24º DOMINGO DO TEMPO COMUM
17 de Setembro de 2017
Cor: Verde
Evangelho
- Mt 18,21-35
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SE NÃO PERDOARMOS E SE NÃO FORMOS MISERICORDIOSOS,
AUTOMATICAMENTE, DEUS NÃO SERÁ MISERICORDIOSO, E NÃO NOS PERDOARÁ. Uma coisa
depende da outra, e ponto final.
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“NÃO TE DIGO ATÉ SETE VEZES, MAS ATÉ SETE VEZES SETE.”- Olivia
Coutinho.
24º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 17 de Setembro de 2017
Evangelho de Mt18,21-35
Quantos de nós, professamos a nossa fé em Jesus, dizemos seus
seguidores, quando na prática, agimos de forma contrária a Dele! Rezamos a
oração do Pai Nosso, onde pedimos perdão a Deus, pelas as nossas ofensas, mas
não cumprimos o que prometemos a Ele, não perdoamos aquele que nos ofendeu!
A falta de perdão
interrompe o nosso relacionamento com Deus, mas não fecha o seu coração de Pai,
pois Deus, ao contrário de nós, não coloca ponto final, numa história de amor!
No evangelho
que a liturgia deste Domingo, nos convida a refletir, Pedro, aproximou-se de
Jesus, e perguntou-lhe: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar
contra mim? Até sete vezes? Jesus respondeu: Não te digo até sete vezes, mas
até setenta vezes sete.” E para chamar a nossa atenção, sobre a importância do
perdão, Jesus conta a parábola do servo cruel, a história de um servo, que
mesmo sendo perdoado pelo o rei, não perdoou ao seu devedor e por isso foi
duramente castigado.
Com esta
parábola, Jesus advertiu Pedro, e hoje a nós: “É assim que meu Pai fará
convosco, se cada um, não perdoar de coração ao seu irmão.”
Quem não está aberto
ao perdão, não deveria rezar a oração o Pai Nosso, pois uma oração, sem o
cumprimento do que se promete a Deus, não tem valor, é uma oração vazia, não
chega a Ele. (“...assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu...”)
Não é fácil
perdoar, isso todos nós sabemos, mas se recorrermos a Deus, com certeza, Ele
nos ajudará a vencer esse desafio, a quebrar a muralha que nos separa do irmão
e simultaneamente de Deus!
Jesus, na cruz,
nos deu um grande exemplo de perdão, ao perdoar aqueles que o torturava: “Pai
perdoa-lhes! Eles não sabem o que estão fazendo.” (Lc 23,34).Toda vez, que sentirmos
dificuldades em perdoar alguém, lembremo-nos deste grande exemplo de Jesus, e
com certeza, o nosso coração se abrirá ao perdão.
O perdão é uma
questão de decisão, de humildade, exercitá-lo, é reconhecer que não somos
modelos de perfeição, que também falhamos. É reconhecendo que somos falhos, que
vamos relevar a falha do outro!
A falta de
perdão nos faz mal, fecha o nosso coração à graça de Deus, enquanto que o
perdão nos traz um bem estar, uma paz interior!
Assim como Deus acolhe o pecador arrependido, e esquece todo o seu
passado, nós também, deveríamos fazer o mesmo: perdoar e acolher aquele que nos
ofendeu!
As palavras de Jesus, no evangelho de hoje, provocam-nos a um
grande desafio: perdoar sem limites, quantas vezes for necessário! Como
tornar isso possível, se humanamente estamos sempre prontos para o
revide? Jesus vem quebrar esta barreira do ego humano, nos convidando a pôr fim
no círculo vicioso da vingança, dando ás ofensas que recebemos uma resposta de
amor!
É despindo do nosso orgulho, que viveremos a alegria do perdão, a
alegria de perdoar e de ser perdoado!
Perdão, é
libertação, libertação para quem dá, e para quem recebe o perdão!
"É perdoando que seremos perdoados!"
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Perdoai-nos, senhor, como nós perdoamos a quem nos ofende
O tema da liturgia de
hoje é o perdão. A oração que Jesus ensinou a seus discípulos traz o imperativo
do perdão mútuo ao mesmo tempo que nos assegura o perdão divino. O pedido
“perdoai-nos como nós perdoamos” não limita a ação de Deus em relação às nossas
faltas, mas nos introduz na dinâmica divina de perdoar sempre. É porque Deus
tem misericórdia de nós que devemos ter misericórdia de nossos semelhantes.
Deus nos perdoou primeiro, e nós correspondemos a tão grande dom perdoando
nosso próximo da maneira que nosso Pai nos perdoa. O mal deve ser vencido com a
bondade ilimitada, que se manifesta incansavelmente no perdão. As leituras de
hoje mostram que, se o mal é intensamente prolífero, deve o bem ser muito mais.
1. Evangelho (Mt. 18,21-35): Perdoai sempre
Pedro estava convicto
de que tinha feito boa proposta a Jesus sobre o exercício do perdão. No
entanto, Jesus eleva esse valor ao máximo possível. Se observarmos o texto de
Gn. 4,24, veremos que estão em jogo também esses números, só que no contexto da
vingança.
No Antigo Testamento,
a atitude de um descendente de Caim, Lamec, que se propõe vingar até setenta
vezes sete, dá margem a uma corrente sem freios de violência. A atitude de
Lamec é tão contrária ao ensinamento de Jesus quanto a atitude do servo é
contrária à do patrão. A parábola quer ensinar que a morte de Jesus, segundo os
critérios de Lamec, careceria de vingança infinita por parte de Deus. No
entanto, o Pai, representado pelo patrão, não vingou seu Filho, mas perdoou
infinitamente (setenta vezes sete). E com isso pôs fim à corrente de violência
por meio do perdão.
Com isso se quer
ensinar que somente o perdão, ato divino que somos chamados a praticar, pode
pôr fim à violência. Como membros do corpo de Cristo, nossa atitude diante das
ofensas sofridas é perdoar sempre, pois não há ofensa maior do que aquela
realizada por nós a Deus: a morte do Herdeiro amado. Mas o Pai transformou essa
ofensa em perdão e salvação.
Perdoar sempre não
quer dizer passividade ou omissão diante do erro e da injustiça, mas sim não
guardar mágoa ou rancor, tampouco sentimentos de vingança. Somente pelo perdão,
fruto do amor, podemos construir um mundo mais pacífico, fraterno e amoroso.
1ª leitura (Eclo. 27,33–28,9): Perdoa a ofensa de teu próximo
Esse texto bíblico do
Antigo Testamento representa um avanço na maneira pela qual as pessoas lidavam
antigamente com as ofensas. O autor pede que se renuncie à vingança, afirmando
que somente as pessoas afastadas de Deus é que nutrem a ira, o desejo de
vingança no coração.
Quem tem um
relacionamento mais íntimo com o Senhor deveria cultivar um espírito de
misericórdia, já que a proximidade com Deus revela tanto as faltas do ser
humano quanto o perdão divino.
A consciência de que
todos têm necessidade da misericórdia de Deus deveria tornar as pessoas mais
religiosas e mais dispostas a perdoar. Infelizmente nem sempre é isso que se
vê.
O texto bíblico pede
que a pessoa rancorosa pense na morte e perdoe as ofensas recebidas. “Pensar na
morte” não significa “pensar num castigo eterno”, mas conscientizar-se de que a
morte iguala a todos nós. Todos morremos, e isso significa que ninguém é melhor
que o outro e todos nós somos muito mais devedores de Deus do que de uns para
com os outros.
2ª leitura (Rm. 14,7-9): Pertencemos ao Senhor
Freqüentemente as
mágoas e os rancores surgem da intolerância com o diferente. Algumas pessoas
não suportam que outras pensem e vivam a religião, a missão, a profissão ou
outras situações humanas de modo distinto. Há uma tentativa de uniformizar as
opiniões. Geralmente se confunde unidade com uniformidade. Estar no mesmo grupo
ou equipe e pensar ou agir de modo diferente é motivo para ser tachado de
rebelde, de falta de espírito comunitário etc. Nessas situações é necessário
discernimento, e o apóstolo Paulo nos dá uma pista para não criarmos
ressentimentos por causa da pluralidade: “Ninguém vive para si mesmo... é para
o Senhor que vivemos”. Aqueles que pensam e agem diferentemente de mim fazem-no
por causa do Senhor ou para exaltar a si mesmos? E eu, quando penso que
determinados pensamentos e atitudes das outras pessoas estão errados, é por
causa do Senhor que penso assim ou é para exaltar a mim mesmo?
Cristo é o Senhor,
nós pertencemos a ele; portanto, não devemos criar guerra em vez de bons
relacionamentos somente porque alguém que caminha conosco dá passos diferentes
e observa outras coisas no caminho.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj
Misericórdia e intransigência
Se não tem compaixão
por seu semelhante, como poderá pedir perdão de seus pecados? (Eclo. 28,4).
Lemos na liturgia
deste domingo a conhecida parábola do administrador cruel que, depois de ter
sido perdoado, deixou de usar de misericórdia para alguém que lhe devia
muito pouco. Aquele que tinha sido generosamente perdoado pelo rei não teve
compreensão para a dívida de alguém para com ele. Os que são cobertos pela
misericórdia precisaram ser também misericórdia para com os outros.
Se cristão é viver
intensamente na dinâmica do amor. O Mestre dos cristãos é aquele que ensina o
mandamento do amor a Deus e do amor ao próximo. Ele não quer que uns sejam
superiores aos outros, que julguem os outros mas que todos sintam-se mutuamente
ligados pelos laços do amor que é capaz de perdoar. Aos que cuspiam no
rosto, todos os que o ridicularizavam no momento do amor da cruz Jesus perdoou.
Ele, esse Mestre crucificado é o Senhor do perdão. Ora, entre os discípulos do
Senhor e destes para fora a lei é a do perdão.
Cada um de nós é uma
agraciado. Temos consciência bem clara de que devemos ao Senhor o agradecimento
por nos ter perdoado. Não cessamos de cantar a ação de graças: nossos pecados
que eram escarlates se tornaram brancos como a neve. Aprendemos do Mestre que
precisamos perdoar os que nos ofendem. Toda a nossa vida se passa como um hino
de gratidão por tudo o que nos foi alforriado. Jesus rasgou no alto da cruz um
documento condenatório que existia contra nós.
No tecido do
cotidiano de nosso viver vamos construindo a fraternidade e temos a
alegria de poder dizer que incluímos nos cantos de nosso coração aqueles que
por ventura, por sua fraqueza, vieram a nos machucar, magoar, decepcionar... Não
queremos alimentar qualquer mágoa em nosso interior. Se fomos cobertos do
amor do Senhor haveremos de jogar o manto da compreensão sobre os que nos
devem... Queremos, é verdade, ter sempre uma dívida que nunca pagaremos: a
dívida do amor fraterno.
Só temos a lamentar a
divisão que existe entre os cristãos. Ficamos felizes com todos os movimentos
de aproximação daqueles com quem precisamos rezar o Pai nosso com toda
verdade. Sofremos em nossas comunidades quando pessoas, devido a
suscetibilidades e ressentimentos se afastam das reuniões fraternas.
Ficamos tristes em ver que irmãos de sangue e de fé se negam a palavra. E
ficamos profundamente contentes em ver tantos e tantas que não se deixam
abater. Nos tétricos momentos de diferenças não deixam de olhar nos olhos dos
irmãos.
O salmo responsorial
da liturgia de hoje é uma das mais belas páginas da Escritura: “O Senhor te
perdoa toda culpa e cura toda a tua enfermidade; da sepultura ele salva a tua
vida e te cerca de carinho e compaixão. Não fica sempre repetindo as suas
queixas nem guarda eternamente o seu rancor. Não nos trata como exigem nossas
faltas nem nos pune em proporção às nossas culpas”.
frei Almir Ribeiro Guimarães
Mistério e
ministério do perdão
O cap. 18 de Mateus, o "Sermão
sobre a comunidade", depois de ter mostrado a importância da comunhão
eclesial como sacramento do amor de Deus, apresenta agora as palavras sobre o
perdão (evangelho), tarefa primordial da comunidade eclesial.
Em Jo. 20,19-23 (cf. 2º dom. pascal;
Pentecostes), o perdão é o conteúdo específico do dom do Espírito, por Jesus,
no dia de sua ressurreição. Mateus conta que Pedro - responsável da comunidade
eclesial - pergunta a Jesus até onde deve ir o perdão.
Perdoar sete vezes já era uma prova de
perfeição (Mt. 18,21)! Jesus multiplica esse número por setenta - um número sem
fim. E conta uma parábola, inspirada por Eclo. 28,1-5 (cf. 1ª leitura): um
funcionário, que tem uma dívida enorme (mil talentos ou trinta toneladas de
ouro), ganha do seu senhor anistia completa da dívida; mas ele mesmo vai
procurar seu colega e lança-o à prisão por causa de uma dívida de cem denários,
uns dois salários mínimos. Aí, o senhor volta atrás e coloca aquele primeiro
funcionário na prisão até que pague o último centavo. Devemos ser misericordiosos
como o nosso Pai celeste é misericordioso (Lc. 6,26; cf. Mt. 5,48). Ou, em
outros termos, se a misericórdia e o perdão não funcionam da nossa parte,
também não funciona da parte de Deus, a comunhão de amor paterno que o leva a
perdoar todas as nossas faltas, por mais graves que sejam (cf. Lc. 15,8 ss., o
filho pródigo). Pois o perdão não é uma formalidade a ser cumprida, mas uma
atitude fundamental pela qual o homem se torna semelhante a Deus e filho de
Deus. É comunhão com Deus e nossos irmãos. Por outro lado, onde não existe essa
comunhão (como no caso do funcionário que se mostrou alheio ao coração
misericordioso do "senhor"), também não pode haver perdão. Já Eclo.
28,9[7] (1ª leitura) menciona a Aliança de Deus como fundamento do perdão. O
mistério do perdão é baseado na comunhão com Deus, no fato de que, para quem
entra no amor do Pai, "tudo o que é meu é teu". Torna impossível a
dívida, pois tudo é propriedade comum. É esse o modelo do perdão cristão.
Consciente de que meu irmão, filho do mesmo Pai, é chamado à mesma vida divina
e de que todos os nossos "interesses" convergem para a mesma
plenitude divina, não lhe posso recusar o perdão que, no laço do amor, ele
impetrar.
Em sua essência, o perdão cristão é um
"sacramento" do amor do Pai. É neste sentido que se deve interpretar
o sacramento da penitência: faz brotar, para o pecador, a comunhão do Pai,
mediante a plena reintegração na comunhão eclesial, da qual o pecado o tinha
afastado. Tal afastamento consiste mais no constrangimento do pecador do que na
exclusão/excomunhão expressa (que, aliás, serve para fazer sentir ao pecador
que ele já não está na comunhão eclesial). O perdão cristão ocorre não só no
"sacramento da volta", mas também na vida cotidiana. O cristão deve
ser um homem de perdão permanente, porque sofre ao ver seu irmão errar. Pelo
perdão, procura restaurar a comunhão e eliminar o constrangimento. Assim, tanto
perdoar quanto ser perdoado é uma alegria.
Como já mostramos por algumas alusões à
1ª leitura, o Antigo Testamento tinha certa consciência dessa realidade.
Juntamente com o salmo responsorial, serve de aperitivo para o evangelho. A
misericórdia de Deus é incansável: "Ele perdoa todos os teus erros"
(Sl. 103[102],3).
A 2ª leitura sublinha o espírito de
comunhão que se revelou ao considerarmos o texto do evangelho. Quer vivamos,
quer morramos, pertencemos ao Senhor Jesus. Se nossa vida já não pertence a
nós, mas a ele, como poderemos recusar a comunhão ao nosso irmão pecador? Pois
Jesus deu sua vida por nós, pecadores.
No canto da comunhão encontramos uma
imagem, talvez estranha, mas extremamente rica, da incansável misericórdia de
Deus: a ave que reúne seus pintinhos debaixo de suas asas. Jesus mesmo utiliza
essa imagem ao denunciar a falta de conversão de Jerusalém (Lc. 13,34).
A oração do dia e a oração final
emolduram a liturgia de hoje, chamando nossa atenção para a ação do amor de
Deus em nós. Sobretudo quando perdoamos, experimentamos que já não somos
movidos por nossos próprios impulsos, mas por uma bondade criativa, que "ultrapassa
a nossa competência", pois endireita um mal que, na pessoa prejudicada,
atinge toda a família de Deus. Essa bondade criativa chama-se a graça de Deus.
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
Perdoar aos irmãos
O perdão, dentro da comunidade cristã,
que é formada por um povo santo e pecador, deve ser contínuo e sem limites. No
Catecismo da Igreja Católica (CIC), em 2845 lemos: Não há limite nem medida a
esse perdão essencialmente divino.
Jesus, o Mestre da justiça, mostra a
Pedro que somente o perdão pode salvar uma comunidade da ruína, e ensina a
acabar com a indiferença, com o ódio e com a vingança que geram uma sociedade
injusta onde o sofrimento é grave.
Mateus aborda a forma como deve ser
essa relação entre os membros da Igreja, dedicando-se à relação de perdão que
deve existir entre eles. Em 2843 do CIC lemos: Não está em nosso poder não mais
sentir e esquecer a ofensa; mas o coração que se entrega ao Espírito Santo
transforma a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa
em intercessão.
Pedro pergunta a Jesus quantas vezes
deve perdoar seu irmão. Segundo a Lei dos Judeus, esse perdão devia ser de no
máximo quatro vezes, mas Pedro pergunta se deve perdoar sete vezes, mostrando a
preocupação com a limitação do perdão e com a vontade de agir como Jesus diante
de tal situação. O número sete para os judeus se remete ao número perfeito, ao
sétimo dia da criação, por isso é citado por Pedro para designar um perdão
perfeito.
Jesus responde contando uma parábola, e
mostra como é a atitude de quem quer receber o perdão, mas não sabe perdoar. E,
na sua resposta, multiplica por setenta o número de vezes indicado por Pedro
para perdoar o irmão, ou seja, a perfeição do perdão está vinculada à
obediência aos dez mandamentos, sete vezes dez. Com isso, subentende-se que os
cristãos não podem estabelecer limites ao perdão.
A dívida do empregado para com seu Rei
era muito grande e equivalia a milhares de quilos de ouro, o que era
praticamente impagável. Assim é também a dívida de cada um para com Deus que
inesperadamente perdoa, superando expectativas e pretensões.
A medida do perdão deve ser a mesma
daquela recebida do Pai, assim como Jesus ensinou aos seus discípulos quando
rezarem a Deus: “Perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem
ofendido.”
Jesus é o Mestre que traz para dentro
da sociedade e da história, ensinamentos e práticas centradas na justiça, que
geram relações novas e, conseqüentemente, constroem um mundo novo.
Pequeninos
do Senhor
Ensinando a perdoar
Um dos maiores desafios para quem vive
em comunidade é o perdão. Por outro lado, a sobrevivência de qualquer
comunidade humana dependerá da capacidade que seus membros têm de perdoar. Sem
isto, não há comunidade que possa subsistir por muito tempo.
Em se tratando da comunidade cristã, o
perdão torna-se um imperativo. Os discípulos de Jesus foram exortados a
considerar as raízes teológicas do perdão. No ato de perdoar o próximo e de se
reconciliar com ele, Deus se faz presente. Por conseguinte, o perdão supera os
limites humanos.
Quando alguém perdoa o próximo, age em
conformidade com Deus que concede prodigamente o seu perdão ao ser humano. Para
tanto, fecha os olhos para a maldade humana, quando a pessoa se reconhece
pecadora e se volta para ele.
A capacidade divina de perdoar é
ilimitada. Deus conhece perfeitamente de que é feito o ser humano, e sabe muito
bem que sua fidelidade pode não ser definitiva. Quem é perdoado hoje pode
voltar a pecar amanhã. No entanto, sempre que se converte e volta arrependido,
encontrará um Pai bondoso e misericordiosos para acolhê-lo.
Os discípulos de Jesus são chamados a
imitar o modo de agir de Deus. Também eles devem perdoar com prodigalidade,
tendo um coração cheio de misericórdia para acolher quem carece de perdão.
Oração
Pai, é meu desejo imitar teu modo de
agir, no tocante ao perdão. Faze-me ser pródigo e misericordioso em relação ao
próximo que precisa do meu perdão.
padre Jaldemir
Vitório
O amor e a misericórdia de Deus seduzem e atraem
Jesus havia orientado
os discípulos para a prática do perdão e reconciliação em caso de ofensa entre
irmãos (Mt. 18,15 - cf. 4set.). Encontramos esta orientação também no evangelho
de Lucas (Lc. 17,3-4 - cf. 7 nov.) de maneira simples, provavelmente mais fiel
à fala de Jesus. Aí Jesus fala em perdoar sete vezes, o número sete
significando a plenitude, sem limites. No texto de hoje, Mateus elabora o
diálogo entre Pedro e Jesus, jogando com os números sete e setenta, reforçando
o caráter ilimitado do perdão. Mateus prima por associar os acontecimentos às
escrituras. Pode-se ver aí uma alusão a Gen. 4,24: "se Caim é vingado sete
vezes, Lamec o será setenta e sete vezes" (ou "setenta vezes
sete", conforme a tradução). Fica assim acentuada a contraposição entre a
vingança e o perdão. Mateus articula a incitação à prática do perdão com uma
parábola narrativa que lhe é exclusiva. As parábolas em geral são ditos breves
relacionados com acontecimentos comuns da vida. As parábolas narrativas, por
outro lado, caracterizam-se por uma complexidade maior, em um texto mais longo
e bem detalhado. Elas são mais encontradas em Mateus e Lucas. Têm a
particularidade de, quase sempre, envolverem os personagens em uma relação de
poder e submissão, característicos da sociedade opressora vigente. Pelas imagens
de violência que frequentemente usam, chegam até a chocar pelo contraste destas
imagens com as propostas de mansidão e paz características do Reino. Podemos
até ver nelas, uma certa ironia implícita da sociedade na qual vigoram as
relações de poder e opressão. Porém, deste terreno impróprio procura-se extrair
uma mensagem positiva. Nesta parábola de hoje, o rei resolveu ajustar contas
com os servos. O ajuste seria cruel. Porém um servo que lhe devia uma quantia
enorme lhe implora e ele se comove e perdoa. O servo perdoado vai e sufoca sem
compaixão alguém que lhe devia uma quantia irrisória. O rei sabendo disto
entrega o servo aos carrascos. A conclusão é escatológica: o castigo para quem
não perdoar o irmão. Mais positiva é a visão de que pertencemos a Deus (segunda
leitura) e assim devemos viver e morrer para ele, unidos a Jesus. Na primeira
leitura, no livro do Eclesiástico, escrito sob a influência da cultura grega
cerca de um a dois séculos antes de Jesus, temos um texto bem inspirado sobre o
perdão, que se aproxima das palavras de Jesus e cuja síntese encontramos na
oração do Pai Nosso: "Perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a
quem nos tem ofendido". O amor e a misericórdia de Deus seduzem e atraem
os corações movendo-os à conversão.
José Raimundo Oliva
Caríssimos, no Evangelho ouvimos a
parábola do devedor implacável. Recordemos que estamos terminando o capítulo 18
de São Mateus, no qual Jesus trata da vida da Igreja, a Comunidade dos seus
discípulos. No Domingo passado, o Senhor Jesus nos mandava corrigir o caso o
irmão nos fizesse o mal. Corrigir para salvar, corrigir para dar o perdão.
Hoje, Pedro pergunta quantas vezes se deve dar o perdão a quem nos fez mal na
Comunidade. Jesus responde: Perdoa sempre! Mas, aprofundemos esta Palavra de
Deus que nos é dirigida como luz e caminho da nossa vida.
Uma coisa que a humanidade atual, tão
cheia de si, não compreende é que a verdadeira liberdade nossa, a autêntica
maturidade, somente é possível se formos abertos para Deus na nossa vida. O
homem fechado em si é presa de suas paixões, de sua tendência à auto-afirmação,
à amargura, ao rancor, à vingança... Quando nos abrimos para Deus e temos a
coragem de nos deixar medir por ele, aí sim, somos obrigado a nos deixar a nós
mesmos e nos sentimos compelidos a ver, sentir e agir conforme o coração de
Deus. Tomemos a primeira leitura da Missa. Observemos como Deus nos coloca
freio, como nos educa, como nos serve de medida e modelo: “Quem se vingar
encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados.
Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim, quando orares, teus pecados
serão perdoados. Lembra-te do teu fim e deixa de odiar; pensa na destruição e
na morte, e persevera nos mandamentos. Pensa na aliança do Altíssimo, e não leves
em conta a falta alheia!” Eis, irmãos, Deus no colocando freio e rédeas às
paixões! E por quê? Porque, como diz o Salmo: “Ele te perdoa toda culpa, e te
cerca de carinho e compaixão. Não fica sempre repetindo as suas queixas, nem
guarda eternamente o seu rancor. Não nos trata como exigem nossas faltas nem
nos pune em proporção às nossas culpas...” É esta a grande diferença entre quem
crê e não crê, entre quem é aberto para Deus e para ele se fecha. Para quem
crê, a medida é Deus, é o coração do Pai do céu, tal qual Jesus no-lo revelou!
Esta idéia aparece muito clara na
segunda leitura de hoje. O Apóstolo nos recorda que a vida não nos pertence de
modo fechado, absoluto; a vida é um dom e como dom deve ser vivida: “Ninguém
dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para
o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Vivos ou
mortos, pertencemos ao Senhor”. Ele, portanto, é nossa medida, nosso critério e
nossa realização; ele, que por nós morreu e ressuscitou, para ser o nosso
Senhor.
Pensando nisso, detenhamo-nos, agora,
no Evangelho. Como já disse, a questão aqui é ainda a vida na Igreja. Quantas
vezes perdoar? Até quando conservar um coração aberto, disponível, sem
deixar-se levar pela tristeza e a amargura, o rancor e o fechamento? Até quando
manter a doçura, filha da esperança, fruto da certeza da vitória do Senhor? O
Senhor Jesus nos adverte que o perdão deve ser dado sempre porque o coração do
Pai, como o do rei da parábola, é assim: cheio de compaixão, capaz de perdoar
toda a dívida. Observem, caríssimos, que Jesus começa dizendo que o Reino dos
Céus é assim: o reinado de um rei que é Pai e perdoa. Ora, o Pai somente reina
no coração de quem perdoa como ele mesmo perdoa, como ele mesmo nos perdoou e
acolheu em Jesus, que morreu e ressuscitou para ser o perdão de Deus para nós!
Eis o que é a Igreja: o espaço, o ambiente no qual o reinado de Deus deve
manifestar-se no mundo; lugar da misericórdia, do acolhimento, do amor, do
perdão mil vezes, da esperança que não desiste, da doçura aprendida e bebida
daquele Coração aberto na cruz. A Igreja deve ser assim, Não porque sejamos
bonzinhos, mas porque aprendemos assim do coração do Pai de Jesus. Com efeito,
como experimentará o perdão de Deus quem tem o coração fechado para os outros?
Quem reconhecerá de verdade que tudo deve a Deus e nunca pagará o bastante quem
não perdoa as dívidas dos irmãos? É preciso que compreendamos ser impossível
experimentar Deus como amor e doçura – e nosso Deus é assim; Jesus no-lo
revelou assim! – se não nos deixar inundar pelo amor e doçura de Deus, inundar
nosso coração, até transbordar para os irmãos!
Caríssimos, no Senhor, que o silêncio
da oração, que a contemplação persistente do Cristo e de seus gestos e
palavras, que a participação piedosa, recolhida e devota da Eucaristia, faça o
nosso coração aprender do Coração do Pai de Jesus. Eis aqui como a Comunidade
chamada Igreja – esta Comunidade reunida para a Eucaristia – será sinal do
Reino, início do Reino, semente do Reino. Somente assim, poderemos dizer ao
mundo sedento de Deus: Vinde e vede! Que o Senhor no-lo conceda. Amém!
dom Henrique Soares
da Costa
A Palavra de Deus que a liturgia do 24º
domingo do tempo comum nos propõe fala do perdão. Apresenta-nos um Deus que ama
sem cálculos, sem limites e sem medida; e convida-nos a assumir uma atitude
semelhante para com os irmãos que, dia a dia, caminham ao nosso lado.
O Evangelho fala-nos de um Deus cheio
de bondade e de misericórdia que derrama sobre os seus filhos – de forma total,
ilimitada e absoluta – o seu perdão. Os crentes são convidados a descobrir a
lógica de Deus e a deixarem que a mesma lógica de perdão e de misericórdia sem
limites e sem medida marque a sua relação com os irmãos.
A primeira leitura deixa claro que a
ira e o rancor são sentimentos maus, que não convêm à felicidade e à realização
do homem. Mostra como é ilógico esperar o perdão de Deus e recusar-se a perdoar
ao irmão; e avisa que a nossa vida nesta terra não pode ser estragada com
sentimentos, que só geram infelicidade e sofrimento.
Na segunda leitura Paulo sugere aos
cristãos de Roma que a comunidade cristã tem de ser o lugar do amor, do
respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, do perdão. Ninguém deve
desprezar, julgar ou condenar os irmãos que têm perspectivas diferentes. Os
seguidores de Jesus devem ter presente que há algo de fundamental que os une a
todos: Jesus Cristo, o Senhor. Tudo o resto não tem grande importância.
1ª leitura – Sir
27,33-28,9 - AMBIENTE
O livro de Ben Sira (também chamado
“Eclesiástico”), de onde foi extraída a primeira leitura deste domingo, é um
livro sapiencial que, como todos os livros sapienciais, pretende apresentar uma
reflexão de caráter prático sobre a arte de bem viver e de ser feliz.
Estamos no início do séc. II a.C., numa
época em que o helenismo tinha começado o seu trabalho pernicioso, no sentido
de minar a cultura e os valores tradicionais de Israel. Jesus Ben Sira, o autor
deste livro, está preocupado com a degradação dos valores tradicionais do seu
Povo e as cedências que, sobretudo os mais jovens, vão fazendo à cultura grega.
A “fé dos pais” corre riscos de desaparecer ou, ao menos, de perder a sua
identidade.
Jesus Ben Sira procura, então,
apresentar uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel,
sublinhando a grandeza dos valores judaicos e demonstrando que a cultura
judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega. Por essa razão,
escreveu este compêndio de “sabedoria”. Nele, tenta demonstrar aos seus
compatriotas que Israel possuía na “Torah”, revelada por Deus, a verdadeira
“sabedoria” – uma “sabedoria” muito superior à “sabedoria” grega.
O texto que a liturgia de hoje nos
propõe integra uma secção (cf. Sir. 24,1-42,14) onde Jesus Ben Sira procura
demonstrar que a “sabedoria” – criatura de Deus, oferecida a todos os homens
piedosos (cf. Sir. 1,1-23,38) – tem um campo especial de acção em Israel, o
Povo eleito de Deus. Esta secção não tem uma estrutura clara e coerente: os
temas vão-se sucedendo, aparentemente sem uma ordem lógica. Dominam, aí, as
“máximas” destinadas a ensinar os comportamentos que se devem assumir nas
relações sociais.
Uma nota de caráter prático: o nosso
texto aparece, na maior parte das versões recentes da Bíblia, numerado como
27,30-28,7 e não como 27,33-28,9. Aqui, no entanto, conservamos a numeração 27,33-28,9
– que é a apresentada no “Leccionário Dominical”. Esta discrepância resulta do
fato de o texto apresentado pelo “Leccionário” seguir uma versão latina, mais
longa do que a versão grega que serve de base às traduções mais recentes do
livro de Ben Sira.
MENSAGEM
Jesus Ben Sira ensina que a verdadeira
“sabedoria” está em não se deixar dominar pelo rancor, pela ira e pelos
sentimentos de vingança. O “sábio” (isto é, aquele que quer ter êxito e ser
feliz) é aquele que é capaz de perdoar as ofensas e de ter compaixão pelo seu
semelhante.
Particularmente interessante é a
relação estabelecida aqui entre o perdão humano e o perdão divino: quem se
recusa a perdoar ao irmão, como poderá ter a coragem de pedir o perdão de Deus?
Mas quem perdoa as ofensas dos outros, poderá pedir e esperar o perdão do
Senhor para as suas próprias falhas. Ao menos dois séculos antes de Cristo o
judaísmo já tinha descoberto que existe uma relação entre o perdão que Deus nos
oferece e o perdão que ele nos convida a oferecer aos irmãos.
Para tornar mais sugestivo e
impressionante o seu apelo, Ben Sira convida os seus concidadãos a lembrarem-se
da morte: “pensa no teu fim e deixa de ter ódio”… Diante da realidade final que
nos espera, que sentido é que fazem os sentimentos de rancor, de ira, de
vingança que alimentamos nesta terra? E podemos, com coerência, esperar o
perdão final de Deus, se a nossa vida foi vivida numa lógica de ódio e de
vingança?
Fundamentalmente, temos aqui um apelo a
invertermos a lógica do “olho por olho, dente por dente”, de forma a que as
nossas relações com os irmãos sejam marcadas por sentimentos de perdão e de
misericórdia. É dessa forma que o homem construirá a sua felicidade nesta
terra; e é assumindo está lógica que o homem poderá pedir e esperar de Deus o perdão
para as suas falhas.
ATUALIZAÇÃO
Todos os dias vemos, nas notícias que
nos chegam de todos os cantos do mundo, onde nos leva a lógica do “responder na
mesma moeda”. Para vingar ofensas reais ou imaginárias, desencadeiam-se
mecanismos de vingança que são responsáveis pela morte de inocentes, por
sofrimentos e dramas sem fim e por uma espiral de violência sem limites e sem
prazos. É este o mundo que queremos? A única forma de fazermos respeitar os
nossos direitos e a nossa dignidade passará por deixarmos à solta os nossos
instintos de vingança, de rancor e de ódio?
Ben Sira estabelece uma relação clara
entre o perdão de Deus e o perdão humano. É claro que não podemos dizer que
Deus não nos perdoa se nós não conseguirmos perdoar aos nossos irmãos (a bondade
e a misericórdia de Deus são infinitamente maiores do que as nossas); mas, se o
nosso coração estiver dominado por uma lógica de ódio e de vingança, o perdão
que Deus nos oferece poderá encontrar aí lugar? Um coração duro, violento e
agressivo, incapaz de compreender as falhas dos outros, estará suficientemente
disponível para acolher a bondade e o amor de Deus?
Ben Sira lembra também, a propósito do
perdão, o horizonte final do homem (a morte)… Não se tratará, tanto, de avisar
que se não nos portarmos bem, Deus condena-nos (por esta altura, o Povo de Deus
ainda não parece ter uma noção clara de que há, para além desta terra, uma vida
eterna reservada para aqueles que escolhem Deus e os seus valores); trata-se,
sobretudo, de sugerir que a nossa vida nesta terra está marcada pela brevidade
e pela finitude e não pode ser estragada com sentimentos que só nos magoam a
nós e aos outros.
Muitos homens do nosso tempo pensam que
só nos afirmamos, só nos realizamos e só triunfamos quando somos fortes e
respondemos com força e agressividade à força e agressividade dos outros. Jesus
Ben Sira, contudo, ensina que a “sabedoria”, o êxito e a felicidade do homem
não passam por cultivar sentimentos de ódio e de rancor, mas por cultivar
sentimentos de perdão e de misericórdia. Quem tem razão? O que é que nos dá
paz, nos faz sentir em harmonia conosco, com Deus e com ou outros e nos torna
mais felizes: os gestos violentos que mostraram aos outros a nossa força e
apaziguaram o nosso orgulho ferido, ou os nossos gestos de perdão, de bondade,
de misericórdia?
2ª leitura – Rom
14,7-9 - AMBIENTE
Na segunda parte da Carta aos Romanos
(já o vimos nos domingos anteriores), Paulo preocupa-se em apresentar aos
cristãos de Roma (e aos cristãos de todos os lugares e tempos) um conjunto de
atitudes e de valores que devem marcar a vida pessoal, social e eclesial
daqueles que Deus chama à salvação. A segunda leitura deste domingo situa-nos
neste contexto e apresenta-nos mais alguns dados sobre esta questão.
O nosso texto faz parte de uma perícope
(cf. Rm. 14,1-12) em que Paulo dá algumas indicações acerca da conduta a ter
face aos outros membros da comunidade, particularmente face àqueles que têm
perspectivas diferentes da fé e do caminho cristão.
Paulo considera que existem dois tipos
de crentes na comunidade cristã de Roma: os “fortes” e os “débeis”. Estas
designações não parecem referir-se, primordialmente, à classe social (“ricos” e
“pobres”) ou à origem religiosa (“pagano-cristãos” e “judeo-cristãos”) desses
crentes, mas a atitudes diversas quanto à fé… Os “fortes” (na linguagem de
hoje, poderíamos caracterizá-los como “progressistas”) são aqueles que já se
libertaram decisivamente da escravidão da Lei e dos ritos e consideram que só
os valores do Evangelho são decisivos no caminho da fé. Os “fracos” (na
linguagem de hoje poderíamos chamar-lhes “tradicionalistas”) são aqueles que
fazem finca-pé nas leis, nos ritos e nas tradições antigas e ficam
escandalizados pelo fato de esses valores não serem assumidos por toda a gente.
Muito provavelmente, estes dois grupos
viviam em confronto, provocando uma certa divisão na comunidade. Paulo não
aceita atitudes de intolerância ou de desprezo pelos irmãos, venham elas de
onde vieram. Na verdade, o pensamento de Paulo aproxima-o mais dos “fortes”;
mas ele sabe muito bem que mais importante do que as divergências é o respeito
pelo irmão e a construção da fraternidade. Os “fortes” não podem desprezar
aqueles que não pensam como eles; e os “débeis” não têm o direito de julgar ou
de catalogar aqueles que têm, quanto à fé, uma outra perspectiva.
É precisamente neste contexto que Paulo
encaixa os três versículos que constituem a segunda leitura deste domingo.
MENSAGEM
Os vs. 7-9 são verdadeiramente o centro
da perícope. Fundamentalmente, Paulo recorda a todos – aos “fortes” e aos
“débeis” – que pertencem ao Senhor: “quer vivamos quer morramos, é ao Senhor
que pertencemos” (v. 8). Isso é muito mais importante do que as opiniões
particulares acerca do caminho a percorrer para atingir o mesmo objetivo. Os
crentes, antes de se deixarem dividir e separar por questões verdadeiramente
secundárias (que tipo de alimentos se devem comer, que festas se devem
celebrar, que jejuns se devem fazer), devem ter consciência do essencial da fé
e daquilo que os une: Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou para a todos dar a
mesma vida. A comunidade é uma família de irmãos, reunida à volta do mesmo
Senhor.
ATUALIZAÇÃO
Paulo está consciente de que há vários
caminhos válidos para chegar a Cristo e à sua proposta de salvação. Esses
caminhos não só não se excluem mas, na sua diversidade, constituem um fator de
enriquecimento da nossa experiência comunitária. A comunidade tem de estar
consciente de que a diversidade não exclui, necessariamente, a unidade. Por
isso, a comunidade cristã não é o lugar da intolerância, da incompreensão, do
desrespeito pela diversidade de opiniões, da uniformidade imposta em nome da
fé; mas é o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças,
da partilha, do perdão. A este respeito, como classifico a minha comunidade
cristã ou religiosa?
Existem, às vezes, nas comunidades
cristãs certas pessoas que se consideram mais esclarecidas e mais preparadas e
que manifestam desprezo por aqueles que têm concepções menos racionais da fé,
que vivem agarrados a determinadas devoções ou a determinados ritos
considerados ultrapassados. Paulo recomenda-lhes: “não desprezeis ninguém; não
esqueçais que a única coisa importante e decisiva é Cristo, a quem todos
pertencemos”.
Existem, às vezes, na comunidade cristã
certas pessoas que se consideram muito santas e virtuosas porque cumprem
determinadas regras, são fiéis a determinados ritos e têm sempre presente os
mandamentos da santa madre Igreja… Observam e controlam os outros, julgam-nos
sem direito a defesa, condenam-nos e acham-se no sagrado direito de os
desacreditar diante dos outros membros da comunidade… Paulo recomenda-lhes:
“não julgueis nem condeneis os vossos irmãos; não esqueçais que a única coisa
importante e decisiva é Cristo, a quem todos pertencemos”.
Às vezes perdemo-nos na discussão das
coisas secundárias e esquecemos o essencial. Discutimos se se deve receber a
comunhão na mão ou na boca, se se deve ou não ajoelhar à consagração, se
determinado cântico é litúrgico ou não, se os padres devem ou não casar, se a
procissão do santo padroeiro da paróquia deve fazer este ou aquele percurso… e,
algures durante a discussão, esquecemos o amor, o respeito pelo outro, a
fraternidade, e que todos vivemos à volta do mesmo Senhor. É preciso descobrir o
essencial que nos une e não absolutizar o secundário que nos divide.
Evangelho – Mt
18,21-35 - AMBIENTE
Continuamos a ler o “discurso
eclesial”, que preenche todo o capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus. Este
“discurso” tem como ponto de partida algumas “instruções” apresentadas por
Marcos sobre a vida comunitária (cf. Mc. 9,33-37.42-47), mas que Mateus ampliou
de forma significativa. Os destinatários do discurso são os discípulos (na
realidade Mateus pretende, sobretudo, atingir os membros dessa comunidade
cristã a quem este Evangelho se destina).
Por detrás do texto que nos é hoje
proposto, podemos entrever uma comunidade onde as tensões e os conflitos
degeneram em ofensas pessoais e que tem muita dificuldade em perdoar.
MENSAGEM
O mandamento do perdão não é novo –
como vimos, aliás, na primeira leitura. Os catequistas de Israel ensinavam a
perdoar as ofensas e a não guardar rancor contra o irmão que tinha cometido
qualquer falha. Os “mestres” de Israel estavam, no entanto, de acordo em que a
obrigação de perdoar existia apenas em relação aos membros do Povo de Deus (os
inimigos estavam excluídos dessa dinâmica de amor e de misericórdia). A grande
discussão girava, porém, à volta do número limite de vezes em que se devia
perdoar. Todos – desde os mais exigentes aos mais misericordiosos – aceitavam,
contudo, que o perdão tem limites e que não se deve perdoar indefinidamente.
É nesta problemática que Jesus é
envolvido pelos discípulos. Pedro, o porta-voz da comunidade, consulta Jesus
acerca dos limites do perdão. Ele sabe que, quanto a isto, Jesus tem idéias
radicais e, talvez com alguma ironia, pergunta a Jesus se, na sua perspectiva,
se deve perdoar sempre (“até sete vezes?” – v. 21: o número sete, na cultura
semita, indica “totalidade”).
Jesus responde que não só se deve
perdoar sempre, mas de forma ilimitada, total, absoluta (“setenta vezes sete” –
v. 22). Deve-se perdoar sempre, a toda a gente (mesmo aos inimigos) e sem
qualquer reserva, sombra ou prevenção.
É neste contexto e a propósito da
lógica do perdão que Jesus propõe aos discípulos uma parábola (vs. 23-35). A
parábola apresenta-se em três quadros ou cenas.
O primeiro quadro (vs. 23-27)
coloca-nos diante de uma cena de corte: um funcionário real, na hora de prestar
contas ao seu senhor (provavelmente de impostos recebidos e nunca entregues),
revela-se incapaz de saldar a sua dívida. O senhor ordena que o funcionário e a
sua família sejam vendidos como escravos; mas, perante a humildade e a
submissão do servo, o senhor deixa-se dominar por sentimentos de misericórdia e
perdoa a dívida. Neste quadro, o que impressiona mais é o montante astronômico
da dívida: dez mil talentos (um talento equivalia a cerca de 36 kg. e podia ser
em ouro ou em prata. Dez mil talentos é, portanto, uma soma incalculável). O exagero
da dívida serve, aqui, para pôr em relevo a misericórdia infinita do senhor.
O segundo quadro (vs. 28-30) descreve
como esse funcionário que experimentou a misericórdia do seu senhor se recusou,
logo a seguir, a perdoar um companheiro que lhe devia cem denários (um denário
equivalia a 12 gramas de prata e era o pagamento diário de um operário não
especializado. Cem denários correspondia, portanto, a uma quantia
insignificante para um alto funcionário do rei).
Quando estes dois quadros são postos em
paralelo, sobressaem, por um lado, a desproporção entre as duas dívidas e, por
outro, a diferença de atitudes e de sentimentos entre o senhor (capaz de
perdoar infinitamente) e o funcionário do rei (incapaz de se converter à lógica
do perdão, mesmo depois de ter experimentado a alegria de ser perdoado).
É precisamente desta diferença de
comportamentos e de lógicas que resulta o terceiro quadro (v. 28-35): os outros
companheiros do funcionário real, chocados com a sua ingratidão, informaram o
rei do sucedido; e o rei, escandalizado com o comportamento do seu funcionário,
castigou-o duramente.
Antes de mais, a parábola é uma
catequese sobre a misericórdia de Deus. Mostra como, na perspectiva de Deus, o
perdão é ilimitado, total e absoluto.
Depois, a parábola convida-nos a
analisar as nossas atitudes e comportamentos face aos irmãos que erram. Mostra
como neste capítulo, a nossa lógica está, tantas vezes, distante da lógica de
Deus. Diante de qualquer falha do irmão (por menos significativa que ela seja),
assumimos a pose de vítimas magoadas e, muitas vezes, tomamos atitudes de
desforra e de vingança que são o sinal claro de que ainda não interiorizámos a
lógica de Deus.
Finalmente, a parábola sugere que
existe uma relação (aliás já afirmada na primeira leitura deste domingo) entre
o perdão de Deus e o perdão humano. Mateus estará a sugerir que o perdão de
Deus é condicionado e que só se tornará efetivo se nós aprendermos a perdoar
aos nossos irmãos? O que Mateus está a dizer, sobretudo, é que na comunidade
cristã deve funcionar a lógica do perdão ilimitado: se essa é a lógica de Deus,
terá de ser a nossa lógica, também. O que Mateus está a sugerir, também, é que
se o nosso coração não bater segundo a lógica do perdão, não terá lugar para
acolher a misericórdia, a bondade e o amor de Deus. Fazer a experiência do amor
de Deus transforma-nos o coração e ensina-nos a amar os nossos irmãos,
nomeadamente aqueles que nos ofenderam.
Deus pagará na mesma moeda e castigará
quem não for capaz de viver segundo a lógica do perdão e da misericórdia? Não.
Decididamente, o revanchismo e a vingança não fazem parte dos métodos de Deus…
Mateus usa aqui – bem ao jeito semita – imagens fortes e dramáticas para
sublinhar que a lógica do perdão é urgente e que dela depende a construção de
uma realidade nova, de amor, de comunhão, de fraternidade – a realidade do
Reino.
ATUALIZAÇÃO
O Evangelho deste domingo é sobre a
necessidade de perdoar sempre, de forma radical e ilimitada. Trata-se – todos
estamos conscientes do fato – de uma das exigências mais difíceis que Jesus nos
faz. No entanto não há, neste campo, meias tintas, dúvidas, evasivas,
desculpas: trata-se de um valor fundamental da proposta de Jesus. Ele deu
testemunho, em gestos concretos, do amor, da bondade e da misericórdia do Pai. Na
cruz, ele morreu pedindo perdão para os seus assassinos… Ora o cristão é, antes
de mais, um seguidor de Jesus. Pessoalmente, como é que me situo face a isto?
O perdão e a misericórdia tornam-se
ainda mais complicados à luz dos valores que presidem à construção do nosso
mundo. O “mundo” considera que perdoar é próprio dos fracos, dos vencidos, dos
que desistem de impor a sua personalidade e a sua visão do mundo; Deus
considera que perdoar é dos fortes, dos que sabem o que é verdadeiramente
importante, dos que estão dispostos a renunciar ao seu orgulho e
auto-suficiência para apostar num mundo novo, marcado por relações novas e
verdadeiras entre os homens. Na verdade, a lógica do mundo só tem aumentado a
espiral de violência, de injustiça, de morte; a lógica de Deus tem ajudado a
mudar os corações e frutificado em gestos de amor, de partilha, de diálogo e de
comunhão. Para mim, qual destas duas propostas faz mais sentido? Qual destes
dois caminhos pode ajudar a instaurar uma realidade mais humana, mais harmoniosa,
mais feliz?
O que significa, realmente, perdoar?
Significa ceder sempre diante daqueles que nos magoam e nos ofendem? Significa
encolher os ombros e seguir adiante quando nos confrontamos com uma situação
que causa morte e sofrimento a nós ou a outros nossos irmãos? Significa “deixar
correr” enquanto forem coisas que não nos afetem diretamente? Significa pactuar
com a injustiça e a opressão? Significa tolerar tudo num silêncio feito de
cobardia e de conformismo? Não. O perdão não pode ser confundido com
passividade, com alienação, com conformismo, com cobardia, com indiferença… O
cristão, diante da injustiça e da maldade, não esconde a cabeça na areia,
fingindo que não viu nada… O cristão não aceita o pecado e não se cala diante
do que está errado; mas não guarda rancor para com o irmão que falhou, nem
permite que as falhas derrubem as possibilidades de encontro, de comunhão, de
diálogo, de partilha… Perdoar não significa isolar-se num silêncio ofendido, ou
demitir-se das responsabilidades na construção de um mundo novo e melhor; mas
significa estar sempre disposto a ir ao encontro, a estender a mão, a recomeçar
o diálogo, a dar outra oportunidade.
Este Evangelho recorda-nos – talvez
ainda de forma mais clara e concludente – aquilo que a primeira leitura já
sugeria: quem faz a experiência do perdão de Deus, envolve-se numa lógica de
misericórdia que tem, necessariamente, implicações na forma de abordar os
irmãos que falharam. Não podemos dizer que Deus não perdoa a quem é incapaz de
perdoar aos irmãos; mas podemos dizer que experimentar o amor de Deus e
deixar-se transformar por Ele significa assumir uma outra atitude para com os
irmãos, uma atitude marcada pela bondade, pela compreensão, pela misericórdia,
pelo acolhimento, pelo amor.
P. Joaquim Garrido,
P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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