6 de Agosto de 2017
TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR
6 de Agosto de 2017
Cor: Branco
Evangelho - Mt
17,1-9
·
A nossa transfiguração na forma positiva é aquela
que acontece pela graça de Deus, nas pessoas que vivem o Evangelho na
prática da fé. Assim, você olha no rosto daquele padre e em seu sorriso vê
Jesus Cristo. Continuar lendo
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“ESTE É O MEU FILHO AMADO, NO QUAL EU PUS TODO MEU AGRADO.”-
Olívia Coutinho
DOMINGO: TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR.
Dia 06 de Agosto de 2017
Evangelho de Mt17,1-9
A Igreja, no mês de agosto, nos convida a refletir sobre a
importância de descobrirmos e de vivermos a nossa vocação! Quem vive a sua
vocação, encontrou sentido para sua a vida!
A vocação nos direciona ao serviço, a sermos construtores de um
mundo melhor, dando testemunho de Jesus, na família, na comunidade, na
sociedade...
Quando nos colocamos a serviço da vida, já estamos respondendo a
nossa vocação primeira, nos posicionando contrários a qualquer sistema que gera
morte!
Jesus nos chama a exercer um determinado serviço, a assumirmos
livremente uma missão, quem diz “sim” ao seu chamado, tem o caminho aberto para
desenvolver o dom que Deus lhe deu.
Somos peregrinos da fé, dispostos a percorrer o mesmo caminho que
Jesus percorreu, atualizando esta caminhada, no contexto do mundo de hoje.
Enxertados em Jesus, não vamos ter dificuldades em viver de acordo
com o plano de Deus, no respeito e no cuidado com o que lhe é de mais
precioso, que é a vida humana!
O Evangelho que a liturgia de hoje nos apresenta, narra a
transfiguração de Jesus!
“Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a
um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles; o
seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz.”
A transfiguração de Jesus foi um prenuncio do seu retorno glorioso
para o Pai, momento, em que Ele revela aos discípulos, de forma visível, a sua
intimidade com o Pai, assegurando-os da sua ressurreição!
Na transfiguração, os discípulos Pedro, Tiago e João, puderam visualizar
o encontro de Jesus com o Pai. A partir de então, eles, que andavam tristes,
com as últimas revelações de Jesus, sobre o desfecho dolorido, de sua
trajetória terrena, se encheram de alegria, com a certeza, de que a vida e ação
de Jesus, não terminariam com a sua morte!
Jesus não transfigurou diante de todos os discípulos, Ele escolheu
apenas três, provavelmente, por serem os mais fortes, os que aguentariam
tamanha emoção!
Pedro Tiago e João, tiveram a alegria de testemunhar a
gloria de Jesus junto ao Pai! Um testemunho, que eles deveriam guardar, e
que a pedido de Jesus, só deveria ser revelado aos outros, após a sua
ressurreição.
Assim como Pedro desejou construir três tendas para que eles
pudessem ficar no alto da montanha com Jesus, longe dos perigos e sem precisar
batalhar a vida, nós também, certamente, desejaríamos o mesmo! Essa
pode ser a nossa grande tentação dos dias de hoje: buscar a nossa comodidade, o
nosso bem estar, sem pensar na necessidade do outro.
Rezar, ouvir e meditar a palavra agrada a Deus, mas Ele quer que
façamos muito mais! Deus quer, que desçamos do alto da “montanha”, que
voltemos à planície, pois é aqui, neste chão duro, que Ele quer contar conosco,
na construção do seu Reino, no amparo de tantos irmãos, que dependem da graça
de Deus agindo em nós, para se transfigurarem.
Precisamos sair de nossas tendas, abrir mão da nossa zona de
conforto, descruzar os nossos braços, desvendar os nossos olhos e nos por a
caminho, afinal, há muito que fazer neste mundo, que a cada dia vai perdendo de
vista, o horizonte da paz!
A transfiguração de Jesus nos trouxe a certeza, de que há uma vida
melhor por vir! Este episódio deve nos animar, afinal, foi transfigurado, que
Jesus nos mostrou o lado positivo da cruz! Estejamos certos: A cruz não é sinal
de morte, e sim, sinal de vitória, de vitória da vida sobre a morte!
Não deixemos que os ventos contrários, apaguem o brilho do
rosto transfigurado de Jesus, um brilho, que ficou impregnado em todos os
que creem Nele! Cultivemos este brilho, na certeza, de que ele nos
servirá de farol, nas nossas passagens, pelos os túneis escuros de nossa vida.
NESTE
DOMINGO, REZEMOS PELA A VOCAÇÃO À VIDA SACERDOTAL.
FIQUE NA PAZ DE
JESUS! – Olívia Coutinho
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Seguir a Deus é
assumir atitude de permanente êxodo. Abraão, nosso pai na fé, foi chamado por
Deus a pôr-se a caminho para a terra prometida. Foi provocado a deixar as
seguranças para entrar na dinâmica do plano de amor de Deus, visando a uma
“terra sem males”, uma sociedade de justiça e paz. Obedecendo ao chamado
divino, Abraão e sua família tornaram-se portadores da bênção divina para todo
o povo (1ª leitura). O cristão, continuamente, corre o risco de se equivocar a
respeito de Jesus e de sua proposta. Como Pedro no episódio da transfiguração,
tende a construir o “ninho” de proteção e de bem-estar, negligenciando as
implicâncias do seguimento de Jesus no caminho da cruz e da morte (Evangelho).
É bom prestar atenção nos conselhos de Paulo a Timóteo: são expressões de amor
e de solidariedade a quem passa por situações conflituosas. Timóteo é
encorajado a persistir no testemunho de Jesus Cristo, participando de seus
sofrimentos pela causa do evangelho (2ª leitura). Neste tempo propício de
penitência e conversão, somos convidados a ouvir o chamado que Deus nos faz
para sermos santos; é tempo propício para aprofundar a vocação que dele
recebemos e discernir o que é essencial do que é ilusório.
1ª leitura (Gn. 12,1-4a)
A fé que se transforma em caminho
A Bíblia nos
apresenta a figura de Abraão como o pai do povo de Israel. Sua fé e confiança
em Deus tornam-se a principal herança para as futuras gerações. Abraão é
representativo de grupos seminômades, em torno de 1500 a.C. Esses grupos, por
natureza, não se submetem à dominação do poder político, como o exercido
naquela época pelas cidades-estado. São caminhantes, sempre em busca de terra
fértil que proporcione pastagens para a sobrevivência dos seus rebanhos e,
consequentemente, de suas famílias e clãs.
A experiência que
Abraão possui de Deus está intimamente ligada ao estilo de vida dos pastores. A
garantia da terra e o senso de liberdade são fundamentais. A presença de Deus
se dá onde se encontram as famílias. Ele caminha com os pastores, conduz os
seus passos e lhes dá a terra de que necessitam. A terra é promessa e dom de
Deus, porém é necessário que Abraão esteja disposto a romper com as seguranças
que impedem a caminhada na direção que Deus lhe aponta.
Confiar no Deus da
promessa é ter a certeza de um mundo sem exploração e sem fome. Essa promessa é
motivadora para os movimentos populares, especialmente em época de opressão,
como aquela exercida pelo Egito e, posteriormente, pela monarquia israelita.
Abraão torna-se a “memória perigosa” que desacomoda os oprimidos,
proporcionando-lhes inspiração para a resistência e a mobilização em vista de
uma nova sociedade.
2ª leitura (2Tm. 1,8b-10)
A santa vocação
A segunda carta a
Timóteo faz parte das tradicionalmente conhecidas “cartas pastorais” (junto com
1Tm. e Tt.). São dirigidas aos animadores de Igrejas cristãs, num tom pessoal.
Os autores atribuem essas cartas a Paulo. Foram escritas algum tempo depois de
sua morte, no intuito de iluminar e fortalecer a missão desses “pastores” junto
às comunidades.
Timóteo havia sido um
companheiro de Paulo. Participou da segunda e terceira viagens missionárias.
Pessoa de confiança e dedicado à evangelização. Paulo podia contar com ele para
enviá-lo às comunidades a fim de levar instruções e animar a fé dos cristãos.
Após a morte de Paulo, continuou a missão de ministro da Palavra, revelando-se
como importante liderança. A tradição o venera como bispo de Éfeso.
Etimologicamente, Timóteo significa “aquele que honra a Deus”.
O texto da leitura de
hoje indica uma situação difícil pela qual está passando Timóteo. O intuito é
confortá-lo e animá-lo à perseverança. Timóteo é convidado a participar
solidariamente dos sofrimentos pelos quais Paulo também passou por causa do
evangelho. Quem assumiu a missão de servir à Palavra não pode sucumbir às
dificuldades nem manifestar-se timidamente. A tribulação é inerente ao anúncio
do evangelho quando feito com autenticidade. Como aconteceu com Jesus, também
acontece com os seus discípulos. Nessa mesma carta, encontramos o alerta:
“Todos os que quiserem viver com piedade em Cristo Jesus serão perseguidos”
(3,12).
A confiança plena na
graça de Deus deve ser característica da pessoa que evangeliza. Deus nos salvou
gratuitamente em Jesus Cristo. Ele nos chama com uma santa vocação para
servi-lo e amá-lo. A santidade nos faz andar cotidianamente na intimidade
divina, como o fez Jesus. A pessoa santa é portadora da graça e irradiadora da
boa notícia de Jesus, o Salvador, que venceu a morte e fez brilhar a vida. A
missão de Timóteo e de toda pessoa seguidora de Jesus é anunciar, de modo
permanente e corajoso, esse projeto salvador de Deus, concebido desde toda a
eternidade e revelado plenamente em Jesus Cristo.
Evangelho (Mt 17,1-9)
A transfiguração de Jesus
A narrativa da
transfiguração de Jesus está permeada de elementos simbólicos teologicamente
muito significativos. Vemos Jesus subindo à montanha com Pedro, Tiago e João.
Todos participam de uma experiência mística inédita. Moisés e Elias também se
fazem presentes e dialogam com Jesus.
Lembremos,
especialmente, que a comunidade de Mateus é formada de judeus que vivem a fé
cristã. Portanto, é importante que a tradição judaica seja respeitada e
aprofundada agora em novo contexto. Assim, a montanha tem um significado
especial de manifestação de Deus. Basta lembrar o dom da Lei de Deus a Moisés
no monte Sinai. Assim também a expressão “seis dias depois”, bem como a
presença da nuvem. Lemos em Ex. 24,16: “Quando Moisés subiu ao monte, a nuvem
cobriu o monte. A glória do Senhor pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o
cobriu durante seis dias”. Como vemos, há íntima relação entre a transfiguração
de Jesus e a experiência religiosa de Moisés. É um momento extraordinário de
manifestação divina. Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas, caminho
que aponta para o Messias. Jesus é o cumprimento da promessa do Pai revelada na
Sagrada Escritura.
Podemos considerar
como centro dessa narrativa a declaração de Deus: “Este é meu Filho amado, nele
está meu pleno agrado: escutai-o”. Essa voz que vem do céu declarando a filiação
divina de Jesus também se fez ouvir no seu batismo (Mt. 3,17). É, sem dúvida, a
confissão de fé da comunidade cristã, representada nesse momento por Pedro,
Tiago e João. De fato, os discípulos, no barco, reconhecem a Jesus caminhando
sobre as águas e salvando a Pedro de sua fraqueza de fé: “Verdadeiramente, tu
és o Filho de Deus” (14,33). Na ocasião em que Jesus pergunta o que dizem dele,
Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (16,16). É no momento da
morte de Jesus que o centurião e os guardas declaram: “De fato, esse era Filho
de Deus” (27,54). O anúncio da verdade sobre Jesus não foi feito aos que
detinham o poder político ou religioso. Também não foi feito em algum centro ou
instituição importante. E sim a um grupo de gente simples, num lugar social
periférico.
O imperativo
“escutai-o” enfatiza a perfeita relação entre a profissão de fé em Jesus como
“Filho de Deus” e a atenção cuidadosa ao seu ensinamento. O elemento
fundamental do ensino de Jesus é que ele terá de passar pelo sofrimento e pela
morte, na perspectiva do “Servo sofredor” anunciado pelo profeta Isaías (cf.
42,1-9). Não é por acaso que Mateus insere o relato da transfiguração logo após
o primeiro anúncio de sua paixão e morte e o convite ao discipulado: “Se alguém
quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (16,24).
Portanto, os discípulos deverão compreender que o caminho para o seguimento de
Jesus, Servo de Deus, implica “descer da montanha” e assumir as consequências,
conforme o testemunho do Mestre. Porém, esse não é um caminho derrotista. A
vida triunfa sobre a morte. A glória de Deus se manifestará plenamente na
ressurreição. A transfiguração é um sinal antecipado da realidade da Páscoa.
Pistas para reflexão
– Pôr-se à disposição
de Deus. As leituras deste domingo nos apontam a dinâmica do projeto libertador
de Deus: deixar as seguranças que nos engessam para nos pormos a caminho da
terra que Deus deseja para a humanidade. Como Abraão e sua família, nós também
podemos assumir a fé e a total confiança em Deus, que sustenta e guia os nossos
passos na verdade, na justiça e no amor. Essa é a melhor herança que podemos
deixar às futuras gerações.
– Assumir a missão de
evangelizar. Timóteo, “aquele que honra a Deus”, assumiu a missão de anunciar o
evangelho de forma corajosa e perseverante mesmo nas situações difíceis; também
nós podemos ser anunciadores da boa notícia de Jesus em nossas famílias, na
comunidade e na sociedade. Isso acontece pela coerência entre fé e vida, pelo
testemunho de doação alegre, também pela constância no testemunho de diálogo e
de fraternidade. Assim, estaremos respondendo à “santa vocação” a que fomos
chamados pela bondade de Deus.
– A vida é um
permanente caminhar. Jesus foi a grande manifestação de Deus para a humanidade.
Pedro, Tiago e João foram agraciados com uma experiência maravilhosa,
participando da transfiguração de Jesus. Também em nossa vida, Deus nos concede
momentos de muita luz, consolo e força. Tendemos, porém, a buscar e a nos
acomodar ao que nos garante bem-estar, prazeres, sensações agradáveis... Não
podemos esquecer que seguir a Jesus implica “descer da montanha” do egoísmo e
da acomodação. Seguir a Jesus é entregar-se pela causa da vida digna sem
exclusão, alicerçada na justiça e na igualdade. Para isso, conforme nos convoca
a Campanha da Fraternidade, faz-se necessário o cuidado com a terra, a casa
comum que abriga a todos os seres.
Celso Loraschi
Por um tempo seu rosto se iluminou
Domingo da transfiguração... O rosto de Jesus refulge. Brilha com
a força do sol.
Os fatos se dão sobre uma alta montanha. Montanha, espaço de silêncio,
lugar de onde se descortinam paisagens deslumbrantes, espaço afastado das
coisas “pequenas” e “cotidianas”. Alta montanha que lembra tantas montanhas que
aparecem nos textos escriturísticos. Montanha, lugar de Deus.
O Mestre se faz acompanhar por três de seus apóstolos: “Jesus tomou
consigo Pedro, Tiago e João, se irmão e os levou a um lugar à
parte...”.Reserva aos seus momentos de uma profunda e decisiva experiência.
Chega então o momento central da cena: Jesus se transfigura, ganha
“outra figura”. Aquele Mestre tão parecido com todos os seres humanos da face
da terra tinha agora uma claridade inesperada. “E foi transfigurado diante
deles; o seu rosto brilhou como o sol e suas roupas ficaram brancas como a
luz”. Jesus se tornava claridade, luminosidade, beleza luminosa. O Mestre
que havia chamado os apóstolos viera da luz e agora, ali diante dos três,
mostrava sua origem. Em volta de Jesus todo iluminado o Moisés da montanha dos
mandamentos e o Elias, luminoso, da montanha do Horeb, que foi levado para o
céu num resplandecente carro de fogo.
Nada mais natural que os discípulos quisessem perpetuar aquele
momento. Eles faziam a experiência da glória do Senhor. Esse Jesus
que os havia chamado está na atmosfera de Deus.
Comentando a reação de Pedro, Beda Veneravel escreve: “Que felicidade
não será ver a divindade entre os coros dos anjos e lá estar para sempre! O
simples fato de ver mesmo só por um instante, a humanidade de Cristo
transfigurada na companhia de dois santos, deleita a tal ponto que, com medo de
se afastarem Pedro, cheio de entusiasmo deseja retê-los. Se em sua
fraqueza humana ele não sabe o que diz, dá, no entanto, testemunho de um
sentimento gravado em sua alma”. No meio de tudo, de dentro da nuvem de
Deus, uma solene declaração: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o
meu agrado. Escutai-o”. Tudo isso nos toca profundamente, a nós que não vivemos
a experiência com nossos sentidos, mas que a podemos refazer na dimensão da fé.
Jesus, o mais belo de todos os filhos dos homens, aquele que é o Filho
eterno do Pai de toda luz. E a cena se desfaz. O rosto de Jesus torna a ser o
rosto de um homem... Ele vai caminhar até sua paixão. Nesse momento não haverá
luz nem claridade em seu semblante. Por um tempo seu rosto se
iluminou....Depois haveria de ser coberto de escarros, de poeira, de lágrimas e
de dor.
Nesse momento, por alguns momentos, o rosto de Jesus se ilumina. Depois
será coberto de sombras até que chegue a manha luminosa da Páscoa.
frei Almir Ribeiro Guimarães
Pela Cruz à Glória
Cada ano, o segundo domingo quaresmal traz o evangelho da
Transfiguração, no início da subida de Jesus a Jerusalém, onde ele levará a
termo a vontade do Pai.
Acompanhamos Jesus no seu caminho. Ora, neste caminho, para não
desfalecermos em nossa fé, é bom termos diante dos olhos – como João, Tiago e
Pedro, as testemunhas privilegiadas – a glória daquele que vai ser aniquilado,
o Filho e Servo de Deus. E escutarmos a voz que sai da nuvem: “Escutai-o”.
Cada ano, também, a 1ª leitura apresenta um dos grandes momentos da
caminhada do antigo povo de Deus; neste ano (A), a vocação de Abraão. “Sai da
tua terra”. Largar o que consideramos adquirido é a condição para caminhar no
rumo que Deus indica. A 2ª leitura é um breve comentário a isso. Aponta a
“vocação santa” que recebemos em virtude do desígnio de Deus e com a ajuda
transformadora de sua graça, dada em Cristo, no qual resplandece a vitória
sobre a morte. Essa vitória final, Pedro, Tiago e João a viram antecipadamente,
e atestada por Moisés (a Lei) e Elias (os Profetas), no monte da Transfiguração
(evangelho; prefácio próprio). A visão desta glória é acompanhada pela voz:
“Escutai-o”, que lembra o “Ouve Israel” de Dt. 6,4. É um prelúdio da
ressurreição - por isso as testemunhas devem guardar o silêncio até que esta se
realize.
Jesus revela em si mesmo o termo de nossa vocação, na medida em que nós
nos unimos a ele pela obediência à autoridade de sua palavra, pela adesão da
fé. Assim, nossa vida não é posição adquirida, mas caminho, dinamizado por uma
vocação cujo termo, embora ainda escondido, já é revelado em Jesus Cristo.
Nossa adesão a ele nos move de etapa em etapa. Sua glória é a luz que ilumina o
caminho que nós somos chamados a percorrer. A seqüência da predição da Paixão
(Mt. 16,21-23) e da Transfiguração de Jesus (17,1-9) projeta para nós esse
caminho: “pela cruz à glória” (prefácio próprio). A lógica de Deus entra em
choque com o mundo, que só quer conquistar e dominar, mas é vitoriosa em quem é
fiel.
Para essa caminhada - assim reza a oração do dia - é preciso que sejamos
alimentados com a palavra que nos vem através do Filho Amado (“Escutai-o”).
Assim, com o olhar da fé purificado, participaremos já na terra da realidade
eterna de Deus mesmo (oração final).
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
Abraão, pai dos
povos, pai da fé
Vimos, na semana passada, o sentido da
“pré-história”, conforme narrada na Bíblia (Gn 1–11): recuando imaginariamente
até os inícios da humanidade, a Bíblia descreve o ser humano universal, na
grandeza de sua vocação, na queda causada pela ambição desmedida, e na Aliança
que Deus faz com Noé para não destruir a humanidade.
Depois desse prelúdio, a Bíblia se põe
a contar a história do povo de Israel, começando pela figura de seu patriarca,
Abraão, que conforme o nosso conhecimento da história geral deve ser situado
por volta de 1800 antes de Cristo.
Mas Abraão não é somente o patriarca
dos israelitas. Ele é um estrangeiro, ele vem de longe, da terra das grandes
culturas antigas, Ur da Caldéia (mais tarde chamada Babilônia, hoje em dia,
Iraque) (Gn 11,31-33). Ele mora um tempo em Arâm (Síria). Depois passa como
nômade pela terra que futuramente será a terra de Israel. E finalmente
encontramo-lo na fronteira do Egito. Ele é o ancestral não só de Israel, mas
também dos povos vizinhos. Antes de ter o filho prometido, Isaac, que será o
pai de Jacó, ou Israel, ele tem um filho de sua escrava, chamado Ismael, que é
o patriarca dos árabes e venerado como tal pelo Islão.
A figura de Abraão é, portanto, uma
figura polivalente. É o pai dos povos nômades do Médio Oriente. Nele, todos
esses povos se encontram. Apesar das brigas intermináveis que os separam, eles
são povos irmãos. Se Israel, no auge de sua vida nacional, possui uma terra,
não é porque sempre esteve aí, mas porque Deus prometeu essa terra aos
descendentes de Sara, mulher legítima de Abraão. Assim, a consciência nacional
de Israel distingue entre o próprio grupo e os outros: eles são descendentes do
“filho de família”, Isaac, pai de Jacó-Israel; os árabes são descendentes do
filho natural, Ismael... Mas são irmãos!
O mais importante em Abraão é a sua fé.
Ele acreditou na promessa de Deus. Sem isso, não seria o “pai da multidão”,
como significa seu nome, nem o patriarca de Israel. Já sua saída da terra de Ur
dos Caldeus é um ato de fé. Ele obedece à palavra que ele ouve: “Sai da tua
terra” (Gn 12,1). E mais tarde, contra toda a probabilidade, ele acredita na
promessa de ter um filho legítimo de sua esposa Sara; por esta fé confiante,
Deus o considera justo e amigo seu (Gn 15,1-6).
Esta fama de “pai da fé” acompanhou
Abraão através da Bíblia até no Novo Testamento, sendo interpretada de modos
diferentes pelos diversos teólogos cristãos. Na Carta aos Romanos (Rm 4,3),
Paulo diz que Abraão foi considerado justo por Deus porque ele acreditou na
promessa de ter uma descendência (cita Gn 15,1-6; ver também Gl 3,6). Já a
Carta de Tiago julga que Abraão foi considerado justo não apenas por ter crido,
mas por ter comprovado esta fé por seus atos, e a prova disso é que ele se
dispôs a sacrificar o “filho da promessa”, o único filho legítimo, Isaac, se
tal fosse a vontade de Deus (Tg 2,21-23). A Carta aos Hebreus vê a fé de Abraão
em diversos momentos: quando ele acata o chamado de sair de sua terra (Hb
11,8), quando ele se arrisca a viver como estrangeiro entre os outros povos
(11,8-9); quando acredita que se tornará pai de numerosos descendentes apesar
da idade avançada (11,10). E, sobretudo, quando é posto à prova por Deus, para
ver se ele seria capaz de oferecer seu próprio filho (11,17-19).
É certamente por este aspecto que a
figura de Abraão aparece na liturgia do 2º domingo da Quaresma, tempo de
conversão, tempo de dar a Deus o primeiro lugar em nosso coração.
padre Johan Konings
"Descobrir a Bíblia partir da liturgia"
Levantai-vos, não
tenhais medo. (Mt. 17,7b).
Primeira Leitura: Gn. 12,1-4a.
... Abraão partiu como o Senhor lhe
havia dito (Gn. 12,4a).
A Liturgia da Palavra deste domingo nos
convida a confiar em Deus quando o que Ele nos pede parece estar muito acima de
nossas forças.
Assim nesta Primeira Leitura nos
deparamos com a cena do primeiro encontro de Deus com um ser humano na
história: Deus chama Abraão, revelando-Se somente a ele.
A vida de Abraão, ao que parece, até
aquele momento estava muito bem. Ele vivia com seu pai e seus irmãos, era
casado com Sara, tinha seu rebanho, vivia em paz.
Mas o chamado de Deus lhe tira este
conforto.
Logo de início Deus lhe dá ordens:
“Sai da tua terra, da tua família e da
casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar” (Gn. 12,1).
Já esta ordem de Deus surpreendeu a
Abraão, que se interrogava: que Deus é este que logo começa me dando ordens?
Mas Deus lhe revela um plano
grandiosíssimo:
“Farei de ti um grande povo e te
abençoarei ...
... em ti serão abençoadas todas as
famílias da terra” (Gn. 12,2a.3c).
A Bênção de Deus era bem-vinda.
Mas fazer de Abraão o início de um
grande povo já era um desafio para sua fé.
Como Abraão seria iniciador de um grande
povo, se sua esposa, Sara, não podia ter filhos?
Mas este temor logo se desfez, porque
Deus também abençoara Abraão. A Bênção divina garantiria uma descendência a
ele, mesmo que de início não soubesse como.
Aqui entrou a fé de Abraão em Deus: se
Deus promete, cumpre.
Se Deus abençoa, a descendência virá,
como Deus determinar.
O exemplo de Abraão, desde o início de
sua chamada por Deus, é de enfrentamento dos desafios que a fé em Seu Deus lhe
impõe.
Não há fé sem aceitação de seus
desafios.
Deus pode nos pedir uma fé cega no que
nos propõe e promete em nossa vida.
Como Abraão, não tenhamos medo, e sim
confiança no poder de Deus.
Para Ele tudo é possível.
Salmo Responsorial: Sl 32(33),4-22.
No Senhor nós esperamos confiantes,
porque Ele é nosso auxílio e proteção
[Sl 32(33),20].
A confiança que Abraão teve em Deus foi
passada para seus descendentes, o Povo Eleito.
Este Povo Eleito considerou, por
séculos, seu relacionamento com Deus, relacionamento fundado na fé e na
confiança total. De fato o Salmo hoje nos diz:
No Senhor nós esperamos confiantes,
porque Ele é nosso auxílio e proteção. [Sl 32(33),20].
Diz ainda mais, confirmando a fé em
Deus perante os desafios que esta fé exige:
... reta é a palavra do Senhor, e tudo
o que Ele faz merece fé. [Sl. 32(33),4].
Como os homens devem corresponder a
tudo isto? Continua o Salmo:
... o Senhor pousa o olhar sobre os que
O temem,
e que confiam esperando em Seu Amor,
para da morte libertar as suas vidas e alimentá-los em tempo de penúria. [Sl.
32(33),18-19].
Não foi este tipo de experiência que os
filhos de Abraão, o Povo de Deus,teve desde o dia em que se puseram a caminho
da terra prometida? Caminharam por desertos, detiveram-se em Canaã, foram para
o Egito, voltaram a Canaã no êxodo pelo deserto, sofreram a fome e a sede. Mas
Deus os salvou.
Deus os salvou porque os descendentes
de Abraão O temiam.
Deus os salvou porque confiaram em Seu
Amor.
Deus os salvou da morte para manter em
vida seu Povo Eleito.
Deus os salvou quando quase estavam
para desaparecer: Ele os alimentou na penúria.
O que é mais importante no ensino deste
Salmo?
É a fé em Deus mesmo diante dos
desafios que esta fé impõe.
Rezemos, portanto, este Salmo, naquelas
situações de grandes perigos que nossa vida nos traz.
Aprendamos dos filhos de Abraão a temer
a Deus, a confiar em Seu Amor, a sermos salvos das doenças e da morte, e das
penúrias materiais e espirituais.
Segunda Leitura: 2Tm 1,8b-10.
Sofre comigo pelo Evangelho, pelo poder
de Deus (2Tm 1,8b).
A Segunda Carta de São Paulo a São
Timóteo é considerada seu testamento espiritual.
São Paulo está no fim de sua vida.
Ele não quer que tudo o que Deus lhe
deu para cumprir sua missão fique perdido, mas tenha alguém para receber esta
imensa herança.
Este alguém é São Timóteo, seu auxiliar
mais fiel de todos.
São Timóteo ainda era adolescente
quando seguiu São Paulo, deixando para trás sua mãe Eunice, seu pai e sua avó
Lóide (2Tm. 1,5).
Em muitas viagens esteve ao lado de São
Paulo.
Com ele enfrentou muitos dos perigos
que São Paulo enumera em 2Cor 11,23-28: prisões, açoites, perigos de morte,
perigos de salteadores, perigos nas mãos dos judeus que os queriam matar;
perigos no deserto, no mar; perigos pelo excesso de trabalho, pela fome, pela
sede, pelo frio, pela falta de agasalhos, pelas vigílias das longas noites em
oração; tudo isto, além da preocupação com cada comunidade que fundaram.
A missão que Jesus Cristo confiara a
São Paulo incluía muitos sacrifícios, sofrimentos, desafios inesperados. Foi o
que Ananias lhe revelou, assim que se converteu e foi batizado em Damasco: ...
Eu lhe mostrarei quanto ele deve sofrer pelo Meu Nome (At. 9,16).
E foi assim que São Paulo viveu toda
sua vida de apóstolo.
Por isso esperava o apoio de São
Timóteo, dizendo-lhe:
Sofre comigo pelo Evangelho,
fortificado pelo poder de Deus (2Tm 1,8b).
Notemos que São Paulo não sofreu sem
sentido, nem sozinho.
Deus sempre esteve a seu lado:
fortificado pelo poder de Deus (2Tm 1,8b).
São Paulo disse mais a São Timóteo:
10 Tu, porém, tens seguido, de perto, o
meu ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, perseverança,
11 as minhas perseguições e os meus
sofrimentos, quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra.
Quantas perseguições tenho suportado!
De todas, entretanto, me livrou o
Senhor.
Não vemos aqui um eco do Salmo
Responsorial de hoje?
Recordemos novamente o Salmo:
... o Senhor pousa o olhar sobre os que
O temem, e que confiam esperando em Seu Amor, para da morte libertar as suas
vidas e alimentá-los em tempo de penúria. [Sl 32(33),18-19].
Se Deus tratou assim São Paulo e seus
ajudantes, tratará também de nós, que O tememos e confiamos em Seu Amor.
Sejamos, portanto, dignos de nossa fé, de seus desafios e do auxílio que Deus
nos dá.
E nesta Quaresma, repensemos a história
de nossa vida de fé.
Encontraremos momentos comparáveis aos
de São Paulo, e veremos como Deus nos livrou de tantos perigos!
Evangelho: Mt 17,1-9.
Levantai-vos, não tenhais medo (Mt
17,7b).
Estamos habituados a meditar sobre a
Transfiguração de Jesus e extrair deste Evangelho as lições habituais.
Mas há um aspecto sobre o qual pouco
pensamos.
Quando os apóstolos vêem Jesus no
esplendor de Sua Glória, ficam com medo.
Medo do esplendor de Jesus?
Não parece ser este o tipo de temor que
tiveram. Pelo contrário ver Jesus em Glória deve tê-los deixado orgulhosos por
conhecer a glória de seu Mestre. O temor, no entanto, era de outra natureza.
Se Jesus tinha tanto Poder e Glória, o
temor dos apóstolos era o de corresponder à altura da grandeza do Mestre.
A voz de Deus, que dizia: Este é o meu
Filho amado, em quem me comprazo; a Ele ouvi. (Mt 17,5c), encheu os discípulos
de temor e reverência. Eles não sabiam sequer qual reação ter naquele momento.
A ordem divina: ... a Ele ouvi, soava
como um desafio divino a homens conscientes de sua limitação humana. Como
“ouvir”, isto é, aceitar Jesus conforme as exigências de alguém tão poderoso,
nada menos que Deus?
Com o tempo os apóstolos verão que
“ouvir” a Jesus implicava dispor da própria vida.
Jesus será claro com eles: ... quem
perder a vida por minha causa, achá-la-á. (Mt 10,39).
Portanto os discípulos de Jesus reagiam
humanamente com medo dos desafios daquele chamado.
No entanto, nenhum rejeitou Jesus. É
claro que Ele os fortaleceu dizendo:
Levantai-vos, não tenhais medo (Mt
17,7b).
É claro, também, que depois de revê-lo
no esplendor de sua Ressurreição todos os discípulos passaram a confiar em Seu
mestre com grande segurança.
Maior segurança ainda lhe foi dada com
o dom do Espírito Santo no dia de Pentecostes. A partir deste dia ficaram
destemidos a ponto de darem a vida por Jesus no martírio que muitos deles
sofreram.
Aprendamos dos apóstolos também a
confiar em Jesus Cristo.
Sabemos que Ele nos acompanha sempre,
todos os dias, porque Ele disse:
... estou convosco todos os dias até à
consumação do século. (Mt 28,20).
Jesus Cristo está conosco ao longo de
toda esta Quaresma.
Ele nos chama a uma conversão que pode
parecer dolorosa.
Mas lembremos como Ele confirmou seus
discípulos e os fortaleceu a ponto de eles aceitarem até mesmo a morte do
martírio.
Jesus não nos pede o martírio, mas
nosso coração. Vamos entregá-lo a Ele.
padre Valdir
Marques, SJ
O Evangelho de hoje descreve a
transfiguração de Jesus no monte Tabor, no início de sua subida a Jerusalém,
onde será preso, julgado e crucificado.
Jesus havia dito aos apóstolos que o
Filho do Homem iria sofrer em Jerusalém e que morreria nas mãos dos sumos
sacerdotes, dos escribas e dos anciãos. Mediante a aflição e a tristeza dos
seus seguidores, por causa das Suas revelações, Jesus oferece o consolo para
fortalecê-los. Ele escolhe três discípulos – os mesmos que vão testemunhar a
sua agonia no horto das Oliveiras por ocasião de sua paixão. Estes são
favorecidos por poderem contemplar o momento glorioso da Transfiguração de
Jesus, a fim de se fortalecerem para enfrentar as dificuldades que terão de
enfrentar.
Era necessário mostrar para os
discípulos o resultado final da Sua luta por um Reino de justiça, e que a Sua
vida e a Sua ação não terminariam com a Sua morte. Neste sentido, a
Transfiguração é sinal de Ressurreição. É Jesus vencendo a morte. Ele revela,
neste momento que, para “entrar na sua glória” é necessário passar pela Cruz em
Jerusalém. Todos os que O ouvem e O seguem participam de sua vitória final,
quando então ressuscitarão com Ele.
A presença de Moisés e Elias no momento
da Transfiguração remete ao Primeiro Testamento. Moisés representa a lei, e
Elias, os profetas. A Lei e as profecias eram o caminho de Deus para anunciar o
seu plano de salvação, e a transfiguração mostra que Jesus é o novo Moisés e o
novo Profeta, por meio do qual chega aos homens a sua Justiça.
A presença dos discípulos na cena da
Transfiguração mostra que o projeto de Deus no Primeiro Testamento e o projeto
de Jesus no Segundo Testamento estão interligados.
A reação de Pedro, ao convocar Jesus a
permanecer ali, revela uma atitude de acomodação perante a glória. Pedro quer
reter o Jesus Glorioso junto com Moisés e Elias. Porém, Jesus aproveita a
oportunidade para ensinar que a lógica de Deus é diferente da dos homens, pois
a glória virá depois da luta e da dor.
A nuvem clara que aparece, indica a
presença forte do Espírito Santo, e a voz que sai dela é a personificação do
Pai. Neste momento, a Trindade se faz presente, como aconteceu também no
Batismo de Jesus. O Pai confirma a filiação divina de Seu Filho e mostra que
Ele é a autoridade, e que todos são convidados a ouvir o que Ele diz. E,
fortalecidos pela presença da Santíssima Trindade, os discípulos desceram do
Tabor.
PEQUENINOS DO SENHOR
Uma experiência
fascinante
A contemplação de Jesus transfigurado
foi uma experiência fascinante na vida dos três discípulos escolhidos pelo
Mestre para subirem com ele ao alto monte. Neste lugar carregado de simbolismo
(a montanha era tida como o lugar privilegiado de encontro com Deus) puderam
contemplar Jesus transfigurado, revestido de glória e majestade, e
"vê-lo" no fulgor de sua santidade.
A transfiguração foi, de certo modo,
uma antecipação da ressurreição. Depois de ressuscitado, o esplendor de sua
glória já não fulguraria, por pouco tempo, para um grupo seleto de discípulos.
Pelo contrário, não só poderia ser contemplada por todos os discípulos, como
também deveria ser proclamada a todos os povos da Terra. A ordem de guardar
segredo ("não dizer a ninguém a respeito da visão") perderia sua
razão de ser.
Contudo, a contemplação do Ressuscitado
haveria de ser precedida por uma experiência aterradora: a de ver o Messias
Jesus pendente na cruz. O fascínio daria lugar ao pavor e à estupefação, porque
a morte de cruz não encontraria explicação, uma vez que o Mestre sempre dera
mostras de ser um homem justo e, em sua pregação, falara de Deus como um Pai
amoroso e fiel.
Só quem fosse capaz de superar o
impacto da cruz e reconhecer no Crucificado o Filho de Deus, chegaria a
reconhecê-lo fascinantemente ressuscitado.
padre Jaldemir
Vitório
O que sustenta nossa fé, é a graça da ressurreição do Senhor
A liturgia da palavra
deste segundo domingo da Quaresma tem como intenção esclarecer a fé e fundar a
esperança do povo de Deus. O livro do Gênesis, como o próprio nome o sugere, é
o livro das origens; origem do universo com tudo o que contém e origem do povo
de Deus; é o livro da origem do mal, mas também da fé no Deus único e
verdadeiro.
O texto de hoje do
livro do Gênesis visa nos fazer compreender o dinamismo que está na origem de
nossa fé. Em primeiro lugar, está a palavra que Deus dirige ao ser humano (Gn.
12,1-3). No início da fé está um convite de Deus, um convite a sair, um convite
à felicidade e à realização do ser humano. Felicidade e realização que estão
contidas no verbo “abençoar”. Como a graça de Deus não é exclusiva, essa
promessa e bênção dizem respeito a toda a humanidade (v. 3). No início de nossa
fé está a palavra de Deus que convida o ser humano, guiado pela palavra do
Senhor, a fazer uma migração para poder ser feliz. Para poder encontrar a
felicidade e vivê-la como dom é preciso “sair” de si mesmo, de suas seguranças
pessoais e se deixar conduzir por Deus.
O relato da
transfiguração do Senhor é a sequência do primeiro anúncio da paixão, morte e
ressurreição do Senhor e a apresentação das exigências para seguir Jesus (Mt.
16,21-23.24-28). Os discípulos têm dificuldade de aceitar o messianismo
apresentado por Jesus, que passa pelo sofrimento e pela morte. O caminho do
discípulo, no entanto, é o mesmo do Mestre.
A transfiguração é
uma prolepse do mistério pascal de Jesus Cristo. Rosto brilhante como o sol,
vestes brancas como a luz são expressões do modo bíblico de dizer que se trata
de uma revelação de Deus. O que sustenta nossa vocação cristã, o que sustenta nossa
fé, é a graça da ressurreição do Senhor. O sofrimento e a morte não são a
última palavra. O Senhor, ressuscitando dos mortos, venceu o mal e a morte;
glorioso, nos faz participantes de sua vitória. Esse é o conteúdo da esperança
cristã. É preciso manter os ouvidos abertos e o olhar fixo no Senhor, que
passou pelo sofrimento e pela morte, e ressuscitou. A experiência dos efeitos
de sua ressurreição conduzem os discípulos, todos nós, a vivermos a adesão à
pessoa de Jesus Cristo no cotidiano de nossa vida.
Carlos Alberto Contieri,sj
No domingo passado, primeiro da
Quaresma, meditamos sobre as tentações de Jesus. O Senhor no deserto, lutando
contra o diabo, convidava-nos ao combate espiritual, próprio do deserto
quaresmal. Sim, porque é isso que o tempo santo que estamos vivendo deseja ser:
tempo de retiro no deserto do coração para combater nossos demônios interiores
e, pela oração, a penitência, a caridade fraterna, a escuta da Palavra de Deus
e a reconciliação sacramental, caminharmos para a santa Páscoa.
Na liturgia deste hoje, ladeado por
Moisés e Elias, que também enfrentaram durante quarenta dias e quarenta noites
o combate no deserto para experimentarem o fulgor da glória de Deus, Jesus nos
mostra qual a finalidade do nosso caminho quaresmal, Jesus nos revela aonde nos
leva nosso combate espiritual. Qual o objetivo? Qual a finalidade? Ei-los:
celebrar com ele a sua Páscoa, sendo com ele transfigurado em glória! Nosso
objetivo, nosso escopo, o feliz e gozoso fim do nosso caminho é o Cristo
envolto na sua glória pascal que nos transfigura também a nós! Mais que Moisés
e Elias, nós seremos envolvidos da glória de Cristo, aquela glória que é o
Espírito Santo que o Pai derramou sobre ele na sua ressurreição! Passaremos,
portanto, do roxo quaresmal, tão sóbrio, para o esfuseante branco pascal, sinal
da glória e da imortalidade, transfigurados em Jesus e por Jesus, o homem
perfeito, modelo de todo ser humano que vem a este mundo. Um dia, meus caros em
Cristo, passaremos do roxo das lágrimas desta vida, para o branco da glória
eterna dos que, revestidos da glória do Cordeiro, haverão de segui-lo para
sempre! De Quaresma em Quaresma e de Páscoa em Páscoa, passaremos da Quaresma
deste mundo para a Páscoa da glória eterna!
Mas, detenhamo-nos um pouco no Tabor do
Evangelho hodierno. Ele é prenúncio, uma misteriosa antecipação da
ressurreição. Com sua bendita Transfiguração, Jesus deseja preparar o seus para
as dores da paixão – do mesmo modo que a Igreja nos deseja alentar e motivar
para as renúncias e observâncias quaresmais. Por isso mesmo, Pedro, Tiago e
João, o três que estão no Tabor são os mesmos que estarão no Jardim das
Oliveiras. Por isso também o Evangelho de hoje termina com uma alusão à
ressurreição de Jesus dentre os mortos e, o relato da transfiguração em Lucas
afirma que “Jesus falava de sua partida que iria consumar-se em Jerusalém”
(9,30). Eis: Moisés e Elias, a Lei e os Profetas dão testemunho da paixão do
Senhor: tudo estava no misterioso desígnio de Deus! Após a ressurreição, isso
ficará claro: “Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em
sua glória?’ E começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes
em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito” (Lc 34,26-27). Eis que
mistério: a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) dão testemunho de Jesus e
aparecem iluminados por ele. Somente nele, na luz da sua cruz e ressurreição, o
Antigo Testamento encontra sua plenitude e sua luz!
Sendo assim, levantemo-nos! Tomemos,
generosos, nosso caminho quaresmal! Também nós somos chamados, como nosso pai
Abraão o foi, a sair: sair de nós mesmos, sair de nós velhos para nós
renovados, transfigurados à imagem do Cristo Jesus! Tenhamos a coragem de
atravessar o deserto interior, enfrentar o deserto do nosso coração, como
Moisés e Elias, como o povo de Israel, como o próprio Senhor Jesus, que por nós
quis ser tentado no seu período de deserto! Somente assim chegaremos renovados
e purificados ao nosso destino. Este destino não é um lugar, mas uma situação,
uma realidade: é o homem novo, transfigurado à imagem do Cristo que, após o
tormento imenso da cruz, foi glorificado pelo Espírito do Pai. Eis o caminho
quaresmal: do homem velho ao homem novo, do pecado à graça, do vício à virtude,
da preguiça espiritual à generosidade, da morte à vida, da tristeza à alegria…
trazendo em nós, na nossa vida, o reflexo da glória do próprio Cristo Jesus!
Não é este o significado das palavras de São Paulo, na segunda leitura de
hoje? “Sofre comigo pelo Evangelho. Deus nos salvou e nos chamou a uma
vocação santa… em virtude da graça que nos foi dada em Jesus Cristo. Esta graça
foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não
só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade”. Eis! Os
sofrimentos e lutas desta vida não são pesados se compararmos com o objetivo
tão alto que nos preparam!
Caríssimos, que as práticas quaresmais,
vividas com generosa fidelidade, arrancando o pecado que nos torna opacos,
possam revelar em nós o resplendor da glória de Cristo a que somos chamados e
que já está presente em nós desde o nosso batismo!
Mais ainda: que a novidade de nossa
vida transborde para o mundo, que tanto tem necessidade do testemunho dos
cristãos. Nunca esqueçamos: este mundo mergulhado na violência (violência da
injustiça, violência do desrespeito à dignidade humana, violência da fome,
violência dos atentados à paz, violência das drogas e das mentiras, violência
dos meios de comunicação, violência da negação de Deus)… este mundo precisa de
nosso testemunho e de nossa palavra, mesmo quando nos rejeita, quando despreza
o nome de Cristo, quando deseja esquecer o seu Senhor e pisar os valores do
Evangelho!
Deixemo-nos, portanto, transfigurar
pelo Senhor e sejamos luz para o mundo! Como pede a oração inicial da Missa
hodierna: Senhor, “que purificado o olhar da nossa fé, nos alegremos com a
visão da vossa glória!”
dom Henrique Soares
da Costa
Neste domingo a Palavra de Deus define
o caminho que o verdadeiro discípulo deve seguir: é o caminho da escuta atenta
de Deus e dos seus projetos, da obediência total e radical aos planos do Pai.
O Evangelho relata a transfiguração de
Jesus. Recorrendo a elementos simbólicos do Antigo Testamento, o autor
apresenta-nos uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que vai
concretizar o seu projeto libertador em favor dos homens através do dom da
vida. Aos discípulos, desanimados e assustados, Jesus diz: o caminho do dom da
vida não conduz ao fracasso, mas à vida plena e definitiva. Segui-o, vós
também.
Na primeira leitura apresenta-se a figura
de Abraão. Abraão é o homem de fé, que vive numa constante escuta de Deus, que
sabe ler os seus sinais, que aceita os apelos de Deus e que lhes responde com a
obediência total e com a entrega confiada. Nesta perspectiva, ele é o modelo do
crente que percebe o projeto de Deus e o segue de todo o coração.
Na segunda leitura, há um apelo aos
seguidores de Jesus, no sentido de que sejam, de forma verdadeira, empenhada e
coerente, as testemunhas do projeto de Deus no mundo. Nada – muito menos o
medo, o comodismo e a instalação – pode distrair o discípulo dessa
responsabilidade.
AMBIENTE
A primeira leitura de hoje faz parte de
um bloco de textos a que se dá o nome genérico de “tradições patriarcais” (cf.
Gn. 12-36). Trata-se de um conjunto de relatos singulares, originalmente
independentes uns dos outros, sem grande unidade e sem caráter de documento
histórico. Nesses capítulos aparecem, de forma indiferenciada, “mitos de
origem” (descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca do clã),
“lendas cultuais” (narravam como um deus tinha aparecido nesse lugar ao
patriarca do clã), indicações mais ou menos concretas sobre a vida dos clãs
nômades que circularam pela Palestina durante o 2º milênio e reflexões
teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos
de vida e de fé.
Por detrás do quadro teológico e
catequético que nos é proposto, estão as migrações históricas de povos nômades,
antepassados do povo bíblico, nos inícios do 2º milênio a.C. Por essa época, a
história registra um forte movimento migratório de povos amorreus entre a
Mesopotâmia e o Egito, passando pela terra de Canaã. São povos que não
conseguiram fixar-se na Mesopotâmia (ou que tiveram de a abandonar por causa de
convulsões políticas registradas nessa zona no início do 2º milênio) e que
continuaram o seu caminho migratório, à procura de uma terra onde “plantar
definitivamente a sua tenda”, de forma a escapar aos perigos e incomodidades da
vida nômade. Os nossos patriarcas bíblicos fazem, provavelmente, parte dessa
onda migratória.
Os clãs referenciados nas “tradições
patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac e Jacob – tinham os seus sonhos
e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar
uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa
que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. O deus aceite
pelo grupo era o potencial concretizador desse ideal.
MENSAGEM
Nos capítulos anteriores (cf. Gn.
3-11), o autor descreveu uma humanidade que escolheu o pecado e que se afastou
de Deus; agora, o autor vai apresentar um novo ponto de partida: Deus ainda não
desistiu da humanidade e continua a querer construir com ela uma história de
salvação. Para isso, interpela diretamente um homem no meio de uma multidão de
nações. Esta “eleição” não é um privilégio, mas um convite a realizar uma
tarefa difícil: ser um sinal de Deus no meio dos homens.
O tema central do nosso texto é a
interpelação de Deus a Abraão. Segundo o teólogo jahwista, Deus chamou Abraão,
convidou-o a deixar a sua terra e a sua família e a partir ao encontro de uma
outra terra; ligado a este convite, aparece uma bênção e a promessa de a
família de Abraão se tornar uma grande nação. Porquê esta iniciativa de Deus?
Porquê o chamamento a este homem, em particular? O catequista jahwista não dá
qualquer tipo de explicação. Temos aqui um exemplo perfeito desse mistério,
sempre novo e sempre sem explicação, chamado “vocação”.
Como é que Abraão reage ao chamamento
de Deus? É preciso ter em conta que, para os antigos, abandonar a terra (o
horizonte natural onde o clã vive e onde tem as suas referências – inclusive em
termos de paisagem), a pátria (isto é, o espaço onde o clã encontra o afeto e a
solidariedade e, além disso, o seu espaço protegido por usos, leis e costumes)
e a família (o círculo familiar íntimo, onde o homem encontra o apoio e o seu
complemento), era pouco menos do que irrealizável. Abraão será capaz de
arriscar tudo, deixando o seguro para apostar em algo nebuloso e incerto?
Diante do desafio de Deus, Abraão
permanece mudo, sem discutir nem objetar. Com consumada mestria, o autor
jahwista limita-se a descrever a sequência dos acontecimentos, como se as ações
de Abraão valessem por mil explicações: o patriarca, simplesmente, pôs-se a
caminho. O verbo “yalak” utilizado no vs. 4 (“ir”, “partir”, “pôr-se a
caminho”) tem uma força extraordinária e expressa a audácia do crente que é
capaz de arriscar tudo, de deixar o seguro para apostar em algo que não é
certo, confiando apenas na Palavra de Deus. Trata-se de um rasgo maravilhoso,
que define uma atitude de fé radical, de confiança total, de obediência
incondicional aos desígnios de Deus. Esta é uma das passagens onde o que se
conta de Abraão tem um valor de modelo: o autor jahwista pretende ensinar aos
seus concidadãos a obediência cega às propostas de Deus.
Deus, por sua vez, compromete-se com
Abraão e acena-lhe com uma promessa. A promessa expressa-se, neste contexto,
através da bênção (a raiz “abençoar” é repetida cinco vezes, nestes poucos
versículos). A bênção é uma comunicação de vida, através da qual Deus realiza a
sua promessa de salvação. Na promessa aqui formulada, a bênção concretiza-se
como descendência numerosa (noutros textos das “tradições patriarcais”, a
bênção de Deus é, além da descendência numerosa, promessa de uma terra).
Particularmente importante, neste
contexto da promessa é a idéia de que o Povo nascido de Abraão será uma fonte
de bênção para todas as nações (v. 3c): inaugura-se, aqui, a idéia de que
Israel é o centro do mundo e de que a sua “vocação” é ser testemunha da
salvação de Deus diante de todos os povos da terra. Não se trata de um
privilégio concedido a Israel, mas de uma responsabilidade.
ATUALIZAÇÃO
A figura de Abraão que nos foi
apresentada pelos catequistas de Israel tem sido, ao longo dos tempos, uma
figura inspiradora para todos os crentes. Abraão é o homem que encontra Deus,
que está atento aos seus sinais e sabe interpretá-los, que responde aos
desafios de Deus com uma obediência total e com uma entrega confiada… Esta
figura constitui uma interpelação muito forte a esse homem moderno que nunca
tem tempo para encontrar Deus nem para perceber os seus sinais, pois está
demasiado ocupado a ganhar dinheiro ou a construir a carreira profissional. Eu
tenho tempo para me encontrar com Deus, para aprofundar a comunhão com Ele?
Preocupo-me em detectar a sua presença, as suas indicações e propostas nos
acontecimentos do dia a dia? A minha resposta aos seus desafios é um “sim”
incondicional, ou é uma procura de razões para justificar os meus pontos de
vista e esquemas pessoais?
A figura de Abraão questiona, também, o
homem instalado e comodista, que prefere apostar na segurança do que já tem, em
vez de arriscar na novidade de Deus, ou deixar que a Palavra de Deus ponha em
causa os seus velhos hábitos, a sua forma de vida e a sua instalação. Estou
disposto a mudar, a “pôr-me a caminho” em direção a essa terra nova da vida
plena e autêntica, ou prefiro continuar prisioneiro dos meus esquemas
pré-concebidos, dos meus medos, dos meus velhos hábitos, das minhas velhas
formas de pensar, de agir e de julgar os outros?
Este texto diz-nos, também, que por
detrás da história da humanidade há um Deus que tem um projeto para os homens e
para o mundo e que esse projeto é de amor e de salvação… Apesar de os homens O
ignorarem e prescindirem das suas orientações e propostas, Deus continua a vir
ao seu encontro, a desafiá-los a caminhar em direção ao novo, a propor-lhes ir
mais além. O homem, por sua vez, é convidado a participar neste projeto, por
meio da fé (entendida como adesão plena aos planos de Deus). Estou disposto a
colaborar com esse Deus que tem um plano para o mundo e para os homens e a
embarcar com Ele na construção de um mundo mais feliz?
2ª leitura – 2Tim.
1,8b-10 – AMBIENTE
Segundo os Atos dos Apóstolos, Paulo
encontrou Timóteo em Listra, cidade da Licaónia, no decurso da sua segunda
viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo devia ser
ainda bastante jovem, nessa altura (cf. At. 16,1). No entanto, Paulo não
hesitou em levá-lo consigo através da Ásia Menor, da Macedónia e da Grécia.
Tímido e reservado, de saúde delicada (em 1Tim. 5,23 Paulo aconselha: "não
continues a beber só água, mas mistura-a com um pouco de vinho, por causa do
teu estômago e das tuas frequentes indisposições), Timóteo tornou-se um
companheiro fiel e discreto do apóstolo no trabalho missionário. Para não ter
problemas com os judeus, Paulo fê-lo circuncidar (cf. At. 16,3); e, numa data
desconhecida para nós, Timóteo recebeu dos anciãos a “imposição das mãos” (cf.
1Tim 4,14) que o designava como enviado da comunidade para anunciar o Evangelho
de Jesus.
A atividade de Timóteo está bastante
ligada a Paulo, como o demonstram as contínuas referências que Paulo lhe faz
nos seus escritos. Com ternura, Paulo refere-se a Timóteo como o “nosso irmão,
colaborador de Deus na pregação do Evangelho de Cristo” (1Tes. 3,2); e faz
referências a Timóteo nas Cartas aos Tessalonicenses (cf. 1Tes. 11,1; 2Tes.
1,1), na 2 Coríntios (cf. 2 Cor 1,1), na Carta aos Romanos (cf. Rom 16,21), na
Carta aos Filipenses (cf. Fl. 1,1), na Carta aos Colossenses (cf. Col. 1,1) e
na Carta a Filémon (cf. Flm. 1). Encarregou-o, também, de missões particulares
entre os Tessalonicenses (cf. 1Tes. 3,2.6) e entre os Coríntios (cf. 1 Cor
4,17).
Em relação à segunda Carta a Timóteo
há, no entanto, um problema sério: a maioria dos comentadores considera esta
carta posterior a Paulo (o mesmo acontece com a 1 Timóteo e com a Carta a
Tito), sobretudo por aí aparecer um modelo de organização da Igreja que parece
ser de uma época tardia, isto é, de finais do séc. I ou princípios do séc. II).
A questão continua em aberto.
Timóteo é, por esta altura, bispo de
Éfeso, na costa ocidental da Ásia Menor. Estão a começar as grandes perseguições;
muitos cristãos estão desanimados e vacilam na fé. É preciso que os líderes das
comunidades – entre os quais está Timóteo – mantenham o ânimo e ajudem as
comunidades a enfrentar, com fortaleza, as dificuldades que se avizinham.
MENSAGEM
O nosso texto apresenta-se como uma
exortação de Paulo a Timóteo, convidando-o a superar a sua juventude e timidez
e a ser um modelo de fidelidade e de fortaleza no testemunho da fé.
O autor da segunda carta a Timóteo
apresenta os motivos que devem impulsionar Timóteo a cumprir com fidelidade a
sua missão apostólica. Neste texto que nos é proposto, em concreto, o autor da
carta recorda a Timóteo o projeto salvífico de Deus que, de forma gratuita,
quer salvar os homens e chamá-los à santidade (cf. 2Tim. 1,9). Esse projeto
manifestou-se em Jesus Cristo, o libertador, que destruiu a morte e o pecado e
ofereceu a todos os homens a vida plena e definitiva (cf. 2Tim. 1,9-10). Ora
Paulo (nesta altura prisioneiro por causa do Evangelho), Timóteo e todos os
outros são as testemunhas deste projeto de Deus e não podem ficar calados
diante do enfraquecimento da vida cristã que se constata nas comunidades; mesmo
no meio das perseguições e dificuldades, eles não podem demitir-se da missão
que Deus lhes confiou… Têm de ser testemunhas vivas, entusiastas e corajosas do
projeto salvífico e amoroso de Deus.
ATUALIZAÇÃO
Mais uma vez somos convidados a
recordar que Deus tem um projecto de salvação e de vida plena para os homens,
para todos os homens. Quase todos os domingos, a Palavra de Deus convida-nos a
tomar consciência desse fato; mas nunca é demais lembrá-lo, até porque os
homens do nosso tempo tendem a esquecer Deus e a viver sem a consciência da sua
presença, do seu amor, da sua preocupação com a nossa vida, a nossa realização,
a nossa felicidade. Se tivéssemos sempre consciência de que temos um lugar
cativo no projecto de Deus e que o próprio Deus está a velar pela nossa
realização e pela nossa felicidade, certamente a vida teria um outro sentido e
no nosso coração haveria mais serenidade, mais paz, mais esperança.
Também é preciso termos consciência de
que nós, os crentes, somos, aqui e agora, as testemunhas vivas de Deus e do seu
projeto para os homens e para o mundo. Nada – e muito menos o nosso comodismo e
instalação – pode distrair-nos dessa responsabilidade. Os homens, nossos
irmãos, têm de encontrar em nós – e particularmente naqueles a quem foi
confiada a missão de animar e orientar a comunidade – sinais vivos de Deus, do
seu amor, da sua bondade e ternura, da sua preocupação com os homens.
É verdade que não é fácil ser
testemunha de Deus e do seu projeto. O mundo de hoje tende a ignorar os apelos
de Deus ou até manifesta desprezo pelos valores do Evangelho (esses valores que
temos de testemunhar, a fim de sermos sinais do mundo novo que Deus quer propor
aos homens). No entanto, as dificuldades não podem ser uma desculpa para nos
demitirmos das nossas responsabilidades e de levarmos a sério a vocação a que
Deus nos chama.
Evangelho – Mt.
17,1-9 – AMBIENTE
A secção de Mt. 16,21-20,34 é uma
catequese sobre o discipulado, como seguimento de Jesus até à cruz. O texto que
hoje nos é proposto faz parte dessa catequese.
O relato da transfiguração de Jesus é
antecedido do primeiro anúncio da paixão (cf. Mt. 16,21-23) e de uma instrução
sobre as atitudes próprias do discípulo (convidado a renunciar a si mesmo, a
tomar a sua cruz e a seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega da vida –
cf. Mt. 16,24-28). Depois de terem ouvido falar do “caminho da cruz” e de terem
constatado aquilo que Jesus pede aos que o querem seguir, os discípulos estão
desanimados e frustrados, pois a aventura em que apostaram parece encaminhar-se
para um rotundo fracasso; eles vêem esfumar-se – nessa cruz que irá ser
plantada numa colina de Jerusalém – os seus sonhos de glória, de honras, de
triunfos e perguntam-se se vale a pena seguir um mestre que nada mais tem para
oferecer do que a morte na cruz.
É neste contexto que Mateus coloca o
episódio da transfiguração. A cena constitui uma palavra de ânimo para os
discípulos (e para os crentes, em geral), pois nela manifesta-se a glória de
Jesus e atesta-se que Ele é – apesar da cruz que se aproxima – o Filho amado de
Deus. Os discípulos recebem, assim, a garantia de que o projeto que Jesus
apresenta é um projeto que vem de Deus; e, apesar das suas próprias dúvidas,
recebem um complemento de esperança que lhes permite “embarcar” e apostar nesse
projeto.
Literariamente, a narração da
transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto,
o autor do relato vai colocar no quadro que descreve todos os ingredientes que,
no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos
quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a
voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a
perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o
seguinte: não estamos diante de um relato fotográfico de acontecimentos, mas de
uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a
ensinar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que
vem de Deus.
MENSAGEM
Esta página de catequese, destinada a
ensinar que Jesus é o Filho de Deus e que o projeto que Ele propõe vem de Deus,
está construída sobre elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento. Que
elementos são esses?
O monte situa-nos num contexto de
revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é no cimo de
um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo.
A mudança do rosto e as vestes de
brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai
(cf. Ex. 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei.
A nuvem, por sua vez, indica a presença
de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o
seu Povo através do deserto (cf. Ex. 40,35; Nm. 9,18.22; 10,34).
Moisés e Elias representam a Lei e os
Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são
personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do
Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt. 18,15-18; Mal
3,22-23).
O temor e a perturbação dos discípulos
são a reação lógica de qualquer homem ou mulher diante da manifestação da
grandeza, da onipotência e da majestade de Deus (cf. Ex. 19,16; 20,18-21).
As tendas parecem aludir à “festa das
tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em
“tendas”, no deserto.
A mensagem fundamental, amassada com
todos estes elementos, pretende dizer quem é Jesus. Recorrendo a simbologias do
Antigo Testamento, o autor deixa claro que Jesus é o Filho amado de Deus, em
quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias libertador e
salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas
(Elias). Mais ainda: ele é um novo Moisés – isto é, aquele através de quem o
próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos homens
uma nova aliança.
Da ação libertadora de Jesus, o novo
Moisés, irá nascer um novo Povo de Deus. Com esse novo Povo, Deus vai fazer uma
nova aliança; e vai percorrer com ele os caminhos da história, conduzindo-o
através do “deserto” que leva da escravidão à liberdade.
Esta apresentação tem como
destinatários os discípulos de Jesus (esse grupo desanimado e frustrado porque
no horizonte próximo do seu líder está a cruz e porque o mestre exige dos
discípulos que aceitem percorrer um caminho semelhante). Aponta para a
ressurreição, aqui anunciada pela glória de Deus que se manifesta em Jesus,
pelas vestes resplandecentes (que lembram as vestes resplandecentes dos anjos
que anunciam a ressurreição – cf. Mt. 28,3) e pelas palavras finais de Jesus
(“não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do Homem ressuscitar dos mortos”
– Mt. 17,9): diz-lhes que a cruz não será a palavra final, pois no fim do
caminho de Jesus (e, consequentemente, dos discípulos que seguirem Jesus) está
a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.
Uma palavra final para o desejo –
manifestado por Pedro – de construir três tendas no cimo do monte, como se
pretendesse “assentar arraiais” naquele quadro. O pormenor pode significar que
os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, ignorando o
destino de sofrimento de Jesus. Jesus nem responde à proposta: Ele sabe que o
projeto de Deus – esse projeto de construir um novo Povo de Deus e levá-lo da
escravidão para a liberdade – tem de passar pelo caminho do dom da vida, da
entrega total, do amor até às últimas consequências.
ATUALIZAÇÃO
A questão fundamental expressa no
episódio da transfiguração está na revelação de Jesus como o Filho amado de
Deus, que vai concretizar o projeto salvador e libertador do Pai em favor dos
homens através do dom da vida, da entrega total de si próprio por amor. Pela
transfiguração de Jesus, Deus demonstra aos crentes de todas as épocas e
lugares que uma existência feita dom não é fracassada – mesmo se termina na
cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que,
como Jesus, forem capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.
Na verdade, os homens do nosso tempo
têm alguma dificuldade em perceber esta lógica… Para muitos dos nossos irmãos,
a vida plena não está no amor levado até às últimas consequências (até ao dom
total da vida), mas sim na preocupação egoísta com os seus interesses pessoais,
com o seu orgulho, com o seu pequeno mundo privado; não está no serviço simples
e humilde em favor dos irmãos (sobretudo dos mais débeis, dos mais
marginalizados e dos mais infelizes), mas no assegurar para si próprio uma dose
generosa de poder, de influência, de autoridade e de domínio, que dê a sensação
de pertencer à categoria dos vencedores; não está numa vida vivida como dom,
com humildade e simplicidade, mas numa vida feita um jogo complicado de
conquista de honras, de glórias e de êxitos. Na verdade, onde é que está a
realização plena do homem? Quem tem razão: Deus, ou os esquemas humanos que
hoje dominam o mundo e que nos impõem uma lógica diferente da lógica do
Evangelho?
Por vezes somos tentados pelo desânimo,
porque não percebemos o alcance dos esquemas de Deus; ou então, parece que,
seguindo a lógica de Deus, seremos sempre perdedores e fracassados, que nunca
integraremos a elite dos senhores do mundo e que nunca chegaremos a conquistar
o reconhecimento daqueles que caminham ao nosso lado… A transfiguração de Jesus
grita-nos, do alto daquele monte: não desanimeis, pois a lógica de Deus não
conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem
fim.
Os três discípulos, testemunhas da
transfiguração, parecem não ter muita vontade de “descer à terra” e enfrentar o
mundo e os problemas dos homens. Representam todos aqueles que vivem de olhos
postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir
para o renovar e transformar. No entanto, ser seguidor de Jesus obriga a
“regressar ao mundo” para testemunhar aos homens – mesmo contra a corrente –
que a realização autêntica está no dom da vida; obriga a atolarmo-nos no mundo,
nos seus problemas e dramas, a fim de dar o nosso contributo para o
aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. A religião não é um ópio que
nos adormece, mas um compromisso com Deus, que se faz compromisso de amor com o
mundo e com os homens.
P. Joaquim Garrido,
P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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