Por vezes somos tentados pelo desânimo, porque não percebemos o alcance dos esquemas de Deus; ou então, parece que, seguindo a lógica de Deus, seremos sempre perdedores e fracassados, que nunca integraremos a elite dos senhores do mundo e que nunca chegaremos a conquistar o reconhecimento daqueles que caminham ao nosso lado… A transfiguração de Jesus grita-nos, do alto daquele monte: não desanimeis, pois a lógica de Deus não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim.
Os três discípulos, testemunhas da transfiguração, parecem não ter muita vontade de “descer à terra” e enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Representam todos aqueles que vivem de olhos postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, ser seguidor de Jesus obriga a “regressar ao mundo” para testemunhar aos homens – mesmo contra a corrente – que a realização autêntica está no dom da vida; obriga a atolarmo-nos no mundo, nos seus problemas e dramas, a fim de dar o nosso contributo para o aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. A religião não é um ópio que nos adormece, mas um compromisso com Deus, que se faz compromisso de amor com o mundo e com os homens.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho


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