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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

24º DOMINGO DO TEMPO COMUM-A


24º DOMINGO DO TEMPO COMUM
17 de Setembro de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt 18,21-35
·                     -PERDOAR SE QUISER SER PERDOADO-José Salviano
·         SE NÃO PERDOARMOS E SE NÃO FORMOS MISERICORDIOSOS, AUTOMATICAMENTE, DEUS NÃO SERÁ MISERICORDIOSO, E NÃO NOS PERDOARÁ. Uma coisa depende da outra, e ponto final. 
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“NÃO TE DIGO ATÉ SETE VEZES, MAS ATÉ SETE VEZES SETE.”- Olivia Coutinho.

24º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 17 de Setembro de 2017

Evangelho de Mt18,21-35

Quantos de nós, professamos a nossa fé em Jesus, dizemos seus seguidores, quando na prática, agimos de forma contrária a Dele! Rezamos a oração do Pai Nosso, onde pedimos perdão a Deus, pelas as nossas ofensas, mas não cumprimos o que prometemos a Ele, não perdoamos aquele que nos ofendeu!
falta de perdão interrompe o nosso relacionamento com Deus, mas não fecha o seu coração de Pai, pois Deus, ao contrário de nós, não coloca ponto final, numa história de amor!
No evangelho que a liturgia deste Domingo, nos convida a refletir, Pedro, aproximou-se de Jesus, e perguntou-lhe: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes? Jesus respondeu: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” E para chamar a nossa atenção, sobre a importância do perdão, Jesus conta a parábola do servo cruel, a história de um servo, que mesmo sendo perdoado pelo o rei, não perdoou ao seu devedor e por isso foi duramente castigado.
Com esta parábola, Jesus advertiu Pedro, e hoje a nós: “É assim que meu Pai fará convosco, se cada um, não perdoar de coração ao seu irmão.”
Quem não está aberto ao perdão, não deveria rezar a oração o Pai Nosso, pois uma oração, sem o cumprimento do que se promete a Deus, não tem valor, é uma oração vazia, não chega a Ele. (“...assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu...”)
Não é fácil perdoar, isso todos nós sabemos, mas se recorrermos a Deus, com certeza, Ele nos ajudará a vencer esse desafio, a quebrar a muralha que nos separa do irmão e simultaneamente de Deus!
Jesus, na cruz, nos deu um grande exemplo de perdão, ao perdoar aqueles que o torturava: “Pai perdoa-lhes! Eles não sabem o que estão fazendo.” (Lc 23,34).Toda vez, que sentirmos dificuldades em perdoar alguém, lembremo-nos deste grande exemplo de Jesus, e com certeza, o nosso coração se abrirá ao perdão.
O perdão é uma questão de decisão, de humildade, exercitá-lo, é reconhecer que não somos modelos de perfeição, que também falhamos. É reconhecendo que somos falhos, que vamos relevar a falha do outro!
A falta de perdão nos faz mal, fecha o nosso coração à graça de Deus, enquanto que o perdão nos traz um bem estar, uma paz interior!
Assim como Deus acolhe o pecador arrependido, e esquece todo o seu passado, nós também, deveríamos fazer o mesmo: perdoar e acolher aquele que nos ofendeu!
As palavras de Jesus, no evangelho de hoje, provocam-nos  a um grande desafio: perdoar sem limites, quantas vezes for necessário!  Como tornar isso possível, se humanamente estamos sempre  prontos para o revide? Jesus vem quebrar esta barreira do ego humano, nos convidando a pôr fim no círculo vicioso da vingança, dando ás ofensas que recebemos uma resposta de amor! 
É despindo do nosso orgulho, que viveremos a alegria do perdão, a alegria de perdoar e de ser perdoado! 
Perdão, é libertação, libertação para quem dá, e para  quem recebe o perdão!
"É perdoando que seremos perdoados!"

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Perdoai-nos, senhor, como nós perdoamos a quem nos ofende
O tema da liturgia de hoje é o perdão. A oração que Jesus ensinou a seus discípulos traz o imperativo do perdão mútuo ao mesmo tempo que nos assegura o perdão divino. O pedido “perdoai-nos como nós perdoamos” não limita a ação de Deus em relação às nossas faltas, mas nos introduz na dinâmica divina de perdoar sempre. É porque Deus tem misericórdia de nós que devemos ter misericórdia de nossos semelhantes. Deus nos perdoou primeiro, e nós correspondemos a tão grande dom perdoando nosso próximo da maneira que nosso Pai nos perdoa. O mal deve ser vencido com a bondade ilimitada, que se manifesta incansavelmente no perdão. As leituras de hoje mostram que, se o mal é intensamente prolífero, deve o bem ser muito mais.
1. Evangelho (Mt. 18,21-35): Perdoai sempre
Pedro estava convicto de que tinha feito boa proposta a Jesus sobre o exercício do perdão. No entanto, Jesus eleva esse valor ao máximo possível. Se observarmos o texto de Gn. 4,24, veremos que estão em jogo também esses números, só que no contexto da vingança.
No Antigo Testamento, a atitude de um descendente de Caim, Lamec, que se propõe vingar até setenta vezes sete, dá margem a uma corrente sem freios de violência. A atitude de Lamec é tão contrária ao ensinamento de Jesus quanto a atitude do servo é contrária à do patrão. A parábola quer ensinar que a morte de Jesus, segundo os critérios de Lamec, careceria de vingança infinita por parte de Deus. No entanto, o Pai, representado pelo patrão, não vingou seu Filho, mas perdoou infinitamente (setenta vezes sete). E com isso pôs fim à corrente de violência por meio do perdão.
Com isso se quer ensinar que somente o perdão, ato divino que somos chamados a praticar, pode pôr fim à violência. Como membros do corpo de Cristo, nossa atitude diante das ofensas sofridas é perdoar sempre, pois não há ofensa maior do que aquela realizada por nós a Deus: a morte do Herdeiro amado. Mas o Pai transformou essa ofensa em perdão e salvação.
Perdoar sempre não quer dizer passividade ou omissão diante do erro e da injustiça, mas sim não guardar mágoa ou rancor, tampouco sentimentos de vingança. Somente pelo perdão, fruto do amor, podemos construir um mundo mais pacífico, fraterno e amoroso.
1ª leitura (Eclo. 27,33–28,9): Perdoa a ofensa de teu próximo
Esse texto bíblico do Antigo Testamento representa um avanço na maneira pela qual as pessoas lidavam antigamente com as ofensas. O autor pede que se renuncie à vingança, afirmando que somente as pessoas afastadas de Deus é que nutrem a ira, o desejo de vingança no coração.
Quem tem um relacionamento mais íntimo com o Senhor deveria cultivar um espírito de misericórdia, já que a proximidade com Deus revela tanto as faltas do ser humano quanto o perdão divino.
A consciência de que todos têm necessidade da misericórdia de Deus deveria tornar as pessoas mais religiosas e mais dispostas a perdoar. Infelizmente nem sempre é isso que se vê.
O texto bíblico pede que a pessoa rancorosa pense na morte e perdoe as ofensas recebidas. “Pensar na morte” não significa “pensar num castigo eterno”, mas conscientizar-se de que a morte iguala a todos nós. Todos morremos, e isso significa que ninguém é melhor que o outro e todos nós somos muito mais devedores de Deus do que de uns para com os outros.
2ª leitura (Rm. 14,7-9): Pertencemos  ao Senhor
Freqüentemente as mágoas e os rancores surgem da intolerância com o diferente. Algumas pessoas não suportam que outras pensem e vivam a religião, a missão, a profissão ou outras situações humanas de modo distinto. Há uma tentativa de uniformizar as opiniões. Geralmente se confunde unidade com uniformidade. Estar no mesmo grupo ou equipe e pensar ou agir de modo diferente é motivo para ser tachado de rebelde, de falta de espírito comunitário etc. Nessas situações é necessário discernimento, e o apóstolo Paulo nos dá uma pista para não criarmos ressentimentos por causa da pluralidade: “Ninguém vive para si mesmo... é para o Senhor que vivemos”. Aqueles que pensam e agem diferentemente de mim fazem-no por causa do Senhor ou para exaltar a si mesmos? E eu, quando penso que determinados pensamentos e atitudes das outras pessoas estão errados, é por causa do Senhor que penso assim ou é para exaltar a mim mesmo?
Cristo é o Senhor, nós pertencemos a ele; portanto, não devemos criar guerra em vez de bons relacionamentos somente porque alguém que caminha conosco dá passos diferentes e observa outras coisas no caminho.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj



Misericórdia e intransigência
Se não tem compaixão por seu semelhante, como poderá pedir perdão de seus pecados? (Eclo. 28,4).
Lemos na liturgia deste domingo a conhecida parábola do administrador cruel que, depois de ter sido perdoado, deixou de usar de misericórdia para alguém que lhe devia  muito pouco. Aquele que tinha sido generosamente perdoado pelo rei não teve compreensão para a dívida de alguém para com ele. Os que são cobertos pela misericórdia precisaram ser também misericórdia para com os outros.
Se cristão é viver intensamente na dinâmica do amor. O Mestre dos cristãos é aquele que ensina o mandamento do amor a Deus e do amor ao próximo. Ele não quer que uns sejam superiores aos outros, que julguem os outros mas que todos sintam-se mutuamente ligados pelos laços do amor que é capaz de perdoar.  Aos que cuspiam no rosto, todos os que o ridicularizavam no momento do amor da cruz Jesus perdoou. Ele, esse Mestre crucificado é o Senhor do perdão. Ora, entre os discípulos do Senhor e destes para fora a lei é a do perdão.
Cada um de nós é uma agraciado. Temos consciência bem clara de que devemos ao Senhor o agradecimento por nos ter perdoado. Não cessamos de cantar a ação de graças: nossos pecados que eram escarlates se tornaram brancos como a neve. Aprendemos do Mestre que precisamos perdoar os que nos ofendem. Toda a nossa vida se passa como um hino de gratidão por tudo o que nos foi alforriado. Jesus rasgou no alto da cruz um documento condenatório que existia contra nós.
No tecido do cotidiano de nosso viver  vamos construindo a fraternidade e temos a alegria de poder dizer que incluímos nos cantos de nosso coração aqueles que por ventura, por sua fraqueza, vieram a nos machucar, magoar, decepcionar... Não queremos alimentar qualquer mágoa em nosso interior.  Se fomos cobertos do amor do Senhor haveremos de jogar o manto da compreensão sobre os que nos devem... Queremos, é verdade, ter sempre uma dívida que nunca pagaremos: a dívida do amor fraterno.
Só temos a lamentar a divisão que existe entre os cristãos. Ficamos felizes com todos os movimentos de aproximação daqueles com quem precisamos rezar o Pai nosso com toda verdade.   Sofremos em nossas comunidades quando pessoas, devido a suscetibilidades e ressentimentos se afastam das reuniões fraternas.  Ficamos tristes em ver que irmãos de sangue e de fé se negam a palavra. E ficamos profundamente contentes em ver tantos e tantas que não se deixam abater. Nos tétricos momentos de diferenças não deixam de olhar nos olhos dos irmãos.
O salmo responsorial da liturgia de hoje é uma das mais belas páginas da Escritura: “O Senhor te perdoa toda culpa e cura toda a tua enfermidade; da sepultura ele salva a tua vida e te cerca de carinho e compaixão. Não fica sempre repetindo as suas queixas nem guarda eternamente o seu rancor. Não nos trata como exigem nossas faltas nem nos pune em proporção às nossas culpas”.
frei Almir Ribeiro Guimarães


Mistério e ministério do perdão
O cap. 18 de Mateus, o "Sermão sobre a comunidade", depois de ter mostrado a importância da comunhão eclesial como sacramento do amor de Deus, apresenta agora as palavras sobre o perdão (evangelho), tarefa primordial da comunidade eclesial.
Em Jo. 20,19-23 (cf. 2º dom. pascal; Pentecostes), o perdão é o conteúdo específico do dom do Espírito, por Jesus, no dia de sua ressurreição. Mateus conta que Pedro - responsável da comunidade eclesial - pergunta a Jesus até onde deve ir o perdão.
Perdoar sete vezes já era uma prova de perfeição (Mt. 18,21)! Jesus multiplica esse número por setenta - um número sem fim. E conta uma parábola, inspirada por Eclo. 28,1-5 (cf. 1ª leitura): um funcionário, que tem uma dívida enorme (mil talentos ou trinta toneladas de ouro), ganha do seu senhor anistia completa da dívida; mas ele mesmo vai procurar seu colega e lança-o à prisão por causa de uma dívida de cem denários, uns dois salários mínimos. Aí, o senhor volta atrás e coloca aquele primeiro funcionário na prisão até que pague o último centavo. Devemos ser misericordiosos como o nosso Pai celeste é misericordioso (Lc. 6,26; cf. Mt. 5,48). Ou, em outros termos, se a misericórdia e o perdão não funcionam da nossa parte, também não funciona da parte de Deus, a comunhão de amor paterno que o leva a perdoar todas as nossas faltas, por mais graves que sejam (cf. Lc. 15,8 ss., o filho pródigo). Pois o perdão não é uma formalidade a ser cumprida, mas uma atitude fundamental pela qual o homem se torna semelhante a Deus e filho de Deus. É comunhão com Deus e nossos irmãos. Por outro lado, onde não existe essa comunhão (como no caso do funcionário que se mostrou alheio ao coração misericordioso do "senhor"), também não pode haver perdão. Já Eclo. 28,9[7] (1ª leitura) menciona a Aliança de Deus como fundamento do perdão. O mistério do perdão é baseado na comunhão com Deus, no fato de que, para quem entra no amor do Pai, "tudo o que é meu é teu". Torna impossível a dívida, pois tudo é propriedade comum. É esse o modelo do perdão cristão. Consciente de que meu irmão, filho do mesmo Pai, é chamado à mesma vida divina e de que todos os nossos "interesses" convergem para a mesma plenitude divina, não lhe posso recusar o perdão que, no laço do amor, ele impetrar.
Em sua essência, o perdão cristão é um "sacramento" do amor do Pai. É neste sentido que se deve interpretar o sacramento da penitência: faz brotar, para o pecador, a comunhão do Pai, mediante a plena reintegração na comunhão eclesial, da qual o pecado o tinha afastado. Tal afastamento consiste mais no constrangimento do pecador do que na exclusão/excomunhão expressa (que, aliás, serve para fazer sentir ao pecador que ele já não está na comunhão eclesial). O perdão cristão ocorre não só no "sacramento da volta", mas também na vida cotidiana. O cristão deve ser um homem de perdão permanente, porque sofre ao ver seu irmão errar. Pelo perdão, procura restaurar a comunhão e eliminar o constrangimento. Assim, tanto perdoar quanto ser perdoado é uma alegria.
Como já mostramos por algumas alusões à 1ª leitura, o Antigo Testamento tinha certa consciência dessa realidade. Juntamente com o salmo responsorial, serve de aperitivo para o evangelho. A misericórdia de Deus é incansável: "Ele perdoa todos os teus erros" (Sl. 103[102],3).
A 2ª leitura sublinha o espírito de comunhão que se revelou ao considerarmos o texto do evangelho. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor Jesus. Se nossa vida já não pertence a nós, mas a ele, como poderemos recusar a comunhão ao nosso irmão pecador? Pois Jesus deu sua vida por nós, pecadores.
No canto da comunhão encontramos uma imagem, talvez estranha, mas extremamente rica, da incansável misericórdia de Deus: a ave que reúne seus pintinhos debaixo de suas asas. Jesus mesmo utiliza essa imagem ao denunciar a falta de conversão de Jerusalém (Lc. 13,34).
A oração do dia e a oração final emolduram a liturgia de hoje, chamando nossa atenção para a ação do amor de Deus em nós. Sobretudo quando perdoamos, experimentamos que já não somos movidos por nossos próprios impulsos, mas por uma bondade criativa, que "ultrapassa a nossa competência", pois endireita um mal que, na pessoa prejudicada, atinge toda a família de Deus. Essa bondade criativa chama-se a graça de Deus.
padre Johan Konings "Liturgia dominical"



Perdoar aos irmãos
O perdão, dentro da comunidade cristã, que é formada por um povo santo e pecador, deve ser contínuo e sem limites. No Catecismo da Igreja Católica (CIC), em 2845 lemos: Não há limite nem medida a esse perdão essencialmente divino.
Jesus, o Mestre da justiça, mostra a Pedro que somente o perdão pode salvar uma comunidade da ruína, e ensina a acabar com a indiferença, com o ódio e com a vingança que geram uma sociedade injusta onde o sofrimento é grave.
Mateus aborda a forma como deve ser essa relação entre os membros da Igreja, dedicando-se à relação de perdão que deve existir entre eles. Em 2843 do CIC lemos: Não está em nosso poder não mais sentir e esquecer a ofensa; mas o coração que se entrega ao Espírito Santo transforma a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão.
Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar seu irmão. Segundo a Lei dos Judeus, esse perdão devia ser de no máximo quatro vezes, mas Pedro pergunta se deve perdoar sete vezes, mostrando a preocupação com a limitação do perdão e com a vontade de agir como Jesus diante de tal situação. O número sete para os judeus se remete ao número perfeito, ao sétimo dia da criação, por isso é citado por Pedro para designar um perdão perfeito.
Jesus responde contando uma parábola, e mostra como é a atitude de quem quer receber o perdão, mas não sabe perdoar. E, na sua resposta, multiplica por setenta o número de vezes indicado por Pedro para perdoar o irmão, ou seja, a perfeição do perdão está vinculada à obediência aos dez mandamentos, sete vezes dez. Com isso, subentende-se que os cristãos não podem estabelecer limites ao perdão.
A dívida do empregado para com seu Rei era muito grande e equivalia a milhares de quilos de ouro, o que era praticamente impagável. Assim é também a dívida de cada um para com Deus que inesperadamente perdoa, superando expectativas e pretensões.
A medida do perdão deve ser a mesma daquela recebida do Pai, assim como Jesus ensinou aos seus discípulos quando rezarem a Deus: “Perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido.”
Jesus é o Mestre que traz para dentro da sociedade e da história, ensinamentos e práticas centradas na justiça, que geram relações novas e, conseqüentemente, constroem um mundo novo.
Pequeninos do Senhor




Ensinando a perdoar
Um dos maiores desafios para quem vive em comunidade é o perdão. Por outro lado, a sobrevivência de qualquer comunidade humana dependerá da capacidade que seus membros têm de perdoar. Sem isto, não há comunidade que possa subsistir por muito tempo.
Em se tratando da comunidade cristã, o perdão torna-se um imperativo. Os discípulos de Jesus foram exortados a considerar as raízes teológicas do perdão. No ato de perdoar o próximo e de se reconciliar com ele, Deus se faz presente. Por conseguinte, o perdão supera os limites humanos.
Quando alguém perdoa o próximo, age em conformidade com Deus que concede prodigamente o seu perdão ao ser humano. Para tanto, fecha os olhos para a maldade humana, quando a pessoa se reconhece pecadora e se volta para ele.
A capacidade divina de perdoar é ilimitada. Deus conhece perfeitamente de que é feito o ser humano, e sabe muito bem que sua fidelidade pode não ser definitiva. Quem é perdoado hoje pode voltar a pecar amanhã. No entanto, sempre que se converte e volta arrependido, encontrará um Pai bondoso e misericordiosos para acolhê-lo.
Os discípulos de Jesus são chamados a imitar o modo de agir de Deus. Também eles devem perdoar com prodigalidade, tendo um coração cheio de misericórdia para acolher quem carece de perdão.
Oração
Pai, é meu desejo imitar teu modo de agir, no tocante ao perdão. Faze-me ser pródigo e misericordioso em relação ao próximo que precisa do meu perdão.
padre Jaldemir Vitório



O amor e a misericórdia de Deus seduzem e atraem
Jesus havia orientado os discípulos para a prática do perdão e reconciliação em caso de ofensa entre irmãos (Mt. 18,15 - cf. 4set.). Encontramos esta orientação também no evangelho de Lucas (Lc. 17,3-4 - cf. 7 nov.) de maneira simples, provavelmente mais fiel à fala de Jesus. Aí Jesus fala em perdoar sete vezes, o número sete significando a plenitude, sem limites. No texto de hoje, Mateus elabora o diálogo entre Pedro e Jesus, jogando com os números sete e setenta, reforçando o caráter ilimitado do perdão. Mateus prima por associar os acontecimentos às escrituras. Pode-se ver aí uma alusão a Gen. 4,24: "se Caim é vingado sete vezes, Lamec o será setenta e sete vezes" (ou "setenta vezes sete", conforme a tradução). Fica assim acentuada a contraposição entre a vingança e o perdão. Mateus articula a incitação à prática do perdão com uma parábola narrativa que lhe é exclusiva. As parábolas em geral são ditos breves relacionados com acontecimentos comuns da vida. As parábolas narrativas, por outro lado, caracterizam-se por uma complexidade maior, em um texto mais longo e bem detalhado. Elas são mais encontradas em Mateus e Lucas. Têm a particularidade de, quase sempre, envolverem os personagens em uma relação de poder e submissão, característicos da sociedade opressora vigente. Pelas imagens de violência que frequentemente usam, chegam até a chocar pelo contraste destas imagens com as propostas de mansidão e paz características do Reino. Podemos até ver nelas, uma certa ironia implícita da sociedade na qual vigoram as relações de poder e opressão. Porém, deste terreno impróprio procura-se extrair uma mensagem positiva. Nesta parábola de hoje, o rei resolveu ajustar contas com os servos. O ajuste seria cruel. Porém um servo que lhe devia uma quantia enorme lhe implora e ele se comove e perdoa. O servo perdoado vai e sufoca sem compaixão alguém que lhe devia uma quantia irrisória. O rei sabendo disto entrega o servo aos carrascos. A conclusão é escatológica: o castigo para quem não perdoar o irmão. Mais positiva é a visão de que pertencemos a Deus (segunda leitura) e assim devemos viver e morrer para ele, unidos a Jesus. Na primeira leitura, no livro do Eclesiástico, escrito sob a influência da cultura grega cerca de um a dois séculos antes de Jesus, temos um texto bem inspirado sobre o perdão, que se aproxima das palavras de Jesus e cuja síntese encontramos na oração do Pai Nosso: "Perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido". O amor e a misericórdia de Deus seduzem e atraem os corações movendo-os à conversão.
José Raimundo Oliva



Caríssimos, no Evangelho ouvimos a parábola do devedor implacável. Recordemos que estamos terminando o capítulo 18 de São Mateus, no qual Jesus trata da vida da Igreja, a Comunidade dos seus discípulos. No Domingo passado, o Senhor Jesus nos mandava corrigir o caso o irmão nos fizesse o mal. Corrigir para salvar, corrigir para dar o perdão. Hoje, Pedro pergunta quantas vezes se deve dar o perdão a quem nos fez mal na Comunidade. Jesus responde: Perdoa sempre! Mas, aprofundemos esta Palavra de Deus que nos é dirigida como luz e caminho da nossa vida.
Uma coisa que a humanidade atual, tão cheia de si, não compreende é que a verdadeira liberdade nossa, a autêntica maturidade, somente é possível se formos abertos para Deus na nossa vida. O homem fechado em si é presa de suas paixões, de sua tendência à auto-afirmação, à amargura, ao rancor, à vingança... Quando nos abrimos para Deus e temos a coragem de nos deixar medir por ele, aí sim, somos obrigado a nos deixar a nós mesmos e nos sentimos compelidos a ver, sentir e agir conforme o coração de Deus. Tomemos a primeira leitura da Missa. Observemos como Deus nos coloca freio, como nos educa, como nos serve de medida e modelo: “Quem se vingar encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados. Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim, quando orares, teus pecados serão perdoados. Lembra-te do teu fim e deixa de odiar; pensa na destruição e na morte, e persevera nos mandamentos. Pensa na aliança do Altíssimo, e não leves em conta a falta alheia!” Eis, irmãos, Deus no colocando freio e rédeas às paixões! E por quê? Porque, como diz o Salmo: “Ele te perdoa toda culpa, e te cerca de carinho e compaixão. Não fica sempre repetindo as suas queixas, nem guarda eternamente o seu rancor. Não nos trata como exigem nossas faltas nem nos pune em proporção às nossas culpas...” É esta a grande diferença entre quem crê e não crê, entre quem é aberto para Deus e para ele se fecha. Para quem crê, a medida é Deus, é o coração do Pai do céu, tal qual Jesus no-lo revelou!
Esta idéia aparece muito clara na segunda leitura de hoje. O Apóstolo nos recorda que a vida não nos pertence de modo fechado, absoluto; a vida é um dom e como dom deve ser vivida: “Ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor”. Ele, portanto, é nossa medida, nosso critério e nossa realização; ele, que por nós morreu e ressuscitou, para ser o nosso Senhor.
Pensando nisso, detenhamo-nos, agora, no Evangelho. Como já disse, a questão aqui é ainda a vida na Igreja. Quantas vezes perdoar? Até quando conservar um coração aberto, disponível, sem deixar-se levar pela tristeza e a amargura, o rancor e o fechamento? Até quando manter a doçura, filha da esperança, fruto da certeza da vitória do Senhor? O Senhor Jesus nos adverte que o perdão deve ser dado sempre porque o coração do Pai, como o do rei da parábola, é assim: cheio de compaixão, capaz de perdoar toda a dívida. Observem, caríssimos, que Jesus começa dizendo que o Reino dos Céus é assim: o reinado de um rei que é Pai e perdoa. Ora, o Pai somente reina no coração de quem perdoa como ele mesmo perdoa, como ele mesmo nos perdoou e acolheu em Jesus, que morreu e ressuscitou para ser o perdão de Deus para nós! Eis o que é a Igreja: o espaço, o ambiente no qual o reinado de Deus deve manifestar-se no mundo; lugar da misericórdia, do acolhimento, do amor, do perdão mil vezes, da esperança que não desiste, da doçura aprendida e bebida daquele Coração aberto na cruz. A Igreja deve ser assim, Não porque sejamos bonzinhos, mas porque aprendemos assim do coração do Pai de Jesus. Com efeito, como experimentará o perdão de Deus quem tem o coração fechado para os outros? Quem reconhecerá de verdade que tudo deve a Deus e nunca pagará o bastante quem não perdoa as dívidas dos irmãos? É preciso que compreendamos ser impossível experimentar Deus como amor e doçura – e nosso Deus é assim; Jesus no-lo revelou assim! – se não nos deixar inundar pelo amor e doçura de Deus, inundar nosso coração, até transbordar para os irmãos!
Caríssimos, no Senhor, que o silêncio da oração, que a contemplação persistente do Cristo e de seus gestos e palavras, que a participação piedosa, recolhida e devota da Eucaristia, faça o nosso coração aprender do Coração do Pai de Jesus. Eis aqui como a Comunidade chamada Igreja – esta Comunidade reunida para a Eucaristia – será sinal do Reino, início do Reino, semente do Reino. Somente assim, poderemos dizer ao mundo sedento de Deus: Vinde e vede! Que o Senhor no-lo conceda. Amém!
dom Henrique Soares da Costa



A Palavra de Deus que a liturgia do 24º domingo do tempo comum nos propõe fala do perdão. Apresenta-nos um Deus que ama sem cálculos, sem limites e sem medida; e convida-nos a assumir uma atitude semelhante para com os irmãos que, dia a dia, caminham ao nosso lado.
O Evangelho fala-nos de um Deus cheio de bondade e de misericórdia que derrama sobre os seus filhos – de forma total, ilimitada e absoluta – o seu perdão. Os crentes são convidados a descobrir a lógica de Deus e a deixarem que a mesma lógica de perdão e de misericórdia sem limites e sem medida marque a sua relação com os irmãos.
A primeira leitura deixa claro que a ira e o rancor são sentimentos maus, que não convêm à felicidade e à realização do homem. Mostra como é ilógico esperar o perdão de Deus e recusar-se a perdoar ao irmão; e avisa que a nossa vida nesta terra não pode ser estragada com sentimentos, que só geram infelicidade e sofrimento.
Na segunda leitura Paulo sugere aos cristãos de Roma que a comunidade cristã tem de ser o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, do perdão. Ninguém deve desprezar, julgar ou condenar os irmãos que têm perspectivas diferentes. Os seguidores de Jesus devem ter presente que há algo de fundamental que os une a todos: Jesus Cristo, o Senhor. Tudo o resto não tem grande importância.
1ª leitura – Sir 27,33-28,9 - AMBIENTE
O livro de Ben Sira (também chamado “Eclesiástico”), de onde foi extraída a primeira leitura deste domingo, é um livro sapiencial que, como todos os livros sapienciais, pretende apresentar uma reflexão de caráter prático sobre a arte de bem viver e de ser feliz.
Estamos no início do séc. II a.C., numa época em que o helenismo tinha começado o seu trabalho pernicioso, no sentido de minar a cultura e os valores tradicionais de Israel. Jesus Ben Sira, o autor deste livro, está preocupado com a degradação dos valores tradicionais do seu Povo e as cedências que, sobretudo os mais jovens, vão fazendo à cultura grega. A “fé dos pais” corre riscos de desaparecer ou, ao menos, de perder a sua identidade.
Jesus Ben Sira procura, então, apresentar uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel, sublinhando a grandeza dos valores judaicos e demonstrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega. Por essa razão, escreveu este compêndio de “sabedoria”. Nele, tenta demonstrar aos seus compatriotas que Israel possuía na “Torah”, revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” – uma “sabedoria” muito superior à “sabedoria” grega.
O texto que a liturgia de hoje nos propõe integra uma secção (cf. Sir. 24,1-42,14) onde Jesus Ben Sira procura demonstrar que a “sabedoria” – criatura de Deus, oferecida a todos os homens piedosos (cf. Sir. 1,1-23,38) – tem um campo especial de acção em Israel, o Povo eleito de Deus. Esta secção não tem uma estrutura clara e coerente: os temas vão-se sucedendo, aparentemente sem uma ordem lógica. Dominam, aí, as “máximas” destinadas a ensinar os comportamentos que se devem assumir nas relações sociais.
Uma nota de caráter prático: o nosso texto aparece, na maior parte das versões recentes da Bíblia, numerado como 27,30-28,7 e não como 27,33-28,9. Aqui, no entanto, conservamos a numeração 27,33-28,9 – que é a apresentada no “Leccionário Dominical”. Esta discrepância resulta do fato de o texto apresentado pelo “Leccionário” seguir uma versão latina, mais longa do que a versão grega que serve de base às traduções mais recentes do livro de Ben Sira.
MENSAGEM
Jesus Ben Sira ensina que a verdadeira “sabedoria” está em não se deixar dominar pelo rancor, pela ira e pelos sentimentos de vingança. O “sábio” (isto é, aquele que quer ter êxito e ser feliz) é aquele que é capaz de perdoar as ofensas e de ter compaixão pelo seu semelhante.
Particularmente interessante é a relação estabelecida aqui entre o perdão humano e o perdão divino: quem se recusa a perdoar ao irmão, como poderá ter a coragem de pedir o perdão de Deus? Mas quem perdoa as ofensas dos outros, poderá pedir e esperar o perdão do Senhor para as suas próprias falhas. Ao menos dois séculos antes de Cristo o judaísmo já tinha descoberto que existe uma relação entre o perdão que Deus nos oferece e o perdão que ele nos convida a oferecer aos irmãos.
Para tornar mais sugestivo e impressionante o seu apelo, Ben Sira convida os seus concidadãos a lembrarem-se da morte: “pensa no teu fim e deixa de ter ódio”… Diante da realidade final que nos espera, que sentido é que fazem os sentimentos de rancor, de ira, de vingança que alimentamos nesta terra? E podemos, com coerência, esperar o perdão final de Deus, se a nossa vida foi vivida numa lógica de ódio e de vingança?
Fundamentalmente, temos aqui um apelo a invertermos a lógica do “olho por olho, dente por dente”, de forma a que as nossas relações com os irmãos sejam marcadas por sentimentos de perdão e de misericórdia. É dessa forma que o homem construirá a sua felicidade nesta terra; e é assumindo está lógica que o homem poderá pedir e esperar de Deus o perdão para as suas falhas.
ATUALIZAÇÃO
Todos os dias vemos, nas notícias que nos chegam de todos os cantos do mundo, onde nos leva a lógica do “responder na mesma moeda”. Para vingar ofensas reais ou imaginárias, desencadeiam-se mecanismos de vingança que são responsáveis pela morte de inocentes, por sofrimentos e dramas sem fim e por uma espiral de violência sem limites e sem prazos. É este o mundo que queremos? A única forma de fazermos respeitar os nossos direitos e a nossa dignidade passará por deixarmos à solta os nossos instintos de vingança, de rancor e de ódio?
Ben Sira estabelece uma relação clara entre o perdão de Deus e o perdão humano. É claro que não podemos dizer que Deus não nos perdoa se nós não conseguirmos perdoar aos nossos irmãos (a bondade e a misericórdia de Deus são infinitamente maiores do que as nossas); mas, se o nosso coração estiver dominado por uma lógica de ódio e de vingança, o perdão que Deus nos oferece poderá encontrar aí lugar? Um coração duro, violento e agressivo, incapaz de compreender as falhas dos outros, estará suficientemente disponível para acolher a bondade e o amor de Deus?
Ben Sira lembra também, a propósito do perdão, o horizonte final do homem (a morte)… Não se tratará, tanto, de avisar que se não nos portarmos bem, Deus condena-nos (por esta altura, o Povo de Deus ainda não parece ter uma noção clara de que há, para além desta terra, uma vida eterna reservada para aqueles que escolhem Deus e os seus valores); trata-se, sobretudo, de sugerir que a nossa vida nesta terra está marcada pela brevidade e pela finitude e não pode ser estragada com sentimentos que só nos magoam a nós e aos outros.
Muitos homens do nosso tempo pensam que só nos afirmamos, só nos realizamos e só triunfamos quando somos fortes e respondemos com força e agressividade à força e agressividade dos outros. Jesus Ben Sira, contudo, ensina que a “sabedoria”, o êxito e a felicidade do homem não passam por cultivar sentimentos de ódio e de rancor, mas por cultivar sentimentos de perdão e de misericórdia. Quem tem razão? O que é que nos dá paz, nos faz sentir em harmonia conosco, com Deus e com ou outros e nos torna mais felizes: os gestos violentos que mostraram aos outros a nossa força e apaziguaram o nosso orgulho ferido, ou os nossos gestos de perdão, de bondade, de misericórdia?
2ª leitura – Rom 14,7-9 - AMBIENTE
Na segunda parte da Carta aos Romanos (já o vimos nos domingos anteriores), Paulo preocupa-se em apresentar aos cristãos de Roma (e aos cristãos de todos os lugares e tempos) um conjunto de atitudes e de valores que devem marcar a vida pessoal, social e eclesial daqueles que Deus chama à salvação. A segunda leitura deste domingo situa-nos neste contexto e apresenta-nos mais alguns dados sobre esta questão.
O nosso texto faz parte de uma perícope (cf. Rm. 14,1-12) em que Paulo dá algumas indicações acerca da conduta a ter face aos outros membros da comunidade, particularmente face àqueles que têm perspectivas diferentes da fé e do caminho cristão.
Paulo considera que existem dois tipos de crentes na comunidade cristã de Roma: os “fortes” e os “débeis”. Estas designações não parecem referir-se, primordialmente, à classe social (“ricos” e “pobres”) ou à origem religiosa (“pagano-cristãos” e “judeo-cristãos”) desses crentes, mas a atitudes diversas quanto à fé… Os “fortes” (na linguagem de hoje, poderíamos caracterizá-los como “progressistas”) são aqueles que já se libertaram decisivamente da escravidão da Lei e dos ritos e consideram que só os valores do Evangelho são decisivos no caminho da fé. Os “fracos” (na linguagem de hoje poderíamos chamar-lhes “tradicionalistas”) são aqueles que fazem finca-pé nas leis, nos ritos e nas tradições antigas e ficam escandalizados pelo fato de esses valores não serem assumidos por toda a gente.
Muito provavelmente, estes dois grupos viviam em confronto, provocando uma certa divisão na comunidade. Paulo não aceita atitudes de intolerância ou de desprezo pelos irmãos, venham elas de onde vieram. Na verdade, o pensamento de Paulo aproxima-o mais dos “fortes”; mas ele sabe muito bem que mais importante do que as divergências é o respeito pelo irmão e a construção da fraternidade. Os “fortes” não podem desprezar aqueles que não pensam como eles; e os “débeis” não têm o direito de julgar ou de catalogar aqueles que têm, quanto à fé, uma outra perspectiva.
É precisamente neste contexto que Paulo encaixa os três versículos que constituem a segunda leitura deste domingo.
MENSAGEM
Os vs. 7-9 são verdadeiramente o centro da perícope. Fundamentalmente, Paulo recorda a todos – aos “fortes” e aos “débeis” – que pertencem ao Senhor: “quer vivamos quer morramos, é ao Senhor que pertencemos” (v. 8). Isso é muito mais importante do que as opiniões particulares acerca do caminho a percorrer para atingir o mesmo objetivo. Os crentes, antes de se deixarem dividir e separar por questões verdadeiramente secundárias (que tipo de alimentos se devem comer, que festas se devem celebrar, que jejuns se devem fazer), devem ter consciência do essencial da fé e daquilo que os une: Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou para a todos dar a mesma vida. A comunidade é uma família de irmãos, reunida à volta do mesmo Senhor.
ATUALIZAÇÃO
Paulo está consciente de que há vários caminhos válidos para chegar a Cristo e à sua proposta de salvação. Esses caminhos não só não se excluem mas, na sua diversidade, constituem um fator de enriquecimento da nossa experiência comunitária. A comunidade tem de estar consciente de que a diversidade não exclui, necessariamente, a unidade. Por isso, a comunidade cristã não é o lugar da intolerância, da incompreensão, do desrespeito pela diversidade de opiniões, da uniformidade imposta em nome da fé; mas é o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, da partilha, do perdão. A este respeito, como classifico a minha comunidade cristã ou religiosa?
Existem, às vezes, nas comunidades cristãs certas pessoas que se consideram mais esclarecidas e mais preparadas e que manifestam desprezo por aqueles que têm concepções menos racionais da fé, que vivem agarrados a determinadas devoções ou a determinados ritos considerados ultrapassados. Paulo recomenda-lhes: “não desprezeis ninguém; não esqueçais que a única coisa importante e decisiva é Cristo, a quem todos pertencemos”.
Existem, às vezes, na comunidade cristã certas pessoas que se consideram muito santas e virtuosas porque cumprem determinadas regras, são fiéis a determinados ritos e têm sempre presente os mandamentos da santa madre Igreja… Observam e controlam os outros, julgam-nos sem direito a defesa, condenam-nos e acham-se no sagrado direito de os desacreditar diante dos outros membros da comunidade… Paulo recomenda-lhes: “não julgueis nem condeneis os vossos irmãos; não esqueçais que a única coisa importante e decisiva é Cristo, a quem todos pertencemos”.
Às vezes perdemo-nos na discussão das coisas secundárias e esquecemos o essencial. Discutimos se se deve receber a comunhão na mão ou na boca, se se deve ou não ajoelhar à consagração, se determinado cântico é litúrgico ou não, se os padres devem ou não casar, se a procissão do santo padroeiro da paróquia deve fazer este ou aquele percurso… e, algures durante a discussão, esquecemos o amor, o respeito pelo outro, a fraternidade, e que todos vivemos à volta do mesmo Senhor. É preciso descobrir o essencial que nos une e não absolutizar o secundário que nos divide.
Evangelho – Mt 18,21-35 - AMBIENTE
Continuamos a ler o “discurso eclesial”, que preenche todo o capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus. Este “discurso” tem como ponto de partida algumas “instruções” apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária (cf. Mc. 9,33-37.42-47), mas que Mateus ampliou de forma significativa. Os destinatários do discurso são os discípulos (na realidade Mateus pretende, sobretudo, atingir os membros dessa comunidade cristã a quem este Evangelho se destina).
Por detrás do texto que nos é hoje proposto, podemos entrever uma comunidade onde as tensões e os conflitos degeneram em ofensas pessoais e que tem muita dificuldade em perdoar.
MENSAGEM
O mandamento do perdão não é novo – como vimos, aliás, na primeira leitura. Os catequistas de Israel ensinavam a perdoar as ofensas e a não guardar rancor contra o irmão que tinha cometido qualquer falha. Os “mestres” de Israel estavam, no entanto, de acordo em que a obrigação de perdoar existia apenas em relação aos membros do Povo de Deus (os inimigos estavam excluídos dessa dinâmica de amor e de misericórdia). A grande discussão girava, porém, à volta do número limite de vezes em que se devia perdoar. Todos – desde os mais exigentes aos mais misericordiosos – aceitavam, contudo, que o perdão tem limites e que não se deve perdoar indefinidamente.
É nesta problemática que Jesus é envolvido pelos discípulos. Pedro, o porta-voz da comunidade, consulta Jesus acerca dos limites do perdão. Ele sabe que, quanto a isto, Jesus tem idéias radicais e, talvez com alguma ironia, pergunta a Jesus se, na sua perspectiva, se deve perdoar sempre (“até sete vezes?” – v. 21: o número sete, na cultura semita, indica “totalidade”).
Jesus responde que não só se deve perdoar sempre, mas de forma ilimitada, total, absoluta (“setenta vezes sete” – v. 22). Deve-se perdoar sempre, a toda a gente (mesmo aos inimigos) e sem qualquer reserva, sombra ou prevenção.
É neste contexto e a propósito da lógica do perdão que Jesus propõe aos discípulos uma parábola (vs. 23-35). A parábola apresenta-se em três quadros ou cenas.
O primeiro quadro (vs. 23-27) coloca-nos diante de uma cena de corte: um funcionário real, na hora de prestar contas ao seu senhor (provavelmente de impostos recebidos e nunca entregues), revela-se incapaz de saldar a sua dívida. O senhor ordena que o funcionário e a sua família sejam vendidos como escravos; mas, perante a humildade e a submissão do servo, o senhor deixa-se dominar por sentimentos de misericórdia e perdoa a dívida. Neste quadro, o que impressiona mais é o montante astronômico da dívida: dez mil talentos (um talento equivalia a cerca de 36 kg. e podia ser em ouro ou em prata. Dez mil talentos é, portanto, uma soma incalculável). O exagero da dívida serve, aqui, para pôr em relevo a misericórdia infinita do senhor.
O segundo quadro (vs. 28-30) descreve como esse funcionário que experimentou a misericórdia do seu senhor se recusou, logo a seguir, a perdoar um companheiro que lhe devia cem denários (um denário equivalia a 12 gramas de prata e era o pagamento diário de um operário não especializado. Cem denários correspondia, portanto, a uma quantia insignificante para um alto funcionário do rei).
Quando estes dois quadros são postos em paralelo, sobressaem, por um lado, a desproporção entre as duas dívidas e, por outro, a diferença de atitudes e de sentimentos entre o senhor (capaz de perdoar infinitamente) e o funcionário do rei (incapaz de se converter à lógica do perdão, mesmo depois de ter experimentado a alegria de ser perdoado).
É precisamente desta diferença de comportamentos e de lógicas que resulta o terceiro quadro (v. 28-35): os outros companheiros do funcionário real, chocados com a sua ingratidão, informaram o rei do sucedido; e o rei, escandalizado com o comportamento do seu funcionário, castigou-o duramente.
Antes de mais, a parábola é uma catequese sobre a misericórdia de Deus. Mostra como, na perspectiva de Deus, o perdão é ilimitado, total e absoluto.
Depois, a parábola convida-nos a analisar as nossas atitudes e comportamentos face aos irmãos que erram. Mostra como neste capítulo, a nossa lógica está, tantas vezes, distante da lógica de Deus. Diante de qualquer falha do irmão (por menos significativa que ela seja), assumimos a pose de vítimas magoadas e, muitas vezes, tomamos atitudes de desforra e de vingança que são o sinal claro de que ainda não interiorizámos a lógica de Deus.
Finalmente, a parábola sugere que existe uma relação (aliás já afirmada na primeira leitura deste domingo) entre o perdão de Deus e o perdão humano. Mateus estará a sugerir que o perdão de Deus é condicionado e que só se tornará efetivo se nós aprendermos a perdoar aos nossos irmãos? O que Mateus está a dizer, sobretudo, é que na comunidade cristã deve funcionar a lógica do perdão ilimitado: se essa é a lógica de Deus, terá de ser a nossa lógica, também. O que Mateus está a sugerir, também, é que se o nosso coração não bater segundo a lógica do perdão, não terá lugar para acolher a misericórdia, a bondade e o amor de Deus. Fazer a experiência do amor de Deus transforma-nos o coração e ensina-nos a amar os nossos irmãos, nomeadamente aqueles que nos ofenderam.
Deus pagará na mesma moeda e castigará quem não for capaz de viver segundo a lógica do perdão e da misericórdia? Não. Decididamente, o revanchismo e a vingança não fazem parte dos métodos de Deus… Mateus usa aqui – bem ao jeito semita – imagens fortes e dramáticas para sublinhar que a lógica do perdão é urgente e que dela depende a construção de uma realidade nova, de amor, de comunhão, de fraternidade – a realidade do Reino.
ATUALIZAÇÃO
O Evangelho deste domingo é sobre a necessidade de perdoar sempre, de forma radical e ilimitada. Trata-se – todos estamos conscientes do fato – de uma das exigências mais difíceis que Jesus nos faz. No entanto não há, neste campo, meias tintas, dúvidas, evasivas, desculpas: trata-se de um valor fundamental da proposta de Jesus. Ele deu testemunho, em gestos concretos, do amor, da bondade e da misericórdia do Pai. Na cruz, ele morreu pedindo perdão para os seus assassinos… Ora o cristão é, antes de mais, um seguidor de Jesus. Pessoalmente, como é que me situo face a isto?
O perdão e a misericórdia tornam-se ainda mais complicados à luz dos valores que presidem à construção do nosso mundo. O “mundo” considera que perdoar é próprio dos fracos, dos vencidos, dos que desistem de impor a sua personalidade e a sua visão do mundo; Deus considera que perdoar é dos fortes, dos que sabem o que é verdadeiramente importante, dos que estão dispostos a renunciar ao seu orgulho e auto-suficiência para apostar num mundo novo, marcado por relações novas e verdadeiras entre os homens. Na verdade, a lógica do mundo só tem aumentado a espiral de violência, de injustiça, de morte; a lógica de Deus tem ajudado a mudar os corações e frutificado em gestos de amor, de partilha, de diálogo e de comunhão. Para mim, qual destas duas propostas faz mais sentido? Qual destes dois caminhos pode ajudar a instaurar uma realidade mais humana, mais harmoniosa, mais feliz?
O que significa, realmente, perdoar? Significa ceder sempre diante daqueles que nos magoam e nos ofendem? Significa encolher os ombros e seguir adiante quando nos confrontamos com uma situação que causa morte e sofrimento a nós ou a outros nossos irmãos? Significa “deixar correr” enquanto forem coisas que não nos afetem diretamente? Significa pactuar com a injustiça e a opressão? Significa tolerar tudo num silêncio feito de cobardia e de conformismo? Não. O perdão não pode ser confundido com passividade, com alienação, com conformismo, com cobardia, com indiferença… O cristão, diante da injustiça e da maldade, não esconde a cabeça na areia, fingindo que não viu nada… O cristão não aceita o pecado e não se cala diante do que está errado; mas não guarda rancor para com o irmão que falhou, nem permite que as falhas derrubem as possibilidades de encontro, de comunhão, de diálogo, de partilha… Perdoar não significa isolar-se num silêncio ofendido, ou demitir-se das responsabilidades na construção de um mundo novo e melhor; mas significa estar sempre disposto a ir ao encontro, a estender a mão, a recomeçar o diálogo, a dar outra oportunidade.
Este Evangelho recorda-nos – talvez ainda de forma mais clara e concludente – aquilo que a primeira leitura já sugeria: quem faz a experiência do perdão de Deus, envolve-se numa lógica de misericórdia que tem, necessariamente, implicações na forma de abordar os irmãos que falharam. Não podemos dizer que Deus não perdoa a quem é incapaz de perdoar aos irmãos; mas podemos dizer que experimentar o amor de Deus e deixar-se transformar por Ele significa assumir uma outra atitude para com os irmãos, uma atitude marcada pela bondade, pela compreensão, pela misericórdia, pelo acolhimento, pelo amor.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho



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