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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

23º DOMINGO DO TEMPO COMUM-A

23º DOMINGO DO TEMPO COMUM
10 de Setembro de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt 18,15-20

-SE ELE TE OUVIR, TU GANHARÁS O TEU IRMÃO-José Salviano


O nosso relacionamento com as pessoas partindo da família, é uma coisa muito complicada, por causa do egoísmo, da usura, da ânsia de domínio, pela ação direta do demônio, pela nossa carência afetiva... Continuar lendo

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A CORREÇÃO FRATERNA É UM ATO DE AMOR!

23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 10 de Setembro de 2017

Evangelho de Mt18,15-20

A forma que Deus usa, para corrigir os que erram, não é através do castigo, e sim, através do amor daqueles que não querem ver um irmão se perder, ainda que este irmão tenha lhe feito algum mal.
É compromisso cristão, colaborar para que todos se salvem. Como corresponsável pela a vida do outro, não podemos ignorar, deixar de lado, aquele, que na sua fragilidade, possa ter cometido algum erro, que se não corrigido, pode provocar graves consequências, tanto para ele, quanto para a comunidade a qual ele pertence.
Nossas comunidades, não podem ser como um aglomerado de pessoas, onde cada um,  pode fazer o que quiser, onde  ninguém se interessa pelo o bem do outro, e sim  uma comunidade de irmãos, que por comungar da mesma verdade, todos caminham juntos, amando-se mutuamente, exercitando sempre o perdão.
Todos nós, membros de uma comunidade, temos necessidade de correção, pois não somos perfeitos, não somos isentos de erros.
A correção fraterna é um ato de caridade, difícil de praticar, mas vale a pena  exercitá-la, afinal, podemos salvar um irmão, proporcionar a ele, a oportunidade de reparar o seu erro, de reconciliar com a pessoa que ele ofendeu e simultaneamente com Deus.
A correção fraterna, a que Jesus se refere, dever ser sempre um ato de amor e nunca de autoridade e condenação.
O que concorre para o êxito de uma correção fraterna, é a nossa postura, diante à aquele errou, postura que nunca deve ser, como de um juiz, e sim, de alguém, que quer o seu bem.  
As orientações que Jesus nos passa, no Evangelho de hoje, nos indica alguns passos  que devemos dar, no sentido de resgatar aquele, que por causa de algum erro, esteja se desviando do caminho.  São procedimentos um tanto difícil, mas imprescindíveis, tanto para a salvação dele, quanto para a nossa.
“Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão.” O diálogo, deve ser sempre o  primeiro passo, muitas questões se resolvem, através do diálogo, pois dependendo do que ouvimos, podemos, com mais serenidade,  perceber que  pode ter sido um mal entendido, ou um ato impensado do ofensor.  
“Se ele não te ouvir, toma consigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas.” Este passo, é muito importante, pois o  discernimento a dois, ou mais pessoas, pode  nos convencer, de que o fato, não tenha sido  tão grave como víamos, e que vale a pena, manter o convívio com aquela pessoa, pois com o passar do tempo, ela mesmo pode perceber seu erro e se corrigir.
Temos que ter muito cuidado com essas situações delicadas, pois nem sempre somos justos, somos às vezes, influenciados por vários fatores, como a simpatia, a antipatia, por isto, é importante,  consultar discretamente, outras pessoas, a respeito do ocorrido.
 “Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja”. Dizer a Igreja, é como se dizer: agora, vai  depender dele com Deus, pois, humanamente, foi feito tudo o que podia ser feito, só nos resta rezar por ele.
“Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. Tudo que os apóstolos, hoje, a Igreja (sacerdotes)  decidirem a respeito de situações delicadas como esta, será aceito por Deus (Jo20,23) que concedeu a eles, (hoje sacerdotes) o poder de  perdoar ou não pecados. 
O grande problema, em se tratando de correção fraterna, é que muitos de nós, invertemos a ordem dos  passos que nos fora apresentados por Jesus, começando pelo último passo, que é comentar  com os outros, antes de falar com a  pessoa que errou, em particular.
“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”. Quando  Jesus se faz presente, no meio da  pessoas que buscam soluções para determinadas situações, podemos ter certeza: tudo se resolve, tudo tem  um final feliz!
Como seguidores de Jesus, não podemos desistir do outro em hipótese alguma, e  nem ficar assistindo passivamente a sua ruína, se podemos fazer algo em seu favor! É nossa responsabilidade  cuidar deste bem tão precioso para Deus: a vida humana.
Não podemos esquecer: é na relação humano com humano, que a vida Divina entra em nós!  
Quanto mais humanos, mais divinizados somos.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Não fecheis o coração
Iniciamos o mês da Bíblia com o tema da correção fraterna. Em todas as leituras de hoje, a palavra de Deus vem insistir que somos responsáveis uns pelos outros e devemos ser um suporte para os fracos, indecisos, tíbios, apáticos na fé e no seguimento de Jesus.
Pouquíssimas pessoas têm coragem de advertir alguém que está errado. É mais fácil condenar, humilhar, fofocar ou ser indiferente. Mas a Bíblia afirma e reafirma a responsabilidade de uns para com os outros. Deus nos pedirá contas da vida de nossos irmãos e irmãs. Por isso, hoje, quando ouvirmos a sua voz, não endureçamos nosso coração.
Evangelho (Mt. 18,15-20)

Se ele te ouvir, terás ganho teu irmão
O texto do evangelho de hoje situa-se no contexto do “sermão sobre a comunidade”, cujos textos são direcionados especificamente para orientar a vida na Igreja. E um tema muito precioso para o Evangelho de Mateus é a correção fraterna, essencial para o crescimento pessoal do cristão na comunidade.
O evangelho nos orienta no delicado passo da correção fraterna. Primeiramente devemos tomar consciência de que o ato de corrigir o irmão é nossa responsabilidade. O texto é claro: “Vai!” É um imperativo que nos interpela. A não realização desse mandato significa erro grave, pois nos omitimos diante do erro do outro, deixando que um membro do corpo de Cristo permaneça no engano.
O texto nos apresenta a preocupação com o retorno à comunidade de quem se desligou pelo pecado. Por isso são empregados todos os recursos para a volta do irmão. É uma correção feita com respeito e amor. São oferecidas várias oportunidades para a conscientização sobre o erro. Primeiramente a exortação pessoal, para preservá-lo de constrangimento diante da comunidade. Depois, a exortação diante de algumas testemunhas; por fim, diante da comunidade, para que o irmão obstinado em sua má conduta reconheça, perante a autoridade da Igreja, a situação em que ele mesmo se colocou.
Todo esse procedimento nos ajuda a perceber o papel mediador da Igreja para ajudar um membro a sair do erro. Isso porque não caminhamos sozinhos, mas fazemos parte de um corpo, necessitamos uns dos outros para viver nossa fé.
Se levarmos a sério nossa responsabilidade para com nosso irmão, nossa ação de exortá-lo, de encaminhá-lo para o rumo certo, proporcionar-nos-á ganhar um irmão na caminhada de fé. Nossa maior preocupação deverá ser não apontar os erros dos nossos irmãos na comunidade, mas reconduzi-los de volta à comunhão com Deus expressa na comunidade crente. Se fizermos isso, certamente a Igreja desempenhará bem seu papel de mediação da boa-nova de Jesus Cristo.
1ª leitura (Ez. 33,7-9)
Perdoa ao teu irmão
O profeta é não apenas o porta-voz de Deus, mas também uma sentinela para o povo. A sentinela era alguém que estava de prontidão, que permanecia acordado enquanto todos dormiam. Era alguém que percebia a aproximação de um inimigo ou de um viajante noturno aos portões da aldeia. Esse simbolismo nos ajuda a ver nossa responsabilidade perante as pessoas com as quais convivemos em casa, no trabalho, na vizinhança, nos círculos de amizade, na Igreja. Devemos estar atentos aos outros: perceber se estão em perigo, se correm algum risco de pôr a si mesmo ou outras pessoas em perigo.
A expressão bíblica “exigir o preço do sangue” significa ser responsável pelo outro. Deus exige que não sejamos omissos, que não deixemos as pessoas seguir para um precipício sem alertá-las – com bondade e compaixão, sem condenar nem humilhar – sobre a necessidade de mudança de atitude.
Em todo caso, deve-se respeitar o livre-arbítrio de quem é adulto e responsável pelos próprios atos, mas somente depois de ter sido tentado tudo o que é humanamente possível para o bem do próximo.
2ª leitura (Rm. 13,8-10)
Quem ama o próximo cumpriu toda a Lei
Os preceitos da Lei de Deus sobre as relações humanas culminam no amor mútuo. O “amor não pratica o mal contra o próximo” e também não quer o mal para os outros. O fato de alguém não fazer nenhum ato de maldade não significa que possa ficar confortável, dizendo a si mesmo: “Não roubei, não matei, logo sou bom para meu próximo”. Quem não pratica o mal, mas se omite ou negligencia a responsabilidade pelo outro, não ama verdadeiramente o seu próximo. Responsáveis que somos por nossos semelhantes, não devemos ficar no comodismo, mas ajudá-los a ser alguém melhor.
Pistas para reflexão
É oportuno lembrar serem vários os motivos da omissão, os quais geralmente envolvem medo ou frieza de coração. Temos receio de advertir alguém e ser repelidos, perder a popularidade ou ser tachados de intransigentes. Por isso é mais fácil “lavar as mãos”, como fez Pilatos, e dizer: “Eu não tenho nada a ver com isso”. Não deixemos que nosso coração fique endurecido diante do clamor silencioso de quem está envolvido numa teia de erros e não consegue sair sozinho dessa armadilha. É mais fácil julgar-se superior, murmurar, fofocar, condenar quem caiu ou está em perigo de queda.
Comecemos este mês da Bíblia formando uma consciência de “povo de Deus”, todos unidos como irmãos e irmãs da mesma família, responsáveis uns pelos outros. Se alguém se desviou do caminho, vamos ao seu encontro e insistamos para que retorne. E, caso não queira nos ouvir, não desistamos: oremos para que Deus mesmo o reconduza. Somente não endureçamos nosso coração.
Paulus.


A caridosa correção fraterna
Tema belo e delicado esse da correção fraterna! Gesto de delicadeza de amor! Quanto a dizer e quanta dificuldade em colocar as palavras apropriadas.
Antes de mais nada deve ficar claro em nossas mentes: o Senhor Deus nos corrige e a correção que nos faz é sinal de um imenso amor. Queremos ser dele e não o somos totalmente. Nas encruzilhadas de nossas vidas chegamos mesmo a pecar e a pecar gravemente. Por vezes instala-se em nós o torpor do tédio. Não temos mais o fogo do discípulo. Somos frios e mornos. Quase pecamos ou pecamos sem quase. O Senhor faz como que nos espetar com um sofrimento e o alegre arrependimento. Ele nos recebe de volta no seio da Igreja. Importante  chegar no albergue do amor e receber, na Igreja, o perdão. Aqueles que o Senhor corrige voltam alegre para o casa do amor. Recebem ali o sacramento da reconciliação.
Mateus coloca algumas regras para a correção do irmão que erra. Primeiramente será preciso corrigi-lo em particular. Conversar com calma e tentar refazer o tecido da convivência carinhosa que foi  rompido. Há essas ofensas pessoais, há esses enganos, há tomadas de posição que alguém vem a tomar contra nós num momento de inveja, de fraqueza. O esclarecimento em particular pode tudo resolver. O amor cobre as ofensas.
Há certos desentendimentos familiares entre os sogros e genros e noras, entre cunhadas e assim por diante. Sim, a família é um terreno muito propício para a floração dos  desentendimentos.  Alguns deles podem ser de tal monta que redundem na negação da palavra entre familiares.
Se, em particular não se pode resolver será preciso fazer apelo a concurso de outras pessoas mais habilidosas e jeitosas. Mateus fala de tomar duas pessoas.
No caso de assuntos da comunidade cristã uma vez que tenham se esgotadas todas as possibilidades será necessário “dizer à Igreja”. Quando escândalos são colocados e os cristãos perdem a sensibilidade e não aceitam a correção dos irmãos será preciso dizer o “pecado”  à Igreja.
Não posso me privar ao prazer de transcrever essas  poucas linhas do missal dominical da Paulus: “O verdadeiro perdão, o perdão autêntico, não deixa as pessoas como são, com seus defeitos e suas limitações. Amar um irmão significa ajuda-lo a “crescer” em todos os níveis, querer concretamente sua “libertação” daquilo que é defeituoso e mau, lutar por sua própria humanização. Por isso, corrigir é obra de amor, nunca é extinguir energias e entusiasmos; é coisa muito diferente da crítica. Juntamente com a correção fraterna, o cristão faz largo uso do encorajamento. As pessoas esperam dos outro algo diferente do dom material; espera que outros se lhes tornem próximos, que entrem em contato com elas, percebem que elas existem, e lhes digam tudo isso.  Nada é tão encorajador como a atenção vigilante, o respeito não puramente formal, a palavra inesperada de congratulação, se não forem fórmulas vazias de rito ou expressões convencionais. O encorajamento, como correção, é uma das muitas facetas da caridade” (p. 794).
frei Almir Ribeiro Guimarães



A Igreja,comunidade de salvação
O profeta é o homem que enxerga, melhor que os outros, a vontade de Deus. O profeta olha para o lado interior das coisas. É uma sentinela, deve dar alerta ao enxergar algo suspeito. Sua visão é uma responsabilidade. Se vê o errado, mas fica calado, ele deixa seu irmão perder-se e perde-se com ele. Mas se transmite o recado, a responsabilidade está com o outro, e o profeta se salva (Ez. 33,7-9).
A Igreja é um povo profético. A partir de nossa unção batismal e crismal, todos nós participamos da vocação profética do Cristo, legada à Igreja. No Sermão eclesial de Mt. 18 (evangelho) aparece também nossa tarefa de sermos sentinelas. A cada suspeita, devemos dar alerta, advertir o irmão que não está no caminho certo. E isso, não uma só vez: devemos esgotar todos os meios. Avisá-lo uma segunda vez, diante de testemunhas (para ver se não estamos enganados), ou, enfim, recorrer ao testemunho da comunidade. Se então ainda não quiser ouvir, seja “como gentio ou publicano”, expressão judaica tradicional designando quem não cabe na assembléia. Nesta altura, o poder de ligar e desligar, antes confiado representativamente a Pedro, é confiado à Igreja toda. Pois toda ela é responsável pelo caminho da salvação de todos. Todos nós devemos fazer o que for preciso para encaminhar nossos irmãos no caminho certo.
Mateus 18 mostra a importância da comunidade eclesial. Esta aparece ainda na palavra de Jesus sobre a oração comunitária (Mt. 18,19s): quando estamos reunidos no nome de Jesus e unânimes dirigimos nossos pedidos a Deus, ele nos atenderá como se fôssemos Jesus mesmo: pois Jesus está no nosso meio. Nós realizamos Jesus, em nossa comunhão. A Igreja se apresenta, na liturgia de hoje, como comunidade de salvação, no sentido sacramental: ela representa, torna presente o Salvador que nos une com Deus.Como? Pela comunhão eclesial! A missão de Cristo era, fundamentalmente, realizar a comunhão de todos os que são filhos do mesmo Pai, realizar o amor do Pai no meio de nós. Onde nós, em comunhão fraterna, realizamos isso, aí realizamos o próprio Cristo.
A verdadeira comunidade eclesial é o sacramento de Cristo e de Deus. Portanto, o texto do evangelho de hoje não se deve entender num sentido jurídico, mas num sentido eclesial, comunitário e, assim, verdadeiramente místico. Por exemplo, com relação à correção fraterna, Jesus não quer dizer que basta chamar duas testemunhas e depois uma comissão eclesiástica toda esclerosada, para enfim excomungar o acusado (pois é muito provável que não se converterá à vista de tal comissão). Jesus nos ensina a colocar, profeticamente, os que erram diante da comunidade que brotou do amor de Cristo. Então, se mesmo diante deste testemunho a palavra profética não “pega”, também não podemos fazer mais nada.
Na 2ª leitura ouvimos como Paulo, nas suas exortações finais aos romanos, resume a prática da vida cristã: não ficar devendo nada aos outros, senão a caridade, que sempre fica em dívida (o que não significa que não precisamos fazer o possível...). A caridade é o resumo de tudo. Se nos esforçamos por ela, saldamos automaticamente todas as outras obrigações. “O amor é o pleno cumprimento da Lei” (Rm. 13,8-10). Paulo comenta aqui, à sua maneira, uma palavra do Senhor Jesus (cf. Mt. 22,34 ss. = Mc. l2,28ss = Lc. 10,25 ss.; cf. Gl. 5,14). E sendo poucas as palavras de Jesus que Paulo cita assim, isso significa que ele a considera como algo central na mensagem cristã. Também são Tiago a cita, na sua carta (Tg. 2,8). E são João não faz outra coisa senão comentar este “preceito único” do amor ao próximo, pois ninguém pode amar Deus sem amar o próximo! (1Jo 4,20), e só se ama bem ao próximo quando se ama a Deus. Pois amar Deus, procurar Deus, significa procurar a ultima palavra sobre o que é certo e errado, escutando a voz absoluta daquele que ama o nosso irmão como nós o deveríamos amar também.
Assim, o espírito da liturgia de hoje evidencia a comunhão e a caridade fraterna na comunidade eclesial, não só na mútua amizade (cf. oração sobre as oferendas), mas também na oração (evangelho) e na caridosa advertência (1ª leitura, salmo responsorial, evangelho). Nisto, a Igreja realiza a união com Cristo para sempre (oração final) e se torna comunidade e sacramento de Salvação.
padre Johan Konings "Liturgia dominical"




Entre irmãos
No Evangelho de hoje Mateus relata o compromisso que cada um tem, como membro de uma comunidade cristã, diante da falha do “irmão”. Neste compromisso Jesus ensina a obrigação de corrigir o irmão que errou.
“A partir de nosso batismo e confirmação pelo crisma, todos nós participamos da vocação profética do Cristo”. Diante desta afirmação está a responsabilidade cristã pelo do erro do irmão. Se ele o comete e, como profeta do Cristo um irmão não vai ao seu encontro para ajudá-lo a reconciliar-se com o Pai, também ele é responsável pelo erro.
Esta correção deve acontecer assim: primeiro, é preciso conversar com ele em particular, indo à sua procura na qualidade de quem já perdoou, a fim de lhe mostrar o erro sem se achar superior a ele, e convidá-lo novamente a se reintegrar à comunidade; se não der resultado, deve contar com a ajuda de outros irmãos na tentativa de resgatá-lo; e, se por fim, ele continuar errando, o grupo, a comunidade deve agir para ajudá-lo.
Mas por que a comunidade? Não é cada um o responsável por si mesmo, pelo erro que cometeu? Sim, cada um é responsável pelos seus erros, mas Jesus confiou à Igreja, através de Pedro, a responsabilidade pelo caminho da salvação de todos, e sendo assim cabe a todos se ajudarem mutuamente.
A comunidade cristã não é feita de pessoas perfeitas, e nem sempre a atitude tomada diante dos erros dos outros é a mais adequada. Os erros não devem passar despercebidos, e nem devem ser tomadas atitudes erradas que não contribuam para a recuperação de quem erra como: espalhar o erro, fofocar, excluir a pessoa. Antes de condenar ou excluir é preciso conhecer a justiça do Reino, e ter consciência de que os passos aconselhados por Jesus não são normas rígidas e, sim, um modo de agir que têmpera de justiça as relações entre as pessoas. Em outras palavras, é preciso ser criativo no esforço de recuperar quem erra e se afasta da comunidade. E o espírito que anima essa tarefa não é o da exclusão, mas da busca para reintegrar. O próprio Cristo sempre demonstrou Sua especial atenção para com as “Ovelhas perdidas”.
Jesus dá algumas dicas que passam pela necessidade das pessoas se reunirem em nome d’Ele, a fim de, mediante a oração, chegarem a um consenso. Ele afirma que Deus acolhe os pedidos e os realiza àqueles que se reúnem e rezam na mesma intenção, e diz que estará sempre presente onde dois ou mais estiverem reunidos em Seu nome.
Pequeninos do Senhor.



Corrigir com discernimento
É preciso agir com extremo discernimento, quando se trata de afastar um membro da comunidade do convívio fraterno. Em geral, as lideranças da comunidade são tentadas a deixar-se levar por critérios irrelevantes, revelando-se injustos contra quem cometeu uma falta. Uma decisão deste porte não pode depender de preconceitos ou do que pensam os líderes. Importa somente fazer a vontade de Deus.
A comunidade cristã deve rezar e refletir muito, antes de excomungar alguém. Sua decisão deve corresponder ao pensamento de Jesus. Por isso, é necessário evitar que a reunião onde se toma tal decisão se assemelhe a um tribunal onde se submete a pessoa a um juízo inclemente. O melhor lugar para se decidir isso é a assembléia eucarística. A ela se refere à afirmação do Senhor: "Onde dois ou três estão reunidos em meu nome, estou ali, no meio deles". Neste caso, trata-se de uma reunião bem específica, na qual a comunidade põe-se de acordo para pedir a luz divina, antes de decidir sobre a sorte do membro que errou. Se a comunidade pede com sinceridade, poderá estar certa de ser atendida pelo Pai. A decisão comunitária, se tomada seriamente, terá o aval de Deus. Ou seja, se o membro for desligado da comunidade terrestre, será também desligado da comunidade celeste. O Pai confirma o veredicto da comunidade que agiu com discernimento.
padre Jaldemir Vitório




1ª leitura (Ez. 33,7-9) - O profeta-sentinela: responsabilidade pela conversão do pecador
Os profetas eram sentinelas em Israel, deviam dar alerta. Mas o povo não prestou atenção, por isso veio a catástrofe (exílio). Sobrou um pequeno resto, e também este precisa de sentinela, de alguém que o avise para mudar seu caminho. E ai da sentinela que não cumprir seu dever: é responsável pela perda do irmão.
* cf. Ez. 3,17-21; 33,11; Jr. 6,17; 25,3-4; Mt. 18,15.

2ª leitura (Rm. 13,8-10) - O amor, pleno cumprimento da Lei
Na sua justiça, Deus dá a todos o que precisam: fundamentalmente, seu amor de Pai. Nós, para sermos justos, devemos também nos dar-nos mutuamente este dom, embora sempre fiquemos devendo. Toda a justiça está incluída nisso.
* 13,8 cf. Jo 13,34; Gl. 5,14 * 13,9-10 cf. Ex. 20,13-14; Dt. 5,17; Lv. 19,18; 1Cor. 13,4-7.

Evangelho (Mt. 18,15-20) - Correção fraterna, penitência e oração comunitária.
Mateus 18 é o “sermão sobre a Comunidade”. Na Igreja, santa embora pecadora, sendo filhos de Deus e irmãos entre nós, somos responsáveis uns pelos outros, sobretudo quando o pecado está destruindo a santidade. Quando a preocupação do cristão individual ou da comunidade nada resolvem, esta pode até excluir o pecador, para o conscientizar de que ele já se afastou da santa comunhão eclesial. – Nos v. 19-20 de Mt, temos outras sentenças de Jesus referentes à vida da comunidade: no caso, à oração comunitária.
* 18,15-18 cf. Lv. 19,17; Lc. 17,3; Dt. 19,15; Mt. 16,19; Jo 20,23 * 18,19-20 cf. Mt. 7,7; Jo 15,7.16; Mt. 28,20.
Correção fraterna
Conforme lemos na 1ª leitura, Deus estabelece o profeta como “sentinela do povo”. Ele tem de avisar os irmãos a respeito de sua conduta, para que não se percam. Deus cobrará dele esse serviço! Na mesma linha, o evangelho nos ensina a prática da “correção fraterna”. Jesus aconselha isso para a comunidade como tal – não apenas para os conventos, fora do mundo... Imagine só que em nossas paróquias qualquer cristão fosse corrigir seu “irmão” ou sua “irmã”!
Jesus ensina, concretamente, o que fazer com o pecador na comunidade eclesial, não para castigá-lo, mas para ganhá-lo e ele não se perder. Primeiro, é preciso falar-lhe em particular (mais ou menos como se faz na confissão); depois, fale-se a ele na presença de algumas testemunhas; finalmente, se não se corrigir, seja interpelado perante a comunidade. E se isto não der resultado, aguente ele o afastamento da comunidade.
Ninguém é uma ilha. A vida de nosso irmão nos concerne. Repartimos com ele nosso espaço vital, nosso trabalho, nosso lazer. Então, somos também, em parte, responsáveis por seu caminho. Devemos avisar nosso irmão quando este parece desviar-se (pois ele mesmo nem sempre enxerga). Isso não é arvorar-se em juiz da vida alheia, é serviço fraterno. E devemos também nos deixar corrigir.
“Ninguém tem algo a ver com a minha vida privada”. Mas será que ela é tão privada assim? Hoje, religião e moral são muito privatizadas, mas isso não é necessariamente um progresso! Pode ser uma estratégia do “Adversário” para diminuir a consciência e a força moral do povo. A fuga na privacidade torna difícil o trabalho de transformação: as drogas, a pornografia, a alienação religiosa têm algo a ver com isso.
Devemos ter a coragem de denunciar – com amor e conforme o procedimento do evangelho – os erros dos irmãos, sejam ricos ou pobres, poderosos ou subalternos. Aos abastados, devemos lembrar a “hipoteca social”, a dívida dos ricos com os pobres; aos pobres, importa ensinar uma solidariedade disciplinada, para construir verdadeira fraternidade e comunhão nas coisas materiais. E não tenhamos medo de chamar a atenção para os desvios particulares das pessoas, antes que se tornem um perigo público. Muitos dos males de nosso país e de nossa Igreja provêm do encobrimento daquilo que está errado. É como um câncer descoberto tarde demais...
A 2ª leitura de hoje (Rm. 13,8-10) ensina que o amor é o pleno cumprimento da lei. Uma forma de amar é advertir o irmão. Não é agradável. Mas, quem disse que o amor deve sempre ser agradável? O médico que cura uma ferida nem sempre consegue fazer isso sem dor. Corrigir o irmão – sem se pretender superior a ele – faz parte do “amor exigente”.
Johan Konings




A missão do profeta
O profeta Ezequiel é contemporâneo do profeta Jeremias. Ao contrário de Jeremias que, durante o exílio na Babilônia, ficou em Judá, Ezequiel foi para a Babilônia com os deportados. Sua missão tinha um duplo aspecto: ajudar o povo exilado a não se esquecer de que, ao contrário do que eles pensavam, Deus não os havia abandonado, mas estava com eles, e manter viva a esperança do retorno à terra dos seus antepassados. O texto autobiográfico que, hoje, lemos, apresenta Ezequiel como sentinela da casa de Israel (cf. Ez. 33,1-7). Enquanto tal, ele deve alertar contra o inimigo que ameaça o povo. A missão do profeta é prevenir o povo contra tudo o que possa ameaçar a esperança e a fidelidade ao Deus de Israel. Ele compreende que sua missão, enquanto sentinela da casa de Israel, é também de despertar no povo o desejo de conversão.
O evangelho de hoje é parte do discurso sobre a Igreja, em que Jesus instrui os seus discípulos acerca dos aspectos essenciais da vida comunitária cristã. A comunidade cristã é uma comunidade de reconciliados, por isso, o perdão deve ser uma das marcas de sua existência. No trecho anterior ao apresentado pela liturgia deste domingo, duas características da comunidade eclesial foram ressaltadas: a comunidade cristã deve ser caracterizada pelo serviço e pelo cuidado de uns para com os outros, de modo especial pelos “pequeninos”, isto é, por aqueles que se sentem, por algum motivo, desprezados e não valorizados, e que correm, por isso, o risco de abandonar a comunidade. Nosso texto de hoje é, por assim dizer, a aplicação prática do desejo de Deus de que nenhum membro da comunidade se perca (v. 14). A atitude exigida para realizar o desejo de Deus é a iniciativa que cada um deve tomar no que diz respeito à reconciliação, tendo presente que a comunidade cristã é uma comunidade de irmãos (v. 15). O pecado divide a comunidade. Se acontecer a alguém ser vítima do pecado de outro membro da comunidade, trata-se, aqui, de tomar a iniciativa de ajudar o pecador no seu processo de conversão, desde que ele aceite livremente. É Deus quem toma a iniciativa de vir em socorro de nossa humanidade e é ele quem oferece, gratuitamente, o seu perdão. A comunidade cristã é chamada a ser reflexo da misericórdia divina (Mt 5,48; Lc 6,36; 15). Assim como Deus não desiste de nós, também não devemos desistir de nossos irmãos. O único limite para o perdão e a reconciliação é o fechamento do outro (v. 17). O amor fraterno e, consequentemente, a comunidade cristã são construídos através desse esforço permanente de reconciliação.
Carlos Alberto Contieri,sj





Jesus entre os discípulos
O evangelho de Mateus se caracteriza por ser uma apresentação de Jesus, suas palavras e seus feitos, adaptada às comunidades de discípulos que vieram do judaísmo. No texto do evangelho de hoje, Mateus insere algumas orientações sobre a correção fraterna em uma fala de Jesus sobre as regras de convívio nas comunidades. As orientações são apresentadas após a abordagem das questões da disputa pelo poder, do escândalo, e das defecções (Mt. 18,1-14). Assim, Mateus tem em vista manter a harmonia na comunidade. Em geral, há uma tendência de simplesmente excluir alguém que é considerado problemático. Conflitos, sensibilidades feridas e ofensas são comuns neste convívio. Contudo deve-se procurar superá-los com a mudança dos comportamentos que provocam estes conflitos, sem defecções. Com seu texto, Mateus desenvolve, para sua comunidade, um simples dito tradicional de Jesus, que será mencionado por Lucas. Em Lucas, de maneira singela, a questão envolve apenas duas pessoas, ficando em evidência a prática do perdão. Em Mateus temos a ampliação do dito colhido na tradição das primeiras comunidades, dando-lhe um caráter de regra de procedimento para suas comunidades. Existem semelhanças entre esta abordagem de Mateus e a prática da comunidade dos essênios de Qumran. Há autores que sugerem que Mateus sofre a influência desses essênios. Conforme Mateus, a prática do perdão, na comunidade, se dá em três estágios. O diálogo entre os dois irmãos envolvidos, a ampliação do diálogo envolvendo duas ou três testemunhas e, finalmente, a questão debatida pela igreja (comunidade). Percebe-se uma metodologia formalizada em regra. Hoje ela pode apenas inspirar uma prática do perdão e da reconciliação de uma maneira mais livre, espontânea e verdadeira. A correção fraterna, que brota do amor e do perdão, é fundamental para manter-se a unidade na comunidade.
No desfecho deste processo de correção fraterna apresentado por Mateus, parece discriminatória a rejeição final com a recomendação de que aquele que mesmo à igreja não ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um publicano (coletor de impostos). É estranha esta recomendação, uma vez que o empenho de Jesus era conviver com estas publicanos e pagãos, tidos como pecadores. Percebe-se, assim, seria contraditório considerar que Levi, o publicano - coletor de impostos, também chamado Mateus, seja o autor deste texto. Mateus articula, em conclusão, três sentenças: uma sobre o poder de ligar e desligar na terra, relacionada à tradição do primado de Pedro, surgida a partir dos anos oitenta (cf. Mt. 16,19); outra destacando da importância de orar em comunidade e a terceira assegurando a presença de Jesus entre os discípulos reunidos e seu nome. Esta presença de Jesus entre os discípulos tem sentido especial no momento em que não mais existe o Templo onde se pretendia ter a presença de Deus.
O emprego da palavra "reunidos" (sinagogain) indica a substituição da sinagoga pela comunidade. A presença de Deus, Jesus, se dá na comunidade que vive o amor misericordioso, vigilante para a reconciliação e a comunhão. "O amor é o cumprimento perfeito da Lei". A primeira leitura vai em uma perspectiva mais ampla. Trata-se da denúncia profética que deve ser feita do pecado existente nas estruturas sociais resultante da prática de pessoas injustas.
José Raimundo Oliva



Nossa meditação da Palavra do Senhor neste domingo pode ser desenvolvida em cinco afirmações. Ei-las:
(1) Cristo está presente na sua Igreja; jamais a deixará, “pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”. Quantas vezes tal afirmação foi distorcida como se bastasse que uns quatro gatos pingados se reunissem com a Bíblia e aí estaria Jesus. Nada disso! O sentido é exatamente o contrário. Aqui, neste capítulo 18 de Mateus, Jesus está falando sobre a vida da Igreja, comunidade que ele fundou e entregou aos apóstolos, tendo Pedro por chefe. Os dois ou três aos quais se refere o Senhor são os líderes da comunidade que vão decidir a questão do irmão que não quer ouvir os outros e divide a comunidade! O que a Igreja liga ou desliga na terra – e são os pastores (os bispos com o papa) que têm, em última análise, essa responsabilidade – o Senhor ratifica no céu: “Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra, será desligado no céu!” A autoridade que Cristo deu a Pedro de um modo todo especial, deu-a, aos demais Bispos, os pastores autênticos da sua Igreja, em comunhão com Pedro. Pois bem, onde dois ou três, como Igreja, estiverem reunidos em nome do Senhor, ele estará ali, ratificando suas decisões. Que fique claro: não se pode agradar a Cristo, ser-lhe fiel, rompendo com a sua Igreja! Ela, por mais que seja frágil por causa da nossa fragilidade, é a Comunidade que o Senhor reuniu, sustenta e na qual se faz presente atuante!
(2) Essa Igreja é uma comunidade de amor. O amor cristão não é simplesmente amizade ou simpatia humana, mas o fruto da presença do próprio Espírito de Amor, o Espírito Santo em nós: “O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito que nos foi dado!” (Rm. 5,5) É desse amor que fala São Paulo no capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios; é esse amor que “cobre uma multidão de pecados” (Tg. 5,20), é esse amor que é “a plenitude da Lei”. Só ama assim quem se abre para o amor de Cristo, deixando-se guiar e impregnar pelo seu Espírito de amor! Ora, caríssimos, a Igreja deve ser o ambiente impregnado desse amor, mais forte que nossas diferenças de temperamento, de opiniões, de modo de agir... Onde está o amor, a caridade, Deus aí está; onde o amor reina, o Reino de Deus está presente neste mundo! A Igreja deve ser o lugar do amor, lugar do Reino!
(3) Essa comunidade de amor é comunidade de compromisso, de responsabilidade no seguimento de Cristo. Por isso, não se pode usar o amor para acobertar a covardia, a tibieza, a frieza para com o Senhor e os irmãos e os demandos na comunidade! O amor é exigente: “O amor de Cristo nos impele” (cf. 2Cor. 5,14). A infidelidade ao amor a Cristo e aos irmãos é, precisamente, o pecado, que gera a divisão, a desunião, que faz sangrar a Igreja. Por isso Jesus nos exorta à correção fraterna, desde aquela simples, feita entre irmãos, até a correção formal e mais solene, feita pelo bispo ou até mesmo pelo papa, como chefe supremo da Igreja de Cristo neste mundo: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo; se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas; se ele não der ouvido, dize-o à Igreja”. Muitas vezes, vê-se confundir amor e misericórdia com a covardia ou o comodismo de não corrigir. Ora, caríssimos, a correção é um modo de amar, é um modo de preocupar-se com o outro e com a comunidade que é ferida pelo pecado e o mau exemplo. A correção pode salvar o irmão. Quantos escândalos nas nossas comunidades poderiam ter sido evitados se houvera a correção no momento oportuno e do modo discreto e sincero que Jesus nos recomenda. Isso vale para a Igreja menorzinha, que é nossa família doméstica, vale para o grupo do qual participamos, vale para a paróquia, a diocese e a Igreja universal (não a “do Reino de Deus”, mas a de Cristo!), espalhada por toda a terra. A omissão em corrigir é covardia, é falta de amor à comunidade que é a Igreja, é pecado de omissão e desatenção pelo irmão. Certamente, tal correção deverá ser feita sempre com amor, com discernimento, com caridade fraterna. São Bento, na sua Regra, dá um preceito encantador: “In tribulationem subvenire” – poderíamos traduzir assim: “socorrer na tribulação”. Mas, a palavra latina é subvenire: vir por baixo, vir de baixo. Ou seja, socorrer sim, corrigir sim, mas com a humildade de quem vem por baixo para sustentar, amparar e ajudar, para salvar; não vem com a soberba de quem está por cima para massacrar! Corrigir, sim, mas como Deus, que em Jesus, veio por baixo, na pobreza do presépio e na humilhação da cruz! Aí a correção terá mais chance de surtir efeito!
(4) Na comunidade de amor às vezes pode ser necessária a punição. Pode ser que não surte efeito a correção fraterna; pode ser que aquele que é corrigido teime na sua dureza de propósito e repouse no erro. Jesus mesmo prevê tal possibilidade no Evangelho de hoje. E, então, o próprio Senhor exorta a que tal irmão seja punido. Que escândalo para a nossa mentalidade atual!
O pobre do papa Bento XVI, antigo cardeal Ratzinger, sabe o quanto foi difamado porque teve que impor penalidades a teólogos ou outros irmãos que, após a correção, não se emendaram! A nossa tendência é somente recordar do Senhor as palavras que agradam! No entanto, a punição na Igreja não é pela vingança ou o desafogo, mas deverá ser sempre medicinal, isto é, para produzir o arrependimento e a correção, restabelecendo a paz na comunidade e a salvação do irmão. Que os pais tenha a coragem de corrigir, os bispos e o santo Padre também. Aliás, de João Paulo II e Bento XVI, sabemos que a têm, graças a Deus!
(5) Qual o fruto de uma comunidade assim? A saúde fraterna: a alegria de viver como irmãos: “Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão!” Oh, que palavra tão doce: ganhar o irmão! Eis aqui o motivo último da correção fraterna! Pensemos bem: a Igreja não é um clube de amigos, mas uma família de irmãos em Cristo! É o amor do Senhor Jesus Cristo que nos une. A alegria da comunhão fraterna somente será experimentada na sinceridade das nossas relações. Correção, sim; crítica destrutiva, murmuração, difamação, não! Neste sentido, todos nós precisamos fazer um sério exame de consciência, seja em nível de família, como naquele de grupos e paróquias e, até mesmo, de Diocese!
São esses os aspectos que a Palavra de Deus nos põe hoje. Recordemos a exortação do Senhor pela boca de Ezequiel: se não corrigirmos o irmão e ele morrer no seu pecado, a culpa é nossa; se ele se corrigir, ganhamos o irmão: viveremos nós e viverá ele – eis a marca do Reino de Deus neste mundo! Que ele aconteça em nossas comunidades!
dom Henrique Soares da Costa




A liturgia deste domingo sugere-nos uma reflexão sobre a nossa responsabilidade face aos irmãos que nos rodeiam. Afirma, claramente, que ninguém pode ficar indiferente diante daquilo que ameaça a vida e a felicidade de um irmão e que todos somos responsáveis uns pelos outros.
A primeira leitura fala-nos do profeta como uma “sentinela”, que Deus colocou a vigiar a cidade dos homens. Atento aos projetos de Deus e à realidade do mundo, o profeta apercebe-se daquilo que está a subverter os planos de Deus e a impedir a felicidade dos homens. Como sentinela responsável alerta, então, a comunidade para os perigos que a ameaçam.
O Evangelho deixa clara a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. Trata-se de um dever que resulta do mandamento do amor. Jesus ensina, no entanto, que o caminho correto para atingir esse objetivo não passa pela humilhação ou pela condenação de quem falhou, mas pelo diálogo fraterno, leal, amigo, que revela ao irmão que a nossa intervenção resulta do amor. Na segunda leitura, Paulo convida os cristãos de Roma (e de todos os lugares e tempos) a colocar no centro da existência cristã o mandamento do amor. Trata-se de uma “dívida” que temos para com todos os nossos irmãos, e que nunca estará completamente saldada.
1ª leitura: Ez. 33,7-9 - Ambiente
Ezequiel é conhecido como “o profeta da esperança”. Desterrado na Babilônia desde 597 a.C. (no reinado de Joaquin, quando Nabucodonosor conquista Jerusalém pela primeira vez e deporta para a Babilônia a classe dirigente do país), Ezequiel exerce aí a sua missão profética entre os exilados judeus. A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (data do seu chamamento) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma segunda leva de exilados é encaminhada para a Babilônia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar a Jerusalém, mas os que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e as infidelidades) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilônia. A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C. e prolonga-se até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, privados de templo, de sacerdócio e de culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador – esse Deus que Israel descobriu na sua história – não os abandonou nem esqueceu.
Pelo conteúdo, não é possível dizer de forma clara se o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura pertence à primeira ou à segunda fase da atividade profética de Ezequiel. Em qualquer caso, ele define – recorrendo à imagem da sentinela – a missão profética: o profeta é, entre os exilados, como uma sentinela atenta, que escuta os apelos de Deus e que avisa o Povo dos perigos que aparecem no horizonte da comunidade.
Mensagem
A imagem da sentinela aplicada ao profeta não é nova. Já Habacuc (cf. Hb. 2,1), Isaías (cf. 21,6), Jeremias (cf. Jr. 6,17) e mesmo Oseias (cf. Os. 5,8) recorrem a esta figura para definir a missão profética.
O que é que significa dizer que o profeta é uma “sentinela”? A sentinela é o vigilante atento que, enquanto os outros descansam, perscruta o horizonte e procura detectar o perigo que ameaça a sua cidade, os seus concidadãos, os seus camaradas de armas. Quando pressente o perigo, tem a obrigação de dar o alarme. Dessa forma, a comunidade poderá preparar-se para enfrentar o desafio que o inimigo lhe vai colocar. Se a sentinela não vigiar ou se não der o alarme, será responsável pela catástrofe que atingiu o seu Povo.
Assim é o profeta. Ele é esse guarda que Jahwéh colocou no meio da comunidade do Povo de Deus, para perscrutar atentamente o horizonte da história e da vida do Povo e para dar o alarme sempre que a comunidade corre riscos.
Para que o profeta seja uma sentinela eficiente, ele tem de ser, simultaneamente, um homem de Deus e um homem atento ao mundo que o rodeia.
O profeta é, antes de mais, um homem que Jahwéh chamou ao seu serviço. Eleito por Jahwéh, chamado para o serviço de Jahwéh, ele vive em comunhão com Deus; e nessa intimidade que vai criando com Deus, ele descobre a vontade de Deus e aprende a discernir os projetos que Deus tem para os homens e para o mundo. Ao mesmo tempo, o profeta é um homem do seu tempo, mergulhado na realidade e nos desafios da sociedade em que está integrado; conhece o mundo e é capaz de ler, numa perspectiva crítica, os problemas, os dramas e as infidelidades dos seus contemporâneos.
Ao contemplar os planos de Deus e a vida do mundo, o profeta dá-se conta do desfasamento entre uma realidade e outra. Apercebe-se de que a realidade da vida dos homens é muito diferente dessa realidade que Deus projetou.
Diante disto, o que é que o profeta faz? Sacode a água do capote e diz que não é nada com ele? Fecha-se no seu mundo cômodo e ignora as infidelidades dos homens aos projetos de Deus? Demite-se das suas responsabilidades e não se incomoda com as escolhas erradas que os seus irmãos fazem?
Não. O profeta recebeu um mandato de Deus para alertar a comunidade para os perigos que a ameaçam. Custe o que custar, doa a quem doer, o profeta tem que dizer a todos – mesmo que os seus concidadãos não o compreendam ou recusem escutá-lo – que continuar a trilhar esses caminhos errados não pode senão conduzir à infelicidade, ao sofrimento, à morte.
O profeta/sentinela é, em última análise, um sinal vivo – mais um – do amor de Jahwéh pelo seu Povo. É Deus que o chama, que o envia em missão, que lhe dá a coragem de testemunhar, que o apoia nos momentos de crise, de desilusão e de solidão… O profeta/sentinela é a prova de que Deus, cada dia, continua a oferecer ao seu Povo caminhos de salvação e de vida. O profeta/sentinela demonstra, sem margem para dúvidas, que Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.
Atualização
E hoje? Deus continua a amar o seu Povo? Continua a querer que ele se converta e viva? Continua a preocupar-Se em oferecer ao seu Povo a salvação – isto é, a possibilidade de ser feliz neste mundo e de alcançar, no final da sua caminhada nesta terra, a vida definitiva? O Deus de ontem não será o Deus de hoje e de amanhã?
Na verdade, Ele continua a chamar, todos os dias, profetas/sentinelas que alertem o mundo e os homens. Pelo Batismo, todos nós fomos constituídos profetas. Recebemos do nosso Deus a missão de dizer aos nossos irmãos que certos valores que o mundo cultiva e endeusa são responsáveis por muitos dos dramas que afligem os homens. Temos consciência de que recebemos de Deus uma missão profética e que essa missão nos compromete com a denúncia do que está errado no mundo e na vida dos homens?
O que é que devemos denunciar? Tudo aquilo que contradiz os projetos de Deus. Portanto, o profeta/sentinela tem de ser alguém que vive em comunhão com Deus, que medita a Palavra de Deus, que dialoga com Deus e que, nessa intimidade, vai percebendo o que Deus quer para os homens e para o mundo. Aliás, é dessa relação forte com Deus que o profeta/sentinela tira também a coragem para falar, para denunciar, para agir. Portanto, dificilmente seremos fiéis à nossa missão profética sem um relacionamento forte com Deus. Encontro tempo para potenciar a relação com Deus, para falar com Deus, para escutar e meditar a sua Palavra?
É preciso também que o profeta/sentinela desenvolva uma consciência crítica sobre o mundo que o rodeia. Ele tem de estar atento aos acontecimentos da vida nacional e internacional (o profeta tem de ouvir as notícias e ler o jornal!), tem de conhecer a fundo as questões que os homens debatem (senão, a sua intervenção dificilmente será levada a sério); e tem, especialmente, de aprender a ler os acontecimentos à luz de Deus e do projeto de Deus. Estou atento aos sinais dos tempos e procuro analisá-los a partir de uma perspectiva de fé?
É preciso, finalmente, que o profeta/sentinela não se acomode no seu cantinho cômodo, demitindo-se das suas responsabilidades. Tudo o que se passa no mundo, tudo o que afeta a vida de um homem ou de uma mulher, diz respeito ao profeta. Podemos ficar calados diante das escolhas erradas que o mundo faz? O nosso silêncio não nos tornará cúmplices daqueles que destroem o mundo e que condenam ao sofrimento e à miséria tantos homens e mulheres?
2ª leitura: Rm. 13,8-10 - Ambiente
Continuamos a ler a segunda parte da carta aos Romanos (cf. Rm. 12,1-15,13). Aí, Paulo mostra – em termos práticos – como devem viver aqueles que Deus chama à salvação.
Deus oferece a todos a salvação; ao homem resta acolher o dom de Deus, aderindo a Jesus e à sua proposta… Mas a adesão a Jesus implica assumir, na prática do dia a dia, atitudes coerentes com essa vida nova que o cristão acolheu no dia do seu batismo. São essas atitudes que Paulo recomenda aos romanos (e aos crentes em geral) nesta segunda parte da carta.
No ano 49, o imperador Cláudio tinha publicado um édito que expulsava de Roma os judeus (incluindo os cristãos de origem judaica). Ora em 57/58 (quando a carta aos Romanos foi escrita), muitos desses judeus tinham já voltado a Roma. Será que os cristãos de origem pagã, “donos” da comunidade durante bastante tempo, ostentavam a sua superioridade e manifestavam desprezo pelos cristãos de origem judaica entretanto regressados a Roma? Será que, por essa razão, havia divisões e falta de amor na comunidade de Roma? Nessas circunstâncias, Paulo teria escrito uma “carta de reconciliação”, destinada a unir uma comunidade dividida. O apelo ao amor que o nosso texto nos apresenta poderia entender-se neste contexto.
Mensagem
Paulo exorta os crentes de Roma a construir toda a sua vida sobre o amor. O cristianismo sem amor é uma mentira. Os cristãos não podem nunca deixar de amar os seus irmãos.
Essa exigência, contudo, nunca estará completamente realizada… Qualquer dívida pode ser liquidada de uma vez; mas o amor não: em cada instante é preciso amar e amar sempre mais. O cristão nunca poderá cruzar os braços e dizer que já ama o suficiente ou que já amou tudo: ele tem uma dívida eterna de amor para com os seus irmãos.
O amor está no centro de toda a nossa experiência religiosa. No mandamento do amor, resume-se toda a Lei e todos os preceitos. Os diversos mandamentos não passam, aliás, de especificações da exigência do amor. A ideia – aqui expressa – de que toda a Lei se resume no amor não é uma “invenção” de Paulo, mas é uma constante na tradição bíblica (cf. Mt. 22,34-40).
Atualização
Na última ceia, despedindo-se dos discípulos, Jesus resumiu desta forma a proposta que veio apresentar aos homens: “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12). Este não é “mais um mandamento”, mas é “o mandamento” de Jesus. Entretanto, algures durante a nossa caminhada pela história, esquecemos “o mandamento” de Jesus e distraímo-nos com questões secundárias… Preocupamo-nos em discutir ritos litúrgicos, problemas de organização e de autoridade, códigos de leis, questões de disciplina… e esquecemos “o mandamento” do amor. Já é tempo de voltarmos ao essencial. O cristão é aquele que, como Cristo, ama sem cálculo, sem contrapartidas, sem limite, sem medida. Na nossa experiência cristã, só o amor é essencial; tudo o resto é secundário.
As nossas comunidades cristãs, a exemplo da primitiva comunidade cristã de Jerusalém, deviam ser comunidades fraternas onde se notam as marcas do amor. Os que estão de fora deviam olhar para nós e dizer: “eles são diferentes, são uma mais valia para o mundo, porque amam mais do que os outros”. É isso que acontece? Quem contempla as nossas comunidades, descobre as marcas do amor, ou as marcas da insensibilidade, do egoísmo, do confronto, do ciúme, da inveja? Os estrangeiros, os doentes, os necessitados, os débeis, os marginalizados são acolhidos nas nossas comunidades com solicitude e amor?
É importante sentirmos que a nossa dívida de amor nunca está paga. Podemos, todos os dias, realizar gestos de partilha, de serviço, de acolhimento, de reconciliação, de perdão… mas é preciso, neste campo, ir sempre mais além. Há sempre mais um irmão que é preciso amar e acolher; há sempre mais um gesto de solidariedade que é preciso fazer; há sempre mais um sorriso que podemos partilhar; há sempre mais uma palavra de esperança que podemos oferecer a alguém. Sobretudo, é preciso que sintamos que a nossa caminhada de amor nunca está concluída.
Evangelho: Mt. 18,15-20 - Ambiente
O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é conhecido como o “discurso eclesial”. Apresenta uma catequese de Jesus sobre a experiência de caminhada em comunidade. Aqui, Mateus ampliou de forma significativa algumas instruções apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária (cf. Mc. 9,33-37. 42-47) e compôs, com esses materiais, um dos cinco grandes discursos que o seu Evangelho nos apresenta. Os destinatários desta “instrução” são os discípulos e, através deles, a comunidade a que o Evangelho de Mateus se dirige.
A comunidade de Mateus é uma comunidade “normal” – isto é, é uma comunidade parecida com qualquer uma das que nós conhecemos. Nessa comunidade existem tensões entre os diversos grupos e problemas de convivência: há irmãos que se julgam superiores aos outros e que querem ocupar os primeiros lugares; há irmãos que tomam atitudes prepotentes e que escandalizam os pobres e os débeis; há irmãos que magoam e ofendem outros membros da comunidade; há irmãos que têm dificuldade em perdoar as falhas e os erros dos outros… Para responder a este quadro, Mateus elaborou uma exortação que convida à simplicidade e humildade, ao acolhimento dos pequenos, dos pobres e dos excluídos, ao perdão e ao amor. Ele desenha, assim, um “modelo” de comunidade para os cristãos de todos os tempos: a comunidade de Jesus tem de ser uma família de irmãos, que vive em harmonia, que dá atenção aos pequenos e aos débeis, que escuta os apelos e os conselhos do Pai e que vive no amor.
Mensagem
O fragmento do “discurso eclesial” que nos é hoje proposto refere-se, especialmente, ao modo de proceder para com o irmão que errou e que provocou conflitos no seio da comunidade. Como é que os irmãos da comunidade devem proceder, nessa situação? Devem condenar, sem mais, e marginalizar o infrator?
Não. Neste quadro, as decisões radicais e fundamentalistas raramente são cristãs. É preciso tratar o problema com bom senso, com maturidade, com equilíbrio, com tolerância e, acima de tudo, com amor. Mateus propõe um caminho em várias etapas…
Em primeiro lugar, Mateus propõe um encontro com esse irmão, em privado, e que se fale com ele cara a cara sobre o problema (v. 15). O caminho correto não passa, decididamente, por dizer mal “por trás”, por publicitar a falta, por criticar publicamente (ainda que não se invente nada), e muito menos por espalhar boatos, por caluniar, por difamar. O caminho correto passa pelo confronto pessoal, leal, honesto, sereno, compreensivo e tolerante com o irmão em causa.
Se esse encontro não resultar, Mateus propõe uma segunda tentativa. Essa nova tentativa implica o recurso a outros irmãos (“toma contigo uma ou duas pessoas” – diz Mateus – v. 16) que, com serenidade, sensibilidade e bom senso, sejam capazes de fazer o infrator perceber o sem sentido do seu comportamento.
Se também essa tentativa falhar, resta o recurso à comunidade. A comunidade será então chamada a confrontar o infrator, a recordar-lhe as exigências do caminho cristão e a pedir-lhe uma decisão (v. 16a).
No caso de o infrator se obstinar no seu comportamento errado, a comunidade terá que reconhecer, com dor, a situação em que esse irmão se colocou a si próprio; e terá de aceitar que esse comportamento o colocou à margem da comunidade. Mateus acrescenta que, nesse caso, o faltoso será considerado como “um pagão ou um cobrador de impostos” (v. 17b). Isto significa que os pagãos e os cobradores de impostos não têm lugar na comunidade de Mateus? Não. Ao usar este exemplo, o autor deste texto não pretende referir-se a indivíduos, mas a situações. Trata-se de imagens tipicamente judaicas para falar de pessoas que estão instaladas em situações de erro, que se obstinam no seu mau proceder e que recusam todas as oportunidades de integrar a comunidade da salvação.
A Igreja tem o direito de expulsar os pecadores? Mateus não sugere aqui, com certeza, que a Igreja possa excluir da comunhão qualquer irmão que errou. Na realidade, a Igreja é uma realidade divina e humana, onde coexistem a santidade e o pecado. O que Mateus aqui sugere é que a Igreja tem de tomar posição quando algum dos seus membros, de forma consciente e obstinada, recusa a proposta do Reino e realiza atos que estão frontalmente contra as propostas que Cristo veio trazer. Nesse caso, contudo, nem é a Igreja que exclui o prevaricador: ele é que, pelas suas opções, se coloca decididamente à margem da comunidade. A Igreja tem, no entanto, que constatar o fato e agir em consequência.
Depois desta instrução sobre a correção fraterna, Mateus acrescenta três “ditos” de Jesus (cf. Mt. 18,18-20) que, originalmente, seriam independentes da temática precedente, mas que Mateus encaixou neste contexto.
O primeiro (v. 18) refere-se ao poder, conferido à comunidade, de “ligar” e “desligar”. Entre os judeus, a expressão designava o poder para interpretar a Lei com autoridade, para declarar o que era ou não permitido e para excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus; aqui, significa que a comunidade (algum tempo antes – cf. Mt. 16,19 – Jesus dissera estas mesmas palavras a Pedro; mas aí Pedro representava a totalidade da comunidade dos discípulos) tem o poder para interpretar as palavras de Jesus, para acolher aqueles que aceitam as suas propostas e para excluir aqueles que não estão dispostos a seguir o caminho que Jesus propôs.
O segundo (v. 19) sugere que as decisões graves para a vida da comunidade devem ser tomadas em clima de oração. Assegura aos discípulos, reunidos em oração, que o Pai os escutará.
O terceiro (v. 20) garante aos discípulos a presença de Jesus “no meio” da comunidade. Neste contexto, sugere que as tentativas de correção e de reconciliação entre irmãos, no seio da comunidade, terão o apoio e a assistência de Jesus.
Atualização
A palavra “tolerância” é uma palavra profundamente cristã, que sugere o respeito pelo outro, pelas suas diferenças, até pelos seus erros e falhas. No entanto, o que significa “tolerância”? Significa que cada um pode fazer o mal ou o bem que quiser, sem que tal nos diga minimamente respeito? Implica recusarmo-nos a intervir quando alguém toma atitudes que atentam contra a vida, a liberdade, a dignidade, os direitos dos outros? Quer dizer que devemos ficar indiferentes quando alguém assume comportamentos de risco, porque ele “é maior e vacinado” e nós não temos nada com isso? Quais são as fronteiras da “tolerância”? Diante de alguém que se obstina no erro, que destrói a sua vida e a dos outros, devemos ficar de braços cruzados? Até que ponto vai a nossa responsabilidade para com os irmãos que nos rodeiam? A “tolerância” não será, tantas vezes, uma desculpa que serve para disfarçar a indiferença, a demissão das responsabilidades, o comodismo?
O Evangelho deste domingo sugere a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. Convida-nos a respeitar o nosso irmão, mas a não pactuar com as atitudes erradas que ele possa assumir. Amar alguém é não ficar indiferente quando ele está a fazer mal a si próprio; por isso, amar significa, muitas vezes, corrigir, admoestar, questionar, discordar, interpelar… É preciso amar muito e respeitar muito o outro, para correr o risco de não concordar com ele, de lhe fazer observações que o vão magoar; no entanto, trata-se de uma exigência que resulta do mandamento do amor…
Que atitude tomar em relação a quem erra? Como proceder? Antes de mais, é preciso evitar publicitar os erros e as falhas dos outros. O denunciar publicamente o erro do irmão, pode significar destruir-lhe a credibilidade e o bom-nome, a paz e a tranquilidade, as relações familiares e a confiança dos amigos. Fazer com que alguém seja julgado na praça pública – seja ou não culpado – é condená-lo antecipadamente, é não dar-lhe a possibilidade de se defender e de se explicar, é restringir-lhe o direito de apelar à misericórdia e à capacidade de perdão dos outros irmãos. Humilhar o irmão publicamente é, sobretudo, uma grave falta contra o amor. É por isso que o Evangelho de hoje convida a ir ao encontro do irmão que falhou e a repreendê-lo a sós…
Sobretudo, é preciso que a nossa intervenção junto do nosso irmão não seja guiada pelo ódio, pela vingança, pelo ciúme, pela inveja, mas seja guiada pelo amor. A lógica de Deus não é a condenação do pecador, mas a sua conversão; e essa lógica devia estar sempre presente, quando nos confrontamos com os irmãos que falharam. O que é que nos leva, por vezes, a agir e a confrontar os nossos irmãos com os seus erros: o orgulho ferido, a vontade de humilhar aquele que nos magoou, a má vontade, ou o amor e a vontade de ver o irmão reencontrar a felicidade e a paz?
A Igreja tem o direito e o dever de pronunciar palavras de denúncia e de condenação, diante de atos que afetam gravemente o bem comum… No entanto, deve distinguir claramente entre a pessoa e os seus atos errados. As ações erradas devem ser condenadas; os que cometeram essas ações devem ser vistos como irmãos, a quem se ama, a quem se acolhe e a quem se dá sempre outra oportunidade de acolher as propostas de Jesus e de integrar a comunidade do Reino.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho






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