26º DOMINGO DO TEMPO COMUM
1 de Outubro de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt 21,28-32
Esta é a
parábola dos dois filhos que disseram uma coisa e fizeram outra. Quantas vezes na nossa vida já fizemos isso? Continuar lendo
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“OS
COBRADORES DE IMPOSTOS E AS PROSTITUTAS VOS PRECEDEM NO REINO DE DEUS.”- Olivia
Coutinho
26º DOMINGO DO
TEMPO COMUM
Dia 01 de
Outubro de 2017
Evangelho de
Mt21,28-32
Estamos
iniciando o mês de
outubro, mês, em que a Igreja nos convida a refletir sobre a importância de nos
tornarmos missionários do Senhor, propagadores da Boa Nova do Reino!
O espírito
missionário se fundamenta na experiência com Jesus.
Quando fazemos esta experiência, sentimos necessidade de
partilhá-la com o outro, no desejo de que ele possa também, fazer a
mesma experiência que fazemos. É a partir daí, que nos tornamos missionários.
Nossa missão, não
se limita em somente levar algo ao outro, pois no exercício da missão, é comum,
descobrirmos algo no outro, que nos faz crescer.
A missão nos
ajuda a crescer, nos permite criar novos laços, novas relações, a
ter um jeito novo de olhar a vida e de ser igreja!
Fazer com que
Jesus se torne mais conhecido, é compromisso de toda a comunidade que vive e
que quer transmitir a sua fé, no Cristo ressuscitado. Uma comunidade cristã, só
é fiel à sua vocação, se ela for missionária.
O Evangelho que
a liturgia de hoje nos apresenta, nos adverte sobre o perigo que corremos,
quando ficamos somente na interpretação da palavra de Deus, e não a trazemos
para a nossa vida!
A palavra de
Deus, é fonte de vida, quando embebedamos desta fonte, dizemos "sim"
a Ele, e é a partir do
nosso "sim" sincero, que Ele vai agindo no
mundo, através de nós!
Conhecer a
palavra de Deus, e não vivê-la, é conhecer a verdade e optar pela mentira. Era
o que acontecia com os líderes religiosos do tempo de Jesus, eles conheciam bem
as escrituras, mas não viviam o que pregavam, colocavam pesados fardos nos
ombros das pessoas, e eles mesmos, ficavam somente no discurso, não viviam o
que falavam.
Jesus desmascara
estas autoridades dizendo: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e
as prostitutas vos precedem no reino dos céus.” Isto é, este povo excluído,
vistos por eles, como pecadores, ouviram a pregação de João e se converteram,
endireitando suas vidas, enquanto que estes líderes, não deram crédito a
pregação de João, não buscaram a conversão.
Para despertar
nestes líderes, e hoje em nós, a importância de uma revisão de vida, Jesus
conta a parábola dos dois filhos convocados pelo pai a trabalhar na
vinha.
O pai representa
Deus, e os dois filhos, representam duas posturas diferentes diante o chamado
de Deus.
Esta parábola,
chama a nossa atenção, para a responsabilidade do nosso "sim."
Quantas vezes dizemos sim, a Deus, mas não cumprimos o que assumimos! O “não” do
primeiro filho, representa os cobradores de impostos e as prostitutas, estes, a
princípio, disseram não a Deus, optando por caminhos contrários, mas depois, se
arrependeram e se converteram. Já o “sim” do segundo filho, representa os
líderes religiosos daquele tempo e muitos de nós, que dizemos
"sim" a Deus, mas um "sim" que fica
somente na palavra.
Com qual dos
filhos nos identificamos? Com aquele que disse não, mas que depois
se arrependeu e foi trabalhar na vinha? Ou com aquele que disse "sim"
mas que o seu sim, ficou somente na palavra?
O operário da
vinha do Senhor, não fica somente no discurso, ditando o que o outro
deve fazer, ele põe a mão na massa, ensina fazendo, como Jesus ensinava!
O nosso
"sim" a Deus, deve ser sincero, deve ser um "sim" que brote
do coração, um "sim" sincero, que nos coloque a serviço do Reino,
como foi o "sim" de Maria.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olivia Coutinho
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olivia Coutinho
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A Palavra de Deus deste domingo recorda-nos que nossa
relação com o Senhor não é algo estático, congelado, adquirido uma vez por
todas. Ninguém pode dizer que possui uma amizade permanente com o Senhor,
amizade que é garantida para sempre e não poderia jamais ser perdida. Não! Não
é assim! Nossa relação com o Senhor é um caminho, caminho dinâmico, que vai se
configurando na nossa vida, crescendo ou diminuindo, aprofundando-se ou
morrendo, conforme nossa atitude em cada fase de nossa existência. O Senhor é sempre
fiel, não muda jamais; quanto a nós, devemos cuidar de ir sempre crescendo, de
fé em fé, de esperança em esperança, de amor em amor, na nossa relação com o
Senhor. É isto que as leituras de Ezequiel e do Evangelho nos sugerem. O
profeta Ezequiel, em nome de Deus, previne: “Quando o justo se desvia da
justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre!”
Eis, que exemplo trágico: o amigo de Deus que morre para a vida com Deus! E por
quê? Porque se descuidou e foi matando a relação com o Senhor, a ponto de matar
Deus no seu coração e morrer para a relação com Deus! Ninguém pode dizer: “Já
fiz tanto, já dei tanto ao Senhor, já renunciei tanto. Agora basta! Vou
estacionar!” Isso seria regredir, definhar no caminho do Senhor, morrer para a
vida com Deus! Mas, o contrário também é verdadeiro. Escutemos: “Quando um
ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça,
conserva a própria vida. Arrependendo-se de todos os céus pecados, com certeza
viverá; não morrerá!” Eis a bondade do Senhor, que não nos prende no passado
pecaminoso: Senhor da vida, teu amor nos faz recomeçar sempre! Não há desculpas
para não mudarmos de vida, para não recomeçarmos, para não deixarmos nosso
atoleiro de pecado, de vício de preguiça espiritual! O Senhor nos espera sempre
hoje, no aqui e no agora; ainda que não muitas vezes não acreditemos mais em
nós mesmos, ele continua crendo em nós, ele nos dá sempre a chance de
experimentar seu perdão e sua misericórdia!
O que o Senhor falou pela boca de Ezequiel, Jesus
confirma na parábola do Evangelho deste hoje. Quem são os dois filhos? O
primeiro, que não queria obedecer ao pai, mas depois se arrependeu, são os
pecadores que, arrependidos e humilhados, de coração acolheram Jesus e o Reino
que ele veio anunciar; o segundo filho, que prometeu fazer a vontade do pai e,
depois, fez como bem quis e entendeu, são aqueles escribas e fariseus, justos
aos seus próprios olhos, caprichosos e auto-suficientes, que terminaram
perdendo o Reino de Deus por recusarem acolher Jesus e sua palavra. Eis,
caríssimos: o que estamos sendo diante de Deus? Estamos sendo generosos para
com ele? Temos acolhido sua vontade na nossa vida? Temos sido atentos aos seus
apelos? Deveríamos sempre progredir no caminho do Senhor...
Progredimos quando o amamos, quando fazemos sua
vontade, quando a ele nos dedicamos; progredimos quando crescemos na virtude,
progredimos quando somos fiéis aos nossos compromissos para com ele... Mas,
entre nós, há aqueles que regridem, que esmorecem, que esfriam e se afastam...
aqueles que pensam que podem ser cristãos numa atitude de comodismo burguês...
Que fazer para não parar? Que fazer para crescer no
caminho do Senhor? São Paulo nos indica um caminho de grande beleza,
simplicidade e eficácia, um caminho indispensável a todos nós! Quereis crescer
na estrada de Deus? Quereis experimentar seu amor? Quereis viver de verdade?
Então, “tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus!” Que conselho!
Contemplar Jesus, aprender dele, do seu coração, seus sentimentos de total amor
e total doação em relação ao Pai e a nós; aprender sua doçura, sua humildade,
sua obediência radical ao Pai: “Ele, existindo na condição divina, esvaziou-se
a si mesmo, assumindo a condição de escravo, tornando-se igual aos homens, fazendo-se
obediente até à morte, e morte de cruz”.
Em Cristo, temos o hábito de pensar em Jesus, de
contemplar essa sua atitude? Olhemos a cruz, aprendamos a lição do Senhor!
Cristo nunca se buscou a si próprio, mas esvaziou-se totalmente, desejando
somente a vontade do Pai. Por isso foi livre, por isso foi a mais perfeita e
completa manifestação do Reino de Deus, pois isso o Pai o exaltou, o
glorificou, encheu-o de vida plena!
Pois, bem, o apóstolo nos convida a contemplar Jesus,
escutar Jesus, para adquirir os sentimentos de Jesus e, assim, viver a vida de
Jesus. Viver assim, é ser amigo de Deus, é viver de verdade e tornar-se sinal
de vida divina para os outros. Isso os cristãos deveriam ser; isso a Igreja
deve ser! Pensem no quadro encantador que São Paulo traça: “Se existe
consolação na vida em Cristo, se existe alento no mútuo amor, se existe
comunhão no Espírito, se existe ternura e compaixão... aspirai à mesma coisa,
unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade. Nada façais por
competição ou vanglória, mas, com humildade, e cada um não cuide somente do que
é seu, mas também do que é do outro!” Eis, caríssimos, o que é ter os
sentimentos do Cristo; eis o que é viver para Deus; eis o que é ser já agora,
testemunha daquela verdadeira vida que o Senhor nos dará por toda a eternidade!
Cresçamos nesse caminho, progridamos nessa vida, para vivermos de verdade. Como
pede a oração inicial desta santa missa: “Ó Deus, derramai em nós a vossa
graça, para que, caminhando ao encontro das vossas promessas, alcancemos os
bens que nos reservais!”
dom Henrique Soares da
Costa
A liturgia do 26º domingo do tempo comum deixa claro
que Deus chama todos os homens e mulheres a empenhar-se na construção desse
mundo novo de justiça e de paz que Deus sonhou e que quer propor a todos os
homens. Diante da proposta de Deus, nós podemos assumir duas atitudes: ou dizer
“sim” a Deus e colaborar com Ele, ou escolher caminhos de egoísmo, de
comodismo, de isolamento e demitirmo-nos do compromisso que Deus nos pede. A
Palavra de Deus exorta-nos a um compromisso sério e coerente com Deus – um
compromisso que signifique um empenho real e exigente na construção de um mundo
novo, de justiça, de fraternidade, de paz.
Na primeira leitura, o profeta Ezequiel convida os
israelitas exilados na Babilônia a comprometerem-se de forma séria e
consequente com Deus, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios. Cada crente
deve tomar consciência das consequências do seu compromisso com Deus e viver,
com coerência, as implicações práticas da sua adesão a Jahwéh e à Aliança.
O Evangelho diz como se concretiza o compromisso do
crente com Deus… O “sim” que Deus nos pede não é uma declaração teórica de boas
intenções, sem implicações práticas; mas é um compromisso firme, coerente,
sério e exigente com o Reino, com os seus valores, com o seguimento de Jesus
Cristo. O verdadeiro crente não é aquele que “dá boa impressão”, que finge
respeitar as regras e que tem um comportamento irrepreensível do ponto de vista
das convenções sociais; mas é aquele que cumpre na realidade da vida a vontade
de Deus.
A segunda leitura apresenta aos cristãos de Filipos
(e aos cristãos de todos os tempos e lugares) o exemplo de Cristo: apesar de
ser Filho de Deus, Cristo não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina,
mas assumiu a realidade da fragilidade humana, fazendo-se servidor dos homens
para nos ensinar a suprema lição do amor, do serviço, da entrega total da vida
por amor. Os cristãos são chamados por Deus a seguir Jesus e a viver do mesmo
jeito, na entrega total ao Pai e aos seus projetos.
1ª leitura: Ez. 18,25-28 -
Ambiente
Ezequiel, o “profeta da esperança”, exerceu o seu
ministério na Babilônia no meio dos exilados judeus. O profeta fez parte dessa
primeira leva de exilados que, em 597 a.C., Nabucodonosor deportou para a
Babilônia.
A primeira fase do ministério de Ezequiel decorreu
entre 593 a.C. (data do seu chamamento à vocação profética) e 586 a.C. (data em
que Jerusalém foi conquistada uma segunda vez pelos exércitos de Nabucodonosor
e uma nova leva de exilados foi encaminhada para a Babilônia). Nesta fase, o
profeta preocupou-se em destruir as falsas esperanças dos exilados (convencidos
de que o exílio terminaria em breve e que iam poder regressar rapidamente à sua
terra) e em denunciar a multiplicação das infidelidades a Jahwéh por parte
desses membros do Povo judeu que escaparam ao primeiro exílio e que ficaram em
Jerusalém.
A segunda fase do ministério de Ezequiel
desenrolou-se a partir de 586 a.C. e prolongou-se até cerca de 570 a.C.
Instalados numa terra estrangeira, privados de Templo, de sacerdócio e de
culto, os exilados estavam desiludidos e duvidavam de Jahwéh e do compromisso
que Deus tinha assumido com o seu Povo. Nessa fase, Ezequiel procurou alimentar
a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador
e libertador não tinha abandonado nem esquecido o seu Povo.
Até esta altura, Israel refletia a sua relação com
Deus em termos coletivos e não em termos individuais. A catequese de Israel
considerava que a Aliança tinha sido feita, não com cada israelita
individualmente, mas com toda a comunidade. Assim, as infidelidades de uns
(inclusive dos antepassados) traziam sofrimento e morte a toda a comunidade; e
a fidelidade de outros (inclusive dos antepassados) era fonte de vida e de
bênção para todos.
Os exilados liam à luz desta perspectiva teológica o
drama que tinha caído sobre eles. Consideravam que eram justos e bons, que não
tinham pecado e que estavam ali a expiar os pecados de toda a nação. Havia até
um refrão muito repetido por esta altura: “os pais comeram as uvas verdes, mas
são os dentes dos filhos que ficam embotados” (Ez. 18,2b). Parece ser uma
reprovação velada à ação de Deus que, na perspectiva da teologia da época, fez
dos exilados o bode expiatório de todas as infidelidades da nação. É justo,
isto? Está certo que os justos paguem pelos pecadores?
É a estas questões que o profeta Ezequiel vai tentar
responder.
Mensagem
Na verdade, os membros do Povo de Deus que estão
exilados na Babilônia não podem “sacudir a água do capote” e presumir de justos
e inocentes: não há justos e inocentes neste processo, uma vez que todos, sem
exceção, são responsáveis por atitudes de infidelidade a Jahwéh e de
desrespeito pelos seus mandamentos. Fará algum sentido que os exilados acusem
Jahwéh de ser injusto, depois de terem violado sistematicamente a aliança e
terem cometido tantos pecados e infidelidades (v. 25)?
Para além disso, Israel não pode continuar a
esconder-se atrás de uma responsabilidade coletiva, que implica todos, mas não
responsabiliza ninguém. Chegou a altura de cada membro do Povo de Deus se
sentir pessoalmente responsável diante de Deus pelas suas ações e pelos
compromissos assumidos no âmbito da Aliança. Cada membro do Povo de Deus tem de
descobrir que, quando fizer escolhas erradas e se obstinar nelas, sofrerá as
consequências; e que quando abandonar os caminhos de egoísmo e de pecado e
optar por Deus e pelos seus valores, encontrará a vida (vs. 26-28).
Significa isto que o pecado de um membro da
comunidade não afeta os outros irmãos, membros da mesma comunidade? É claro que
afeta. O pecado introduz sempre elementos de desequilíbrio, de desarmonia, de
egoísmo, de ruptura, que atingem todos aqueles que caminham conosco… Mas o que
Ezequiel aqui pretende sublinhar é que cada homem ou mulher tem de sentir-se
pessoalmente responsável diante de Deus pelas suas opções e pelos seus atos.
Esta superação da mentalidade coletiva, dando lugar à
responsabilidade individual, é um dos grandes progressos na história teológica de
Israel. Doravante, o Povo aprenderá a reagir em termos individuais e não em
termos de massa. Está aberto o caminho para uma Nova Aliança: uma Aliança que
não é feita genericamente com uma comunidade, mas uma Aliança pessoal e
interior, feita com cada crente.
Atualização
Antes de mais, a leitura convida-nos a tomar
consciência de que um compromisso com Deus é algo que nos implica profundamente
e que devemos sentir pessoalmente, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios.
No nosso tempo – no tempo da cultura do plástico, do “light”, do efêmero – há
alguma tendência a não assumir responsabilidades, a não absolutizar os
compromissos (no mundo do futebol e da política há até uma máxima que define a
flutuabilidade, a incoerência, a contradição em que as pessoas se movem: “o que
é verdade hoje, é mentira amanhã”). Mas, com Deus, não há meias tintas: ou se
assume, ou não se assume. Como é que eu sinto esses compromissos que assumi com
Deus no dia do meu Batismo e que ao longo da vida, nas mais diversas
circunstâncias, confirmei? Trata-se de algo que eu levo a sério e que eu aplico
coerentemente a toda a minha existência e às opções que faço, ou de algo que eu
só me lembro quando se trata de fazer uma bonita festa de casamento na igreja
ou de cumprir a tradição e batiza os filhos?
O profeta Ezequiel convida-nos também a assumir, com
verdade e coerência, a nossa responsabilidade pelos nossos gestos de egoísmo e
de auto-suficiência em relação a Deus e em relação aos irmãos. Entre nós, no
entanto, muitas vezes “a culpa morre solteira”. Há homens e mulheres que não
têm o mínimo para viver dignamente? A culpa é da conjuntura econômica
internacional… Há situações de violência extrema e de injustiça? A culpa é do
governo que não legisla nem coloca suficientes polícias nas ruas… A minha comunidade
cristã está dividida, estagnada e não testemunha suficientemente o amor de
Jesus? A culpa é do Papa, ou do bispo, ou do padre… E a minha culpa? Eu não
terei, muitas vezes, a minha quota-parte de responsabilidades em tantas
situações negativas com que, dia a dia, convivo pacificamente? Eu não
precisarei de me “converter”?
2ª leitura: Fl. 2,1-11 -
Ambiente
Filipos, cidade situada no norte da Grécia, era uma
cidade habitada majoritariamente por veteranos romanos do exército. Estava
organizada à maneira de Roma e era uma espécie de Roma em miniatura. Os seus
habitantes gozavam dos mesmos privilégios dos habitantes das cidades de Itália.
A comunidade cristã de Filipos foi fundada por Paulo
no verão de 49, no decurso da sua segunda viagem missionária. Numa das estadias
de Paulo na prisão (em Éfeso?), a comunidade enviou um dos seus membros para o
ajudar e uma generosa quantia em dinheiro para prover às necessidades do
apóstolo.
Apesar de ser uma comunidade viva, piedosa e
generosa, a comunidade cristã de Filipos não era uma comunidade perfeita. O
desprendimento, a humildade, a simplicidade, não eram valores demasiado
apreciados entre os altivos patrícios romanos que compunham a comunidade.
É neste enquadramento que podemos situar o texto que
esta leitura nos apresenta. Trata-se de um texto que, em termos literários,
apresenta duas partes. A primeira (vs. 1-5), em prosa, contém recomendações
concretas de Paulo aos Filipenses acerca dos valores que devem cultivar. A
segunda (vs. 6-11), em poesia, apresenta aos Filipenses o exemplo de Cristo
(trata-se, provavelmente, de um hino pré-paulino, recitado nas celebrações
litúrgicas cristãs e que Paulo integrou no texto da carta).
Mensagem
Na primeira parte (vs. 1-5), Paulo, em tom solene,
pede aos altivos romanos que constituem a comunidade de Filipos que não se
deixem dominar pelo orgulho, pela auto-suficiência, pela vaidade, pela ambição,
que só provocam egoísmo e divisão. Recomenda-lhes que vivam unidos, que se amem
e que sejam solidários, pois foi isso que Cristo, não só com palavras, mas com
a própria vida, ensinou aos seus discípulos. Na segunda parte (vs. 6-11), Paulo
vai referir-se, com mais pormenor, ao exemplo de Cristo. Para apresentar esse
exemplo, Paulo recorre, então, ao tal hino litúrgico, que celebrava a “Kenosis”
(“despojamento”) de Cristo e a sua exaltação.
Cristo Jesus – nomeado no princípio, no meio e no fim
– constitui o motivo do hino. Dado que os Filipenses são cristãos, quer dizer,
dado que Cristo é o protótipo a cuja imagem está configurada, têm a iniludível
obrigação de comportar-se como Cristo. Como é o exemplo de Cristo?
O hino começa por aludir subtilmente ao contraste
entre Adão (o homem que reivindicou ser como Deus e lhe desobedeceu – cf. Gn.
3,5.22) e Cristo (o Homem Novo que, ao orgulho e revolta de Adão responde com a
humildade e a obediência ao Pai). A atitude de Adão trouxe fracasso e morte; a
atitude de Jesus trouxe exaltação e vida.
Em traços precisos, o hino define o “despojamento” (“kenosis”)
de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas
aceitou fazer-Se homem, assumindo com humildade a condição humana, para servir,
para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Não
deixou de ser Deus; mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos
homens, para garantir vida nova para os homens. Esse “abaixamento” assumiu
mesmo foros de escândalo: Ele aceitou uma morte infamante – a morte de cruz –
para nos ensinar a suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total
da vida.
No entanto, essa entrega completa ao plano do Pai não
foi uma perda nem um fracasso: a obediência e entrega de Cristo aos projetos do
Pai resultaram em ressurreição e glória. Em consequência da sua obediência, do
seu amor, da sua entrega, Deus fez d’Ele o “Kyrios” (“Senhor” – nome
que, no Antigo Testamento, substituía o nome impronunciável de Deus); e a
humanidade inteira (“os céus, a terra e os infernos”) reconhece Jesus como “o
senhor” que reina sobre toda a terra e que preside à história.
É óbvio o apelo à humildade, ao desprendimento, ao
dom da vida que Paulo faz aos Filipenses e a todos os crentes: o cristão deve
ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um
dom a todos; esse caminho não levará ao aniquilamento, mas à glorificação, à
vida plena.
Atualização
Os valores que marcaram a existência de Cristo
continuam a não ser demasiado apreciados em muitos dos nossos ambientes
contemporâneos. De acordo com os critérios que presidem ao nosso mundo, os
grandes “ganhadores” não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com
humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade,
com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não
olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a
viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?
Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus
cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo
de Cristo. Também a nós é pedido um passo em frente neste difícil caminho da
humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as
testemunhas da lógica de Deus?
Evangelho: Mt. 21,28-32 -
Ambiente
O texto que nos é proposto neste domingo situa-nos em
Jerusalém, na etapa final da caminhada terrena de Jesus. Pouco antes, Jesus
entrara em Jerusalém e fora recebido em triunfo pela multidão (cf. Mt.
21,1-11); no entanto, o entusiasmo inicial da cidade foi sendo substituído, aos
poucos, por uma recusa categórica em acolher Jesus e o seu projeto.
Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo – os
líderes religiosos judaicos – aparecem como o motor da oposição a Jesus. Eles
não estão dispostos a reconhecer Jesus como o Messias de Deus e a aceitar que
Ele tenha um mandato de Deus para propor aos homens uma nova realidade – a
realidade do Reino. Há uma tensão no ar, que anuncia a proximidade da paixão e
da morte de Jesus.
No quadro que antecede o episódio que nos é hoje
proposto – mas que está em relação direta com ele – os líderes judeus
encontraram-se com Jesus no Templo; perguntaram-Lhe com que autoridade Ele agia
e quais eram as suas credenciais (cf. Mt. 21,23-27). Jesus respondeu-lhes
convidando-os a pronunciarem-se sobre a origem do batismo de João. Os líderes
judaicos não quiseram responder: se dissessem que João Baptista não vinha de
Deus, tinham medo da reação da multidão (que considerava João um profeta); se
admitissem que o batismo de João vinha de Deus, temiam que Jesus lhes
perguntasse porque não o aceitaram… Diante do silêncio embaraçado dos seus
interlocutores, Jesus deu-lhes a entender que não tinha uma resposta para lhes
dar, enquanto eles continuassem de coração fechado, na recusa obstinada da
novidade de Deus (anunciada por João e proposta pelo próprio Jesus).
Na sequência, Jesus vai apresentar três parábolas,
destinadas a ilustrar a recusa de Israel em acolher a proposta do Reino. Com
elas, Jesus convida os líderes da nação judaica a refletir sobre a situação de
“gueto” em que se instalaram e a reconhecerem o sem sentido das suas posições
fixistas e conservadoras. O nosso texto é a primeira dessas três parábolas.
Mensagem
A parábola dos dois filhos ilustra duas atitudes
diversas diante dos desafios e das propostas de Deus.
O primeiro filho foi convidado pelo pai a trabalhar
“na vinha”. A sua primeira resposta foi negativa: “não quero”. No contexto
familiar da Palestina do tempo de Jesus, trata-se de uma resposta totalmente
reprovável, particularmente porque uma atitude deste tipo ia contra todas as
convenções sociais… Enchia um pai de vergonha e punha em causa a sua autoridade
diante dos familiares, dos amigos, dos vizinhos. No entanto, este primeiro
filho acabou por reconsiderar e por ir trabalhar na vinha (vs. 28-29).
O segundo filho, diante do mesmo convite, respondeu:
“vou, sim, senhor”. Deu ao pai uma resposta satisfatória, que não punha em
causa a sua autoridade e a sua “honra”. Ficou bem visto diante de todos e todos
o consideraram um filho exemplar. No entanto, acabou por não ir trabalhar na
vinha (v. 30).
A questão posta, em seguida, por Jesus, é: “qual dos
dois fez a vontade do pai?” A resposta é tão óbvia que os próprios
interlocutores de Jesus não têm qualquer pejo em a dar: “o primeiro” (v. 31).
A parábola ensina que, na perspectiva de Deus, o
importante não é quem se comportou bem e não escandalizou os outros; mas, de
acordo com a lógica de Deus, o importante é cumprir, realmente, a vontade do
pai. Na perspectiva de Deus, não bastam palavras bonitas ou declarações de boas
intenções; mas é preciso uma resposta adequada e coerente aos desafios e às
propostas do Pai (Deus).
É certo que os fariseus, os sacerdotes, os anciãos do
Povo, disseram “sim” a Deus ao aceitar a Lei de Moisés… A sua atitude – como a
do filho que disse “sim” e depois não foi trabalhar para a vinha – foi
irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais; mas, do ponto de vista
do cumprimento da vontade de Deus, a sua atitude foi uma mentira, pois
recusaram-se a acolher o convite de João à conversão. Em contrapartida, aqueles
que, de acordo com o “política e religiosamente correto” disseram “não” (por
exemplo, os cobradores de impostos e as prostitutas), cumpriram a vontade do
Pai: acolheram o convite de João à conversão e acolheram a proposta do Reino
que Jesus veio apresentar (v. 32).
Lida no contexto do ministério de Jesus, esta
parábola dava uma resposta àqueles que O acusavam de acolher os pecadores e os
marginais – isto é, aqueles que, de acordo com as “convenções”, disseram não a
Deus. Jesus deixa claro que, na perspectiva de Deus, não interessam as
convenções externas, mas a atitude interior. O que honra a Deus não é o que
cumpre ritos externos e que dá “boa impressão” às massas; mas é o que cumpre a
vontade de Deus.
Mais tarde, a comunidade de Mateus leu a mesma
parábola numa perspectiva um pouco diversa. Ela serviu para iluminar a recusa
do Evangelho por parte dos judeus e o seu acolhimento por parte dos pagãos.
Israel seria esse “filho” que aceitou trabalhar na vinha mas, na realidade, não
cumpriu a vontade do Pai; os pagãos seriam esse “filho” que, aparentemente,
esteve sempre à margem dos projetos do Pai, mas aceitou o Evangelho de Jesus e
aderiu ao Reino.
Atualização
Antes de mais, a parábola dos dois filhos chamados
para trabalhar “na vinha” do pai sugere que, na perspectiva de Deus, todos os
seus filhos são iguais e têm a mesma responsabilidade na construção do Reino.
Deus tem um projeto para o mundo e quer ver todos os seus filhos – sem
distinção de raça, de cor, de estatuto social, de formação intelectual –
implicados na concretização desse projeto. Ninguém está dispensado de colaborar
com Deus na construção de um mundo mais humano, mais justo, mais verdadeiro,
mais fraterno. Tenho consciência de que também eu sou chamado a trabalhar na
vinha de Deus?
Diante do chamamento de Deus, há dois tipos de
resposta… Há aqueles que escutam o chamamento de Deus, mas não são capazes de
vencer o imobilismo, a preguiça, o comodismo, o egoísmo, a auto-suficiência e
não vão trabalhar para a vinha (mesmo que tenham dito “sim” a Deus e tenham
sido batizados); e há aqueles que acolhem o chamamento de Deus e que lhe
respondem de forma generosa. De que lado estou eu? Estou disposto a
comprometer-me com Deus, a aceitar os seus desafios, a empenhar-me na
construção de um mundo mais bonito e mais feliz, ou prefiro demitir-me das
minhas responsabilidades e renunciar a ter um papel ativo no projeto criador e
salvador que Deus tem para os homens e para o mundo?
O que é que significa, exatamente, dizer “sim” a
Deus? É ser batizado ou crismado? É casar na igreja? É fazer parte de uma
confraria qualquer da paróquia? É fazer parte da equipa que gere a Fábrica da
Igreja? É ter feito votos num qualquer instituto religiosos? É ir todos os dias
à missa e rezar diariamente a liturgia das horas? Atenção: na parábola
apresentada por Jesus, não chega dizer um “sim” inicial a Deus; mas é preciso
que esse “sim” inicial se confirme, depois, num verdadeiro empenho na “vinha”
do Senhor. Ou seja: não bastam palavras e declarações de boas intenções; é
preciso viver, dia a dia, os valores do Evangelho, seguir Jesus nesse caminho
de amor e de entrega que Ele percorreu, construir, com gestos concretos, um
mundo de justiça, de bondade, de solidariedade, de perdão, de paz. Como me situo
face a isto: sou um cristão “de registro”, que tem o nome nos livros da
paróquia, ou sou um cristão “de fato”, que dia a dia procura acolher a novidade
de Deus, perceber os seus desafios, responder aos seus apelos e colaborar com
Ele na construção de uma nova terra, de justiça, de paz, de fraternidade, de
felicidade para todos os homens?
Nas nossas comunidades cristãs aparecem, com alguma
frequência, pessoas que sabem tudo sobre Deus, que se consideram família
privilegiada de Deus, mas que desprezam esses irmãos que não têm um
comportamento “religiosamente correto” ou que não cumprem estritamente as
regras do “bom comportamento” cristão… Atenção: não temos qualquer autoridade
para catalogar as pessoas, para as excluir e marginalizar… Na perspectiva de Deus,
o importante não é que alguém se tenha afastado ou que tenha assumido
comportamentos marginais e escandalosos; o essencial é que tenha acolhido o
chamamento de Deus e que tenha aceitado trabalhar “na vinha”. A este propósito,
Jesus diz algo de inaudito aos “santos” príncipes dos sacerdotes e anciãos do
povo: “os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino
de Deus”. Hoje, que é que isto significa? Hoje, quem são os “vós”? Hoje, quem
são os “publicanos e mulheres de má vida”?
P. Joaquim Garrido, P.
Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Ensina-me, senhor, os teus
caminhos (Sl. 25,4)
Os textos de hoje nos mostram que o reino de Deus
entra em diálogo com o ser humano para que este possa distinguir entre o modo
como se dá a ação divina e a maneira humana de proceder. O ser humano é uma
tarefa, ele nunca vai estar terminado; sua existência no mundo é um constante
fazer-se e refazer-se baseado nas decisões tomadas com livre-arbítrio.
Quem é bom pode deixar o caminho do bem, e quem é
perverso pode abandonar a vereda do mal. Por isso, Deus está constantemente
chamando o ser humano para que deixe os caminhos tortuosos e diga um “sim”
consciente e maduro que seja realmente “sim”. Para isso, Deus envia mediadores,
na tentativa de chegar ao coração humano.
Contudo, as pessoas podem recusar o chamado de Deus,
fazer pouco caso de sua proposta ou até mesmo ser hostis com os mediadores que
ele envia. É sobretudo por orgulho que opõem obstáculos à própria salvação. Por
isso, exorta-nos o apóstolo: “Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo”.
Evangelho (Mt. 21,28-32)
João ensinou o caminho da
justiça e não acreditaram nele
Jesus, para nos instruir sobre nossas próprias
escolhas, conta-nos a parábola dos dois filhos que mudaram de atitude. Deus nos
fez livres. A salvação que ele nos oferece é puro dom. Cabe a nós responder
“sim” ou “não” a esse convite. O livre-arbítrio possibilita ao ser humano
acolher em sua vida o bom ou o mau caminho. Há sempre a possibilidade de mudar
de rumo. É isso o que nos mostra o texto. Ambos os irmãos mudaram de rumo. Um
fez a vontade do pai e o outro não.
Estar no rumo certo não é sinônimo de segurança, pois
podemos ser facilmente levados para outro caminho se não nos mantivermos
atentos ao chamado constante de Deus. Por isso a necessidade constante de
conversão, porque não estamos prontos. E os que se acham “santos” são muito
facilmente propensos ao erro, mais do que os que têm firme consciência das
próprias limitações. Os “santos” acabam afogando-se na sua soberba e se fecham
à graça divina. Ao contrário, os pecadores são mais abertos para acolher a
graça, pois confiam apenas na misericórdia de Deus.
Fazer a vontade de Deus é muito mais acolhê-lo na
vida diária do que proclamar discursos vazios, destituídos de testemunho de
vida. Deus nos chama constantemente a viver seu amor na doação total de nossa
vida ao irmão. Deve-se viver esse chamado nos atos cotidianos, nas relações
interpessoais, nas próprias escolhas. Fazendo assim, caminha-se na justiça e no
testemunho fidedigno do reino de Deus.
1ª leitura (Ez. 18,25-28)
Deus ensina o caminho aos
pecadores
O texto começa com uma estranheza: “o caminho do
Senhor não é direito” (v. 25). Pensava-se dessa forma porque Deus não fazia o
que se esperava, a saber: recompensar o “justo” e castigar os “injustos”. Esse
modo diferente de Deus proceder irritava as pessoas tidas como santas naquela
época.
Por meio do profeta, Deus toma a palavra e põe as
intenções humanas às claras: os caminhos humanos é que são tortuosos, mas,
apesar disso, Deus continua chamando, respeitando o livre-arbítrio e perdoando
a cada um de seus filhos.
Em primeiro lugar, Deus se dirige aos tidos por
justos. O que se pode dizer de uma pessoa realmente justa? Como pode ser
qualificada uma pessoa convertida? Aquele que aparentemente é santo e
irrepreensível e comete atos que fazem transparecer grande maldade no coração
pode ser considerado justo ou convertido? Segundo o texto que foi proclamado, a
pessoa que se qualifica assim não é verdadeiramente justa, e Deus, que tudo vê,
considera os atos de iniquidade dela, e não sua suposta justiça externa.
Outros são tidos por pecadores, hereges, infiéis,
gentinha de má conduta. A estes Deus convida à conversão e, caso tenham
abertura para acolher o perdão divino, é-lhes assegurado que não serão
considerados os atos praticados numa vida desregrada, muitas vezes afetada por
condicionamentos sociais, religiosos e psicológicos.
Enfim, o texto bíblico exorta todos à conversão, e a
todos está destinado o perdão de Deus.
2ª leitura (Fl. 2,1-11)
O esvaziamento de Cristo nos
ensina o caminho para Deus
O apóstolo Paulo pede aos filipenses que tenham os
mesmos sentimentos de Cristo (v. 5). Com isso, ele espera resolver o problema
daquela comunidade: egoísmo e arrogância (v. 3) e dissensões internas que
ameaçavam o amor, a unidade e o companheirismo. Mas quais seriam os sentimentos
de Cristo que o apóstolo deseja inculcar nos filipenses?
Para definir bem de que se trata, Paulo usa o termo
“esvaziamento” ou “abaixamento”, que significa privar-se de poder ou abdicar de
um direito que se possui. Cristo não se apegou à sua condição divina nem usou
dos privilégios dela em favor de si mesmo, mas assumiu a existência humana como
servo. O abaixamento de Cristo não é apenas tornar-se humano, mas, além disso,
tornar-se servo.
Isso caracteriza a totalidade da vida de Jesus, que
assumiu as limitações humanas e esteve à mercê de nosso egoísmo e violência,
responsáveis pela sua morte terrível na cruz. Porque, acima de tudo, ele quis
atender ao bem-estar e aos interesses dos outros em vez de ter interesses
egocêntricos.
Esse modo de viver de Jesus nos ensina o caminho para
Deus. É descendo a escada da humildade que ascendemos ao reino definitivo.
Esses critérios são diferentes dos critérios humanos, mas são o único e
legítimo caminho para a verdadeira humanização e para Deus.
Pistas para reflexão
O momento atual é marcado por uma religiosidade
intimista e subjetiva de relacionamento vertical: o indivíduo e Deus. Isso traz
como consequência a ideologia da prosperidade: “Eu não cometo pecados
escandalosos e, em troca, Deus me abençoa com o que quero”. Esse tipo de
religiosidade suscita a ideia de um Deus castigador que está contra os “maus” e
recompensa os “bons”. As leituras de hoje mostram que tal pensamento é tortuoso
e não representa os critérios de Deus. Por isso é bom destacar na homilia a
gratuidade, o cuidado com os mais fracos, a tolerância e o diálogo que
constroem comunidade.
Hoje é o dia da Bíblia, palavra de Deus, “luz para os
passos, lâmpada para o caminho” (Sl 119,105). Esta data não deve passar sem
algum destaque na comunidade. Há um clamor uníssono para que a palavra de Deus
seja o centro da vida e da missão da Igreja. Este dia é ótima oportunidade para
que sejam iniciados (ou melhorados) eventos que destaquem a centralidade da
palavra de Deus em toda a Igreja, começando pelas comunidades mais simples e
pequenas até atingir o mundo inteiro.
Aíla Luzia Pinheiro
Andrade, nj
Há sempre a
possibilidade de um recomeço
Há pessoas que dizem que são do
Senhor, mas não são. Há aqueles que afirmam não quererem trabalhar na vinha do Senhor,
mas vão. Mateus nos conta hoje a parábola dos dois filhos: um disse que
aceitava trabalhar na vinha, mas não foi e o outro, dizendo que não ia, foi. O
sim precisa ser sim... e o não pode, quem sabe se transformar num sim...
Há pessoas que, desde a sua mais
terna infância, seguem o Senhor com um gênero sólido de vida cristã, coerente,
numa fidelidade criativa. Há também os que, de alguma forma, foram se
acostumando às coisas religiosas, colocando ritos, praticando isso e aquilo,
mas na realidade tudo com um coração ritualístico. Na hora dos grandes
convites de Deus para ir mar a adentro não mostram coragem... dizem sim...
colocam preces, mas não conseguem fazer de sua vida um hino de serviço à vinha
do Senhor.
Há a epopéia desse filho da
parábola que não queria aceitar o convite: “Não quero”. Os herdeiros
da tradição vetero-testamentária não conseguiram arrumar seu interior e
acolher Jesus. Os pagãos e os pecadores que, na realidade, no principio
disseram um não, mudaram a orientação de sua escolha: “Em verdade eu vos
digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no reino de
Deus”.
Viver é sempre um desafio.
Vamos fazendo nossa trajetória e nossas escolhas. Pode ser que muitos sem
uma família ordenada, pessoas que foram sendo levadas, por seus instintos e na
pobreza de cada um, a um estilo de vida distante das insinuações e dos convites
amorosos de Deus. Esses são os filhos que disseram que não iam... mas
depois se converteram, mudaram a arrumação de seu interior... as prostitutas e
os cobradores de impostos experimentaram uma festa no coração com a
transformação e a conversão do coração.
A epístola aos filipenses,
uma carta de Paulo cheia de ternura, leva seus leitores a um crescimento
no amor de Deus. Os seguidores de Cristo precisam respirar unidade: “...aspirai
à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a
unidade”. Os que querem acertar no seu seguimento terão algumas “marcas”:
não fazer nada por competição e vanglória, mas tudo com humildade; nada de agir
com mentalidade de competição; julgue que o outro seja mais importante;
não cuidar apenas o que é seu; ter os mesmos sentimentos de Jesus que sendo de
condição divina se tornou obediente até à morte de cruz.
frei Almir
Ribeiro Guimarães
A verdadeira obediência
Ao aproximar-se o fim do ano litúrgico acentuam-se os
temas da conversão e da graça, enquanto se desenha com sempre maior nitidez a
perspectiva final.
Em Ez. 18,25-28 (1ª leitura), Deus se defende da
acusação de injustiça levantada contra seu modo de julgar; e confirma: quando
um “justo” se desvia, ele se perde; quando um malvado se converte, ele se
salva. Jesus expõe esse tema na parábola dos dois filhos, o do “sim, senhor”,
que promete e não faz, e o do “não”, que se arrepende e faz. Qual dos dois faz
o que seu pai deseja? O último. Então é este o justo de verdade: vai bem com
Deus. E, para explicar mais uma vez que “os últimos serão os primeiros”, Jesus
ensina aos “bons” (os fariseus) que os publicanos e as meretrizes os precederão
no Reino, pois acreditaram na pregação de penitência de João Batista e se
converteram, mas os fariseus não (evangelho).
Olhemos o caso do filho que diz “sim”, mas não vai.
Para entender bem o evangelho de Mateus, que continuamente opõe a graça do
Reino ao cálculo auto-suficiente dos fariseus, devemos colocar-nos na pele dos
que devem se converter, os fariseus. Pois se achamos que já nos convertemos o
bastante, estamos perdidos. É bom identificarmos-nos com os fariseus e deixar
tinir os nossos ouvidos com as palavras que Jesus lhes dirige. Estamos
acostumados a dizer “sim, senhor” a Deus e a todo mundo. Já fomos batizados sem
o saber, fazemos de conta de acreditar tudo o que a Igreja diz etc. O papa
manda, e nós obedecemos, mas quando é muito difícil, damos um jeito... Dizemos
“sim”, mas fazemos o que nós queremos.
Entretanto, há prostitutas que se prostituíram porque
precisavam viver e os “bons” se prontificaram a usá-las. Há publicanos que
vivem do suborno, porque há “bons” que usam seus serviços. Mas entre os
publicanos e as meretrizes encontram-se os/as que, algum dia, descobrem que
podem andar por outros caminhos e ser filhos e filhos de Deus tão bem como
qualquer pessoa. Então, deixam a bebida e tornam-se bons pais de família e até
pregadores na Assembléia de Deus...
Jesus repreende os “bons” porque não se converteram.
E hoje, alguém está pregando a conversão para “os bons”? Talvez os profetas não
estejam falando bastante claro. Os que optaram pelos pobres e marginalizados
fogem do âmbito dos “bons cristãos” para não ter de enfrentar esse público.
Mas, mesmo assim, “a voz do Batista” ainda não emudeceu. Os bons é que mais
precisam de que se insista na sua conversão. Pois converter-se é mais difícil
para eles do que para os pecadores reconhecidos. Converter-se significa que
antes não se estava tão bem como parecia. Ora, para quem já perdeu a cara, é
relativamente fácil reconhecer isso. Mas largar uma posição de estima significa
entrar na incerteza... isso não é fácil para os “bons”. Mas que experimentem
pelo menos!
O caso do primeiro filho se aplica aos pecadores
patentes. Eles dizem “não” a Deus. Mas muitos deles - talvez por certa
simplicidade de coração e por não terem o costume das falsas justificativas -
são atingidos pela bondade de Deus e o desejo de lhe corresponder. E acabam
fazendo sim!
A 2ª leitura incita a profunda conversão, a
recebermos em nós o espírito de Jesus Cristo, que, em obediência ao plano do
amor do Pai, se esvaziou por nós, tomando a figura do último dos homens. Se
Jesus se esvaziou de sua justa glória divina por que não nos esvaziaríamos de
uma grandeza enganadora - a justiça que nos atribuímos aos nossos próprios
olhos - ou de qualquer forma de grandeza passageira (bens materiais, honra
etc.), para sermos completamente doados aos nossos irmãos. Em harmonia com a 2ª
leitura, pode-se escolher o prefácio dos domingos do tempo comum VII (a
obediência de Cristo).
O espírito da liturgia de hoje acentua a
“obediência”, que não significa submissão a rejeitável usurpação, mas dar
“audiência a quem o merece. Obediência legítima e sabedoria e justiça. E mais:
se sabemos que Deus nos mostra um caminho incomparável (em Jesus Cristo),
então, obedecer-lhe é o melhor que podemos fazer para nós mesmos e para nossos
irmãos: obedecer por amor. Nesta hipótese, a obediência já não pode ser
meramente formal, do tipo “sim, senhor”. Terá de ser um movimento do interior
do nosso coração e mexer com nosso íntimo, exatamente como aconteceu àquele
filho que, primeiro, não quis, mas depois sentiu a injustiça que estava
cometendo em relação ao “Pai de bondade” e executou o que lhe fora pedido.
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
No Evangelho de hoje, Jesus está
no Templo em Jerusalém ensinando ao povo. Ali os chefes dos sacerdotes e os
anciãos O questionam sobre Sua autoridade. Jesus responde fazendo outra
pergunta que eles preferem não responder e, por isso, Ele também não responde à
pergunta.
Em seguida na presença de todo o
povo, Jesus faz um questionamento para que todos reflitam sobre a realidade que
vivem, e para saber como anda o entendimento daquilo que Ele vinha pregando.
Jesus conta a história de um pai
e seus dois filhos a quem deu uma ordem. O filho mais velho que aparentemente
demonstra ser egoísta e responde com agressividade, arrependido atende ao
pedido de seu pai; e o mais novo, que pela resposta positiva, demonstra ser bom
e obediente, não faz o que o pai lhe pede e não cumpre com a sua palavra.
Com esta parábola, Jesus aponta
para a hipocrisia e mostra que as aparências muitas vezes enganam.
Muitas pessoas se acham mais
amigas de Deus porque rezam e frequentam os templos e, por isso, se acham
livres do pecado, se julgam mais justas que as outras, as mais certas, mas não
se comprometem com a obra do Pai, não praticam tudo que dizem, não obedecem e
não fazem a vontade de Deus. Por outro lado, tantas outras que vivem à margem
da sociedade, como os mais pobres e marginalizados do tempo de Jesus, tantas
vezes consideradas erradas e pecadoras, ouviram os ensinamentos de João
Batista, arrependeram-se e se converteram, ou seja, mudaram a direção da sua
vida e tornaram-se dignas de participar do Reino de Deus. Estes são como o
filho mais velho da história que representa os pecadores e os marginalizados
que aceitam a mensagem de Jesus e se comprometem com a proposta da justiça. O
filho mais novo recorda ‘as pessoas de bem’, maquiadas de religiosidade e
justiça, prontas a se escandalizar e a se levantar em defesa de uma suposta
verdade, mas que são presas fáceis do dinheiro e do apego à matéria.
Jesus ensina, com esta parábola,
que a atitude do filho mais velho é fruto da humildade, do arrependimento, do
respeito e do desejo de estar próximo de Deus por amor verdadeiro a Ele, e que
ser filho obediente do Pai não é uma questão apenas de pronunciar belas
palavras, mas de gestos e atitudes que vêem de encontro com a prática de Jesus.
Pequeninos do Senhor
Jesus, tendo sido questionado pelos chefes
religiosos, membros do Sinédrio, passa à ofensiva e lhes propõe uma parábola
simples, sem grandes detalhes. Na parábola, um dos filhos, de início, rejeitou
o pedido do pai para ir trabalhar na vinha, porém depois fez conforme o pai
pedira. O outro filho concordou logo, mas, efetivamente, não o fez. Agora é
Jesus quem pergunta aos chefes judeus: "Qual dos dois fez a vontade do
pai?"
Diante da resposta dos chefes, reconhecendo que foi o
primeiro filho quem fez a vontade do pai, Jesus volta a colocar em evidência o
testemunho de João Batista: os chefes religiosos judeus não fizeram a vontade
do Pai ao rejeitarem o caminho da justiça anunciado por João. Porém os
excluídos, publicanos e prostitutas, que eram considerados pecadores, fizeram a
vontade do Pai quando creram e aderiram a João. O próprio João Batista,
dirigindo-se a estes chefes, proclamara: "Raça de víboras, quem vos
ensinou a fugir da ira que está para vir? Produzi, então frutos de
arrependimento e não penseis que basta dizer: ´Temos por pai a Abraão´"...
(Mt. 3,7b-9). É contundente e profundamente subversiva a sentença final de
Jesus: "Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos
precedem no Reino de Deus".
Porque os publicanos e as prostitutas acreditaram em
João, mas os chefes de Israel, não. Os marginais acolhem Jesus e as elites o
rejeitam. É a expressão de uma sociedade fundada em valores e estruturas
equivocados. Suas elites se afirmam em torno do poder e do dinheiro e humilham,
exploram e excluem os humildes, fracos, pequenos e pobres. Estes se unem em
torno de Jesus que se fez igual a eles (segunda leitura).
Para Deus o essencial é a prática atual da justiça e
do amor, independentemente do passado ou de pretensos direitos religiosos
adquiridos (primeira leitura).
padre Jaldemir Vitório
1ª leitura (Ez. 18,25-28) - Deus age certo, dando
chances para a conversão e castigando a confiança temerária
Existia em Israel a ideia de que o pecado devia
marcar para sempre o pecador, bem como sua descendência (18,2). Como porta-voz
de Deus, Ezequiel rejeita esta ideia: Deus não castiga os pais nos filhos, mas
castiga o justo que deixa seu caminho, e acolhe o pecador que se converte. Deus
julga o homem conforme o que ele é e sinceramente quer ser, não conforme o que
talvez ele tenha sido (18,21-29). Por isso exorta a todos: vale a pena
converter-se (18,30-32).
* Cf. Ez. 33,11-13; Os. 11,9; Mt. 4,17.
2ª leitura (Fl. 2,1-11 ou 2,1-5) - Imitar o
despojamento de Cristo – Viver conforme o evangelho de Cristo (1,27; cf. dom.
pass.) significa: ter a mentalidade de Cristo (2,5), dar maior importância a
seu irmão do que a si mesmo (2,3). Cristo mesmo dá o exemplo, servo até a
morte, esvaziando-se por nós (hino de Fl. 2,6-11; cf. o Servo Padecente de Is
53). Este servo é aclamado com o título divino de “o Senhor” (tradução grega do
nome de Deus).
* 2,1-4 cf. 1Cor. 1,10; Gl. 5,26 * 2,6-7 cf. Jo
1,1-2; 17,5; Cl. 1,15-20; Hb. 1,3-4; 2,10-11 cf. Is. 45,23; Ap. 5,3; Rm. 10,9;
1Cor. 12,3.
Evangelho (Mt 21,28-32) - Os dois filhos: dizer e
fazer
Em três parábolas, Mt desenvolve o tema dos “bons”
que desconhecem a graça de Deus (cf. já a parábola dos operários, dom.
passado): os dois filhos (21,28-32), os vinhateiros homicidas (21,33-43) e os
convidados para o banquete (22,1-10). – A parábola dos dois filhos sugere a
conclusão: o que importa não é dizer “sim” (formalismo), mas fazer “sim”
(conversão, entrar no “caminho da justiça”, como os publicanos e as meretrizes
que se converteram).
* Cf. Lc. 15,11-32; 7,29-30; 18,9-14; 19,1-12; 3,12.
Formalismo religioso e
verdadeiro serviço a Deus
Na 1ª leitura, Ezequiel ensina que o justo, quando se
desvia, se perde, enquanto o pecador que corrige sua vida se salva. Jesus, no
evangelho, denuncia a atitude dos supostos “justos”. Não se converteram à
pregação de João Batista; os publicanos e as prostitutas, sim. Referindo-se a
isso, Jesus faz uma comparação: o “bom filho” diz ao pai que fará, mas não faz;
o filho rebelde diz que não fará, mas faz... Qual dos dois, então, é o
verdadeiro “justo”?
Não adianta ter o rótulo de justo por causa de
habitual bom comportamento e por dizer piedosamente “sim” a Deus. Importa fazer
de fato o que Deus espera. E se fizermos o que Deus espera de nós, não importa
que antes tenhamos sido pecadores. Fazendo o que Deus espera, o pecador
torna-se justo; não o fazendo, o justo torna-se pecador. O “estar bem com Deus”
nunca é “direito adquirido”. Não há lugares cativos no céu...
Um ladrão, acostumado desde o instituto de menores a
viver de bens alheios, arrisca sua vida para salvar um banhista no mar;
populares, não casados na Igreja, organizam uma vaquinha para ajudar uma
família sem meios de sustento; um beberrão torna-se crente e deixa de beber,
para sustentar melhor sua família. Pelo outro lado: padres e religiosos
proclamam a “opção pelos pobres”, mas só tem tempo para os ricos e os
inteligentes... Qual deles é o justo?
Apliquemos na prática o critério de discernimento que
Cristo mesmo sugere na parábola: que é o que a pessoa diz e o que ela faz?
Descobriremos com perspicácia o que é acomodação e o que é conversão, também em
nós mesmos.
Importa reconhecer a justiça dos que não têm a fama,
mas a praticam. E denunciar – para o bem deles e de todos – os que têm fama de
justiça, mas não a praticam. Neste sentido, para ser fiel a Jesus, a comunidade
cristã deve expulsar o formalismo religioso, que consiste em observar as coisas
formais e exteriores da religião, sem fazer de verdade o que Deus espera de
nós: a contínua conversão e a prática da justiça e da solidariedade para com o
irmão.
Convém meditar neste sentido o que fez o filho por
excelência, Jesus: não se apegou a privilégios de divindade, mas fez a vontade
do Pai, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz (2ª leitura).
padre Johan Konings
Duas atitudes
diante do chamado de Deus
Como está o nosso sim ou a nossa
adesão a Deus? A teologia da retribuição faz parte de uma mentalidade que
perpassa quase todo o Antigo Testamento. O trecho do livro do profeta Ezequiel
nos põe às portas da primeira deportação dos judeus para a Babilônia, em 597
a.C. A deportação mais importante foi a do ano 587 a.C., e a terceira foi em
582 a.C. Ante a iminência do exílio, o povo de Deus blasfema pondo em Deus a
culpa de seu fracasso. Mas Deus não se cala; nem sempre Deus silencia. É Ele
quem revela as faltas do seu povo. O exílio é o fruto podre das alianças
políticas equivocadas e consequência do abandono, por parte do povo, do Deus
que os havia libertado da casa da servidão. A injustiça que eles cometeram foi
abandonar os mandamentos do Senhor para seguir suas próprias inclinações más. É
preciso compreender que Deus não nos trata segundo as nossas faltas, nem é Ele
que está na origem de nossos males. Deus provoca a conversão e acolhe todo
pecador que se converte. Nesse sentido, o texto de hoje do profeta Ezequiel é
um apelo à conversão.
A parábola dos dois filhos
representa duas atitudes diante do chamado de Deus. Essa parábola é a sequência
do diálogo com os sumos sacerdotes e anciãos em que eles perguntam a Jesus,
perplexos pela sua atitude de expulsar do Templo os cambistas e os comerciantes
(Mt 21,12-16), quanto à origem de sua autoridade: “quem te concedeu essa
autoridade?” (v. 23). A pergunta deles revela a resistência em reconhecer a
origem divina de Jesus. Desejam desmascarar Jesus, mas diante de Jesus é a
máscara deles que cai por terra. O filho que diz não ao seu pai e, depois,
acaba indo trabalhar na vinha, vale mais do que aquele que diz sim, mas não
obedece. Um homem de verdade é reconhecido por seus atos, não por suas
intenções. Imaginemos um banquete em que os lugares eram distribuídos em função
da dignidade das pessoas. O anúncio de Jesus significa que os publicanos e as
prostitutas, cujas vidas, num primeiro momento, representavam um não a Deus,
ocupam, no Reino dos Céus, o lugar reservado aos sumos sacerdotes e aos
anciãos. Por quê? Por que eles ouviram a pregação de João Batista e se
converteram. Os sumos sacerdotes e os anciãos, ao contrário, resistiram em crer
em João, como resistem em crer em Jesus, apesar de terem visto as boas obras, e
não se converteram.
Carlos
Alberto Contieri,sj
O primeiro filho
que fez a vontade do pai
As parábolas são uma forma
literária à qual se recorre para tornar compreensível uma realidade que se
deseja revelar. Nos evangelhos encontramos quarenta e quatro parábolas. Dentre
elas, temos várias que são encontradas nos três evangelhos sinóticos. Outras
são próprias de um ou de outro evangelista. Assim temos duas parábolas que são
exclusivas de Marcos, nove exclusivas de Mateus, dezoito exclusivas de Lucas, e
duas exclusivas de João.
A parábola de hoje, exclusiva e
Mateus, é dirigida aos chefes religiosos de Jerusalém, membros do Sinédrio, por
ocasião da chegada de Jesus, com seus discípulos, a esta cidade. O Sinédrio de
Jerusalém, que funcionava como Suprema Corte do judaísmo, sob a presidência do
sumo sacerdote, era formado pelos sacerdotes, escribas, e anciãos, sendo estes,
principalmente, latifundiários de prestígio. Questionado por eles, Jesus os
confunde interrogando-os sobre a autenticidade divina do batismo de João, e
dirige-lhes esta parábola.
A parábola, de extrema
simplicidade na sua imagem e no seu significado, indica dois tipos de
comportamentos dos filhos daquele pai. Não está posto em questão o fato da
mudança de posição em relação à afirmação inicial; ambos mudaram. O que está em
questão é o objeto de sua adesão: o cumprimento da vontade do Pai. O primeiro
filho se indispôs a cumprir a vontade do Pai, mas depois mudou e a fez. O
segundo filho se dispôs a cumpri-la, mas não a fez. Agora questionados por
Jesus, os chefes religiosos e autoridades respondem imediatamente e com
clareza, que foi o primeiro filho que fez a vontade do pai. Jesus, então, lhes
argumenta que não foi isto que eles próprios fizeram, identificando-se assim
com o segundo filho, que, embora afirmando-se disposto a fazer a vontade do
pai, na realidade abandonou-a. João Batista veio anunciando a vontade do Pai na
conversão e na prática da justiça, mas os chefes de Israel não acreditaram nele
(cf. primeira leitura). Julgavam-se justos por serem observantes da Lei e de se
proclamarem filhos de Abraão, com o que pretendiam ter a salvação garantida. O
próprio João clamara: "Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira
que está para vir? Produzi, então, frutos de arrependimento e não penseis que
basta dizer: 'Temos por pai a Abraão...'" (Mt. 3,7b-9). É contundente a
sentença final de Jesus: "Em verdade vos digo que os publicanos e as
prostitutas vos precedem no Reino de Deus... pois os publicanos e as
prostitutas acreditaram em João... mas vocês não..." Aqueles que estão à
margem da sociedade acolhem Jesus, enquanto que as elites o rejeitam. É a
expressão de uma sociedade fundada em valores e estruturas equivocados. Suas
elites se afirmam em torno do poder e do dinheiro, muitas vezes procurando
respaldo no poder religioso, e humilham, exploram, e excluem os humildes,
fracos, pequenos e pobres. Estes excluídos se unem em torno de Jesus que se fez
igual a eles (segunda leitura). Para Deus o essencial é a prática atual da
justiça e do amor, independentemente do passado ou de pretensos direitos
religiosos adquiridos
José
Raimundo Oliva
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