2º DOMINGO DO ADVENTO
10 de Dezembro de 2017
Cor: Roxo Evangelho - Mc 1,1-8
-VAMOS ENDIREITAR OS NOSSOS CAMINHOS-José Salviano.
João Batista foi o último
dos profetas que teve uma missão especial diferente da dos outros profetas. Ele
tinha como projeto, preparar a vinda do Senhor Jesus.
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“DEPOIS DE
MIM VIRÁ ALGUÉM MAIS FORTE DO QUE EU.” – Olivia Coutinho
2º DOMINGO DO
ADVENTO
Dia 10 de
Dezembro de 2017
Evangelho de
Mc1,1-8
Neste segundo
domingo do Advento, somos chamados a intensificar o espírito da alegria, da
alegria de quem espera pela vinda do Senhor Jesus, que já
está no meio de nós, mas que ás vezes, não percebemos a sua presença
entre nós!
Este
tempo reflexivo, nos sugere uma desaceleração do nosso corre, corre do dia a
dia, afim de que possamos fazer um retiro interior e a partir daí, fazer uma
revisão de vida.
Para que Jesus
possa nascer, ou renascer no nosso coração, precisamos nos reorganizar
interiormente, eliminar tudo o que nos distancia de Deus, e reaver os valores
que nos aproxima Dele, valores, que vamos perdendo ao longo da nossa vida, por
deixarmos seduzir pelas as propostas do mundo.
Precisamos
tomar consciência da importância de estarmos sempre em vigilância, num processo
contínuo de conversão, pois sem um retorno de todo o nosso ser, a Jesus, não
tem como vivermos o verdadeiro sentido do Natal!
No evangelho
que a liturgia de hoje nos apresenta, Jesus nos convida a tomarmos consciência
da importância de intensificarmos a nossa vigilância, buscando
continuamente a nossa conversão.
O Natal do
Senhor Jesus está prestes a chegar, é a festa da vida, que vem nos falar
da grandiosidade do amor de Deus pela a humanidade! Deus não desiste do humano
e é através do próprio humano, que Ele age em favor do humano! Podemos
ver isso claramente no evangelho de hoje, quando Deus coloca no meio do
povo, um mensageiro, um homem simples, com uma missão tão grande: preparar o
encontro do Divino com o humano!
O texto nos
apresenta a figura de João Batista, o profeta que veio realimentar a esperança
do povo, dos que já haviam perdido a esperança no humano!
João Batista aparece
no deserto, isto é: na periferia, fora do palco do poder, da fama, sua forma de
vestir e de se alimentar, mostrava a sua autonomia, a sua independência diante
os poderes políticos e religiosos, sob os quais, o povo era submetido.
João Batista
foi o maior dos profetas, sua vida foi marcada por grandes contrastes: vivendo
o silencio do deserto e movendo multidões! O próprio Jesus o reconheceu
como sendo ele, o maior dentre todos os nascidos de mulher, (Lc 7,28).
Em suas
pregações, João, convidava todos a mudar de vida, apesar dele pregar no
deserto, pessoas de todos os lugares, iam ao seu encontro, para ouvi-lo e
serem batizados por Ele, (batismo de conversão) inclusive os fariseus e
saduceus, que se diziam filhos de Abrão. Mas João, não se deixava enganar por
estes, ele sabia muito bem, da falsidade que transitava nos seus
corações, por isto, ele era duro com esses inimigos do projeto de Deus: ”Raça
de cobras venenosas quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar? Produzi
frutos que provem a vossa conversão.” Com estas severas advertências, o profeta
critica a fé teórica dos fariseus e saduceus, lembrando-nos, que, o que vai nos
identificar diante do Senhor, serão as nossas atitudes e não, as práticas
religiosas: ritos, preceitos...
João Batista,
teve uma significante participação na história da Salvação, ele é uma das
figuras mais relevantes do advento, foi ele quem abriu o caminho para a entrada
do Divino no coração do humano, quem preparou o povo para acolher a
manifestação de Deus, na pessoa de Jesus.
O profeta João
Batista é um dos protagonistas da mais bela história de amor que já se viu em
todo o universo, uma história de amor que nunca terá fim, suas palavras,
continuam ecoando em todos os confins da terra, de geração em geração:
“Convertei-vos e crede no evangelho”. “Eis o cordeiro de Deus”...
Uma das grandes
virtudes que marcou a vida de João Batista foi a humildade, ele sempre se
colocou no lugar de mensageiro, não aproveitou de seu prestígio junto ao povo,
para se alto-promover, reconheceu a sua pequenez diante a grandiosidade de
Jesus: ”E eu não sou digno nem de tirar-lhe as sandálias. ”
João Batista, o
profeta que aplainou o caminho do Senhor com a sua pregação e o seu testemunho
de vida, foi um grande exemplo de quem viveu exclusivamente a vontade de Deus!
Ele não se acomodou nas tradições do seu povo, pelo o contrário, buscou algo
novo, fazendo-se anunciador de um tempo novo!
Imitemos este
grande profeta, sendo a voz dos mais fracos, manifestando contra
tudo que gera morte, que insiste em manter os caminhos tortuosos como expressão
de valores.
Neste advento,
façamos como João Batista, abramos o caminho para a entrada de Jesus no coração
daquele que ainda não experimentou a alegria de conhecê- Lo.
FIQUE NA PAZ DE
JESUS! – Olívia Coutinho
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1ª leitura (Is. 40,1-5.9-11) - A planar o caminho
para Deus, que reconduzirá seu povo
Começo do “Livro da Consolação” (Is 40–55).
Simultaneamente com vigor e ternura, o profeta anuncia o perdão do povo
(deportado por causa do pecado) e sua volta do exílio. Imagens: 1) já se pode
preparar o caminho (v. 3-5); 2) Sião torna-se mensageira da boa-nova (v.9); 3)
o Pastor que com ternura reconduz suas ovelhas (v. 10-11).
* 40,1-2 cf. Is. 52,7-12; Ex. 6,7; Jr. 31,33;
Is. 43,25 * 40,3-5 cf. Is. 43,1-7; 45,2; Mt. 3,3; Jo 1,23; Ex. 24,16; Jo
1,14 * 40,10-11 cf. Is. 35,4; 62,11; Mq. 2,12-13; Ez. 34,11-16; Jo
10,11-18.
2ª leitura (2Pd 3,8-14) - Deus tem tempo: espera por
nossa conversão
A 1ª e 2ª geração dos cristãos esperava, em vão, a
nova vinda do Senhor, enquanto o mundo os oprimia e ridicularizava. O autor
explica: Deus quer dar uma chance para que todos se convertam. Vivendo na justiça,
os fiéis apressam a chegada do Dia do Senhor. Porém, este Dia vem como um
ladrão, de repente: é mister estar pronto.
* 3,8-10 cf. Sl 91[90],4; Lc 18,7-8; 2Pd 1,3-4;
1Ts 5,2 * 3,11-14 cf. Is 34,4; Ap 6,13-17; 21,1.27.
Evangelho (Mc. 1,1-8) - João Batista, precursor do
“Forte de Deus”
O início da boa-nova (“evangelho”) a respeito de
Jesus Cristo é a mensagem de João Batista, anunciando o Messias, mas para isso
também exigindo a conversão, mediante o sinal do batismo. A fé reconheceu,
nesta atividade do Batista, a realização da profecia de Is 40,2-3; Jesus,
anunciado por João, é, pois, o Messias e João aquele que lhe prepara o caminho.
* Cf. Mt. 3,1-6.11-12; Lc. 3,3-6.15-17; Jo 1,19-28
* 1,1 (“Filho de Deus”) cf. Mc. 1,11; 3,11; 9,7; 14,61; 15,39 * 1,2-3
cf. Ml. 3,1; Is. 40,3 * 1,8 cf. Jo 1,26.33; At. 1,5; 11,16; 13,25.
Deus se volta para nós, voltemos
para ele!
A Boa Notícia começa com um grande chamado à
conversão (Mc. 1,1-15; cf. Mt. 3,1-17; Lc. 3,1-22). Em que sentido a conversão
é “boa notícia”? Conversão, na Bíblia, significa volta (como se faz uma
conversão com o carro na estrada).
Na 1ª leitura ressoa um magnífico texto do Segundo
Isaías. O rei Ciro, depois de conquistar Babilônia, mandou os judeus que aí
viviam exilados de volta para Jerusalém (em 538 a.C.). O profeta imagina Deus
reconduzindo essa gente a Sião. Precede-lhe um mensageiro que proclama:
“Preparai no deserto uma estrada” (Is. 40,3) – como para a entrada gloriosa (a
“parusia”) do Grande Rei. Mas é um rei diferente, cheio de ternura: “Como um
pastor, ele conduz seu rebanho; seu braço reúne os cordeiros, ele os carrega no
colo, toca com cuidado as ovelhas prenhes” (v. 11). Essa era a boa notícia que
Jerusalém, qual mensageira, devia anunciar ao mundo (v. 9).
Conversão não é coisa trágica. Deus já voltou seu
coração para nós; resta-nos voltar o nosso para ele. Ao proclamar o batismo de
conversão (evangelho), João Batista pressentia a proximidade de uma “entrada
gloriosa” de Deus. Como símbolo da “volta” usava a água do rio Jordão, que lembrava
a travessia do povo de Israel pelo mar Vermelho e pelo rio Jordão, rumo à terra
prometida. Reforçava sua mensagem repetindo o texto de Is. 40,3: “Preparai uma
estrada…”. Vestia-se com um rude manto feito de pêlos de camelo e alimentava-se
com a comida do deserto – mel silvestre e gafanhotos –, como o profeta Elias, o
grande profeta da conversão, cuja volta se esperava (cf. Ml. 3,1.23-24 e Eclo.
48,10). Mas João ainda não é aquele que deve vir, apenas prepara a chegada
deste, o “mais forte”, que virá “batizar com o Espírito Santo” (cf. a efusão do
Espírito de Deus no tempo do Fim: Jl. 3,1-2; Ez. 36,27 etc.).
Devemos sempre viver à espera dessa “entrada
gloriosa” de Deus. Jesus veio e inaugurou o reinado de Deus, mas deixou a nós a
tarefa de materializá-lo na História. Entretanto, Deus já coroou com a glória a
vida dele e a obra que ele realizou: reunir as ovelhas como o pastor descrito
por Isaías.
No tempo dos primeiros cristãos, muitos imaginavam
que Jesus ia voltar em breve com a glória do céu, para arrematar essa obra
iniciada. Depois de alguns decênios, porém, começaram a se cansar e a viver sem
a perspectiva da chegada de Deus, caindo nos mesmos abusos que vemos hoje em
torno de nós. Por isso foi necessário que a voz da Igreja lembrasse a voz dos profetas:
Deus pode tardar, mas não desiste de seu projeto. Mil anos são para ele como um
dia (2Pd. 3,8), mas seu sonho, “um novo céu, uma nova terra, onde habitará a
justiça”, fica de pé (2ª leitura).
Não vivamos como os que não têm esperança. Não
desprezemos o fato de Deus estar voltado para nós. Voltemos sempre a ele.
Johan Konings
É por amor ao ser
humano que o Senhor assumiu a nossa humanidade.
O trecho do livro do profeta
Isaías relata fatos do século VI a.C., período do exílio na Babilônia. Papel
dos profetas do exílio era manter viva a esperança do povo de que Deus haveria
de cumprir a promessa de fazê-lo retornar à terra que, na concepção deles, Deus
havia dado aos ancestrais de Israel, pois Deus não tinha abandonado os que Ele
havia escolhido. Por isso, é preciso não deixar ao inimigo espaço para se
esconder e ameaçar a esperança e a fé do povo. Há, ainda, outra ideia,
subjacente às imagens da preparação do caminho para o Senhor: quando um rei
dominava um país, ele fazia com que o povo do país dominado construísse uma
grande avenida para que pudesse passar triunfante. É preciso preparar uma
grande avenida, isto é, eliminar todos os obstáculos, para que o Senhor, Deus
de Israel, possa passar triunfante e reconduzir o seu povo à sua terra.
Quando a Igreja relê o texto de
Isaías, ela reconhece, aí, a missão de João Batista, precursor do Messias. É
ele quem, a partir do deserto, exorta com vigor o povo a preparar o caminho
para o Senhor. Preparação que se dá por uma vida eticamente coerente com a fé
professada (cf. Mt 3,8; Lc 3,8.10-14). A missão de João Batista equivalia à
missão do profeta Elias, a saber, conduzir o povo a uma verdadeira conversão.
Daí o Batismo de conversão que João realiza. Somente eliminando os obstáculos
que o mal gera no coração do ser humano é que se pode reconhecer Aquele que
virá depois de João e de quem ele diz não ser digno de desamarrar as sandálias.
A vida de cada fiel deve ser como uma avenida por onde o Senhor passa para
entrar em posse daquilo que é seu. O ser humano é que pertence a Deus. É por
amor ao ser humano que o Senhor assumiu a nossa humanidade, a fim de conduzi-lo
a viver na terra a realidade do céu. A água do Jordão não podia fazer viver. O
Espírito Santo do qual Jesus é revestido é quem vivifica. O anúncio de João
Batista de que Aquele que virá depois dele batizará com o Espírito Santo
significa que a obra de Jesus tem um caráter de purificação e um único fim, a
saber, a comunhão com Deus.
Carlos
Alberto Contieri,sj
O tempo do Advento coloca-nos diante da miséria da
humanidade, da pobreza e aperto da Igreja, da nossa própria miséria. Pobre
humanidade: por mais que se julgue auto-suficiente, é tão insuficiente, por
mais que deseje ser seu próprio deus, não passa de pó que o vento leva. Pobre
Igreja, tão santa pela santidade de Cristo, o Santo de Deus, mas tão
envergonhada pelos pecados de seus filhos e até de seus pastores, que deveriam
ser exemplo e orgulho do rebanho; tão difamada, tão vilipendiada, tão humilhada
nos dias atuais. Pobres de nós, que vivemos uma vida tão cheia de percalços e
angústias, de lutas e lágrimas, de desafios que, às vezes, pararem mais fortes
que nós! Eis a humanidade! Como no passado, ainda hoje precisamos de um
Salvador; como Israel que esperou, nós, Igreja de Cristo, suplicamos: Vem,
Senhor! Manifesta o teu poder! Que passe logo este mundo de tanta ambigüidade e
provação; que venha a plenitude do teu Reino, que venha o teu Dia, que venha
logo a plenitude da tua graça! É este o horizonte para contemplarmos a Palavra
de Deus deste II Domingo do Advento. No Missal romano, as palavras de entrada
da Missa, tiradas do Profeta Isaías, já nos são de tanto consolo: “Povo de Sião
– somos nós, meus irmãos, somos nós! – o Senhor vem para salvar as nações! E,
na alegria do vosso coração, soará majestosa a sua voz!” (Is. 30,19.30). Sim! O
Senhor vem! Aquele que nunca nos deixou e vem sempre nas pequenas coisas e
ocasiões da vida, ele mesmo virá, um Dia, no fulgor da sua glória: ele, nossa
justiça, ele, nosso esperança, ele, nosso Salvador!
Escutemos o Profeta, falando em nome de Deus!
Escutemos as palavras que ele manda dizer à sua Igreja sofredora e humilhada,
tentada pelo desânimo: “Consolai, consolai o meu povo! Falai ao coração de
Jerusalém e dizei em alta voz que a sua servidão acabou!” O Senhor vem, cheio
de mansidão e misericórdia, de bondade e compaixão! No Natal nós veremos que
Deus é amor, veremos do que ele é capaz por nós: capaz de fazer-se pequeno,
capaz de fazer-se criança, capaz de fazer-se pobre entre os pobres do mundo!
“Sobe a um alto monte, tu que trazes a boa-nova a Sião, levanta com força a tua
voz; dize às cidades de Judá: ‘Eis o vosso Deus! Como um pastor, ele apascenta
o rebanho, reúne com a força dos braços os cordeiros e carrega-os ao colo; ele
mesmo tange as ovelhas que amamentam'”.
Caríssimos, não desanimemos, não temamos, não
percamos o rumo da nossa vida, não esfriemos na nossa fé e na nossa esperança:
tudo caminha para esse encontro com Aquele que vem! Deus não se esqueceu de
nós, não virou as costas para o mundo, não abandonou a sua Igreja! Recobremos o
ânimo, renovemos as nossas forças, colocando no nosso Deus a nossa esperança e
a nossa certeza! Se olharmos para nós, quanto desânimo e incapacidade; se
olharmos para o nosso Deus, quanta esperança e certeza de salvação!
Mas, a Vinda do Senhor, Vinda salvadora, será também
uma Vinda de julgamento: na sua luz, bem e mal, santidade e pecado, retidão e
maldade, fidelidade e infidelidade aparecerão. Na sua Vinda, tudo será
queimado, purificado no fogo devorador do seu Espírito Santo, aquele que
argüirá o mundo quanto à justiça, quanto ao julgamento e quanto ao pecado (cf.
Jo. 16,8-11). A Palavra de Deus hoje nos adverte severa e insistentemente sobre
isso: “Eis o vosso Deus, eis que o Senhor Deus vem com poder, seu braço tudo
domina: eis, com ele, sua conquista, eis à sua frente a vitória! O Dia do
Senhor chegará como um ladrão, e então os elementos, devorados pelas chamas, se
dissolverão, e a terra será consumida com tudo o que nela se fez. O que nós
esperamos são novos céus e nova terra, onde habitará a justiça!” O Senhor,
portanto, julgará tudo: na luz, do seu Espírito Santo, tudo será colocado às
claras; no fogo do seu Espírito Santo, tudo será purificado, e aquilo que não
foi de acordo com o seu Evangelho, com a sua Verdade, com a sua Cruz, será
consumido no nada, no pó, no choro e ranger de dentes. Na luz e no fogo do
Espírito de Cristo, tudo será passado a limpo: a história da humanidade e
a nossa história pessoal...
Por isso mesmo, a insistente exortação que a Palavra
nos faz hoje à vigilância. São Pedro, na segunda leitura, recorda-nos que este
tempo de nossa vida é tempo da paciência de Deus, tempo de aproveitar para
trabalhar para a nossa conversão: “O Senhor está usando de paciência para
convosco. Pois não deseja que alguém se perca. Ao contrário, quer que todos
venham a converter-se!" Bispos e padres, convertei-vos! Mudai vossa vida,
abri vosso coração! Não vos iludais, pensando que podeis vos acostumar com o
Senhor: pregais a Palavra dele e sereis julgados pela Palavra que pregais!
Religiosos e religiosas, convertei-vos ou morrereis eternamente no fogo que não
acaba! Não podeis fingir, não podeis enganar o Senhor! Povo todo de Deus:
jovens e adultos, idosos e crianças, solteiros e pais e mães de família,
convertei-vos, mudai vosso procedimento! Vivei de acordo com o que sois: sois a
Igreja santa, sois o povo santo de Deus, sois a herança de Cristo!
Convertei-vos todos, pois o Senhor a todos examinará! Com a vossa vida e o
vosso procedimento, preparai no deserto de vossa vida o caminho do Senhor.
Nivelem-se todos os vales de nossas baixezas e pecados, rebaixem-se todos os
montes e colinas do nosso orgulho, soberba e prepotência; endireite-se o que é
torto no nosso pensamento e no nosso procedimento e alisem-se as asperezas de
nosso modo de tratar os irmãos. Então, a glória do Senhor se manifestará na
nossa vida e nós seremos luz para a humanidade em trevas! Irmãos, não somos da
noite, não somos das trevas! Somos filhos da Luz de Cristo, somos filhos do Dia
do Senhor!
A figura de João Batista, com toda a sua austeridade
e com suas palavras de advertência são um sério convite a que revisemos nosso
modo de viver. Hoje, caríssimos, o mundo é todo paganizado; nosso País está se
tornando cada vez mais pagão. Mas, isso não é o mais triste. O mais triste, o
que nos corta o coração, é ver os cristãos vivendo como os pagãos, pensando
como os pagãos, falando como os pagãos, agindo como os pagãos, gostando das
coisas que agradam aos pagãos! Nós, que vimos a Luz; nós, que temos a
consolação de Cristo; nós que temos o seu Espírito; nós, que nos alimentamos
com o pão da sua Palavra e do seu Corpo e Sangue! Não fugiremos à Ira,
caríssimos! Não escaparemos do tremendo tribunal de Cristo! João Batista é claro:
“Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar
para desamarrar suas sandálias. Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará
com o Espírito Santo!” Não se brinca com Cristo: se João - austero, piedoso e
coerente - não se sentia digno de desamarrar suas sandálias, que será de nós?
Ele nos batizará, nos mergulhará no fogo do seu Espírito... e, então, ai do
infiel, ai do que fez pouco caso da sua Palavra, das suas exigências, do seu
amor, ai do cristão e nome e pagão de vida!
dom Henrique Soares da
Costa
A liturgia do segundo domingo de Advento constitui um
veemente apelo ao reencontro do homem com Deus, à conversão. Por sua parte,
Deus está sempre disposto a oferecer ao homem um mundo novo de liberdade, de
justiça e de paz; mas esse mundo só se tornará uma realidade quando o homem
aceitar reformar o seu coração, abrindo-o aos valores de Deus.
Na primeira leitura, um profeta anônimo da época do
Exílio garante aos exilados a fidelidade de Jahwéh e a sua vontade de conduzir
o Povo – através de um caminho fácil e direito – em direção à terra da
liberdade e da paz. Ao Povo, por sua vez, é pedido que dispa os seus hábitos de
comodismo, de egoísmo e de auto-suficiência e aceite, outra vez, confrontar-se
com os desafios de Deus.
No Evangelho, João Baptista convida os seus
contemporâneos (e, claro, os homens de todas as épocas) a acolher o Messias
libertador. A missão do Messias – diz João – será oferecer a todos os homens
esse Espírito de Deus que gera vida nova e permite ao homem viver numa dinâmica
de amor e de liberdade. No entanto, só poderá estar aberto à proposta do
Messias quem tiver percorrido um autêntico caminho de conversão, de
transformação, de mudança de vida e de mentalidade.
A segunda leitura aponta para a parusia, a segunda
vinda de Jesus. Convida-nos à vigilância – isto é, a vivermos dia a dia de
acordo com os ensinamentos de Jesus, empenhando-nos na transformação do mundo e
na construção do Reino. Se os crentes pautarem a sua vida por esta dinâmica de
contínua conversão, encontrarão no final da sua caminhada terrena “os novos
céus e a nova terra onde habita a justiça”.
1ª leitura: Is. 40,1-5.9-11
- AMBIENTE
O nosso texto pertence ao “Livro da Consolação” do
Deutero-Isaías (cf. Is. 40-55). “Deutero-Isaías” é um nome convencional com que
os biblistas designam um profeta anônimo da escola de Isaías que,
provavelmente, cumpriu a sua missão profética na Babilônia, entre os exilados
judeus (embora alguns situem a sua atividade profética em Jerusalém). Estamos
na fase final do Exílio, entre 550 e 539 a.C.
O tempo do Deutero-Isaías é uma época peculiar, com
problemas muito próprios. Muitos dos exilados estão frustrados e desorientados,
sem entender porque é que Deus permitiu o drama da derrota e do Exílio… Outros
estão instalados e acomodados e já não pensam em regressar à sua terra nem
esperam nada de Deus.
Na fase final desta época, as notícias das vitórias
de Ciro, o persa, sobre os babilônios, fazem esperar um rápido desmoronar do
império babilônico e a libertação dos judeus exilados… Mas, se essa libertação
chegar – perguntam os exilados – a quem é que deve ser atribuída: a Jahwéh, ou
aos deuses persas? Se é a Jahwéh, porque é que Ele escolheu um estrangeiro e
não um membro do Povo de Deus para realizar a obra maravilhosa da libertação?
No caso de a libertação acontecer, valerá a pena arriscar o regresso e
enfrentar as dificuldades do recomeço? Haverá, ainda, um futuro para esse Povo
de Deus que parece ter sido abandonado por Jahwéh?
O Deutero-Isaías aparece neste contexto. A sua
mensagem destina-se a consolar os exilados (os capítulos 40-55 do livro do
Profeta Isaías chamam-se, precisamente, “livro da Consolação”) e apontar-lhes
novas razões para ter esperança. O profeta começa por anunciar a iminência da
libertação e por comparar a saída da Babilônia ao antigo êxodo, quando Deus
libertou o seu Povo da escravidão do Egito (cf. Is 40-48)… Ciro é apresentado
como “o escolhido de Jahwéh”, o instrumento de Deus na libertação de Judá. Na
segunda parte do livro, o profeta anuncia a reconstrução de Jerusalém, essa
cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a
alegria e a paz sem fim (cf. Is. 49-55).
A primeira leitura deste domingo apresenta-nos,
precisamente, o prólogo do “livro da Consolação”.
MENSAGEM
O profeta é, pois, enviado por Deus a anunciar “ao
coração de Jerusalém” que a “consolação” do Senhor está próxima (v. 1). A
imagem do “falar ao coração” sugere a relação de amor entre Jahwéh e o seu
Povo, entre o amado e a amada… Deus “fala ao coração” do seu Povo, com amor e
ternura, a fim de o consolar.
Em que consiste essa “consolação”?
Consiste, em primeiro lugar, no anúncio do perdão de
Deus (v. 2). Os exilados estavam convencidos de que a dolorosa experiência do
Exílio era o castigo para os pecados cometidos pelo Povo de Judá. Viviam
angustiados, afogados em sentimentos de culpa, sentindo-se em transgressão,
indignos, pecadores e afastados de Deus. Neste contexto, Deus diz-lhes: o tempo
da ruptura e do afastamento terminou e chegou o tempo do reencontro, o tempo de
refazer a comunhão e a Aliança.
O profeta utiliza, para expressar esta mensagem de
perdão, duas imagens… A primeira é uma imagem ligada ao universo militar: o
tempo de serviço que o Povo foi obrigado a cumprir já terminou (a palavra
utilizada pelo profeta designa com freqüência, na língua hebraica, o tempo de
vassalagem forçada, o tempo obrigatório de serviço no exército); a segunda é
uma imagem ligada ao universo cultual: o castigo que o Povo sofreu foi aceite pelo
Senhor, como se tratasse de um sacrifício de expiação (esses sacrifícios de
expiação que a liturgia de Israel tão bem conhecia e que serviam para refazer a
comunhão com Deus, depois do pecado do Povo).
Ainda neste enquadramento de “consolação”, o autor do
nosso texto apresenta uma misteriosa voz que convida a preparar “no deserto o
caminho do Senhor”, a abrir “na estepe uma estrada para o nosso Deus” (vs.
3-5). O que é que isto significa?
O tema do deserto leva-nos, evidentemente, ao Êxodo…
Recorda esse acontecimento fundamental da história e da fé de Israel que foi a
libertação do Egito e a viagem da terra da escravidão para a terra da liberdade
(viagem que não foi apenas o percorrer um determinado percurso geográfico mas
foi sobretudo uma viagem espiritual, durante a qual o Povo fez uma experiência
de encontro com Deus, amadureceu a sua fé e passou de uma mentalidade de
egoísmo e de escravidão para uma mentalidade de comunhão e de liberdade).
A referência ao caminho pelo deserto sugere
claramente que Deus prepara um Novo Êxodo para o seu Povo. O profeta anuncia
aos exilados que Deus vai traçar um caminho fácil, direito, glorioso, triunfal,
pelo qual os exilados irão passar da terra da escravidão à terra da liberdade,
numa espécie de “reedição melhorada” do antigo Êxodo. Trata-se de um “caminho”
geográfico, ou de um caminho espiritual? Provavelmente, o profeta não distingue
uma coisa da outra… Ele quererá dizer aos exilados que Deus vai tornar fácil
esse percurso geográfico que eles devem percorrer, alimentando-os, salvando-os
dos perigos, ajudando-os a vencer a fadiga da caminhada; mas, sobretudo, o
profeta quererá dizer aos exilados que Deus lhes vai oferecer, outra vez, a
possibilidade de uma “caminhada espiritual”, durante a qual eles poderão fazer
uma nova experiência do amor e da bondade de Deus e redescobrir os caminhos da
comunhão e da aliança. Naturalmente, é preciso que os exilados preparem o
espírito para acolher esta nova possibilidade que Deus oferece, aceitem confiar
em Deus, aceitem o desafio de retornar à Aliança, aceitem renunciar à
escravidão para correr o risco da liberdade.
Na terceira parte, o nosso texto coloca-nos diante de
uma nova cena… Um “mensageiro” (em grego: um “evangelista”) eleva a sua voz
sobre uma alta montanha e proclama uma “boa notícia” a Jerusalém e às outras
cidades de Judá: o Deus poderoso do Êxodo (“vem com poder, o seu braço
dominará”) conduz pessoalmente o seu Povo de regresso à Terra Prometida… Ele é
o Pastor que reúne o seu rebanho, que o apascenta, que cuida das ovelhas mais
frágeis e as conduz “ao seu descanso”, que oferece de novo ao seu Povo a vida e
a fecundidade. A referência às ovelhas mais fracas e às ovelhas recém-nascidas
(objeto de um especial cuidado de Deus, o Pastor) sublinha o amor, a ternura e
a solicitude de Jahwéh pelo seu Povo. Trata-se, sem dúvida, de uma mensagem de
“consolação” destinada a acordar nos exilados a fé e a esperança.
ATUALIZAÇÃO
A mensagem de “consolação” que a primeira leitura nos
apresenta anuncia a esse povo amargurado, desiludido e frustrado que Deus não o
abandonou nem esqueceu e que vai atuar no sentido de oferecer-lhe de novo a
vida e a liberdade. Esta mensagem representa um extraordinário “capital de
esperança”, oferecido ao Povo de Deus de todas as épocas e lugares… Hoje, sentimo-nos
esmagados e frustrados porque a violência e o terrorismo marcam com sangue e
sofrimento a vida de tantos dos nossos irmãos, ou porque os pobres e os fracos
são esquecidos e colocados à margem da história, ou porque parece que a
sociedade global se constrói com egoísmo, com indiferença e com exclusão… O
profeta garante-nos que Deus – esse Deus que é eternamente fiel aos
compromissos que assumiu para com os seus filhos – não está alheado da nossa
história, que Ele continua a vir ao nosso encontro e a oferecer-Se para nos
conduzir com amor e solicitude ao encontro da verdadeira vida e da verdadeira
liberdade.
A mensagem do profeta é particularmente questionadora
para esses exilados que já não pensavam em regressar à sua terra nem se
esforçavam minimamente por escutar os apelos e os desafios de Deus. Instalados
e acomodados, eles haviam perdido a capacidade de arriscar e a vontade de
começar um novo caminho com Deus. A mesma mensagem interpela todos os homens e
mulheres que vivem acomodados nos seus espaços seguros e protegidos ou
resignados a uma vida banal, vazia, cinzenta, insípida, e convida-os a abrir o
coração à novidade de Deus. È preciso correr riscos, aceitar despojar-se do
egoísmo, do comodismo, do materialismo, da escravidão dos bens, dos preconceitos
para percorrer, com Deus, esse caminho de regresso à vida nova da liberdade.
Em concreto, o que é que nos impede de percorrer o
caminho que Deus nos propõe e de nascer para uma vida mais livre e mais feliz?
Os bens materiais? A posição social? O comodismo? O medo? O Advento é o tempo
favorável para limparmos os caminhos da nossa vida, de forma a que Deus possa
nascer em nós e, através de nós, libertar o mundo… Quais são os vales que
precisam de ser alteados, os montes que precisam de ser abatidos, os caminhos
que precisam de ser endireitados para que Deus possa vir ao nosso encontro?
A figura profética do Deutero-Isaías recorda-nos que
é através dos seus mensageiros que Deus continua a oferecer ao mundo e aos
homens a vida, a esperança, a liberdade, a salvação. Sentimo-nos sinais vivos
de Deus e testemunhas da sua proposta libertadora diante dos nossos irmãos, ou
preferimos esconder-nos atrás de uma vida egoísta, cômoda, instalada, sem
compromissos?
2ª leitura: 2 Pedro 3,8-14
- AMBIENTE
A segunda carta de Pedro apresenta todas as
características de uma “carta testamento”, como se o autor, sentindo
aproximar-se a morte, quisesse transmitir uma última e decisiva mensagem a um
grupo de pessoas a quem se sente particularmente ligado (habitualmente, familiares,
amigos ou discípulos).
Em concreto, o autor da segunda carta de Pedro dirige
o seu “testamento” aos irmãos da sua comunidade cristã e convida-os a
conservarem-se fiéis aos ensinamentos recebidos, evitando deixarem-se confundir
pelas doutrinas dos alguns falsos mestres. Os crentes devem esforçar-se,
segundo este “testamento”, por preparar adequadamente a segunda vinda de Jesus
Cristo, sem se deixarem manipular por doutrinas contrárias ao Evangelho e ao
ensinamento recebido da tradição apostólica.
O autor apresenta-se a si próprio como Simão Pedro,
servidor e apóstolo de Jesus Cristo (cf. 2Pd. 1,1), testemunha da
transfiguração (cf. 2Pe. 1,16); no entanto, é praticamente consensual entre os
estudiosos da Bíblia que este escrito é bem posterior ao apóstolo Pedro. Tudo
indica que o autor desta carta não pertenceu à primeira geração cristã;
contudo, é um judeo-cristão com sólida formação helênica e que conhece bem a
vida e a catequese do apóstolo Pedro. Alguns autores costumam situar a redação
desta carta por volta do ano 125.
MENSAGEM
O texto que hoje nos é proposto apresenta duas
partes, embora estreitamente ligadas uma à outra pelo tema da parusia (a
“segunda vinda” do Senhor Jesus, no final dos tempos). A primeira integra uma
reflexão (cf. 2Pe. 3,1-10) sobre o “dia do Senhor”; a segunda integra uma
exortação (cf. 2Pe. 3,11-16) aos cristãos no sentido de levarem uma vida santa.
Os cristãos dos primeiros tempos estavam convencidos
da iminência da chegada de Jesus para eliminar definitivamente o mal e para
instaurar definitivamente o Reino de Deus. No entanto, o tempo passava e a
segunda vinda do Senhor não acontecia. Os crentes estavam decepcionados e eram
objeto da irrisão dos adversários. É neste contexto que a leitura de hoje nos
situa… O autor explica sumariamente aos membros da sua comunidade cristã as
razões pelas quais o Senhor ainda não veio… A primeira é que Deus não está
dependente do tempo, como nós que vivemos na história (“um dia diante do Senhor
é como mil anos e mil anos como um dia” – vers. 8); a segunda é que Deus é
paciente e pretende prorrogar o tempo da história para dar a todos a
oportunidade de acolherem a salvação que Ele oferece (vers. 9). De resto, não é
possível definir o momento exato da segunda vinda de Jesus: será algo inesperado
e surpreendente, que os crentes devem esperar vigilantes e preparados.
O que é que significa estar vigilante e preparado? O
nosso autor responde a esta questão na segunda parte do nosso texto (vs.
11-14). Os crentes devem viver uma vida consentânea com a vocação a que foram
chamados – isto é, uma vida irrepreensível, “santa” (isto é, ao serviço de
Deus), cheia de “piedade”, “sem pecado nem motivo algum de censura”. Essa
conduta apressará, na opinião do autor da carta, a segunda vinda do Senhor e,
conseqüentemente, a concretização da promessa desses “novos céus e nova terra
onde habitará a justiça”.
ATUALIZAÇÃO
A certeza da ressurreição garante-nos que Deus tem um
projeto de salvação e de vida para cada homem; e que esse projeto está a
realizar-se continuamente em nós, até à sua concretização plena, quando nos
encontrarmos definitivamente com Deus. A nossa vida presente não é, pois, um
drama absurdo, sem sentido e sem finalidade; é uma caminhada tranqüila,
confiante em direção a esse desabrochar pleno, a essa vida total em que se
revelará o Homem Novo.
A questão fundamental que os cristãos devem pôr, a
propósito da segunda vinda do Senhor, não é a questão da data, mas é a questão
de como esperar e preparar esse momento. O autor do nosso texto deixa claro que
o que é preciso é estar vigilante. “Estar vigilante” não significa ficar a
olhar para o céu à espera do Senhor, esquecendo e negligenciando as questões do
mundo e os problemas dos homens; mas significa viver, no dia a dia, de acordo
com os ensinamentos de Jesus, empenhando-se na transformação do mundo e na
construção do Reino.
A certeza da segunda vinda do Senhor dá aos crentes
uma perspectiva diferente da vida, do seu sentido e da sua finalidade… Para os
não crentes, a vida encerra-se dentro dos limites estreitos deste mundo e, por
isso, só interessam os valores deste mundo; para os crentes, a verdadeira vida,
a vida em plenitude, está para além dos horizontes da história e, por isso, é
preciso viver de acordo com os valores eternos, os valores de Deus. Assim, na
perspectiva dos crentes, não são os valores efêmeros, os valores deste mundo (o
dinheiro, o poder, os êxitos humanos) que devem constituir a prioridade e que
devem dominar a existência, mas sim os valores de Deus. Quais são os valores
que eu considero prioritários e que condicionam as minhas opções?
A certeza da segunda vinda do Senhor aponta também no
sentido da esperança. Os cristãos esperam, em serena expectativa, a salvação
que já receberam antecipadamente com a morte de Cristo, mas que irá consumar-se
no “dia do Senhor”. Os crentes são, pois, homens e mulheres de esperança,
abertos ao futuro – um futuro a conquistar, já nesta terra, com fé e com amor,
mas sobretudo um futuro a esperar, como dom de Deus.
Evangelho: Mc. 1,1-8
- AMBIENTE
O Evangelho segundo Marcos parece ter sido o primeiro
dos Evangelhos a ser redigido, certamente antes do ano 70. A crítica do texto
sugere que se trata de uma obra destinada a uma comunidade maioritariamente
composta por cristãos vindos diretamente do paganismo, provavelmente a
comunidade cristã de Roma.
O final da década de 60 é uma época difícil para os
cristãos em geral e para os cristãos da cidade de Roma em particular. Por volta
do ano 66, o imperador Nero organizou uma terrível perseguição contra os
cristãos da capital do império. Pedro e Paulo foram mortos nesta altura,
juntamente com um número considerável de outros cristãos. A fidelidade no
seguimento de Jesus comportava o risco contínuo de ver-se desprezado,
perseguido e maltratado.
Nesta situação de perseguição e de crise, era
necessário afirmar a fé em Jesus Cristo. Como? Marcos percebeu que era preciso
entender corretamente a identidade de Jesus. Se a comunidade descobrisse em
Jesus o Filho de Deus que veio ao mundo ao encontro dos homens para lhes transmitir
a Boa Nova da salvação, era muito mais fácil manter a fidelidade, mesmo num
contexto adverso de perseguição e de sofrimento. O Evangelho segundo Marcos vai
nascer, pois, com a preocupação de apresentar aos crentes – de forma clara – a
verdadeira identidade de Jesus.
O texto que hoje nos é proposto é o prólogo ao
Evangelho segundo Marcos. Nesse prólogo, o autor enuncia as coordenadas
fundamentais do seu Evangelho. Trata-se, diz o título da obra, de apresentar
uma “Boa Notícia” (“evangelho”) aos crentes mergulhados na crise e na
perseguição. Qual é essa “Boa Notícia” que deve dar sentido ao sofrimento dos
cristãos? É que esse Jesus, à volta do qual se constrói a vida e a fé da
Igreja, é o Messias libertador (“o Cristo”) e o Filho de Deus. Nestes dois títulos
fica definida, quer a missão específica, quer a identidade de Jesus.
MENSAGEM
O corpo central do nosso texto apresenta-nos a missão
de João Baptista (vs. 2-3), a sua pregação (v. 4), a reação dos ouvintes (vers.
5), o seu estilo de vida (v. 6) e o testemunho de João sobre Jesus (vs. 7-8).
Qual é, pois, a missão de João? De acordo com o nosso
texto, é ser o “mensageiro” que prepara o caminho para o “Messias”, “Filho de
Deus” (vers. 2). A propósito da apresentação da missão de João, o autor
apresenta uma citação que atribui ao Profeta Isaías mas que é, na realidade, um
conjunto de afirmações retiradas do Êxodo (cf. Ex. 23,20), de Isaías (cf. Is.
40,3) e de Malaquias (cf. Mal. 3,1): “Vou enviar à tua frente o meu mensageiro,
que preparará o teu caminho. Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do
Senhor, endireitai as suas veredas”. A acumulação de citações tiradas da Torah
e dos profetas sugere que João é esse mensageiro de Deus do qual falavam as
promessas antigas, e que devia vir anunciar e preparar o Povo de Deus para
acolher a intervenção definitiva de Jahwéh na história dos homens.
Em que consistia a pregação de João? João “apareceu
no deserto a proclamar um batismo de penitência para remissão dos pecados” (v.
4). De acordo com a catequese judaica, o Messias só chegaria quando Israel
fosse, na verdade, a comunidade santa de Deus… Antes de o Messias chegar, o
Povo devia, portanto, realizar um caminho de purificação e de conversão, de
forma a tornar-se um Povo santo. O “batismo de penitência” (literalmente,
“batismo de conversão” – ou de “metanoia”) proposto por João deve ser entendido
neste contexto e representa um convite à mudança radical de vida, de
comportamento, de mentalidade.
Este “batismo” proposto por João não era, na verdade,
uma novidade insólita. O judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água.
Era, inclusive, um rito usado na integração dos “prosélitos” (os pagãos que
aderiam ao judaísmo) na comunidade do Povo de Deus. Na perspectiva de João,
provavelmente, este “batismo” é um rito de iniciação à comunidade messiânica:
quem aceitava este “batismo” passava a viver uma vida nova e aceitava integrar
a comunidade do Messias.
A pregação de João é feita “no deserto”. O “deserto”
é, no contexto da catequese judaica, o lugar onde o Povo de Deus realizou uma
caminhada de purificação e de conversão. Foi no deserto que os israelitas
libertados do Egito passaram de uma mentalidade de escravos a uma mentalidade
de homens livres, de uma mentalidade de egoísmo a uma mentalidade de partilha,
de uma atitude descomprometida a uma Aliança com Jahwéh, da desconfiança em
relação à proposta libertadora que Moisés lhes apresentou à confiança total num
Deus que cumpre as suas promessas e que é fonte de vida e de liberdade para o
seu Povo. A pregação de João lembrava aos israelitas a necessidade de voltar ao
“deserto” e de percorrer um caminho semelhante àquele que os antepassados
tinham percorrido.
Como é que os interlocutores de João reagiam às suas
propostas? Marcos diz que “acorria a Ele toda a gente da região da Judéia e
todos os habitantes de Jerusalém” para serem batizados, confessando os seus
pecados (vers. 5). A afirmação de que “toda a gente” acorria ao apelo de João
parece manifestamente exagerada… Ao apresentar esta perspectiva ideal da forma
como a mensagem foi acolhida pelo Povo, Marcos está, provavelmente, a sugerir o
caráter decisivo e determinante da proposta que João faz: não é “mais um”
convite à conversão, mas é o último e definitivo apelo de Deus ao seu Povo.
João “vestia-se de pêlos de camelo, com um cinto de
cabedal em volta dos rins e alimentava-se de gafanhotos e de mel silvestre”. O
estilo de vida de João – sóbrio, desprendido, austero, simples – é um convite
claro à renúncia aos valores do mundo. É a aplicação prática dessa austeridade
de vida e dessa renovação de atitudes, de comportamentos e de mentalidade que
João pede aos seus conterrâneos. O estilo de vida de João corrobora a mensagem
que ele apresenta.
Além disso, o estilo de vida de João evoca o profeta
Elias que, de acordo com 2 Re 1,8, se vestia “de peles” e “trazia um cinto de
couro em volta dos rins”. O profeta Elias era, no universo da esperança
judaica, o profeta elevado para junto de Deus e destinado a aparecer de novo no
meio dos homens para anunciar a chegada iminente da era messiânica (cf. Mal
3,22-24). A identificação física de João com Elias significa que a era
messiânica chegou e que João é o mensageiro esperado, cuja mensagem prepara a
chegada do Messias libertador.
O que é que João diz sobre esse Messias libertador,
do qual ele é o arauto e o mensageiro? João fala da “força” do Messias e define
a sua missão como “batizar no Espírito”. Tanto a fortaleza como o dom do
Espírito são prerrogativas do Messias, segundo a catequese profética (cf. Is.
9,6; 11,2). O Messias terá, portanto, a força de Deus e a sua missão será
comunicar esse Espírito de Deus, que transforma, renova e recria os corações
dos homens.
Em resumo: João é o mensageiro, enviado por Deus para
preparar os homens para a chegada do Messias. A mensagem transmitida por João –
com a palavra e com a própria atitude de vida – é um apelo veemente à mudança
de vida e de mentalidade, a fim de que a proposta do Messias libertador
encontre lugar no coração dos homens. João deixa claro que a missão do Messias
é comunicar o Espírito que transforma o homem.
ATUALIZAÇÃO
Antes de mais, temos de considerar a mensagem
principal do nosso texto… João, o Baptista, afirma claramente que preparar a
vinda do Messias passa pela “metanoia” – isto é, por uma transformação total do
homem, por uma nova atitude de base, por uma outra escala de valores, por uma
radical mudança de pensamento, por uma postura vital inteiramente nova, por um
movimento radical que leve o homem a reequacionar a sua vida e a colocar Deus
no centro da sua existência e dos seus interesses. Neste tempo de Advento, de
preparação para a celebração do Natal do Senhor, trata-se de uma proposta com
sentido: preparar a vinda de Jesus exige de nós uma transformação radical da nossa
vida, dos nossos valores, da nossa mentalidade… Em concreto, o que é que nos
meus pensamentos, nos meus comportamentos, na minha mentalidade, nos valores
que dirigem a minha vida, é egoísmo, orgulho e auto-suficiência e impede o
nascimento de Jesus no meu coração e na minha vida?
Deus convida o homem à transformação e à mudança
através desses profetas a quem Ele chama e a quem confia a missão de questionar
o mundo e os homens. Estamos suficientemente atentos aos profetas que
questionam o nosso estilo de vida e os nossos valores? Damos crédito às suas
interpelações, ou consideramo-los figuras incomodativas, ultrapassadas e
dispensáveis? E nós, constituídos profetas desde o nosso batismo, sentimo-nos
enviados por Deus a interpelar e a questionar o mundo e os nossos irmãos?
O “estilo de vida” de João constitui uma interpelação
pelo menos tão forte como as suas palavras. É o testemunho vivo de um homem que
está consciente das prioridades e não dá importância aos aspectos secundários
da vida – como sejam a roupa “de marca” ou a alimentação cuidada. A nossa vida
também está marcada por valores, nos quais apostamos e à volta dos quais
construímos toda a nossa existência… Quais são os valores fundamentais para
mim, os valores que marcam as minhas decisões e opções? São valores
importantes, decisivos, eternos, capazes de me dar vida e felicidade, ou são
valores efêmeros, particulares, egoístas e geradores de dependência e
escravidão? Como nos situamos frente a valores e a um estilo de vida que
contradiz, claramente, os valores do Evangelho?
Ao acentuar o caráter decisivo e determinante do
apelo de João, Marcos convida-nos a uma resposta objetiva, franca, clara e
decidida. Não podem existir meias tintas ou tentativas de protelar a decisão…
Estamos ou não dispostos a dizer “sim” aos apelos de Deus? Estamos ou não
dispostos a aceitar a sua proposta de “metanoia”? Não chega dizer “talvez” ou
“sim, mas…”. Deus espera uma resposta total, radical, decidida, inequívoca à
oferta de salvação que Ele faz. Isso significa uma renúncia decidida ao nosso
comodismo, à nossa preguiça, ao nosso egoísmo, à nossa auto-suficiência e um
embarcar decidido na aventura do Reino que Jesus, há mais de dois mil anos,
veio propor aos homens…
p. Joaquim Garrido, p.
Manuel Barbosa, p. José Ornelas Carvalho
Deus se volta para nós, voltemos
para ele!
A Boa Notícia começa com um grande chamado à
conversão (Mc. 1,1-15; cf. Mt. 3,1-17; Lc. 3,1-22). Em que sentido a conversão
é “boa notícia”? Conversão, na Bíblia, significa volta (como se faz uma conversão
com o carro na estrada). Na 1ª leitura ressoa um magnífico texto do Segundo
Isaías. O rei Ciro, depois de conquistar Babilônia, mandou os judeus que aí
viviam exilados de volta para Jerusalém (em 538 a.C.). O profeta imagina Deus
reconduzindo essa gente a Sião. Precede-lhe um mensageiro que proclama:
“Preparai no deserto uma estrada” (Is. 40,3) – como para a entrada gloriosa (a
“parusia”) do Grande Rei. Mas é um rei diferente, cheio de ternura: “Como um
pastor, ele conduz seu rebanho; seu braço reúne os cordeiros, ele os carrega no
colo, toca com cuidado as ovelhas prenhes” (v. 11). Essa era a boa notícia que
Jerusalém, qual mensageira, devia anunciar ao mundo (v. 9).
Conversão não é coisa trágica. Deus já voltou seu
coração para nós; resta-nos voltar o nosso para ele. Ao proclamar o batismo de
conversão (evangelho), João Batista pressentia a proximidade de uma “entrada
gloriosa” de Deus. Como símbolo da “volta” usava a água do rio Jordão, que
lembrava a travessia do povo de Israel pelo mar Vermelho e pelo rio Jordão,
rumo à terra prometida. Reforçava sua mensagem repetindo o texto de Is. 40,3:
“Preparai uma estrada…”. Vestia-se com um rude manto feito de pêlos de camelo e
alimentava-se com a comida do deserto – mel silvestre e gafanhotos –, como o
profeta Elias, o grande profeta da conversão, cuja volta se esperava (cf. Ml.
3,1.23-24 e Eclo. 48,10). Mas João ainda não é aquele que deve vir, apenas
prepara a chegada deste, o “mais forte”, que virá “batizar com o Espírito
Santo” (cf. a efusão do Espírito de Deus no tempo do Fim: Jl. 3,1-2; Ez 36,27
etc.).
Devemos sempre viver à espera dessa “entrada
gloriosa” de Deus. Jesus veio e inaugurou o reinado de Deus, mas deixou a nós a
tarefa de materializá-lo na História. Entretanto, Deus já coroou com a glória a
vida dele e a obra que ele realizou: reunir as ovelhas como o pastor descrito
por Isaías.
No tempo dos primeiros cristãos, muitos imaginavam
que Jesus ia voltar em breve com a glória do céu, para arrematar essa obra
iniciada. Depois de alguns decênios, porém, começaram a se cansar e a viver sem
a perspectiva da chegada de Deus, caindo nos mesmos abusos que vemos hoje em
torno de nós. Por isso foi necessário que a voz da Igreja lembrasse a voz dos
profetas: Deus pode tardar, mas não desiste de seu projeto. Mil anos são para
ele como um dia (2Pd. 3,8), mas seu sonho, “um novo céu, uma nova terra, onde
habitará a justiça”, fica de pé (2ª leitura).
Não vivamos como os que não têm esperança. Não
desprezemos o fato de Deus estar voltado para nós. Voltemos sempre a ele.
padre Jaldemir Vitório
A
boa noticia que o evangelho de Marcos traz hoje é a pessoa e a ação de Jesus,
chamado de Cristo, o Messias, o Filho de Deus. A vinda do Filho de Deus à terra
é um acontecimento de tal imensidão que Deus quis prepará-lo durante séculos.
Esse
evangelho deixa claro que a missão de João Batista é preparar para o grande
momento da chegada de Jesus, a chegada de novos tempos, convidando as pessoas
para a conversão. Também demonstra a força do Espírito Santo que age na vida
dos homens.
Depois
de muitos profetas que anunciaram Jesus, aparece agora João Batista, o profeta
do presente, ele anuncia o que já está acontecendo: Jesus está entre o povo.
João
Batista é o último profeta e sua função no Evangelho é: ser mensageiro imediato
de Jesus. É ele quem prepara e conduz a humanidade ao encontro d’Aquele que
traz consigo a concretização da espera, ou seja, chama a atenção para a pessoa
de Jesus como o Messias.
Ele
fala ao povo usando as profecias de Isaías sobre o batismo que faz o homem
voltar-se para Deus e ser perdoado.
João
Batista diz que Jesus vem depois dele, e que Jesus é mais forte do que ele, por
isso, ele não pode ser o Messias. Ele sabe que Jesus é quem brilha na glória do
Pai e por isso faz questão de dizer que não é digno nem de desamarrar as
sandálias do Senhor.
E
completa falando sobre o batismo, pois, ele batizava com água, sinal que
predispunha as pessoas à aceitação da novidade prestes a chegar na pessoa de
Jesus, o sinal de conversão e compromisso. Jesus batiza com o Espírito Santo,
pois só através da efusão do Espírito Santo é que acontece a vontade da
conversão, a esperança de novos tempos de liberdade e o conhecimento da
verdadeira justiça.
Para
encontrar Jesus, e saborear a boa notícia que Ele traz, é preciso recomeçar
sempre a partir do olhar para os mais pobres e marginalizados da sociedade,
aprendendo com as suas esperanças e lutas.
Pequeninos do Senhor
A conversão, início da boa-nova
Do 2° domingo do Advento em diante, a perspectiva
escatológica de nossa existência é iluminada a partir de sua “fonte”, a
primeira vinda de Cristo. Enquanto o 1° domingo fala da segunda vinda de Cristo
e esboça uma visão escatológica do dia de hoje à luz da segunda vinda, os
demais domingos do Advento recordam e contemplam o acontecimento da primeira
vinda. Na primeira vinda do Cristo está arraigado o sentido definitivo de nosso
existir: é o momento fundador. Jesus Cristo é o início e o fim da existência
humana plena, o Alfa e o Ômega (Ap. 22,13).
A chegada deste momento fundador é a grande notícia
da História, a boa-nova por excelência. O evangelho “querigmático” de Mc vê
como início desta boa-nova o apelo à conversão, lançado por João (evangelho),
realizando plenamente o que o “Segundo Isaías” prefigurou, quando, pelo fim do
exílio babilônico (535 a.C.), conclamou o povo para preparar um caminho para
Deus, que ia reconduzir os cativos. Era um apelo à conversão, pois deviam
preparar a volta, “voltando” (= convertendo-se) para Deus, agora que este
determinou o fim do castigo (Is. 40,2) (1ª leitura). Deus reconduz os cativos.
Ele mesmo vai com eles. Como um imperador na entrada gloriosa (“parusia”), ele
se faz preceder pelos frutos de sua conquista: o povo resgatado (40,10). Como
um pastor, reúne suas ovelhas. E com que ternura! Leva os cordeirinhos nos
braços e conduz devagarinho as ovelhas que amamentam (40,11).
Esta era a boa-nova que Jerusalém, qual mensageira,
devia publicar para o mundo (40,9). Assim, também, a conversão pregada por João
é o início da perfeita boa-nova da vinda definitiva de Deus e seu Reino, em
Jesus Cristo. A conversão faz parte da boa-nova, pois é nossa participação na
salvação que Deus nos destinou. Deus já voltou seu coração para nós; resta-nos
correspondermos. A conversão apregoada por João é simbolizada pelo batismo nas
águas do Jordão. Se, naquela região semidesértica, a água tem por si mesma um
sentido de salvação, ela lembra também a efusão escatológica do Espírito, e
ainda a travessia do Mar Vennelho (Ex. 14) e a travessia do Jordão quando da
entrada na Terra Prometida (Js. 3). A alusão a Is 40,3 lembra também a volta do
exílio, concebida como um novo êxodo. O batismo de João é um símbolo da
salvação, e a confissão dos pecados, pelos habitantes de Judá (Mc 1,5),
significa a participação nesta salvação. Pois como pode o coração alegrar-se
com a vinda do esperado, se não expulsar o pecado que lhe pesa (cf. SI.
51/50,5)?
Por seu modo de vestir e alimentar-se, João evoca o
deserto (1,6), pois é a partir daí que o povo deve atravessar o Jordão e
penetrar na Terra da Promessa. Evoca também Elias (cf. Mc. 9,13; Mt. 17,13),
que os judeus esperavam voltar como precursor do Messias (Ml. 3,1.23-24; cf.
Mc. 1,2). Anuncia um “mais forte”, que virá depois dele, para “batizar com o
Espírito Santo (dom escatológico: cf. Jl. 3,1-2; Ez. 36,27 etc.).
O batismo de conversão fazia parte da chegada do
Reino. Nossa existência se situa entre a chegada e a plenificação do Reino. Por
isso, a conversão é “pão nosso de cada dia”, nossa contínua participação no
Reino que vem de Deus. É o que expressa, de modo um tanto ingênuo, a 2ª leitura
de hoje. Os cristãos das primeiras gerações esperavam a segunda vinda de Cristo
para breve. Entretanto, o atraso tornava-se sempre mais notável e o escárnio do
mundo sempre mais agressivo. Diante da impaciência e, quem sabe, desespero e
desistência, que isso gerava, Pedro responde: Deus tem tempo: ele quer que
todos se convertam, para que todos possam participar. Mas, mesmo assim, ele não
desiste de seu projeto, pois ele deseja que tudo esteja em harmonia consigo. Só
que ele não quer expurgar os “elementos nocivos” da criação antes que todos
tenham a oportunidade de se converter, isto é, de se tomar participantes. Mas
ele realizará, sem que saibamos o dia e a hora, seu “novo céu e nova terra”
(2Pd. 3,13), e então será bom estarmos de acordo com esta nova realidade
(3,14).
Talvez possamos traduzir este pensamento, expresso na
linguagem apocalíptica do século I, numa linguagem mais adequada para hoje,
dizendo que Deus exercerá, por Cristo, seu absoluto senhorio da História,
dando, porém, aos homens chances para participar desta “sua” História, pela
adesão pessoal à sua vontade, no empenho em construir um mundo compatível com
Deus. A História não é um absoluto, uma espécie de deus, mas um projeto do Deus
de Jesus Cristo, projeto que não acontece fatalmente, mas com participação do
ser humano. Convertendo-se cada dia de novo a Deus, o homem-filho de Deus
realiza uma vocação inalienável. O homem não é um agente impessoal da História
que se constrói, mas um filho de Deus que constrói a História de Deus. Essa
construção é fazer chegar o Reino, “apressar o Dia”, por nossa participação,
desde já. Não esquecendo, porém, que Deus tem a última palavra sobre a História
e sobre nós que a fazemos.
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
João apareceu no
deserto
João, o batizador, o filho dos
anos mais maduros de Isabel e Zacarias.
Quando a criança tinha nascido,
as pessoas diziam: “Que será desse menino?” Ele ficou sendo conhecido como o
batizador, o batista.
O menino cresceu. Muito pouco ou
quase nada se sabe a respeito dos passos de seu crescimento. Uns dizem que ele
andou vinculado ao grupo dos essênios. Disto não existe prova. Um homem que
gostava do deserto. Deserto de solidão, deserto que lembrava a saía do Egito,
deserto descrito pelos profetas, deserto para onde o Senhor leva a amada
para sussurrar-lhe palavras de apreço. Deserto de rudeza e aspereza. Deserto
das lagartixas e das feras famintas. Deserto do sol que queima e amorena
a pele das pessoas. Deserto sem água, deserto de todas as aquietações.
Deserto onde se aprende a escutar as coisas essenciais. Deserto que esconde nas
ondas de areia ou nos cactos uma vida que poderá explodir quando menos se
esperar.
Ele vai ao deserto, esse João, e
se torna a voz, a voz do que clama. Que dizia esse João do deserto? “Preparai o
caminho do Senhor, endireitai suas estradas”. Pregava um batismo de
transformação da vida, de mudança radical, um verter de água que
purificasse o pecado. “Toda a região da Judéia e todos os moradores de
Jerusalém iam ao seu encontro. Confessavam seus pecados e João os batizava no
rio Jordão”.
Deserto e água. Deserto de terra
e de poeira. Deserto sem a presença da vida. Vida desértica. Deserto de morte.
Lá no deserto se tem vontade de dizer a esse Senhor Deus misterioso que
precisamos, desejamos, queremos mudar o coração. Água do Jordão.
Água que simboliza a vontade de se viver uma vida nova.
Antes da chegada de Cristo,
antes que as pessoas pudessem morrer com Cristo em sua morte ressuscitar
com ele em sua ressurreição houve uma voz que clamava no deserto. A voz de
João, o filho da idade avançada de Isabel e de Zacarias.
Fazendo sua a palavra de Isaias,
esse João do deserto, poderia dizer: “Preparai no deserto o caminho do Senhor,
aplainai da solidão a estrada do nosso Deus. Nivelem-se todos os vales,
rebaixem-se todos os montes e colinas; endireite-se o que é torno, e alisem-se
as asperezas”.
Bendito João, o homem que
prepara os caminhos do Senhor e esse gigante e pequeno que nos toma pela
mão na caminhada do advento. “Depois de mim virá alguém mais forte do que
eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desatar as suas sandálias”. João, o tem
o dedo em riste: “Aí está o esperado de todas as nações.
frei Almir
Ribeiro Guimarães
Preparar o caminho do Senhor
O
Evangelho de Marcos foi, provavelmente, o primeiro texto de catequese das
comunidades primitivas. O evangelista concentra seus esforços na demonstração
de “quem é Jesus”. E, desde o início (v. 1), deixa claro: o que vamos encontrar
neste livro é apenas o começo. Esse dado é importante para entendermos a
intenção do evangelista: percorrer o caminho que leva a Jesus é estar sempre
disposto a começar, a reaprender, pois em Mc os discípulos se encontram num
estado crônico de ignorância. De fato, depois que ressuscitou, Jesus os manda à
Galiléia, lugar onde ele iniciou sua atividade libertadora. É aí que poderão
encontrá-lo (cf. Mc 16,7). “Galiléia” é onde estão os marginalizados. Marcos,
portanto, garante-nos uma coisa: se quisermos encontrar Jesus e saborear a boa
notícia que ele é e traz, precisamos recomeçar sempre junto aos empobrecidos e
marginalizados da sociedade, aprendendo com suas esperanças e lutas.
A
boa notícia (= evangelho) é a pessoa e a ação de Jesus, chamado de Cristo (=
Messias) e de Filho de Deus. Essa afirmação se encontra estrategicamente no
início (1,1), no meio (8,29) e no fim do Evangelho de Marcos (15,39). Os que
prestam atenção a tudo o que Jesus diz e realiza são convidados a fazer a mesma
constatação do próprio evangelista, de Pedro e do oficial romano, que declaram
ser Jesus o Messias, aquele que concretiza a vinda do Reino.
Os
versículos 2-8 falam de João Batista, o precursor do Messias-Filho de Deus,
apresentando-o como o mensageiro que vai à frente de alguém mais importante,
como o profeta que veio para preparar o caminho do Senhor (cf. vv. 2-3). Nesses
versículos temos a condensação de três citações do Antigo Testamento. Em
primeiro lugar, Ex 23,20: “Vou enviar um anjo na frente de você para que ele
cuide de você no caminho e o leve até o lugar que eu preparei para você”. Em
segundo lugar, Is 40,3: “Uma voz grita: Abram no deserto um caminho para o
Senhor, aplainem no descampado uma estrada para nosso Deus!” (cf. I leitura).
Finalmente, Ml 3,1: “Vejam! Estou mandando o meu mensageiro para preparar o
caminho à minha frente”. João Batista é, portanto, o que prepara e conduz a humanidade
ao encontro daquele que traz consigo a realização dos tempos messiânicos, ou
seja, Jesus, que vai batizar com o Espírito Santo (cf. v. 8).
O
precursor aparece no deserto (v. 4). Essa indicação é importante pois recorda,
ao mesmo tempo, o período que vai da libertação do Egito até a entrada na Terra
Prometida e o período da saída do exílio na Babilônia até o regresso à pátria
(cf. I leitura). Jesus será, portanto, aquele que vai introduzir o povo em nova
realidade. De fato, suas primeiras palavras no Evangelho de Marcos são estas:
“O tempo já se cumpriu, e o reino de Deus está próximo. Convertam-se e
acreditem na boa notícia” (1,15).
O
texto afirma que “toda a região da Judéia e todos os moradores de Jerusalém
vinham ao encontro de João Batista. Confessavam os seus pecados e ele os
batizava no rio Jordão” (v. 5). O batismo de João era o sinal que predispunha
as pessoas à aceitação da novidade prestes a chegar na pessoa de Jesus. Era,
pois, o sinal de conversão e compromisso.
Marcos
descreve rapidamente o perfil do precursor: “João se vestia com uma pele de
camelo e comia gafanhotos e mel silvestre” (v. 6). Com essas poucas palavras,
ele o insere na lista dos profetas do Antigo Testamento. Quanto ao modo de
vestir, João Batista é um profeta à semelhança de Elias (cf. 2Rs 1,8) e de
outros profetas (cf. Zc 13,4). Quanto à comida e bebida, ele se iguala ao povo
pobre que não quer mais depender da exploração econômica dos centros de poder,
onde vigora a lei do consumismo e do luxo (cf. o banquete de Herodes na cidade
e a comida dos pobres no deserto em Mc 6,14-44).
João
Batista é profeta nas palavras e no modo de ser, também na roupa e no alimento.
Sua pregação e vida são, ao mesmo tempo, denúncia e apelo: denúncia do que está
aí e apelo do que vai ser implantado com a vinda do Messias. Podemos ver a
figura do Batista ainda presente em nossa sociedade, basta que olhemos para o
modo como o nosso povo se veste e alimenta: chinelos de dedo, tênis velhos,
camisetas surradas, calças gastas, farinha e rapadura, arroz e feijão, não são
tudo isso denúncia e sinais proféticos? Sim, tudo isso é uma denúncia da nossa
sociedade desigual. E a vinda do Messias, “aquele que se compadece desse povo”
(cf. 6,34), quer ser vida para os que dela foram privados.
João
Batista anuncia a vinda do forte que vem depois dele. Lido à luz das passagens
do Antigo Testamento acima citadas, o forte é o Senhor, aquele que vai batizar
a humanidade com o Espírito Santo (cf. vv. 7-8). Jesus é forte porque, logo em
seguida, ao ser batizado (v. 10), o céu se rasga e o Espírito repousa sobre
ele, levando-o a proclamar o fim do tempo de espera e a chegada do Reino
(1,15).
Paulus
Preparai o caminho do Senhor
Os textos bíblicos da liturgia deste 2º domingo do
Advento são uma convocação à mudança de vida. O povo de Israel, em pleno exílio
da Babilônia, faz a experiência da misericórdia de Deus, que, por meio do
profeta Isaías, se revela como aquele que perdoa toda iniqüidade e cuida com
carinho de cada um de nós. A certeza do perdão e do cuidado de Deus traz
consolo, revigora as forças e projeta novo futuro para o povo (1ª leitura).
João Batista, o precursor de Jesus, prepara-lhe o caminho, “proclamando um batismo
de arrependimento para a remissão dos pecados”. O seu testemunho pessoal indica
o verdadeiro modo de preparar-se para a vinda de Jesus: viver humildemente,
anunciando a grandeza e a bondade do Senhor (Evangelho). Jesus é o amor de Deus
que se fez carne para a salvação de toda a humanidade. Ele usa de paciência
para conosco e “não quer que ninguém se perca, mas que todos venham a
converter-se”. Esse tempo histórico em que vivemos pode transformar-se em tempo
de salvação (2ª leitura). São palavras que nos encorajam a renovar a confiança
no amor misericordioso de Deus e a reconduzir nossos passos no caminho do bem e
da vida plena.
1ª leitura (Is. 40,1-5.9-11)
Consolai, consolai meu povo
Esse texto corresponde ao início da profecia de
Isaías Segundo (Is. 40-55). É um movimento de animação da esperança, suscitado
por Deus, no meio do povo exilado na Babilônia, ao redor do ano 550 a.C. Com
entusiasmo poético, o profeta anuncia novo êxodo: o povo de Israel será
libertado e reintroduzido à terra que Deus concedera aos antepassados. Assim
como o clamor do povo escravizado no Egito chegou aos ouvidos do Senhor, também
o sofrimento do povo exilado é conhecido por Deus. O profeta avalia-o como um
sofrimento expiatório. Deus acolhe e apaga toda a culpa. Na sua bondade, perdoa-lhes
todos os pecados e os livra de todo mal.
Assim como no primeiro êxodo Deus havia libertado os
escravos das mãos dos opressores egípcios e os conduzido à terra prometida,
também agora ele os livrará da opressão da Babilônia e os conduzirá à sua pátria.
Assim como no primeiro êxodo o deserto constituiu caminho de libertação para o
povo, sendo guiado pelo próprio Deus, também agora serão conduzidos pela mesma
mão divina. Toda barreira será vencida e toda dificuldade transposta. No
horizonte: um tempo de bênçãos.
O Senhor vem ao encontro do seu povo como o pastor em
busca de suas ovelhas. Ele as reúne, tomando no colo as que necessitam ser
carregadas. Deus é o resgatador da vida ameaçada e o cuidador das pessoas
enfraquecidas e indefesas. Nisto consiste a sua glória: a vida do povo.
Teologicamente, esse segundo êxodo aponta para um
horizonte ilimitado, a libertação em plenitude. Ela acontecerá com a vinda de
Jesus Cristo, o Emanuel – “Deus conosco”. Como em terceiro e definitivo êxodo,
ele nos põe em marcha, na certeza não apenas das libertações históricas, mas da
salvação eterna. O Advento é tempo de vencer as resistências e pôr-se em
caminhada, celebrando a presença salvadora de Deus.
Evangelho (Mc. 1,1-8)
Preparai o caminho do Senhor
Marcos apresenta o “princípio do evangelho de Jesus
Cristo” – o alegre anúncio do Filho de Deus que assumiu a condição humana. A
palavra “princípio” vai além do sentido cronológico. Indica nova origem, novo
tempo inaugurado por Jesus. Ele vem para dar início a nova criação. João
Batista é o mensageiro que vem preparar--lhe o caminho.
De acordo com a tradição judaica, o Messias seria
precedido por Elias (cf. Ml. 3,23). Marcos respeita essa tradição, apresentando
João Batista como o novo Elias. Sua missão é comprovada por meio da citação de
dois textos da Primeira Aliança (Ml. 3,1 e Is. 40,3). Sua mensagem é ousada;
ele fala no mesmo espírito de Elias. É verdadeiramente um profeta. E até “mais
do que um profeta”, como dirá Jesus (Lc. 7,26). Sua pregação no deserto
corresponde ao anúncio de um tempo de graça e libertação. O deserto, na
história de Israel, constituiu lugar teológico da manifestação de Deus tanto no
primeiro como no segundo êxodos (cf. comentário da I leitura); constituiu
caminho pedagógico de conversão do povo ao projeto de Deus. Também agora, com
João Batista, o “deserto” é o espaço/tempo de arrependimento e de conversão. A
intervenção salvadora de Deus vai se dar por meio do seu Filho, Jesus Cristo.
O batismo de João indica o início de novo movimento
que será levado à plenitude por Jesus. Enquanto João batiza com água, Jesus
batizará com o Espírito Santo. O batismo de João está associado à confissão e
ao perdão dos pecados. A imersão na água constituía rito purificatório com
conseqüente transformação do coração, conforme se percebe nas palavras do
profeta Ezequiel: “Borrifarei água sobre vós e ficareis puros; sim,
purificar-vos-ei de todas as vossas imundícies e de todos os vossos ídolos
imundos. Dar-vos-ei coração novo, porei no vosso íntimo espírito novo, tirarei
do vosso peito o coração de pedra e vos darei coração de carne” (Ez. 36,25-26).
João Batista deve ter causado profunda impressão aos
olhos dos que o conheceram. Vários se fizeram seus discípulos. Chegou a ser
considerado o Messias esperado. O texto de Marcos corrige essa concepção. O
Messias é Jesus. Seu batismo é com o Espírito Santo, isto é, sua prática é
produzida de acordo com a dinâmica eficaz do Espírito Santo. Ele vem combater
todas as forças demoníacas. Diante dele, João Batista apresenta-se como um
servo indigno de desatar-lhe as correias das sandálias. Jesus é “mais forte”.
Percebe-se aqui o eco das palavras de Isaías (9,5): “Um menino nos nasceu, um
filho nos foi dado, ele recebeu o poder sobre seus ombros, e lhe foi dado este
nome: Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-para--sempre, Príncipe-da-paz”.
A atitude de humildade e de serviço de João Batista
diante de Jesus torna-se modelo e caminho para todos os que desejam celebrar o
Natal de uma maneira coerente com a fé cristã. O convite que nos é lançado é de
mudança de vida. “Dobrar-se” perante Jesus é não desperdiçar a graça da
salvação que entra definitivamente na história humana.
2ª leitura (2Pd 3,8-14)
Para que ninguém se perca
A segunda carta de Pedro pode ser considerada um
“testamento”. Atribuída ao apóstolo Pedro, oferece conselhos às comunidades
cristãs espalhadas pelo império romano no início do segundo século,
orientando-as para viverem na fidelidade à tradição apostólica. Diversas
situações estão desencorajando os cristãos a permanecer na fé que receberam das
primeiras testemunhas da vida e da proposta de Jesus.
Uma dessas situações diz respeito à fé na segunda
vinda de Jesus. A expectativa da iminência da sua volta já não é tão grande. Um
grupo de pregadores trata da questão com zombaria, dizendo: “Não deu em nada a
promessa de sua vinda... Tudo continua como desde o princípio da criação”
(3,4). O texto deste domingo rebate as idéias desses falsos pregadores.
Argumenta que não é uma questão a ser medida pela lógica humana. Os cálculos
humanos não conseguem penetrar os desígnios divinos. Seus pensamentos e seus
caminhos não são os nossos (cf. Is 55,88-9). A atitude a ser tomada é de nos
abandonar, com toda a confiança, ao plano salvador de Deus.
O texto reafirma a volta de Jesus numa nova dimensão
de tempo: “Para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos como um dia”. O
tempo aqui é entendido em seu sentido cairológico. Esse tempo cronológico, tão
fugaz, pode se transformar em cairológico, propício para acolher a salvação que
Deus nos oferece gratuitamente. O tempo do relógio é a oportunidade que Deus
nos dá para entrarmos na dinâmica do “tempo eterno”. Deus usa de muita bondade
e paciência para conosco “porque não quer que ninguém se perca, mas que todos
venham a converter-se”. A primeira carta a Timóteo (2,4) completa: “Ele quer
que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”. O nosso empenho
cotidiano, portanto, não é fantasiar sobre quando ou como será o fim do mundo e
a volta de Jesus, mas viver na santidade e na justiça, contribuindo para que já
neste mundo seja concretizada a sua proposta de vida em abundância, conforme
anunciada no evangelho.
Pistas para reflexão
- Sempre a caminho. Deus se revelou na história do
povo de Israel em caminhada pelo deserto. Também suscitou a esperança do povo
exilado na Babilônia, anunciando-lhe novo êxodo. Jesus se tornou o caminho para
todas as pessoas que nele acreditam. Também nós somos peregrinos neste mundo,
sempre em caminhada. Todos nos encontramos na condição de êxodo, isto é, em
caminho para uma vida sempre melhor: mais justa, mais fraterna, mais santa...
Nesta caminhada, temos a certeza de “Deus conosco”. Ele nos educa, orienta,
perdoa, encoraja... Ele cuida de cada um de nós como o pastor cuida de suas
ovelhas, carregando no colo as mais frágeis. Preparar-se para o Natal é fazer o
êxodo pessoal, familiar e comunitário: mais bondade, mais sinceridade, mais
atenção, mais justiça, mais amor, mais fé, mais esperança, mais... Isso implica
menos correrias, menos consumismo, menos...
- Aos pés de Jesus. João Batista preparou-se para a
vinda de Jesus por meio de uma vida simples. Deu testemunho de humildade e
serviço. Sentiu-se indigno de ser um escravo de Jesus para desatar-lhe as
correias das sandálias. Sua vida foi uma denúncia contra o consumismo e a busca
de poder. Sua pregação visava à confissão dos pecados, à conversão e ao perdão
divino. O batismo era o sinal externo da disposição interna de purificação e
mudança de vida... Preparar-se para o Natal do Senhor é prestar atenção à vida
e à mensagem de João Batista. É renovar as promessas do nosso batismo. É
“dobrar-se” aos pés de Jesus e renunciar a toda espécie de egoísmo...
- O tempo passa: é preciso saber viver. Para Deus,
“mil anos são como um dia...”. Dizemos que o tempo passa sem a gente perceber.
O tempo do relógio, nós o perdemos mesmo contra a nossa vontade. Porém, dentro
do tempo cronológico podemos viver o tempo cairológico, o tempo de Deus, que
“não quer que ninguém se perca, mas que todos venham a converter-se”. Depende
de nossas escolhas: ou “perdemos tempo” com superficialidades que nos
satisfazem apenas momentaneamente (e não faltam “pregadores” para nos convencer
disso), ou “ganhamos tempo” com o cultivo de valores eternos que nos realizam
plenamente... O tempo cronológico do Advento é propício para a tomada de
decisões que transformem a nossa vida inteira em tempo cairológico, de graça e
de salvação.
Celso Loraschi
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